terça-feira, 10 de outubro de 2017

FEDERAÇÃO vs. SPORT CLUB DO PORTO

Como muitos dos membros da comunidade rugbística portuguesa também eu tive acesso aos mails trocados entre o Sport Clube do Porto e a Federação Portuguesa de Rugby.
Do lado do Sport pude ler sobre a sua indignada exigência por não ter sido consultado em questões desportivas que lhe diriam directamente respeito e, como resposta e do lado da Federação, um documento indigno de uma instituição de utilidade pública desportiva. De facto, não respondendo a nada a Federação fez - mesmo que a responsabilidade directa seja do seu Presidente - aquilo que não deve: responder com comentários insidiosos e desadequados, fazendo passar por razão dixotes mascarados de palavras de libra.
O Sport Clube do Porto nasceu em 1904, tem 32 modalidades activas com 4.531 atletas e 8.267 associados, com 2 atletas olímpicas (Londres 2012, Zoe Lima; Rio de Janeiro 2016, Filipa Martins na Ginástica) e 3 internacionais da equipa feminina de Rugby de Sevens de Portugal- Daniela Correia, Catarina Ribeiro, Elsa Santos - para além de ter sido um dos clubes iniciadores do Rugby na cidade do Porto - foi campeão do Porto em 1931. É, portanto, um clube com uma longa história de serviços distintos prestados ao Desporto - dos diversos galardões é um dos poucos clubes a quem foi atribuído o Troféu Olímpico.
O Sport Club do Porto  foi o meu primeiro clube desportivo - miúdo ainda ia aos jogos de Andebol de 11, no campo da Bela Vista, ver o meu pai jogar com a companhia - íamos no mesmo carro - do Bé Costa Pereira, antigo jogador de Rugby do CDUP, que também ia ver o seu pai (o notável Zé Manel) jogar. Sou Padrinho, convidado pelo Nuno Gramaxo, do Rugby do Sport Club do Porto e tenho, naturalmente, uma muito particular estima pelo clube.
Ao ler a resposta federativa fiquei - para além de muito mal impressionado com o desnorte - profundamente chocado e sentido: uma Federação não trata - não pode tratar - desta forma desabrida e mal educada um clube que é seu filiado…

 … porque não são termos nem processos que, na obrigação de valorizar o Desporto, se usem!   

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

DE QUE NOS SERVEM ESTAS IDEIAS?

