domingo, 4 de dezembro de 2016

TREZE VITÓRIAS DE ENFIADA



A Inglaterra venceu como se previa e na sua 13ª vitória consecutiva e venceu, apesar dos excelentes 20 minutos iniciais dos australianos, de forma convincente, conseguindo uma margem de 16 pontos de diferença. Com 4 ensaios contra 2 dos australianos a Inglaterra teve menos tempo posse de bola -  49% contra 51% - contribuindo também para a evidência de que, muito mais importante do que a posse é a eficácia da sua utilização. O que atira com o enlevo do elevado número de fases para a qualidade das defesas e para a ineficácia ofensiva. Como aliás parecem demonstrar as estatísticas quer de um muito próximo número de rupturas das linhas defensivas - 10 para ingleses e 9 para os australianos - quer também a vantagem de metros percorridos no transporte de bola - 436 contra 427. Mas, aparentemente, o número de fases das sequências australianas terá sido maior... O que poderá demonstrar o principal erro táctico australianos: demasiado agarrados ao conceito da circulação da bola - e foram algumas vezes brilhantes a que faltou a sorte do sincronismo final - não recorreram ao jogo-ao-pé para desequilibrar a defesa inglesa. Que, assim, foi ganhando cada vez maior confiança para acabar a dominar todos os aspectos do jogo incluindo uma boa resistência às tentativas australianas como mostra a diferença nas penalidades concedidas - 7 para os ingleses contra 10 realizadas pelos australianos. 
Terminada a janela de Novembro e com a ida para férias dos jogadores do hemisfério sul, fica-nos aqui no Norte e para além dos jogos entre clubes das taças europeias, a atenção às preparações - que jogadores? como construirão a coesão de cada equipa? que hipóteses terão? - para o 6 Nações que começará no início de Fevereiro próximo e onde a Inglaterra e a Irlanda se apresentam como primeiros candidatos num Torneio que promete - o Norte está a modificar a forma de jogar... Como curiosidades maiores também estará o nível de domínio da Geórgia - a mais do que nunca pretendente a um lugar no torneio maior - no European Championship e, claro está, o comportamento de Portugal no European Trophy.

Pró memoria no quarto ensaio inglês: no 4º ensaio inglês realizado através de uma intercepção de Jonathan Joseph o mais fácil é atribuir as culpas do sucedido ao australiano David Pocock. Não considero assim! Na relação passador/receptor o papel mais dificil pertence sempre ao jogador que transporta a bola - o único que, no campo, pode ser placado ou agarrado - que tem que tomar a decisão adequada à situação da sua própria posição no terreno e ao movimento de companheiros e adversários. O que exige, em simultâneo, capacidades de leitura e domínio da técnica de diversas formas de passe para adequar o movimento da bola à situação encontrada. E, no caso, Pocock fez o que pensou melhor colocar a bola o mais próximo possível do canal exterior onde havia menos jogadores e, portanto, mais espaço para permitir as manobras dos seus companheiros. E nisso não foi ajudado pelos companheiros nomeadamente por Folau - o pretendido receptor - que, em vez de "entrar no passe" fugiu dele através de uma linha de corrida aberta e a distanciar-se do companheiro portador, abrindo assim o espaço para Joseph poder tentar a conseguida intercepção sem colocar a sua linha colectiva de defesa em risco. É um facto demonstrado à evidência: na maior parte dos casos de erro de passe a responsabilidade pertence ao receptor que, por não ter qualquer problema que o perturbe no melhor posicionamento, tem a obrigação de prestar o melhor apoio ao companheiro, facilitando-lhe a exigência técnica e a possibilidade de garantir o avanço para cumprir o princípio de que só se deve entregar a bola a um companheiro que esteja em melhor condição de avançar do que nós próprios.

