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domingo, 29 de novembro de 2020

PORTUGAL NO 20º LUGAR DO RANKING


Portugal, apesar da menor qualidade do seu jogo, fez o que lhe competia, vencendo por diferença superior a 15 pontos [33 (5E,4T)-13(1E,1T,2P) e assim, com o direito ao correspondente factor-multiplicador, trocar de posição com a Russia  — como pode ser verificado a partir das 12.00 horas de 30 /11/2020 no site oficial da World Rugby —e colocar-se no 20º lugar da tabela do ranking da World Rugby. Um ganho!
A equipa portuguesa não melhorou, pelo contrário, o seu jogo em relação ao de sábado passado — os apoios foram menos frequentes com atrasos de chegada à zona eficaz e, muitas vezes, com falta de sintonia das linhas de corrida, restringindo-se assim a continuidade do movimento e dando mais hipóteses de recuperação à defesa brasileira. E muito por isso chegámos ao intervalo com o resultado de 7-6. Também o jogo ao pé não foi brilhante. 
Quer a França, cada vez mais e com 46 pontapés no último jogo, quer a Inglaterra, com 40 pontapés (os AllBlacks apenas chutaram 29 vezes) fazem do jogo-ao-pé a sua maior arma de conquista de território com o primeiro objectivo de jogar no meio-campo adversário. Portugal também parece ter aderido a essa estratégia mas, para que haja um verdadeiro tirar de partido dessa forma é necessário que o jogo-ao-pé tenha o objectivo de colocar problemas à defesa adversária e não seja apenas um chutar por chutar. Porque se assim não for, se não houver a capacidade técnico-táctica para retirar a equipa adversária da sua posição normal ou de conforto, o jogo transforma-se num mero ping-pong a ver quem falha primeiro... E o jogo-ao-pé português ainda está longe da eficácia táctica necessária, nomeadamente para poder explorar os corredores exteriores ao colocar dúvidas à tomada de decisão do trio de trás adversário.
Duas boas vitórias, claro. Mas, e devemos ter isso presente, contra uma equipa "muito média" que está longe de ter o nível dos nossos adversários directos no caminho do Mundial de França. 
Ganho dentro do campo, perdido cá fora é o mínimo que se pode dizer quando se percebeu que foi marcado um jogo, ainda por cima decisivo para o apuramento da fase final da Divisão de Honra, para a mesma hora do jogo da Selecção Nacional. Esta marcação, sejamos claros, corresponde a uma absoluta falta de respeito pela equipa nacional e para com a comunidade rugbística portuguesa. É óbvio que quando a Selecção Nacional joga não há outros jogos - em França, onde o campeonato não pára quando há jogos da selecção, os jogos deste sábado tiveram como último início as 18:45 locais para um França-Itália iniciado às 21:00 horas. E se a Académica, numa visão definida pela importância do seu interesse, esteve mal ao marcar o jogo para o mesmo horário — no sábado passado o jogo também em atrasado foi marcado para as 11:00 não colidindo com o jogo de Portugal — a Federação, mostrando-se distraída e ao não o impedir com recurso ao nº6 do Artigo 26º do Regulamento do Campeonato Nacional da Divisão de Honra que diz e transcrevo: "Nos fins‑de‑semana de actividade da Selecção Nacional de XV, não deverão realizar-se jogos do CNDH, salvo motivo de manifesta nem nessidade, o qual será determinado unicamente pela Direção da FPR.", não esteve melhor. Sobra a imagem de que nada disto tem importância, que jogos da selecção são uma espécie de entretenimento da malta ou que a modalidade se subordina aos interesses de cada um. E a tendência, se finalmente não se quiser compreender que a organização desportiva de rendimento vive da capacidade de articular colaboração e competição, será a de piorar o estado de coisas. E então não há sonhos que resistam.


 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

BOA PÁSCOA

...dentro dos possíveis, o melhor.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

AAP: ANTECIPAÇÃO, APOIO, PRESSÃO

Os Crusaders venceram de novo e pela 9.ª vez o SUPER RUGBY. E venceram-no, por 37-18, de forma soberba. 
Durante todo o tempo de jogo os Crusaders mostraram capacidades com base numa enorme confiança alicerçada no estudo do adversário, das suas forças e fraquezas, enquanto equipa e enquanto indivíduos. Com estes conhecimentos a equipa dos Crusaders utilizou em permanência o processo AAP (Antecipação, Apoio e Pressão) quer em defesa, quer em ataque, criando os desequilíbrios necessários quer pela possibilidade de diversas opções de continuidade que o apoio, adequado na forma e útil no tempo, permite e que cria a pressão necessária para, diminuindo o campo de tomada de decisão pela diminuição do espaço e do tempo, encurtar a linha da defesa para, com a paciência demonstrada na sequência de acções e pela notável capacidade e inteligência de jogo dos seus principais transportadores, Read e Whitelock, encontrar os melhores espaços de penetração de que resultaram 13 quebras da linha da defesa para 4 ensaios marcados num valor de eficácia real de 30,8% contra 28,6% dos Lions - 7 quebras para 2 ensaios. Curiosamente os Crusaders tiveram apenas 44% de posse de bola a que corresponderam 128 bolas conquistadas enquanto que os sul-africanos Lions com 56% de posse - e 66% de ocupação do meio-campo — demonstraram pior eficácia na utilização das 158 bolas conquistadas.

Esta pior eficácia dos Lions assentou principalmente numa absoluta incapacidade de adaptação à realidade do jogo adversário — tentaram o que treinaram e não mostraram nunca capacidade para procurar outras soluções ou inovações. O exemplo do controlo conseguido pelos Crusaders sobre o ponto forte sul-africano dos maul-penetrantes nos alinhamentos e que foram repetidos, embora sempre derrotados, até à exaustão é significativo: nunca procuraram soluções diferentes formatados que estavam no seu fixo modelo.
Curiosamente os números globais não variam muito — como se pode ver no quadro seguinte — em relação à final de 2017 que os Crusaders também venceram, então em Joanesburgo, por  25-17. Pelo que se viu não houve lição retirável pelos sul-africanos da derrota de 2017...

Eficácia relativa = Ultrapassagem da LV/Nº de bolas disponíveis
Eficácia efectiva = Rupturas da defesa/Ultrapassagem da LV
Eficácia global = Nº de ensaios/Ultrapassagem da LV
Eficácia real = Nº de ensaios/Rupturas da defesa 
