Começou o Campeonato Nacional de Primeiro Escalão Competitivo Sénior - o CN1. Não sendo a designação de grande felicidade, tem a vantagem (enorme, diria eu) de ter deitado fora a designação de Divisão de Honra, permitindo assim a clareza da segunda divisão deixar de ser conhecida por Primeira Divisão.
O Campeonato começou mas não começou bem - jogos sem árbitros por faltas de pagamentos anteriores (o actual regulamento no ponto 1 do seu  Artigo 10º, indica que são os clubes da CN1 que têm a seu cargo as despesas referentes à arbitragem), continuidade dos desequilíbrios com todos os jogos a terem vencedores por 15 ou mais pontos - com mais de 15 pontos de diferença o vencedor, no ranking da World Rugby, é majorado 1,5  vezes - e dois dos jogos a mostrarem a enorme diferença entre o nível principal e secundário.
Sendo estranha a fórmula encontrada para reduzir o 1º nível de 10 para 8 equipas - aumentar para 12 para reduzir a 6 na presente época e chegar a oito na próxima época - não será também a solução mais eficaz para garantir o equilíbrio competitivo da próxima época.
Aliás a fórmula encontrada tem um perigo evidente! Porque permite recursos pouco desportivos e sem garantia de sustentabilidade actual e futura. Definindo que os dois primeiros classificados de cada uma das três séries formarão a CN1 desta época, acrescentando para a próxima - 2018/2019 - duas equipas, fica estabelecido que equipa que consiga agora o seu apuramento, ficando até ao 2º lugar de cada série, terá garantida a manutenção no Primeiro Escalão na época 2018/2019. Ou seja, a exigência competitiva desta época situa-se na disputa das curtas séries da Fase de Apuramento, tornando-se diminuta na Fase Regular porque uma equipa que perca a possibilidade de atingir um dos quatro lugares não tem qualquer necessidade de garantir o seu desenvolvimento competitivo. E assim sendo - e porque a Fase de Apuramento termina a 2 de Dezembro - pode surgir um factor distorcivo: recurso a jogadores estrangeiros durante este curto período - e apenas nele - para garantir a qualificação. Porque o resto já não conta ou conta muito menos.
Não satisfeito com esta possibilidade distorciva, o Regulamento do Primeiro Escalão Competitivo (RPEC) impõe mais. 
Começa desde logo, ignorando a prática federativa vigente desde 2010, por permitir que treinadores de Grau II possam ser responsáveis por equipas de 1º nível. Existindo, na lista da FPR, 54 treinadores certificados com o Grau III, abrir ao grau técnico inferior representa uma absurda menor exigência de conhecimento, experiência e capacidades para os responsáveis coordenadores e supervisores do treino das equipas de élite do rugby português. Principalmente se o objectivo é o de conseguir - será? - resultados internacionais que nos coloquem de novo no patamar a que pretendemos pertencer. Pergunta-se: faz então algum sentido permitir a diminuição da qualidade técnica dos treinadores das equipas onde actuam os jogadores seleccionáveis para a principal equipa nacional representativa? 
Há anos a FPR teve que responder em Tribunal pelo facto de considerar - em defesa das selecções nacionais - que, cada equipa, não poderia ter, em simultâneo e no campo de jogo, mais do que três jogadores não seleccionáveis por Portugal. Do Tribunal veio a apreciação que nada de ilegítimo existia nesta obrigação. Obrigação que, em documento da responsabilidade de um grupo de trabalho nomeado pela Secretaria de Estado do Desporto e Juventude para estudar a questão da protecção das selecções nacionais e datado de 2011, foi assim caracterizada: “Um bom exemplo disso é o caso da Federação Portuguesa de Rugby. As equipas poderão utilizar jogadores estrangeiros, em número indeterminado, mas não mais de três em simultâneo em campo […]”
Vá lá saber-se porquê, tudo mudou com as decisões da direcção da FPR* que agora, definindo em três alíneas, permite um número ilimitado de jogadores de origem comunitária ou equiparados, um número de 4 jogadores não seleccionáveis em simultâneo em campo para 6 nos 23 lugares da folha de jogo, obrigando apenas a 6 jogadores formados localmente em simultâneo no campo (que, por casualidade, podem também ser estrangeiros por não terem a nacionalidade portuguesa) e permitindo 10 nas folhas de jogo. Ou seja: qualquer equipa se pode apresentar para um jogo com, pelo menos, 13 jogadores estrangeiros e não seleccionáveis - lembre-se que a nossa legislação, ao contrário de diversos países, exige a nacionalidade portuguesa para a representação nacional, ficando assim anulada qualquer decisão temporal determinada pela World Rugby. Repita-se que os jogadores formados localmente não têm, necessariamente, de ser portugueses, isto é, seleccionáveis. Não se percebe a vantagem mas vêem-se, à vista desarmada, as desvantagens...
Para além de abrir a porta ao prejuízo das selecções nacionais portuguesas e ao eventual comando desportivo interno pela capacidade financeira, abre-se ainda - numa altura em que aumenta o conhecimento da manipulação de resultados desportivos - a porta a uma entrada de estrangeiros - provavelmente a preços convidativos - que, mesmo se comunitários, podem não ser mais do que paus mandados dos diversos e clandestinos sistemas de apostas. E não se diga - com aquele ar costumado de que pertencemos a outro imaculado mundo - que “Isso não acontece no Rugby!”. Porque os relatórios policiais europeus dizem outras coisas…
Portanto esta nova época não começa da melhor maneira com um regulamento (RPEC) que estabelece:
  • um campeonato com uma fase de Apuramento de tal maneira curta que os resultados desportivos podem ser distorcidos; 
  • uma fase Regular - rapidamente passada a quatro interessados e onde apenas estará em disputa o 1º lugar - de pouca competitividade;
  • um desnecessário abaixamento técnico pela permissão de treinadores de Grau II enquanto responsáveis pelas equipas da élite rugbística portuguesa;
  • uma imposição de pagamento aos árbitros por parte dos clubes de que não se vê resultados mas se notam consequências;
  • uma excessiva permissão de jogadores estrangeiros que podem, assim, criar problemas às selecções nacionais seniores para além de poderem tornar-se num gasto desmesurado que irá criar óbvios problemas financeiros à área de desenvolvimento dos clubes...se não representarem perigo maior.
… e a distorção desportiva pode ser ainda maior ao colocar, no poderio financeiro e não na sustentabilidade da formação desportiva, a chave do sucesso. O que nada augura de bom para o desenvolvimento do rugby português!…
… que corre o risco de retorno aos tempo das trincheiras.  E o futuro, que parece ali, passa a longínqua miragem.  
* Curiosamente, mas anacronicamente face ao que agora pretendem, este conceito prevalece no actual regulamento da Taça Europcar Challenge.   