sábado, 3 de dezembro de 2016

INGLATERRA-AUSTRÁLIA



A Inglaterra é a equipa - embora sem ter defrontado os AllBlacks - a contar por vitórias todos os 12 jogos disputados em 2016 tendo uma quota de pontos marcados sobre a soma dos pontos de jogo de 61% e com uma média de ensaios por jogo de 3,1 para um total de 37 ensaios marcados.
A Austrália, no mesmo período de tempo, realizou 14 jogos marcou os mesmos 37 ensaios com uma média de 2,6 por jogo mas perdeu 8 jogos - 3 contra a própria Inglaterra e outros 3 contra os AllBlacks - realizando uma taxa de sucesso de apenas 43% e contando com uma quota de 45% de pontos marcados no total de pontos de jogo.
Com estes dados o favorito do jogo deste sábado é, naturalmente, a Inglaterra.
Mas se juntarmos mais dois factores - a Irlanda terminou com o sonho do Grand Slam australiano, retirando-lhes o "mais" que podia fazer a diferença neste jogo e, o segundo factor, não se pode ignorar que os australianos estão no final da época e que o cansaço já começa a pregar as suas partidas - a Inglaterra mostra-se mais favorita ainda. E os valores do ranking da World Rugby dizem que a diferença de pontos será, no final do jogo, de 12 favoráveis aos ingleses do australiano Eddie Jones - a previsão da Rugby Vision é de uma vitória inglesa por 8 pontos de diferença.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

UM AVISO

Portugal ganhou o jogo! Vá lá, o 25º do ranking da World Rugby derrotou, em casa, o 36º, apropriando-se de uma quota de 55% dos pontos marcados, para conseguir uma diferença de 4 pontos de jogo. 
Num jogo de pouca qualidade onde houve, de parte a parte, uma enorme lentidão de processos, a selecção portuguesa ficou longe do que lhe deve ser exigido e viu chegar o final do jogo com profundo alívio, não fosse algum tupi tecê-las ou haver mais amarelos - foram 3 nos últimos dez minutos - à medida que o folêgo desaparecia.
O Brasil é uma equipa simpática, naturalmente melhor do que foi em 2013 no primeiro jogo disputado com Portugal (resultado de 68-0), mas ingénua, a cometer muitos erros - superioridades numéricas deitadas fora por incapacidade técnica dos intervenientes - e com visível falta de experiência. E perante isto a equipa portuguesa deveria ter mostrado uma outra capacidade - sei que algumas lesões, castigos e essa coisa extraordinária de indisponibilidades - ser jogador internacional não é somar selecções quando apetece, é um compromisso e se não há hoje disponibilidade, haverá sempre indisponibilidade -  não terão, porventura, permitido a apresentação da equipa pretendida mas a diferença entre o rugby de Portugal e o rugby do Brasil deveria ter sido demonstrada pela diferença no resultado. E não foi!
A selecção portuguesa (de acordo com as notas que tirei) teve 101 bolas disponíveis tendo desperdiçado em pontapés directamente entregues aos adversários 36% delas e ultrapassado a Linha de Vantagem em apenas 21% das vezes. E destas, apenas conseguiu criar rupturas na defesa adversária por 4 vezes para marcar, feitas todas as contas, os mesmos 2 ensaios conseguidos pela equipa brasileira. Ou seja, os problemas mostrados nos jogos anteriores continuam a retirar eficácia à utilização da bola: pouca capacidade de penetração por linhas de corrida demasiado paralelas e com início pouco profundo para ganhar velocidade; jogar distante da Linha de Vantagem;atraso na reciclagem da bola nas quebras no solo; jogo ao pé sem propósito e sem colocar qualquer problema ao adversário; apoio normalmente atrasado por falta de sintonia colectiva; erros em situações favoráveis.
Naturalmente que a composição da equipa - com seis caras diferentes e ainda com alterações de posição ou recurso a apostas de menor valia - não garantia a necessária coesão colectiva que pudesse impôr-se aos adversários brasileiros. E assim, vivendo apenas da técnica de cada um mas sem conseguir, pela falta de coesão síncrona, somar mais do que o todo, a selecção nacional, pondo-se a jeito, deixou-se aproximar - como o resultado demonstrou - da valia da equipa brasileira.
O reconhecimento destas incapacidades e das suas causas é, para o objectivo de garantir uma presença internacional - decisiva para o desenvolvimento da modalidade em Portugal - necessidade e responsabilidade da comunidade rugbística portuguesa. E a melhoria da capacidade dos jogadores portugueses e assim das selecções nacionais passa por um elemento evidente: uma disputa equilibrada do campeonato nacional da divisão de nível mais elevado. O que significa que é necessário, quanto antes, proceder à diminuição do número de equipas na Divisão de Honra portuguesa para aumentar a competitividade da prova e, assim, possibilitar aos jogadores hábitos competitivos que se aproximem da competição internacional em que o rugby português procura estar inserido.
Ganhar o jogo, manter a série vitoriosa dos três jogos é bom porque, como nota Martin Johnson:"Quando se está a ganhar cria-se uma energia bem divertida e toda a gente quer estar no grupo". Mas este jogo e o seu modo constituem um aviso sério que não pode ser negligenciado.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