Mas foram várias as demonstrações retiráveis deste jogo final.
1ª Demonstração — O Rugby trata do uso da bola
Com menos 30 bolas disponíveis os Crusaders, ao marcarem o dobro dos ensaios dos adversários resultantes de praticamente duas vezes o número de rupturas da defesa, mostram com clareza que é a capacidade de uso de bola — a qualidade — que determina o resultado e não o número de bolas disponíveis — quantidade. O que significa, naturalmente, que é o domínio da antecipação — prever colectivamente o que vai acontecer — do apoio e da pressão resultante que exige uma permanente velocidade de deslocação e execução, que determinam a diferença entre as equipas.
A capacidade dos Crusaders de jogar, circulando a bola, é de uma eficácia notável. Atacam a linha defensiva com diferentes ângulos de corrida, mostrando-se capazes de diversos movimentos como dobras ou cruzamentos pela mera detecção da colocação de ombros dos defensores — nada parece previamente combinado mas fruto da leitura e decisão momentâneas. E foi para atingir os níveis de excelência demonstrados que foram buscar, por recomendação de Daniel Carter, o irlandês Ronan O’Gara que soube trazer uma maior inventiva ao jogo das linhas-atrasadas dos Crusaders. 
2ª Demonstração — O Rugby é uma corrida de estafetas
Como no Rugby a bola não é passável para a frente, uma equipa nunca deve ceder terreno em relação áquele que conseguiu anteriormente conquistar. Sendo assim os passes entre jogadores da mesma equipa devem ser tão próximos quanto possível da linha que passa pela bola e é paralela às linhas de ensaio. Para que isso seja possível é necessário que entre a conquista da bola e a sua movimentação haja a maior velocidade possível para, ao não ceder terreno, fixar os elementos da defesa e contribuir para o seu encurtamento.
Neste jogo da final os Crusaders mostraram, por diversas vezes, essa capacidade de “passe na linha” e as vantagens que lhe são inerentes: conquista de terreno, fixação da defesa, encurtamento da defesa e consequente abertura de espaços.
Como numa corrida de estafetas o ponto de partida de cada recepção deve ser o ponto onde se encontra o portador da bola. 
3ª Demonstração — O Rugby é um jogo de adaptações 
Com maior velocidade e pressão utilizados no jogo, mais adaptações momentâneas são necessárias. Colectivas — das diversas unidades — e individuais. O que implica uma maior capacidade de leitura e de decisão por parte dos jogadores, implicando também diferentes formas de formação e treino de jogadores que possam permitir uma organização colectiva — total ou por grupos — que se possa opôr à movimentação adversária. Se à antecipação que o treino da leitura baseada na diversidade de situações permite, juntarmos o movimento do apoio adequado à situação, a adaptação e a organização que lhe é necessária está feita em movimento e sem perda de tempo ou cedência de terreno.
Ao contrário do treino organizado em “grelhas” com repetição dos mesmo movimentos, o treino — desde as primeiras idades — deve ser organizado de acordo com os conceitos do “game sense”, aproximando as situações do treino daquelas com que os jogadores se irão confrontar em jogo. E se a velocidade é um dos elementos necessários nas mais variedades situações do jogo, a velocidade aplicada no pós-placagem pode mostrar-se decisiva — como aconteceu neste jogo da final do Super Rugby — na definição da vantagem de uma equipa sobre a outra. O que significa que, para este jogo de movimento, a disponibilidade para a acção, sem considerar o número da camisola, deve ser total e constante
4ª Demonstração — O Rugby é um jogo de ataque
Muitas vezes se diz que é a defesa que ganha jogos. É relativo — muito relativo mesmo — este conceito. Uma defesa sózinha, por melhor que seja, não ganha jogos.
A defesa tem, claro!, enorme importância na composição do resultado... desde que o ataque seja eficaz e marque os pontos necesários.
O que a defesa pode conseguir é não perder jogos — os Crusaders conseguiram 84% de êxito nas suas 205 placagens enquanto os Lions se ficaram por 79% das 135 placagens tentadas. O que significa que é preciso que o ataque tenha marcado os pontos necessários à construção do resultado. Portanto mantém-se o princípio de sempre: o Rugby é um jogo de ataque! 
Os Crusaders são uma equipa notável recheada de internacionais All Blacks.E é tão notável que é corrente dizer-se: se queres ser um All Black junta-te aos Crusaders. Foi o que fez, aliás, Scott Barrett que prescindiu de jogar na mesma equipa dos irmãos Beauden e Jordie, para, como então disse, ir aprender com os melhores e ser All Black. Já é!

sábado, 19 de maio de 2018

APRENDER COISAS INTERESSANTES

Na habitual reunião do Panathlon Clube de Lisboa subordinada ao tema “Inovação no Têxtil para o Desporto” aprendi coisas muito interessantes. Como, por exemplo, que as camisolas dos rugbístas Springboks são construídas com uma malha que tem fibras horizontais elásticas e verticais rigídas, isto é, são de largura extensível, adaptando-se às diferentes formas dos corpos, mas não são alteráveis no seu comprimento. Vantagens do modelo: aumenta em muito a dificuldade de agarrar um jogador portador da bola pela camisola. Esta ideia partiu de um pedido de um antigo rugbista internacional escocês que comentou junto de investigadores têxteis: “interessante era uma camisola que não deixasse que a puxássemos...”. E de ideia em ideia a somar aos conhecimento das técnicas necessárias, atingiu-se o modelo pretendido de camisola que e não por acaso, são fabricadas em Portugal. E poucos de nós o sabemos...
Também os calções dos Springboks são adaptados para criar uma vantagem competitiva. De ambos os lados têm um tecido que permite limpar as mãos do suor — as vantagens para o jogo de passes, no passar e receber, são óbvias e o formação, o lançador da bola e o saltador agradecerão mais do que os outros. (na altura perguntei: porque é que os tenistas não usam calções deste tipo? Isso é gente muito especial... foi a resposta).
Fui-me lembrando dos “avanços tecnológicos” que fazíamos nos tempos em que — por óbvia falta de capacidades técnicas —pouco mais podíamos contar do que com a imaginação para procurar vantagens competitivas como substituir o pano dos bolsos dos calções por nylon para, nos dias frios e/ou com chuva, podermos aquecer as mãos. Ou o “roubo” da laca da mãe para deitar na sola dos sapatos e garantir a “presa” necessária para um voleibolista ou ainda e para o mesmo efeito o uso do próprio suor retirado dos braços e testa para molhar as solas de sapatos e assim melhor garantir a necessária “presa” ao piso.
Com o mais que foi dito, ficou uma noção muito clara da contribuição do Desporto para a inovação têxtil. A necessidade de superação e a procura de melhores resultados desportivos é, de facto, responsável por diversas inovações de consequências positivas para o conforto das nossas vidas. De facto e cada vez mais o Desporto não é apenas o espectáculo que passa à nossa frente mas um conjunto de actividades de investigação, de criação, de inovação, de produção e de distribuição que faz dele um espaço de cada vez maior domínio social. E Portugal, com uma enorme e muito espalhada iliteracia desportiva, está, numa contradição de interessante análise, profunda e positivamente integrado neste domínio da têxtil. Coisas...

quinta-feira, 19 de abril de 2018

LAVADAS AS MÃOS, LAVARÃO A CARA?

DECISION OF RUGBY EUROPE JUDICIAL COMMITEE
Chaired by Professor Lorne Crerar (Scotland), assisted by Mr Jean-Claude Legendre (France) and Mr Aliaksandr Danilevich (Belarus), the Independent Committee has convened the following players: Pierre Barthère, Mathieu Belie, Lucas Guillaume, Guillaume Rouet, Sébastien Rouet as well as the Spanish Rugby Union’s representatives (F.E.R).
After considering the charges against each player and the F.E.R., the Committee heard the arguments and evidences of all parties. 
After deliberations, the Judicial Committee has issued the following sanctions:
  • Guillaume ROUET (n°9): physical abuse of a Match Official and verbal abuse: 36 weeks
  • Sébastien ROUET (n°20): physical abuse of a Match Official and verbal abuse: 43 weeks
  • Pierre BARTHERE (n°6): threatening actions/words at a Match Official: 14 weeks
  • Lucas GUILLAUME (n°7): threatening actions/words at a Match Official: 14 weeks
  • Mathieu BELIE (n°10): threatening actions/words at a Match Official: 14 weeks 
These sanctions are applicable immediately for all players’ rugby activities (clubs and national teams).
Players have the right of appeal within 7 days of receipt of the written decision.
The misconduct complaint against the Spanish Rugby Union was suspended and a further hearing date will be set.
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Pronto! as mãos estão lavadas como se pode ver pela decisão acima transcrita do Comité Judicial da Rugby Europe... veremos se chegarão a lavar a cara.

