sexta-feira, 20 de abril de 2018

BOLA, TERRITÓRIO E EFICÁCIA

Volta não volta retorna a ideia da importância, quase absoluta, da posse da bola. Aliás e numa eventual influência dos Sevens, chega a dar-se mais importância à posse da bola do que à posição e domínio territorial - o que não deixa de ser curioso num jogo em que a bola não pode ser passada para a frente e que o ensaio obriga a colocar a bola lá ao fundo, na Área de Ensaio adversária 
Mas os factos, através das estatísticas, demonstram que se pode ganhar um jogo com alguma facilidade sem ter superioridade quer em termos de posse da bola quer em termos territoriais. Ou seja: o que importa para vencer é a qualidade do uso da bola.
Num jogo recente do PRO14 britânico entre os escoceses do Edinburgh e os galeses do Scarlets, disputado em Murrayfield e que os escoceses venceram por 52-14 - com Quota de Pontos Marcados de 79% - marcando 8 ensaios e sofrendo 2, a relação da Posse da Bola e da Ocupação Territorial foi sempre favorável aos derrotados. 
Sendo uma vitória muito folgada, valerá a pena analisar estatisticamente o jogo para se perceber que a posse da bola não é tudo e que, embora necessária, não é o suficiente.
Como se pode ver no gráfico seguinte, os escoceses tiveram menos Posse de Bola e menor Ocupação do Território - diferença de 14% no tempo de posse da bola e de 22% na ocupação territorial - e no entanto marcaram 8 ensaios. Ou seja: com menos bolas disponíveis foram muito mais eficazes que os galeses.
No gráfico que segue abaixo podemos ver os dados das Perfurações, da Ultrapassagem da Linha de Vantagem e do Número de Rucks de ambas as equipas. Os escoceses só conseguiram melhor resultado nas Perfurações - fizeram mais do dobro (19 contra 8) - do que os galeses que, no entanto, ultrapassaram mais vezes a Linha da Vantagem (56). 
Estes valores significam que o Scarlets, dispondo de mais bolas, teve mais possibilidades atacantes mas as suas ultrapassagens da Linha de Vantagem (56) terão sido sempre de curta distância como demonstra o número de Rucks (119) da sua responsabilidade e que se traduz no número de Perfurações conseguidas. Ou seja, a defesa escocesa mesmo se ultrapassada, terá sabido sempre reorganizar-se em tempo para evitar que o avanço galês se traduzisse em Perfurações - essas sim com o perigo de atingir a Área de Ensaio. O que obrigou os jogadores escoceses - com uma eficácia de 92% de placagens positivas efectuadas - a realizaram 60% das placagens contabilizadas na totalidade do jogo.

Aqui chegados, vejamos o que sabemos que possa justificar uma tão ampla vitória com menor posse de bola ou ocupação territorial:
  • a equipa do Edinburgh marcou 8 ensaios contra 2 do Scarlets;
  • a equipa do Edinburgh conseguiu um maior número de Perfurações (19) embora tendo ultrapassado metade das vezes a Linha de Vantagem (28) e teve, como seria de esperar pelo tempo de posse de bola conseguido, menos fases de jogo ao apresentar menos Rucks (75) da sua responsabilidade;
  • a equipa do Edinburgh necessitou de menos rucks (75 representando 72% das bolas disponíveis) do que os Scarlets (119 representando 88% das bolas disponíveis) para ultrapassar a defesa adversária.
  • a equipa do Edinburgh placou mais vezes (169 placagens efectivas) com 92% de sucesso; 
A grande diferença que vai impôr o resultado, sendo naturalmente consequente com o conjunto dos dados está no número de metros conquistados - gráfico ao lado - por uma e outras das equipas. Os jogadores do Edinburgh, com menor posse da bola como já se viu, conquistaram avanços no terreno (725 metros) de mais do dobro de metros do que os conseguidos pelos galeses (347 metros). O que mostra um melhor uso da posse de bola, melhor criação de superioridades numéricas com maior capacidade de perfuração, evitando placagens e evadindo adversários e tendo, portanto, menos colisões como mostra o menor número de rucks da sua responsabilidade. Uma nota a realçar é a excelente defesa dos escoceses que, como se pode verificar no gráfico abaixo da Análise da Capacidade, não permitiu que mais do que 4% das bolas galesas que ultrapassaram a Linha de Vantagem (e foram 41% do total das bolas disponíveis) atingissem a sua Área de Ensaio. Mas não se pode dizer que fosse a defesa a ganhar o jogo porque foi o ataque, ao marcar 8 ensaios e mostrando-se altamente eficaz com menor número de bolas de que dispôs, que o venceu.

