domingo, 24 de junho de 2018

RESULTADOS E POSIÇÕES NO RANKING JANELA 4 JUNHO



As previsões do "XV contra XV", com recurso à pontuação do ranking da World Rugby, somaram, na sua totalidade, menos onze pontos de diferença do que as da "Rugby Vision" que utiliza pontuação própria. Ou seja, aproximaram-se mais dos resultados reais.
O que se pode retirar dos resultados dos jogos deste fim-de-semana, a 4ª volta da "Janela de Junho" é a de que, felizmente, os algoritmos não conseguem prever tudo — nem sequer garantir quem serão os vencedores... quanto mais a diferença de pontos. E uma da razões é o facto de tratarem apenas "mecanicamente" os valores dos rankings existentes sem cuidarem — para além do factor casa — das condições que envolvem os jogos, nomeadamente dos actores que estarão em cena. Valem, para estas previsões, a consistência do passado desportivo que vai fazendo a pontuação que posiciona as equipas nos rankings.
De facto, ambos as previsões previam um baixo número de vitórias fora — duas previstas pelo "Xv contra XV" e uma para o "Rugby Vision". Foram cinco as vitórias fora com o Tonga a conseguir, em Suva, uma vitória surpreendente. Fora das previsões que os números determinaram, venceram também fora a Inglaterra, que perdeu as séries por 2-1 com os sul-africanos, a Irlanda que venceu as séries com a Austrália e confirmou a sua qualidade competitiva e a Escócia que derrotou a Argentina.
Provavelmente o melhor resultado terá pertencido ao Japão que venceu a Geórgia por 28 pontos de diferença impedindo-a de marcar quaisquer pontos. A diferença da Escócia sobre a Argentina de 30 pontos também não seria expectável.
    
Com os resultados conseguidos a Irlanda mantém o seu 2º lugar no ranking, a Inglaterra (6º para 4º) e Tonga (14º para 12º) sobem dois lugares. O restantes vencedores mantêm a sua posição enquanto que os derrotados, Geórgia, Austrália e África do Sul perdem uma posição no ranking enquanto que os restantes mantêm a posição anterior.
A vitória da Nova Zelândia, vencendo por 3-0 as séries com a França mostrou de novo — num excelente mistura de capacidade táctica colectiva de leitura dos movimentos adversários, de velocidade de execução e de apoio em permanentes corridas verticais — porque é a melhor equipa do Mundo. Tendo avançados que conseguem, no seu conjunto, realizar 60% das placagens de toda a equipa, os alicerces de um jogo de movimento estão demonstrados. Avançados que também são capazes de surpreender como fizeram ao executar um "maul-penetrante" sobre um alinhamento numa velocidade incrível que deixou os avançados franceses sem resposta organizativa - e para isso e como é seu costume, utilizaram princípios de grande simplicidade: o conquistador da bola não saltou, depois do engodo ter sido realizado para um normal final do alinhamento e o maul formou-se num ápice com a velocidade a mostrar-se como o elemento do jogo para o qual há maior dificuldade de respostas eficazes...

sábado, 23 de junho de 2018

PREVISÕES PARA OS JOGOS INTERNACIONAIS


Estas são as previsões para a diferença de pontos de jogo dos jogos internacionais desta janela de Junho. As do "XV contra XV" têm por base o ranking da World Rugby enquanto que as da Rugby Vision se baseiam no seu próprio ranking construído por Niven Winchester, neozelandês e economista no Massachusetts Institute of Technology. 
Ss as previsões da casa apostam em três vitórias dos visitantes — Irlanda, USA e Escócia — as previsões da Rugby Vision apenas consideram a hipótese de vitória de visitante para os USA contra o Canadá. 
Antes de ter construído este quadro palpitei a Vitória dos All Blacks sobre a França por 32-15.
Veremos o que dá... 