Os castigos, a que falta ainda ultrapassar o tempo da realização do direito de recurso por parte dos jogadores espanhóis para serem efectivos, são muito duros. Até porque terão directa influência no emprego profissional dos jogadores - quem pagará três meses e meio de ordenados a jogadores com castigos deste teor? e dez meses e meio?!

No entanto - dados os antecedentes e as consequências - assiste-nos o direito de suspeita. E se esta dureza de castigos tiver como objectivo apoiar o facto da Roménia se encontrar em condições de apuramento directo? Isto é, que seja a Roménia a designada Europa 1 que abrirá o Mundial 2019 contra o Japão. Porque pode servir para isso se a dimensão da abertura da porta se fechar com esta decisão.

E porque é que pode ser um apoio para a Roménia? Porque esta mão pesada pode pretender demonstrar o seguinte: como se pode ver pela análise desta comissão independente, os jogadores espanhóis, como responsáveis por comportamento gravíssimo foram também os responsáveis por tudo o que se seguiu - má imagem, má imprensa, etc. - e que colocou o Rugby em maus lençóis. E como resulta desta demonstração, não fará então qualquer sentido analisar a actuação da Rugby Europe ou do árbitro que verão assim as suas acções lavadas na concepção do processo desde que a World Rugby também entenda não se intrometer e que lhe chega este resultado para garantir a boa imagem do Mundial... a não ser que se provem - quem as está a analisar? - as acusações de má inscrição de jogadores por parte da Bélgica, Rússia, Espanha e Roménia que qualificaria directamente a Alemanha para o Mundial e colocaria Portugal no confronto com Samoa. E lá se ia a boa imagem...

Aliás esta questão da possível má inscrição levanta outro tipo de questões uma vez que foi, finalmente, decidido que as selecções nacionais de Sub-20 não "capturariam" jogadores - isto é que jogadores utilizados em jogos oficiais numa selecção de Sub-20 não ficavam proibidos de jogar, de acordo com a REGULATION 8, ELIGIBILITY TO PLAY FOR NATIONAL REPRESENTATIVE TEAMS, por selecções de outros países (este esquema de "captura" era utilizado pelos "poderosos", nomeadamente pela França que já terá "caçado" três portugueses, para garantir o controlo de eventuais talentos). Mas essa boa norma foi imediatamente metida no carril dos interesses - só é considerada válida para jogos posteriores a 1 de Janeiro de 2018, com o argumento dos prejuízos (não existem para os jogadores!) que a retroactividade causaria. Enfim, o habitual num faz-de-conta de respeito pelo Direito.
Mas interessante de facto e pelo meio de tudo isto, seria o acesso ao relatório do árbitro romeno do Bélgica-Espanha. Para se saber a base da construção dos castigos...

quarta-feira, 21 de março de 2018

O QUE PARECE, MUITAS VEZES, É

Já tenho idade e experiência desportiva-rugbística suficiente para saber que o rugby não corresponde - por muito que pudéssemos gostar que assim fosse - ao retrato conceptual do reverendo W.J. Carey e que deu o mote aos Barbarians RFC: "O Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas não para maus desportistas seja qual for a sua origem." E também gostaria que, na melhor tradição da modalidade, fosse aceite por todos os jogadores e treinadores a regra fundamental de respeito pelo árbitro e pelas suas decisões. Como escreve o jornalista Spiro Zavos "a integridade do jogo de rugby está no entendimento que o árbitro é o juiz final dos factos em qualquer jogo de rugby".

Dito isto, direi que o comportamento dos jogadores espanhóis no final do Bélgica-Espanha de domingo passado foi um vergonha, sendo desonroso para uma modalidade que se quer diferente do que assistimos noutras modalidades (principalmente no futebol e na sua envolvente) e não pode ser permitido. Não há desculpas!

Por pior que o árbitro tenha sido - e foi mau e prejudicial - os jogadores não têm qualquer direito a terem aquele destemperado comportamento. Não há desculpas!

Mas também - o que não quer dizer que os incorrectos comportamentos dos jogadores espanhóis possam ser absolvidos - não há desculpas para a demonstração de amadorismo incipiente da Rugby Europe e seus mandantes.

Na minha experiência internacional já assisti e já me vi envolvido em diversas situações que atiraram os princípios e valores desportivos para a sargeta. Tive que enfrentar situações, antes, durante ou depois de jogos que violaram as regras elementares do que defendemos como espírito desportivo e que gostámos de integrar no rugby como único e específico. Infelizmente as coisas são o que são e tapar os olhos com a peneira para fazer de conta que somos diferentes é um erro sistemático e que nos faz cair nos buracos armadilhados que, com medo de um "isto afinal é tudo o mesmo", são embrulhados no celofane de casuais acidentes.

A decisão da Rugby Europe de manter a nomeação de uma equipa de arbitragem romena para um jogo que se sabia decisivo desde 16 de Fevereiro último - nomeadamente para a Roménia - é um disparate sem dimensão e corresponde a uma atitude eticamente deplorável que atinge mesmo o nível do escândalo! Porque é uma situação que levanta as maiores suspeitas. Porquê? porque a equipa de arbitragem é romena, o presidente da Rugby Europe, Octavian Morariu, é romeno e a equipa que dependia do resultado é romena. Ou seja, tudo areia do mesmo saco. E como para ser sério não basta sê-lo, sendo preciso parecê-lo, o chefe dos árbitros europeus, Patrick Robin, em vez da leviandade (bastante habitual, diga-se) com que encarou o assunto deveria, de imediato, ter procedido à mudança. Não tendo procedido à sua substituição e colocando a resolução na dependência da sua vontade, aumentou o nível das suspeitas. Ou seja, como propositado não se conseguiria melhor.

Já assisti, quer no rugby quer noutras modalidades, a diversas arbitragens habilidosas para saber reconhecer o encaminhamento. E a arbitragem dos romenos no Bélgica-Espanha foi tendenciosa e, nitidamente - o que, repete-se não valida o comportamento final espanhol - favorecedora da Bélgica. Favorecendo assim a Roménia.

Resultados desta situação vergonhosa? Duvido que sejam palpáveis mas, no mínimo, deveriam traduzir-se no afastamento da arbitragem internacional dos romenos Iordarchecu, Petrescu e Ionescu e também no definitivo afastamento dos responsáveis pela sua nomeação bem como do ou dos responsáveis por terem ignorado o pedido espanhol de substituição da equipa de arbitragem.

E no meio disto como fica o Presidente Morariu? Mal! Só lhe valendo, para garantir a continuidade, alguns fretes e a demagogia das medidas que, ignorando as regras desportivas dos patamares competitivos que permitem a existência do equilíbrio da competição, estabelecem a "participação" como valor, permitindo que equipas de mais baixo nível e em "salto de cavalo" disputem  apuramentos imaginários para o Mundial como acontece com Portugal que, da 3ª divisão, faz o "difícil" jogo com a "melhor da 4ª divisão", a República Checa e trepa três melhores qualificados para entrar na disputa dos apuramentos seguintes. Simpatias que as federações europeias parecem gostar e admitir como boas práticas. E assim se conquistam aliados e se cobrem os erros e a falta de decisões adequadas.

O que se passou em Bruxelas - que teve repercussão mundial - mostra que muita coisa vai mal na administração da modalidade e que, para colmatar enquanto possível, mudar é absolutamente necessário.

Exige-se mudança e a responsabilidade está do lado das federações europeias. Que se mude quanto antes.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

PITÕES E RELVA ARTIFICIAL








Jogo da 9ª jornada, último sábado, do TOP14 francês entre o Oyonnax - USO - e o Castre no campo de relva artificial do Estádio de Charles-Mathon.
Os uso de pitões de alumínio é evidente...

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

PROIBIR PITÕES DE ALUMÍNIO?!

