quinta-feira, 24 de agosto de 2017

UM JOGO DE SENHORAS MAS COM 338 PLACAGENS

No jogo das meias-finais do Campeonato do Mundo Feminino que se disputa na Irlanda entre os “quinze” da Inglaterra e da França - com um resultado de 20-3 favorável às inglesas - as jogadoras fizeram 338 tentativas de placagens (141 para a Inglaterra e 197 para a França) com uma taxa de sucesso de 86% - as inglesas fizeram 111 placagens efectivas e as francesas conseguiram 174. 
Este valor de 338 placagens é uma brutalidade, correspondendo a uma notável atitude competitiva e exigiu das jogadoras um enorme dispêndio de energias. Como comparação veja-se que no jogo entre os mesmos países mas em equipas masculinas e referente ao Seis Nações 2017, os jogadores realizaram 260 tentativas de placagem com uma taxa de sucesso de 85%. Ou seja, menos 78 placagens correspondendo a quase uma placagem a menos por minuto. 

Notável a forma como as duas equipas se bateram e jogarem - cada uma no seu estilo - pela final do Mundial.

No fundo, ganhou a equipa com mais experiência - a Inglaterra é ainda a campeã mundial e estava, no início da prova no 1º lugar do ranking da World Rugby. Com um jogo muito pragmático e apostado na conquista de terreno pelo poder físico das suas jogadoras a Inglaterra teve, no entanto, dificuldades que a diferença do resultado não demonstra. Com um 64% de domínio territorial e 59% de posse da bola e apesar das suas 98 ultrapassagens da Linha de Vantagem - a França só fez 74 - a Inglaterra só conseguiu 487 metros de transporte com 5 rupturas conseguidas contra 508 metros e 8 rupturas das francesas conseguidas com 10 off-loads. Como demonstração das dificuldades, uma série, já da 2ª parte, de 20 fases, bem próximo da linha de ensaio francesa, que apenas se traduziu nos 3 pontos de um pontapé de penalidade. A diferença de resultado fez-se no último segundo da partida com um erro monumental francês - na tentativa de jogar tudo por tudo - já dentro da sua área de ensaio.

Pesou às francesas a pressão de uma meia-final principalmente tratando-se de uma situação de repetição que foi sempre negativa. De tal forma que cometeram uma parafernália de erros não forçados - foram simplesmente desastradas nos alinhamentos, houve inúmeros passes para o chão, imensas bolas não recepcionadas ou pontapés com pouco nexo - que lhes retiraram a possibilidade - e se as ocasiões foram criadas... - de chegar ao ensaio. Se no primeiro quarto dispuseram de 84% da posse e obrigaram as inglesas a realizar 51 placagens (as francesas apenas fizeram 5) viram-se, a partir daí, muitas vezes acantonadas na sua área e tiveram que lançar os seus ataques de muito longe aumentando assim os riscos e a defesa de cobertura inglesa, mostrando momentos de excelência, mostrou-se suficiente para as encomendas. Mas deixaram ver que têm um estilo - o clássico french style - capaz de atrair e que se mostrou suficientemente eficaz. Faltou-lhes traquejo...

No sábado, na final, um grande Inglaterra-Nova Zelândia num confronto de duas máquinas de jogar que vão obrigar a um final do dia agarrado à televisão. Depois de, claro!, logo pela manhã ver o Nova Zelândia-Austrália para o Rugby Championship 2017.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O USO DA BOLA: DOS ALL-BLACKS ÀS FRANCESAS

A primeira parte do recente Austrália-Nova Zelândia foi de se lhe tirar o chapéu - um dos melhores dos últimos cinco anos, afirmou um dos comentadores. De facto um 40-6 ao intervalo favorável aos neozelandeses para terminar num 54-34 com 12 ensaios para ver, é obra.

A entrada dos neozelandeses é formidável e recorrendo a todos os processos do jogo de movimento - adaptação ao posicionamento dos defensores, passes em off-load (14) adequados ao transporte da bola e linha de corrida do companheiro - criando sempre mais do que uma solução - num apoio constante e em tempo e com linhas de corrida adequadas a ataques ao ombro mais fraco, rodopios a libertar braços e a avançar sempre e a fazer parecer os australianos como defensores medíocres - 61% de placagens falhadas na 1ª parte. E quando não eram passes curtos eram longos a uma ou duas mãos, por cima ou por baixo, rápidos para libertar companheiris ou lentos para fixar defensores, demonstrando uma panóplia técnica (como fazer?) de excelência que torna letais as decisões tácticas (o que fazer? quando fazer?) nascidas da adaptação à movimentação defensiva.

