quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009




quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

AINDA A DATA DAS ELEIÇÕES

A vinda a público do Presidente da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Rugby (PAG) para explicar a sua escolha da data eleitoral é gesto que se saúda. É um bom princípio. Para além de nos dispensar da informação do “Esclarecimento sobre a convocação de eleições” da autoria do candidato pela oposição que, julgo - por não lhe competir marcar ou convocar mas apenas concorrer - é perfeitamente descabido.
No entanto a Breve nota sobre o fundamento [...] do PAG, fundamenta pouco – até pela confusão que estabelece entre pretensos compromissos de terceiros com pretensas decisões da nova AG – e não muda a opinião que mantenho: a decisão de marcação da data é irresponsável!

Porquê? Porque – desviando as atenções do essencial para o mundo dos pequenos interesses – perturba aquilo que é o objectivo actual mais importante do rugby português: o apuramento para o Mundial da Nova Zelândia. E essa perturbação pode ter consequências graves como é exemplo a imensa perplexidade provocado pela gratuitidade do recurso à frase-assassina“A selecção nacional é um projecto pessoal de Tomaz Morais” – proferida pelo candidato da oposição. O clima está toldado, como seria previsível acontecer. E, claramente, o cumprimento escrupuloso dos deveres que lhe foram confiados que reivindica o PAR, deveria traduzir-se – uma vez que estatutariamente nada o obrigou – no bom senso da marcação das eleições para o final da época. O resto é retórica.

Como é retórica essa estória dos clubes em vias de definhar por uma política de destruição de clubes. O eventual definhamento de clubes – de que vejo apenas a consequência prática de resultados competitivos muito maus – traduz a prática interna de cada um (até há quem definhe cheio de estrangeiros…) e a falta de análise e percepção das causas. Mas a solução não será nunca encontrada com a aplicação da receita do “caranguejo português” – puxar para baixo quem quer subir. A solução estará sempre no questionamento da sua envolvência e participação – tipo/qualidade/existência de formação, qualidade dos treinadores, organização interna, lutas intestinas, objectivos, interesses, etc., etc.

Conhecendo os seus pontos fortes e fracos, estabelecendo uma visão realista das capacidades, percebidas as necessidades, perspectivando caminhos possíveis e estabelecida uma estratégia de concertação, será então altura de apresentar à Federação um plano e uma programação, procurando obter – dentro dos meios disponíveis e dos planos aprovados – os possíveis apoios necessários. E deverá ser assim porque, não sendo os clubes todos iguais, também não há receituário comum – não pertencem ao mesmo mundo clubes que têm atletas que treinam por dia um determinado número de horas e clubes que treinam essas mesmas horas por semana.

Quer dizer que não podemos todos jogar rugby? Não! Quer precisamente dizer que todos podemos jogar – mas ao nível das nossas capacidades e com a maior equidade possível.
Se olharmos para o resto do mundo – aquele mundo que tem cultura desportiva e rugbística desenvolvida – veremos que as diferenças perante distintos objectivos, condições e capacidades, estão definidos: de um lado a elite do alto rendimento; do outro, o conjunto de equipas que se posicionam no rugby de lazer, do jogar por puro entretenimento (o modelo francês, mesmo com enorme área de rugby amador, ao exigir uma massa crítica impossível para nós, é impraticável).

É errado tomar o conceito de clube como um todo homogéneo e ignorar as diferentes expressões desportivas. Deve falar-se de clubes conforme as suas capacidades e perspectivas competitivas. Agrupando-os por afinidades e procurando, cada vez mais, encontrar novas formas de enquadramento de competições diferentes do já gasto modelo actual e que se adequem às realidades associativas. Porque só assim é possível fazer progredir a competição e aumentar o número de praticantes da modalidade. O tudo no mesmo saco da treta demagógica de pretensos direitos e igualdades competitivas, para além de confundir e nivelar negativamente objectivos, impede a procura da excelência.

