segunda-feira, 24 de julho de 2017

MUITO PARA ALTERAR

Houve uma melhoria substancial na prestação competitiva da 4ª etapa do Grand Prix Series em relação às demonstrações competitivas das anteriores etapas.

Sendo a razão principal a maior coesão da equipa - não houve estreias e já havia, portanto, algum enraizamento - que provocou uma importante alteração de atitude, quer frente aos adversários quer de uns para com os outros com uma maior entreajuda colectiva. Mas houve também - e disso são os melhores resultados consequência - alterações na forma de jogar.

Ao contrário das outras etapas, nesta etapa de Exeter os jogadores portugueses sempre que tinham a bola “atacavam” a defesa, obrigando o defensor a preocupar-se, mais do que tudo, com o seu próprio corredor e a gastar depois mais energia - o deslize tem que ser feito a maior velocidade - quando precisava de desmultiplicar a sua defesa. Com esta forma de jogar, para além do cumprimento dos princípios e da geometria do jogo, há muito maiores hipóteses de explorar, em tempo útil, possíveis erros defensivos porque, jogando em cima, as hipóteses de romper a linha defensiva são maiores e mais difíceis de recuperar - os intervalos são mais difíceis de fechar e o espaço de penetração é superior. E ainda, ao contestar mais a defesa, possíveis erros nos movimentos dos adversários tendem a aparecer também em maior número.

Por outro lado e no que diz respeito à defesa, os jogadores portugueses mostraram bem a nítida preocupação de derrubar o portador da bola, procurando colocá-lo o mais rapidamente possível no chão - isto é, placando o portador da bola uma vez que só existe placagem se portador da bola e placador forem ao chão. Esta diferença provocou a possibilidade de mais recuperações de bolas mas, acima de tudo, permitiu que defesa colectiva se reorganizasse sem recuar demasiado, permitindo assim que a pressão sobre os atacantes fosse mais constante e, eventualmente, mais eficaz.


No entanto e apesar das melhorias e do 4º lugar conseguido, ainda há muito para fazer, para construir e para desenvolver e que não se compadece com a forma como a participação portuguesa foi preparada. De facto tivemos, em Exeter e comparativamente - como mostram os gráficos - com os adversários que obtiveram 50% de vitórias nos 6 jogos, a pior percentagem de quota de pontos marcados na relação da totalidade de pontos - 40% contra 49% da Espanha e 47% da Alemanha - e a pior diferença de pontos marcados/sofridos (-40 pontos que nos colocaram na 10ª posição entre os presentes no torneio inglês) de todos os 4º lugares do GPS dos anos de 2016 e 2017. O que demonstra, nas dificuldades da eficácia ofensiva e defensiva - marcamos ensaios a menos (porque usamos mal a bola ou porque não conquistámos as suficientes) e sofremos ensaios a mais (porque cometemos erros de coordenação da linha ou porque lemos mal os movimentos) - a distância a que nos encontramos do acesso a Mundiais e Jogos Olímpicos. Situação que apenas se resolve com determinação e visão estratégica dos dirigentes federativos e clubistas.


É aliás uma pena que os jogadores não sejam treinados/ensinados o suficiente nas questões técnico/tácticas individuais de maneira a que sejam suficientemente eficazes perante as situações que enfrentam. Fábio Conceição, por exemplo, mostra todas as condições para ser um caso sério no Sevens mundial mas a quem falta ainda um conjunto de ferramentas para poder ser um adversário temido e não ser trabalhado/ensinado é um desperdício desportivo que não é aceitável - os jogadores devem ter o direito de ser ajudados a atingir o máximo das suas capacidades. E as dele são elevadas.

Como também se percebe só de olhar, os Sevens exigem uma cada vez maior capacidade física que não é possível atingir apenas com os treinos. O que torna essencial a realização de torneios antes do GPS para garantir, para além da necessária coesão, consistência e experiência, a condição física que possibilite a constância de resultados e se assim não for por forma a garantir as classificações pretendidas.

Porque, de outra maneira e se assim não for, ficaremos sujeitos aos altos e baixos de uma sorte e de um azar. Dependendo mais dos outros do que de nós próprios.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ZÉ FILIPE NOBRE GUEDES (1946/2017)