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SEM ÁRBITROS NÃO HÁ JOGOS DESPORTIVOS

Desde miúdo que percebi a importância dos árbitros nos jogos desportivos. Nas nossas futeboladas de cinco-contra-cinco depressa percebemos que nomeando um árbitro ganhávamos tempo de jogo e, portanto, de divertimento. Porque, quando não havia árbitro, o tempo consumido em discussões para concordar com o ser ou não falta representava, no final, um enorme espaço de paragem no futebol que nos entusiasmava.

De facto o árbitro é fundamental.

Não só para que não haja desperdícios no tempo útil como também para garantir igualdade de tratamento e equidade de interpretações. E quanto mais o jogo se aproxima do Desporto de Rendimento, mais o árbitro é necessário.

E quanto melhores forem os árbitros, melhor será a prestação competitiva dos jogadores e das equipas. O que significa que na estrutura federativa cabe aos árbitros um papel tão importante como aos jogadores na componente de formação, retenção e captação e um desinvestimento em qualquer destas três áreas da arbitragem constitui um problema sério e real para o rugby.

No aspecto da captação e sabendo-se - como se sabe das coisas da vida - que é a qualidade que atrai a quantidade - e não o contrário - é necessário saber criar as condições para que a arbitragem possa ter qualidade. O que se consegue, mantendo um ambiente saudável e cooperativo.

Parece que não é isso que se passa no nosso espaço federativo. Devido a dívidas - com muitos árbitros a não verem o reembolso das suas despesas de deslocação - e, principalmente, a conversas de surdos de que o recente documento federativo se mostra como exemplo, a arbitragem do rugby português está decidida a fazer valer os seus pontos de vista. O que significa que não haverá árbitros para a grande maioria dos jogos.

E sem árbitros qualificados - isto é, se for seguida a velha regra de procurar alguém que arbitre de acordo com as duas equipas adversária - a fiabilidade das provas competitivas ficará em causa. 

A falta de árbitros nos jogos dos campeonatos federativos é grave e colocará em causa a competição e os seus resultados.

Ou seja, o rugby português, mesmo que se usem efeitos propangadísticos seja de que natureza forem, está numa crise grave que pode criar fissuras difíceis de ultrapassar.

A fórmula de ultrapassagem da situação é simples e conhecida: diálogo sério, cooperação e ouvidos e mentes abertas ao dizer dos outros.

A concha é o pior dos conselheiros e a ideia de que o poder pode mais é a pior das posturas.

domingo, 24 de setembro de 2017

ERRO DE PALMATÓRIA!

