quarta-feira, 28 de setembro de 2011

JOGO DE MOVIMENTO

Do amigo Pierre Villepreux - francês e antigo jogador e treinador internacional (quem não se lembra, em 99 e em Cardiff, da vitória da inteligência táctica da França sobre os All Blacks, 43-31, quando fazia equipa com Skrella?) e uma das vozes mundiais mais respeitadas no campo do pensamento do jogo contemporâneo - cito, de crónica recente, a visão ofensiva que traduz os objectivos do rugby de movimento:

Colecção: À distância de um braço
Em ataque: ser capaz de avançar à mão ou ao pé, impedindo a defesa de subir e criando assim uma relação de forças favorável; preservar no movimento sucessivo o desequilíbrio que este ganho de terreno proporcionou; conceder nessa continuidade o menor número possível de reagrupamentos e, quando o adversário nos contraria, libertar a bola rapidamente para continuar a dinâmica anterior.
Considerar a defesa como elemento táctico de controlo também decisivo e que deve estar ligado à acção de ataque; ser capaz de avançar e exercer pressão eficaz para explorar as bolas recuperadas quer seja sobre os movimentos ofensivos à mão (turnover) quer sobre o jogo ao pé dos adversários (contra-ataque)."

Tudo dito  e resumido: avançar, continuar, apoiar e exercer a pressão possível a todo o momento.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

GALES SEMPRE!

JPR Williams em representação de todos os heróis do rugby galês
Gales fez o que lhe competia: ganhar, garantir o ponto de bónus e demonstrar de novo que a Lei 60/20 se aplica para distinguir a diferença entre escalões.

E ainda por cima está a fazer um jogo interessante, de movimento.
Devendo agora vencer Fiji - coisa que nada terá de outro mundo - Gales prepara-se para um 6 Nações do outro lado do mundo. E a mira da final está-lhe tão próxima como para qualquer outro. Ganhar à Irlanda ou à Inglaterra e França não é impossível - pelo contrário! - e a ida à final está na mira de qualquer conversa de pub em Gales. Na minha também (acho que a minha avó iria gostar) ... e seria uma excelente homenagem para os antigos jogadores galeses que enchem a minha memória de bom rugby e aos treinadores que me abriram o caminho para muito do que sei.

O caminho é conhecido...

entre parentesis: alguém acreditava na vitória de Gales no Mundial de Sevens?!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RESPONSABILIDADE COLECTIVA

A propósito da importância e agrado da sua posição de Embaixador do Keep Rugby Clean cito, Felipe Contepomi, capitão da Argentina:
“Enquanto jogadores temos a responsabilidade colectiva de educar a próxima geração de jogadores de Rugby em todos os aspectos”

domingo, 25 de setembro de 2011

O DRAMA DO AFASTAMENTO

A chuva terá ajudado mas o jogo Escócia-Argentina só teve interesse pelo drama do afastamento que criou nos três minutos finais momentos de grande intensidade emotiva dentro e fora das quatro linhas. Quanto ao resto houve demasiado ping-pong de jogo ao pé quer na esperança do erro adversário, quer na tentativa de ocupação de território que garantisse espaço nas costas e minorasse os riscos do uso da bola - mas tudo muito desinteressante... embora pertencessem à Escócia os momentos de tentar jogar - para o que lhe faltou o talento e criatividade necessários. No fundo, a defesa Argentina, diga-se, pode sempre contar com a incapacidade escocesa de criação de desequilíbrios.

De novo veio à baila a eficácia do uso da bola: a Escócia - que deverá ter feito as malas -  deteve 54% da posse da bola em 50% de domínio territorial e mostrou-se incapaz de romper a defensiva argentina. Principalmente porque se deixou sempre dominar nos momentos de contacto não sendo capaz de: 1) atacar intervalos - o ataque foi feito à parede dos corpos argentinos (excepção de Lamont); 2) formar o apoio aos pontos de quebra em tempo útil; 3) e como consequência bolas tardiamente disponíveis e já com a defesa argentina completamente organizada, em superioridade numérica e garantindo a boa cobertura dos corredores adjacentes aos rucks.