Faleceu o Zé Filipe Nobre Guedes, meu amigo e meu companheiro na equipa do CDUL. Gostávamos do mesmo tipo de rugby - todas as bolas eram boas para atacar e o movimento da bola comandava tudo o resto - e depressa nos tornámos amigos.
Com 9 internacionalizações, foi o 71º jogador a vestir a camisola de Portugal e foi diversas vezes campeão nacional pelo CDUL. Foi, pela inteligência com que analisava o jogo, pela clara noção da importância da Linha de Vantagem, pela qualidade técnica - jogava a Nº8 com a facilidade e a fluidez de um Centro, tinha a elegância dos melhores em cada gesto técnico, chutava aos postes com a qualidade que nos daria vitórias, placava tudo o que fosse preciso e tinha eficazes linhas de corrida - o melhor - gosto de o dizer assim - jogador com quem joguei.
E não esqueço que, numa altura em que estava lesionado (rotura de ligamentos e 7 meses de canadianas) e que o Serafim Marques me tinha convidado para o ajudar - preparando as linhas-atrasadas - quando terminou o jogo que nos deu o título, atravessou o campo até ao "banco" para me dar um sentido e apertado abraço e agradecer-me o trabalho que tinha realizado. Depois, seguiu a minha carreira de treinador e, sempre que nos encontrávamos, falava-me dela e comentava resultados.
Quando esteve como dirigente no Sporting, encontrámo-nos diversas vezes e o rugby acabava sempre por prevalecer na conversa.
Ficarás guardado para sempre na minha memória, Zé Filipe. Um grande abraço e até sempre!
   

terça-feira, 18 de julho de 2017

OPORTUNIDADE DESTROÇADA

O quarto lugar conseguido pela selecção portuguesa de Sevens na 4ª e última etapa do Grand Prix Series disputado em Exeter - à frente dos já apurados para o Mundial 2018, Inglaterra e França e dos pressupostos adversários directos Espanha, Alemanha e Geórgia - veio demonstrar uma evidência: se preparada de forma adequada, a equipa portuguesa tinha todas as condições para uma participação competitiva de acordo com os objectivos desportivos pretendidos de acesso a Hong-Kong e/ou entrada na corrida ao Mundial de 2018.
Infelizmente a falta de visão e a existência, até, de preconceitos sobre a variante por parte dos responsáveis da modalidade a que a comunidade rugbística assistiu sem preocupações, tornaram impossível o cumprimento da missão portuguesa. E o resultado disso viu-se na posição final: um 8º lugar sem honra nem proveito.


O facto é este: foi por decisões erradas e falta de interesse da administração da modalidade - nomeadamente colocando o Portugal-Brasil de relativa importância num patamar que não merecia e que, apesar da desonrosa derrota, não teve quaisquer consequências no modelo seguido - e não por erros cometidos dentro do campo que Portugal não conseguiu melhor do que a 8ª posição num “europeu” que, à partida, lhe permitiria chegar bem mais longe. O que é grave, porque irresponsável, para uma área do Desporto de Rendimento onde, mais do que tudo, contam os resultados.
Esta falta de responsabilidade tem ainda duas consequências também graves:
  • diz-se que “o jogo de rugby pertence aos jogadores”, conceito que alerta para qualquer tomada de assalto que o possa desvirtuar e que coloca o jogador no centro da modalidade, como seu foco essencial de atracção. Quer isto dizer que todas as acções realizadas ou decisões tomadas devem ter sempre em atenção os jogadores e as consequências que os afectem uma vez que são eles que melhor expressam o interesse desportivo. Por isso e como exemplo, a introdução de “amarelos”, as preocupações sobre as concussões, a simplificação das regras para que haja uma perfeita compreensão das ilegalidades do jogo ou o aumento do valor dos ensaios - o momento mágico para que “vivem” os jogadores. No caso da participação portuguesa no europeu de Sevens - conhecida desde que os Sevens se organizaram - as decisões tomadas nunca tiveram em qualquer atenção os jogadores que poderiam estar envolvidos nos Sevens nem tão pouco o interesse desportivo da modalidade - que ultrapassa e muito o jogo dos pequenos interesses que estão sempre presentes. Foram decisões ou não-decisões (não)tomadas.
  • sabe-se, porque vem nos livros, que o “respeito” é um dos cinco valores exigidos para a prática do rugby. Ora as decisões (não)tomadas não tiveram qualquer respeito pelos jogadores. Que são amadores, que não recebem e que têm na possibilidade de participar em grandes provas - World Rugby Sevens Series, Mundiais ou Jogos Olímpicos - a recompensa para os seus sacrifícios. E esse respeito não existiu, deixando-se que tudo fosse tratado com o ardiloso livre arbítrio de uma qualquer zona de conforto.
E por tudo isso e sem razões que o justifiquem, a selecção portuguesa de sevens viu-se, durante as 4 etapas, a braços com 10 estreias absolutas e com 20 mudanças de etapa para etapa, nunca conseguindo uma equipa com a coesão necessária ao Alto Rendimento - repito o básico: a entrada da variante para o Movimento Olímpico modificou completamente a envolvente do jogo. O rigor é outro e as exigências são absolutas. Mas estas não devem ser preocupações nossas pois que e como parece, preferimos sempre actividades não mensuráveis e que dêem uma falsa ideia de progresso.