Lembro de novo: o único compromisso a honrar por um Presidente da Assembleia Geral diz respeito à garantia da correcta aplicação dos estatutos. Actuando sempre que eles estão em causa ou que uma eventual crise grave esteja em vias de desacreditar a modalidade ou a instituição. O resto, também aqui, é retórica.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

ULTRAPASSAR A LINHA DE VANTAGEM

Fui ver o CDUL-Belenenses. Jogo fraquinho com excepção do momento “rugby” do ensaio do CDUL e a excelente atitude, também do CDUL, que garantiu,na vantagem do combate defensivo, a vitória nos últimos minutos. Quanto ao resto, fraco. Jogo pouco dinâmico, defesas a garantir confortavelmente e apenas a sua obrigação, muita bola pelo ar num nexo demonstrativo de incapacidade colectiva de soluções. Enfim, nada entusiasmante.
A editora do Rugby World, Sarah Mockford, escrevia no último número da revista que “a qualidade do rugby actual é baixa e os adeptos começam a afastar-se” e o nosso rugby também não foge a esta regra – com um problema pior: não tendo muitos adeptos, assim não conquista mais; sujeito a enorme concorrência de outros desportos, perdendo os que tem, perder-se-á também enquanto desporto de alto rendimento.
E o mais preocupante de tudo foi, de novo, a demonstração da incompreensão da importância da relação do jogo com a Linha de Vantagem. O que representa uma falha grave na cultura táctica exigível a jogadores da elite interna do rugby português.

Começando pelo princípio. O que é a Linha de Vantagem (LV)? É a linha imaginária paralela às linhas de ensaio e que passa pelo ponto onde a bola está colocada para reinício do jogo ou onde se encontra nos ponto de quebra do movimento. Para que serve a LV? Para definir, como uma espécie de linha de fronteira, os dois territórios pertencentes às equipas em confronto. E que importância tem isso de reconhecer a dimensão dos dois territórios? Sendo o rugby um desporto colectivo de combate organizado para a conquista de terreno, a entrada no território adversário, medida pela ultrapassagem da LV, traduz vantagem e significa a conquista procurada. E que importância tem isso de conseguir vantagem pela conquista de território? Primeiro, coloca-nos territorialmente mais próximo de um importante objectivo do jogo, o ensaio; depois permite-nos desequilibrar a defesa que se vê colocada em inferioridade numérica e a perder qualidade posicional – a sua organização defensiva vê-se confrontada com a totalidade da equipa atacante porque há membros da equipa defensora ultrapassados pelo movimento da bola, encontrando-se assim em posição de difícil intervenção. Mantendo a continuidade do movimento – porque o apoio é mais fácil e a pressão superior – o ataque garante a sua vantagem, explorando a desorganização defensiva.
Portanto, o ataque à LV é uma questão estratégica do jogo de rugby – não é possível marcar ensaios sem conquistar terreno.

Assim sendo, é preciso que a cada conquista de bola corresponda um propósito de ultrapassagem da LV. Que deve ser feito de acordo com a movimentação da defesa e em adaptações sucessivas e pertinentes, começando logo no primeiro momento – é preciso jogar próximo da LV para atacar a defesa, não a deixando adaptar-se ou desdobrar-se.


Jogar como o fizeram as linhas atrasadas do CDUL e Belenenses, longe da LV, passando a bola para o lado sem avançar no terreno, deixando a defesa desmultiplicar-se confortavelmente, pode parecer “muito jogo” mas não difere da regra burocrática clássica: muito movimento para nenhuma produtividade. E a solução para o problema encontra-se logo na colocação do abertura e no seu arranque e na direcção do passe do formação – não é muito inteligente, excepto para jogar ao pé, ter conseguido uma posição no terreno e depois passar a bolas metros para trás para tentar de novo chegar ao ponto de onde já se partiu…E existe uma norma que os campeões reconhecem: há sempre mais espaço do que aquele que parece.

De tudo isto resulta também que a defesa e a sua organização dependem do posicionamento dos adversários – não se sobe da mesma maneira para um ataque em linha ou para um ataque em profundidade. Tão pouco para a cobertura do terreno ou o corte de ligações dos grupos atacantes. Mas no jogo que vi era indiferente para as defesas a forma como os ataques se desenvolviam – por isso as recuperações (turnovers), conseguidos na zona neutra dos equilíbrios defesa/ataque, pouco perigo representaram.


O jogo de rugby é fácil: exige conquista da bola, conquista de terreno para desorganizar a defesa, apoio para continuar o movimento, exercendo a pressão permanente - numérica ou espacial - da vantagem até tão próximo quanto possível da linha de ensaio. Numa também permanente construção activa - da superioridade numérica ou espacial - e não à espera do erro de palmatória do adversário.

