sábado, 25 de julho de 2020

O RUGBY É COMO A GUERRA...


DE PEQUENINO...


domingo, 21 de junho de 2020

O AOTEAROA SUPER RUGBY

Realizadas duas jornadas do Super Rugby Aotearoa (Nova Zelândia em maori) fica a certeza do notável trabalho de preparação realizado pelos responsáveis das equipas. Com dois meses de paragem e um de preparação e também sem quaisquer jogos de adaptação  — no fundo tal e qual o sucedido no futebol português — veja-se o elevado nível de intensidade e qualidade técnica atingidos (e compare-se com o futebol português em que os jogadores se mostram longe da forma habitual e em que o jogo parece desenrolar~se entre o parado e o quieto). A metodologia processual utilizada mostra-se eficaz e deveria ser analisada. Porque o resultado é eficaz: tempo útil de jogo elevado e intenso, resolução técnica dos problemas e demonstração de qualidade colectiva com o apoio a garantir, em bola para dentro, bola para fora, a continuidade do movimento. Muito interessante.
Tecnicamente os jogos aproximam-se do melhor nível: em quatro jogos a média de formações-ordenadas foi de 7,5 ( 6+9+10+5) com qualquer jogo abaixo do número habitual e com a curiosidade da primeira formação entre Chiefs e Blues ter acontecido apenas aos 25’ da primeira parte. O número de ensaios foi de 19 (5+6+2+6) para alegria dos milhares de espectadores que, encontrando-se a Nova Zelândia na fase I da pandemia, já puderam assistir aos jogos ao vivo. Como curiosidade o facto de os quatro jogos terem sido vencidos pelas equipas que tiveram menor posse de bola e menor domínio territorial. Como facto estranho — talvez que os ataques ainda não consigam desenvolver-se com a velocidade suficiente para não permitirem a desmultiplicação defensiva, o facto de as equipas derrotadas, com excepção dos Crusaders, terem conseguido um maior número de ultrapassagens da linha-de-vantagem. 
A maior dificuldade das equipas mostrou-se na adaptação ao rigor das arbitragens que receberam instruções para não facilitar nas situações de breakdown e de foras-de-jogo. E aí sim, houve um número exagerado de penalidades mas foi visível o facto de que, logo que este rigor esteja assimilado pelos jogadores, que o jogo vai ser mais fluído e por isso mais interessante. De facto a forma como os árbitros deixavam subir as defesas em nítidas posições de fora-de-jogo, não permitia desenvolver o jogo atacante — e já deu para perceber a diferença...
No jogo de ontem entre os Hurricanes e os Blues choveu o suficiente para dar cabo de qualquer jogo — não se notou, os passes tinham quase a qualidade habitual embora daí tivesse resultado um maior número de adiantados de todos os jogos das duas jornadas.
O obrigatório jejum começa a estar, com estes jogos, minorado e o prazer de ver bem jogar tem sido enorme.Pena é que a SportTV apenas transmita um jogo por semana, o de sábado — o que significará que apenas veremos os Crusaders daqui a quinze dias...      

quinta-feira, 11 de junho de 2020

PORQUE NADA ALTERAM AS ALTERAÇÕES?

"Só se deveria jogar quando fosse 100% seguro"
Rafael Nadal, tenista

Porque é que as alterações às Leis do Jogo propostas pela World Rugby nada alteram?

Por uma razão simples: porque não eliminam o risco de infecção — ou sequer diminuem — não passando assim de areia atirada aos nossos olhos para contrabandear uma outra coisa.

De facto estas propostas de alterações têm um único objectivo: aumentar o tempo de jogo útil. Porque o que realmente resulta não é mais do uma diminuição do número de repetições de FO — algumas atingem 3' — ou das possibilidades da sua escolha  e uma proposta de um outro tipo de Maul que permitirá um jogo mais dinâmico e, logo, mais interessante para os espectadores.

Então isso, só por si, não altera nada? Altera...

...mas não altera nada do que era suposto alterar: a criação condições para que o Rugby seja jogado na actual situação de pandemia do COVID-19.

Ou seja, a World Rugby — nunca clarificando que jogar Rugby representa um enorme risco na actual situação — serviu-se de um truque baixo para nos enganar.