Este gráfico da Análise da Capacidade que, de certa maneira define o que passou em campo ao mostrar a capacidade de lidar com os problemas, resulta dos dados estatísticos que costumo recolher durante os jogos - muito úteis pela facilidade de notação e pela qualidade da análise que permite - e que constam do número de bolas que uma equipa tem ao seu dispor e de quantas vezes ultrapassa a Linha de Vantagem definindo o valor dos indicadores que podem permitir interpretar o jogo e as suas consequências. Assim o indicador Aproveitamento, consistindo na relação percentual entre o número de vezes em que Linha de Vantagem é ultrapassada e o número de bolas disponíveis, estabelece o nível da capacidade de avançar no terreno ; a Eficácia é a relação percentual entre ensaios marcados e o número de bolas disponíveis; o Dentro da Defesa representa a relação percentual entre o número de ensaios e de ultrapassagens da Linha de Vantagem e define a capacidade de ruptura da defesa adversária. A estes valores pode ainda ser acrescentado a relação percentual entre o total do número de pontos marcados e o número de bolas disponíveis que indicará o Rendimento de cada equipa. 

No caso dos Scarlets a razão da sua ineficácia pode encontrar-se na incapacidade, como mostra o gráfico com 4% sobre 41% de Aproveitamento, do seu jogo entre-linhas, isto é de jogar dentro-da-defesa. Que terá corrido mal quer pela capacidade defensiva dos escoceses quer pela inépcia técnica ou táctica dos jogadores galeses ou, muito provavelmente - só visão do jogo pode determinar as verdadeiras causas - pela conjugação de ambos os factores.  
Conclusão 
Os dados estatísticos deste jogo entre duas equipas de bom nível, demonstram que quer a posse da bola quer o domínio territorial não são condição suficiente ou necessária para ganhar um jogo de rugby. Também é demonstrado que o conceito de que "são as defesas que ganham os jogos" deve ser substituído - mantendo a importância de saber defender eficazmente - por um outro: as defesas garantem as vitórias quando o ataque marca os pontos necessários. Neste jogo, os escoceses fizeram jus ao conceito, muito querido aliás de Graham Henry, de que o objectivo da posse da bola está na marcação de ensaios e mostraram a essência do jogo: o Rugby é um jogo de ataque.
Para que uma equipa se possa superiorizar a outra - ao adversário - o que  realmente importa e faz a diferença - e os dados deste jogo bem o demonstram - diz respeito à sua capacidade e eficácia na utilização da bola. Cada bola conquistada ou entregue pelo adversário deve, através do passe ou do jogo-ao-pé que permita a perseguição e com o necessário apoio dos outros companheiros, garantir a continuidade que possibilite ultrapassar a Linha de Vantagem para criar, com a superioridade numérica conseguida, dificuldades à defesa que não a deixem ser eficaz.

O Edinburgh, numa boa lição estratégica, ganhou o jogo porque foi mais eficaz a utilizar a bola e porque defendeu o suficiente para impedir qualquer tentativa de recuperação Para comprovar a demonstração estatística, bastará ver o jogo.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

LAVADAS AS MÃOS, LAVARÃO A CARA?

