terça-feira, 31 de dezembro de 2013

DOS ALL-BLACKS À TAÇA AMÉRICA



Neste ano de 2013 o acontecimento rugbístico a relembrar - para além de alguns dos seus jogos que devem fazer parte da caixa das memórias - foi a totalidade de vitórias -14/14 - em todos os jogos disputados pelos All-Blacks e onde defrontaram outras das melhores equipas do mundo. Marca muito difícil, se não impossível, de igualar, este conjunto de vitórias estabelece-se como uma marca de notável registo.
E não foram só as vitórias mas a classe de jogo com que foram construídas - quem não se lembra do espantoso esforço dos predadores irlandeses que entregaram o jogo por já não haver uma molécula de oxigénio no cérebro de cada um. Exaustão em dez minutos que não permitiram raciocínios elementares e conhecidos por - parece... - qualquer equipa junior decente.
Mas impressionante e abrindo a curiosidade ao "como é que o fazem? como chegam lá?" é o seu nível de desempenho e execução das técnicas de base. Passes de todas as formas e feitios numa total confiança que permite correr todos os riscos, jogo ao pé adaptado e adequado à situação, olhos a ver adversários e companheiros, ataque a intervalos, obrigando ao desequilíbrio das defesas adversárias, "off-loads" que desenvincilham o jogo "entre-linhas" e lançam companheiros contra uma terçeira-cortina de cobertura desesperada. E o apoio? Que dizer dessa forma de se organizarem em células activas onde todos e cada um têm a mesma leitura da situação que se apresenta face à organização defensiva. Lêr, comunicar e adaptar para impôr o mais forte sobre o fraco do adversário, numa cascata de decisões que impõe ritmos e mudanças, respeito por princípios e companheiros, respeito pelos valores que a camisola representa, espírito colectivo, conhecimento profundo do jogo. Um tratado.



Apesar do nível e do agrado com que sempre vi os All-Blacks considero, no entanto, que o momento desportivo do ano 2013 foi a vitória do Oracle americano sobre o Emirates neozelandês na Taça América. Para além do espectáculo extraordinário que é o deslizar, num quase voar baixinho de insecto aquático, sobre a água empurradas por aquelas asas do tamanho de court de ténis, da detecção das estratégias e tácticas que cada skipper transporta para evitar erros próprios e provocar erros ao adversário - e um, ligeiro, mínimo, bastou para decidir a última regata da vitória - ou os equilíbrios instáveis de apoios imperceptíveis a velocidades, quantas vezes, de mais de 50 Km/h. 
Os americanos (enfim, nenhum será americano, apenas tripulavam um barco americano...) do Oracle estiveram a perder por 8-1 (seria 8-3 mas uma penalização retirou-lhes duas vitórias) numa disputa ao melhor de 17 regatas. Venceram 9-8 com os neozelandeses impotentes, apesar dos seus apoiantes não se cansarem de apontar "One more! Only one more!", com o trabalho de transformação realizado do lado americano e que todos os dias mostrava ganhar mais velocidade. Se os tripulantes do Oracle mostraram durante toda a prova a necessária cabeça-fria para as grandes decisões e sem que a sua confiança, embora a um passo do precipício, diminuísse a capacidade do seu rendimento desportivo, a equipa de terra - esses desconhecidos do grande público - teve um trabalho de absoluta excelência numa curva exponencial de aprendizagem do barco que superou as mais optimistas espectativas.
A vitória, no rés-vés da última regata, deveu-se à conjugação simultânea de factores de primordial importância no rendimento desportivo: a construção de uma equipa coesa - substituindo quando necessário - com grande espírito colectivo, com um comando de antes quebrar que torcer e incapaz de admitir outro resultado para além da vitória; uma equipa de terra, conhecedora, inovadora e capaz de, com o saber das engenharias e tecnologias necessárias, optimizar, superando sem margem para dúvidas, um barco de idêntica aparência; uma organização a não deixar rigorosamente nada ao acaso e a tirar todo o partido do importante - aqui mais do que noutros desportos - factor-casa a que se juntou um conhecimento perfeito do campo de regatas.
Os neozelandeses viram, impotentes para seguirem os avanços transformadores adversários, fugir-lhes a vitória pelo meio dos dedos. Mas tudo fizeram para encontrar a ponta do novelo que os levasse a cortar a linha em primeiro. Uma prova desportiva, levada ao limite competitivo e a definir-se no espaço da glória aos vencedores, honra aos vencidos.
Um espectáculo desportivo notável, quiçá o melhor de 2013.

VOTOS 2014


Bom Ano!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

PORTUGAL NO MUNDO


Neste final do ano o Rugby continua como a segunda modalidade colectiva portuguesa no posicionamento dos Rankings Mundiais.
Sendo aquela que detém menores tradições culturais, não é mau... 

CAMPEÕES IBÉRICOS

O Grupo Desportivo de Direito conquistou pela terceira vez a Taça Ibérica ao vencer o campeão espanhol VRAC sem margem para dúvidas.
Surpreendendo de certa maneira após o que lhe vimos no jogo contra o CDUL, o Direito conseguiu um resultado de 41-11 traduzido na diferença de 5 ensaios marcados contra apenas um sofrido, não deixando que o adversário o conseguisse apoquentar fosse em que domínio fosse e tornando, pela superioridade e caoacidade demonstradas, o confronto numa vitória fácil.
A vitória do Direito iniciou-se com o domínio conseguido pelo bloco de avançados e continuou pela demonstração de jogo de movimento que realizou e que criou inúmeros e insolúveis problemas à equipa espanhola. Que aliás não conseguiu mais - esta equipa que se encontra neste momento no segundo lugar do campeonato espanhol e com os mesmos pontos do primeiro classificado - do que uma demonstração de um ultrapassado e inoperante clássico de "oito+sete" onde avançado é avançado e três-quartos é três-quartos.
E a diferença percebida dá boas perspectivas  - depois de um empate fustrante na primeira volta - para o próximo e importantíssimo Portugal-Espanha do 6 Nações B. As diferenças conceptuais vista no jogo, se bem utilizadas, estabelecerão concerteza a necessária diferença de resultado.
Como interesse particular neste jogo o facto do árbitro inglês ter apitado a "formação-ordenada" de acordo com as últimas indicações da IRB: a bola deve ser introduzida a direito - isto é, paralela às linhas de ensaio - e não necessariamente sobre a linha mediana. O experiente Pedro Leal soube muito bem explorar este ponto, colocando o seu corpo sempre mais próximo do seu bloco de avançados do que do adversário, garantindo assim a vantagem da conquista sem desequilíbrios do cinco-da-frente.
Com esta indicação recentemente surgida, a IRB parece vir compensar - de acordo, aliás, com o estabelecido no Código do Rugby - a equipa introdutora da bola que se viu altamente prejudicada com uma desnecessária voz do árbitro que passou a autorizar - e a avisar toda a gente... - a introdução da bola. Embora alguns dos pontos - como o retorno do talonador enquanto tal ou até as procuradas saídas de "terceira-linha" previstas pela equipa que estudou e propôs as alterações à "formação-ordenada" - tenham desaparecido, esta nova possibilidade permitirá manter a formação como importante (e necessária) plataforma atacante. Exemplo a perceber e a seguir por cá.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Tão bom quanto nos deixam...


sábado, 14 de dezembro de 2013

APARÊNCIAS

Seja pelo que fôr - formação escolar incluída - nós portugueses tendemos a privilegiar a aparência sobre a realidade dos factos. Esquecendo-nos até do aviso do dito popular de que as aparências iludem.
E assim e no caso achamos que, porque não trouxemos qualquer Taça ou porque não participamos em qualquer final, o recente resultado obtido pela selecção portuguesa de sevens em Port Elizabeth, na África do Sul, não foi bom. 
Pelo contrário, foi bom porque, correspondendo aos objectivos pretendidos que não são mais do que garantir a manutenção no quadro das World Series, permitiu a conquista de pontos que nos distanciam do último lugar e da despromoção.
Ao contrário do que se possa pensar - como se pode confirmar na tabela que se publica - no Sevens World Series o que conta realmente é a Cup e a qualificação para a sua disputa. O resto, mesmo permitindo continuar a jogar e conquistar alguns pontos, é de menor valia. Veja-se: mesmo a Plate (segunda taça) e que só pode ser disputada por equipas que se tenham qualificado no primeiro dia para a disputa da Cup, corresponde apenas ao 5º lugar da tabela qualificativa final e a cujo vencedor são atribuídos quase metade dos pontos do vencedor da Cup. É portanto competitivamente melhor, mesmo se falham as luzes da ribalta, ser o derrotado do jogo 3º/4º do que o vencedor da Plate: arrecadam-se mais dois pontos! E são os pontos que garantem a importância das coisas...