O Alto Rendimento exige uma gestão precisa e rigorosa com uma estratégia simples, clara e determinada. Os objectivos desportivos devem ser precisos, motivadores e adequados às capacidades da equipa e capazes de serem atingidos por mais do que uma via por necessidade de respostas a imponderáveis. E estarem sempre suportados por um apoio constante que facilite os caminhos a percorrer.
A selecção portuguesa de Sevens mostrou que tinha os jogadores com as técnicas e o conhecimento táctico necessário para se bater até ao fim pelos resultados pretendidos. Mas nunca se viu envolvida por uma estratégia motivadora ou eficaz e os seus dirigentes deitaram fora uma oportunidade irrepetível para relançar uma carreira internacional decisiva para garantir os retornos necessários à continuidade do desenvolvimento.
E o Desporto de Rendimento não vive de penas ou de remorsos… vive de factos transformados em resultados.


sábado, 15 de julho de 2017

SAFOS! E O FUTURO?

Está feito! Desta já nos safamos e não desceremos de divisão!

Com uma diferente atitude - positiva, agressiva, resiliente, apostada na vitória - os jogadores determinaram os resultados necessários para a manutenção nesta última etapa do Grand Prix

Mas esta boa nova não retira os erros monumentais que foram feitos na área da variante e que nos levaram à situação lamentável de termos estado a lutar pela manutenção. Conforme previsão atempada e a vitória contra a França, os resultados da Inglaterra ou a falta de comparência da Escócia, demonstraram à evidência, as equipas já apuradas para o Mundial de 2018 não iriam apresentar equipas constituídas pelos melhores jogadores mas iriam aproveitar a ocasião para dar experiência a novos jogadores. E isso significava que haveria - como se viu - uma diminuição do número de adversários acima do nosso nível normal, aumentando assim as nossas possibilidades para recuperar as posições internacionais perdidas e poder conquistar, nomeadamente, um lugar para Hong-Kong com o objectivo - única forma de conseguir uma posição competitiva internacional capaz de o fazer concorrente ás grandes provas mundiais como o Mundial e Jogos Olímpicos - de voltar a disputar as World Sevens Series.
Uma perneciosa falta de visão e de conhecimento sistémico da variante fizeram-nos vir escada abaixo. A preparação, descuidada e ligeira, sem condições deste Grand Prix Series, retirou-nos uma oportunidade de renascer perante um futuro cada vez mais difícil - a integração da variante no movimento olímpico acabou de vez com ideia de brincadeira de final de época para a colocar num patamar de exigências onde só o rigor, o trabalho desportivo e um cada vez maior conhecimento técnico, táctico e científico podem traduzir resultados positivos. Dados aos quais e sob o manto parolo de predestinados, pouco ou nada ligamos.
E agora não resta outra hipótese que não seja a de esperarmos pela definição estratégica dos responsáveis da modalidade... Que pensam fazer?

LIONS, NOTAS FINAIS

Já foi dito e redito: o empate é uma chatice! Como "beijar a irmã", diz Steve Hansen. Sem graça nenhuma dizem os adeptos dos dois lados.
Mas olhando para a média estatística dos 3 testes o empate é o resultado do jogo. Veja-se que, se os All-Blacks têm vantagem no número de bolas disponíveis e de metros conseguidos no transporte da bola, os Lions têm vantagem no número de placagens realizadas. O que apenas dá uma vantagem de 0,4 na média dos ensaios favorável aos neozelandeses (5 ensaios All-Blacks e 4 para os Lions). Ou seja: as dificuldades do ataque para ultrapassar as defesas foram enormes.
E, por estes parâmetros, a figura da digressão foi o treinador da defesa dos Lions, Andy Farrell, que conseguiu a proeza de fazer baixar a média de ensaios dos All-Blacks de 5,7 para 1,67 e a de pontos de 40 para 22. Feito notável e que se baseou na "scramble* defense" - defesa mista rápida e adaptativa - constituída por uma superior capacidade táctica de análise e consequente adaptação imediata às diversas situações impondo a antecipação e não através de uma estrutura pré-definida, mas com uma atitude eficaz de controlo e corte das hipóteses adversárias, nomeadamente com ocupação do espaço para corte das linhas de passe. E que exige um espírito colectivo de grande densidade - nitidamente jogando uns pelos outros. Um enorme e bem concebido trabalho que conseguiu levar os jogadores a pensarem e decidirem, colocando-se fora da área de comodidade que os sistemas estruturados propõem. (A minha curiosidade remete para o método de treino utilizado...). Como diz o próprio Andy Farrell: "Não se trata apenas de sprintar a partir da linha. Trata-se de adaptação à situação. Se a oposição consegue um offload então o sistema tem que ser mudado."
Watson soube cortar a linha de passe e recuperar a bola num momento crítico para o resultado final