Os famigerados pitões de alumínio que dão cabo da relva artificial. Será?!
A Federação Portuguesa de Rugby enviou para os clubes - julgo que para todos, mas não confirmei - uma determinação a proibir o uso de pitões de alumínio em campos de relva artificial, demonstrando um óbvio abuso de poder numa manifestação de absoluta ignorância. Porque a Federação não tem conhecimentos técnicos para determinar sobre o assunto e a sua capacidade de homologação exige respeito pelas exigências normativas!

Qual é o problema do uso de pitões de alumínio sobre relva artificial? Nenhum desde que cumpram o Regulamento 12 da World Rugby, responde (a meu pedido) o Director Comercial das SIS Pitches, empresa fabricante e instaladora, por exemplo do anterior e actual campo do Saracens Football Club - clube inglês de rugby de alto nível competitivo que joga no Allianza Park. Em 2010 quando se preparava para colocar o primeiro 3G do rugby inglês, dizia o seu presidente Nigel Wray: "A relva artificial pode muito bem ser o futuro do rugby. Foi aprovada pela IRB e pela RFU e as últimas evidências sugerem que permitirá um jogo mais rápido, mais seguro e mais divertido." E não consta que tenham proibido os pitões de alumínio... mas sabe-se que, desde 2015, foram duas vezes campeões ingleses e duas vezes campeões da Europa.

Também não consta que o francês US Oyonnax - 1º clube francês a montar, em 2015, um campo de relva artificial, tenha proclamado qualquer proibição. E também não consta que todos os outros campos de relva artificial onde se joga rugby tenham a proibição dos pitões de alumínio. Proibição que demonstra, para além de outras coisas, ignorância desportiva. Se não, vejamos.

As Leis do Jogo de Rugby autorizam que o jogo se realize em relva artificial desde que esta cumpra o Regulamento 22 do World Rugby (alínea b) da Lei 1.1). Compete à FPR a homologação dos campos (artigo 43º do Regulamento Geral de Competições 2017/2018) uma vez respeitado o já referido Regulamento da World Rugby ou respeitando requisitos e condições definidos pela FPR. Definições que se encontram no Regulamento de Homologação de Campos e que dizem respeito às dimensões do terreno-de-jogo e à sua orientação mas nada estabelecem sobre a tipologia de piso.

Ou seja: o rugby português pode ser disputado em campos de relva artificial que cumpram o Regulamento 22 da World Rugby. Como aliás qualquer jogo de rugby em qualquer parte do mundo. E é esse constrangimento que a FPR deve assegurar na sua homologação, garantindo campos adequados ao jogo de rugby.
O pitão regulamentar de acordo com a Rugby World 

Definida a única restrição, passemos aos pitões e ao Regulamento 12 que os define na sua formatação (não fala em materiais): um diâmetro de contacto mínimo de 10mm para uma altura máxima de 21 mm. Ou seja: por um lado um limite de altura que permita a tracção e a estabilidade em condições adequadas à modalidade e, por outro, o diâmetro mínimo que garanta a segurança do contacto impedindo perfurações.

E cumpre-se assim a regra evidente: o que não fere a pele humana também não perfura a tela ou corta filamentos da relva artificial.

Lembre-se ainda que compete aos árbitros - por óbvias razões de segurança - verificar, como estabelece a Lei 4.5 - o estado dos pitões das botas, garantindo assim que tudo está em conformidade com as Leis do Jogo.

Com a facilidade de obter pitões de 15, 18 e 21mm enroscáveis e em alumínio, os jogadores podem escolher a dimensão que, para um dado campo, pode tornar a relação atleta/piso mais confortável. Limitando-se portanto a jogos de pitões e à sua troca eventual e não tendo que utilizar dois pares de botas.

Com uma altura máxima de 21mm e quando comparada com as botas normalmente utilizadas pelo futebol - a FIFA tinha, antes do aparecimento das "laminas", um limite de altura de 13mm - verifica-se que os 8 mm de diferença marcam a distância das necessidades de movimentos entre as duas modalidades. No Rugby há necessidade, para além dos equilibrados e transmissões de esforço da corrida, de garantir a tracção no empurrar das formações ordenadas ou espontâneas, nos mauls ou placagens. Ou seja, a necessidade de "estabelecer presa" de uma é muito maior do que da outra.

Estas diferenças não podem ser reduzidas à igualdade por mero capricho. O uso de pitões de borracha ou de solas moldadas não produz a aderência necessária que o jogador necessita nos seus movimentos individuais ou colectivos. O que significa uma maior tendência a lesões, uma maior insegurança. Ou então um afrouxamento das técnicas adequadas com as péssimas consequências daí resultantes. O que significa que os primeiras-linhas ou estabelecem um pacto de não-agressão ou aumentarão os riscos de colapso com o consequentes aumento do risco de lesões graves. Tudo porque alguém decidiu proibir esse enorme papão dos pitões de alumínio...

Porque surge então esta moda proibitiva? Porque, num país de domínio futebolístico tudo se mede pelos ditames do futebol - a menor altura habitual dos seus pitões terá levado a cortes poupadores com uso de combinações desajustadas dos materiais que compõem o tapete artificial e como também pouco se usam pitões de alumínio, meteu-se tudo no mesmo saco e disfarçamos o mau resultado técnico acusando a vontade devoradora do alumínio. Cheguei a ler, de um ilustrado fornecedor, a justificação do ano que, sensibilizado, transcrevo: não se pode utilizar pitões de alumínio porque, sendo de enroscar e podendo estar mal enroscados, pode prender alguma fibra e causar a queda do atleta ...  E foi na facilidade desta armadilha que caiu a Federação - sem nenhuma vantagem para o Rugby, para o jogo ou para os jogadores. Pelo contrário!
Estes malandros a dar cabo de um relvado artificial...que irresponsabilidade...
que mania esta de empurrarem e de precisarem de agarrar os pés ao chão... 
Há uns anos (2012) e a pedido da direcção da FPR da altura, elaborei um parecer DO USO DE PITÕES DE ALUMÍNIO EM RELVA ARTIFICIAL, que concluía assim:
  1. Não há prova conhecida, nem científica, nem empírica, que os pitões de alumínio [se de acordo com o Regulamento 12 da WR] deteriorem um campo de relva artificial mais do que quaisquer outros. A questão está na adequação às regras definidas e à necessária fiscalização que competirá aos próprios jogadores, treinadores, dirigentes e árbitros.
  2. A homologação de um campo para uma prática desportiva implica resposta material adequada às exigências do desporto que pretende servir. A prioridade pertence ao desporto e são os materiais que devem adequar-se e adaptar-se às características do jogo. Não o contrário.
  3. Assim a proibição de uso de pitões de alumínio não faz qualquer sentido, porque:
    • a sua considerada capacidade de deterioração da superfície de relva artificial não passa de um mito urbano idêntico aliás às apontadas ao comportamento da superfície em relação aos campos de relva natural;
    • as características técnicas do rugby - e lembra-se que a superfície deve estar suficientemente húmida para garantir quer o abaixamento da temperatura, quer a menor abrasividade - exigem que os seus jogadores consigam a "presa" - com capacidade equilibrada de tracção e estabilidade - necessária nos seus apoios para a expressão das suas capacidades. O recurso a botas com solas e pitões que entendem melhor se adequarem às suas capacidades ou estilo é um direito que não pode ser posto em causa;
    • colocaria nos relvados artificiais mais um anátema de desconforto sem qualquer sentido e prejudicial às vantagens económicas da sua utilização - os jogadores das equipas não residentes em campos de relva artificial teriam, por exemplo, de se municiar de "outras" botas; 
    • as referências a cumprir têm como limite e norma o que se encontra estabelecido nas Leis do Jogo, Regulamentos e outros documentos emanados das autoridades que têm competências para o efeito. 
terminando a RECOMENDAR
  1. aos clubes e seus dirigentes:
    • Que não aceitem contratos de termos de garantia com imposições que não estejam de acordo com as normas técnico-desportivas.
  2. aos clubes, dirigentes, treinadores, jogadores e familiares:
    • Que sendo o campo em relva artificial uma nova instalação com características particulares e diferenciadas dos campos de relva natural são exigíveis novos comportamentos - uma nova cultura de utilização - de que são exemplo:
      • a utilização das botas destinadas aos jogos apenas nas áreas de pavimento adequado e adjacentes ao campo com o objectivo de não deteriorar pitões e solas;
      • colocação de revestimento adequado nos percursos balneários/campo e zona de suplentes.
  3. aos treinadores e árbitros
    • Sensibilização dos treinadores para as vantagens de controlo do uso das botas e para - à semelhança do conseguido nos pavilhões - a sua exclusiva utilização no terreno de jogo e áreas demarcadas, tendo como objectivo a sua prolongada adequação à Lei 4.3. 
    • Sensibilização dos árbitros para a absoluta necessidade de cumprimento das Leis 4.3 e 4.5 com o objectivo de garantir a integridade física de jogadores e defender a qualidade do campo de relva artificial.
Apesar do Parecer continuar nos arquivos federativos foi ignorado e nem sequer serviu para levantar uma dúvidazinha aos magníficos decisores. E a única diferença existente de então para cá diz respeito à significativa melhoria das técnicas de fabrico, montagem e instalação - a relva artificial actual está melhor do que era - e a imposição da proibição é, portanto, um disparate - porque se os campos não aguentam o desgaste eventualmente provocado pelos pitões de alumínio que garantem a segurança da absolutamente necessária tracção e estabilidade, então não servem para suportar jogos de Rugby e não devem estar homologados uma vez que a segurança da integridade física dos jogadores é uma responsabilidade prioritária.