As recentes alterações das Leis do Jogo - Leis Experimentais 2017 - têm como objectivo simplificar o jogo, diminuir a confusão de jogadores e espectadores e aumentar a continuidade da utilização da bola. Iniciadas a partir de 1 de Agosto passado ainda não existem dados suficientes de julgamento mas, por aquilo que se tem visto nos jogos dos diversos campeonatos europeus - no hemisfério sul só entram em vigor a partir de 1 de janeiro do próximo ano - tudo tem corrido sem queixas ou atrapalhações de maior.
Um das alterações diz respeito - um pouco à semelhança do que já aconteceu, embora com pouca duração, quando se experimentou o inicio de fora de jogo mal a placagem estivesse consumada - à formação do ruck após placagem. Naturalmente que, sem placagem, continua a existir a velha regra de um-contra-um em contacto e com a bola no chão e no meio deles.
A nova lei experimental que vem substituir a anterior sobre o ruck - Lei 16 -  reza assim: 
Um ruck começa quando pelo menos um jogador está em pé e sobre a bola a qual se encontra no chão (placado, placador). Neste momento criam-se as linhas de fora de jogo.  Um jogador de pé pode tentar, com as suas mãos, apanhar a bola desde que o faça imediatamente. Com a chegada de um jogador opositor deixa de se poder usar as mãos. 
De acordo com a normal interpretação - Lei 11.2 Jogador colocado em jogo por acção de um companheiro de equipa - os jogadores que se encontrem em fora-de-jogo após a criação das respectivas linhas e que, paralelas às linhas de ensaio, passam pelo último pé quer do jogador placado, quer do placador, só têm uma possibilidade (Lei 11.2(a)) de deixar de estar em fora-de-jogo: regressarem, sem qualquer tentativa de interferência, obstrução ou avanço sobre a bola ou adversários, ao lado do seu campo e para trás da linha de fora-de-jogo (Lei 16.5); aí chegados podem então participar, de novo e plenamente, nas acções do jogo. E isto é assim porque como define a Lei 16: Quando tem lugar um ruck, o jogo geral termina. O que significa que quando está formado um ruck são as leis deste domínio que comandam a acção, definindo que um jogador deve recuar para trás da linha que passa pelo último pé dos companheiros integrados no ruck, podendo então e através da porta juntar-se-lhe, ligando-se, ou manter-se ao largo. De qualquer outra forma estará fora-de-jogo e sujeito a penalizar a sua equipa com um pontapé de penalidade.
O chefe dos árbitros, Allain Rolland, a explicar as novas Leis
Tudo parecia estar a andar bem. Houve documentos explicativos, árbitros mais conhecedores a demonstrar e foram feitas as decomposições necessárias para que se pudessem perceber as situações críticas que determinam a existência ou não de faltas.
Neste caminho em que tudo parecia percebido e que estava a começar a permitir aos treinadores descobrir e experimentar tácticas adequadas à nova exploração das situações, surgiu - num programa da responsabilidade da World Rugby e emitido muito recentemente pela Sport TV - um filme sobre a placagem e as linhas de fora-de-jogo - que, acrescentando coisas àquelas que se podem ler nos documentos oficiais, veio lançar uma enorme confusão e destruir o trabalho anterior de clarificação. Porque, para além da oficialização World Rugby, tinha como explicador o “chefe mundial” dos árbitros, o irlandês Alain Rolland. Ou seja, uma autoridade inquestionável…
…que, no entanto, cometeu um erro de palmatória!
Nesse filme que pode ser encontrado no Youtube (ver aqui a partir dos 7:32 minutos) o árbitro Allain Rolland ao pretender explicar as acções permitidas e proibidas da nova lei do ruck, ignora a determinação de que, a partir do início de um ruck - Lei 16 repete-se - deixa de se considerar haver jogo geral e resolve puxar da Lei 11.3 - Jogador reposto em-jogo por acção de um adversário para declarar que os jogadores em fora-de-jogo (os jogadores de azul na foto) serão postos em jogo se o adversário portador da bola a passar, pontapear ou correr 5 metros com ela.  
Ou seja: um disparate! Porque, para além do erro metodológico apresentado, não faria qualquer sentido alterar uma lei para garantir a impossibilidade de repetição do comportamento dos italianos - não criar contacto no ruck e, assim, impedir a criação de linhas de fora-de-jogo - no último 6 Nações para permitir o mesmo ou pior - com a interpretação de Rolland qualquer treinador indicaria aos seus jogadores que não se retirassem da posição de fora-de-jogo para esperar uma acção do adversário que os pusesse em jogo e assim lhes desse vantagem de intervenção.
A única coisa desta pedaço da intervenção - que se não for imediatamente anulada pela World Rugby irá criar enormes confusões - é o entendimento que faz sobre a cobertura da bola, obrigando ao avanço de um pé para lá da bola o que garante uma posição mais estável para suportar o embate de qualquer adversário que venha ao contacto e que, julgo, permitirá melhor quer a árbitros, quer a jogadores, uma noção mais exacta do momento de início do ruck. Mas a exigência de voltar a recuar o pé para apanhar a bola não passa de outro disparate - ignorando até o 1º princípio fundamental do jogo de Avançar Sempre!. Este vídeo veio opor à clareza pretendida desta fase do jogo uma enorme confusão - como irão os árbitros por esse mundo fora proceder? Cada um à sua maneira? 
No final de tudo isto o que espanta é a saída certificada de um vídeo com este erro de palmatória. 
Que organização é esta?