DECISION OF RUGBY EUROPE JUDICIAL COMMITEE
Chaired by Professor Lorne Crerar (Scotland), assisted by Mr Jean-Claude Legendre (France) and Mr Aliaksandr Danilevich (Belarus), the Independent Committee has convened the following players: Pierre Barthère, Mathieu Belie, Lucas Guillaume, Guillaume Rouet, Sébastien Rouet as well as the Spanish Rugby Union’s representatives (F.E.R).
After considering the charges against each player and the F.E.R., the Committee heard the arguments and evidences of all parties. 
After deliberations, the Judicial Committee has issued the following sanctions:
  • Guillaume ROUET (n°9): physical abuse of a Match Official and verbal abuse: 36 weeks
  • Sébastien ROUET (n°20): physical abuse of a Match Official and verbal abuse: 43 weeks
  • Pierre BARTHERE (n°6): threatening actions/words at a Match Official: 14 weeks
  • Lucas GUILLAUME (n°7): threatening actions/words at a Match Official: 14 weeks
  • Mathieu BELIE (n°10): threatening actions/words at a Match Official: 14 weeks 
These sanctions are applicable immediately for all players’ rugby activities (clubs and national teams).
Players have the right of appeal within 7 days of receipt of the written decision.
The misconduct complaint against the Spanish Rugby Union was suspended and a further hearing date will be set.
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Pronto! as mãos estão lavadas como se pode ver pela decisão acima transcrita do Comité Judicial da Rugby Europe... veremos se chegarão a lavar a cara.

Os castigos, a que falta ainda ultrapassar o tempo da realização do direito de recurso por parte dos jogadores espanhóis para serem efectivos, são muito duros. Até porque terão directa influência no emprego profissional dos jogadores - quem pagará três meses e meio de ordenados a jogadores com castigos deste teor? e dez meses e meio?!

No entanto - dados os antecedentes e as consequências - assiste-nos o direito de suspeita. E se esta dureza de castigos tiver como objectivo apoiar o facto da Roménia se encontrar em condições de apuramento directo? Isto é, que seja a Roménia a designada Europa 1 que abrirá o Mundial 2019 contra o Japão. Porque pode servir para isso se a dimensão da abertura da porta se fechar com esta decisão.

E porque é que pode ser um apoio para a Roménia? Porque esta mão pesada pode pretender demonstrar o seguinte: como se pode ver pela análise desta comissão independente, os jogadores espanhóis, como responsáveis por comportamento gravíssimo foram também os responsáveis por tudo o que se seguiu - má imagem, má imprensa, etc. - e que colocou o Rugby em maus lençóis. E como resulta desta demonstração, não fará então qualquer sentido analisar a actuação da Rugby Europe ou do árbitro que verão assim as suas acções lavadas na concepção do processo desde que a World Rugby também entenda não se intrometer e que lhe chega este resultado para garantir a boa imagem do Mundial... a não ser que se provem - quem as está a analisar? - as acusações de má inscrição de jogadores por parte da Bélgica, Rússia, Espanha e Roménia que qualificaria directamente a Alemanha para o Mundial e colocaria Portugal no confronto com Samoa. E lá se ia a boa imagem...

Aliás esta questão da possível má inscrição levanta outro tipo de questões uma vez que foi, finalmente, decidido que as selecções nacionais de Sub-20 não "capturariam" jogadores - isto é que jogadores utilizados em jogos oficiais numa selecção de Sub-20 não ficavam proibidos de jogar, de acordo com a REGULATION 8, ELIGIBILITY TO PLAY FOR NATIONAL REPRESENTATIVE TEAMS, por selecções de outros países (este esquema de "captura" era utilizado pelos "poderosos", nomeadamente pela França que já terá "caçado" três portugueses, para garantir o controlo de eventuais talentos). Mas essa boa norma foi imediatamente metida no carril dos interesses - só é considerada válida para jogos posteriores a 1 de Janeiro de 2018, com o argumento dos prejuízos (não existem para os jogadores!) que a retroactividade causaria. Enfim, o habitual num faz-de-conta de respeito pelo Direito.
Mas interessante de facto e pelo meio de tudo isto, seria o acesso ao relatório do árbitro romeno do Bélgica-Espanha. Para se saber a base da construção dos castigos...