terça-feira, 19 de junho de 2018

DE EQUÍVOCOS...NADA RESULTA


A derrota com a Alemanha confirmou uma evidência: o XV de Portugal não ganha jogos decisivos!
Mesmo surgindo uma sorte inesperada que foi a de aparecer como adversário a pior equipa do Championship da Rugby Europe, nada. Fomos de novo derrotados como tínhamos sido em Fevereiro de 2016, então por 50-27 e a definir a nossa descida, ou contra a Bélgica em Maio da época passada. Ou seja, contentámo-nos — sem querer perceber que jogámos sempre contra equipas de fraco nível, todas elas com posição e pontuação de ranking inferiores aos nossos—em assinalar vitórias sem qualquer significado para, deslumbrados na sem importância, nos perdermos no que realmente importa. E assim continuámos na III divisão europeia…
Uma vitória neste jogo contra a fraquíssima Alemanha — verdadeiramente não jogam algo que valha  a pena mencionar — ter-nos-ia possibilitado jogar na repescagem para o Mundial de 2019, com equipas de nível competitivo superior aos adversários que normalmente temos e que, com o jogo da fava que nos saiu para o jogo de barragem com a Roménia — o melhor ataque da Championship Rugby Europe — nos possibilitaria, nos 4 jogos, hábitos competitivos internacionais que nos poderiam ajudar a pensar seriamente na subida de grupo. Agora assim …
Não é possível deixar de pensar na absoluta incompetência que regeu a organização e preparação da selecção portuguesa. Tivemos a sorte da demagógica ideia de todos terem direito a “participar” no Campeonato do Mundo e saiu-nos uma rifa para um bota-fora num mesmo jogo que contava para o Trophy da Rugby Europe contra a República Checa acabada de chegar da IV divisão europeia… para avançarmos, graças aos erros disparatados da Roménia, Espanha e Bélgica, para um vigésimo premiado para jogar contra a pior equipa da Championship da Rugby Europe e saber quem seria o 2 da Europa. Mas tudo foi parar ao charco, naquilo que só se pode considerar como uma preparação e organização de um amadorismo confrangedor. Tão confrangedor que trazemos jogadores do estrangeiro para não jogarem ou ainda nos cremos como criativos ao alterar levianamente o código dos números dos jogadores suplentes utilizados pelo mundo fora, confundindo os pilares nos números 16 pelo 17 e 23 pelo 18… Uma equipa, para este nível competitivo, baixo mas superior ao interno habitual, não se prepara como um grupo para um encontro de um campo de férias onde basta conhecer os nomes uns dos outros. O desculpar-se com o desconhecimento da data não serve, porque não passa de mais um parâmetro na construção do plano. As questões são outras.
O segredo do sucesso dos desportos colectivos é sabido e está escrito: coesão! O que significa que os jogadores têm de demonstrar espírito de equipa activo e de poder, em jogo, “adivinhar” a leitura que o seu companheiro portador da bola fará da situação que enfrentam. E isto não se consegue por ouvir dizer, consegue-se por conhecimento: conhecimento táctico comum e conhecimento mútuo fabricados na acção com o necessário domínio das técnicas elementares.  
A Alemanha, repete-se, não tem qualidade e a sua ineficácia, excepcionando o seu chutador, é evidente - a meio do jogo perguntava-me: como é possível que uma destas duas equipas possa vir a competir até à última etapa da repescagem para o Mundial?! A selecção de Portugal também não demonstra a qualidade que gostámos de atribuir aos nossos jogadores. Por diversas razões que o jogo português demonstra todos os fins-de-semana.
Em Portugal ignora-se que o jogo exige avançar no terreno com apoio permanente para garantir a continuidade que estabelece os níveis de pressão que obriga o adversário a cometer erros ou seja, que é preciso cumprir, para garantir a eficácia, os Princípios Fundamentais do Jogo em cada movimento — por cá, como se vê na maior parte dos jogos, confunde-se um jogo de conquista com um jogo de bola. E por isso viciámo-nos a jogar para o lado. A lateralizar e não a verticalizar. E a isto juntámos ainda a comodidade de alterar a base da conquista de terreno do correr, receber e passar (run, catch, pass) para receber, correr, passar. E nem o facto do ensaio de Villax ter demonstrado que a defesa alemã não tinha forma de defender penetrações lançadas na boa sequência levou à procura da repetição. No entanto, repare-se que se Villax não tem dado o nó ao último defesa alemão, atacando o ombro interior duma linha de ombros já vista como desequilibrada, nenhum apoio teria para poder passar a bola… demonstrando o contrário de um colectivo na distracção do cada um por si.  
E assim jogámos, passando lateralmente, não atacando a linha de vantagem com jogadores lançados e, para último dos pecados, dando permanente vantagem à defesa adversária com idas para o chão que impedem a continuidade - que se faz de passes, de losangos, de uso da bola. E assim perdemos jogos que devíamos ganhar. Porque não nos preocupa ser eficazes.
Ganhar envolve mais do que os que estão num dado momento no terreno-de-jogo. Para ganhar, para ter uma equipa que faça do sucesso, embora na relatividade do nível a que tem acesso, o seu modo de vida, necessita de uma organização capaz, de hábitos competitivos de bom nível e, no fundo, no fundo, de saber para que existe. 
E começa a ser altura da comunidade do rugby português olhar para si própria, percebendo as responsabilidades de ser Utilidade Pública Desportiva e reconhecendo que a missão de uma Federação Desportiva que se estabelece na zona do rendimento é a de criar condições para que as suas equipas representativas possam competir internacionalmente. Conseguindo resultados que lhe permitam ganhar atractividade, respeito e patrocinadores.  