Ponto interessante do jogo - para além da verificação do notável espírito de combate por parte dos argentinos - foi a sua demonstração técnica de apoio ao placador para a recuperação da bola - e conseguiram algumas. A aproximação ao ponto de placagem do segundo defensor argentino com imediata cobertura (em pé!) do placado para lhe retirar a bola é sempre feita com grande contenção e de acordo com as Leis do Jogo - e com óbvias vantagens tácticas. Vale a pena rever estas fases para melhor compreender as possibilidades de exploração que permitem.

LOSANGO O ADN DO MOVIMENTO

O Losango - o ADN do rugby de movimento - é um conceito de sempre do rugby e é constituido por quatro jogadores: o PORTADOR da bola, o ATRELADO ou ASA - aquele que acabou de fazer o passe ou que vem seguindo a bola e que apoia o interior do portador- , outro ASA - que apoia o exterior do portador - e o CAUDA que apoia nas costas do portador e que apoiará um ou outro lado de acordo com as decisões do portador. Há medida que este movimento vai tendo continuidade no jogo de passes, existe rotação - o cauda passa a asa, p.e. - e há novos jogadores a integrarem o sistema. Para que o losango funcione eficazmente é necessário aceitar o comando absoluto do portador - é ele que, para o bem ou para o mal, toma as decisões que os outros companheiros têm que acompanhar e reagir.   


Os All-Blacks em jogo recente contra a França não deixam os seus créditos
de APOIO em mãos alheias

No ensaio do século (ver O Melhor Ensaio de Sempre aqui)
o cauda Gareth Edwards será o marcador

A superioridade do CDUL (na foto: anos 70) que lhe permitiu
17 campeonatos baseou-se sempre no rugby de movimento e o
recurso ao losango não era desconhecido dos seus jogadores

Esta organização em losango, conjugada com a técnica de off-load - passe-em-carga - constitui uma das ferramentas mais eficazes para romper a linha defensiva. Os All-Blacks e  Sonny Bill Williams são exemplos a reter. 

sábado, 24 de setembro de 2011

O USO É CONTINUIDADE

Este Nova Zelândia-França colocou de novo a questão posse da bola versus uso da bola na ordem do dia. Quando os All-Blacks marcaram, aos 9 minutos, o primeiro ensaio, o domínio da França era total: 70% de posse de bola; 85% de domínio territorial. No final do jogo, numa diferença de 5 para três ensaios, os All-Blacks tinham 51% de posse de bola e dividiam equitativamente o domínio territorial. E ganharam com ponto de bónus e por uma diferença bem superior àquela que as pontuações do ranking admitem como normais.

O jogo de rugby não é um jogo apenas de medição de forças e quem tem a bola tem que a saber utilizar e tirar partido da vantagem que a situação lhe dá. E neste domínio os neozelandeses foram muito superiores aos franceses.

Depois há ainda outro domínio do jogo que marca a diferença: a capacidade colectiva de organizar o caos – assim como pegar fogo à casa e saber retirar os pertences mais importantes. No fundo é disto que se trata, desiquilibrada a defesa por concentrações atacantes, há que saber continuar o movimento, explorando a desorganização...organizando-se primeiro. Que se aprende pelo treino aplicado, claro.

Os franceses mostraram as dificuldades que os mais avisados comentadores vêem notando com a sua organização competitiva interna: jogo de poucos riscos, baseado em provas de força, mais território que uso de bola e com domínio do receio de perder sobre a vontade de ganhar. Para além de que, como refere o ex-internacional Alain Penaud, existe da parte dos treinadores franceses uma auto-suficiência prejudicial – olham para o Sul do alto da sua burra e não mostram compreender as transformações. No entanto, apesar de todas as debilidades que mostram – estão a jogar poucochinho e só os seus jornalistas parecem acreditar que o problema é do treinador… – têm a sorte do calendário e a oportunidade de aparecer num bom lugar final. Mas não servirão de grande exemplo para quem queira construir futuro.