A terceira taça, a Bowl, garante ao seu vencedor o 9º lugar com menos dois pontos do que o pior dos competidores da Plate. E a última taça, a Shield, qualifica em 13º o seu vencedor ao qual atribui apenas 3 pontos.
Portanto, a conquista de taças tem no cômputo geral e com a excepção da importância da Cup e ainda, pelas enormes dificuldades que exige ultrapassar, da prestigiante Plate, uma importância muito relativa. Como em todas as competições desportivas, também aqui nos Sevens, o que conta são os resultados traduzíveis em pontos. E se, na melhor tradição de permitir um agradecimento pela participação competitiva (e de mostrar patrocinadores...), existem outros prémios, esses não são objectivos desportivos principais e têm relativa importância. Porque é muito mais importante a qualificação para a disputa da Cup - com a garantia mínima do embolso de 10 pontos - conseguida, normalmente e na grande maioria dos casos, com duas vitórias no primeiro dia, do que trazer qualquer outro prémio como a Bowl ou Shield.
Na competição de alto rendimento as vitórias contra os fracos contam muito pouco e as derrotas contra os fortes são o caminho que leva a vitórias futuras. E é disto que trata a Sevens World Series.


O se7e de Portugal conseguiu em Port Elizabeth, com as duas vitórias do primeiro dia e os correspondentes 10 pontos, um óptimo resultado que lhe permitiu subir dois lugares na tabela qualificativa e, ainda e mais importante, permitindo-lhe abrir o fosso para adversários directos da manutenção como a Espanha ou os Estados Unidos.
As World Series não são competitivamente fáceis. Fora os três primeiros qualificados, o equilíbrio é enorme e qualquer jogo entre eles não tem resultado assegurado. Por isso a constituição dos grupos  tem no sorteio uma parte principal das possibilidades: para Las Vegas nos Estados Unidos e porque a Inglaterra se portou mal na África do Sul - situação que nada nos interessa com vista às hipóteses de qualificação para o Rio 2016 - teremos um muito difícil grupo, acrescentando, para além do Uruguai, ingleses a samoanos numa luta tremenda pela qualificação para a disputa da Cup. Que é sempre, etapa a etapa, o objectivo do se7e de Portugal.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

MELHOR RESULTADO

O Lusitanos XV conseguiu hoje, embora perdendo por 30-19, o até agora melhor resultado da Amlin Cup contra os italianos do I Cavalieri Prato. Marcando três ensaios e sofrendo quatro, a equipa portuguesa teve momentos interessantes embora optasse demasiado pelo jogo-ao-pé e de novo o problema das dificuldades da construção do apoio em ataque e da conquista da linha-de-vantagem retirassem eficácia à utilização da bola.
Mas o problema pior esteve na incapacidade demonstrada na formação-ordenada (diversas faltas e um ensaio de penalidade) que, como se sabe e se não há equilíbrio possível, retira qualquer possibilidade de discutir o jogo, obrigando a jogar no pé-de-trás e assim favorecendo sobremaneira a defesa adversária. E foi pena este desequilíbrio porque os italianos, embora exercendo sempre uma boa pressão defensiva, não se mostraram assustadores e, pelo contrário, pareceram mais próximos do que o resultado mostra.



Manteve-se a tendência do segundo-quarto do jogo ser aquele com pior registo (50%) perfazendo, com o terceiro-quarto, a totalidade de 90% dos pontos sofridos.
Mais um passo na curva de aprendizagem de um nível superior de competição que deverá permitir um maior à-vontade e uma maior capacidade competitiva nos jogos do 6 Nações B. Até lá ainda mais dois jogos e estes a um nível mais elevado: Stade Français (em casa) e London Irish (fora). Preparação de qualidade competitiva suficiente para que a segunda volta do apuramento para o Mundial de 2015 permita à Selecção Nacional um nível qualitativamente muito superior ao que vimos na época passada.
Pena foi que a comunidade rugbística portuguesa não tivesse comparecido em número suficiente e assim poder aperceber-se, de novo mas agora a um nível mais próximo e onde as deficiências e qualidades são mais fáceis de detectar, do patamar competitivo em que o rugby português se encontra, as dificuldades com que se debate para poder procurar as soluções práticas que permitam um desenvolvimento eficaz. 

domingo, 8 de dezembro de 2013

AMLIN CUP: FINAL 1ª VOLTA

No final da 1ª volta da Amlin Cup algumas estatisticas que - com o maior cuidado com que devam ser analisadas como avisa Wayne Smith - apesar do reduzido número de jogos, ajudam a tirar algumas ilacções sobre as capacidades dos portugueses.

O final da 1ª parte parece ser o mais difícil de suportar com uma óbvia melhoria com os London Irish que pode ter esgotado o Lusitanos XV para a segunda parte - sofreram 70% dos pontos - e para um final de jogo doloroso. No jogo com os italianos houve um nítido equilibrio em 3/4 do jogo mas uma notória incapacidade defensiva nos últimos 20 minutos da 1ª parte. Como evitar este "peso" pontual neste período?



Depois de apenas 4 ensaios marcados na 1ª volta dos 6Nações B, os portugueses não conseguiram marcar qualquer ensaio nos dois primeiros jogos da Amlin. Apesar dos dez ensaios contra o Brasil - uma óbvia obrigação que não define qualquer melhoria ou capacidade especal - o Lusitanos XV conseguiu, nos jogos de Novembro da Selecção Nacional, apenas 1 ensaio contra Fiji ou Canadá. A marcação de três ensaios contra os italianos de Prato significará que a equipa aprendeu a usar eficazmente a posse da bola? Saberemos pela continuidade.



Embora sem dados do jogo de Itália, verifica-se - numa clara demonstração da falta de competitividade interna - uma grande diferença entre as placagens falhadas pelo Lusitanos XV e pelos seus adversários. O que impede qualquer aproximação ao equilíbrio do resultado. A melhoria da capacidade individual e colectiva - com a necessária melhoria da cultura táctica - será fundamental para elevar eficazmente o patamar defensivo da equipa.

Veremos o que nos diz a segunda-volta e que desenvolvimento e crescimento, individual e colectivo, os jogadores portugueses conseguiram.

sábado, 7 de dezembro de 2013

EXCELÊNCIA NO NELSON MANDELA BAY STADIUM

Excelente vitória do se7e de Portugal sobre o País de Gales no Nelson Mandela Bay Stadium. 
A excelência da vitória, para além do resultado (28-17), teve na base uma notável demonstração de capacidade de jogar onde ressaltaram aspectos decisivos para estes níveis de competição como o domínio das técnicas colectivas e tácticas individuais de que resultaram concentrações e dispersões adequadas no espaço e no tempo. Muito bom e do melhor que tenho visto nas equipas portuguesas.
Apesar do abaixamento de nível após as substituições do final da segunda-parte, o se7e de Portugal abre muito boas perspectivas para o futuro, nomeadamente para o apuramento europeu na qualificação olímpica para o Rio 2016. 
A qualificação para os Jogos Olímpicos não é nada fácil mas a primeira-parte jogada contra o País de Gales é uma demonstração de capacidade que não deixa dúvidas sobre o bom caminho que a equipa de Pedro Netto está a percorrer.
...dentro das enormes dificuldades, um sorriso de esperança.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ALTERAÇÕES NO RANKING



De novo e se as minhas contas estiverem certas, esta será a Tabela classificativa do Ranking IRB que amanhã - 25 de Novembro - aparecerá na página oficial da International Board. Como "dono e senhor" do primeiro lugar a Nova Zelândia e o hemisfério sul a dominar o "podium" a não ser que no próximo sábado uma vitória de Gales coloque a Inglaterra de novo em terceiro-lugar.
Deste fim-de-semana o melhor resultado pertenceu à Geórgia que, num jogo onde não tinha qualquer   favoritismo, derrotou Samoa classificada em 9º lugar. Logo a seguir, em melhores resultados, a Argentina do "nosso" Daniel Hourcade que, num jogo entre "os piores dos melhores" dos dois hemisférios, venceu a Itália em Roma quando em teoria a sua derrota era o resultado esperado.
Dos nossos adversários directos no 6 Nações B e para além da Geórgia que parece começar a navegar noutros mares, só a Espanha perdeu lugares e pontos de ranking embora a Rússia também tivesse, como Portugal, perdido pontos de ranking enquanto que a Roménia manteve pontos e lugar. Difíceis perspectivas para Fevereiro para quem, como nós, deitou demasiados pontos fora.