Sabendo que todos nós — jogadores, treinadores, dirigentes, agentes —  estamos ansiosos por ver o jogo voltar, lançou-nos uma armadilha em que alguns, eventualmente mais distraídos, caíram.

Analisando as alterações propostas tendo como pano de fundo a pandemia COVID-19 e as suas consequências, percebemos que não valem nada porque não servem o objectivo principal que permitirá abrir os campos ao rugby: redução absoluta do risco de infecção.

E continua claro como água pura que o rugby não é jogo possível sem que os casos infecciosos atinjam, pelo mundo fora, o nível zero. Porque, para além da infecção por infectados existe o tenebroso inimigo dos assintomáticos — aqueles que, não fazendo a mínima ideia que estão infectados, são "transmissores clandestinos". Que sendo desconhecidos, são os mais perigosos. A Organização Mundial de Saúde é clara: os jogos de contacto são de Alto Risco!

E agora imagine-se o que se pode passar dentro do campo de um jogo de permanente contacto em placagens, formações-ordenadas, mauls ou rucks...

Claro que existem excepções para esta impossibilidade de jogo. São excepções de grupos de elite, altamente profissionalizados que se podem organizar por forma a garantir todos os necessários controlos para detectar, junto de todos os intervenientes e das suas famílias, eventuais infectados. O que exige uma enorme capacidade organizativa e financeira das organizações desportivas...

De facto, não vale a pena, enquanto a situação pandémica não estiver controlada, analisar as propostas da World Rugby porque elas pertencem a um outro quadro. O importante mesmo é salvaguardar possíveis cadeias de transmissão, não autorizando a abertura da enorme maioria dos jogos da modalidade.Porque a saúde colectiva está primeiro!...

terça-feira, 2 de junho de 2020

ALTERAÇÕES QUE NADA ALTERAM

COVID_19 Temporary Optional Law Trials, May 2020
As 10 Leis Opcionais Temporárias propostas pela World Rugby para fazer face à COVID-19, para além de mostrarem o princípio do fim do maul, não resolvem o problema fundamental: o jogo do Rugby não é — por mais que nos possa custar — compatível com a existência de possíveis infecções que se transmitam pelo ar que respiramos. Ou seja: o Rugby que conhecemos não pode e não deve ser jogado antes da existência de vacinas ou medicamentos que controlem a propagação da COVID-19 com excepções de poucos casos pontuais. Casos esses que exigem um controlo constante, testando sistematicamente os protagonistas em momentos muito próximos do jogo e obrigando, provavelmente, a pedidos de quarentena de todos os agentes intervenientes. Situação, portanto, só possível para grupos restritos e determinados, isto é, para um reduzido grupo de Alto Rendimento que, jogando em estádios sem público, verão o seu jogo ser transmitido para as televisões de todo o mundo, potenciando assim receitas que ajudarão a modalidade a ressurgir no pós-pandemia. É o que vai acontecer na Nova Zelândia a partir do dia 13 de Junho com 5 equipas constituídas pelos melhores jogadores neozelandeses — as "franquias" — a disputarem um torneio designado por Super Rugby AOTEAROA que durará 10 semanas com 20 jogos, envolvendo entre 150 a 200 jogadores num universo de 150 mil jogadores e num país que, até agora, teve apenas 4 óbitos por milhão de habitantes (em Portugal existem, para o mesmo milhão de habitantes, 141 óbitos).