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

APRENDER NAS DERROTAS

Que se aprende mais com as derrotas é um conceito muito espalhado no meio desportivo. Que, se contextualizado, tem a sua razão de ser - ninguém acha que, para aprender, o melhor é perder... - mas considera-se que a euforia da vitória nem sempre permite analisar convenientemente as fraquezas da equipa. 
Este conceito permite, pelo menos, perceber que, apesar da derrota, existe sempre uma busca de futuro. E que a vida desportiva se baseia numa constante de oportunidades que devem ser aproveitadas - com o necessário treino de melhoria e adaptação.
Sob este ponto de vista, a recente derrota com o Japão deixou-nos factores de aprendizagem que nos devem permitir ampliar conceitos e gestos técnicos ou mesmo modificar hábitos desajustados.
O maior problema da equipa Sub 20 de Portugal esteve na formação-ordenada onde se percebeu não existir a coordenação e domínio técnicos necessários para transformar os oito jogadores numa unidade síncrona e capaz de equilíbrio na disputa da bola. Como parece óbvio, houve uma enorme ignorância - ou mesmo irresponsabilidade - ao não considerar a necessidade de garantir as condições de treino específico de uma componente de jogo complexa, dura e especial - é muito, muito difícil atacar atrás de uma formação-ordenada batida. E o jogo, tratando de marcar ensaios, exige que se garanta a possibilidade de avançar no terreno. 
A lição que daqui se retira é evidente: não é possível menosprezar componentes do jogo e o seu treino específico tem que se considerado sempre que o resultado - como acontece no Desporto - seja o elemento essencial a atingir.
Por outro lado e num ambiente terrível de água e lama, o jogo ao pé teve uma importância decisiva no percurso do jogo - conquistar terreno, afastando-o da área defensiva de ensaio para garantir a cobertura de erros naturais naquele estado de tempo e terreno. E os jogadores portugueses mostraram a sua deficiência neste aspecto quer técnica, quer táctica - deficiências que se notam nos diferentes escalões etários portugueses e que exigirão formas diferentes e mais exigentes de ensino e treino.
Tecnicamente os pontapés não têm a profundidade que deveriam ter - são curtos. E também não têm a direcção necessária, parecendo não resistir á atracção posicional dos defensores - cada pontapé deve criar um problema aos receptores, retirando-os da sua zona de conforto e não facilitando-lhes a vida ao dar-lhes tempo e espaço. Por lado ainda, a altura dos pontapés não era a mais adequada ao tempo necessário á chegada dos perseguidores - e sempre que os japoneses foram pressionados mostraram enormes dificuldades na resolução das situações. E esta incapacidade técnica criou uma incapacidade táctica que facilitou - e porventura entregou - a vitória ao Japão.
 Mas o maior erro táctico - porque se mostrou incapaz de interferir na estratégia - mostrou-se na opção dos pontapés que não tiraram partido nem dos pontos fortes da equipa nem das condições climatéricas. De facto a equipa portuguesa mostrou-se com grande qualidade de conquista nos alinhamentos - foi um dos seus pontos fortes. Nas condições climatéricas que existiam, o objectivo deveria ser - aumentando assim a pressão - o de colocar o jogo o mais próximo possível da linha de ensaio adversário. A conjugação destes dois pontos - aumentar a pressão e vantagem nos alinhamentos - deveria ter conduzido à opção de chutar as bolas para fora, criando um problema de complicada solução para os jogadores japoneses. Nesta situação a entrega do lançamento seria irrelevante e as vantagens valeriam o risco. Ficará a experiência.
As raparigas de Portugal Sub18 a comemorar a vitória sobre os USA
Noutro campo, as raparigas Sub-18 de Portugal foram reconhecidas pela Rugby Europe como "confirmação de um sólido talento" pelo resultado conseguido - 4º lugar - no Women's U18 Sevens European Championship enfatizando a vitória sobre os Estados Unidos - finalista da época anterior - por 7-0. De facto as jogadoras portuguesas, treinadas pelo João Catulo, foram notáveis - principalmente se tivermos em conta o nível do nosso desporto feminino quando comparado com o de outros países adversários. E destes jogos também se podem tirar algumas ilações. A primeira e mais visível será a necessidade de grande melhoria no jogo-ao-pé e a segunda diz respeito à capacidade de passe. 
De facto, não tendo as nossas representantes femininas grande velocidade de deslocamento - basta verificar as marcas dos nossos recordes de velocidade com os outros países adversários - é absolutamente necessário garantir a velocidade e eficácia dos gestos técnicos para poder estabelecer os desequilíbrios necessários. Assim sendo, o passe - rapidez do movimento e da velocidade da bola bem como a direcção e correcta recepção - é factor fundamental para a melhoria competitiva portuguesa (esta situação de melhoria do passe aplica-se a todas as categorias de ambos os géneros).