O problema do ataque à LV não se reduz, infelizmente, a este jogo. É uma constante negativa do rugby português que obriga a compreender e treinar a noção da relação directa entre o uso da bola e Linha de Vantagem. De outro modo não haverá progresso eficaz.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

SEVENS NOS JOGOS OLÍMPICOS

A entrada do Sevens nos Jogos Olímpicos – primeira presença, Rio de Janeiro 2016 – parece ser uma coisa boa e que merece os nossos aplausos uma vez que, parece também, abre uma oportunidade única para o rugby português. Será?!...

Os Primórdios. As receitas da IRB, ao que julgo, resultam principalmente das transmissões televisivas e outros direitos dos jogos – quase sempre de forma indirecta – realizados entre as equipas qualificadas nos 10 primeiros lugares do ranking mundial – 6 Nações, Tri-Nations e Mundiais, de onde lhe virá o grosso da capacidade financeira. Com essas receitas, a IRB alimenta o rugby mundial, nomeadamente os países emergentes como nós, comparticipando em deslocações, torneios, equipamento ou mesmo apoiando a presença de treinadores.
Acontece que à medida do desenvolvimento competitivo e dos interesses em jogo os fazedores de receita começaram a pretender uma maior participação com a consequente exigência de menor distribuição, assim traduzida: somos nós que fazemos receita, queremos pagar melhor a mais dos nossos jogadores – já no Mundial de França, Portugal não foi contemplado com qualquer prémio de presença, mesmo enchendo estádios…
E aí, os países emergentes – essa longa cauda de pesos mortos que, no entanto, servem para justificar o carácter global da IRB – percebendo a perda dos apoios financeiros decisivos para o seu desenvolvimento, iriam mostrar o seu desagrado. (À parte: nunca percebi, salvo pela notável política de dividir para reinar da IRB, porque é que não se criaram associações de interesse dos pequenos…)
Se melhor o pensaram, melhor o fizeram. Temos o SEVENS (então 7’s) e se o conseguirmos colocar nos Jogos Olímpicos, teremos algo valoroso para oferecer e assim sossegar a eventual irritação dos emergentes. Porquê o Sevens e não o XV, poder-se-á perguntar? A razão é fácil de perceber se tivermos em conta as questões económicas e financeiras: as grandes receitas realizam-se com os jogos de XV e deixar que esse retorno financeiro pudesse ser partilhado com o COI era ideia para NUNCA deixar avançar – daí que as propostas para que nos Jogos houvesse torneios de sub-23 (como foi proposto nomeadamente pelo representante europeu, Raul Martins) fossem enterradas à nascença.
O Sevens parecia ser uma óptima solução: desenrola-se em 2/3 dias, não assustando as organizações olímpicas; mantem as receitas do XV e a sua distribuição sob controlo da IRB; aumenta a visibilidade da modalidade; permite calar o rugby emergente pela doçaria proposta; e não abre qualquer brecha por onde, no futuro, pudessem entrar tentações de levar o XV aos Jogos.
E o problema para os países emergentes de verem os seus governos imporem – deixando o XV entregue a si próprio – apoios apenas para a variante era, na estratégia desenvolvida, um não-problema (serviria até para aumentar a apetência pelo bolo oferecido).

Feita a campanha – um bom trabalho de marketing, diga-se – e convencida a assembleia olímpica, o Sevens é dado como modalidade para os Jogos do Rio de Janeiro de 2016. Tudo ouro sobre azul...

...não fora um erro de avaliação por parte da IRB.

Um erro de avaliação. Tão contentes terão ficado com a descoberta das possibilidades proporcionadas pelo Sevens, olhando tão para si próprios – Sevens é o modelo Mundial, ponto! - que, esquecendo-se que quem manda nos Jogos Olímpicos é o Comité Olímpico Internacional, não souberam medir as consequências de ser também o COI a decidir no rugby olímpico.E decidiu assim e de imediato: fim do Campeonato do Mundo de Sevens e, porque o mundo olímpico é simétrico em género, aceitação de 12 equipas masculinas e 12 femininas – com a distribuição geográfica habitual.
Ou seja, do sonho de uma super prova que permitisse, mesmo no silêncio de um sorriso, o remate lapidar de que mais querem? já têm os Jogos Olímpicos, surgiu uma mão cheia de nada – 1 equipa pelo país organizador, 3 pela Europa e 2 por cada um dos outros continentes – Oceânia, Ásia, América e África. Doze!
E são estes os Jogos Olímpicos de Sevens que se perspectivam.