domingo, 24 de novembro de 2013

FIGHTING SPIRIT

Que grande jogo! Tão bom que quem tenha estado no Aviva deve guardar o bilhete para o deixar de herança aos netos a juntar à estória de uma vitória histórica até segundis do fim. Jogos com este há poucos.
Naquilo que se pensava ser um jogo sem história, um jogo de vencedor antecipado - pela diferença de pontos e pela diferença de capacidade demonstrada ao longo do ano - o fighting spirit irlandês transformou a teoria numa prática diferente e esteve a segundos daquilo que seria considerado a melhor de todas as vitória de 2013. De um lado e de outro, duas certezas: os jogos só estão ganhos depois de jogados; os jogos só terminam quando o árbitro assim o decide.
Os irlandeses, que fizeram um jogo épico - o seu muito melhor desde há muito tempo - só podem queixar-se de si próprios: quem é que se lembra de correr cedo de mais para "atrapalhar" o chutador? 
Mas tire-se também o chapéu aos fenomenais All-Blacks - terá parecido que jogaram menos mas foram os irlandeses que jogaram mais - que conseguiram manter a frieza, a determinação e a boa leitura, já depois do sinal dos 80 minutos, para as boas decisões e chegar ao ensaio na última oportunidade que tiveram.
O árbitro, o galês Owen, esteve à altura dos jogadores: boas decisões, explicações quanto baste, clareza nas informações, consistência nas acções. Na última decisão fez - com a coragem intelctual devida - o que deveria fazer: mandar repetir. É preciso ser uma grande equipa para não tremer e confiar uns nos outros em momentos daqueles.
Um jogo para ficar a memória de todos os que o viram. Notável! Uma lição de jogo, com aposta nos riscos necessários para atingir vitórias, uma demonstração de capacidade de combate extraordinária. Um dos melhores jogos do ano. Um verdadeiro jogo colectivo de combate.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

DA TEORIA À PRÁTICA

1.Na Teoria
O Canadá pertence ao grupo de equipas do 2º nível e Portugal, embora próximo ( muito mais próximo do que o Brasil como se viu ) pertence ao 3º nível. Os canadianos estão a 15ª posição do ranking IRB enquanto que Os Lobos, a sete posições de diferença, ocupam a 22ª posição.
Com uma superioridade de 10,68 pontos de ranking, o Canadá tem a responsabilidade de ser o favorito deste jogo.
Na tabela reproduzida em baixo pode ver-se como se distribuirão os novos pontos de ranking resultantes do resultado do jogo. E como é normal neste ranking - onde a vitória dos mais fracos é considerada merecedora de prémio e a derrota dos mais fortes como um castigo - uma vitória dos portugueses trará uma boa vantagem que nos poderá permitir ultrapassar o Uruguai - no 21º lugar com 60,71 pts -  e mesmo a Espanha - no 20º lugar com 60,95 pts e jogo com o Japão onde não deverá conseguir pontos positivos.
Em caso de derrota Portugal, diminuindo algumas centésimas - de 0,35 a 0,23 pts e de acordo com um resultado de diferença superior ou inferior a 15 pontos de jogo - manterá a posição 22 na tabela.


2.Na Prática
Na prática a teoria é outra. E se em teoria a vitórua deveria pertencer ao Canadá, na prática pode ser portuguesa. 
De facto aos canadianos não se lhes reconhece nenhuma capacidade fora do comum: são uma equipa capaz, "arrumada", com boa condição física, sempre com um ou dois elementos de boa velocidade, mas não se lhes conhece nenhum desequilibrador que possa, por si só, criar problemas insolúveis aos portugueses. Vindos de duas derrotas - com a Geórgia e Rússia que embora do 2º nível são nossos adversários do 6 Nações B - os canadianos irão querer rectificar a sua imagem mas a espada que passeia por cima das suas cabeça pode traí-los. 
Se o jogo não lhes correr de feição, a ansiedade pode diminuir as suas capacidades. O que significa que a fase inicial do jogo será crucial. Idealmente Portugal não deveria pontos e deveria marcar os suficientes para lançar a dúvida e fazer reaparecer sobre os canadianos o fantasma da derrota. Que surgirá se, principalmente nos primeiros vinte minutos, os portugueses consigam subir rapidamente em defesa na procura de recuperações de bola que se adaptam muito bem às capacidades dos nossos três-quartos. A vitória pode nascer daí.
O jogo de amanhã tem ainda um outro motivo de interesse: saber até que ponto Os Lobos se encontram preparados para a difícil tarefa de qualificação para o Mundial de 2015. Uma vitória, sem a presença de Julien de Sousa Bardy - o jogador português de maior experiência competitiva de alto nível - abrirá confiantes persectivas.
E há armas para isso - basta que os jogadores não se desfocalizem dos princípios fundamentais: aceitação do comando do portador da bola, apoio eficaz, movimento e circulação da bola com o menor número de paragens possíveis.E com confiança uns nos outros.

3.Outros
Neste mesmo sábado outros jogos de interesse como o Itália-argentina que se prevê muito equilibrado e de reultado imprevisível. A desejada vitória do "nosso" Daniel Hourcade consolidará, sem margem para dúvidas e para nosso contentamento, a sua posição de treinador principal de Los Pumas. A finalizar a janela de Novembro a Irlanda recebe a Nova Zelândia com natural favoritismo dos All-Blacks e a França, num teste duríssimo e demonstrativo das actuais capacidades francesas, recebe a África do Sul.
Jogos a não perder e ao qual podemos ainda, num - julgo - jogo de menor interesse competitivo, o País de Gales-Tonga ou um Escócia-Austrália.
Do nosso campeonato do 6 Nações B jogarão a Roménia com Fiji, a Rússia com os Estados Unidos, a Espanha com o Japão e a Geórgia com Samoa num conjunto de jogos que nos abrirão perspectivas para o posicionamento com os nossos adversários directos.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MAIS DO QUE PARECE

"Entusiasmo sem conhecimento é o amigo íntimo da tolice.", Sir John Davies, Procurador-Geral da Irlanda de 1603 a 1617.
Do gabinete do ministro Maduro saiu um Despacho sobre a obrigatoriedade de transmissões em sinal aberto para diversas áreas desportiva: o futebol com a parte de leão, andebol, atletismo, basquetebol, hóquei em patins, voleibol. Com algum optimismo fala-se nas taças europeias, campeonatos do mundo, finais, fases finais, etc. etc.
Do rugby nem hipotese. Nem taças disto, nem daquilo. Nem participações nos apuramentos para o Mundial, jogos da Cup no Sevens World Series ou jogos da Amlin. E por acaso [ :-) ] o rugby é a segunda modalidade portuguesa de desportos colectivos em posicionamento dos rankings mundiais, hóquei em patins excluído.


E se as vitórias sobre a Suécia irão melhorar o posicionamento do futebol - terá conquistado 136 pts podendo atingir o 5º lugar do ranking mundial com 1172 pts - as restantes modalidades ficarão onde estão e o rugby português só pode subir - ganhando - e não descerá da actual posição se perder este sábado com o Canadá. 
O rugby português deve muito à televisão pública portuguesa que, com o esforço e vontade do Cordeiro do Vale, fez-nos atravessar fronteiras e ver os jogos do 5 Nações para nos deixar então perceber como se jogava ao melhor nível. Sem a televisão pública portuguesa o rugby português nunca teria atingido a capacidade de resultados internacionais que hoje tem. A televisão pública portuguesa podia - pela sua quota-parte nos resultados conseguidos - voltar a colocar-nos mais próximos do centro do rugby mundial e permitir assim que o rugby seja melhor conhecido em todo o país e proporcionando à miudagem uma oportunidade de entusiasmo desportivo fora do esquema habitual. Mas essa preocupação ficou pela privada Sport TV que az importante divulgação com a dificuldade de ser para assinantes e a óbvia restrição de acesso.
A televisão pública pode, hoje em dia, não passar qualquer jogo de rugby mas a realidade é esta: o rugby está em 2º lugar entre as modalidades colectivas portuguesas de expressão mundial.
E há quem não faça do facto a mínima ideia. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

FIABILIDADE DAS FÓRMULAS

Comparados os resultados que obtive, ver tabela em baixo, com aqueles que hoje foram colocados no ranking IRB Oficial, pode verificar-se a enorme coincidência de números.
Oito dos 25 resultados, correspondentes a quatro jogos, estão errados, sendo quatro por centésimas e outros quatro por maior diferença.
Nos das centésimas o erro deve-se à existência de arredondamentos nos valores visíveis da tabela oficial - que é onde os vou buscar - e que não é possível evitar. O resultado de maior diferença, os pontos do jogo Russia-Japão, deve-se ao facto, erro meu, de não ter notado que o jogo era em campo neutro, no Parc Eirias do País de Gales. O que implica, desde logo e como definem as regras de construção do ranking uma diferença nos pontos de avaliação das capacidades das duas equipas. Quanto ao erro da pontuação da Namíbia que jogou em casa contra o Quénia, não o consigo detectar - esperarei uns dias para confirmar que os pontos que se encontram na tabela oficial estão correctos. Porque tendo a Namibia ganho por 20 pontos de jogo de diferença não vejo como pode manter a mesma pontuação de ranking quando o Kenya perde 1,03, passando de 52,78 pontos em 11 de Novembro para os actuais 51,75.  Algo de errado anda por aqui...
No próximo fim-de-semana o Russia-Estados Unidos - interessante este combate a lembrar livros de espionagem - será também disputado em terreno neutro: no artificial do ALLIANZ PARK normalmente utilizado pelos Sarracens de Londres que têm aí a "sua" casa.
Vista portanto a fiabilidade das fórmulas utilizadas poderei fazer a análise das hipóteses de pontuação para qualquer dos possíveis resultados do Portugal-Canadá do próximo sábado no muito nosso Estádio Universitário.