sexta-feira, 15 de junho de 2018

JOGAR CONTRA UMA OUTRA ALEMANHA

Teoricamente Portugal ganha o jogo de sábado por 4 pontos de diferença.
É claro que isto podia bater certo se a equipa alemã a defrontar fosse igual àquela que, durante esta última época só sofreu derrotas nos cinco jogos disputados, apenas marcou 3 ensaios, conseguindo 3% de todos os ensaios marcados no seu grupo da Rugby Europe Championship e sofrendo 55 ensaios, tantos (50%) quanto o somatório de todos os outros sofridos no Grupo. Para nosso azar — dentro da lotaria que nos saiu dos castigos distribuídos principalmente à Roménia e à Espanha — a equipa alemã que jogará contra Portugal estará mais próxima daquela que nos derrotou por 50-27 em Fevereiro de 2016, do que da desastrosa equipa apresentada esta época.
Portanto Portugal não tem tarefa nada fácil e não vale a pena estar a lançar teorias de que não tendo havido jogos existe a vantagem de não haver lesionados porque assim e qualquer dia, entraremos na defesa de que, para bem preparar um jogo importante, o melhor é não jogar, nem treinar.
Os jogadores portugueses, pelo menos aqueles que actuam em Portugal, já não jogam há muito tempo. E as consequências podem fazer-se sentir nos célebres 20 minutos finais onde, diz-se, tudo se define.
Por outro lado Portugal apresenta números decentes com uma Taxa de Sucesso de 100% e uma Quota de Pontos de Jogo de 77%. Mas estamos, mesmo se a Alemanha se mostrou muito fraca, a falar de realidades diferentes: de um Championship e de um Trophy. Ou seja, de divisões diferentes com a III divisão onde jogámos a mostrar-se muito fraquinha. Portanto, nada de comparações.
E a comparação feita na tabela acima com base nos pontos de Ranking da World Rugby não tem, no caso, qualquer fiabilidade e serve apenas para perceber que, ganhando Portugal, manteremos a 23ª posição no ranking; perdendo, desceremos uma posição e seremos ultrapassados pela Namíbia que jogará em casa contra o Uganda (37ª posição no ranking) a contar para a Rugby Africa Gold Cup.
Não sendo o jogo mais importante para a selecção portuguesa — insisto: o jogo mais importante é o jogo de barragem contra a Roménia (a fava que nos saiu da requalificação da Championship) e que decidirá, a 3 de Novembro, quem jogará na próxima época na principal divisão da Rugby Europe — a vitória permitirá, dentro de dias, defrontar, a duas mãos Samoa. Esperemos para ver e, são os votos, que os jogadores portugueses se batam com galhardia dentro do campo.