Pois é: o pensar para decidir anda pelas ruas da amargura...

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

DE QUE NOS SERVEM ESTAS IDEIAS?

Começou o Campeonato Nacional de Primeiro Escalão Competitivo Sénior - o CN1. Não sendo a designação de grande felicidade, tem a vantagem (enorme, diria eu) de ter deitado fora a designação de Divisão de Honra, permitindo assim a clareza da segunda divisão deixar de ser conhecida por Primeira Divisão.
O Campeonato começou mas não começou bem - jogos sem árbitros por faltas de pagamentos anteriores (o actual regulamento no ponto 1 do seu  Artigo 10º, indica que são os clubes da CN1 que têm a seu cargo as despesas referentes à arbitragem), continuidade dos desequilíbrios com todos os jogos a terem vencedores por 15 ou mais pontos - com mais de 15 pontos de diferença o vencedor, no ranking da World Rugby, é majorado 1,5  vezes - e dois dos jogos a mostrarem a enorme diferença entre o nível principal e secundário.
Sendo estranha a fórmula encontrada para reduzir o 1º nível de 10 para 8 equipas - aumentar para 12 para reduzir a 6 na presente época e chegar a oito na próxima época - não será também a solução mais eficaz para garantir o equilíbrio competitivo da próxima época.
Aliás a fórmula encontrada tem um perigo evidente! Porque permite recursos pouco desportivos e sem garantia de sustentabilidade actual e futura. Definindo que os dois primeiros classificados de cada uma das três séries formarão a CN1 desta época, acrescentando para a próxima - 2018/2019 - duas equipas, fica estabelecido que equipa que consiga agora o seu apuramento, ficando até ao 2º lugar de cada série, terá garantida a manutenção no Primeiro Escalão na época 2018/2019. Ou seja, a exigência competitiva desta época situa-se na disputa das curtas séries da Fase de Apuramento, tornando-se diminuta na Fase Regular porque uma equipa que perca a possibilidade de atingir um dos quatro lugares não tem qualquer necessidade de garantir o seu desenvolvimento competitivo. E assim sendo - e porque a Fase de Apuramento termina a 2 de Dezembro - pode surgir um factor distorcivo: recurso a jogadores estrangeiros durante este curto período - e apenas nele - para garantir a qualificação. Porque o resto já não conta ou conta muito menos.
Não satisfeito com esta possibilidade distorciva, o Regulamento do Primeiro Escalão Competitivo (RPEC) impõe mais. 
Começa desde logo, ignorando a prática federativa vigente desde 2010, por permitir que treinadores de Grau II possam ser responsáveis por equipas de 1º nível. Existindo, na lista da FPR, 54 treinadores certificados com o Grau III, abrir ao grau técnico inferior representa uma absurda menor exigência de conhecimento, experiência e capacidades para os responsáveis coordenadores e supervisores do treino das equipas de élite do rugby português. Principalmente se o objectivo é o de conseguir - será? - resultados internacionais que nos coloquem de novo no patamar a que pretendemos pertencer. Pergunta-se: faz então algum sentido permitir a diminuição da qualidade técnica dos treinadores das equipas onde actuam os jogadores seleccionáveis para a principal equipa nacional representativa? 
Há anos a FPR teve que responder em Tribunal pelo facto de considerar - em defesa das selecções nacionais - que, cada equipa, não poderia ter, em simultâneo e no campo de jogo, mais do que três jogadores não seleccionáveis por Portugal. Do Tribunal veio a apreciação que nada de ilegítimo existia nesta obrigação. Obrigação que, em documento da responsabilidade de um grupo de trabalho nomeado pela Secretaria de Estado do Desporto e Juventude para estudar a questão da protecção das selecções nacionais e datado de 2011, foi assim caracterizada: “Um bom exemplo disso é o caso da Federação Portuguesa de Rugby. As equipas poderão utilizar jogadores estrangeiros, em número indeterminado, mas não mais de três em simultâneo em campo […]”
Vá lá saber-se porquê, tudo mudou com as decisões da direcção da FPR* que agora, definindo em três alíneas, permite um número ilimitado de jogadores de origem comunitária ou equiparados, um número de 4 jogadores não seleccionáveis em simultâneo em campo para 6 nos 23 lugares da folha de jogo, obrigando apenas a 6 jogadores formados localmente em simultâneo no campo (que, por casualidade, podem também ser estrangeiros por não terem a nacionalidade portuguesa) e permitindo 10 nas folhas de jogo. Ou seja: qualquer equipa se pode apresentar para um jogo com, pelo menos, 13 jogadores estrangeiros e não seleccionáveis - lembre-se que a nossa legislação, ao contrário de diversos países, exige a nacionalidade portuguesa para a representação nacional, ficando assim anulada qualquer decisão temporal determinada pela World Rugby. Repita-se que os jogadores formados localmente não têm, necessariamente, de ser portugueses, isto é, seleccionáveis. Não se percebe a vantagem mas vêem-se, à vista desarmada, as desvantagens...
Para além de abrir a porta ao prejuízo das selecções nacionais portuguesas e ao eventual comando desportivo interno pela capacidade financeira, abre-se ainda - numa altura em que aumenta o conhecimento da manipulação de resultados desportivos - a porta a uma entrada de estrangeiros - provavelmente a preços convidativos - que, mesmo se comunitários, podem não ser mais do que paus mandados dos diversos e clandestinos sistemas de apostas. E não se diga - com aquele ar costumado de que pertencemos a outro imaculado mundo - que “Isso não acontece no Rugby!”. Porque os relatórios policiais europeus dizem outras coisas…
Portanto esta nova época não começa da melhor maneira com um regulamento (RPEC) que estabelece:
  • um campeonato com uma fase de Apuramento de tal maneira curta que os resultados desportivos podem ser distorcidos; 
  • uma fase Regular - rapidamente passada a quatro interessados e onde apenas estará em disputa o 1º lugar - de pouca competitividade;
  • um desnecessário abaixamento técnico pela permissão de treinadores de Grau II enquanto responsáveis pelas equipas da élite rugbística portuguesa;
  • uma imposição de pagamento aos árbitros por parte dos clubes de que não se vê resultados mas se notam consequências;
  • uma excessiva permissão de jogadores estrangeiros que podem, assim, criar problemas às selecções nacionais seniores para além de poderem tornar-se num gasto desmesurado que irá criar óbvios problemas financeiros à área de desenvolvimento dos clubes...se não representarem perigo maior.
… e a distorção desportiva pode ser ainda maior ao colocar, no poderio financeiro e não na sustentabilidade da formação desportiva, a chave do sucesso. O que nada augura de bom para o desenvolvimento do rugby português!…
… que corre o risco de retorno aos tempo das trincheiras.  E o futuro, que parece ali, passa a longínqua miragem.  
* Curiosamente, mas anacronicamente face ao que agora pretendem, este conceito prevalece no actual regulamento da Taça Europcar Challenge.   