Com um resultado destes - 20 pontos de diferença - e marcando 8 ensaios, os All-Blacks tiveram 42% de posse de bola e 43% de vantagem territorial. O que demonstra mais uma vez que a importância não está no tempo de posse mas sim na eficácia do uso que se faz da bola. E é por isso que existem leituras estatísticas que demonstram a vantagem de uma equipa sobre a outra: desde logo a relação “ultrapassagens da linha de vantagem” com o número de “rupturas” conseguidas. Neste campo os neozelandese conseguiram, com 182 passes e percorrendo 652 metros  - bastante superior à sua média que se aproxima dos 500 metros - ultrapassar 49 vezes a linha de vantagem para criar 27 rupturas (55%) - o triplo da sua média de 9 - e marcar 8 ensaios.No campo desta relação, os australianos conseguiram ultrapassar a linha de vantagem por 57 vezes mas apenas conseguiram 13 rupturas (23%) de onde resultaram os seus 4 ensaios para compensar a conquista de 556 metros com 215 passes efectuados. Ou seja e mais uma vez, os australianos mostraram-se como os reis das fases, levando o jogo de um lado para o outro do campo mas só garantindo eficácia quando o vencedor já se encontrava definido.

Esta vantagem demonstrada no uso da bola alicerçou-se, pela imposição da conquista de terreno, no facto de os australianos terem que ocorrer às áreas laterais do defensor em cunha - o que demonstra conhecimento antecipado do seu tipo de defesa por parte dos neozelandeses ( o treinador da defesa, Nathan Grey, treina também os Waratahs) - e se virem obrigados a desproteger os corredores laterais do campo onde a superioridade numérica neozelandesa criava as rupturas necessárias.

De um ponto de vista defensivo os neozelandeses fizeram, com a pressão criada pela rapidez de subida, 162 placagens para um falhanço de 23 (86% de sucesso) contra 69% de sucesso dos australianos que fizeram 98 placagens, falhando 30. Para melhor se perceber a construção dos números da vitória valerá a pena comparar a capacidade defensiva dos Bases e 3ª Linhas de cada equipa: 58 placagens para os neozelandeses contra 35 dos australianos. Se analisarmos o papel dos mesmos jogadores enquanto “transportadores” teremos a vantagem de 270 metros para os neozelandeses contra 64 metros dos australianos numa demonstração de quatro vezes maior capacidade de perfuração. O que demonstra claramente a superior capacidade dos neozelandeses para descobrir e atacar o fraco do adversário

No fundo pode resumir-se que a vitória dos All-Blacks se configurou numa maior capacidade táctica individual que melhor decidiu para cada momento do jogo a solução técnica a utilizar para garantir o cumprimento dos Princípios Fundamentais do Jogo - avançar sempre, apoio, continuidade e pressão.

E se ver o jogo neozelandês é um prazer enorme, ver a equipa francesa a jogar no actual Mundial Feminino constitui um prazer do mesmo nível. De facto as francesas - vejam-se as duas primeiras partes contra a Austrália (48-0) e contra a Irlanda (21-5) - deram duas lições de rugby de movimento mostrando as vantagens do jogo que durante anos marcou a diferença do rugby francês - o french style para as restantes formas de jogar. Se os jogadores neozelandeses têm capacidades de passe que os aproximam de basquetebolistas, as jogadores francesas não lhes ficam atrás na demonstração técnica. E sabem também e muito bem dar as costas antes do contacto para soltar a bola para a companheira melhor lançada e com a linha de corrida mais adequada como são capazes de executar passes-em-carga (off-loads) - 14 contra a Austrália e 18 contra a Irlanda - a uma mão com passes de pulso que lembram o andebol numa procura incessante do jogo ao largo para explorar a superioridade numérica construída. Ultrapassando a “linha de vantagem” contra a Austrália por 66 vezes e contra a Irlanda por 57 vezes, as francesas criaram, respectivamente, 18 e 13 “rupturas” de linha defensiva. Curiosamente as francesas dividiram o tempo de posse de bola com as australianas e tiveram apenas 29% de domínio territorial e 39% de posse de bola contra as irlandesas. Mas venceram sem problemas de maior os dois jogos.