OS MELHORES JOGADORES DA DIGRESSÃO
SAM WARBURTON (Gales)
Foi um capitão notável, dentro e fora do campo. Tendo começado o 1º teste no banco, a sua influência nos restantes foi visível. Atento, álerta, congregador, tacticamente influente - ainda me lembro do aviso aos companheiros: atenção ao jogar rápido! logo que o árbitro apitou penalidade. A eficácia da sua placagem (19), o contributo nos alinhamentos com 5 bolas ganhas e a capacidade de participar no início da organização defensiva foram as suas armas positivas. Para além de tudo o mais terá sido ele -pelo que se lê - que lembrou a Poit a figura de fora-de-jogo acidental...
LIAM WILLIAMS (Gales)
Lançado como defesa nos três testes jogou como se aí fosse o seu lugar de eleição. Com 151 metros de transporte de bola e o lançamento da jogada do ensaio da digressão marcado por Sean O'Brien no 1º teste, com uma movimentação notável a deixar adversários colados ao chão, o defesa dos Lions foi sempre uma ameaça atacante.
ANTHONY WATSON (Inglaterra)
A demonstração de conhecimento táctico realizada no momento de jogo em que Jonathan Davies placou, depois de uma sufocante corrida, o centro neozelandês Laumate, resistindo à tentação de ir à bola - teria que dar a volta e entrar pela "porta" - abrandar a sua corrida e cortar a linha de passe, acabando por captar o offload, foi notável e mostrou a qualidade de jogador que é. Aliás se não fosse esta sua acção dificilmente o empate das séries seria o resultado final. Um jogador a ter em atenção no caminho para o Mundial 2019
JONATHAN DAVIES (Gales)
Ter sido considerado pelos seus companheiros como o jogador da digressão basta para se perceber a sua importância. Mas se verificarmos o seu transporte de bola - participou também no ensaio de O'Brien - de 146 metros, as 5 rupturas defensivas, a consistência defensiva, a qualidade do seu jogo ao pé podemos apostar que estamos na presença de um centro de categoria mundial.
OWEN FARRELL (Inglaterra)
Não terá feito dos melhores jogos, cometeu alguns erros que iam comprometendo a equipa, mas a sua capacidade de chutar aos postes (31 pontos) e a sua consistência defensiva (20 placagens), permitindo impedir as rupturas defensivas no canal central, foram fundamentais para o resultado final.
CONOR MURRAY (Irlanda)
Foi rápido a passar e o seu jogo ao pé foi sempre tacticamente adequado e a colocar problemas ao três-de-trás adversário. Marcou um ensaio, criou 3 rupturas e ainda fez 16 placagens. Nada que se estranhe de um dos melhores médios-de-formação mundiais.
TADHG FURLONG (Irlanda)
Um senhor pilar capaz de marcar posição nas formações-ordenadas mas ainda de transportar a bola e ainda de placar 16 vezes. De facto funciona como uma verdadeira ameaça sempre que recebe a bola em movimento. Será uma figura irlandesa no próximo 6 Nações.
MARO ITOJDE (Inglaterra)
Que se pode dizer deste gigante que, para além da sua importância nos alinhamentos, faz 24 plcagens, sabe transportar a bola e ainda garante o apoio aos seus companheiros que colidiram com defensores? Não será exagero afirmar que é um dos poucos que pertence ao reduzido grupo de Bases de categoria mundial. Espera-se com expectativa o que nos vai mostrar no 6 Nações. 
SEAN O'BRIEN (Irlanda)
Na linha dos agressivos e resilientes terceiras-linhas irlandeses - lembram-se de Slatery? -  O'Brien teve enorme infuência no processo defensivo dos Lions - realizou 24 placagens e transportou a bola por 70 metros gastando alguns deles para marcar o ensaio da digressão com uma linha de corrida de apoio notável para aparecer no momento certo.
O PIOR DOS JOGADORES
KYLE SINCKLER
O pilar inglês foi preso na madrugada posterior, cerca das 3 da manhã, ao último teste "por um incidente menor que, depois dos inquéritos realizados, se demonstrou sem consequências" - segundo a polícia da Auckland que o escultou de volta ao hotel da equipa. 
Dadas as circunstâncias do comunicado policial e tendo lembrado ao jogador "as suas responsabilidades enquanto Lion que são extensíveis ao seu comportamento fora do campo", John Spencer, responsável da comitiva dos Lions e o capitão Warburton consideraram o assunto como definitivamente encerrado.
Apesar desse facto, o pilar inglês, que realmente teve um comportamento fora do expectável para um jogador internacional, fez um formal pedido de desculpas. Assim: "Peço desculpa de me ter colocado e aos Lions nesta situação e também à polícia e a quaisquer outros que tenham sido afectados.
Dois factos se salientam a demonstrar a actuação normal em casos semelhantes: o conhecimento público do acontecimento e o seu não escamoteamento por parte dos responsáveis dos Lions e o pedido de desculpas também públicas de Kyle Sinckler.