Verdadeiramente, os franceses derem a mostra de absoluta incapacidade para uma equipa de pretensões – de que serve a super-máquina de treino de formações ordenadas, último grito da tecnologia? – e que se vê sempre como potencial vencedora. Para os adeptos servirá, para manterem a ilusão, a ideia que jogaram com uma equipa reserva, com um conjunto de médios de recurso, e que tacticamente a derrota era o melhor resultado – mas isto não retira as notórias deficiências de um jogo que raras vezes se mostra fluído nas ligações e acutilante na criação e exploração de desequilíbrios.

Do lado All-Black, mais uma lição da utilização do losango - esse ADN do rugby de movimento - que, começando no gesto técnico de contacto de dar as costas, é o instrumento de apoio e garante da continuidade do movimento que permite tornar eficaz o jogo de primeira fase e demonstrar – de novo – que o jogo de muitas fases é um mito de capacidade: muitas fases apenas demonstram incapacidade para criar desequilíbrios e resultam sempre de uma relação negativa de oposição ataque-defesa. Afinal não é o ataque que tem o domínio do tempo e do modo? O controlo do momento da decisão?

O Rugby é um jogo de ataque! e a maior parte das equipas que disputam este Mundial, pesem as maiores ou menores capacidades, têm mostrado gostar que assim seja.

(e por ser assim, com jogos interessantes que se querem ver, a difícil conjugação de horários neste lado de cá do mundo...)

Em Tempo: a vitória da Inglaterra sobre a Roménia por 67-3 (10 ensaios a zero) construiu-se com 52% de posse de bola e 50% de domínio territorial por parte dos ingleses. Saber jogar, saber utilizar a bola - e neste saber estão incluídas as componentes técnicas e tácticas que permitem criar desequilíbrios - faz a diferença

CURIOSIDADES E CRIATIVIDADE

Jogo entre a Austrália e os Estados Unidos mostrou - apesar do banho australiano de 11 ensaios contra um - algumas curiosidades estatísticas.

Por mais estranho que pareça a Austrália foi dominada quer em termos de posse de bola, quer de conquista territorial. E no entanto ganhou com uma diferença de sessenta e dois pontos! Interessante e intrigante.

Os Estados Unidos conseguiram 54% de ocupação territorial e 53% da posse da bola, obrigando assim os australianos a realizarem 90 placagens contra 77 dos americanos. Mas marcaram onze ensaios...

Esta situação coloca de novo a questão da importância da posse versus capacidade de utilização. E como demonstram os números: a capacidade de utilização eficaz da bola resulta em pontos, a posse nem sempre - como podemos ver no exemplo, ainda na 1ª parte do jogo, da criação, por parte dos americanos, de 20 fases infrutíferas com a defesa australiana, com maiores ou menores dificuldades, a sobrepôr-se. O que vale mais? Defender bem ou ter a posse da bola?

Aqui chegados, temos outro ponto importante de discussão: que vantagens proporciona a posse da bola?

A primeira e mais evidente: enquanto de posse da bola o adversário não poderá marcar pontos - o que sendo uma forma de impedimento não evita, por si só e a julgar pelo jogo em causa, a derrota.

A segunda e mais interessante: quem tem a posse da bola tem a possibilidade do controlo da situação, detendo o tempo e o modo da acção. O que é uma óbvia vantagem e permite explorar a situação defensiva atacando, com a força surpreendente dos argumentos ofensivos, os pontos fracos defensivos. Ou seja, quem tem a bola, tendo a vantagem da decisão, pode criar as surpresas necessárias ao desequilíbrio defensivo e marcar pontos. Para o que necessita de duas coisas: dominar as técnicas e tácticas do uso da bola e ser capaz de impedir que o adversário antecipe a sua decisão. O que de novo nos leva até à formação dos jogadores e aos métodos a utilizar.

...E mantém a criatividade como instrumento da manobra do jogo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

VERSÃO POPULAR DA LEI 60/20

A versão popular da lei 60/20:
"é nos últimos vinte minutos que a porca torce o rabo"
A observação dos jogos também permite perceber que:
"à medida que o Mundial avança os sessenta diminuem e aumentam os vinte"
e portanto as diferenças entre escalões vão-se acentuando e o fosso entre pontos de resultado vai-se abrindo mais cedo e sendo cada vez maior.