JOGOS E RANKING

Bons jogos da "janela" de Novembro neste fim-de-semana. O Inglaterra-Nova Zelândia com uma enorme surpresa: a Inglaterra, pese embora a derrota mostrou um jogo muito mais interessante que o habitual com mais movimento e continuidade. E com uma resistência interessante, apesar de se verem a caminho da derrota, não voltaram, como era tradicional, dois passos atrás, retornando à cultura de jogo do passado. A continuarem assim, o 6 Nações promete. Do lado dos All-Blacks momentos sublimes da arte de bem jogar com nova mostra daquilo que se tem que aprender e fazer dentro do campo - de um ponto de vista técnico e táctico - para atingir níveis de excelência individuais e colectivos.
Embora não haja comparação entre a Argentina e a África do Sul o País de Gales deste sábado passado já se aproximou do que lhe temos visto nos últimos anos, jogaram bem, com ideas e com capacidade para jogarem de acordo com a forma como as defesas se apresentam. A Argentina do "nosso" Daniel ainda irá passar por grandes dificuldades até assumir eficazmente o modelo de jogo pretendido - no próximo sábado o Itália-Argentina dir-nos-á qual a evolução - que passará, penso, por um meio-campo a jogar de forma completamente diferente. Na mudança pretendida pelo Daniel da qual se notam já indícios positivos, não há lugar para alguns dos anteriores conceitos, nomeadamente dos três-quartos e da sua forma tradicional de posicionamento, arranque e alinhamento que necessitam de encontrar um timing eficaz e angulos de corrida convergentes para ultrapassar a linha-de-vantagem.
Curiosamente em mais do que um jogo deste fim-de-semana foi possível observar a resolução do problema que a estúpida voz do árbitro "yes nine" produz: ao contrário do pretendido pela Comissão que realizou os estudos, não há utilização da talonagem pelo movimento do pé do especialista talonador mas sim um empurrão, com introdução de bola muito lenta, de oito-jogadores inspirado na bajadita argentina, passando a primeira-linha por cima da bola e, depois, ou há possibilidade de continuar a avançar e o nº8 encontra-se com a bola nos pés ou os base têm que conduzir a bola. Tendo a vantagem de conquistar a bola a avançar e anter a equipa apoiada no pé da frente, tem o defeito de ter uma saída da bola mais lenta. O que pode prejudicar equipas com menor peso na formação ordenada.
O nosso último adversário deste Novembro, o Canadá, voltou, depois da Geórgia, a perder com a Roménia por um ponto de diferença. No próximo sábado veremos se estas derrotas significam um problema para Portugal.
Se as minhas contas estiverem certas, o quadro que publico terá os mesmos valores que a qualificação oficial do ranking que estará disponível no site da IRB a partir do meio-dia. Com esta comparação a validade das fórmulas que utilizei ficará verificada.


sábado, 16 de novembro de 2013

VITÓRIA LARGA

A vitória de Portugal, neste primeiro jogo com o Brasil, por 68-0 é muito boa. Primeiro porque ultrapassou em muito a diferença entre as duas equipas que o posicionamento no ranking IRB poderia fazer supôr; depois porque mostrou uma importante capacidade da equipa: não abrandar e persistir na procura do melhor resultado; depois ainda porque, tratando-se de um jogo em que os riscos estavam, dado o posicionamento no ranking IRB, do lado de Portugal, os jogadores portugueses souberam ultrapassar, com boa atitude e eficácia, essa pressão. E o número - dez - de ensaios marcados - neste jogo em que proporcionamos a menos qualificados que nós a mesma experiência que nos tem sido oferecida - a preocupação de ataque à linha de vantagem mostrada ou o avançar em continuidade, abrem boas perspectivas para os jogos futuros.
Começando já no próximo sábado contra o Canadá num jogo em que os riscos estarão de ambos os lados: quem perder, perde pontos de ranking. Eventualmente posições.
O Canadá já perdeu com a Geórgia e hoje, num jogo sem vencedores antecipados, jogará com a Roménia. O que significa que no próximo sábado teremos uma óptima oportunidade para estabelecer comparações, transformando este último jogo da nossa "janela" de Novembro em mais do que o próprio jogo: será nesse jogo que demonstraremos as reais capacidades que teremos na segunda volta do 6 Nações B e, consequentemente, as verdadeiras hipóteses de continuarmos na corrida para o Mundial 2015.
Boa perspectiva e um bom desafio para os nossos jogadores.

domingo, 10 de novembro de 2013

UMA DERROTA NORMAL

A derrota de Portugal com Fiji correspondeu ao que dizem os números: a diferença de pontos de ranking estabelece, em teoria, 23 pontos de diferença no resultado. E foi o que aconteceu: diferença de 23 pontos. Portanto tudo normal.
Mas se considerarmos que, no XV inicial, havia 6 jogadores que faziam a sua estreia internacional, a normalidade do resultado toma outras dimensões. Apesar da selecção nacional ter entrado em campo com um total de 403 internacionalizações contra 285 internacionalizações dos jogadores fijianos, a inexperiência do alto nível competitivo - apesar das vantagens já adquiridas nos dois jogos da Amlin Cup - estava do lado dos portugueses.


E mais interessante é ainda podermos pensar que o resultado poderia ser bastante mais apertado não fora o falhanço de pontapés marcáveis - no nível internacional é imperdoável não traduzir em pontos as faltas conseguidas pela pressão atacante sobre o adversário - ou a oferta de dois ensaios: um porque um jogador abandonou a linha defensiva à procura de uma intercepção descabida (só se procura a intercepção em duas situações: como último recurso numa situação desesperada de inferioridade numérica ou quando se tem a certeza da sua realização) que abriu uma auto-estrada que naturalmente o experiente fijiano não desaproveitou; outro por uma oferta sem nexo, num passe directo para um ensaio sem qualquer mérito ou trabalho. Dos pontapés aos ensaios, brindes que ajudaram a desequilibrar mais cedo o resultado. Que poderia ter sido mais interessante.
Mas houve avanços com ligeira melhoria no ataque à defesa adversária - apesar do novo "abertura" (que joga no seu clube noutra posição) tenha jogado na "área de conforto" da lonjura da linha de vantagem permitindo que, sem grandes riscos, a defesa se pudesse desmultiplicar - muito embora nem sempre houvesse a preocupação de avançar antes de lateralizar o passe. 
A formação ordenada mostrou de novo os problemas da intromissão do árbitro (a 4ª voz): os próprios fijianos - com bastante mais peso - mostraram mais problemas nas suas próprias bolas. Nas nossas introduções, embora com o bom trabalho de controlo com os pés do Nº8 - Vasco Uva - as nossas linhas atrasadas foram colocadas quase sempre no "pé de trás" o que não permitiu chegar em boas condições ao "canal 3". Situação que deveria levar a penetrações centrais para que não perder a vantagem da concentração de jogadores e, do consequente, espaço disponível. Dols jogadores portugueses gostei do já nomeado Vasco Uva - provavelmente o único veterano que se encontra em condições para alinhar com estes jovens - do jovenzíssimo Pedro Bettencourt (com um bocadinho mais de experiência teria marcado um ensaio que jamais esqueceria) e o sempre notável Julien Bardy.
E visto o jogo ao vivo o que é que se pode ter visto? Logo e a impressionar a "dimensão" dos fijianos. Depois, perceber também como se deve fazer para receber a bola em velocidade e ultrapassar a defesa - perceber aqui o quando lançar-se em sintonia com o movimento da bola é uma técnica que se aprende... treinando. Ver, ao vivo, permite apreender os seus fundamentos.
E estando, poderia ter visto o excelente ensaio de Portugal: bola jogada rápida por Pinto de Magalhães, saltando, com passe tenso e rápido, um/dois jogadores para servir um já lançado Julien Bardy que ultrapassou, atacando o intervalo, a primeira barreira defensiva para, ao fixar o último defensor, dar a bola numa bandeja a Frederico Oliveira que só teve que correr para marcar. Um tratado de aplicação de princípios: velocidade, avanço e ataque aos intervalos e sobre o lado contrário do receptor, apoio em tempo útil e com a linha de passe desempedida. Lindo de ver!
A caminho do Brasil e para um jogo mais exigente no resultado - no jogo com Fiji a derrota não causa qualquer problema em termos de pontuação no ranking - e onde se espera a resultante do crescimento que os três jogos já realizados permitem esperar. Por diversas ordens de razões - entre as quais se inclui a diferença de posicionamento no ranking - a vitória portuguesa, embora - em teoria a diferença é de 8 pontos - sem se pensar em facilidades, é o único resultado possível.
Outros jogos
Nos outros jogos do fim-de-semana e para além da demonstração expressiva da superioridade do Tiers 1 sobre as equipas do Tiers 2, as maiores surpresas vieram dos nossos adversários directos do 6 Nações B que, embora em casa e enquanto a Espanha (20º) cumpria a sua obrigação de vencer fora o Chile (26º) por 26-3, conseguiram duas excelentes vitórias: a Geórgia (16º) sobre o Canadá (14º) por 19-15 ; a Roménia (17º) sobre o Tonga (11º) por 19-18.
A Inglaterra venceu naturalmente os Pumas do "nosso" Daniel Hourcade e no França-AllBkacks de camisola branca, um bom jogo, vale a pena rever o notável ensaio de Kieran Read - uma demonstração de eficácia - e fixar o nome de um jovem francês: Gael Fickou, 19 anos. A Itália, uma espécie de argentinos europeus - de menos para os de cima, de mais para os de baixo - levou uma trepa enorme dos australianos, o mesmo acontecendo com Samoa ou Japão. A África do Sul no seu jogo em força habitual - e cheio de dureza escusada (Bismark Du Plessis continua a agredir quem pode com o seu hand-off de, no mínimo, antebraço e, no pior, de cotovelo...) - venceu, para grande descontentamento meu, o País de Gales que se mostrou muito longe da equipa vencedora do último 6 Nações.
Sub-18de Portugal
Por causa de uma carambolada de meia-dúzia de automóveis na auto-estrada acabei por quase não ver a excelente vitória dos Sub-18 portugueses contra a Espanha e com o consequente conquista do acesso ao Europeu de Élite. Do que lhes vi contra os russos e do que ouvi dizer da final, há ali gente com futuro - saibamos nós encontrar-lhes a motivação necessária que os faça ultrapassar o objectivo  imediatista de "entrada para a universidade" para poder garantir o seu interesse empenhado por uma carreira internacional e a necessária sucessão pode estar garantida.