[Nota: a dispensa de Thibauld de Freitas deixou o jogador em péssimo estado de ânimo, afirmando que não jogará mais pela selecção nacional. E com razão neste seu desanimo! Não se convoca ninguém para vir de França para se lhe dar o bilhete de volta imediata. Se não fazia falta, não se convocava; se é convocado só pode fazer parte dos 23. Porque os jogadores não se tratam como trouxas de roupa suja!
A relação dos portugueses que jogam em França tem vindo a deteriorar-se progressivamente com a Federação Portuguesa. Há jogadores que se recusam a fazer a viagem porque, garantem, sentem que não têm condições adequadas para deixar família e clube e representarem Portugal. Outros porque entendem terem sido mal tratados. Este caso, que trata mal quem se disponibilizou, vai acrescentar azedume à disponibilidade de outros portugueses. E era bem escusado — bastaria um mínimo de respeito!]

quinta-feira, 14 de junho de 2018

GRANDE CONFIANÇA OU PURO DISPARATE?

Tenho enorme dificuldade em compreender os critérios que usa - quase escrevia, seja para o que fôr - a Rugby Europe. Agora encontram-se no seu site as duas classificações oficiais do 2018 Rugby Europe Championship e da 2019 Rugby World Cup Qualifier.

Na classificação final do 2018 Rugby Europe Championship — tabela verde acima — vemos que estão contabilizados 5 jogos por equipa correspondentes aos jogos efectuados esta época e que estiveram sujeitos às decisões tomadas por um Conselho Independente nomeado pela World Rugby.  Assim o último classificado foi considerado a Roménia que, por este facto, terá que defrontar Portugal no "jogo de barragem" em data ainda indeterminada. Portanto esta classificação serviu para determinar o primeiro classificado, a Geórgia — designada campeã — e o ultimo classificado. Nada tendo a ver, portanto, com o apuramento das equipas para o Mundial do Japão. 

Neste quadro azul, com classificação diferente do quadro verde superior, é que se estabelece a qualificação para o Mundial contando os resultados das duas voltas das épocas de 2016/2017 e 2017/2018, retirados os pontos dos jogos com a Geórgia uma vez que, pela sua prestação competitiva no Mundial de 2015, esta já se encontrava apurada. Retirados os pontos de classificação pelos erros cometidos pelas federações da Roménia, Espanha e Bélgica, verifica-se que a Rússia fica assim com o apuramento garantido e que a Alemanha, conseguindo (!!!) a segunda posição, será o adversário de Portugal no próximo sábado para apurar o adversário de Samoa.
Tudo isto parece certinho e sem problemas... mas como é possível contabilizar duas voltas da competição da Rugby Europe Championship se os componentes deste campeonato podem mudar todos os anos?
E se Portugal tivesse ganho à Bélgica no "jogo de barragem" da época passada como iria saber-se qual seria a sua posição? e se tivesse jogado e ganho à Alemanha como poderia ser apurado — com que pontos? — para continuar a disputar a possibilidade de apuramento para o Mundial.
Por sorte dos deuses deles, Portugal não venceu a Bélgica e as equipas foram, esta época, as mesmas da época passada. 
Não perceberão que não é possível considerar a pontuação de duas épocas quando existe a possibilidade de alteração das equipas em cada época?
Que diabo, não têm dedos nas mãos para contar?... ou são apostadores de grande confiança?
Se a proposta de duas voltas para determinar o apuramento para o Mundial pertenceu — como parece ter pertencido —à World Rugby, como é que a Rugby Europe foi na conversa e não explicou que as suas regras determinam a possibilidade de alterações dos competidores anualmente? Porque as duas classificações, mesmo se os deuses ajudaram, não são possíveis: ou uma ou outra.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