Lei 60/20

Os analistas da International Rugby Board, com base na leitura dos resultados e estatísticas dos 19 jogos iniciais do Mundial 2011, acreditam que há um aumento da competitividade em relação aos anteriores, devido principalmente à capacidade das equipas do 2º escalão em conseguirem manter um resultado de intervalo reduzido durante bastante tempo.

Tomando a hora (60’) como referência, 10 dos 19 jogos tinham então uma diferença de sete pontos – a distância que permite arrecadar um ponto de bónus defensivo. Embora ainda não seja questão de ultrapassar, parece começar a haver capacidade de aguentar – o que significa que está a existir uma maior aproximação entre as equipas dos escalões contíguos.

Aguentados sessenta minutos no mesmo intervalo competitivo, os restantes vinte minutos transformam-se no aumento de desequilíbrios que ampliam as diferenças de resultados e que os fazem aproximar do que seria esperado de acordo com a pontuação do ranking IRB. O que prova uma ideia já anteriormente configurada: é nos vinte minutos finais que se estabelece a diferença. Ou seja e para quem é espectador: há uma hora para aguentar e vinte minutos para separar.

De uma outra forma pode-se enunciar assim a Lei 60/20:
"entre duas equipas de escalões contíguos o equilíbrio conseguido durante uma hora de jogo tende a desfazer-se, alargando o fosso do resultado, nos últimos vinte minutos”
E se o equilíbrio, acreditam os analistas da IRB, resulta de uma melhor preparação, possível quer pelo empenho das federações emergentes, quer pelo apoio financeiro e técnico da federação internacional – que permite a aproximação de sistemas defensivos, níveis de condição física e capacidade de aguentar o trabalho exigido pelo jogo contemporâneo durante uma hora de jogo, como dizem – a diferença que se estabelece nos vinte minutos finais deve-se ao profissionalismo das equipas e jogadores do nível superior. Que se traduz pela capacidade de dispor de bancos que permitem substituições de jogadores por outros do mesmo elevado nível técnico. Ou seja, os vinte minutos finais desagregam o equilíbrio porque as equipas do primeiro escalão têm um 22 mais equilibrado e mais poderoso enquanto que as equipas inferiores, baseadas ainda no melhor quinze, não têm ainda essa capacidade de substituir sem retirar valor.

Prevêem também os analistas que o desenvolvimento do profissionalismo – enquanto atitude, organização, competição - permitirá uma cada vez maior aproximação que terá a evidência da sua expressão no próximo Mundial de 2015 em Inglaterra e, espera-se, com uma maior igualdade entre as diversas equipas no Mundial de 2019 no Japão.

E Portugal perante este quadro? Não estando presente neste Mundial perde a oportunidade de mostrar como se enquadra neste equilíbrio de sessenta minutos. Mas admitindo, por hipótese, que se enquadraria na main stream estatística, falta saber como se poderá desenvolver o rugby interno para garantir a passagem dos vinte minutos finais sem a rendição que entrega pontos. Sendo o profissionalismo uma impossibilidade interna absoluta – não há receitas possíveis – que condições criar para desenvolver jogadores e colectivos que possam garantir resultados internacionais no nível mais elevado?

Formar a selecção nacional apenas com portugueses que jogam no estrangeiro com as possíveis consequências de desfasamento entre a comunidade rugbística interna e os  representativos internacionais? Conseguir os acordos necessários para colocar os melhores jogadores portugueses em boas equipas estrangeiras com a certeza da sua dispensa para os jogos internacionais? Misturar as duas anteriores hipóteses ou acordar, como primeiro passo para aumentar qualidades e hábitos competitivos, com a vizinha Espanha um campeonato ibérico com a presença de duas equipas formadas pelos melhores jogadores portugueses?

Descobrir a estratégia do melhor caminho é, se quisermos um rugby português com qualidade internacional, uma obrigação.