sábado, 9 de novembro de 2013

DESRESPEITO

No tempo em que eu jogava, não queríamos que houvesse jogos às horas em que a RTP transmitia - com voz do Cordeiro do Vale - qualquer dos jogos do 5 Nações. Ver um jogo daqueles era uma obrigação para todos nós que, para além de gostarmos de jogar, gostavamos muito do rugby. E juntávamo-nos em grupos em casa de uns ora de outros a ver, a vibrar e... a aprender. Porque se aprende muito a ver: tecnica e tácticamente; individual e colectivamente. E aquilo que víamos, tentavamos imitar no treino seguinte - com ajuda de todos porque todos tinham visto. E íamos aprendendo que os franceses fazem assim, que os galeses - e que quinze tinham nessas alturas...- fazem assado. Que a bola isto, a bola aquilo. Que se ataca daqui, que se defende dali. E aprendíamos que é preciso fixar a defesa, correndo em frente antes de passar a bola para o lado, que deslizar na defesa era uma forma de nos multiplicarmos, que havia pontapés atacantes e outros que não passavam de alívios, ou como punham os pés nas formações ordenadas ou como faziam - não havia "levantadores" - o movimento de preparação dos saltos. E percebíamos o combate pela bola e por cada nesga de terreno. Aprendendo tanto jogadores como treinadores. E fazíamo-nos melhores jogadores.

E aprendíamos como se fazia - como diziam os franceses - um "cadrage-débordement" ou uma "troca de pés" com professores tão bons como - numa lembrança breve - Cantoni, Villepreux, Jo Maso, Edwards, Gerald Davies, John Dawes, Barry John, JPR, Phil Bennett, Mike Gibson ou Ian McGeechan. E a placar com os incansáveis Slattery, John Taylor ou Rives. E com tantos outros de quem sabíamos nomes e qualidades. E que, no sonho com que nos queríamos também internacionais, queríamos imitar.
Quando havia jogos internacionais, com Portugal a jogar em casa, a romaria era garantida - todos íamos ver e vibrar com os amigos, com aqueles que víamos a treinar ou com quem treinávamos, que vestiam a camisola nacional. A "nossa" camisola.
Ver jogos ao vivo é muito diferente para muito melhor: percebi isso mesmo na primeira vez que fui a França ver um 5 Nações ao estádio. A dimensão dos homens é "palpável", a velocidade do jogo é perceptível, os contactos mostram-se na sua verdadeira dureza. Ver um jogo internacional ao vivo permite perceber onde estamos e o que nos falta - na televisão, mesmo com a vantagem da repetição, há uma distanciamento que nos afasta da realidade. Às vezes julgamos até que o que vemos é fácil.
Hoje jogam em Lisboa, Portugal - 22º classificado do ranking IRB - e Fiji - 13º classificado do mesmo ranking. Não se pode afirmar que seja um dos melhores jogos do mundo mas é um jogo disputado por duas equipas que se encontram no quinto superior do ranking mundial de 100 equipas. Não sendo um França-Nova Zelândia - 3º lugar e 1º lugar do ranking IRB respectivamente - também não é nada de deitar fora. E alguns dos jogadores presentes jogam nas melhores equipas da Europa. A começar pelo português Julien de Sousa Bardy um dos melhores "asas" do campeonato francês e a quem vimos um excelente ensaio no passado sábado a que se juntam fijianos que fazem nome por essa Europa..
Perder a oportunidade de ver estes jogadores a jogar, para além do pretencioso, é um erro. Porque é não querer aprender com quem faz melhor. Perder a oportunidade de ver como resolverão os portugueses as dificuldades que irão, certamente, encontrar é não querer saber do caminho de desenvolvimento necessário ao progresso. 
Os clubes portugueses, ao marcarem os seus jogos para horas simultâneas com o jogo de Portugal ou para horas que impedem os seus jogadores de estarem presentes no Estádio Universitário de Lisboa é um erro grave. Pelo que limitam à visão dos seus próprios jogadores e pelo que representa de desrespeito pelo papel fundamental que as selecções nacionais representam no desenvolvimento e atracção da modalidade.
Não permitir que a comunidade rugbística portuguesa esteja presente neste Portugal-Fiji distancia o rugby português do Desporto para o colocar na campo das Actividades. É reduzir o rugby português a um jogo do quintal das traseiras. A um muda-aos-cinco-e-acaba-aos-dez