* "scramble" era a palavra utilizada pela aviação britânica quando ameaçada para colocar tão depressa quanto possível os seus aviões no ar sem qualquer formação ou ordem especial numa desordem que se transformava em ordem pelo traquejo dos pilotos e pela necessidade da eficácia.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BATALHA DE FAZ DE CONTA


Composição de Nicholas Bishop
O analista e consultor - trabalhou com Graham Henry, Mike Ruddock e Stuart Lancaster - Nicholas Bishop fez as montagens necessárias para demonstrar a inexistência - como também considero - de toque-para-diante ou adiantado de Liam Williams e que terá motivado a decisão precipitada de Romain Poite. E precipitada porquê? porque se fiou nas aparências e não se preocupou com a análise da trajectória da bola - único ponto, fora dos relacionados com jogo desleal ou violento (Lei 10), que importa focar antes de qualquer outro em situações idênticas.
Pode aliás perguntar-se onde estaria Jérôme Garcés, o árbitro-auxiliar? Deixando-se ficar junto à linha de meio-campo o também árbitro internacional francês cometeu um erro de palmatória e não pode sequer elucidar o seu chefe de equipa da inexistência de qualquer falta dos Lions (em princípio estaria na linha da salto dos dois jogadores).
Curiosamente o posicionamento de ambos os juízes estava errado neste pontapé de recomeço: Poite do lado do pé do chutador, Garcés no meio-campo. O primeiro, avançando pode impedir a utilização da totalidade do ângulo de pontapé e, tendo por isso, que ter uma maior atenção à bola, não verá o que se passa nas suas costas - e não viu, no que parece um fora-de-jogo - a relação entre a ultrapassagem da linha de meio-campo de Kieran Read e da bola. Na linha de meio-campo e com todo o campo de visão liberto, Garcés deixou seguir. Passemos á frente: por mais que pareça, Read não terá arrancado em falta.
Bastante adiantado em relação aos companheiros (primeira figura), Read salta para a  bola com um braço estendido e colide com Sam Williams que, também no ar, tentava captar a bola. Ken Owens, o número 16 dos Lions, está mais próximo da linha de ensaio adversária do que o defesa seu companheiro e portanto em fora-de-jogo e que corre na direcção do seu campo para se colocar em jogo. Situação que não é penalizável até que, nessa posição, interfira no jogo.
Repare-se na primeira figura: Williams está a saltar no prolongamento da letra "L" da palavra Life - onde a bola lhe ressaltou - e o seu companheiro Owen, continuando a correr em direcção à sua área-de-ensaio, está na zona do "f".
Depois da bola ter ressaltado Williams, Owens (segunda figura) apanha a bola entre a zona "r" e "d" da palavra Standard - ou seja, a bola ressaltou de Williams para trás, em direcção à sua área-de-ensaio, e, portanto, não houve qualquer adiantado ou toque-para diante.
Williams (terceira figura) atinge o chão, empurrado por Read, no prolongamento do início da letra "n" e Owen, que já havia - com ar assustado - largado a bola, continua "à frente" de Williams. Porque Williams, já sem bola, recuou no terreno da letra "L" à letra "n"...
A bola rolou e foi apanhada pelo centro neozelandês, Lienert-Brown, que ficou numa excelente posição de vantagem. O árbitro apitou!
Partindo do princípio que Read não fez falta sobre Williams - o que é duvidoso, mas a má posição de Garcés a nada ajudou - não há qualquer falta sequente - tão pouco fora-de-jogo acidental e o jogo deveria prosseguir.
Então porque houve a precipitação de Poite e toda a trapalhada que se lhe seguiu?
Fundamentalmente penso que por cansaço - falta de oxigénio suficiente a arejar o cérebro uma vez que o jogo teve uma intensidade muito superior àquela que os árbitros franceses estão habituados.
E agora? Agora nada ! - embora se espere que a Rugby World clarifique estas regras que já haviam sido motivo de reparo quando do caso Joubert no Austrália-Escócia do Mundial de 2015.
O mais impressionante de toda esta situação, a 2 minutos do final do jogo, foi que, terminado, todos os envolvidos justificaram o meu "agora nada!" e tiveram um comportamento exemplar. Kieran Read, capitão neozelandês, declarou que "não foi por o árbitro não ter marcado falta que perdemos" - curiosa expressão; Steve Hansen, o treinador principal dos All-Blacks lembrou que "nós devemos apoiar os árbitros e não criar-lhes situações de aperto". 
Ninguém gosta de ficar com a sensação de que deixou escapar a vitória por entre os dedos e todos os que falaram no pós-jogo lembraram que prefeririam a vitória. Apenas isso, sem acusações ou azedumes. Numa demonstração de desportivismo exemplar para quem tinha passado 80 minutos a lutar, uns contra os outros, com quanta força e energia tinha. Razão tinha o Rt Reverendo W. J. Casey quando em 1894 estabeleceu: o Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas nunca para maus desportistas, sejam de que classe forem
Tendo sido um formidável jogo de rugby foi também uma enorme demonstração dos valores da competição desportiva. Um exemplo!
Final do 3º teste - o jogo é uma batalha de faz-de-conta!
  