terça-feira, 17 de abril de 2018

ACESSO AO WORLD TROPHY U20 E SISTEMA DE FORMAÇÃO


JPBessa, iPhone
Ao derrotar a Espanha na final do Rugby Europe Championship U20 por 25-3, a selecção de Portugal de Sub-20, classificou-se para o World Rugby U20 Trophy - o Mundial de nível 2 da categoria -  juntamente com Fiji, Samoa, Hong-Kong, Uruguai, Namíbia, Roménia (país organizador) e Estados Unidos ou Canadá, disputará do 9º ao 16º lugares mundiais.
Foi portanto um bom resultado - 90% de Quota de Pontos de Jogo - com consequências muito positivas - a experiência que a disputa deste Trophy irá permitir aos jogadores será muito importante para o seu desenvolvimento enquanto atletas de Alto Rendimento. 
Esta equipa comandada pelo Luis Piçarra conseguiu, até agora, o melhor resultado internacional do rugby português desta época que, aliás e pelos motivos óbvios, só pode ser suplantado pela vitória da selecção principal no jogo de barragem para a Rugby Europe Championship.
Portanto, bom resultado e uma boa alegria para jogadores, treinadores e adeptos. 
A Espanha entrou forte, parecia que iria criar muitas dificuldades a Portugal, mas… durou 10 minutos. Depois, Portugal tomou conta dos acontecimentos e estabeleceu o seu domínio nas mais diversas fases do jogo. E o resultado poderia ter atingido mais valor superior se houvesse, do lado português, chutadores-aos-postes capazes.
Tendo sido bom o resultado não devemos esquecer - as vitórias tendem a fazê-lo - o nível da qualidade da produção portuguesa. Que não foi elevada - o jogo correspondeu aquilo que era: segunda divisão europeia -  e que nos mostrou, mais uma vez e na sequência dos pontos fracos já detectados nas equipas nacionais principal e Sub-18, que é necessário, seguindo o conceito de Gates de que para melhorar alguma coisa deve procurar-se os meios que melhoram o sistema, rever e alterar o sistema de formação dos jogadores portugueses. Porque a evidência está aí: a continuar assim não conseguiremos atingir o patamar que nos permita participar no nível mais elevado das competições internacionais. E se existem óbvias dificuldades pela nossa dimensão física, a formação dos jogadores deve ser centrada no domínio técnico e conhecimento táctico que permita dar prioridade à manobra sobre o choque - como ensinava Nuno Álvares Pereira, ou seja, recorrendo à evasão e fugindo da colisão. O que envolve um outro, diferente e próprio, conceito de ensino do rugby aos jovens jogadores. Adaptado às nossas circunstâncias e com base no passe, na evasão, na placagem e no jogo-ao-pé.
Se já se viu o problema que cria a falta de um chutador eficaz - da ordem dos 80/90%, precisa-se - na construção do resultado o cumprimento da regra - uma equipa neste nível competitivo começa pela escolha do chutador - é fundamental. O que exige programação e treino sistemático.
Também o passe mostrou o que já sabemos: passamos mal, dominamos mal o seu tempo e não temos elasticidade na sua execução: se é longo é lento. Para além de que a sua direcção deixa muito a desejar… Mas placou-se bem com a preocupação primeira de colocar o adversário no chão, avançando a defesa sempre que possível e dando poucas hipóteses de penetração adversária.
Mas preocupante foi a demonstração da reduzida cultura táctica dos jogadores que provocou erros na sua tomada de decisões que não teve em conta, por demasiadas vezes, o tipo de situação defrontada. Três exemplos:
  • A decisão tomada nos ataques aos rucks adversários foi sempre idêntica e independente da situação. O que é um erro porque a regra deve ser estabelecida de acordo com a situação que se enfrenta. Ou seja, se não houve ultrapassagem da Linha de Vantagem pela defesa - isto é, se o ruck está a ser construído pelo adversário já dentro do campo defensivo - o objectivo dos defensores é o de atrasarem a saída da bola empenhando o menor número possível de jogadores para permitir a reorganização defensiva e, quando a bola for colocada em movimento pelo adversário, garantir que existe um maior número de jogadores na linha defensiva do que atacantes; a estória será outra se a defesa ultrapassou a Linha de Vantagem e obrigou o atacante a ir ao chão - isto é, placou-o - ainda dentro do seu campo: aí, porque existe superioridade numérica - os companheiros do atacante esta à sua frente - o que se pretende, empenhando quantos forem necessários, é a conquista da bola. Porque, se assim fôr, a conquista de terreno estará no mínimo assegurada e a possibilidade de ensaio mostra-se como hipótese muito provável. Portanto para duas situações distintas, duas actuações diferentes - e é disto que trata a adaptabilidade necessária que exige que as decisões sejam tomadas de acordo com o que se apresenta na frente. E Portugal teve mais do que uma situação do segundo tipo que tratou como se fosse do primeiro...
  • O outro exemplo diz respeito ao jogo ao largo em superioridade numérica - mesmo que o espaço livre seja curto, uma boa fixação pelo portador da bola vai permitir soltar um companheiro com terreno livre. E tivemos uma série de situações em que, em vez de fixar e passar, o portador resolveu entrar “para dentro”, indo ao encontro dos defensores da cobertura adversária. Ou seja, a equipa conseguiu - e bem! - encurtar a linha defensiva adversária criando espaço livre exterior e, depois, o portador preferiu ignorar a vantagem e a superioridade numérica. Sem outra solução que não fosse a ida ao chão, perdendo assim todas as vantagens do desequilíbrio conseguido.
  • O terceiro exemplo diz respeito às linhas de corrida atacantes. Se foi possível ver alguma evolução na procura da convergência pelo apoiante mais próximo do portador da bola, também se viu que o apoiante seguinte nada fazia para se aproximar do provável receptor, preparando-se apenas para receber a bola no conforto da sua posição recuada e parada. Ou seja, a uma convergência seguia-se o afastamento, terminando a vantagem de ataque aos intervalos que a primeira linha de corrida permitia. E voltava-se ao início: jogador no chão a permitir a reorganização adversária num constante desperdício das vantagens conseguidas. 
Ou seja, a equipa mostrou um modelo capaz - quer no desenvolvimento das acções defensivas, quer nas atacantes que se mostraram criadoras de vantagem - mas a ignorância táctica individual dos jogadores impediu a tradução da vantagem conseguida em pontos no marcador.
JPBessa, iPhone
Tratando-se de jogadores seniores à porta de entrada da selecção principal, este factor de menor cultura táctica para além de se mostrar preocupante será, se não for alterado, impeditivo de atingir resultados internacionais de melhor nível. E, por isso - repete-se - é preciso e urgente alterar o sistema de formação d@s jogador@s portugues@s.  