Seja como for e se pretendermos apanhar o comboio da frente do rugby internacional, o modelo tradicionalmente utilizado em Portugal é chão que já deu uvas. Só a mudança, só a criação de um novo modelo competitivo, só uma nova articulação da formação com a previsão técnica do futuro, podem permitir chegar ao estádio superior da competição internacional. É tempo de mudança e se ela é necessária, a melhor altura para mudar é agora!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

NEM MÃO MORTA NEM LEI TORTA

Há uma mania justicialista no desporto – fora e dentro do campo – que não pertence aos seus códigos.

O desporto, e portanto o rugby, exigem, para a sua existência, uma suspensão temporária do quadro legal civil estabelecido e a sua substituição por regras comuns e previamente aceites entre os participantes – as Leis do Jogo – e que terão a duração temporal da competição em causa e que se repetirão tantas vezes quantas as desportivamente necessárias.

[diga-se a-propósito que esta suspensão apenas diz respeito aos intervenientes directos e, ao contrário do que parece julgar-se, não é extensível às bancadas dos espectadores – o que inclui, naturalmente, as claques e os seus comportamentos deploráveis]

Mas a suspensão que o jogo desportivo exige não inclui a licença de justiça pelas próprias mãos – por isso ser a resposta a uma agressão também penalizada. Mas estes conceitos que parecem elementares são, bastas vezes, adulterados por jogadores, espectadores e, também, por comentadores a quem a distância deveria possibilitar a frieza da análise correctora.

Portanto, seja qual for a falta que um jogador cometa ou esteja a cometer, não é permitido ao adversário impor-lhe qualquer punição.

Mas no rugby há, muitas vezes ou em muitos, uma visão marcadamente machista e pretensiosamente ética que pretende admitir a existência e validar correcções. É o espírito do jogo, gostam de dizer. Mas não é: não há princípios ou valores do rugby que o suportem.

No recente Gales-Samoa, um jogador samoano entreteve-se olimpicamente a pisar, trepando-lhe pelas costas, um galês que, no chão, impedia a saída da bola. O árbitro marcou falta favorável a Gales e não mostrou – como deveria – o cartão amarelo ao samoano agressor. O comentário televisivo defendeu de imediato a legalidade do consciente pisotear: a lei permite pisar um jogador que esteja a impedir a saída da bola. 

Não permite! Não é verdade e não há qualquer cobertura legal no gesto. Cito as leis do jogo:
Lei 16.3 – Rucking
(f) Os jogadores participando no ruck devem usar os seus pés para jogarem a bola - acção de rucking – e não para atingir os seus adversários no solo. Os jogadores efectuando o rucking com intenção de jogar a bola, devem tentar passar sobre os jogadores caídos no solo e não devem pisá-los intencionalmente. Os jogadores efectuando o rucking devem fazê-lo perto da bola. (P.P.)
PENALIDADE:
Pontapé de penalidade por Jogo Perigoso
Mais claro, não pode haver. O rugby é um jogo colectivo de combate com regulamentos que lhe garantem a lealdade e o desportivismo - e não há qualquer visão de jogo de cavalheiros que os possa transformar em justiceiros.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

SABER USAR A BOLA

Sem se mexer, Portugal conquistou esta semana um lugar no ranking IRB – de 21º para 20º – graças à queda da Rússia, agora 21º, como resultado da sua derrota frente aos Estados Unidos.

No Mundial os pontos contam a dobrar e vitórias sobre equipas que tenham pontuação de ranking com menos de dez pontos de diferença valem bem o esforço. E se a vitória for do pior classificado o ganho de pontos é enorme e faz com que uma única vitória permita uma posição inesperada no ranking como é o caso do Canadá que foi a equipa que mais lugares subiu graças à sua vitória sobre Tonga – subiu de 14º para 11º a catorze centésimas da Itália, enquanto Tonga desceu os mesmos três lugares, colocando-se um pouco acima da Geórgia. A Irlanda com a vitória sobre a Austrália atingiu o 6º lugar, subindo 2 lugares. E ainda vai haver muita mexida com os jogos de qualificação que faltam…

Há um bom conceito de rugby – a que poucas vezes, nomeadamente no treino, se dá a importância devida – para o desenvolvimento colectivo das equipas:

“importa mais a capacidade do uso da bola que a sua posse ou a eficácia da conquista de território”
Neste último fim-de-semana, dois jogos demonstraram o conceito. No Inglaterra-Geórgia que terminou com a vitória folgada dos ingleses por 41-10, os georgianos tiveram a posse da bola durante 50% do tempo e o domínio territorial durante 57% do jogo – de pouco lhes valeu. No entanto, este resultado diz alguma coisa da actual capacidade georgiana – a 7ª equipa europeia - que  limitou a derrota a 30 pontos de diferença.  E Gales que venceu uma Samoa em progresso – era a 10ª mundial – não teve mais do que 45% de posse da bola ou de domínio territorial... mas soube-a usar para levar samoanos a cometer faltas para evitar sofrer ensaios.

Ganhar exige posse de bola. Para ganhar dá jeito dominar o terreno, conquistando território e garantindo espaço de reserva nas costas. Mas, essencialmente e para ganhar ao melhor nível, é preciso saber utilizar colectivamente a bola – o que exige formas de treino com constrangimentos adequados, nomeadamente oposição directa. Formas que devem, desde logo, ter presença constante na formação de jogadores, levando-os ao crescimento conjunto com os instrumentos que lhes possibilitarão uma maior eficiência e divertimento futuros.

sábado, 17 de setembro de 2011

REVOLUÇÃO NO MUNDIAL

Que vitória!

Notável a vitória da Irlanda! A comunidade celta decidiu reunir os seus druidas que, de boca a orelha, encontraram a formula para revolucionar o Mundial – que quartos-de-final se preparam… e para Gales nasce uma nova esperança…

O diabo está nos pormenores, diz-se. E a vitória da Irlanda esteve no pormenor dos seus heróis da primeira-linha, esses quase ignorados jogadores fora da sua comunidade própria – que jogo! que lição de formação ordenada! Aqueles sorrisos, aquelas pancadinhas, mostravam tudo: a alegria, o agradecimento, o respeito, o sentido de equipa, o sentimento de pertença.. Toda a Irlanda se curva perante a sua notável prestação e o respeito e a admiração estender-se-á à comunidade rugbística internacional. Inesquecível! 

A Irlanda jogou muito bem dentro-da-defesa adversária– e não é nada fácil fazê-lo contra a organização australiana – e teve na coragem das suas iniciativas, correndo os riscos que jogos deste nível exigem, a imposição do respeito necessário para que a dúvida se espalhasse e roesse a confiança australiana. Atitude foi a chave, coragem física e mental o meio, capacidade de utilizar a bola de acordo com as circunstâncias o instrumento para uma vitória que marcará a história deste Mundial. Grande jogo!

Brian O’Driscoll – B.O.D. – capitão irlandês e uma das maiores lendas vivas do rugby actual, tem todas as razões para estar exuberante com os seus companheiros: prestaram, mostrando que é sempre possível (dentro de um intervalo de proximidade competitiva, pois claro!) ganhar um jogo mesmo se a diferença for reconhecível, um enorme serviço ao rugby irlandês em particular e ao rugby internacional em geral: não há derrotados antecipados mesmo numa modalidade que dificilmente - a Irlanda entrou como 8ª equipa do ranking IRB e a Austrália como segunda - deixa de impor as diferenças de lastro de cada equipa.

Claro que a cultura que proporciona o reconhecimento do fighting spirit irlandês teve a sua quota-parte na construção da atitude que proporcionou a vitória. Mas é bom lembrar que este resultado, esta vitória, resulta fundamentalmente da política desportiva da organização competitiva interna – formando duas das melhores equipas europeias onde se juntam os internacionais que assim competem todo o ano ao melhor nível. É um bom motivo de análise  e reflexão para o rugby português que daí pode – e deve - tirar as lições adequadas.

