terça-feira, 9 de outubro de 2018

ROSA MOTA NO RUGBY

A campionissima Rosa Mota foi ao Rugby e viu, no U Arena parisiense, o jogo entre o Racing 92 e o Lyon (13-19) a contar para o TOP 14 francês. Simpática e amigavelmente lembrou-se de mim e mandou-me a fotografia comprovativa.

domingo, 7 de outubro de 2018

UMA CARREIRA NÃO SE FAZ SOZINHO

AGRADECIMENTOS NA RECEPÇÃO DO PRÉMIO CARREIRA DESPORTIVA ATRIBUÍDO PELA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE RUGBY
Foto de Daniela Correia
Agradeço à Comissão de Gestão da Federação Portuguesa de Rugby esta distinção que muito me honra e a que posso juntar a lembrança de Duarte Leal, meu querido Amigo e figura cimeira do desporto português e agora também premiado a título póstumo e que foi o primeiro a desafiar-me para treinar, juntamente com o Olgário Borges, a Selecção Nacional de Juniores, abrindo-me assim as portas para a minha carreira de Treinador internacional. Agradeço-lhe reconhecido e com a amizade de sempre.

Agradeço também à minha família, aos meus filhos Raul e Mafalda e à minha mulher Ana que souberam conviver com esta minha vontade e me ajudaram a cumpri-la da melhor maneira.

Agradeço aos que me treinaram:
A Valdemar Lucas Caetano que me ensinou os fundamentos, a Serafim Marques que me trouxe para o CDUL e que esteve sempre presente na minha carreira de jogador, a Pinto de Magalhães, Barreira da Ponte, Luís Miramon, Pedro Cabrita e Pedro Lynce a quem, mais tarde, coadjuvei numa Selecção Nacional. E ainda a Joaquim Pereira — que, espantosamente, ainda treinei numa Selecção Nacional — e César Pegado, companheiros de equipa e que também me treinaram.
Agradeço ao CDUP onde iniciei a minha carreira de jogador e ao CDUL, o meu clube.

Aos meus companheiros de equipa no clube e na Selecção.

Ao Capitão e Presidente da FPR, Raul Martins, ao Presidente da FPR, José Trindade, ao Presidente da FPR, Carlos Amado da Silva. Ao Miguel Ferreira que me convidou para treinar o GD Direito, ao José Maria Vilar Gomes que me convidou para treinar o GDS de Cascais.

Agradeço aos "meus" treinadores: Raúl Patrício, António Coelho, Vasco Lynce, Bernardo Marques Pinto, meu irmão Luís Bessa, Nuno Mourão com quem fiz equipas coesas e determinadas.

Agradeço a todos os que seguraram as pontas para garantir que o trabalho se centrasse no treinar e seleccionar:
Os Directores de Equipa: Albano Rodrigues, João Ataíde, António Silvestre, Armando Fernandes, António Faím e Caleia Rodrigues; os médicos Pedro Granate e Dídio de Aguiar; os enfermeiros Graça Gordo e Manuel Carvalho; o Mário Ferreira, o Fritz.
Agradeço aos jogadores e jogadoras que treinei no Direito, Cascais, CDUL, Sporting e nas selecções nacionais que sempre deram o seu melhor pelos objectivos que nos eram comuns, sendo, naturalmente, parte importante da minha carreira.

Agradeço também aos treinadores que ajudei a formar e que me obrigam a manter-me permanentemente actualizado.

Agradeço ainda aos funcionários e funcionárias da FPR pela pronta, permanente e generosa disponibilidade que sempre me demonstraram.

Agradeço a todos os que colaboraram comigo nas diversas áreas desportivas em que trabalhei e ainda a todos que me me ajudaram em qualquer momento da minha carreira.