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A LIÇÃO DA DERROTA

Uma derrota nunca é agradável. Uma derrota por dois pontos de diferença - a selecção de Portugal de Sub-19 perdeu com a selecção da Bélgica do mesmo escalão por 13-11 - quando se dispôs do maior volume de jogo ou do maior número de oportunidades, num jogo longo - com 54% de tempo útil - com sequências suficientemente compridas para explorar desequilíbrios, é pior e o desagradável toma proporções superiores. 
Não é, de facto, nada agradável enfrentar a tradução da situação: não foram eles que ganharam, fomos nós que perdemos. E para uma equipa com pretensões, o desanimo deve ser maior pelo sentimento de oportunidade deitada fora.
Não vale a pena, sabe-se, chorar sobre leite derramado e se uma derrota é uma derrota, só para uma coisa poderá servir: para tirar ilações e permitir assim que se possa somar experiência, tornando mais eficazes futuras prestações competitivas.
Porque perderam os Sub-19 de Portugal?
Antes do mais porque a sua prestação - ao contrário da dos belgas - pouco ou nada assentou num colectivo, num espírito de equipa, numa atitude colectivamente ganhadora a fazer de cada minuto um objectivo idêntico para todas as cabeças dentro do campo como exigível num desporto colectivo de combate. Por mais do que uma vez, durante o jogo, me lembrei da frase, depois de uma vitória inesperada no Super Rugby, de Andries Strauss, capitão dos Kings: "O rugby é um jogo bizarro, o carácter vence o talento em qualquer altura." E foi isso que levou a Bélgica á vitória: o carácter de um colectivo, mais do que eficácia do seu jogo.
Do lado de Portugal, a pretensão individualista sobrepôs-se demasiadas vezes á tomada de decisão favorável ao colectivo, perdendo-se assim ensaios ou pontos.
Dois momentos decisivos demonstram essa postura: enquanto no banco se dizia "postes!" numa penalidade sobre o final de um jogo com a diferença de dois pontos no resultado, alguém dentro do campo decidiu pontapé-para-fora, deitando também fora uma oportunidade cara contra o risco de uma hipótese; no alinhamento que se seguiu, alguém dentro do campo, contrariando o sistema utilizado pela equipa e a anterior superioridade já demonstrada no rucking-maul, decidiu por um lançamento comprido quando o objectivo útil seria captar a bola - e que melhor sítio para o conseguir do que a frente? - e ir ao ensaio. Imaturidade?! Certamente mas totalmente indesculpável e sem valer no campo das desculpas  - os Sub-19 são jogadores adultos, não são mais meninos e já integram o escalão do "treinar para vencer". E quando o resultado conta, as decisões a tomar pertencem ao sistema da equipa, ao sistema treinado, não ao livre-arbítrio de uma qualquer importância. Se servir de lição para uma carreira...
Áreas críticas
Mas fora deste desperdício infantil de oportunidades, viram-se - apesar de alguma melhoria em relação ao jogo anterior - aspectos técnicos e tácticos que constituem áreas críticas que, marcando o rugby português, o impedem de atingir uma superior plataforma de resultados. E esta derrota terá de servir para reflectir sobre elas, encontrando soluções para resolver adequadamente os pontos críticos que possam transformar as acções.
Em duas ou três jogadas prevaleceu o individualismo da leitura parcial quando um passe bastaria para encontrar o companheiro no caminho da vitória. À vitória do colectivo preferiu-se o egoísmo da derrota. 
A opção ir ao chão a destempo prevaleceu na maioria das infiltrações - nesta mania da palavra mais repetida do rugby português e que faz do toque um sinal de queda - quebrando a continuidade e demonstrando a enorme dificuldade de jogar entre-linhas e, consequentemente, a também enorme dificuldade de criar desequilíbrios defensivos e atingir a zona depois-da-defesa  em situação de vantagem. E se a estas dificuldades juntarmos o atraso na formação efectiva do apoio - onde estavam, por exemplo, o 6 e 7 em cada saída do nº8? - estaremos em presença de uma área crítica que, se transformada para um apoio próximo e de abertura de linhas de passe, dará uma outra dimensão ofensiva à(s) equipa(s).
Mas provavelmente o pior problema a resolver - porque destrói as conquistas de bola conseguidas e as oportunidades construídas - na "construção" de jogadores capazes de se adaptarem ás circunstâncias do jogo e que joguem de acordo com aquilo que os adversários propõem, mostrando-se eficazes na resolução das situações que enfrentam, tem solução numa lei simples do jogo: o passe lateral só é eficaz quando se avança para fixar os defensores. Ou seja, fazer o passe longe da defesa, sem a atacar, significa passar a bola mais defensores para cima do companheiro, deixando que a defesa ocupe o espaço que parecia livre e lançando ao vento aquiloque parecia uma oportunidade explorável. E se existe, por qualquer razão relacionada com o movimento do jogo, espaço livre na largura do campo, esse espaço não pode ser desperdiçado - o que significa que é preciso segurar a defesa, interessá-la, para que não possa deslizar e multiplicar-se. E estas manobras têm que ser o bê-à-bá da natureza dos jogadores.
Não ter ganho este jogo retira-nos a possibilidade de acesso ao Junior World Rugby Trophy - o Mundial B de Sub-20 onde estivemos, no Chile e no final da época passada. Com esta derrota, num jogo em que mostrámos maior capacidade virtual do que o adversário, mostrámos também alguns dos pontos críticos que retiram eficácia ao rugby português e que precisam, no dia-a-dia dos treinos dos clubes, de ser transformados em ferramentas ao serviço da objectividade da marcação de pontos. Porque é disso que as vitórias vivem: da marcação de pontos!

domingo, 27 de outubro de 2013

KALÍVIO

Foi um alívio o apito final do árbitro no Portugal-Polónia dos Sub-19. Um ponto de diferença deu-nos a vitória, o importante no fundo. Mas foi um alívio...
A Polónia não pertence, desde há muitos anos, ao nosso circulo competitivo - nós somos 22º do ranking da IRB, a Polónia encontra-se no 28º lugar com 55,64 pontos contra os 58,82 pontos de Portugal. E esta diferença tinha que ficar marcada no campo e isso não aconteceu. Nervoseiras de um primeiro jogo? Dificuldades de adaptação a um ritmo competitivo - nas responsabilidades e na velocidade - fora dos hábitos conhecidos?
Seja o que for que se tenha passado a realidade ia-nos sendo muito desagradável. E no entanto pode perceber-se que o quinze português tem uma cultura táctica superior. Mas não se podem falhar placagens deixando o adversário tornar uma jogada trivial num momento de perigo. Tão pouco se pode ficar à espera, deixando que o adversário ganhe espaço e confiança. Ou jogar ao pé como se a única preocupação fosse a de aliviar.
Houve uma óbvia qualidade na selecção portuguesa: a preocupação de cumprir um plano de jogo. O problema colocou-se na mera capacidade aproximativa, na falta de empenhamento do colectivo. De atitude perseverante e vencedora. De resiliência. E houve individualismo de alguns jogadores que procuraram o brilhar mais do que o ganho colectivo - por duas vezes me lembrei do colectivismo do ensaio de Aaron Cruden no último All Blacks-Austrália - qualquer dos seus companheiros podia tentar marcar mas circularam a bola até ao companheiro nas melhores condições de êxito seguro.
Dois problemas me pareceram estar na causa da menor eficácia: o atraso da entrega da bola no lançamento das linhas atrasadas e a distância destas á linha de vantagem - tornando assim ineficazes as combinações colectivas.
Quem tem o papel de lançar, passando a bola, as linhas atrasadas depois de cada ponto de quebra - feitas, neste jogo, demasiadas vezes pelas mãos tradicionais do número 9 - TEM de o fazer rapidamente. Cada atraso de décimas aumenta a possibilidade da defesa adversária cortar a possibilidade de circulação da bola e "fechando" o acesso ao canal 3. Na formação dos médios-de-formação tem que haver a exigência do passe com os pés quietos, sem passos, sem "cavalinhos". Na formação geral dos jogadores também terá que haver a exigência de passe do chão para um jogador lançado em corrida. Porque é este ponto - a velocidade de passagem de uma forma á outra - que permite explorar o sucesso do desequilibrio conseguido.
Se a isto - á lentidão da transformação - se juntar a enorme distância da linha de vantagem a que as linhas atrasadas jogaram, teremos uma ideia das facilidades dadas aos polacos.
O rugby tem disto: se os colectivos potencialmente mais capazes não aplicam as regras tácticas necessárias à demonstração das fragilidades da equipa adversárias, a sua exploração torna-se impossível e as duas equipas igualizam-se. E o resultado dependerá da sorte dos deuses...
Esperemos que no segundo jogo o mundo seja outro e a demonstração das diferenças seja em pleno.
E se o jogo foi um alívio, vê-lo terminar teve a vantagem de terminar com a actuação do árbitro. Por muito que defenda que o árbitro tem sempre razão mesmo quando se engana, este árbitro, francês ao que me foi dito, fez uma demonstração de profunda incompreensão do jogo, confundindo a Lei da Vantagem com uma espécie de Ensaio de Penalidade. Explico-me: dando correctamente a vantagem sobre uma falta que quebraria a continuidade do movimento, o sr. árbitro mantinha a vantagem até que - pretendia ele - a equipa não faltosa chegasse ao ensaio. Entendamo-nos: se a falta da equipa defensora impediu a marcação de um ensaio a solução é conhecida, ensaio de penalidade; se a falta permite usar a lei da vantagem ela deve ser aplicada mas não até à eternidade com volta posterior ao local da falta. Porque a vantagem tem duas faces simples: ou existiu, ou não. Se existiu, o jogo continua; se não existiu, volta-se ao local da falta. E não se mede a sua existência depois de vários reagrupamentos em que a equipa faltosa nunca teve que empenhar demasiados jogadores e a beneficiadora nunca conseguiu mas do que bater contra um muro.. Percebe-se á primeira. E o sr. árbitro, ignorante das coisas do jogo, prejudicou a equipa portuguesa. Valeram-nos os deuses que impediram os polacos de transformar os brindes em pontos.
Por um ponto, com susto, mas ganhou-se. Mas podíamos ter ganho com estilo. A ficar mais no coração do que no placard.