A World Rugby que tem produzido alguns documentos normativos para o retorno do jogo, decidiu através do seu grupo Law Review Group, introduzir 10 alterações experimentais às Leis do Jogo para o adaptar à actual situação pandémica. Mas não creio que tenham conseguido alterações eficazes — se é que, mantendo o jogo como o conhecemos e para além de um ou outro pormenor, o jogo pode ser adaptado... porque:
  • A Formação Ordenada, ultrapassando a visão imediatista de uma prova de força, é essencial para, juntando 18 jogadores dos 30 em campo numa reduzida área, permitir terreno livre para que os ataques tenham espaços para ultrapassar as defesas — e é por assim ser que se considera que uma equipa capaz sabe ser eficaz no 1º tempo de jogo. Mas a Formação Ordenada é também o principal factor de risco numa situação como a actual — de facto, 14 jogadores respiram o ar uns dos outros a poucos palmos de cada cara;
  • Afirma a World Rugby que, com as suas propostas, diminuirão o número de Formações Ordenadas. Claro que sim uma vez que não se efectuarão repetições de FO (substituídas por pontapés-livres), não haverá opções por FO nos pontapés de penalidade ou livres nem haverá FO a 5 metros da linha-de-ensaio por eficácia defensiva sobre o portador da bola ou por este ter deixado cair a bola substituída por um pontapé-de-ressalto sobre a linha-de-ensaio — por acaso idêntica ao Rugby League...).
Mas estas alterações não retirarão a FO do jogo, portanto, mais do que fazer diminuir o risco de contágio, limitam-se a diminuir o desgaste físico dos avançados... Ná... o elevado risco de contacto com infectados continua lá.

E inventaram ainda um "pé-travão" do talonador cuja função é, dizem, equilibrar a formação-ordenada — não percebo a função (uma vez que continuam a existir pilares) e, pior!, não vejo como poderá ser arbitrado, tornando-se mais uma zona de discricionariedade. E também receio que venha a provocar lesões ao único jogador que tem, para além de exercer força, a obrigatoriedade de se movimentar.

Para evitar o contacto provocado nos Mauls, principalmente nos Alinhamentos, propõem que só possam formá-lo os jogadores que já lá estejam... De imediato se pode perceber que 4 jogadores estão em condições de pertencer ao Maul... mas um 5º jogador torna-se em mais um problema para o árbitro: chegou antes ou só depois? Tacticamente este conceito vai estabelecer, através de um inicial "pass and go" uma série de rucks porque será necessário concentrar jogadores defensores. Dir-se-á: é mais interessante do que o fu...ing rucking maul. Certo, mas o contacto próximo e com duração não foi evitado... e o vírus pode estar lá.

E já não vale a pena falar no Cartão Laranja porque exige vídeo-árbitro e não se aplicará aos jogos em Portugal. Já a designada choke-tackle — essa espécie do velhíssimo "tenu"  — uma situação que tem por objectivo manter o portador da bola de pé para que possa ser criado um maul mas, com a bola "asfixiada", isto é, não jogável, procurando a equipa defensora conquistar a introdução da bola na FO subsequente e que pretendem que passe a placagem para obrigar o portador da bola a jogá-la ou largá-la, faz-me uma enorme confusão. Não lhe vejo utilidade: se agarrar ao pescoço, gravata, é falta; se o agarrar daí para baixo só se torna placagem, de acordo com as Leis do Jogo, se o portador-da-bola e placado forem, conjuntamente, ao chão. Então para quê mais confusão?

De todas estas pretendidas alterações ressalta, para além do sofisma em que assenta, uma evidência: o resultado dos jogos vai ficar mais dependente do critério dos árbitros. O que é um disparate! Vale que deverão ter a vida curta: a Nova Zelândia, a Inglaterra e Gales já disseram que não aplicarão nenhuma das propostas.

Espero que aqui em Portugal também não sejam aplicadas — porque induzem a uma falsa sensação de segurança e a realidade deve ser esta: o Rugby não pode ser jogado enquanto o controlo da pandemia não for absoluto. Para bem de todos e da nossa saúde.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

ÉPOCA 2019/2020 TERMINADA

Tabela classificativa da Divisão de Honra à 6ª (e última) jornada disputada
A Federação Portuguesa de Rugby decidiu, à semelhança do que já havia feito para as competições femininas e escalões de formação a 10 de Abril p.p., dar por terminada a época 2019/2020 sem atribuição do título de campeão. Fez bem! Como disse já, vai para semanas, o médico responsável clínico do Comité Olímpico, dr. Gomes Pereira: "A pessoa vem em primeiro lugar, só depois o atleta".

No entanto existem dirigentes que querem que o campeonato se dispute até ao fim, argumentando que os atletas são jovens e saudáveis e podem jogar - mas, problema!, não são imunes (segundo os jornais, um jogador do Sporting, testado recente, confirmou positivo)...