Ao receber nesta cidade esta distinção do prémio Carreira Desportiva não quero deixar de lhe acrescentar o valor da memória, lembrando Floris Van der Merwe da Universidade de Stellenbosh que, no seu texto "Rugby in Prisoner-of-War camps During the Anglo-Boers War, 1898/1902"*, admite a possibilidade — "In the case of Portugal, it appears that the Boers introduced rugby to the Portuguese" — de ter sido, precisamente aqui, nas Caldas da Rainha e em 1901, o local onde os refugiados Boers deram a conhecer, com o seus jogos, o Rugby aos portugueses, começando assim a aventura da bola oval que nos trouxe até hoje. Uma particularidade que juntarei ao prémio que recebi.

A todos a quem me referi e em particular aos meus amigos que cabem neste prémio da minha carreira, estou profundamente reconhecido e grato.

MUITO OBRIGADO!

* — texto que me foi dado a conhecer pelo David Evans.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

E O PONTAPÉ DE RESSALTO?

Num dos muitos artigos referentes ao Nova Zelândia - África do Sul, alguém escreveu que “a Nova Zelândia é a única mundial que não tenta o pontapé de ressalto numa situação destas.” De facto não se percebe como, com o domínio territorial dos últimos dez minutos e à distância de 2 pontos, não houve qualquer preparação para um pontapé de ressalto vitoriosa. Esqueceram-se?! Falta de confiança de Beauden Barrett? Exigência de ensaio do capitão, Kieran Read? Arrogância alicerçada nos notáveis resultados dos últimos anos?
Como perderam os AllBlacks um jogo em que tiveram a superioridade que as estatísticas demonstram? Como foi possível?
A resposta simples é a de culpar Beauden Barrett pelas suas falhas nos pontapés ou a precipitação do irmão Jordie ao lançar, tão longe, uma bola num alinhamento rápido que deu todo o tempo de mundo para Willie Le Roux interceptar a bola enquanto Rieko Ioane, em vez de “entrar no passe” esperava que a bola chegasse às suas mãos ou ainda que Lienert-Brown não tivesse permitido a intercepção de Kolbe.
Claro que estes erros, que na sua maioria constituem riscos do jogo que fazem dos AllBlacks a melhor equipa do mundo, são a face imediatamente visível da derrota mas não representam a verdadeira face da derrota. Porque no Rugby quem ganha ou perde é a equipa. que tem que saber, colectivamente, ultrapassar os erros individuais.
A verdadeira face da derrota está, portanto, nos erros defensivos colectivos que permitiram a marcação de 36 pontos pelos sul-africanos até porque, de facto, os neozelandeses marcaram 6 ensaios que deveriam chegar e sobrar para garantir a vitória.
Portanto as causas da derrota — a dar razão ao actual treinador dos Crusaders Ronan O´Gara que considera que em termos defensivos os europeus estão muito mais avançados do que os neozelandeses — foram os erros defensivos que a percentagem de apenas 80% de sucesso nas placagens demonstra. E as causas da vitória estiveram na capacidade defensiva inexcedível — 235 placagens tentadas para 196 conseguidas - e na coesão colectiva dos sul-africanos — os últimos dez minutos foram defensivamente épicos. No fundo a permissividade defensiva de uns e a coesa capacidade defensiva colectiva de outros como razão fundamental deste resultado surpreendente.
No final do jogo, o treinador neozelandês Steve Hansen dando como principal razão da derrota os 36 pontos permitidos e lembrando permissividades defensivas considerava que esta derrota, pelo que ensinava, iria permitir que a equipa se tornasse mais forte. Agora, garantiu, irão, no tempo de treino de que dispõem, trabalhar os factores que se mostraram demasiado fracos para o nível internacional. 