sábado, 26 de outubro de 2013

SUB-18 COM BOA VITÓRIA

Apesar de jogarem contra uma equipa mais velha - da Rússia, apesar da clareza cristalina das regras sobre as idades, ninguém terá lido o caderno da prova... - os Sub-18 de Portugal conseguiram uma óptima vitória por 19-14. Que poderia ter sido mais dilatada não fossem os falhanços de penalidades normalmente convertíveis.
Por culpa dos russos, o jogo era a feijões - Portugal, como acontecerá com a Espanha, tinha o jogo ganho na secretaria - mas tive a garantia de que, para que o jogo valesse, no minimo, um bom treino para as duas selecções, os jogadores não tinham sido previamente informados da decisão dos responsáveis pelo torneio. O que significa que a vitória foi boa, sem favores ou distrações e demonstrativa das capacidades competitivas dos jogadores portugueses. Um bom sinal para o jogo contra a Espanha - agora uma final - que decidirá quem se juntará ao grupo da elite europeia.
A selecção portuguesa fez um bom jogo e mostrou interessantes capacidades, nomeadamente jogando ao largo com bastante intenção, procurando a linha de vantagem e atacando intervalos. Para atingir o máximo de eficácia apenas faltou a capacidade de criar o apoio próximo e "nas costas" do portador para dar continuidade á perfuração sem a necessidade de passar pelo chão. De facto parece existir um problema de adaptação dos jogadores portugueses - dos mais jovens aos mais velhos - à situação de apoio na perfuração. Em vez de confluirem, ao minimo sinal corporal do portador da bola da intenção de perfurar a defesa, as suas linhas de corrida, alterando angulos e preparando-se para garantir a abertura de linhas de passe, tendem, ao contrário, a manter-se no mesmo corredor e à espera que a sorte do jogo lhes faça chegar a bola. E será a alteração desta forma de jogar, entendendo o tempo próprio da tomada de decisão para cada acção (apoiar ou receber) e a necessidade de adaptação às circunstâncias, que permitirá uma superior eficácia das acções e movimentos. E que fará a diferença maior.
Por outro lado o jogo ao pé - costuma dizer-se que um pontapé é bom quando permite uma boa perseguição - necessita também de maior precisão, procurando os espaços livres do campo adversário para garantir a criação de dificuldades, limitando as oportunidades de contra-ataque e assim possibilitando a conquista de território. Mas o caminho, com base no que se viu, é promissor - assim existam as possibilidades de garantir a estes jogadores qualidade competitiva neste final da sua formação quando se encontram no período de passagem do "treinar para competir" para o "treinar para vencer". 
Foi uma boa vitória e que dá um sentido superior à recente candidatura da Federação Portuguesa de Rugby ao Mundial B de Sub-20 para 2015 - serão estes jogadores que lá estarão se a prova nos for entregue.
O mote está dado e o desafio está lançado aos Sub-19 que hoje jogarão com a Polónia.

O QUE É DEMAIS...

"Podes dizer-me se o último passe foi feito correctamente?" pergunta o árbitro para o árbitro-televisão e vamos todos ver as imagens para tentar perceber se o passe que um jogador fez para o outro na jogada que deu ensaio não foi feito para a frente. "Não vi nada que me pareça incorrecto. Podes validar o ensaio." e o árbitro principal levanta o braço e apita: ensaio!
É ridiculo!
E se o recurso às imagens se justifica para perceber se houve ou não colocação correcta da bola na área de ensaio - são inúmeras as vezes em que existe uma embrulhada de corpos - ou para garantir que o jogo violento não ficará impune - mesmo se as imagens só sejam posteriormente vistas mas que sirvam como prova - já esta nova moda de analisar toda a jogada, não tem qualquer sentido. Porque, desde que começada, não se saberá onde acabará - e a tendência apontará para a extensão demasiada da procura da dita "verdade desportiva". E o Desporto, os seus tempos, o seu interesse, a sua carga emotiva, não é compatível com estas análises pretensamente "científicas" de cada movimento.
Tudo o que é demais é moléstia, diz-se. Anote-se.
E o Toulouse-Toulon não merecia esta paragem para ver o que um estádio inteiro tinha visto.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

CURVA DE APRENDIZAGEM

Ninguém nasce ensinado e é suposto que com a aprendizagem e com a experiência que daí resulta que os jogadores melhorem as suas capacidades e possam atingir os níveis desejados para a competição internacional.
Com o Lusitanos XV é dada uma oportunidade de crescimento competitivo aos jogadores portugueses que, se por um lado lhes permite perceber o que significa a dimensão do alto-rendimento também lhes oferece, por outro, a experiência necessária ao seu desenvolvimento individual e colectivo.
Algo disto se estará a passar como se viu no último jogo contra os London Irish por comparação com o jogo de Paris. Com resultados idênticos - derrota por sessenta pontos de diferença - o avolumar dos pontos deixa - se a tendência, com os resultados dos próximos jogos com os italianos do Cavalieri Prato, continuar a mostrar-se verdadeira  - algum optimismo sobre o crescimento e aprendizagem da equipa.

Analisando os pontos sofridos em cada jogo por quartos de vinte minutos, pode verificar-se que existe, do primeiro para o segundo jogo, uma melhor adaptação do Lusitanos XV de que resulta um final da primeira parte contra os London Irish com apenas 30% dos pontos totais sofridos contra os 57% de Paris.
Há, naturalmente e ainda, um longo caminho a percorrer para atingir o patamar competitivo do nível do alto-rendimento. 
Habituados a uma competição interna a que faltará elevação da sua dimensão competitiva, os jogadores portugueses sentem claras dificuldades na adaptação aos ritmos, velocidades e esforço físico exigido neste nível de rendimento desportivo.
Melhorando a sua capacidade defensiva colectiva na parte inicial do jogo, procurando não se deixar surpreender, os Lusitanos não conseguiram, no entanto e de acordo com o esperado, resistir ao aumento do volume de jogo dos londrinos e ao aumento do tempo útil de jogo - cronometrados 28' de bola em jogo, não contando portanto com as vozes da formação-ordenada que exigem esforço a metade da equipa - a que, para além da dimensão temporal das fases já de si desgastantes, não estão habituados. E quando o oxigénio começa a diminuir...

O maior problema das equipas portuguesas mostra-se na nossa incapacidade para marcar ensaios - somos a equipa que no actual 6 Nações B menos ensaios marcou! Ora a resolução deste problema, que tem causas que se conhecem - tempo de passe, passes em arco, lentidão de saída da bola nos reagrupamentos, incapacidade de manobra perante defesas deslizantes, jogo ao pé pouco eficaz e a não colocar pressão suficiente no adversário que, por isso, não é obrigado a desfazer sistemas defensivos, incapacidade de apoio eficaz nas penetrações com a errada tendência de jogar ao lado á espera de um passe que não vai chegar, a que se juntam entradas ao contacto e não aos intervalos - não dependem apenas do espaço selecção e dis seus treinos. E se há vantagem nestes jogos é também a de permitir que a comunidade rugbística nacional tenha oportunidade de comparar o estado das artes.
Embora se perceba que a equipa técnica que dirige as selecções seniores tenha procurado minorar estes problemas, percebe-se também que é no treino dos principais clubes que estes problemas encontrarão soluções. O que exige uma diferente filosofia para ganhar: não importando ganhar por ganhar, mas importando desenvolver para ganhar. O que, não se fazendo de um dia para o outro, paga os dividendos suficientes para ser garantia de futuro. 
E o rugby português, para sobreviver no mundo onde os resultados contam, precisa de ser capaz de dar um salto nas suas qualidades técnicas, tácticas e estratégicas.



sábado, 19 de outubro de 2013

DE SE TIRAR O CHAPÉU

Sete ensaios! Que jogo! 
E três minutos finais de grande categoria com a bola a percorrer o campo de um lado ao outro, com recuperações de um e outro lado, como se o jogo tivesse acabado de começar. Meteu tudo, ataques ao espaço, explorações inteligentes dos espaços criados pela pressão, pela velocidade, pelo avançar constante, pela verticalidade antes do jogo lateral, pela eficiência de passes longos e tensos, curtos e perfurantes num apoio permanente a garantir a continuidade do jogo até ao limite do sufoco, pelo jogo ao pé de precisão admirável com perseguições tacticamente inteligentes, placagens notáveis e, até, um penalty-touch australiano com recurso a três-quartos para aumentar a potência do maul. Um fartote de bem jogar! Até o árbitro, Craig Joubert, colaborou, apitando ao necessário, garantindo a vantagem e a fluidez. O rugby no seu melhor onde pouco importa o número nas costas da camisola e com gestos técnicos, seja de quem for, adaptados às circunstâncias. Um hino à capacidade do rugby se mostrar como espectáculo e quando é assim o rugby é a melhor modalidade do mundo. Um divertimento!
Este Nova Zelândia-Austrália é para rever e abre enormes espectativas para os jogos de Novembro, na Europa. O França-All Blacks de 9 de Novembro deve ter começado uma enorme corrida aos bilhetes...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CONTINUIDADE DA EXPERIÊNCIA

Novo jogo da Amlin Cup e com adversário do calibre dos London Irish. Depois da experiência do jogo com o Stade Français e que terminou com demonstrações de apreço quer do público presente quer dos jogadores do Stade.
O que se espera amanhã no Estádio Universitário de Lisboa da parte dos jogadores portugueses - o Lusitanos XV - é que nos mostrem uma continuação, em patamar já superior, da aprendizagem iniciada em Paris.
E se o problema mais difícil de ultrapassar estará no salto de ritmo entre a competição nacional e o nível de competições como esta, já se espera que o "tempo" de decisão e execução tenha um salto de qualidade, possibilitando assim uma utilização da bola mais eficaz e mais adequada ao quadro competitivo internacional.
Os defeitos da construção do jogo português são conhecidos e, pese embora o esforço que se tem realizado nos cursos de treinadores para que a formação de jogadores se realize em moldes e métodos actuais, nada melhor do que a possibilidade de os ver - definindo causas e procurando soluções - em directo e ao vivo.
E esta é uma das importâncias que tem este tipo de jogos: possibilitar aos que têm a responsabilidade pelo treino nos mais diversos clubes a compreensão, a evidência, do caminho a desenvolver.
Porque o rugby português se não tiver resultados internacionais no nível da sua competência encontrará cada vez mais dificuldades financeiras. Porque o subsídio estatal diminuirá mais do que as circunstâncias já exigem e os patrocinadores não mostrarão qualquer interesse em juntar a sua marca a quem entre em plano inclinado. E é com a experiência que jogadores e treinadores possam tirar destes jogos que o desenvolvimento qualitativo acontecerá.