UMA OPORTUNIDADE


No primeiro jogo que fez com o então recém-chegado Brasil há três anos em S.Paulo, Portugal venceu por 68-0. Hoje o Brasil terá mais experiência e terá jogadores mais aptos para o nível internacional - provavelmente o facto dos Jogos Olímpicos do Rio 2016 terem voltado a ter Rugby, embora Sevens, terá tido influência na adesão à modalidade - pelo menos houve diversos programas escolares para dar a conhecer o jogo à juventude brasileira. E também o Brasil, como país anfitrião, esteve presente na prova olímpica e o entusiasmo dos familiares que conheci - principalmente das mães - era enorme, numa clara noção que os seus filhos tinham participado num momento histórico.
Mesmo com tudo isso Portugal é favorito - por mais experiente e com um passado mais habituado a estas andanças da competição internacional - e tem a obrigação de ganhar o jogo sem margem para dúvidas. 
O prognóstico possível através do ranking da World Rugby a que se acrescenta o índice diferenciador de grupos aponta para uma vitória de Portugal por 23 pontos. O que significa que um resultado entre 20 e 30 pontos de diferença pode ser considerado normal, um resultado superior a 30 pontos é um bom resultado e um inferior a 20 pontos começa a poder ser considerado como resultado fraco. Tudo isto baseado no ranking e no percurso que as equipas têm feito e na qualidade dos adversários defrontados.
Portugal tem 29% de vitórias - contra 18% do Brasil - mas, com excepção da comum Alemanha (o Brasil perdeu, há semanas, os dois jogos por 16-6 e 36-14), defrontou adversários mais qualificados. O que, depois, se traduz na razão da diferença prevista. Mas mesmo que Portugal ganhe pelo resultado previsto ou superior, não conseguirá ultrapassar os 58,99 da acumulação germânica que se encontra posicionada no lugar imediatamente superior (24º) aos portugueses.
Este Portugal-Brasil é uma excelente oportunidade para fixar e consolidar processos e garantir a confiança necessária para jogar de acordo com o que está na sua frente. Ser permanentemente reactiva, atacando pontos fracos e lançando os fortes, é o que se pede à equipa portuguesa num jogo em que a pressão é diminuta e apenas exige uma vitória capaz.
Nota: para tristeza dos nossos pecados - Pergunto aos deuses nos céus/ Todos me dizem que é só/Má fortuna e erros meus. - começa este fim‑de‑semana o World Rugby Sevens Series 2016-17 no Dubai e sem a presença portuguesa. Tenho pena!