terça-feira, 10 de abril de 2018

A FORMAÇÃO E O PORTUGAL U18 NO 4º LUGAR DO RE CHAMPIONSHIP

Ficar em 4º lugar no Rugby Europe U18 Championship é bom! É um bom resultado para Portugal. Mas sendo um bom resultado final - graças a uma vitória no primeiro dia - não nos deve entusiasmar demasiado. Porque nos dois jogos - da meia-final contra a Geórgia e do 3º/4º contra a Espanha - não marcámos um único ponto. Ou seja, dois jogos a zero - o que é grave e demonstra deficiências e incapacidades que têm de ser reconhecidas e eliminadas. Quanto antes. Modificando processos na formação e voltando aos gestos básicos nas áreas da competição.  
O principal problema técnico dos jogadores portugueses está no facto de passarem mal a bola. Passam mal, recebem mal, correm para o lado, fogem do passador, não atacam a Linha de Vantagem, preferem a facilidade da colisão à exigência da manobra, procuram mais depressa o chão do que a continuidade e gastam a energia em movimentos laterais sem qualquer verticalidade. E essa incapacidade vê-se desde a selecção nacional sénior até às equipas dos mais pequenos - como pude verificar (mais uma vez) quer na festa de inauguração do campo de relva artificial do GD Direito, quer em jogos do Portugal Rugby Youth Festival (uma excelente organização desportiva) deste último fim-de-semana. Ou seja os jogos da selecção Sub18 alertaram mais uma vez - assim como os da selecção principal - para um problema da formação: não se ensina eficazmente a passar a bola!
Quadrado Estratégico das Acções Básicas do Passar e Receber
JPBessa
E não se tendo o domínio do principal gesto técnico do jogo não é possível conseguir bons resultados contra equipas mais fortes. Porque, como ensina o treinador neozelandês campeão mundial, Graham Henry: o objectivo da posse da bola é marcar ensaios! E sem circulação da bola fica-se na dependência do gesto individual ou do grosseiro erro defensivo.
Não nos iludamos: os resultados vitoriosos das equipas portuguesas - com uma ou outra excepção - têm sido obtidos contra equipas fracas e mostram à evidência o baixo nível em que deixámos cair o nosso rugby. Por evidente decréscimo da qualidade do treino e por baixo nível competitivo interno. Não há competitividade sem equilíbrio e não há desenvolvimento técnico-táctico sem competitividade.
E se a este mal passar e mal receber se juntam um jogo-ao-pé pouco eficaz - traduz-se apenas no alívio e não permite a sua utilização como arma atacante (capacidade decisiva para combater as cada vez melhor organizadas defesas) - e uma placagem defeituosa, pouco consistente ou efectiva, temos a demonstração evidente das falhas da nossa formação. Razões?!
Para além de uma eventual má preparação técnica dos formadores, de um mau conhecimento táctico do jogo e dos seus princípios, a campionite exacerbada que se percebe existir desde as equipas mais jovens retira a lucidez à preparação devida e conveniente dos gestos básicos.
Qualquer jogador, tenha a idade que tiver, deve perceber a necessidade da corrida vertical quando em posse da bola, do tempo eficaz de passe, da recepção já com a corrida lançada, da linha de corrida em apoio para receber - em convergência, atacando o ombro interior do adversário directo e não em fuga lateral - de manter a continuidade do movimento passando antes do contacto e não se deixando ir ao chão - ir ao chão representa uma "vitória" da defesa que se pode reorganizar e assim anular o desequilíbrio que o ataque tinha conseguido. O ataque à Linha de Vantagem, procurando os intervalos, é decisivo, ao permitir "encurtar" a linha defensiva, para garantir a manutenção da superioridade numérica atacante e para que haja conquista de terreno, devendo ainda os jogadores ser ensinados a receber a bola na "linha de passe" - a linha de bola mais próxima do "adiantado" como se fosse uma corrida de estafetas - e devem ser desaconselhados a jogar no conforto do "lá atrás" (situação que só deve ser utilizada em casos muitos especiais de envolvimento de defesas muito avançadas). 
Neste sentido deixo um esquema com aquilo que considero como as acções básicas fundamental para a aprendizagem do passe e da recepção para garantir a eficácia da posse da bola que. naturalmente, devem ser desenvolvidos com exercícios próximos do jogo, isto é, com oposição e num nível de intensidade - com menos volume e duração do treino - que permita uma adaptação a hábitos superiores às situações que os jogadores irão encontrar pela frente em jogos equilibrados.
Bom seria que os treinadores responsáveis pela formação dos jovens jogadores portugueses se preocupassem, essencialmente, em formar jogadores de futuro, ensinado-lhes as ferramentas principais que lhes servirão para garantir a sua capacidade de resolução dos problemas que o jogo lhes colocará. Bom seria que os responsáveis dos clubes, olhando mais longe do que a vitória imediata, fossem exigentes na qualidade técnica da formação. Porque a verdade é esta: não se pode jogar rugby sem o domínio básico de saber passar a bola - seja qual seja a posição que se ocupa na equipa.  


quinta-feira, 5 de abril de 2018

WORLD RUGBY SOBRE O BÉLGICA-ESPANHA

World Rugby statement: Rugby World Cup 2019 qualification, Belgium versus Spain

World Rugby will convene an independent disputes committee to examine issues arising from the 2017 and 2018 Rugby Europe Championship, competitions that doubled as the European qualification process for Rugby World Cup 2019.

World Rugby was deeply concerned about the circumstances surrounding the Belgium versus Spain Rugby Europe Championship match, a match that was decisive in the context of Rugby World Cup 2019 qualification. Specifically, concerns related to the process and perception of Rugby Europe’s appointment of a match official team that was not neutral in the context of qualification and failing to act on Spain’s concerns in respect of the appointment. 