DO MAL AO PIOR


“El rugby no es violento... es agressivo!!! 
¿Porqué no?... 
Porque el rugby tiene reglas y la violencia no...” 
Angel Guastella, entrenador de Los Pumas del 65
Regulamentos federativos

A direcção da Federação Portuguesa de Rugby decidiu aceitar a recomendação do Conselho de Disciplina e considerar como “falta de comparência não justificada” atribuível às duas equipas — Agronomia e Direito — a consequência do jogo das meias-finais do CN1, impondo assim a aplicação do ponto 2 do Artº 41.º (Desclassificações) do Regulamento Geral de Competições 2017/2018 que determina:
  • Será desclassificada qualquer equipa da Divisão de Honra responsável por uma Falta de Comparência não justificada.
e a sua sequência estabelecida no Artigo 30.º (Desclassificações) do Regulamento do Primeiro Escalão Competitivo Sénior de 2017/2018:
  • A desclassificação duma Equipa do CN1 implica a imediata exclusão de todas as competições seniores em que a Equipa participe, bem como a despromoção ao último escalão competitivo sénior, e ainda a impossibilidade de ser promovida ao CN1 nos 5 (cinco) anos seguintes à Época Desportiva em que se verificou a desclassificação.
Portanto e de acordo com este regulamento Agronomia e Direito serão despromovidos para a III divisão federativa, não podendo atingir a divisão principal antes de passados 5 épocas da data da punição.
E assim está lançada a bernarda no rugby português que, não estando já de grande saúde, vê o caminho do fundo mais próximo.
Esclareça-se que o que se passou, por duas vezes, a 28 de Abril p.p. no campo da Tapada e que envolveu jogadores de Agronomia e Direito constitui uma inadmissível manifestação colectiva de agressões consubstanciando uma acção de violência e que é exterior ao domínio Desporto. Porque o Desporto, como lembra aquele que foi um excelente treinador dos Pumas argentinos, rege-se por regras enquanto a violência não as conhece. Assim sendo, os acontecimentos da Tapada só podiam ser exemplarmente punidos a bem do bom nome do Rugby e do Desporto. Da ética desportiva. Da decência.
É bom lembrar que foi por causa das mútuas agressões, que o árbitro teve que dar o jogo por terminado quando faltava ainda jogar, pelo menos, um pontapé de penalidade que, sendo aos postes, poderia garantir o empate e obrigar a prolongamento ou, por outro lado, poderia permitir uma penalti-touche que podia traduzir-se em vitória imediata. O que demonstra ser de toda a justiça considerar a perda dos efeitos desportivos do jogo sem benefício para qualquer das equipas.
Mas com o resultado da decisão tomada, encontrámo-nos perante a situação de partida de um bom e justo princípio - punir a violência que não pertence ao domínio Desporto onde predomina a regra - para ter um final desgraçado, desajustado e deslocado e que prejudica — na sua capacidade competitiva — a generalidade do rugby português. Como aliás a própria direcção percebeu ao tentar limitar os danos numa decisão — que dizem ter sido tomada a 2 de Maio — que procura reduzir as consequências do já referido Art.º 30º ao, como é fácil de perceber pela redacção das referidas actas, aprovar “alterações ao Regulamento do Primeiro Escalão Competitivo em vigor, as quais incluem, nomeadamente, alterações ao formato de acesso ao, e despromoção do, CN1. Entre as normas alteradas, promoveu a Direção uma alteração da redação do Artigo 30.º, introduzindo uma distinção relevante para as faltas de comparência.” Curiosamente, com este remendo tardio e a más horas, continuamos no campo das faltas de comparência — que são o que são e não outra coisa — e nada parece pretender alterar-se de acordo com a necessária adaptação ás condições reais.