terça-feira, 29 de novembro de 2016

SÓ NO FIM


Apesar de tudo os resultados da Rugby Vision foram bem melhores do que os  conseguidos pela utilização directa dos valores da World Rugby (realidade das coisas: o recurso aos dados da Rugby Vision durante a World Cup 2015 proporcionariam um ganho de 11% a um apostador que os tivesse utilizado)
O Desporto, e, portanto o Rugby, tem esta coisa extraordinária: o único algoritmo que permite previsões fiáveis é a equação de João Pinto - Prognósticos só no fim!
E, por isso, as previsões anteriormente aqui publicadas estão longe da realidade. Mas esse facto não retira qualquer importância ao conhecimento das métricas estatísticas que servem, essencialmente para perceber razões e áreas de fraqueza ou de força que têm de ser trabalhadas ou utilizadas para que a equipa se aproxime dos níveis que garantam eficácia e confiança - dois elementos importantes para a desejada construção da coesão da equipa.
A realidade é esta: é dentro do campo com os jogadores, mesmo com a enorme importância que têm os treinadores na preparação estratégica e táctica, que o jogo e portanto o resultado se constrói e se determina. Um segundo mais cedo ou mais tarde, um metro antes ou depois, um angulo mais aberto ou mais fechado de um pontapé ou de uma corrida fazem toda a diferença no resultado final. Tudo incógnitas antes de acontecerem e que dependem da leitura instantânea de cada jogador que, quando se comportam, como gosta de sublinhar Spiro Zavos, como membros de uma orquestra sem maestro mas capazes de sincronizar os naipes, conseguem coisas extraordinárias e inesquecíveis.
Quem iria adivinhar o disparate do ponta inglês Elliot Daly que a 5´ de jogo placou um adversário no ar, levando à sua própria expulsão e colocando a equipa a jogar um 14 contra 15? E isso marcou o jogo até ao fim: a Inglaterra a jogar a maior parte do tempo em inferioridade numérica e a Argentina - pareceu ao ser vista pela televisão - a esquecer-se do dito do lençol curto que, se tapa de um lado, destapa do outro. Não se viram os argentinos, por má alternância do seu jogo ao pé e jogo ao largo, a obrigar os ingleses a precaverem a profundidade ou a largura da sua defesa, abrindo assim um dos seus espaços - a sensação que ficou foi a de que os ingleses não foram totalmente postos à prova e tuveram tempo para se desmultiplicar. No entanto, deve referir-se que a equipa inglesa foi notável na forma como se foi adaptando às situações provocadas pelas relações diferentes de adversidade numérica que o jogo forneceu. Uma óptima demonstração de cultura táctica.
O melhor resultado deste sábado passado - para além da boa vitória de Gales num jogo pouco interessante mas onde parece ter finalmente desaparecido a Warrenball- terá sido o consreguido pela Irlanda. E o pior pela França.
A Irlanda deu de novo uma demonstração da qualidade técnica dos seus jogadores e do seu tradicional fighting spirit a fazer jus ao seu mote de "quatro regiões, uma só equipa". Com mais posse de bola (58% contra 42%), menos metros percorridos para as mesmas rupturas defensivas, a vitória da Irlanda traduz-se na coesão que permitiu uma maior disciplina e menor número de faltas (3 contra 13) e com a pressão necessária para arrancar 2 amarelos aos australianos. A vitória irlandesa abre mo róxióptimas expectativas para o próximo Seis Nações e chama, com os resultados conseguidos nesta janela de Novembro, a atenção para o facto, provavelmente inédito, de as duas Irlandas terem, no caso do Rugby, apenas uma equipa representativa, juntando ombro com ombro jogadores oriundos de ambientes culturais distintos mas capazes da união de combate. O que, como modelo, é único e matéria de reflexão.
A França foi desastrosa! Teve vantagens na grande maioria dos factores-críticos transformadores: 17 a 6 nas rupturas defensivas, mais metros percorridos e mais ultrapassagem de defensores, mais passes em carga e 93% de placagens efectivas contra 84% dos adversários. Mas no final a França perdeu 3-1 nos ensaios. Do lado da Nova Zelândia a vitória assentou numa notável recuperação da quantidade da posse de bola, passando de 39% da 1ª parte para 50% no final do jogo e com menor número de erros no jogo à mão (9 contra 20), portanto com uma maior eficácia. E um sentido de oportunidade devastador - um ensaio na primeira posse, uma intercepção a explorar a lentidão de um passe longo.  Apesar de se tratar de um último jogo de uma época arrasadora - os AllBlacks substituíram 707 internacionalizações sem que os resultados se ressentissem - tratou-se de mais uma demonstração das vantagens do domínio dos gestos básicos e do conceito de utilizar temporariamente uma camisola com a obrigação de a deixar melhor colocada.
Quanto aos franceses, melhorando aparentemente - de início pareciam mostrar-se capazes mas falharam na finalização por precipitação ou atraso no apoio ou ida ao chão a parar todo o movimento nos um, dois metros da linha onde tudo se decide. Mas deixaram, no passe de "chistera" (como gostam de o designar) do formação Baptiste Serin para o ensaio de Picamoles, um perfume de rebeldia e inventiva próximas da imagem de marca do french flair que urge repôr para mudar as cadeias de interesse de resultado minimo num campeonato distorcido pelo custo exagerado de cada equipa. A rapidez e o risco da decisão de Serin traduzem uma lição para o modelo a reinventar: movimento e criatividade. E então a França poderá voltar a encher os sonhos dos amadores da modalidade.