De facto o grupo etário dos 20 aos 29 anos —o grupo ao qual pertencerão a maior parte dos jogadores seniores —  não tem óbitos conhecidos motivados pelo COVID-19 mas tem infectados e com os seus 2937 casos confirmados é superior ao grupo etário 70/79 — o meu — que, embora tendo óbitos como é natural dada a maior fraqueza das suas defesas, tem 2227 casos confirmados de infecções. O que significa que o grupo 20/29, não sendo um grupo de risco mortal, está, como é óbvio, sujeito à infecção e é, também, um grupo com elevado grau de transmissão do vírus. E que, se houvesse jogos, estaria em permanente contacto com outros agentes que formam o todo equipa. Portanto as pretensas auto-defesas que por aí se evocam, não têm evidência de sustentabilidade principalmente quando uma das características do vírus é o de poder ser transportado sem manifestações de sinais de infecção. Ou seja é um inimigo perigoso, sem rosto e sem localização imediatamente perceptível. Disso mesmo se terão dado conta outras federações de modalidades colectivas — Andebol, Basquetebol, Voleibol e Hóquei em Patins — que em reunião de 29 de Abril p.p decidiram "dar por terminadas as competições nacionais de seniores da época 2019/2020", não sendo atribuindo qualquer título de campeão nacional em qualquer das categorias destas modalidades.

Em França, com números no geral muito elevados mas que comparativamente não estão longe dos portugueses em casos confirmados — 2550 casos por milhão de habitantes para a França e, para Portugal,  com 2456 casos para o mesmo milhão de habitantes — havendo também quem queira recomeçar já os campeonatos, fazendo, por serem clubes profissionais e com grandes despesas mensais, enormes pressões para o seu reinício, Outros clubes, também de primeiro nível, pretendem, ao contrário, iniciar a próxima épocaapenas  em Dezembro ou Janeiro, uma vez que o grupo de médicos dos clubes do TOP 14 consideram ser, depois de uma paragem que já vai em 8 semanas e na actual situação,  necessário uma preparação mínima de 15 semanas antes de qualquer competição, podendo assim garantir o controlo necessário para não colocar em perigo a saúde dos jogadores. E se há problema da qualificação para as Taças europeias que se colocam aos clubes franceses que vêem no retorno financeiro da sua participação a possibilidade da sua saúde económica, o nosso campeonato apenas qualifica para a Taça Ibérica que não tem qualquer vantagem económica imediata. E a continuidade da participação é facilmente resolúvel. Por que não um fim‑de‑semana com quatro equipas de cada país a realizarem dois jogos cá e dois em Espanha com o objectivo de proporcionar a jogadores possíveis internacionais um nível competitivo mais elevado? Como qualificar?! Pela ordem da actual classificação, pelos melhores quatro clubes dos últimos três, cinco ou sete anos, pelos clubes com mais internacionais dos últimos três anos. Critérios não faltam E o próximo campeonato só recomeçaria depois de uma cuidada preparação, podendo até ser a época iniciada pela Taça de Portugal, num processo organizativo próximo do utilizado nas competições de Sevens,

Facto, facto é este: o rugby é um desporto colectivo de combate com grandes esforços de grande proximidade entre jogadores companheiros e adversários. Ou seja não tem, nem jogos, nem treinos compatíveis com a distância física recomendável. Portanto e para que haja treinos colectivos absolutamente necessários — não se trabalham formações, alinhamentos, recuperações de bola ou placagens? — é preciso que atinjamos um patamar muito mais favorável em termos pandémicos.

Mas o futebol vai jogar, ouve-se já com ar de crítica ao que chamam descriminação. Pois vai. E se pode, com as possibilidades financeiras que tem, garantir o controlo aparente dos jogadores coisa que, por mais que inventem, o rugby português  pura e simplesmente, não tem, já não consegue garantir, mesmo jogando à porta fechada, que a paixão e o sentimento clubista não vão ampliar as infecções e contribuir para uma dramática segunda vaga …— perguntem em Milão e em Liverpool o que aconteceu através dos adeptos do futebol... Por isso também me manifesto contra a bravura do futebol, mesmo à porta fechada, situação que não garante o afastamento dos adeptos. A transmissão televisiva se for como até hoje, vai juntar adeptos onde houver uma televisão disponível, se for de sinal aberto para evitar ajuntamentos não haverá receitas para os clubes — como se resolverá esta contraditória situação? Deixando o dinheiro comandar, não vai acabar bem...