O ciclo de análise, avaliação, correcção e execução está lançado. E, estou certo, o recurso ao pontapé de ressalto, com a preparação devida e em situações idênticas à deste jogo não será esquecido.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

EXIGE-SE PERSPECTIVA ESTRATÉGICA

Num fim-de-semana desenhado para passar o tempo com os olhos nos ecrãs ora da televisão, ora do computador, foi possível ver o rugby dos jogos da Championship Nova Zelândia-Argentina (46-24) e Austrália-África do Sul (23-18) - os jogos de Portugal no Europeu de Sevens a procurar uma classificação para o apuramento da World Series de Hong-Kong, o jogo de Portugal para o 3º lugar, Medalha de Bronze, do World Rugby U20 Trophy - Mundial B - ou a final do mesmo torneio entre Fidji e Samoa e arbitrada pelo nosso Paulo Duarte. A que se juntava ainda a chegada ciclista aos 1100 metros de Lagos de Covadonga da 15ª etapa da Vuelta 2018 ou as duas finais tenísticas do US Open e que me relembraram o tempo, num resquício dos entendimentos da aristocracia inglesa, em que, no rugby, os treinadores não podiam contactar com os jogadores ao intervalo.
O jogo mostrado pelos AllBlacks — que utilizou sete jogadores diferentes do jogo anterior —mostrou à evidência a qualidade da formação e da competição interna dos neozelandeses. Sob a formação vale a pena lembrar que o desenvolvimento da técnica individual dos brasileiros que, durante anos espantou o mundo do futebol, se fazia com base em dois pontos: liberdade e divertimento possibilitado pelos jogos de rua de equipas e campo reduzido - o hoje dito futsal. Não é assim por acaso que a primeira etapa do programa Long Term Athlete Development (LTAD em que os irlandeses substituíram o A pelo P de “player” para um LTPD, mostrando a sua preocupação pela aplicação do programa às modalidades colectivas) se designa por FUNdamental, apontando para a sua essência de divertimento contra o exagero de grelhas controladoras e imposições de cartilha.
E é essa noção de divertimento organizado com objectivos controlados e com liberdade de experiência quer na tomada de decisão quer no uso da bola a que se juntam noções tácticas individuais e colectivas – a posse da bola tem como objectivos marcar ensaios! ou a equipa está primeiro! – onde a repetição individual muito elevada dos gestos técnicos  leva à facilidade de execução e à capacidade conjunta de leitura simultânea, transformando o espaço do jogo – como se diz do futsal brasileiro – num laboratório do improviso mas aproveitado para desenvolver o culto da camisola que se pretende deixar sempre em melhor posição. Ou seja, não é o talento individual da sorte de meia-dúzia mas o sistema de formação que fazem dos AllBlacks a melhor equipa do mundo. E nós portugueses deveríamos olhar para a formação rugbística dos antípodas com outra atenção e uso. Procurando copiar-lhe o modelo e o processo.
Também com sete jogadores diferentes dos utilizados na última etapa de Exeter a equipa nacional de Sevens – agora comandada pelo experimentado antigo jogador e anterior Director de Equipa, Diogo Mateus – conseguiu a melhor classificação da época, obtendo um terceiro lugar com vitórias sobre a Inglaterra e a França mas não conseguindo ultrapassar o adversário principal Alemanha. No entanto a equipa jogou de forma muito interessante, abandonando o cómodo movimento da bola de um lado ao outro para, procurando ultrapassar a linha de vantagem como de forma a libertar o espaço exterior e conseguir vantagem numérica, atacar os intervalos da defesa adversária – alguns dos ensaios foram de grande qualidade quer pelo jogo de passes permitido pela disponibilidade do apoio em tempo, direcção e linhas de corrida, quer pela leitura eficaz dos pontos fracos da organização defensiva adversária. 