sábado, 26 de novembro de 2016

PREVISÕES E ESTATÍSTICAS

Mais um sábado cheio de bons jogos de rugby a que poderemos assistir quer na SportTV, quer no Eurosport.

De acordo com os vaticínios possíveis - e que se encontram no Quadro 1 - através da pontuação do ranking da World Rugby que separa as duas equipas em confronto, o jogo mais equilibrado de todos deverá ser o Gales-África do Sul, jogo que opõe o 6º e o 5º classificados do ranking - os galeses não tem estado brilhantes e têm mostrado grandes dificuldades na utilização eficaz da posse da bola parecendo tardar  a encontrar a coesão necessária para que as partes possam somar-se num todo colectivo; os sul-africanos, vindos de uma derrota inimaginável contra a Itália (que assim nos recordou a sua pertença à elite mundial) têm neste jogo a última oportunidade para salvar a honra do convento e entrar de férias de forma mais descansada. 
Quadro 1 - Previsões
Recurso ao Ranking da World Rugby e aos dados da Rugby Vision de Niven Winchester
A Rugby Vision, site onde o neozelandês Niven Winchester, economista e professor no MIT dos USA, faz as suas previsões com base numa tabela de escalonamento das equipas criada de forma diferente da considerada pela World Rugby para, recorrendo a algoritmos que englobam diferentes componentes estatísticas do jogo de cada equipa, estabelecer as probalidades de vitória, considera que a probabilidade da vitória de Gales se situa apenas nos 52% e se traduzirá por um ponto de diferença - a análise dos valores do ranking oficial propõe uma vitória galesa por 4 pontos. Seja como for o que dizem estas previsões é que haverá jogo até ao fim e que os adeptos galeses, como eu, se devem preparar para aguentar a tensão.
O jogo de dificuldade seguinte será concerteza o Irlanda (4º)-Austrália (3º) que tem - entre os valores da World Rugby e os da Rugby Vision - previsões diferentes: com os dados oficiais, derrota da Irlanda por 3 pontos, com os dados propostos por Winchester, vitória da Irlanda por 4 pontos. O jogo dirá. A probabilidade proposta de vitória para a Irlanda é de 61,6% - e seria bom que assim fosse e a vitória pertencesse aos irlandeses que estão a jogar bem e de forma muito interessante sob o comando do seu excelente treinador, o neozelandês Joe Schmit. Só a enorme pressão dos AllBlacks, retirando todo o centímetro de espaço e segundo de tempo, impediu a concretização das suas manobras atacantes.
No Inglaterra-Argentina a vitória não deve fugir aos comandados de Eddie Jones - a equipa do "nosso" Daniel Hourcade não teve conseguir contrariar o poder e a, agora, muito melhor movimentação das linhas e jogadores ingleses. Do Escócia-Geórgia espera-se - o que já não é pouco - uma demonstração das cada vez maiores capacidades competitivas dos georgianos que, até há pouco tempo eram adversários do nosso nível (a-propósito: nos anos 70 empatamos 0-0 com a Itália, em Pádua, ganhamos 9-6 em Coimbra e perdemos 26-24 em Jesi nos meados dos anos 80).
Quadro 2 - Médias por jogo: Nova Zelândia e os outros
Muito provavelmente os AllBlacks ganharão com à-vontade em Paris. Porquê? Porque conseguem, como demonstra o Quadro 2 da autoria do The Economist, melhores resultados naquilo que são as situações de jogo estratégicas, isto é as que, quando realizadas resultam em transformações decisivas para o resultado final - rupturas defensivas, metros percorridos com a bola, recuperações conseguidas, formações e alinhamentos perdidos. De acordo com o desenvolvimento da investigação sabe-se que uma equipa do Nível Um consegue, em média, 5,6 rupturas da defesa adversária por jogo. Ora as investigações também demonstraram que basta uma unidade de desvio padrão nas rupturas defensivas- naquele que é o indicador mais transformador (veja-se o Quadro 3 também da autoria do The Economist) - para aumentar as possibilidades em 4,7 pontos de jogo. Ora, como se pode ler no Quadro 2, os AllBlacks têm uma média de mais de 9 rupturas defensivas o que explicará a notável capacidade de permanentes pontos de bónus nos jogos realizados na Championship ou nos restantes - com excepção da vitória de Dublin onde apenas marcou 3 ensaios. 
Quadro 3 - Vale um ensaio? Pontos de jogo associados à mudança de uma unidade de desvio padrão
A conjugação de rupturas defensivas com a capacidade que demonstram os 500 metros percorridos com bola - as outras equipas situam este parametro entre 300 a 400 metros (ver Quadro 2) - constituem a capacidade letal dos neozelandeses que têm as 15,5 recuperações como base preferencial de lançamento.
Os dados estão lançados e o resultado dos jogos mostrará a acuidade das consequências retiradas das estatísticas, mostrando também e antes das coisas acontecerem a utilidade destas ferramentas métricas.
Por aqui, pelo uso possível da análise estatística, se pode perceber a importância  - mesmo com a desconfiança que lhes atribuía Churchill ou, hoje em dia e no rugby, Wayne Smith ("as estatísticas são como um candeeiro para um bebâdo: serve mais de apoio do que de iluminação") que estes dados podem ter. E que urge, se queremos encontrar os melhores caminhos competitivos, estabelecer um programa de dados estatísticos para o rugby português.