sexta-feira, 7 de julho de 2017

POR UM FUTURO COM RESULTADOS

Sendo a missão das federações desportivas a criação das condições de competição desportiva que permitam a melhor preparação possível para o confronto internacional e não, como muitos gostam de julgar, a de dever espalhar a prática do desporto pelo país inteiro - isso é obrigação do Estado através da Escola e do apoio das Autarquias - têm portanto como seu objectivo e propósito, o desenvolvimento do Desporto Rendimento. 
Na actual situação, com o excesso de equívocos com que o Desporto tem sido rotulado - se não houvesse desporto para atacar tantas maleitas nem sei como existiríamos... - não será grave a co-existência, numa mesma federação, das duas componentes: Desporto-Rendimento e Desporto-Social ou Lazer. Desde que...
...desde que não haja ingerências e que exista nítida separação de meios e acções uma vez que, sendo os interesses e conteúdos distintos também o serão uma e outra das práticas. Assim o que faz sentido é separar as duas componentes em duas estruturas distintas com corpo de tomada de decisões também distinto numa adaptação das ligas profissionais à estrutura amadora das diversas federações. Ou seja: de um lado aqueles que têm capacidade organizativa para ser sustentavelmente competitivos na área do Desporto Rendimento; do outro aqueles que mais ligados à prática de lazer da modalidade não têm ainda, ou não quererão ter nunca, as estruturas necessárias para ultrapassar o conceito desportivo de lazer. O que não quer dizer que não possa haver competição para ambos os conceitos. Mas com exigências diferentes, fazendo-se a articulação (ou passagem) de um nível para o outro por candidatura demonstrativa das capacidades de cumprimento de um caderno de encargos previamente estabelecido e demonstrado ao longo de determinado tempo.
Veja-se o que se passa com as provas populares de estrada no Atletismo: partem em primeiro lugar os atletas de Alto Rendimento que são seguidos, após intervalo de tempo ou de distância, por milhares de praticantes que, embora a velocidades diferentes, fazem o mesmo percurso, cumprindo os seus objectivos próprios, mas sem interferência entre uns e outros.
A organização da federação nestes termos de separação de conteúdos não coloca qualquer problema legal como lembra o preâmbulo do Decreto-Lei nº93/2014 de 23 de Junho que procede à primeira alteração ao Decreto-Lei nº 248-B/2008 de 31 de Dezembro que estabelece o regime jurídico das federações desportivas e as condições de atribuição do estatuto de utilidade pública desportiva. Escreve-se assim no referido preâmbulo e mostrando assim o “espírito da lei”: Em sétimo lugar, são revogadas as disposições relativas às associações de clubes não profissionais e às associações territoriais de clubes, deixando à total liberdade das federações desportivas a respetiva organização interna e admitindo o agrupamento dos clubes ou sociedades desportivas da forma que entenderem mais conveniente. (sublinhado meu) 
Todos os países adversários evoluiram e se nós não encontrarmos uma saída para o marasmo actual - estamos sem resultados que garantam o interesse das pessoas e dos patrocinadores e o nível do jogo tem vindo a baixar - tenderemos à queda vertical. E o rugby, enquanto jogo de rendimento onde a superação, o resultado e a constante melhoria técnico-táctica são suas características essenciais, acaba-se. Ou seja: desaparece o jogo desportivo que conhecemos como rugby
O desporto é competição com base na superação, no rendimento e na qualidade dos resultados. Não uma forma de lazer paga pelos dinheiros públicos. Tem uma exigência de resultados qualitativos que, então sim, podem proporcionar quantidades até ao limite da capacidade da organização. Mas são precisos resultados!
O Rugby é um Desporto Colectivo de Combate. Como Desporto representa os valores que estão associados a qualquer modalidade desportiva. É o facto de ser, para além de Desporto, Colectivo e de Combate que lhe garante características próprias e que as Leis do Jogo traduzem (por exemplo, 10 metros, forma de placar, cartão amarelo, fora-de- jogo, etc. etc) e que levam a que os comportamentos sejam geralmente mais moderados do que se poderia supôr. E é esse comportamento que é (ou deveria ser) extensível às comunidades que suportam o jogo. Ou seja são as características do jogo que desenvolvem e ampliam alguns dos valores que se consideram como desportivos e que se traduzem (ou deveriam traduzir) numa forma comportamental distinta e que lhe garante uma áurea própria. Que se perde se não houver colectivismo e combate...
Fazer da modalidade um caso especial, diferente de todas as outras, é pretensioso e deslocado, retirando, por um lado, sentido crítico e, por outro, impedindo de perceber o sistema desportivo mais global  - seja interno ou externo - ao qual pertencemos. Continuar com a retórica de valores que nos tornam especiais e diferentes tem apenas servido para esconder as questões que têm diminuído a qualidade interna da modalidade. Olhar de frente os problemas e enfrentá-los é a acção necessária e urgente. Antes que o tempo nos ultrapasse.

A separação dos conteúdos que se confundem na actual federação desportiva é exigência fundamental para permitir o desenvolvimento competitivo do rugby português e possibilitar a sua aproximação aos países com quem disputamos competições internacionais. Não o fazer, diminuindo assim, por falta de resultados atractivos, a penetração no tecido patrocinador, criará as maiores dificuldades à existência da modalidade no rectângulo português. Fazê-lo, pelo contrário, permite estruturar o caminho da qualidade que, essa sim, atrairá a quantidade.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SEVENS FORA...NADA!