QPM - Quota de pontos marcados- Percentagem dos pontos marcados sobre a totalidade de pontos marcados e sofridos
Esta equipa de Sevens mostrou que, havendo interesse e organização capaz, é possível colocá-la de novo em posição competitiva que possa permitir o retorno à World Series e olhar para a classificação olímpica de uma forma minimamente realista.
O terceiro lugar dos U20 na versão B do Mundial da categoria etária é um excelente resultado. E melhor resultado é se consideramos o jogo conseguido na maioria do encontro contra a Namíbia. E também aqui – coisa pouco vista quer nos jogos internos, quer noutras selecções portuguesas – a equipa tinha, na sua organização atacante, a preocupação permanente de atacar a linha de vantagem, reduzindo a largura e a profundidade da linha de defesa e conseguindo os intervalos de penetração necessários para a obtenção dos 11 ensaios para um resultado final de 67-36. A coesão da equipa, demonstrada na sua capacidade defensiva, permitiu a necessária confiança ao correr de riscos que dominou o movimento atacante da bola. Interessante de ver e eficaz na construção dos resultados. 
Principalmente o que esta equipa U20 – na sequência de outras equipas de Luis Piçarra – nos vem mostrar é que temos qualidade competitiva enquanto jovens. O que significa que a distância competitiva a que, na equipa principal, nos encontramos é motivada pela má organização e competitividade internas e ainda pela despreocupação sobre a importância dos resultados internacionais. Ora estes resultados vêm exigir à comunidade rugbística portuguesa que se mostre capaz de se integrar na lógica do desporto de rendimento, sabendo separar águas e não misturando mais interesses e propósitos distintos. No Desporto os resultados contam e são base da expansão, do interesse e da notoriedade. Aquilo de que o rugby português precisa para garantir a sua afirmação internacional.
Destas duas participações portuguesas em Sevens e Quinze, uma estranheza, dado, principalmente a importância relativa das duas provas: António Aguilar tido como treinador principal da selecção portuguesa de Sevens deslocou-se com o quinze dos U20 para a Roménia, ficando a equipa de Sevens, na Polónia, entregue ao anterior Director de Equipa, Diogo Mateus. E a estranheza resulta do facto da evidente prioridade dos Sevens — modalidade olímpica e que exige, por razões de adaptação competitiva, a presença de novo de Portugal na World Series —sobre a participação dos U20 no Mundial B onde a procura de um 1º lugar que permitisse o acesso ao WR U20 Championship se mostrava naturalmente de enorme dificuldade e sem maiores consequências imediatas para o futuro do rugby português. Não estando em causa a competência de Diogo Mateus – experiente antigo internacional com 75 internacionalizações em “quinze” e diversas em “sevens” e treinador qualificado de 3° grau e com enorme experiência no mundo competitivo dos Sevens enquanto Director de Equipa da selecção portuguesa – não se percebe a inexistência de uma explicação oficial das razões da mudança. Porque as exigências e responsabilidades da competição internacional não se compadecem com decisões voluntaristas. Tão pouco a organização que se exige a uma federação desportiva.
A final do Trophy entre Fiji e Samoa – vitória dos fijianos por 58-8  – teve como árbitro o internacional português Paulo Duarte que teve uma excelente prestação. Foi exigente, sereno, atento, focado, amigável e possibilitou aos jogadores presentes o clima ideal para a sua expressão rugbística. Num importante momento da sua carreira, Paulo Duarte que faz parte do grupo de árbitros sob observação para participarem nos Sevens dos Jogos Olímpicos do Japão, marcou pontos ao não deixar, agora no Quinze, os seus créditos por mãos alheias e demonstrando a necessária confiança e capacidade que distingue um árbitro de nível internacional.

Este Trophy foi jogado com a aplicação de uma regra experimental na placagem que só permitia o contacto entre adversários abaixo da linha do peito. Das impressões que obtive o resultado não foi brilhante e não possibilitou a análise pretendida uma vez que o pouco tempo entre a decisão e a sua aplicação não terá permitido, quer a árbitros quer a jogadores ou treinadores, a adaptação necessária. E assim a tentativa de solucionar o grave problema do aumento das concussões pelo choque na zona das cabeças, ficou-se por uma enorme subjectividade de decisões sem a homogeneidade que se exige na competição desportiva.
Pode dizer-se que neste fim-de-semana o rugby português mostrou perspectivas de qualidade interessantes. Resta saber como o trataremos a partir daqui e qual a estratégia que pretendemos aplicar para garantir que o seu desenvolvimento se faz com o propósito de atingir o objectivo de resultados internacionais futuros consequentes com o melhor historial da modalidade.

sábado, 8 de setembro de 2018

DE PROPÓSITO NÃO SE FARIA MELHOR

A selecção feminina portuguesa de Sevens, ao classificar-se em 12º e último lugar no final das duas etapas - Marcoussis e Kazan - que compuseram o Europeu de 2018 da variante, desceu à 2ª divisão europeia.