terça-feira, 11 de julho de 2017

ELOGIO DO RUGBY

Homenagem a um jogo formidável
Como é que se define um jogo como este 3º teste entre All Blacks e Lions? Notável, foi. De tirar a respiração, também. De exigir revisões, pela certa! Técnicas, estratégicas, tácticas, regulamentares - um tratado de estudos.
A primeira e enorme impressão é esta: a principal preocupação estrutural de qualquer das equipas é que os seus jogadores cumpram os Princípios Fundamentais do Jogo: Avançar Sempre!, Apoiar, Continuar e Pressionar. E fazê-lo em cada momento do jogo sem hesitações para garantir coesão e organização colectiva. E o jogo faz-se, correndo riscos para procurar uma diferença através do movimento global com cada jogador a saber - porque ensinado - jogar de acordo com a posição em que foi apanhado e atacando os pontos fracos do que pode ler na defesa que se encontra na sua frente. Ou seja: Menos preocupados em reger-se por uma estrutura trazida do balneário qualquer das equipas confiou nas suas capacidades técnicas e conhecimentos tácticos para poder surpreender o adversário. E se esse factor era mais favorável aos All Blacks por maior coesão da equipa conseguida pelo melhor conhecimento mútuo dos seus jogadores, a adesão dos Lions ao conceito possibilitou o interessante jogo que vimos. Na óbvia esperança que a moda pegue... e possamos ver mais jogos "abertos".
Quer em ataque, quer em defesa, o cortar o espaço disponível para levar ao erro foi uma constante. Que houve muitos erros? Claro, porque a intensidade do jogo e a pressão, a cortar tempo e espaço, a isso levaram. Mas não porque os actores fossem de fraco nível.
Em ataque, cada vez que o portador da bola não se aproximava o suficiente para fixar o defensor - caso de Owen Farrell em algumas vezes da 1ª parte - a defesa deslizava e liquidava a vantagem numérica obtida até então. Ou seja: quem não agisse de acordo com os cânones era imediatamente suplantado pelo adversário, num jogo a exigir o máximo de qualquer dos notáveis jogadores presentes. Jogo a ver e rever, a retirar foto a foto, como demonstração do que se deve fazer, como lição táctica constante.
O jogo ao pé, excepção para os pontapés aos postes de Beauden Barrett, foi espectacular ao constituir uma permanente arma de ataque, criando constantes problemas aos defensores, nomeadamente com o passe ao pé do mesmo Barrett - aposto que treinado nas brincadeiras dos jardins de casa - para o seu irmão Jordie que, qual jogador de vólei, passou a bola para a corrida de Ngani Laumape. Mas o jogo ao pé do formação Connor Murray foi também de enorme categoria na acuidade e temporização e o de Farrell de uma precisão superior. Aliás Warren Gatland avisou desde o início da digressão que a qualidade de jogo ao pé - quer colocado quer “da mão” - era uma das armas diferenciadoras da sua equipa. E viu-se… 
Um empate é sempre um resultado que não agrada aos gregos e troianos que participaram - como jogadores ou espectadores - no jogo. Mas este empate não fica mal e resulta das capacidades equilibradas de cada equipa. Um empate significa equilíbrio e esse equilíbrio nota-se desde logo na constituição física - o índice de compacticidade - dos jogadores presentes.