As aparências podem iludir mas os resultados não.
E nos Sevens - o Grand Prix Sevens, vulgo “Europeu” - os resultados são a evidência do que muito mal vai no rugby português.
Este ano de 2017 era muito importante para a reclassificação dos sevens portugueses. E haveria algumas facilidades que poderiam ajudar: classificando para o Mundial teria equipas a competir que, por já classificadas por resultados anteriores, não se apresentariam na máxima força mas apresentariam jogadores da área do desenvolvimento para lhes permitir alguma rotação e garantir   competitividade interna para a melhor constituição da equipa para o Mundial de 2018. E foi isso que se viu na Inglaterra, na França, na Escócia - que nem se apresentou - ou Gales. Por outro lado, com a Russia e a Espanha já qualificadas como equipas residentes no Sevens World Series, a luta por um lugar para o “qualifying” de Hong-Kong estava reduzida à Irlanda, Alemanha e Geórgia uma vez que a aposta da Itália ainda não parecia absoluta. Neste quadro, um dos lugares para o Mundial e a possibilidade Hong-Kong poderia ainda ser uma hipótese.
A Portugal, naturalmente, interessaria poder estar presente em Hong-Kong quer para lutar pelo acesso ao Sevens World Series quer para um mínimo de competição de nível mais elevado que lhe permitisse iniciar da melhor maneira o percurso de classifucação para os Jogos de 2020 no Japão.
É claro que haveria que contar com a substancial melhoria que as diversas equipas - motivadas pelo factor olímpico - têm vindo a mostrar. O que significava ser necessário um cuidado assinalável na preparação. Até porque há existência de resultados nesta variante corresponde - para além da inexistência de custos nas viagens e estadas competitivas - o recebimento de quantias nada desprezíveis vindas quer da World Rugby, quer do Comité Olímpico de Portugal.
Se assim se pensou - inclusive com a garantia que, após o jogo com a Bélgica, o sevens teria prioridade absoluta - pior se executou - não houve qualquer prioridade e deixou-se que as coisas corressem ao deus dará. E os resultados estão à vista e demonstram a incapacidade da equipa portuguesa e da sza envolvente para atingir um lugar de relevo. Ou seja: depois do erro estratégico que nos custou a presença na Sevens World Series - e como iremos lá voltar é a resposta para um milhão de euros - novos erros deitaram fora a melhor oportunidade que nos aparecerá nos próximos tempos (sabe-se de análises feitas: o ano de melhores oportunidades para conquistar posições em modalidades olímpicas é o ano pós-Jogos).
As nossas classificações, nas três etapas do GPS, foram de 6º, 11º e 12º para atingir um total de 13 pontos classificativos que nos colocam, a par da Bélgica, na penúltima posição do Europeu 2017. Isto é, do sonho de chegar a algum lado visível, ficamos apenas na tentativa de não baixar de divisão - a Polónia, último lugar com 4 pontos, por ser uma das organizadoras de uma das etapas não pode, por regulamento, baixar de divisão. Ou seja, estamos na corda bamba. ficando até dependentes de uma qualquer surpresa que a Polónia (felizmente apenas com 4 pontos) possa conseguir no último torneio.*
Com o deitar borda fora da prioridade prometida - má gestão, pior visão e entrega cómoda e irresponsável do comando generalizado das decisões a quem não mostra(ou) capacidades - a selecção portuguesa apresentou-se para o primeiro torneio, Moscovo, com 4 jogadores estreantes, em Lodz com, de novo, 4 estreias em 8 mudanças de jogadores em relação à etapa anterior e em Clermont com 2 jogadores a estrear em 7 mudanças em relação à etapa russa - em três etapas foram realizadas 10 estreias e um número elevadíssimo de alterações em relação à equipa utilizada na 1ª etapa. O que representa, obviamente, uma desconstrução daquilo que se quer construir. Ou seja, um erro de processo!
Sabe-se da demonstração de estudos científicos ser a coesão o factor essencial da construção de resultados desportivos positivos nas modalidades colectivas. Mais importante até que o valor do talento que possa existir que, não sendo devidamente integrado, se mostra pouco eficaz.
Ora a coesão da equipa depende do factor tempo, isto é, do tempo em que os jogadores actuam conjuntamente - e é evidente que uma equipa constituída desta forma pouco cuidadosa não pode ter a coesão necessária ao melhor comportamento desportivo no alto-rendimento.
Se a este facto juntarmos os maus hábitos competitivos internos ou as cada vez maiores dificuldades técnicas - nomeadamente por erros na formação - que patenteiam os jogadores portugueses, teremos o conjunto explicativo do nosso desaire. De facto o jogador português placa mal, tem dificuldades na precisão, rapidez e comprimento do passe, a que se juntam dificuldades de leitura que lhe impedem a necessária convergência para romper a defesa adversária. Para além disto sabemos que não dispomos de jogadores com elevada velocidade que possam estabelecer diferenças apenas pelo facto de haver espaço frontal desprotegido - facto que exige uma importante capacidade desmultiplicadora e de jogar “em cima”, do adversário, fixando-o e atrasando-o no seu deslizar.
Acresce ainda a estes factores uma outra necessidade: os jogadores portugueses têm vindo a ser formados - ou a isso fazem crer pelo seu comportamento - com a ideia de blocar, agarrando ao tronco e envolvendo os braços do portador da bola de forma a impedi-lo de a passar e até de garantir um maul sem progresso ou libertação da bola e assim recuperar, através da formação ordenada sequente, a sua posse. Bom, teoricamente interessante, possível de utilizar nas competições internas mas impossível de transportar para o nível internacional. Porque a nossa compleição física não nos garante qualquer vantagem nesta execução e, pelo contrário, permite que o portador da bola avance no terreno enquanto, simultaneamente, o apoio se vai aproximando, garantindo assim a posse da bola e a continuidade do movimento com a defesa, sempre a recuar e a não ter tempo de se organizar devidamente.
O objectivo dis jogadores portugueses ao nível internacional deve ser o de derrubar o portador da bola o mais rapidamente possível, isto é, placar efectivamente. A eventualidade, que existe, do placado conseguir um passe, para além do risco técnico que envolve, exige a rapidez e proximidade do apoio - nem sempre fácil, principalmente em Sevens - mas que não deve sobrepor-se ao facto de o jogador placado ser obrigado, imediatamente ao contacto com o chão, a largar a bola, abrindo assim uma oportunidade à sua recuperação. Obviamente que esta opção exige treino suficiente para que se não caia na armadilha da falta - mas feita com um mínimo de capacidade técnico-táctica permite, pelo menos, que a defesa se recoloque e que se apresente em superioridade numérica.
Perdida qualquer - por erros que roçam a negligência, repete-se - possibilidade de conseguir uma boa classificação - mesmo a vitória na última etapa não nos daria melhor do que um sexto lugar geral - resta-nos aprender e modificar processos e métodos. E, acima de tudo, desistir de pretender obter resultados diferentes com os mesmos procedimentos.

* Por não ter reconhecido ser a Polónia um dos países organizadores de uma das etapa do GPS, escrevi como se ainda contasse para a classificação final. Não conta, estamos em último lugar com a Bélgica e, portanto, a lutar para não descer.

domingo, 26 de junho de 2016

NUM NOU CAMP CHEIO MELHOR A EVASÃO DO QUE A COLISÃO

Nou Camp de Barcelona com lotação esgotada na final do Top14
foto iPhone transmissão televisiva