Na próxima terça-feira a equipa feminina francesa jogará as meias-finais do Mundial contra a Inglaterra, numero 1 do ranking da World Rugby e a curiosidade sobre o seu comportamento competitivo é muito grande. Serão elas capazes de demonstrar aos jogadores e responsáveis da selecção masculina que este tipo de rugby, esta forma de jogar em movimento de acordo com a movimentação da bola e do adversário, representa a marca francesa de encarar o jogo e com uma maior possibilidade de garantir resultados? Veremos...

domingo, 13 de agosto de 2017

RETORNO BÊBADO CAMINHO RUA

Depois de Stuart Lancaster já ter chamado a atenção para a importância que Manu Tuilagi tinha para o XV da Inglaterra foi agora a vez de Eddie Jones vir dizer, apesar de, por diversas lesões, só ter jogado 20 minutos em jogos-testes da sua equipa, que o centro era o único jogador inglês capaz de "dar cabo" dos neozelandeses. E se assim o pensou, melhor o fez: convocou-o, apesar de uma condição sofrível, para o primeiro estágio da época da selecção inglesa.
E lá foi treinar aquele que Jones pensa que tem "potencial para vir a ser o melhor jogador do mundo".
Não terá durado muito este enlevo.
Numa licença de saída do estágio fez-se de volta com outro colega de equipa, Denny Solomona, madrugada de segunda-feira fora em notório estado de embiaguês - bêbados, como se diz no corrente. O que deixou, muito naturalmente, o treinador principal da Inglaterra possesso. E vai daí, foram os dois expulsos do estágio!
Havendo agora até quem diga que só muito dificilmente voltarão a ser chamados por Jones aos trabalhos da selecção. Causa e consequência, dir-se-á.
Pelo que se pode ver a condescedência não faz - e bem - parte do vocabulário do desporto de alto rendimento do responsável da selecção inglesa. Porque quem quer construir uma equipa ganhadora e capaz de derrotar, como afirma, os All Blacks, exige também elevado espírito de equipa - a tal coesão de que tenho falado - e rigor comportamental dentro e fora do campo, não podendo admitir abusos que violam os princípios elementares dos deveres de atletas e demonstram um sentido de irresponsabilidade que, tarde ou cedo, desmantelará a atitude competitiva no campo. Resolveu-se o problema limpando o mal pela raiz. Muito bem.
Infelizmente dentro das nossas portas não é este o espírito que impera! ... e depois, esquecendo-se que o Desporto de Rendimento não é uma prática de brincar ou entretém social, admiram-se com os resultados!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

CRUSADERS: OITAVO TÍTULO

Belo jogo para uma excelente final. Ao ponto de Spiro Zavos, jornalista australiano, escrever que esta final, pela qualidade e intensidade do seu jogo, tinha salvo o Super Rugby que tem andado perdido entre séries, números de equipa, problemas australianos, etc. Mas o jogo da final foi um bom intervalo nesses jogos de bastidores e de administradores.
Os Crusaders perderam para os Lions em quase todos os índices excepto no que é fundamental, no resultado. E mostraram a realidade das estatísticas: ganha o jogo quem marca mais ensaios. E os neozelandeses marcaram 3 ensaios contra 2 dos sul-africanos…
Placaram que se fartaram os neozelandeses (195 placagens) mas também falharam mais (39) do que os sul-africanos. Mas estes falhanços não tiveram consequências de maior porque resultaram de subidas defensivas muito rápidas (rush) que deixaram algumas vezes passar adversários. Mas essas entradas - veja-se que o número de rupturas conseguidas pelos Lions é de apenas 13, número muito inferior ao valor das placagens falhadas - eram imediatamente tapadas pela rapidez adaptativa - recurso ao conceito scramble defence - de outro companheiro defensor. 