E disso se desconfia quando se lê no já referido comunicado federativo que a Lei n.º 39/2009 de 30 de Julho é “matéria da competência dos tribunais”. Como?! Então deve ser por isso que existe um regulamento federativo que é a sua cópia...e que não vemos, porque existe a independência do movimento associativo desportivo, um tribunal aplicar  sanções que dizem respeito ao domínio desportivo como perda dos efeitos desportivos ou a perda total ou parcial de pontos. É um facto que, em qualquer espaço de espectáculo desportivo, existem duas áreas que têm responsáveis diferentes: o recinto de jogo de responsabilidade do árbitro; o espaço exterior a este que é da responsabilidade da entidade organizadora (clube ou federação de acordo com as circunstâncias). Mas ambos, na sua organização e controlo, sob alçada desportiva. O que significa que cabe às autoridades desportivas a responsabilidade de garantir a segurança de espectadores e atletas. Para o que e se assim o entender como necessário, podem pedir a presença e cooperação das forças de segurança.
Para acabar de vez com a analogia ridícula de faltas de comparência com o campo cheio de jogadores, talvez não fosse pior juntar a sócios, adeptos, ou simpatizantes referidos no ponto 1 do Art.º 24.º (Interdição de Recintos Desportivos) do Regulamento federativo de  Prevenção e Punição das Manifestações de Violência, Racismo, Xenofobia e Intolerância nos Espectáculos Desportivos o conceito de agentes desportivos. Passaria então — sem necessidade de recurso a uma qualquer extensão englobadora que o caso em apreço requereria — a haver capacidade federativa para intervir sobre casos de violência sem recurso a analogias sem nexo. Mas o melhor, melhor é reformular e adaptar, alinhando, os diversos regulamentos de uma forma sistémica para criar um corpo regulamentar sólido e capaz de servir eficazmente as necessidades reais do rugby de acordo com os seus tão propalados princípios e valores.
E como se chega então ao actual estado de coisas?
A primeira resposta só pode ser esta: por desleixo, ignorância e irresponsabilidade. Quer federativa quer dos clubes que, nestas matérias, só mostram preocupações quando são directamente afectados. Eis alguns dos indícios demonstrativos.
Dizia-se no Comunicado federativo de 30 de Abril p.p. que “os acontecimentos de Sábado, dia 28 de Abril, são os mais graves numa série de incidentes verificados desde a primeira jornada da presente época desportiva [...], isto é, os avisos existiam mas — como se percebe pela acta das reuniões da direcção publicada no sítio federativo — os dirigentes preferiram ficar com a comodidade de se encontrarem “reféns de regulamentos extremamente rígidos, que não permitem qualquer margem ou amplitude de decisão quanto à sanção” — do que perderem tempo com o seu estudo e sua transformação adaptada às necessidades reais. E assim, demonstrando claramente o seu desconhecimento dos teores regulamentares e deitando para trás das costas a responsabilidade exclusiva da sua aprovação, optaram pela facilidade da ligeira alteração para disfarçar os evidentes prejuízos provocados.
Por outro lado não deixa de ser estranho que os clubes — sócios federativos efectivos —mostrem também todos os indícios de nada saberem do teor dos regulamentos uma vez que, como se fosse alguma novidade a mera e linear aplicação do regulamentado — são claramente desajustados e exagerados mas são assim há anos — se mostrem surpreendidos e acusadores só agora que o telhado lhes caiu em cima. E as coisas vão saltar do espaço desportivo para o espaço jurídico que se vai movimentar num maltratado conjunto de regras e, temo, num tempo desajustado ao normal desenrolar desportivo.