Deste equilíbrio físico, resultou o equilíbrio do jogo.
A posse da bola dividiu-se com 51% para os AllBlacks e 49% para os Lions enquanto que no domínio territorial os neszelandeses dominaram com 56% para acabarem no final com 2 ensaios marcados enquanto que os Lions apenas conseguiram marcar através de pontapés de penalidade (4 de Owen Farrell e um, portentoso de mais de 50 metros de Elliot Daly). 
Esse equilíbrio mostrou-se também nas placagens efectuadas - 110 para os All-Blacks (86%) e 106 para os Lions (84%) - ou nos passes conseguidos - 148 neozelandeses contra 142 dos Lions - ou pontapés realizados (21 contra 23) mas onde os All-Blacks se mostraram superiores foi nas variáveis estatisticas que constroem o resultado: 9 rupturas (a sua média habitual) contra apenas 2 dos Lions; 430 metros percorridos com bola  (aproximando-se da sua média de 490 metros) correspondentes, em média a 3,9 metros por corrida e a 4 metros por bola disponível contra 350 metros dos Lions a que corresponderam 2,9 metros por corrida e a 3,4 metros por bola disponível. A ultrapassagem da Linha de Vantagem foi feita em 47% das bolas disponíveis por parte dos All Blacks e em 41% das bolas disponíveis por parte dos Lions - o que dá uma boa ideia do comportamento defensivo de ambas as equipas.
Vencendo todas as Formações Ordenadas e Alinhamentos da sua responsabilidade, os All-Blacks igualaram nos Rucks e viram-se ultrapassados pelos Lions nos turnovers (7-4) e offloads (8-6) e principalmente nas penalidades concedidas com 9 contra 5, dando assim a possibilidade aos Lions de construir o empate.  
Embora com o resultado sempre muito próximo com uma diferença máxima de 6 pontos, o jogo exigiu muito das defesas para se imporem ao domínio de jogo adversário.Nos primeiros dez minutos o domínio do jogo (ocupação de território, posse da bola, metros conquistados e combinações atacantes do meio-campo adversário) pertenceu aos All-Blacks para, apesar de um equilíbrio mais conseguido, continuarem a dominar durante a 1ª parte. Na 2ª e á medida que o tempo avançava, os Lions conseguiram dominar as operações para se verem completamente dominados nos últimos 15 minutos mas conseguindo ainda uma penalidade quase sobre o meio-campo que permitiu os 15-15.
E no pontapé de recomeço…