E Portugal, que caminho? Mesmo se, olimpicamente, as federações britânicas são representadas pela Grã-Bretanha (o que afasta, desde logo, dois adversários) o panorama não é risonho. Porque, tratando-se da variante simplificada de 7, diversos países de grande e superior cultura olímpica, nomeadamente nos desportos colectivos, irão fazer os investimentos necessários para se apresentarem nas provas de apuramento à altura da qualificação, dificultando, em muito e naturalmente, as nossas possibilidades de qualificação. O Sevens não tem a complexidade do XV para estruturar equipas internacionalmente capazes - veja-se o exemplo e a posição do Quénia (40º lugar no ranking de XV) e o primeiro ar de graça que a Rússia mostrou recentemente e que traduz um objectivo programa já em execução.

Presente envenenado?! Habituados como estamos a deixar que seja a sorte dos deuses a decidir e reduzidos à expectativa de um de dois lugares, como definir a estratégia que nos permita ter um mínimo de possibilidades de êxito?
No fundo, a entrada do Sevens para os Jogos Olímpicos não passa, muito provavelmente, de um presente envenenado. Por um lado porque vemos desaparecer o Campeonato do Mundo onde, dado o número de participantes e a relativa importância conferida pelos apoios dos países emergentes, teríamos normalmente lugar e a garantia da visibilidade necessária por boa figura; por outro, porque, tratando-se dos Jogos Olímpicos, existe um aumento de concorrência que a cultura olímpica de diversos países traduzirá, trazendo mais equipas, a curto prazo, para a ribalta da variante.

Neste enquadramento e com as dificuldades de desenvolvimento desportivo generalizado – e portanto também da particularidade rugby – que o país sempre mostrou, não vejo grandes hipóteses de êxito numa aposta em duas frentes. O que significa que, estando nós, portugueses, mais avançados do que outros países europeus – onde a prática de desportos colectivos é mais desenvolvida – numa modalidade mais complexa e onde o acesso ao alto nível se traduz em maiores dificuldades – falo do XV - a Portugal e à sua Federação não se mostra melhor caminho que apostar preferencialmente no rugby de XV e deixar o Sevens como modalidade residual. Porque qualquer tentativa para colocar o Sevens em condições de acesso às Olimpíadas significará, pelo enorme esforço financeiro, organizativo e competitivo, um decréscimo, por exaustão, na qualidade do XV. Porque andaremos atrás de duas a voar em vez de nos contentarmos com uma na mão.

De facto, não penso que o Sevens olímpico seja para nós. E não gostaria de ver o XV a ir cano abaixo...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

SEVENS E XV

O jogo de Sevens – porque, embora essencialmente de passes, permite a placagem, o ruck ou o maul – é um jogo de bola com contacto; o jogo de XV – porque para a criação de desequilíbrios exige avançar no terreno – é um jogo colectivo de combate. No primeiro interessa a posse da bola; no segundo, a conquista de terreno. O primeiro resolve as questões no limite da táctica; o segundo exige o recurso à estratégia.

No Sevens os princípios do jogo exigem manutenção da posse da bola – mesmo que seja preciso recuar. No XV, os princípios do jogo exigem avançar mesmo sem bola.

Para o Sevens são precisos jogadores rápidos, fortes no contacto, capazes no 1x1 e no jogo de passe. No XV são precisos jogadores também tecnicamente capazes no contacto, no passe, mas com superior capacidade de leitura e decisão. E com uma exigência suplementar de jogo ao pé.

A questão da posse da bola versus conquista de terreno, resultando do número de jogadores dentro do campo – 14 contra 30 para uma mesma área – faz toda a diferença e modela o nível de exigências de um e outro caso.


No Sevens o espaço está lá – é uma questão táctica atacá-lo; no XV o espaço precisa de ser criado – é uma questão estratégica saber como fazê-lo (forte contra o fraco, exploração dos momentos decisivos, engano, etc.).

No Sevens os chamados avançados só o são num faz-de-conta de conquista da bola – nas formações ordenadas, sem pressão atrás, um mínimo de técnica permite, a qualquer terceira-linha ou centro capazes, imitar um pilar; com a possibilidade legal de levantar o saltador, qualquer um que seja coordenado pode conquistar a bola nos alinhamentos. No XV, o caso muda de figura e existe um factor decisivo chamado cinco-da-frente constituído por dois pilares, um talonador e dois bases. Sem eles, é impossível ganhar um jogo contra uma equipa decente.