Mas o pior do que tudo é se, por razões de aligeiramento do desastre e numa demonstração da inoperância dos regulamentos, acabaremos na superior facilidade do branqueamento dos acontecimentos...

segunda-feira, 28 de maio de 2018

DESMEMBRAMENTO DOS JUSTOS E DOS PECADORES?

Falta de Comparência com tantos jogadores no campo?!
Uma contradição nos termos?
Os acontecimentos que marcaram o recente Agronomia-Direito são manifestações de violência e não devem, nem podem, ser admissíveis num espaço desportivo, quer dentro, quer fora do terreno-de-jogo. Essas cenas (aos 4’) de “confrontos generalizados em que participaram praticamente todos os elementos de ambas as equipas” e que se repetirá no final onde “voltaram a envolver-se em confrontos generalizados, em que participaram novamente numerosos jogadores de ambas as equipas” como estabeleceu o Conselho de Disciplina, representam manifestações de violência que degradam os princípios gerais do Desporto e do Rugby — a nossa modalidade — em particular. Ora estas gravíssimas manifestações de violência devem ser sancionadas exemplarmente enquanto contributo dissuasor para que não fiquem dúvidas de que não podem, de forma alguma, voltar a repetir-se. A violência, quer seja individual ou colectiva não pertence - por mais que se pretenda mascarar as ocorrências com ficções distorcidas da relação entre adversários deste desporto colectivo de combate e de contacto físico permanente — ao mundo rugbístico. Não pertence mesmo! É até proibida! O Rugby é uma modalidade dura, com naturais riscos mas não pode admitir que seja transformada numa modalidade perigosa por permissão de violências que, naturalmente, ultrapassam as Leis de Jogo. Por isso é grave aquilo a que se assistiu dentro e fora do terreno-de-jogo na Tapada da Ajuda no jogo da meia-final do principal Campeonato Nacional.   
Estabelecido o princípio, vejamos o que resulta da decisão do Conselho de Disciplina. Considera este Conselho que os factos determinados “são passíveis de consubstanciar a prática de uma infração grave, prevista e punida pelo Regulamento Geral de Competições no seu no art.º 38º, nº1, alínea f)” e que estabelece, numa sequência de óbvia aplicação, que: 
“1. Uma equipa será considerada como tendo dado uma falta de comparência sempre que: 
f. Seja responsável pela interrupção definitiva por incapacidade de manutenção da ordem no recinto de jogo.”
O que, de acordo com o ponto 2 do art.º41 (Desclassificações), não poderá ter, porque não há justificação possível, outras consequências que não:
2. Será desclassificada qualquer equipa da Divisão de Honra responsável por uma Falta de Comparência não justificada.”
Mas como se estabelece no ponto 1 do art.º 30º (Desclassificações) do Regulamento do Primeiro Escalão Competitivo Sénior “a desclassificação duma Equipa do CN1 implica a imediata exclusão de todas as competições seniores em que a Equipa participe, bem como a despromoção ao último escalão competitivo sénior, e ainda a impossibilidade de ser promovida ao CN1 nos 5 (cinco) anos seguintes à Época Desportiva em que se verificou a desclassificação“
Ou seja: começando pela comodidade de considerar que é a Falta de Comparência ás duas equipas que se envolveram em cenas colectivas de violência a figura a aplicar, este uso cego e acrítico da regulamentação vai dar cabo do rugby português para os próximos anos. Com a descida de duas das melhores equipas portuguesas para a III divisão e com a consequência directa de não lhes ser autorizado o retorno antes de 5 anos, pergunta-se: o que vai acontecer ao equilíbrio competitivo do principal campeonato português e como prepararemos os jogadores para as competições internacionais? O que vai acontecer à componente de alto rendimento do rugby português? Onde jogarão os jogadores internacionais das duas equipas? Quem formará os jovens jogadores? Quem tratará do ensino das técnicas e tácticas adequadas à nossa prestação internacional? Que acontecerá aos resultados da Selecção Nacional?