Não! o rugby deve — como a Federação decidiu — terminar a época 2019/2020 e pensar clara e organizadamente como pode preparar e planear a nova época, proporcionando melhor qualidade de jogo, maior competitividade e preparando-se para os melhores resultados internacionais que abram caminho pretendida qualificação para o Mundial de França.

Para que não haja qualquer dúvida sobre a situação em que estamos envolvidos, transcrevo a legislação em vigor:
"Artigo 5.º da Resolução do Conselho de Ministros nº 33A/2020 Instalações e estabelecimentos encerradosSão encerradas as instalações e estabelecimentos referidos no anexo I ao presente regime e que dele faz parte integrante. 
ANEXO I(a que se refere o artigo 5.º)3—Atividades desportivas, salvo as destinadas à atividade dos praticantes desportivos profissionais e de alto rendimento, em contexto de treino: Campos de futebol, rugby e similares; Pavilhões ou recintos fechados; Pavilhões de futsal, basquetebol, andebol, voleibol, hóquei em patins e similares; Campos de tiro cobertos; Courts de ténis, padel e similares cobertos;  Pistas cobertas de patinagem, hóquei no gelo e similares; Piscinas cobertas ou descobertas; Ringues de boxe, artes marciais e similares; Circuitos permanentes cobertos de motas, automóveis e similares; Velódromos cobertos; Hipódromos e pistas similares cobertas; Pavilhões polidesportivos; Ginásios e academias; Pistas de atletismo cobertas; Estádios." 
No mesmo dia e na Resolução do Conselho de Ministros nº33-C/2020 fica claro que a partir do dia 4 de Maio e no domínio Desporto são apenas autorizados "a prática de desportos individuais ao ar livre"  e, a partir de 30/31 de Maio o Futebol na especificidade de "competições oficiais da 1ª Liga de futebol e Taça de Portugal".
Portanto tudo é claro — lembre-se que a anterior legislação produzida desde 20 de Março diziam o mesmo que esta que se cita  — o rugby não está autorizado a realizar jogos e os seus campos ou estádios estão encerrados. Ponto!

Pretender realizar proximamente os restantes jogos do final do campeonato é, para além de ilegal, uma demonstração de ignorância da situação em que nos encontramos. E o interesse não se pode sobrepor ao velho conceito camoniano de que "outro valor mais alto se alevanta": a protecção da saúde de todos nós. E o rugby, o jogo do rugby, não permite garantir a distância física de protecção, sendo portanto perigoso enquanto actividade. Se no futebol estão formalmente proibidas as "rodinhas" como se poderiam realizar formações ordenadas, alinhamentos, rucks ou placagens com o primeiro apoiante a pretender apanhar a bola criando, em todas as situações, uma proximidade de respiração praticamente em cima da cara de companheiros e adversários. Felizmente, bem andou a Federação ao dar por terminados os campeonatos.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

RUGBY NO COLÉGIO MILITAR


O Rugby é, como gosto de o definir “um jogo colectivo de combate organizado para a conquista de terreno com o propósito de marcar ensaios” e que tem duas características muito próprias: a bola, que é oval, não pode — uma primeira particularidade — ser passada para a frente, podendo, no entanto, ser chutada e — segunda particularidade — podendo o seu portador ser placado, acto em que, se agarrado, é derrubado até entrar em contacto com o solo.