Confundir um jogo com o outro traduz-se sempre na ineficácia ou incapacidade de o jogar.

Tratando-se de jogos diferentes, são jogados por jogadores com características diferentes – só muito raramente, nos tempos de hoje, um jogador pode estar ao mais alto nível em ambos os registos e a tendência será para especializar: cada vez menos bons jogadores de XV serão eficazes no Sevens; cada vez menos jogadores do Sevens estarão confortáveis no XV.

Claro que haverá gestos – aparentemente – comuns: a placagem, o passe, a finta, o pontapé. As aparências de formação ordenada e alinhamento para manter as referências de filiação, continuarão. A maior parte das regras, também. Mas os jogos serão cada vez mais diferentes. E os jogadores também.

Com a entrada da variante para os Jogos Olímpicos fará mais sentido proceder a uma separação organizativa – mesmo mantendo o mesmo tecto federativo – das duas formas de jogo. A questão central que se coloca será a de saber qual a dimensão de desenvolvimento quantitativo que permite a divisão. Ou então a presença na variante será feita através de um único núcleo de 25/30 jogadores que terão a missão de representar Portugal nas diversas provas de Sevens que se forem realizando pelo mundo fora e utilizando o próximo futuro torneio de sub-20 da FIRA-ERA como rampa de lançamento e espaço de definição.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

DO TRIÂNGULO AO QUADRO

A Associação de Rugby do Sul, numa excelente iniciativa, abriu no seu site uma rubrica que designou por A LEI DO MÊS, criando assim um espaço para melhor dar a conhecer as Leis que regem o jogo de Rugby.
A primeira intervenção coube a Tiago Sousa e Silva, Presidente da Associação Nacional de Árbitros de Rugby (ANAR), que escreveu sobre o Triangulo de Ouro, tratando dos três conceitos que reputa de essenciais para a boa arbitragem: SEGURANÇA, EQUIDADE e LEI.

Se o primeiro ponto – garantir a segurança dos jogadores - é decisivo e não coloca qualquer objecção para a sua aceitação, já a interpretação que desenvolve para o segundo apenas pode, como penso, ser aplicada em jogos de pouca ou nenhuma importância competitiva. A equidade que se exige na competição de alto rendimento, longe de ser a maneira de “deixar jogar como os jogadores queriam e sabiam”, só pode significar que se mantém – em qualquer circunstância – a mesma postura e idêntica interpretação para situações similares. Ou seja: que o árbitro actua de forma coerente. Sendo assim e então ”justo para ambas as equipas” como pretende o autor. E todos terão a ganhar: os jogadores, porque conseguem adaptar-se e expressar as suas capacidades; o árbitro, porque, aplicando a linguagem universal das Leis do Jogos, cumpre capazmente o seu papel de 31º elemento e garante a relação competitiva com terceiros; os espectadores, não se sentindo defraudados, divertem-se mais.

As Leis do Jogo constituem o conjunto de normas - o quadro de referência - que define o jogo e o torna singular e como tal têm que ser respeitadas na sua letra e espírito por todos os intervenientes. Lembro de novo a juíza americana do Supremo Tribunal, Sónia Sottomayor, e cito: a tarefa de um juiz não é fazer a Lei, é aplicar a Lei. Aos árbitros, enquanto juízes de campo, compete portanto aplicar as Leis do Jogo de acordo com o seu corpo e a sua articulação com o Código do Rugby. Da forma tão clara e evidente quanto possível.

Portanto, nesta matéria, considero que:
1º - As Leis do Jogo constituem o quadro de referência do jogo de rugby que o torna universalmente compreendido e jogável;
2º - O Código do Rugby, sendo parte integrante das Leis do Jogo, é o instrumento que define o espírito pelo qual a forma das Leis deve ser interpretada;
3º - A Segurança, fazendo parte integrante da prática desportiva em geral e, naturalmente do rugby em particular, tem permanente presença e prevalece em situações que possam pôr em causa a integridade física dos intervenientes;
4º - A Equidade, sendo a base fundamental do juízo e do uso das Leis do Jogo, é o instrumento qualificador da capacidade de arbitrar.