Dir-se-ia que, se fosse propositado, não se faria melhor.

Porque ninguém parece querer saber de uma competição interna capaz e em condições de permitir às jogadoras uma aproximação à exigência internacional.

A equipa portuguesa feminina de Sevens — ao contrário da masculina   lutou até à última pela classificação para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, atingindo o ultimo patamar classificativo ao disputar a Repescagem Olímpica Mundial, em Dublin depois de ter conseguido, em Lisboa, o 3º lugar na Repescagem Europeia através de 4 vitórias nos seis jogos disputados.

Ou seja, a equipa feminina portuguesa de Sevens, não sendo uma equipa de primeiro nível europeu ou mundial, mostrou-se sempre com a qualidade necessária para competir no quadro europeu principal da variante. O gráfico seguinte mostra as classificações obtidas desde 2003, ano em que o Europeu, ainda numa só prova — as etapas múltiplas tiveram início em 2011 — se iniciou.
E não se pense que as dificuldades dos resultados se deviam à pequenez ou leveza - perfil morfológico - das jogadoras nacionais. O quadro seguinte mostra a proximidade dos factores físicos com espanholas ou francesas. Não foi, portanto, por aqui.

Tão pouco pela atitude ou espírito de luta — quem se lembra do seu comportamento na etapa de Lisboa da Repescagem Europeia para o Rio 2016, percebe a que me refiro. Elas são lutadoras e determinadas.
Compacticidade:  distribuição do peso pela altura
As razões são outras e dizem respeito à incompreensão, à ignorância, à irresponsabilidade e á indiferença — os 4Is — de quem manda ou mandou.

Ignorar que a entrada dos Sevens nos Jogos Olímpicos iria transformar a variante é ignorar o domínio mundial do Desporto. Com o anúncio da sua entrada para a área olímpica, diversos países começaram a olhar de forma diferente - principalmente no feminino uma vez que o masculino já tinha assente, com a criação das World Series, a sua competição internacional para o intervalo entre Mundiais — para a variante e o seu desenvolvimento. O que significava que a competição internacional iria subir, como subiu, de nível. Com a certeza da continuidade olímpica, o aumento competitivo de cada torneio, etapa, prova, subiu ainda mais. O que exigia análise e estratégia para atingir um propósito definido e realista como a manutenção na divisão principal europeia com o objectivo, a médio prazo, de conseguir entrada para o circuito mundial.

E que fizemos nós em Portugal para seguir a tendência? Nada para além de aumentarmos erros que retiraram qualquer possibilidade de aproximação à competição internacional por parte das jogadores portuguesas.

É, portanto, esta a razão principal da descida: as jogadoras portuguesas não têm competição interna com o nível necessário à participação internacional. Ou seja, os responsáveis federativos não quiseram saber do cumprimento da sua principal Missão federativa que assenta na promoção das condições internas necessárias ao equilíbrio competitivo internacional d/o/a/s jogador/es/as portugues/e/a/s.

Mas ninguém se preocupou com nada disso. Pelo contrário, aos 5 torneios anuais mais a Super Taça de Sevens juntaram 6 torneios de Tens a que se acrescenta um jogo da Taça de Portugal. Não há aproximação competitiva que resista a um calendário de 5 etapas... para mais se tão desequilibrado que em cada etapa apenas um jogo — no descanso de todos os outros — atingia o nível competitivo com a intensidade necessária num mesmo cenário: uma final Sporting-Benfica.