Apesar dos resultados obtidos no 6 Nações B da época passada não terem acrescentado mas, pelo contrário, terem diminuído pontos do ranking IRB, o rugby português consegue manter-se na segunda posição das modalidades colectivas portuguesas - não considerando o hóquei que não apresenta dimensão mundialmente comparável.
Pelas mais diversas razões manter esta posição relativa entre as modalidades portuguesas tem óbvia importância. Tentar aproximarmo-nos do 20º lugar no ranking IRB tem também óbvia importância. O que só se consegue com bons resultados internacionais. O que será, em ambas as circunstâncias, um garante mínimo para a saúde financeira da Federação. O que é idêntico a dizer, para o rugby português.
Esta percepção - que me parece tão evidente como inquestionável - exige que os nossos jogadores de élite sejam capazes de se sobrepôr aos jogadores seus adversários no espaço competitivo onde se jogam pontos de ranking e lugares de acesso a provas de nível mundial. E isso só será possível elevando os nossos hábitos competitivos.
O jogo contra os London Irish faz parte desse processo.

domingo, 13 de outubro de 2013

OUVI BEM?

Notei com curiosidade - e com optimismo -  que durante a série australiana dos Sevens World Series não se ouviu a famigerada voz do árbitro "Yes nine!". Durante os jogos que vi e foram bastantes, ouvi apenas "crounch-bind-set" e o médio-de-formação introduzia a bola no tempo que convinha à sua equipa. Se ouvi bem, terá existido um retorno ao que ficou definido pela comissão que estudou e experimentou o problema até decidir os parametros que garantiam os objectivos: diminuição do impacto, introdução da bola na linha média da formação-ordenada, retorno da figura do talonador, aumento da técnica do controlo da bola com os pés pelo número 8 e possibilidade da saída combinada da terceira-linha.
Pode ser que seja um primeiro passo para que desapareça o disparate da ordem do árbitro e haja um retorno ao cumprimento do Código do Jogo e ao conceito essencial que tradicionalmente o caracteriza :o jogo é dos jogadores. E ao cumprimento dos objectivos que levaram à alteração.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

AMLIN CUP

Vale a pena a participação na Amlin Cup? Vale! Mas não vamos ter derrotas por resultados de grande diferença? Muito provavelmente iremos. Então qual a vantagem?
A nossa participação não se pode medir pelos resultados que iremos conseguir esta época - é natural que não sejam sequer aproximados. Mas isso, a derrota por números elevados não tem grande importância: a nossa participação mede-se pelo crescimento competitivo dos jogadores que participarem no jogo.
Mas não é um salto muito violento, jogar contra profissionais dos melhores campeonatos da europa? Embora fosse mais equilibrado jogar esta "poule" com equipas da nossa série do 6 Nações como propôs à IRB o Raul Martins - só que não houve resposta positiva e a realidade é esta: ou jogas assim ou ficas cada vez mais longe. Mas convenhamos que não é coisa de outro mundo fazer estes jogos: é apenas enfrentar a vida num crescimento rápido de adulto. Como há uns anos atrás em que fui responsável por uma equipa que também disputou um europeu de clubes, é uma oportunidade enorme de comparar e aprender. Como foi nessa altura. Perdemos sempre mas aprendemos o suficiente.
Esta particiação é de facto uma oportunidade de medir as distâncias, de perceber quanto é preciso de trabalho, de treino, para atingir o nível internacional dos resultados que fazem sonhar.
Ganharão experiência os jovens jogadores portugueses: aprendendo que a subida em defesa, em vez da espera, torna mais fácil a tarefa; que o ataque apoiado aos intervalos, em vez da colisão contra o corpo mais próximo, é a melhor - quantas vezes a única - forma de ultrapassar a linha de vantagem e quebrar a linha de defesa.
E aprenderão mais: que o jogo ao pé para fora, se permite respirar uns momentos, volta à primeira forma do sufoco em pouco tempo; que na formação ordenada com a voz do árbitro a beneficiar infractores, só a blocagem dos joelhos consegue travar a vantagem do 8x7 para garantir a posse da  bola de forma que os três-quartos, se não podem jogar no-pé-da-frente, não jogarão no-pé-de-trás.
E ainda que o ataque se faz com jogadores lançados e com apoio axial a permitir o martelo que garante a quebra da linha defensiva e a possibilidade de manter a bola jogável.
No fundo, jogar a Amlin Cup é uma oportunidade para os jogadores de perceberem a diferença competitiva entre os jogos nacionais a que estão habituados e o rugby de nível internacional.
Os jogadores estarão em duros exames em cada um dos jogos mas a maioria deles vai ganhar com a experiência, construindo o estofo com se fazem campeões. E a selecção nacional também ganhará.
E talvez o campeonato nacional da Divisão de Honra também se transforme.
Amlin Cup?! Uma aposta a médio prazo... A pensar no Mundial de 2019.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

JOGO A REVER

O último África do Sul-Nova Zelândia merece ser visto de novo e mais do que uma vez. Foi um jogo muito bom! E cheio de ensinamentos, para além de nove - nove! - ensaios.
O primeiro facto remarcável foi a vitória dos All-Blacks: ir ganhar no Ellis Park onde a África do Sul, sob o olhar e alegria de Mandela, se tinha sagrado campeã mundial em 1995, não é para qualquer. Menos ainda com o estilo que vimos. 
Logo duas diferenças entre as equipas. A primeira com os all-blacks a tirarem a bola rapidamente de qualquer reagrupamento através de um qualquer jogador que se aproximasse no momento próprio; do lado sul-africano, pelo contrário, a lentidão do conservadorismo de esperar pelo nº 9 para que a bola pudesse ser "aberta". E daqui duas formas diferentes de exploração da bola. 
De certa maneira a mesma relação entre inovação e conservadorismo se viu na forma de encarar o jogo-ao-pé de ambas as equipas: do lado all-black a procura constante de espaços livres para colocar a bola dentro do terreno de jogo seguida da pressão e cobertura suficiente de terreno para obrigar a pontapé de resposta com recuperação e lançamento de contra-ataques sempre bem apoiados; do lado sul-africano a procura de conquista de terreno esteve mais presente - talvez por convicção da inferioridade da capacidade de conquista dos neozelandeses - e acabou por significar retorno à posição inicial pelo efeito boomerang desta táctica. Duas concepções com resultados muito diferentes.
Duas notas individuais: Richie McCaw mostrou-se, mais uma vez e pesem as cegueiras ou "dores de cotovelo" que impedem viver com a capacidade alheia, um enorme talento: fez 26 placagens e viu-se em todo lado, apoiando em permanência e abrindo linhas de passe que colocavam dúvidas na estrutura defensiva adversária. McCaw é um enorme jogador - encontrando soluções para os companheiros e criando problemas aos adversários como lembra Jorge Valdano - e um notável explorador das Leis do Jogo, percebendo num ápice, da existência ou não de "formação expontânea" para agir em conformidade. 
A outra nota vai para o infeliz Bryan Habana que, apesar de lesionado - e com dor suficiente - foi capaz de manter a frieza suficiente para, em favor da equipa, marcar o pontapé livre após o "marco!" - se não o tivesse feito, a sua equipa, dentro da sua área de 22, seria obrigada a uma cada vez mais difícil - pela 4ª voz - "formação ordenada".
Dois pontos negativos: a "formação ordenada" e a arbitragem de Nigel Owens. Na "formação ordenada" a 4ª voz do árbitro leva, ao contrário do pretendido, à óbvia introdução "torta" - criando uma situação de 8x7 em benefício do infractor, não há médio que resista à garantia de conquista da sa equipa...
A arbitragem foi também mazota e sem já falar em diversos erros de análise, vale a pena referir o paternalismo que impediu a mostra de um "cartão vermelho" à agressão - com o claro objectivo de afastar do jogo o influente McCaw - do pilar sul-africano Tendai Mtawarira.
Nove ensaios, belíssimos ataques a trocar os olhos a defensores - linhas de corrida e angulos a criar contrapés - passes longos, rápidos e das mais variadas maneiras, ataques aos intervalos da defesa apoiados de imediato. Uma beleza. A rever.

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