Cientes do perigo do último quarto do jogo - os Lions têm marcado muitos ensaios nesse final - em que a altitude dos 1750 metros pesa muito na capacidade física dos jogadores de fora, os Crusaders prepararam muito bem o jogo. Nomeadamente no que diz respeito aos pontos-de-quebra onde tiveram sempre o cuidado de empenhar poucos jogadores para libertar os defensores necessários para responder às vagas do jogo de passes muito verticalizado dos sul-africanos. E foram ainda brilhantes na forma como contrariaram a poderosa arma adversária do maul nos alinhamentos. Ver como o fizeram sem cometerem faltas é uma boa lição e bom motivo de cópia.
Curiosamente os dois primeiros ensaios neozelandeses resultaram de bolas conquistadas nos pontos-de-quebra. O terceiro resultou de uma velha formula que os Crusaders já muito utilizaram (até perceberem que os adversários já o defendiam com toda a facilidade) - bola para cá, bola para lá a provocar intervalos mais largos - e Kieran Read a não se fazer rogado para marcar no meio dos postes logo nos primeiros momentos da 2ª parte.
Contra 14 jogadores e 22-3 no resultado ao início da segunda parte tudo parecia facilitado. Mas os Lions não desistiram - a sua imagem de marca como demonstraram oito dias antes contra os Hurricanes - e com a entrada de um novo médio-de-formação, Faf de Klerk, iniciaram um período de grande intensidade que colocou - já atrapalhados pelo falta de oxigénio provocada pela altitude - os Crusaders numa situação muito difícil. Mas não é fácil jogar com aquela intensidade durante muito tempo e contra uma defesa que pressiona muito e se houve um ensaio imediato, o seguinte levou tempo de mais para se tornar na reviravolta do jogo.

Nesse final difícil aos Crusaders competiu segurar a bola tanto quanto possível e fazer valer a sua maior capacidade nos alinhamentos e nas formações-ordenadas.
Para além das qualidades neozelandesas, os Lions cometeram dois terríveis erros: a preferência por escolher um alinhamento em vez de chutar aos postes e o motivo da expulsão que os reduziu a 14 jogadores.
Com o resultado desfavorável em 12-3, ainda na primeira-parte e também ainda com a equipa completa, a uma penalidade dos Crusaders resolveram, em vez de chutar aos postes e garantir 3 pontos, chutar para fora para tentar um maul após alinhamento. O erro é grosseiro, quer pelo resultado e dado o tempo de jogo, quer porque - e para isso servem as estatísticas - o local da falta garante uma enorme probabilidade ao chutador e o maul pós-alinhamento tem, entre equipas do mesmo nível elevado, uma fraquíssima percentagem de sucesso. E foi o que aconteceu: lançada a bola, viram um neozelandês conquistá-la.  
O outro erro terminou com a expulsão de Kwagga Smith por ter "virado de pernas para o ar" e provocado uma queda perigosa ao defesa neozelandês que se encontrava no ar a captar a bola. Bem pode agora vir o treinador sul-africano, Johann Ackerman, chorar por leite derramado e dizer que a expulsão virou o jogo - claro que virou! - e que não deveria haver expulsão porque numa final deveria ser amarelo porque os espectadores pagaram bilhete e não foi para verem jogar 14 contra 15 e porque...
A expulsão não foi mais do que o resultado de uma boa interpretação das leis pelo árbitro sul-africano, Jaco Peyper. O asa Kwagga Smith provocou uma perigosíssima queda ao defesa David Havili e não existe outra interpretação possível: trata-se de jogo muito perigoso a colocar a integridade física de um adversário em perigo. Portanto, penalidade e expulsão. 
A queda de David Havili provocada por Kwagga Smith
O cartão vermelho é a única resposta a um incidente daquela natureza  e só o treinador da casa - ou um ou outro fanático - levantou a voz contra a decisão. Ficou o jogo mais fácil para os Crusaders, ficou! mas a culpa disso é do jogador sul-africano que não teve a mínima necessidade de, sem fazer tenções de agarrar qualquer bola, dar uma enorme "passa" no jogador que se encontrava no ar violando de forma grosseira a Lei 10.4 i) - Placar um jogador no ar. Um jogador não deve placar, tocar, empurrar ou puxar o pé ou pés de um adversário que está a saltar para a bola quer num alinhamento quer no jogo em geral. A sanção é um pontapé de penalidade a que se pode seguir a aplicação da Lei 10.5 - Sanções a). Qualquer jogador que infrinja qualquer parte da Lei de Jogo Perigoso deve ser avisado ou advertido e suspenso temporariamente por um período de dez minutos de tempo de jogo efectivo ou ser expulso definitivamente. E o árbitro não vai preocupar-se com o interesse dos espectadores em verem um jogo de 15 contra 15 - a sua obrigação é a de aplicar as Leis do Jogo independentemente da envolvente ou contexto. O jogo deve ser seguro para os jogadores e, isso sim, deve demonstrar aos espectadores que o é. Para que não haja pais e mães que receiem deixar os seus filhos jogar rugby.
Os Crusaders cometeram uma notável proeza: conquistaram o título pela 8ª vez em doze presenças nas finais e são a única das equipas que conquistou o título jogando - pela segunda vez porque já o havia feito em 2000 em Camberra, vencendo os Brumbies - no campo do adversário. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