No caso das raparigas estão lá as características necessárias de atitude, coesão e solidariedade colectivas ou capacidade de luta. Agora é treinar o que deve ser treinado e melhorar as condições competitivas internas...

domingo, 17 de setembro de 2017

57-0 COM 8 ENSAIOS!!!

Porque são os All-Blacks a melhor equipa de rugby do mundo?
Porque têm uma superior cultura do jogo! Sabem, colectivamente, reconhecer as oportunidades e tomar, colectiva e individualmente, as decisões adequadas à situação e são capazes de recorrer, sem atrasos, à ferramenta que melhor soluciona o problema que enfrentam.
Cultura táctica e domínio técnico são as qualidades-chave - aprendidas desde o início da sua formação - que permitem aos neozelandeses desequilibrar qualquer jogo e tirar o máximo partido de erros ou falhas - provocados ou não - do adversário. Altura em que, qual matilha, se lançam sobre a presa mostrando o "instinto de predador" necessário à conquista desportiva.

Nesta "barrela" imposta aos sul-africanos, os All-Blacks ultrapassaram, mais uma vez, as médias de 2010-16 em jogos do 1º escalão reunidas pela The Economist, com 11 rupturas, 550 metros percorridos, perdendo apenas um lançamento nos seus 14 alinhamento, conquistando 5 ao adversário e não perdendo qualquer introdução própria nas 7 formações-ordenadas mas conquistando 4 aos sul-africanos. Demonstrando uma óptima capacidade defensiva de 82% com 102 placagens efectivas, os neozelandeses não sofreram quaisquer pontos - e os sul-africanos apenas se podem queixar de um falhanço brutal do seu chutador no início do jogo... porque quanto ao resto - bolas perdidas ou passes errados - teve na pressão neozelandesa a principal responsável para o que a capacidade física e o nível técnico sul-africano não tiveram solução.
O que é espantoso nestes All-Blacks é a sua preocupação constante e contínua de superação - deles próprios, da sua equipa e do adversário. Nunca abrandam e têm no rolo compressor a melhor imagem da sua acção. Facto que os torna muito difícil de derrotar.
Os seus princípios são simples, são os de sempre: atacar sempre, apoio, continuidade e pressão. E chegam lá considerando que a posse da bola tem um claro objectivo - marcar ensaios! - e um propósito permanente - ultrapassar a linha de vantagem para garantir a superioridade numérica e o aumento do espaço livre de defensores. O que, para além da necessária cultura táctica , exige um desenvolvido treino de passar e receber a bola. Coisa que procuram desde a iniciação 
Dadas as características dos jogadores portugueses há anos que me interrogo do porquê de não recorrermos aos conceitos neozelandeses da iniciação/formação para os adaptarmos ao ensino dos nossos jogadores, deixando de lado a actual escola francesa - que apenas deve voltar à nossa atenção quando houver claro retorno ao french flair - e as formas inglesas que se destinam a jogadores com outro perfil morfológico senão cultural. Procurar imitar os neozelandeses na técnica de passe e recepção, na leitura do jogo ou nas relações colectivas independentemente dos sectores de organização da equipa a que pertencem, poderia fornecer trunfos às equipas portuguesas nas suas disputas com adversários do nível com o qual nos pretendemos confrontar.
Ou seja e como diz Eddie Jones, transformar desvantagens em vantagens.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