Estas duas características impõem um conjunto de princípios estratégicos fundamentais que formatam as tácticas do jogo e que são:
 AVANÇAR SEMPRE! contrariando, pelo transporte da bola e porque o “objectivo ensaio” está lá à frente, a obrigatoriedade da regra do passe;
 APOIO, absolutamente necessário quando se pode ser placado no transporte da bola, compondo uma espécie de “corrida de estafetas: chegaste até aí, passa! que eu levo-a até ali” que a eficácia do jogo procura;
 CONTINUIDADE para garantir que é possível, articulando passe e transporte da bola, o movimento encadeado de uns e outros para avançar e conquistar terreno, “indo até lá ao fundo”;
 PRESSÃO, se atacante para obrigar os defensores a encurtarem a largura da sua linha defensiva e permitirem a utilização de espaços tornados livres, se defensiva, retirando espaço e tempo de decisão aos atacantes.
Para um uso eficaz da bola depressa se aprende que no combate, como ensinava Nuno Álvares Pereira no seu conceito estratégico essencial, a manobra deve prevalecer sobre o choque (1). Mas também se aprende a necessidade de camuflar até ao limite a decisão que se vai tomar — razão principal da exigência do transporte da bola em “duas mãos”. E, também rapidamente, se compreende que é o colectivismo e a coesão dos membros da equipa na estratégia e nas tácticas, que produzem a eficácia pretendida, reconhecendo-se, também desde logo, que o valor global da equipa depende do nível do(s) seu(s) elemento(s) mais fraco(s) — o que obriga a um treino de desenvolvimento técnico e táctico constante, equilibrado, objectivo e permanente. Individual e colectivo.

De alto espírito colectivo e subordinado ao conceito — que a nós, Colégio, diz tudo — de “cada um por todos”, num nós sempre superior aos eus e com as características técnicas e regulamentares que o definem, não admira que a americana West Point, formalizada como United States Military Academy em 16 de Março de 1802 (um ano antes da também formalização do nosso Colégio), tenha, em 1965 e dez anos antes da formalização da Federação Americana de Rugby, inserido o Rugby na sua componente desportiva curricular. A justificação do interesse militar pelo jogo pode centrar-se na explicação do ex-Conselheiro de Segurança Nacional de Trump — cargo aceite por “sentido militar do dever” como justificam amigos(2) — e antigo três-quartos ponta do anos oitenta da equipa de West Point, Tenente-General HR McMaster: “Para vencer no Rugby, é preciso estar comprometido com cada um e trabalhar em conjunto, jogando juntos como uma equipa. E isso é o que o combate exige. Exige treino duro sob as mais difíceis condições porque só assim se constrói confiança — confiança nas suas capacidades técnicas, confiança na sua equipa. Essa confiança é o que permite em combate ultrapassar o medo, assumir o risco e tomar a iniciativa. Trata-se acima de tudo de fazer alguma coisa inesperada, explorando as vantagens conseguidas com rápidos movimentos e decisões, actuando em conjunto. Uma operação de cavalaria em combate assemelha-se bastante à forma como uma equipa de rugby joga colectivamente.”(3), acrescentando ainda: “Uma boa equipa de rugby une-se sempre dentro e fora de campo para apoiar um companheiro que caiu.”(4). E assim se explica a relação entre o jogo e o combate.

Depois de ter — após a saída do Colégio — conhecido o Rugby e pelas evidências então reconhecidas, nunca percebi porque não estava inserida a modalidade nas nossas práticas desportivas colegiais. Ajudaria a exemplificar os nossos princípios.

No entanto e graças à notável qualidade e diversidade do sistema de ensino da Educação Física e da Prática Desportiva que o Colégio nos fornecia, muitos de nós dedicaram-se ao Rugby sem qualquer dificuldade de adaptação. E constituímos, apesar de se tratar de uma modalidade desconhecida e num interessante caso de aprendizagem adulta, o maior número de antigos alunos internacionais —18 — de uma selecção principal sénior de Portugal em qualquer modalidade desportiva colectiva.

Tudo começou em 1965 - altura do retorno de Portugal às competições internacionais de Rugby interrompidas desde 1954 — com as primeiras selecções de Carlos Pardal, 100/47, Manuel Castelo Branco (Ponte), 384/54 e Luís Matos Chaves, 195/54, continuando-se por 1966 com Pedro Lynce de Faria, 21/54 e Luís Lynce de Faria, 27/57; em 1967 com Júlio Magalhães Faria, 219/54; em 1968 com Nuno Lynce de Faria, 490/58; em 1969 com João Paulo Bessa, 200/57 e Francisco Lucena, 405/58; em 1972 com António Duque, 12/58; em 1973 com José Spínola de Brito, 539/63; em 1974 com Carlos Moita, 392/65; em 1979 e depois de um interregno de representações internacionais de 5 anos, com Olegário Borges, 354/63, Duarte Lynce de Faria, 446/70 e Carlos Duarte Ferreira, 398/64; em 1981 com Vasco Lynce de Faria, 21/60 e em 1986 com Ricardo Durão, 23/70 e António Moita, 214/71. Destes internacionais foram ainda treinadores-seleccionadores da selecção principal de Portugal o Pedro Lynce de Faria, o João Paulo Bessa, o Olegário Borges e o Vasco Lynce de Faria.