DO QUADRO AO CAMPO

Sir Graham Henry explica os objectivos do ataque
Assim explica Sir Graham: O objectivo principal do ataque é marcar ensaios e o sub-objectivo é ultrapassar a linha de vantagem porque ficaremos em superioridade numérica e teremos maior facilidade no 2º tempo. São três os espaços onde a defesa tem maiores dificuldades - no corredor entre a fase ordenada de onde a bola parte e o abertura adversário; para lá do 2º centro e, ainda, atrás da defesa
O essencial para que o ataque seja eficaz depende da tomada de decisão dos jogadores envolvidos e que se baseia quer no conhecimento dos companheiros - factor coesão da equipa - quer na leitura que fazem da situação que enfrentam, recorrendo a uma das opções possíveis de acordo com o movimento dos defensores.
Os factores-chave para que haja eficácia no movimento do 1º tempo, são:
  1. Todos devem representar uma ameaça e assim ser levados em conta pelos defensores;
  2. Todos devem estar preparados e disponíveis para que sejam opção através da boa linha de corrida e da disponibilidade para receber a bola através de um passe que não se mostrará o mais académico; 
  3. O passe do formação deve ser "na linha" - não deixando que ninguém tenha tempo e espaço para deslizar;
  4. Os atacantes devem correr a direito - ombros paralelos às linhas de ensaio - e "fixar", pelo menos, os adversários directos;
  5. A linha de corrida do 2º centro atacante deve ser convergente, atacando o espaço entre os centros defensores para os obrigar a aproximarem-se um do outro;
  6. A tomada de decisão do 1º centro atacante é decisiva para o sucesso: se o 2º centro defensor não fecha o intervalo, passe curto para o 2º centro seu companheiro; se 2º centro defensor fecha o intervalo, passe para o abertura atacante com bola pelas costas do companheiro 2º centro; se desmultiplicação de defensores, exploração do canal do abertura defensor jogando para o interior com o seu companheiro, ponta do lado fechado  
  7.  A linha de corrida do abertura atacante - tem que ser sincronizada e deve permitir o "endireitar" para atacar o intervalo, optando por uma das duas opções possíveis - penetrar ou passar.
Nas imagens seguintes pode ver-se a passagem do esquema de quadro ao ensaio dos Hurricanes  contra os Lions no jogo da meia-final do Super Rugby 2017 (e já referido como um dos grandes momentos do jogo aqui.) A única variante em relação ao esquema apresentado foi a de utilizar o ponta-do-lado fechado - e que fez toda a diferença e provocou um 3x1 final - como primeiro receptor.
1. Linha de corrida do 2ºC atacante, Vince Aso, a fixar o 2º C
defensor depois de Ngani Laumape ter transportado a bola
até ao limite possível e, face à leitura da organização defensiva,
 ter decidido passar a bola ao nº10, Beauden Barrett.
2. Recepção de Beauden Barrett que percebe a existência de um
intervalo e o posicionamento  em "meias-águas" do ponta
defensor , tendo dois companheiros do lado de fora, tem uma
decisão fácil a tomar: penetração se o defensor o não atacar;
passe se o defensor vier sobre ele.
3. Perdido entre defender o portador da bola ou o adversário que se apresenta
no seu corredor, o ponta defensor deixa aberto um corredor por onde entrará
Beauden Barrett que, face à defesa de cobertura que se desmultiplica, passa,
saltando o seu irmão Jordie, para Wesley Goosen (que, por junto à linha,
não se vê na imagem) marcar ensaio.