FALTA DE RESPEITO E ÓBVIA INCOMPETÊNCIA

RESPEITO é um valor do Desporto, difundido entre adversários e companheiros em cada acção técnico-táctica de confronto ou superação e que faz parte dos valores citados pela World Rugby no seu principal livro sobre o jogo.
Mas RESPEITO foi o que não houve na sequência da decisão tomada ao dar por terminado o jogo da final entre Portugal e o Japão. Não houve RESPEITO pelos jogadores, treinadores e restantes envolvidos directamente no jogo.
E houve falta de RESPEITO, não por o jogomter sido dado por concluído mas porque não foram tomadas as devidas cautelas numa situação climática agreste mas mais do que previsível em tempo útil - no dia 29 de Agosto, dia do Portugal-Uruguai, choveram 23mm de água em Montevideo, no dia da final choveram 24mm... E falta de RESPEITO por negligência, ou seja: ninguém da organização quis saber ou se preocupou com a possibilidade das condições climáticas darem mais cabo do campo do que em tempo seco e continuaram com a marcação seguida de 4 jogos - em Portugal, em 2015, os jogos da última jornada do Trophy foram distribuídos pelo Estádio Universitário e pelo Jamor, não fosse o diabo tecê-las. Em Montevideo o diabo teceu-as... ou seja, a Organização falhou! Porque, incompetente, não previu.
Para maior espanto de tudo isto surgem as declarações do Presidente da World Rugby, Bill Beaumont, que depois de elogiar a vitória do Japão diz que "Trata-se de pouca sorte de Portugal, que jogou muito bem para se qualificar para a final, mas a segurança dos jogadores é prioritária e dadas as circunstâncias a decisão de terminar o jogo foi a mais correcta." para iniciar os agradecimentos à Organização uruguaia. Sobre os erros organizativos verificáveis na última jornada, nada! Sobre a necessidade do estabelecimento de novas regras para evitar um acesso ao mundial U20 Championship sem a totalidade dos jogos cumpridos, moita!
De facto, não estando em causa a decisão de terminar o jogo antes do seu fim regulamentar - se fosse responsável pelo Torneio e perante a visível situação teria ficado pela 1ª parte - mas sim a possibilidade, sem qualquer estranheza, de uma equipa desportiva poder aceder a uma classificação competitivamente superior com violação óbvia do princípio da equidade que rege as competições desportivas. E isto é inadmissível!
Se podemos concordar com o facto de que as condições logísticas dificultavam o reinício ou repetição do jogo no dia seguinte, existem outras soluções que seria obrigação da World Rugby considerar. Como sejam:
1 - se fosse entendido que o jogo deveria ser disputado por jogadores nas mesmas condições etárias que estiveram em vigor neste U20 Trophy 2017: a) Realização do jogo até 31 de Dezembro de 2017 e sob a responsabilidade técnica e económica da World Rugby em:
i) local a designar - campo neutro - a distância equivalente de fusos horários e horas de voo;
ou
ii) local a sortear entre Portugal e Japão.
2 - se fosse considerado que o jogo deveria ser disputado com jogadores que tivessem condições etárias para disputar os campeonatos sub-20 do próximo ano:
a) realização de jogo - com o mesmo tipo de responsabilidades da World Rugby para a equipa que fosse derrotada - de qualificação de acesso no mesmo local mas 5 dias antes do início do U20 Championship 2018 - a equipa qualificada ficaria a disputar o torneio enquanto que a derrotada voltaria a casa.
Como nada disto é complicado, caberia a Beaumont uma palavra de reflexão, não se deixando enrolar nos movimentos da sorte como justificação de um resultado que tem óbvias e importantes consequências. Para que a tristeza dos jogadores portugueses tivesse, pelo menos, a compensação de saberem que a sua situação teria obrigado a alterações para um futuro próximo. Assim... foram apenas e anti-desportivamente prejudicados.
E que organização é esta - para mais elogiada - que coloca o jogo a horas tais que a falta de iluminação capaz não permitiria - fosse qual fosse a forma - o desempate de uma final eventualmente empatada? Apostaram tudo no prognóstico?
Mas, neste imbróglio em que a selecção portuguesa de U20 se viu metida, uma pergunta me assalta desde que percebi a surpresa que a decisão provocou: então os dirigentes não leram o livro do torneio? Não sabiam que era assim? E se sabiam, não tentaram nada junto do Director de Torneio para diminuir os jogos no campo da final? E que o jogo começasse mais cedo?...
... falta de respeito e óbvia incompetência!

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