…e o Mundial está mudado. As apostas vão ser outras… Graças aos jogadores irlandeses.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

TRÊS DIAS DE MUNDIAL

Ia sendo uma manhã de domingo inesquecível mas tudo se estragou pela diferença de um ponto. Gales perdeu com a África do Sul no melhor jogo destes três primeiros dias do Mundial. Não teve a sorte do jogo dir-se-á, sorte essa que também lhe foi negada pelo sr. Barnes – um campeão de interferência no resultado final de Mundiais (foi assim em 2007 com a arbitragem do França-Nova Zelândia, foi também hoje ao ignorar a chamada ao TMO para confirmar um não considerado pontapé aos postes de Hook – o sul-africano Steyn está convencido da sua validade – ou ainda a marcação de falta a Gales no final do jogo quando a falta era de todos e o retorno à formação a solução de equidade ou também a constante falta de visão sobre os fora-de-jogo das defesa sul-africana). Como diz um amigo meu: Barnes é Barnes – e nunca percebemos a confiança que lhe atribuem.

Seja como for, a África do Sul veio mais uma vez demonstrar que é sempre um candidato poderoso … porque sabe aproveitar as oportunidades ao limite e apenas precisa que a veterania dos seus jogadores aguente o peso físico do longo campeonato. Gales mostrou que bem poderia ser um candidato às meias-finais – o jogo que mostrou constitui uma boa homenagem às tradições do seu rugby - se a sorte do jogo, na melhor das hipóteses, lhe não desse a Austrália, em vez da Irlanda (ou Itália) como adversário...

O mundial começou com o Nova Zelândia-Tonga. Os All Blacks cumpriram os mínimos, vitória e ponto de bónus, e guardaram-se para novos desafios: não valeu o tempo. A Escócia, entretida a deixar passar o tempo, teve que puxar os galões para ganhar no final do jogo. A Roménia – atenção Portugal! – com um pack de franceses poderosíssimo, continua a mostrar grandes dificuldades para utilizar a bola sob pressão mas quando toca à proximidade da linha o seu maul pode bater os melhores.

Dos outros jogos, o pior foi o Argentina-Inglaterra – se bem que o França-Japão também não tenha tido qualquer interesse: a França jogou pessimamente a mostrar enormes dificuldades para se adaptar ao jogo contemporâneo - e é esse que gostaria de fazer - mas também sem as armas do outro jogo; o Japão fez o que foi autorizado sem chegar propriamente a assustar fosse quem fosse. Os argentinos mostraram-se, como se previa, a léguas de 2007 e embora tentando o mesmo tipo de jogo não convencem para que se aposte neles; a Inglaterra parece não saber jogar – e nem Wilkinson teve jogo-ao-pé capaz – mostra enormes dificuldades para ultrapassar a defesa adversária e para fugir ao jogo directo que apenas pede resistência às defesas. Com menos bola e mais território, defendendo bem (100 placagens) chegou ao fim e venceu. Como tem acontecido noutros Mundiais, jogando um suficiente menos que no entanto lhe permite vencer – e por isso será também um candidato… mas só por tradição alguém acreditará neles…

A Austrália resolveu jogar na segunda-parte e atirou os italianos para a sua menor dimensão. Há coisas - passes, linhas de corrida, ângulos, abertura de linhas, número de jogadores empenhados no jogo no chão, posicionamento para a sequência, etc. - nos movimentos australianos que deveriam levar os formadores a repensar o seu ensino – o futuro anda por ali.

Primeiros jogos, primeiras adaptações a climas, costumes, comidas, na segunda jornada de cada grupo a estória, embora já de dados lançados, vai mostrar-se diferente. Cá ficaremos à espera apesar da dificuldade dos horários - consegue-se aguentar o mês e meio com esta falta de horas de sono?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

PRAG(A)MATISMO DOS CHATOS

“Todos gostam de marcar ensaios e jogar um jogo esteticamente bonito mas do que se trata é de chegar ao fim do dia com a vitória. Ninguém se lembra dos ensaios.”
Dick Muir, treinador adjunto da África do Sul

O desporto de alto rendimento tem no resultado o seu objectivo principal. Mas ganhar com algum estilo não faz mal a ninguém e é a única forma de garantir adeptos fiéis... que pagam bilhetes, assinaturas de TV, compram jornais e se juntam em estádios para aplaudir os seus favoritos. A componente espectáculo - com a incerteza provocada pelo equilíbrio - faz parte do alto rendimento... é por isso que se paga, não para prestar qualquer homenagem.