[um abraço ao Rafael que me colocou na pista destes dados]


terça-feira, 22 de novembro de 2016

ADAPTABILIDADE

Embora vencendo, a Austrália levou um “banho” nas formações ordenadas, somando 10 perdidas entre as quais 3 de introdução própria. O que não deixa de ser estranho uma vez que Mario Ledesma - o antigo talonador argentino e dado como grande especialista na matéria - tinha vindo a conseguir melhorias substanciais naquilo que durante muito tempo foi o ponto fraco australiano. A primeira das razões para o insucesso - a França apresentou um bloco com mais 100 quilos de vantagem estática - terá sido o facto de Cheika ter mantido apenas David Pocock - o que mostra não ter em muito boa conta as capacidades francesas - do bloco que, oito dias antes, havia defrontado a Escócia em Murrayfield e assim destruir muito da coesão necessária ao equilíbrio entre estabilidade e variedade que esta fase de jogo exige. Apesar da enorme dificuldade para conseguir bolas atacáveis através da formação ordenada, a vitória acabou por ser conseguida mesmo que por margem resvés nos 2 pontos, quase idêntica à tangente de 1 ponto na Escócia. Mas muito curiosa foi a explicação dada por Michael Cheika para o caso: “Percorremos um longo caminho na formação ordenada e talvez que a combinação táctica para hoje não fosse a nosso favor. […] Foi difícil mas eu penso e não sei como dizer isto: nós tentámos fazer a formação ordenada de uma certa maneira e assim temos dito que iremos formar, o que significa correctamente. Não se pode agarrar de qualquer maneira e talvez nós estejamos a ser demasiado correctos porque os ângulos dos diferentes pilares que eles têm encontrado não supostamente aqueles que deveriam encontrar, é suposto ser uma forma correcta. O que fazer? Isto acontece algumas vezes num jogo e tem-se que ser resiliente e safar-se da situação. É tudo o que há a fazer. […] Durante o intervalo dissemos para tentarem encontrar uma solução para os problemas da formação ordenada de maneira a que pudessemos manter viva a disputa. Mas suponho que a nossa estratégia é a de formar solidamente, tentar e dominar a oposição e conseguir boas bolas a avançar e não apenas bolas ganhas. Enquanto que outras formações ordenadas apenas se preocupam em conseguir penalidades - são tácticas diferentes.”  (in The Guardian, em tradução livre).
Sob uma explicação uma bem disfarçada existe uma clara alusão a “truques” do bloco de avançados francês mas, essencialmente, uma mensagem: é preciso saber adaptarmo-nos ao que encontramos pela frente. E a adaptabilidade é a chave do sucesso nos desportos colectivos. Uma equipa, os seus jogadores, têm que ser capazes de jogar de acordo com aquilo que encontram motivado pelo movimento do jogo - seja na forma como surgem adversários ou companheiros - e saber adaptar, colectivamente, a estrutura utilizada em ensaiada às novas situações, tirando partido de novos pontos fracos e evitando os pontos fortes que a oposição tenha criado. O que significa muito treino  em situação livre - joguem de acordo com o que acontece!