Por indiferença e ignorância acrescentaram aos Sevens essa aberração que dá pelo nome de Tens e que não passa de um entretém sem qualquer interesse - conheci-o há muitos anos em Hong-Kong jogado por trintões que gostavam de Sevens e que já não podiam, chamando mais três para tapar as lacunas.

A entrada do Tens — que não se percebe a lógica porque o Rugby joga-se Quinze ou Sevens - teve como justificação que seria o bom percurso para atingir o patamar do jogo a quinze. O problema é que não é!

O Tens não serve nem para desenvolver os Sevens nem para proporcionar condições de acesso ao Quinze! Por um lado —Sevens — porque diminui o espaço, reduzindo a área por jogador e diminuindo o intervalo — facilitando a tarefa defensiva — entre os jogadores da linha _ e diminuindo o esforço de cada sequência; por outro — Quinze — porque nada ensina dessa essência do jogo completo que dá pelo nome de 3ª linha — a unidade decisiva da movimentação geral do jogo. E que o Tens não tem nem a Lei deixa ter — as Variações das Leis impõem que a/o/s d/ua/oi/s jogador/as/es da segunda-linha formem nos pilares mas ligados entre si (se ainda pudessem jogar formados na perna exterior de cada pilar... haveria alguns princípios de asas/flanqueadores que podiam ser aprendidos como linhas de corrida atacantes e defensivas, tempo de apoio exterior e interior ou des/co/locação nos corredores externos para apoiar segundos/terceiros tempos. E o Tens não abre lugar a perfis morfológicos diferentes do Sevens e que serão necessários no Quinze. Dito de outra forma: as gordas necessárias e fundamentais à primeira-linha do Quinze também não têm aqui lugar...

Mas de pior, há mais no Tens: possibilitando intervalos maiores do que os que irão ser encontrados no Quinze, permite uma maior facilidade de evasão individual e é menos exigente na formação e na distância do apoio. Ou seja: o Tens não serve! Não serve senão para o espanto de, na passagem para o jogo completo, existirem 3 jogador/as/es que não sabem que tarefa lhes cabe ou outras 3 jogador/as/es que dificilmente adquirem a experiência necessária às formações-ordenadas — o que, para além de mau, é perigoso!

O desenvolvimento do rugby feminino português passa pela criação de etapas de Sevens mais equilibradas e com mais competição — melhores treinos para melhores conhecimentos técnico-tácticos exigem-se — e que possibilitem resultados internacionais atractivos.  

Também por outro lado é preciso colocar o rugby feminino a jogar Quinze, jogando Quinze. Clubes que não consigam juntar as jogadoras necessárias para completar uma equipa de Quinze, jogarão Sevens; os que conseguirem jogarão entre si independentemente do número total de equipas que o consigam.

No actual estado, baixado que foi de divisão, o que se pode fazer para recuperar? Que propósitos definir? Que estratégia estabelecer para voltar à I Divisão Europeia do Rugby Feminino?

No fundo, no fundo, trata-se de responder a isto: como estabelecer condições internas de competição que permitam o desenvolvimento competitivo das jogadoras com o objectivo de igualar internacionalmente competências?

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

LEILANI PERESE, BLACK FERN

LEILANI PERESE

Tendo disputado a Taça Ibérica de 2017 pelo XV feminino do Sporting Clube de Portugal, Leilani Perese, pilar com capacidade para jogar quer à esquerda quer à direita, estreou-se pelas Black Ferns (Nova Zelândia) - actuais campeãs do Mundo - no passado dia 18 de Agosto contra a Austrália ajudando à vitória por 31-11.
O treinador Glenn Moore mostrou-se encantado com a sua estreia porque, quando entrou e apesar de se ter mostrado muito nervosa antes do jogo, “destruiu” a primeira formação ordenada em que participou para além de ter realizado bons transportes de bola.
Ensaio colectivo do “pack” avançado das Black Ferns
Com esta internacionalização Leilani Perese junta-se a Quinton Davids – jogador do Grupo Desportivo de Direito na época de 1999/2000 e que foi, a partir de 2002, internacional 9 vezes pelos Springboks (África do Sul) na posição de Base (2.ª linha) – e a Robert (Robbie) Brink – que jogou pelo Grupo Dramático e Sportivo de Cascais na época de 1992/1993, sendo, mais tarde e durante o Mundial de Rugby de 1995, internacional pelos Springboks com 2 presenças como flanqueador  – para formar o terceto de jogadores que, tendo jogado oficialmente por equipas portuguesas, se tornaram internacionais por selecções do primeiro plano mundial da modalidade.
[texto completado a 23 de Agosto de 2018)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