Aquando da sua passagem como Director do Colégio — lançando, no que tive a oportunidade de participar, a obra de colocação do tapete de relva artificial no campo de futebol e a construção de inovadoras balizas que suportam os postes que a modalidade exige — o Major-General Raúl Passos, decidiu proporcionar a prática do Rugby aos alunos do Colégio. Como resultado da infraestrutura criada e da aprendizagem que foi permitindo — já há alunos a jogar em equipas juvenis federadas — realizou-se no passado mês de Dezembro, o 1.º Torneio Colegial de TagRugby. Tratou-se de uma iniciativa que ocupou uma tarde e uma manhã de dias semanais consecutivos em que os participantes voluntários do 4.º ao 12.º ano tiveram — numa decisão louvável de reconhecimento da importância educativa da prática desportiva — dispensa das aulas curriculares.
@s alun@s participantes antes da entrega de prémios      foto:jpbessa
Este 1.º Torneio, muito bem organizado por uma equipa coordenada pelos Professores Nuno Leitão e Nuno Fradinho, contou, marcando a sua importância pedagógica, com a presença oficial do actual Director do Colégio, Coronel António Salgueiro, bem como com os antigos internacionais que responderam ao convite feito, António Duque, Carlos Duarte Ferreira, António Moita e eu próprio e teve a participação de 372 alun@s representando na sua totalidade 65,5% dos 568 alun@s que poderiam fazê-lo dos quais 241 eram raparigas (63,5% das alunas possíveis), constituindo 61 equipas mistas de 5 jogador@s de campo para realizar um total de 183 jogos que formataram a competição operacionalizada em diversos terrenos-de-jogo de dimensões reduzidas e proporcionadas à dimensão das equipas em presença.

Embora e como jogo de iniciação o TagRugby não tenha placagens — controla-se o portador da bola retirando-lhe a fita de tecido que leva presa á cintura num gesto que conduz à postura corporal próxima da placagem — o que se viu foi muito interessante e demonstrativo de um bom início de apreensão dos Princípios Fundamentais do jogo, mostrando que há enormes potencialidades para a prática competitiva da modalidade, nomeadamente no seu carácter representativo.

Será aliás uma das enormes vantagens do Clube desportivo em criação que, logo que formalizado, permitirá que equipas masculinas e femininas colegiais de Rugby possam competir nas provas federadas dos respectivos escalões etários. E com a “atleticidade” que possuem e a coesão que transportam não é difícil de admitir que as equipas colegiais possam, com prestações de alto nível, tornar-se “casos sérios” da modalidade — nomeadamente e por razões óbvias que o ecletismo desportivo curricular dita, nas equipas femininas que, hoje em dia, constituem um notável fenómeno de crescimento no Rugby mundial, disputando já provas de dimensão europeia, mundial e olímpica. E então, quer rapazes quer raparigas, irão, com orgulho e certeza de todos nós, ampliar a lista de rugbistas internacionais absolutos oriundos do Colégio Militar. O que será bom para o Rugby português e prestigiante para o nosso Colégio.

Notas:
(1)- Bessa, Carlos, “Batalha dos Atoleiros, seu carácter precursor em Portugal”, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1989
(2)- Keefe, Patrick Radden, “McMaster and commander”, The New Yorker, 30/4/2018
(3) - Pengelly, Martin, “HR McMaster on rugby: The Warrior Ethos is what a good team as”, The Guardian, 28/5/2018.
(4)- op.cit The Guardian
Uma curta explicação do jogo de Rugby

Texto anteriormente publicado em Zacatraz, Revista da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, Nº218 - Janeiro/Março 2020

sexta-feira, 10 de abril de 2020

BOA PÁSCOA

...dentro dos possíveis, o melhor.


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