CASCATA DE FALTAS? 
O árbitro francês, Romain Poite, decidiu, depois de um intervalo para ver imagens e ouvir o auxiliar do dia Jerôme Garcés, considerar um “fora-de-jogo acidental” (Lei 11.6 - sanção: formação ordenada) a Ken Owens naquilo que havia considerado primeiramente como “fora-de-jogo depois de um toque-para-diante” (Lei 11.7 - sanção: penalidade). A sessão teve reunião de capitães e está ainda em discussão mundial. Mas, muito provavelmente, o árbitro francês ficou-se pelo aspecto menos relevante de uma situação mais ampla. Tudo começou no pontapé-de-recomeço após o empate. Eis a sequência:
  1. Beauden Barrett chuta o pontapé-de-ressalto e Kieran Read é o primeiro neozelandês a entrada na zona dos 10 metros situação que deveria ser analisada de acordo com a Lei 13.3 - Posição dos companheiros do chutador num pontapé-de-saída. Considerada faltosa esta situação obrigaria a uma formação-ordenada no centro do terreno com introdução favorável aos Lions;
  2. Kieran Read salta com um braço estendido para a bola e derruba Liam Williams que, no ar, procurava encaixar a bola devendo ser a situação analisada através da Lei 10.4 (i) - Placar o saltador no ar - que, em caso de movimento ser considerado em falta, seria punível com pontapé de penalidade favorável aos Lions;
  3. Ressaltando a bola de Williams, encontra Ken Owens, pilar Lions, que a toca e larga de imediato. Duas questões nesta situação: houve “toque-para-diante” de Williams e estava Owens à frente de Williams quando recebeu a bola em situação de impedir um adversário de tirar vantagem (Lei 11.7 - Fora-de-jogo após um toque-para-diante. Sanção: penalidade) ou Owen não poderia impedir que a bola lhe tocasse e seria “fora-de-jogo acidental” (Lei 11.6 - Fora-de-jogo acidental; sanção: formação-ordenada)?
  4. A bola, largada para o chão por Owen é apanhada pelo centro neozelandês Lienert-Brown que fica em condições de a jogar e cria uma situação de grande vantagem (Lei 8 - Lei da Vantagem) para os All Blacks - poderia acabar em ensaio.
O que viu Poite, o que não viu, que falta marcou e o que devia ter marcado?
Houve ou não falta?
Não considerando qualquer falta de Read no pontapé-de-recomeço e considerando - como pareceu ouvir-se - que o seu salto e empurrão sobre Williams foi legal, restava a Poite analisar a trajectória da bola deixada por Williams.
E se as situações anteriores não foram considerados por Poite, a sua interpretação final, que o leva, em primeiro momento, a considerar penalidade favorável aos neozelandeses e, dada a posição no terreno, a favorecer a vitória dos All Blacks neste 3º e último teste de tira-teimas, foi errada. Tomando a nuvem por Juno, Romain Poite preocupou-se com o pormenor e esqueceu a visão geral do lance. De facto o árbitro francês teve mais em consideração o ponto de queda de Liam Williams - empurrado uns metros por Read - do que a trajectória da bola que, no fundo, deve ser o que conta para o ajuizar da situação. 
Sendo verdade que Ken Owens se encontrava à frente - mais próximo da linha-de-ensaio adversária - de Williams mas também é um facto que um jogador - como tantas vezes acontece em situações de jogo - em fora-de-jogo pode vir a apanhar uma bola se a sua trajectória não resultar de um adiantado ou de toque-para-diante. Foi o que aconteceu: a bola vinda de Williams não constitui um adiantado ou toque-para-diante e Owens não terá cometido qualquer falta acidental ou não. O que resta para marcar?
Nada! Deixar seguir o jogo e porque não houve qualquer falta dos jogadores dos Lions, ver o que faria o jogador neozelandês que ficou com posse da bola e em situação de óbvia vantagem. 
Se não se tivesse precipitado - cansaço de um jogo muito intenso? - Poite apenas teria que decidir sobre uma de duas coisas: falta no ar do capitão neozelandês ou continuação do jogo?
Esta Lei 11.6 já tinha demonstrado a sua ambiguidade no caso Jobert do Austrália-Escócia do Mundial 2015. Muito se falou mas nada se modificou. Talvez agora tenhamos mais sorte e haja uma clarificação por parte da World Rugby. Que aliás deve analisar uma outra situação: a validade da placagem - caso Famuina no 2º teste - a um jogador no ar por ter saltado para apanhar um passe de um companheiro (quando se corre em boa velocidade há alturas em que os dois pés estão no ar em simultâneo, posso placar?).
Esta digressão de 2017 foi extraordinária - 5 vitórias, 3 derrotas e 2 empates - e deixará uma marca na história dos British and Irish Lions que representam, desde 1888, o melhor que o rugby tem. Formado por jogadores de 4 países diferentes que escolheram o galês Jonathan Davies como o melhor jogador da digressão e que, representando culturas diferentes com histórias passadas desavindas, com processos desportivos e rugbísticos distintos e que têm apenas de comum a língua inglesa, conseguem, em muito pouco tempo, formar uma equipa com a coesão suficiente para que cada um se bata como se estivesse a jogar pelo seu próprio país e poder defrontar os triplos campeões do Mundo. Com pouco tempo conjunto esta coesão só pode dever-se ao elevadíssimo prestígio da instituição que leva os jogadores, por orgulho e sentido de responsabilidade histórica, a demonstrarem de forma evidente a capacidade de integração demonstrativa do Desporto e definir o padrão do One for All que os caracteriza.

domingo, 9 de julho de 2017

MISSÃO CUMPRIDA NO FEMININO

Lista de jogadoras presentes na 2ª etapa do WGPS de Kazan

Apesar de todas as dificuldades atravessadas para a sua preparação, nomeadamente o fraco nível da competição interna e, praticamente, a inexistência de preparação internacional, a selecção feminina de Sevens conseguiu garantir a sua manutenção para o próximo ano na Womens Grand Prix Series.
Partindo de um fraco resultado - 11º lugar - na 1ª etapa de um Europeu que se disputa apenas em duas etapas e que despromove duas equipas à divisão inferior, a selecção feminina fez uma excelente competição de grupo em Kazan derrotando a Espanha (22-10) e a Bélgica (12-5), perdendo para a França (26-5) e conseguindo o 2º lugar que lhe garantiria, na pior das hipóteses, 6 pontos no ranking a juntar aos dois conseguidos em Malemort para um mínimo de 8 pontos finais. Com estes 8 pontos, Portugal ficaria sempre à frente da Suécia - que apenas poderia ter um máximo de 6 pontos após os resultados de sábado - e da Holanda que apenas poderia atingir os 5 pontos finais. 
Com estes resultados e dando uma demonstração de notável atitude - essa pequena coisa que faz toda a diferença como lembrava Winston Churchill - a selecção feminina de Sevens, agora em profunda remodelação por final de carreira de muitas das jogadoras após o ciclo olímpico do Rio, ao atingir o objectivo da manutenção cumpriu a missão que - numa visão realista da situação -  lhe estava atribuída pelo seu treinador/selecccionador João Mirra. 
Parabéns! Ao treinador e a todas as jogadoras. Excelente demonstração de vontade e responsabilidade face ao direito de uso da camisola de Portugal.

Arquivo do blogue

Quem sou

Seguidores