Só com uma atitude que tenha na adaptação a sua base essencial é possível conseguir resultados como os dos All Blacks. No notável jogo de Dublin, os neozelandeses tiveram apenas uma quota de posse de bola de 34% mas conseguiram uma quota de pontos de jogo do resultado final de 70% - o dobro! O que significa que souberam aproveitar todas as oportunidades que lhes surgiram e foram capazes de se adaptar colectivamente às mais diversas situações que o jogo proporcionou. 
É claro que o menor número de bolas conquistadas obrigou os neozelandeses a construir uma defesa imparável - e como foi intransponível com 169 placagens realizadas sobre 193 tentadas (88%) - assente numa enorme pressão e que não permitiu que a muito boa Irlanda marcasse qualquer ensaio. E, note-se, os neozelandeses jogaram 20 minutos com 14 jogadores…
Como curiosidade compara-se a relação quota de posse de bola e quota de pontos de jogo conseguida pelos AllBlacks com as outras equipas europeias dos jogos do fim‑de‑semana.
  • Nova Zelandia: 34% de quota de posse da bola; 70% de quota de pontos de jogo marcados; vitória por 12 pontos
  • Irlanda: 66% de quota de posse da bola; 30% de quota de pontos de jogo marcados; derrota por 12 pontos
  • França: 50% de quota de posse da bola; 48% de quota de pontos de jogo marcados; derrota por 2 pontos
  • Escócia: 56% de quota de posse da bola; 54% de quota de pontos de jogo marcados; vitória por 3 pontos
  • Itália: 48% de quota de posse da bola; 53% de quota de pontos de jogo marcados; vitória por 2 pontos
  • Gales: 64% de quota de posse da bola; 52 % de quota de pontos de jogo marcados; vitória por 3 pontos
  • Inglaterra: 47% de quota de posse da bola; 79% de quota de pontos de jogo marcados; vitória por 43 pontos
E a notável - e completamente inesperada para a grande maioria de adeptos da modalidade - vitória da Itália foi conseguida com menor, embora muito proxima, posse de bola mas com determinada, excelente e também inesperada, capacidade defensiva.
Está visto: a defesa ganha  jogos… desde que o ataque marque mais pontos do que o adversário. 

E finalmente e para adaptar, uma citação de Fernando Santos em entrevista ao El País: "Está a dar-se demasiada importância à posse da bola. Obviamente que só marca quem tem a bola, donde quem tem a a bola por mais tempo tem mais possibilidades de marcar, mas isso pode levar a cair noutro extremo. O afã pela posse não pode eliminar a rapidez, a aceleração. O contra-ataque está em vias de extinção. As equipas recuperam para conseguir a posse e estar organizadas; o ataque directo, o contra-ataque, parecem não ser armas do futebol e são-no."

Parece evidente: muito mais do que a posse da bola conta a capacidade e eficácia da sua utilização.

Arquivo do blogue

Quem sou

Seguidores