Daí que a minha visão, não se restringindo ao Triangulo de Ouro que TSS propõe, seja um conjunto mais amplo de relações e inserções como procuro traduzir no esquema que apresento.
Seja como for e para que nos entendamos todos: o jogo de rugby é só um, aquele que está definido no corpo das Leis do Jogo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ELEIÇÕES FEDERATIVAS

Li no site da Federação que o Presidente da Assembleia Geral decidiu determinar a convocação de eleições para o dia 8 do próximo mês de Janeiro. Não percebo, não vejo vantagens e ainda não sei a quem poderá interessar. Ao rugby português e aos seus compromissos e objectivos não é com certeza. De facto, definir uma data de eleições para o meio de uma época, em cima do início da temporada internacional onde o rugby português jogará a importância do acesso ao Campeonato do Mundo, não lembra a ninguém. Porque não sendo indiferente a relação com os compromissos que se encontram estabelecidos, mandaria o bom-senso que se considerasse – pela natural agitação que provoca - o momento eleitoral para depois do calendário internacional onde se jogam os principais objectivos competitivos do rugby português.

Não percebo, portanto, porque lembrou tal decisão ao Presidente da Assembleia Geral a quem cabe, fundamentalmente, zelar pelo cumprimento estatutário – não conheço nada que obrigue a eleições imediatas – e, no limite, que seja o garante da inexistência de abusos de poder – que também não conheço. Assim gostaria de ouvir publicamente do senhor Presidente da Assembleia-Geral a explicação, senão a justificação, da sua decisão para que não possa ficar a ideia que terá apenas correspondido a um qualquer interesse e que o seu cargo serve outras finalidades que as da melhoria e desenvolvimento do Rugby português. Fico à espera.

sábado, 12 de dezembro de 2009

NOTAS DO NOVEMBRO INTERNACIONAL

Foi o último, contra Tonga, o melhor jogo de Portugal. Tivemos mais bolas disponíveis, jogamos menos ao pé e colocámos menos profundidade no alinhamento dos três-quartos, embora nos mantivéssemos ainda distantes no momento decisivo de cada passe. E foi o melhor jogo não só porque, sendo o terceiro, já traduziu uma melhor adaptação ao nível internacional, como também pelas alterações realizadas – 1ª linha e médios – que permitiram que a equipa encontrasse uma maior estabilidade, uma capacidade de jogar sobre a Linha de Vantagem, uma maior capacidade atacante de adaptação ao movimento defensivo e uma maior rapidez – o passe de Emmanuel Ribeiro é tenso – no ataque da Linha de Vantagem, dificultando assim a organização defensiva adversária. Eventualmente também terá ajudado a menor pressão num jogo em que o pensamento, lá no fundo, não tinha maior exigência do que a de estar bem. E não estiveram mal, principalmente na primeira-parte, muito embora se possa também dizer que deixaram fugir a vitória.
Mas esta cruz que a necessidade permanente de adaptação ao nível internacional representa, que nos atrasa, que nos faz passar quase sempre ao lado de vitórias possíveis e que é resultante de um campeonato que nada tem de competitivo, tem, naturalmente, custos elevados como a derrota com a Namíbia – impensável face aos resultados de ambas as equipas nos últimos anos (o posicionamento no ranking IRB permitia considerar como normal uma vitória portuguesa por 17 pontos de diferença) – e que, fazendo-nos descer uma posição, nos retirou dos 20 primeiros lugares. O que deveria levar a pensar, de forma objectiva, na reorganização competitiva interna. Sob pena de vermos os outros a avançar e nós a regredir. Cito Malcom Gladwell (Blink!): “A eficácia depende da experiência que se viver em casos semelhantes.”. Ora se assim é, não há eficácia que surja da inexistência de experiência competitiva que o campeonato propicia.

No último jogo houve uma franca melhoria no jogo-ao-pé. Para além da sua menor utilização – o que significa deitar menos bolas fora – comparativamente com a Argentina A (um desperdício de bolas, cf. quadro JOGO AO PÉ DE BOLA NA MÃO), tendo sido feito com mais a-propósito, isto é, com objectivos tácticos evitando-se, desta vez, despachar a bola. Mas falta ainda muito para que o jogo-ao-pé seja de nível internacional – é normalmente curto e cria poucos problemas aos adversários que o recebem de frente e sem obrigação de grandes deslocações da sua zona confortável. Não fazemos, do nosso jogo-ao-pé, uma arma atacante, apenas um refúgio defensivo. Ora esta lacuna, tem naturalmente que ver com a formação – é preciso que aí haja, em todas as idades, treino de pontapé de forma adaptada sob pena de ficarmos à espera que apareçam milagres. Cito Leavitt e Dubner, autores do Freakonomics: “É assim, a prática leva à perfeição.”