Em Maio, em Valladolid, foram mais de 26 500 espectadores a assistir - para além do próprio que entregou a taça aos vencedores - à final da Copa del Rey 2016 entre o Silver Storm El Salvador e o VRAC Quesos Entrepinares do nosso internacional Nuno Penha e Costa.
Na passada sexta-feira o Nou Camp de Barcelona juntou 99 354 espectadores - um recorde que supera os 84 068 de Wembley no Saracens-Harlequins de 2015 - para assistirem à final do TOP 14 francês entre o Racing 92 e o Toulon. A visão do estádio foi impressionante e a qualidade do jogo reconciliou-nos - como aliás aconteceu com as meias-finais do Final Four - com o campeonato francês e a sua qualidade competitiva, técnica e táctica. Ao contrário da maioria dos jogos vistos durante a época regular - fastidiosos, de pouco interesse, subordinados mais ao não perder do que ao ganhar - estes jogos da fase final tiveram todos os ingredientes para serem recordados: competitividade, luta pelo melhor resultado, inteligência táctica, capacidade e eficácia técnica, combate e resultados indefenidos até ao apito final.
Na final de Barcelona, entre uma equipa mais apostada na evasão e outra que colocava os seus trunfos na colisão ganhou a primeira com a curiosidade de o ter feito - para além de 50 minutos em inferioridade numérica e logo de um médio-de-formação* - com apenas 43% de posse de bola mas com 186 placagens - eficácia de 91% - contra 106 e 87% de eficácia do adversário mas também com um normal número (9) de penalidades concedidas contra o exagero de 16 cometidas pelo Toulon de que resultaram 24 pontos que permitiram a vitória final dos parisienses por 29(E,8P) - 21(2E,T,3P).
Como curiosidade dos jogos internacionais deste fim de semana temos que as equipas vencedoras foram as que menos posse de bola tiveram: a Nova Zelândia com 38%, a Inglaterra com 47%, Escócia com 41%, África do Sul com 32% e a França com 48%. No entanto estas equipas com menor posse da bola marcaram, pela mesma ordem, 6, 4, 0, 1 e 3 ensaios. Ou seja, uma média de 42% de posse de bola resultou numa média de 2,8 ensaios contra 1,4 ensaios (metade) resultantes dos restantes 58% de posse da bola.
(curioso também é o facto de que nos oitavos-de-final do futebol do Euro 2016, quer Portugal quer a Polónia ultrapassaram os seus adversários com menor posse de bola e com menos remates...)
Portanto, estes dados dizem-nos que a conquista e posse da bola não garantem a vitória. Aliás a única coisa que parece evidente em relação à posse da bola é que, tê-la, impede o adversário de marcar pontos mas não permite, necessariamente, marcá-los.
Podemos então tirar a conclusão - alicerçada nos dados e na evidência do que se viu - de que é, não a mera posse da bola, mas o seu uso eficaz e adequado que permite chegar ás vitórias. Por e para isso se treina na procura da sintonia colectiva que permita explorar as oportunidades que a leitura dos movimentos em campo nos evidencia. O que exige treinar com oposição e numa velocidade tal que nos coloque no nível de intensidade exigível pela competição.

Nota: ver os três recentes jogos dos All-Blacks com o País de Gales constitui uma óptima lição sobre o que significa uso da bola eficaz, leitura colectiva das oportunidades para além de uma demonstração de que a velocidade de deslocamento e de execução são as armas fundamentais para criar os desequilíbrios necessários ao domínio do resultado. 
* - A equipa técnica do Racing 92 decidiu não substituir qualquer jogador para fazer entrar o formação  suplente. Assim, garantia jogar com oito avançados - situação fundamental contra o poderoso pack do Toulon - e ao mesmo tempo não diminuir em defesa o número de três-quartos. Como? Colocando o argentino Juan Imhoff como improvisado formação que, nas fases estáticas, ocupava o seu lugar de ponta, deixando o seu adversário directo à-vontade. Surpreendente terá sido o facto do Toulon e nas formações-ordenadas não ter sabido tirar qualquer partido da vantagem da situação...

sábado, 5 de julho de 2014

DESEMPATES

Em Moscovo, na 2ª etapa do Sevens Grand Prix 2014, foi necessário, para classificar as equipas para a fase a eliminar, utilizar as regras de desempate. De acordo com os regulamentos do torneio as regras de desempate impõem que, caso sejam duas as equipas empatadas em pontos de classificação, ficará à frente a equipa que tenha vencido o jogo entre ambas. Para o caso de existirem três ou mais equipas empatadas o critério de desempate coloca-se na melhor diferença de pontos de jogo marcados e sofridos.
Para os dois lugares de "melhores terceiros" havia seis equipas, todas elas com 5 pontos de classificação: a França, no Grupo A e com 21pontos negativos de jogo; no Grupo B, Portugal com o mesmo número de pontos de jogo marcados e sofridos, a Bélgica com 8 pontos negativos de jogo e a Alemanha com 22 pontos negativos de jogo; no Grupo C, a Espanha com 5 pontos negativos de jogo e a Itália com 31 pontos negativos de jogo.
Enquanto a França esperava pela classificação dos outros grupos para saber da sua sequência competitiva, no Grupo B, o critério da diferença de pontos marcados e sofridos determinava a ordem decrescente de Portugal em 2º, Bélgica em 3º e Alemanha em 4º - mesmo que Portugal tenha sido derrotado (14-7) pela Bélgica que, por sua vez, foi derrotada (19-7) pela Alemanha. No Grupo C, como estavam apenas empatadas duas equipas, verificou-se o resultado do jogo entre as equipas empatadas e como a Itália tinha vencido (14-7) a Espanha, ficou classificada em terceiro lugar enquanto que a melhor diferença espanhola de marcados e sofridos não lhes valeu mais do que um último lugar. O fecho do agrupamento para os quartos-de-final, de acordo com as regras estabelecidas, decidiu-se pela França e Bélgica, juntando-se a Itália à Espanha na disputa da taça dos últimos.
Justo?!
Na aparência, parece. Mas é ilusão. Não me parece justo nem tão pouco desportivamente interessante. Vejamos.
A Espanha com os mesmos pontos dos terceiros mas com a melhor diferença de pontos de jogo marcados e sofridos de todos eles, teria, com as regras aplicadas ao grupo de Portugal, sido qualificada em detrimento da França que ficaria limitada a lutar pela Bowl. Argumentar-se-á que, tratando-se de duas equipas, o mais justo será classificar primeiro a equipa que venceu o jogo entre as empatadas. Será?!
Em grupos reduzidos como se verifica quer nos sevens quer nos campeonatos mundiais ou internacionais para que haja um empate entre duas equipas é preciso que a derrotada ganhe jogos, muito provavelmente a equipas que derrotaram a que a venceu. Foi o que aconteceu no Grupo C de Moscovo: se a Itália venceu a Espanha, a Espanha venceu (19-14) Gales que venceu largamente a Itália com um contundente 26-0. Ou seja a vitória ou derrota no jogo entre espanhóis e italianos não define nenhuma qualidade especial. Aliás este critério pode até, em grupos com maior número de equipas concorrentes, levar ao absurdo de reduzir a luta pelo último lugar aos dois jogos entre os últimos classificados de um campeonato para saber quem descerá de divisão.
O mesmo não se passa com a diferença entre pontos marcados e sofridos que fornece uma ideia da capacidade global de cada equipa, tornando-se assim num sistema mais justo de desempate - jogando contra as mesmas equipas uma diferença positiva de pontos marcados e sofridos terá de significar qualquer coisa de mais positivo do que uma diferença negativa, classificando um mérito mais alargado como se pretende para a classificação de grupos. Até porque, se as derrotas ou vitórias apenas estabelecem uma pontuação que é indiferente aos valores do resultado, a diferença marcados/sofridos diz qualquer coisa sobre o jogo e a valia das equipas (por isso perguntámos: perdeu? por quantos?). Até porque o sistema que privilegia o resultado do jogo entre os empatados cria um problema de competitividade: equipa da zona da luta pelo apuramento que seja derrotada não tem hipóteses de se continuar a bater pela melhor posição - em caso de empate fica sempre atrás.
Pelo contrário, utilizando a diferença de pontos marcados e sofridos qualquer equipa, em caso de derrota e se conseguir os mesmos pontos de classificação, tem hipóteses de conseguir ultrapassar a adversária desde que consiga marcar muito e sofrer pouco. Ou seja a utilização deste critério, para além de mostrar a consistência de uma equipa, aumenta o interesse competitivo.
Para além destes argumentos há ainda, ao garantir o mesmo critério prioritário de desempate para todas as situações, a facilidade de percepção do sistema pelos adeptos. O que não é despiciendo. 
Se assim é, se as vantagens parecem evidentes, porque não é utilizado para qualquer situação a diferença de pontos marcados e sofridos como critério prioritário de desempate? Por mera habituação?      




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