A simplicidade dos conceitos e dos princípios que Graham Henry coloca nas exigências da movimentação - muito longe e até em oposição da moda em voga do modelo de estruturas - dando aos atacantes o mote organizado das diversas opções possíveis e da sua decisão face ao movimento dos defensores permite que jogadores que ele nunca treinou, mas pela facilidade dos princípios apresentados, sejam capazes de interpretar eficazmente  a situação. Esta criação de diversas opções possíveis de oposição ao movimento dos defensores já foi também eficazmente utilizada por Bob Dwyer - utilizava 3 por jogada - na Austrália campeã mundial de 1991. No fundo, esta forma de jogar tem de surpreendente um "saber como começa mas não saber nunca como acaba".
Sendo a missão dos treinadores dos desportos colectivos a de preparar - fornecendo as devidas ferramentas - os jogadores para serem colectivamente eficazes, simplificar o processo da tomada de decisão é uma das suas obrigações. E quando os treinadores simplificam... os jogadores - e as equipas - são mais eficazes.
Como é que se defendem situações destas? Principalmente garantindo que os atacantes ficam no "pé de trás" em qualquer das fases ordenadas - formação ordenada ou alinhamento - perdendo assim o tempo ideal de acção numa demonstração evidente da importância decisiva destas fases e da necessidade do seu controlo. Depois, recorrendo a essa enorme dificuldade e exigência que é a defesa adaptativa, sendo capaz de ler os sinais adversários e reorganizar-se defensivamente em movimento.  
Créditos: as fotografias foram retiradas dos sites Rugby Site (1) e ROAR (artigo de Nicholas Bishop) (1,2,3)


terça-feira, 1 de agosto de 2017

NOVAS LEIS DO JOGO

A World Rugby juntou às Leis experimentais já em uso, novas alterações das Leis do Jogo que terão aplicação no Hemisfério Norte a partir de hoje, 1 de Agosto. Objectivamente estas alterações pretendem tornar o jogo mais fácil de entender por jogadores, árbitros e espectadores para além de aumentar a possibilidade de circulação da bola e velocidade do jogo. 
São estas as alterações recentes:
FORMAÇÃO ORDENADA
    1. Introdução (Lei 20.5 e 20.6 d)) - deixa de existir qualquer sinal do árbitro e quando após a sequência de vozes de construção a FO se encontrar estabilizada a bola pode ser introduzida - volta-se ao “antigamente” - de onde, aliás, nunca se deveria ter saído - com vantagem para a equipa que introduz que pode utilizar o “tempo” em seu favor e com prevalência da técnica sobre a força pura. O introdutor da bola, embora obrigado a lançar a bola numa linha paralela às linhas de ensaio, pode colocar o seu ombro exterior sobre a linha separadora da formação das duas equipas - ou seja, o seu corpo poderá ocupará a projecção do espaço correspondente ao tronco do seu pilar mais próximo, permitindo assim uma vantagem para a sua equipa de acordo, aliás, com o que estabelece o Código do Jogo ao escrever que “a equipa que introduz ou lança a bola deve sempre beneficiar de uma certa vantagem, embora, também aqui, seja importante que estas fases do jogo possam ser equilibradamente disputadas.”;
    2. Talonagem (Lei 20) - logo que a bola toque, dentro do túnel, no chão, qualquer jogador da 1ª linha a pode disputar com qualquer pé e um dos jogadores da 1ª linha da equipa introdutora deve procurar taloná-la. Ou seja, tendo a vantagem da introdução e da distância, a equipa introdutora não pode procurar a conquista da bola apenas pelo empurrão - um dos jogadores deve levantar um pé e procurar tocar na bola;
    3. Mãos na bola (Lei 20.9 b) - excepção) - o Nº 8 pode retirar, com as mãos, a bola dos pés dos seus Bases - segundas-linhas. Esta possibilidade que já se ia vendo na prática garante a continuidade do jogo, evitando a repetição de Formações Ordenadas;
    4. Formação Ordenada - número de jogadores - Numa forma de evitar abusos ou vantagens, as formações ordenadas sem contestação serão sempre jogadas em 8x8 mesmo que uma das equipas tenha menos de 15 jogadores; 
PLACAGEM (Lei 15.4 c)) 

    1. Placador - para jogar a bola o placador tem que estar de pé e só pode fazê-lo  do seu lado do campo e entrando pela “porta”. Esta alínea da Lei 15, ao tirar direitos ao placador, traduz uma alteração táctica importante e vai garantir uma maior continuidade de jogo ofensivo;