While recognising Rugby Europe’s responsibility to review events in their own competition, given the context and significance of the fixture World Rugby acted immediately to request information relating to the above issues from Rugby Europe and participating unions. Having considered all available information, the World Rugby Executive Committee and Rugby World Cup Board felt that a replay would be in the best interests of the game.

Since expressing that view, new information relating to player eligibility in the Rugby Europe Championship has been presented to World Rugby by the participating unions. Given this information concerns potential breaches of World Rugby regulations, and given the complexity and interconnectivity of the issues, a full and independent review is warranted. This is in the best interests of the sport, teams and fans and is fully supported by Rugby Europe. 

World Rugby’s independent Judicial Panel Chairman Christopher Quinlan QC has been asked to form and convene the disputes committee, as permitted under the Rugby World Cup 2019 qualification terms of participation, on an emergency basis in order to achieve certainty as soon as possible. 

A separate independent judicial panel has been appointed by Rugby Europe to consider conduct of players after the final whistle of the Belgium versus Spain match.

[cópia do comunicado - apenas na versão inglesa - da World Rugby sobre o recente jogo Bélgica-Espanha]

Vamos, portanto, ter que esperar ainda algum tempo para saber das decisões.

1 DE ABRIL

A nova lei experimental de passe para a frente até 1 metro não ser avant que publiquei no passado 1 de Abril é naturalmente uma brincadeira. A possibilidade de se perceber que era uma mentira estava na data em que a lei experimental entraria (ou não) em vigor e que era demasiado próxima do início do Mundial do Japão para poder ser verdadeira - segundo a alínea c) do Regulamento 5 das Leis do Jogo as alteração às Leis do Jogo devem estar consolidadas até um ano antes do começo do Mundial.

domingo, 1 de abril de 2018

NOVA LEI EXPERIMENTAL

Na última reunião realizada durante esta última semana a World Rugby decidiu uma nova Lei experimental que, entrando em vigor no hemisfério Norte a 1 de Agosto de 2018 e no hemisfério Sul a 31 de Dezembro de 2018, terá a decisão final da sua aprovação a 20 de Junho de 2019.

A nova lei que, se aprovada, se juntará às excepções da Lei 11, Toque ou Passe para Diante e constituirá a sua alínea c) do ponto 5. define - em tradução livre - que:
"Não é considerado passe para diante quando a bola, lançada para um companheiro, é captada até à distância de um metro definido pela linha paralela às linhas de ensaio e que passa pelo ponto em que a bola foi inicialmente lançada."

As razões são pertinentes porque, considera a Comissão das Leis da World Rugby, tem havido um enorme aumento de formações-ordenadas com as consequentes paragens do jogo que isso comporta, quebrando ritmos e retirando interesse aos espectadores, uma vez que e como consequências das novas leis referentes ao ruck, as defesas têm à disposição da sua acção um maior número de defensores do que os seus adversários dispõem como atacantes. O que obriga os jogadores, para tentarem ultrapassar esta situação de vantagem defensiva e em que os jogadores são obrigados, cada vez mais, a realizar passes em contacto, a recorrer à técnica do off-load - passe-em-carga - na tentativa de conseguir lançar um companheiro no curto intervalo existente. Ora e de acordo com as estatísticas estabelecidas desde o início da introdução da nova lei do ruck esta situação - de passe-em-carga e recepção em terrenos apertados - tem provocado demasiados passes-para-diante puníveis, como se sabe, com formações ordenadas. 

Para evitar aquilo que consideram um exagero, a World Rugby pretende experimentar a possibilidade de um passe ser realizado até um metro para a frente. Situação que, se exige dos árbitros uma maior atenção - ver-se-á, nomeadamente nos campos portugueses, os espectadores a gritar cada vez mais por "ávant" - tem a óbvia vantagem de garantir uma superior continuidade de jogo, tornando-o mais fluído e aumentando a capacidade atacante das equipas.

Esta nova experiência, no fundo e ao que se espera, permitirá a marcação de mais ensaios que é o que pretendem os espectadores na sua ida aos estádios.  

sexta-feira, 30 de março de 2018

BOA PÁSCOA 2018

iPad, desenho a dedo, JPBessa

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