AAP: ANTECIPAÇÃO, APOIO, PRESSÃO

Os Crusaders venceram de novo e pela 9.ª vez o SUPER RUGBY. E venceram-no, por 37-18, de forma soberba. 
Durante todo o tempo de jogo os Crusaders mostraram capacidades com base numa enorme confiança alicerçada no estudo do adversário, das suas forças e fraquezas, enquanto equipa e enquanto indivíduos. Com estes conhecimentos a equipa dos Crusaders utilizou em permanência o processo AAP (Antecipação, Apoio e Pressão) quer em defesa, quer em ataque, criando os desequilíbrios necessários quer pela possibilidade de diversas opções de continuidade que o apoio, adequado na forma e útil no tempo, permite e que cria a pressão necessária para, diminuindo o campo de tomada de decisão pela diminuição do espaço e do tempo, encurtar a linha da defesa para, com a paciência demonstrada na sequência de acções e pela notável capacidade e inteligência de jogo dos seus principais transportadores, Read e Whitelock, encontrar os melhores espaços de penetração de que resultaram 13 quebras da linha da defesa para 4 ensaios marcados num valor de eficácia real de 30,8% contra 28,6% dos Lions - 7 quebras para 2 ensaios. Curiosamente os Crusaders tiveram apenas 44% de posse de bola a que corresponderam 128 bolas conquistadas enquanto que os sul-africanos Lions com 56% de posse - e 66% de ocupação do meio-campo — demonstraram pior eficácia na utilização das 158 bolas conquistadas.

Esta pior eficácia dos Lions assentou principalmente numa absoluta incapacidade de adaptação à realidade do jogo adversário — tentaram o que treinaram e não mostraram nunca capacidade para procurar outras soluções ou inovações. O exemplo do controlo conseguido pelos Crusaders sobre o ponto forte sul-africano dos maul-penetrantes nos alinhamentos e que foram repetidos, embora sempre derrotados, até à exaustão é significativo: nunca procuraram soluções diferentes formatados que estavam no seu fixo modelo.
Curiosamente os números globais não variam muito — como se pode ver no quadro seguinte — em relação à final de 2017 que os Crusaders também venceram, então em Joanesburgo, por  25-17. Pelo que se viu não houve lição retirável pelos sul-africanos da derrota de 2017...

Eficácia relativa = Ultrapassagem da LV/Nº de bolas disponíveis
Eficácia efectiva = Rupturas da defesa/Ultrapassagem da LV
Eficácia global = Nº de ensaios/Ultrapassagem da LV
Eficácia real = Nº de ensaios/Rupturas da defesa 
