As cenas de violência ocorridas — já o disse — são graves e têm que ser sancionadas de forma exemplar. Mas não têm necessariamente que resultar em prejuízo da totalidade da modalidade.
O primeiro e enorme erro está na possibilidade de ser considerada falta de comparência numa situação em que todos os jogadores das duas equipas estão presentes no terreno-de-jogo. Uma falta de comparência titula situações em que uma equipa ou parte dos seus jogadores não estão presentes ou estão-no irregularmente, não permitindo o normal desenrolar do jogo e não deve ser utilizada como “espelho” de situações diversas. A dureza da construção feita nos regulamentos é, nítida e facilmente perceptível, dedicada a garantir a dignidade e credibilidade da competição de nível mais elevado, evitando eventuais “espertalhotices” ou ameaças.
Uma vez que, como afirma em comunicado, é necessário uma reunião da Direcção da FPR para tomar decisões, espero que seja aproveitada para fazer justiça de forma inteligente — já chega o actual estado do rugby português que não precisa da ajuda de mais achas para alimentar o lume brando em que ardemos. Claramente que as cenas colectivas de agressões mútuas de chapada, murro, pontapés e outros eventuais entre jogadores de ambas as equipas são “responsáveis pela situação ocorrida” de interrupção do jogo e configuram uma situação de violência relacionada com o Desporto. E se é o violento confronto colectivo o responsável pela situação de interrupção definitiva do jogo, então o domínio de enquadramento deverá ser o da violência. E para isso e com base na Lei n.º 39/2009 de 30 de Julho deverá ser aplicado o federativo Regulamento de prevenção e punição das manifestações de violência, racismo, xenofobia e intolerância nos espectáculos desportivos, aprovado em reunião de Direcção de 27 de janeiro de 2010 e actualmente em vigor. E embora regulamente pouco e seja uma desadequada e mal adaptada regulamentação, estabelece, copiando o ponto 1 do art.º 46º da lei anteriormente referida, no seu art.º23º, Sanções disciplinares por actos de violência, que:
A prática de actos de violência é punida, conforme a respectiva gravidade, com as seguintes sanções:
a) Interdição do recinto desportivo, e, bem assim, a perda dos efeitos desportivos dos resultados das competições desportivas, nomeadamente os títulos e os apuramentos, que estejam relacionadas com os actos que foram praticados e, ainda, a perda, total ou parcial, de pontos nas classificações desportivas;
b) Realização de espectáculos desportivos à porta fechada;
c) Multa.
Ou seja, este Regulamento existe para ser utilizado em situações idênticas às que se passaram no terreno-de-jogo da Tapada e contém toda a tipologia de sanções necessárias para demonstrar a gravidade do acontecido e aplicar os diversos castigos desportivos adequados às acções, mostrando-se como exemplo para a intolerância da sua repetição.
Dir-se-á: mas é muito vago, etc. e tal. 
Então e como compete, segundo a alínea t) do Art.º 25º, Competência, dos Estatutos, à Direcção da Federação “Resolver as dúvidas e os casos omissos dos regulamentos”, resolvam e decidam. 
Mas decidam sem perder de vista a exemplaridade de que a resolução do caso se deve revestir e de acordo com a visão estratégica que deve resultar da Missão que incumbe ao Rugby português enquanto modalidade desportiva federada de utilidade pública.

Aproveitando a ocasião para, percebendo que os actuais regulamentos federativos estão mal feitos, estão desalinhados entre si, estão desajustados da realidade, resolvem mal os problemas e têm consequências inesperadas e inusitadas, definir um prazo para a alteração e alinhamento dos diversos regulamentos tendo em conta a realidade do rugby português e a amplitude dos comportamentos anti-desportivos que o envolvem. Ou seja: fazendo aquilo que deve ser feito.

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