[Respondi ao inquérito do Portela13 sobre o Campeonato do Mundo aqui ]

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

MUNDIAL 2011

A dois passos da grande festa a agitação cresce no mundo oval. Se o Mundial de 2007 foi um enorme sucesso desportivo para a modalidade, para o Mundial de 2011 existem todas as condições para que o sucesso se repita.

Em relação ao anterior há uma maior aproximação entre os países concorrentes – em 2007 a diferença entre o melhor qualificado no Ranking IRB (Nova Zelândia) e o pior (Namíbia) era de 36,25 correspondente a 109 pontos (Portugal, naquele que foi o resultado mais desnivelado, perdeu com os All Blacks por uma diferença de 85 pontos); enquanto que, para 2011, à mesma diferença entre primeiro e último corresponde uma menor equivalência de 87 pontos. No caso dos oito primeiros qualificados e para a diferença de pontos de ranking, em 2007 correspondia uma equivalência de 34 pontos de jogo enquanto que para este Mundial a mesma diferença de posição no ranking equivale a 24 pontos (menos um ensaio transformado somado a um pontapé de penalidade ou de ressalto.

Dos cinco melhor posicionados no ranking, quatro deverão estar nas meias-finais – a luta decisiva deverá ser entre a França e a Inglaterra nuns previsíveis quartos-de-final de grande competitividade. Tudo isto, claro se a Argentina não ultrapassar a mediania que vem mostrando e se Gales, como prometem, não fizer uma surpresa logo na estreia contra os sul-africanos e se posicionar como candidato.

Do que se viu nos jogos-teste utilizados para preparação – com duas características interessante: a primeira, jogando entre iguais (no rugby as preparações não se fazem com o fundo da tabela para levantar pretensas morais); a segunda, mostrando a resiliência das equipas na tentativa permanente de virar resultados – as duas escolas apresentar-se-ão em força. Falta saber o que conseguirá mostrar a França que, desde há muito, não tem conseguido equilibrar o jogo directo com o movimento, vacilando entre ambos mesmo durante períodos distintos de um mesmo jogo.

Provavelmente as duas recentes derrotas da Nova Zelândia terão sido o melhor que lhe poderia suceder – dados como vencedores inevitáveis, a chamada à razão aconteceu no melhor momento, ainda a tempo das necessárias correcções. A Austrália, vencedora do TriNations, veio afirmar que a procura do terceiro título é muito mais do que uma hipótese e, com aqueles dois médios (Will Genia e Quade Cooper), todo o sonho ganha reais hipóteses. Gales, ao contrário da Irlanda, entra na prova com enorme confiança podendo tornar-se numa surpresa interessante se o tempo de preparação lhe permitiu aumentar a capacidade de jogar dentro da defesa.

A África do Sul e a Inglaterra são equipas poderosíssimas para este tipo de prova. Colocando na capacidade e poder físico dos seus avançados a força de seu jogo, irão procurar o confronto directo no sentido do desgaste do bloco adversário, impedindo assim a multiplicação de fases em movimento dos adversários por falta de apoio.Com o seu jogo ao pé sempre eficaz, conquistarão o terreno necessário para proteger as suas costas e imporão – na insistência do confronto directo – o erro adversário. Como tem acontecido serão e são sempre candidatas à vitória final. Basta, para isso, que nas equipas melhor apetrechadas para o rugby de movimento falhe – pela pressão envolvente de um Mundial – a coragem para assumir o risco que esse modelo impõe.

Ás restantes equipas caberá o desafio de garantir uma vitória que, quer por razões de orgulho que representará, quer pela vantagem de pontos de ranking que proporcionará, será o objectivo maior de quem não pode aspirar a mais altos voos. Mas estes jogos entre equipas equivalentes poderão ser muito interessantes e, alguns deles, para a maior atenção dos internacionais portugueses.

Mês e meio do melhor rugby do mundo… só é pena ser tão longe…

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