Mas foram várias as demonstrações retiráveis deste jogo final.
1ª Demonstração — O Rugby trata do uso da bola
Com menos 30 bolas disponíveis os Crusaders, ao marcarem o dobro dos ensaios dos adversários resultantes de praticamente duas vezes o número de rupturas da defesa, mostram com clareza que é a capacidade de uso de bola — a qualidade — que determina o resultado e não o número de bolas disponíveis — quantidade. O que significa, naturalmente, que é o domínio da antecipação — prever colectivamente o que vai acontecer — do apoio e da pressão resultante que exige uma permanente velocidade de deslocação e execução, que determinam a diferença entre as equipas.
A capacidade dos Crusaders de jogar, circulando a bola, é de uma eficácia notável. Atacam a linha defensiva com diferentes ângulos de corrida, mostrando-se capazes de diversos movimentos como dobras ou cruzamentos pela mera detecção da colocação de ombros dos defensores — nada parece previamente combinado mas fruto da leitura e decisão momentâneas. E foi para atingir os níveis de excelência demonstrados que foram buscar, por recomendação de Daniel Carter, o irlandês Ronan O’Gara que soube trazer uma maior inventiva ao jogo das linhas-atrasadas dos Crusaders. 
2ª Demonstração — O Rugby é uma corrida de estafetas
Como no Rugby a bola não é passável para a frente, uma equipa nunca deve ceder terreno em relação áquele que conseguiu anteriormente conquistar. Sendo assim os passes entre jogadores da mesma equipa devem ser tão próximos quanto possível da linha que passa pela bola e é paralela às linhas de ensaio. Para que isso seja possível é necessário que entre a conquista da bola e a sua movimentação haja a maior velocidade possível para, ao não ceder terreno, fixar os elementos da defesa e contribuir para o seu encurtamento.
Neste jogo da final os Crusaders mostraram, por diversas vezes, essa capacidade de “passe na linha” e as vantagens que lhe são inerentes: conquista de terreno, fixação da defesa, encurtamento da defesa e consequente abertura de espaços.
Como numa corrida de estafetas o ponto de partida de cada recepção deve ser o ponto onde se encontra o portador da bola. 
3ª Demonstração — O Rugby é um jogo de adaptações 
Com maior velocidade e pressão utilizados no jogo, mais adaptações momentâneas são necessárias. Colectivas — das diversas unidades — e individuais. O que implica uma maior capacidade de leitura e de decisão por parte dos jogadores, implicando também diferentes formas de formação e treino de jogadores que possam permitir uma organização colectiva — total ou por grupos — que se possa opôr à movimentação adversária. Se à antecipação que o treino da leitura baseada na diversidade de situações permite, juntarmos o movimento do apoio adequado à situação, a adaptação e a organização que lhe é necessária está feita em movimento e sem perda de tempo ou cedência de terreno.
Ao contrário do treino organizado em “grelhas” com repetição dos mesmo movimentos, o treino — desde as primeiras idades — deve ser organizado de acordo com os conceitos do “game sense”, aproximando as situações do treino daquelas com que os jogadores se irão confrontar em jogo. E se a velocidade é um dos elementos necessários nas mais variedades situações do jogo, a velocidade aplicada no pós-placagem pode mostrar-se decisiva — como aconteceu neste jogo da final do Super Rugby — na definição da vantagem de uma equipa sobre a outra. O que significa que, para este jogo de movimento, a disponibilidade para a acção, sem considerar o número da camisola, deve ser total e constante
4ª Demonstração — O Rugby é um jogo de ataque
Muitas vezes se diz que é a defesa que ganha jogos. É relativo — muito relativo mesmo — este conceito. Uma defesa sózinha, por melhor que seja, não ganha jogos.
A defesa tem, claro!, enorme importância na composição do resultado... desde que o ataque seja eficaz e marque os pontos necesários.
O que a defesa pode conseguir é não perder jogos — os Crusaders conseguiram 84% de êxito nas suas 205 placagens enquanto os Lions se ficaram por 79% das 135 placagens tentadas. O que significa que é preciso que o ataque tenha marcado os pontos necessários à construção do resultado. Portanto mantém-se o princípio de sempre: o Rugby é um jogo de ataque! 
Os Crusaders são uma equipa notável recheada de internacionais All Blacks.E é tão notável que é corrente dizer-se: se queres ser um All Black junta-te aos Crusaders. Foi o que fez, aliás, Scott Barrett que prescindiu de jogar na mesma equipa dos irmãos Beauden e Jordie, para, como então disse, ir aprender com os melhores e ser All Black. Já é!

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