RUCK  (lei 16)
    1. Definição - passa a haver duas definições do ruck. Uma, como sempre - dois jogadores adversários em contacto com a bola, entre eles, e no chão. Outra, apenas para a situação de placagem, acabando assim com a possibilidade mostrada pela Itália contra a Inglaterra no último Seis Nações. No caso da placagem - placador e placado no chão - o ruck começa, com imediata definição de linhas de fora-de-jogo, logo que um jogador apoiado nos seus pés cobre a bola. Situação que vai permitir o início de um ruck com um jogador a cobrir a bola que pode já estar afastada, embora controlada, do corpo dos jogadores que se encontram no chão. A bola pode, desde que de imediato, ser jogada com as mãos até haver contacto com um adversário;
    2. Chutar a bola - num ruck um jogador não pode chutar a bola para a frente em direção não da área de ensaio adversária. O movimento de jogar com o pé fica assim restringido apenas á possibilidade de talonar;
ENSAIO DE PENALIDADE
    1. 7 pontos - os ensaios de penalidade passam a valer 7 pontos e deixam de ter tentativa de transformação;
LEI DA VANTAGEM
    1. Escolha - quando houver, numa situação de aplicação da lei da vantagem, uma sequência de faltas, o “capitão” pode escolher a que considera melhor vantagem para a sua equipa;
TEMPO DE JOGO
    1. Terminar o jogo - se houver uma penalidade com o tempo de jogo já terminado e a bola for chutada para fora, o alinhamento deve ser jogado. Significa que, com esta precisão e se o jogador pretender dar o jogo por terminado, terá que jogar a bola, dando-lhe um toque com o pé e chutando-a então para fora;
BOLA FORA
    1. Manter a bola em jogo - ao contrário de outras situações em que conta a posição da bola em relação ao plano da linha e não a posição dos pés do jogador - bola fora dos 22m ou área de ensaio e pés dentro dos 22m ou área de ensaio, tudo se passa como se a bola fosse transportada para dentro dos 22 ou da área de ensaio - nas bolas fora se um jogador saltar com os pés dentro do campo e tocar a bola - mesmo que ela tenha ultrapassado o plano da linha - para dentro do campo, mantém-se a continuidade do jogo. Esta decisão facilita o jogo em situações de pontapés cruzados em que, muitas vezes o jogador salta para fora do terreno e, no ar, joga, apenas com uma mão, a bola para dentro do terreno para ser apanhada por um companheiro.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

MEIAS-FINAIS DO SUPER RUGBY 2017

As meias-finais do Super Rugby foram dois excelentes jogos com a curiosidade - veja-se o quadro dos Dados Estatísticos - de mostrarem vantagens assimétricas para os vencedores de cada jogo. Afinal que características estabelecem a diferença e conduzem à vitória? Olhando para o quadro, só há uma resposta possível: a marcação de pontos! Ou seja, é o aproveitamento mais eficaz das oportunidades criadas que caracteriza a vitória.
No jogo entre os neozelandeses dos Crusaders e dos Chiefs a vitória confortável por uma diferença de 14 pontos e 3 ensaios e com uma quota de pontos marcados de 68%, pertenceu à equipa que menos posse de bola teve (33%), menos ocupação de território conseguiu (30%), menos passes fez (98), menos ultrapassagens da linha de vantagem teve (26 contra 68) e apenas realizou metade das rupturas (7) na linha de defesa adversária. Como conseguiu a vitória? Aproveitando as oportunidades que teve para marcar 4 ensaios a que juntou uma defesa de ferro, realizando 156 placagens num total de 186 tentativas para um sucesso de 84%, sofrendo apenas 1 ensaio - o que demonstra uma notável capacidade defensiva alicerçada numa permanente boa leitura com rápida e pressionante subida em defesa e adaptação imediata aos propósitos do ataque e com uma reorganização adequada em movimento, cobrindo-se e apoiando-se uns aos outros numa demonstração de esclarecido domínio da scramble defense.
Pelo contrário e no jogo entre os sul-africanos dos Lions (finalistas de 2016) e os neozelandeses dos Hurricanes (vencedores do Super Rugby 2016), a vitória pertenceu à equipa que mais posse de bola (70%) e ocupação de território teve (71%) e que, embora com menos rupturas conseguidas (10), marcou 6 ensaios contra 4 sofridos para uma quota final de pontos marcados de 60% e uma diferença confortável de 15 pontos. Curiosamente teve uma defesa pouco eficaz com apenas 50% de taxa de sucesso - os seus jogadores, em 44 hipóteses, apenas placaram efectivamente 22 vezes - mas que foi suficiente para parar a criatividade dos neozelandeses que, aliás, se mostraram demasiado impacientes e um pouco desastrosos com erros de controlo e falhanços de passes. A vencer a dois minutos do intervalo por 22-3, os Hurricanes não conseguiram - eventualmente por incapacidade de adaptação à altitude (o jogo realizou-se nos 1750 metros do Ellis Park) - suster a avalanche sul-africana da segunda parte. Se a estas predisposições - a intensidade sul-africana e a dificuldade dos neozelandeses em lidar com a falta de oxigénio - juntarmos o cartão amarelo imposto a Beauden Barrett por ter, ao pretender retirar-se da posição de fora-de-jogo, impedido o adversário de manter a posse e jogar a bola, teremos algumas ideias sobre o que se terá passado dentro do campo na fatídica segunda parte. A jogar contra 14, os Lions aproveitaram os dez minutos para marcar 17 pontos e tomar conta do jogo - com o outro Barret, ainda por cima, a desperdiçar a oportunidade de empatar 32-32 ao falhar uma penalidade.
Destes dois excelentes jogos ficam alguns pontos notáveis:
  • os passes heterodoxos feitos por jogadores das diversas posições a demonstrar que, cada vez mais, está em vigor o princípio de Barry John de "atira que eu agarro", facilitando, pelas linhas de corrida convergentes, a vida ao passador e possibilitando uma cada vez maior fluidez na continuidade do movimento;
  • o jogo ao pé para dentro do campo e suficientemente comprido e apoiado por uma organização que, subindo, pretende obrigar o adversário a chutar muito cedo e colocar-se em inferioridade numérica - porque os seus companheiros estão em posição de fora-de-jogo - e aumentar assim as possibilidades de contra-ataque;
  • a defesa a demonstrar-se muito pressionante e cada vez mais adaptável, antecipando os movimentos adversários, cortando linhas de passe e obrigando o adversário a tempos de paragem com passagem pelo solo e conquistando assim tempos de reorganização;
  • a não desistência dos defensores que, apesar de aparentemente batidos, continuam a lutar - sem esta atitude não há scramble que resista - para impedir o progresso do adversário. Vejam-se as causas do ensaio de Israel Dagg contra os Chiefs;
  • a demonstração de que a criatividade cria problemas insolúveis às defesas como no segundo ensaio dos Hurricanes em que, a partir de um alinhamento e com o ponta Milner-Skudder a receber a bola - atenção que vai penetrar! - Beauden Barret com uma corrida larga e por trás dos seus centros a mostrar uma impressionante aceleração ao endireitar a corrida logo que teve a bola nas mãos e, atacando o intervalo entre o centro e o ponta adversários, obrigando-os a convergir, para entregar o ensaio de bandeja ao seu ponta Goosen. Lindo de ver! De levantar um estádio!
  • a enorme vantagem de uma equipa coesa. A recuperação dos Lions, baseada numa atitude colectiva de grande capacidade competitiva, só é possível numa equipa com grande coesão. A maioria dos jogadores dos Lions joga junta há 3/4 épocas...
  • as Leis do Jogo são para cumprir. Quer num jogo, quer noutro, os árbitros tiveram intervenções que tiveram influência nos resultados finais. No jogo entre neozelandeses e já com o chutador preparado para iniciar a corrida para a tentativa aos postes, o TMO anunciou que não estava confortável com a decisão de validação do ensaio. Vistas e revistas as imagens pôde tirar-se a conclusão de ter havido - mínimo, por um pelinho - um adiantado que invalidava o ensaio. Primeira forma, decidiu o árbitro e formação ordenada no local da falta. E tudo parecia já preparado para o passo seguinte, no entanto... a verdade do jogo mandou voltar atrás. No jogo de Joanesburgo, aos 58' e quando os Hurricanes já faziam das tripas corações, Beauden Barrett,  ao pretender retirar-se da posição de fora-de-jogo num ruck de domínio adversário, arrastou, eventualmente de forma inadvertida, a bola, retirando ao adversário a possibilidade de a utilizar. Acidental mas com prejuízo para o adversário, terá pensado o árbitro. E se o pensou melhor agiu e mostrou o cartão amarelo ao abertura Hurricane, dando disso conta ao capitão de equipa. Nos dois casos o mesmo princípio: as Leis do Jogo são para cumprir! E essa coisa do casual ou acidental só existe se não houver prejuízo para o adversário. Porque a realidade é esta: houve ou não prejuízo? Se houve, a compensação é necessária. E como houve, houve também compensação: penalidade e cartão.
Agora é esperar pelo próximo sábado para - e de novo no Ellis Park - assistir à final entre os Lions e os Crusaders. Favoritos? Ambos como diria o Outro. Mas a Rugby Vision de Niven Winchester (neozelandês, economista no MIT) aposta na vitória dos Lions por 6 pontos de diferença e com 66,8% de hipóteses. Veremos se Kieran Read e o capitão Sam Whitelock estarão pelos ajustes. 

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