A primeira-parte foi muito boa com um ensaio excelente a mostrar qualidades de jogo e movimento colectivo com bola e sem bola (o sucesso da finta-de-passe de Gonçalo Uva só é possível por haver companheiros bem lançados e em boa posição para continuar o movimento para o exterior), com ataque ao intervalo fixando adversários interiores e impedindo o deslizamento defensivo, numa explicação prática do modelo que Tomaz Morais pretende que seja o da selecção.

Pena foi que, na segunda-parte e com a reacção de Tonga trazida dos vestiários, Portugal tenha deixado de representar qualquer perigo – mais do que uma questão física, pareceu tratar-se de uma questão mental: pouca capacidade de reacção à pressão e atitude adversárias… e ganhou a equipa mais resiliente.

Falta pouco tempo para os jogos que qualificarão Portugal para o Mundial e há ainda muito trabalho a fazer. O que significa que as quatro primeiras equipas do campeonato têm, daqui até Fevereiro e nos jogos que vão disputar, de mostrar capacidades diferentes daquelas que lhes temos visto até agora. Porque de outra forma não conseguiremos chegar à Nova Zelândia e o carro que é preciso puxar não é trabalho de uma só junta…

Há erros que são intoleráveis a este nível. Porque as razões que os podem justificar – falhas de concentração, pouco espírito colectivo, desconhecimento ou erro táctico, incapacidade técnica – não são, a este nível, aceitáveis. Vejamos: não é aceitável que um ponta abandone o seu lugar, ainda para mais dentro da sua área de 22, e suba na defesa com a bola ainda sob controlo do abertura contrário. A razão é simples: subindo assim, num momento em que basculação do três-de-trás ainda não pôde ser realizada (defesa e outro ponta não podem ainda deixar o seu espaço de cobertura e partir para as compensações), abre-se, como se abriu, a porta para a colocação da bola no espaço vazio e permitir um ensaio grátis. E que diabo, já toda a gente viu que os aberturas não esperam outra oportunidade. Sabe-se da televisão e dos companheiros do campo.
Houve também falhas de placagem sem sentido, motivadas apenas pela falta de controlo da corrida e com a consequente perda dos apoios. Como se nunca se tivesse aprendido a construção da oposição defensiva. Como se fosse cada um por si.
Também não percebo a falta de apoio nas saídas da terceira-linha: a sequência 8,7,6 não aparece e o losango (com junção do 9), que permite atacar intervalos e passar a bola antes do contacto, não existe. Como também há uma enorme dificuldade em procurar os intervalos por parte dos três-quartos que acabam por bater na parede dos adversários em vez de utilizarem as portas de passagem para o outro lado. O axioma é simples: aquele que desafia a defesa não deve ser o penetrador. O que exige apoio próximo (por isso, como sempre achei, considero que o melhor posicionamento das linhas atrasadas, sendo 4+2 em defesa, deve ser 3+3 em ataque), linhas de corrida diferenciadas, mudança de direcções, num somatório colectivo muito superior à soma das capacidades de cada um. E exige também conquista de terreno (cf. quadro ULTRAPASSAGEM DA LINHA DE VANTAGEM). Porque a criação de fases sem conquista de terreno é como a burocracia: trata da máxima actividade num mínimo de produtividade.

Tudo isto levar a pensar – porque o esforço é grande para resultados pouco eficazes - se não é necessário mais campo, mais treino ao nível da técnica e da táctica. E menos ginásio. Para desenvolver a plasticidade e adaptabilidade da equipa às circunstâncias do movimento da bola e do adversário – que tão bem se viu na jogada que levou ao ensaio que já referi e que constituirá a arma mais poderosa para lutar contra russos e georgianos. E os jogadores têm que reconhecer as suas deficiências e trabalhá-las. Cito José Mourinho: “Um grande pianista não corre à volta do piano ou faz flexões com a ponta dos dedos. Para ser grande, toca piano. Toca a vida inteira. E ser um grande jogador não é correr, fazer flexões ou exercício físico em geral. A melhor maneira de se ser um grande jogador é jogar futebol.” Para o rugby, o mesmo. E como o campeonato não ajuda a jogar grande rugby - atingida a estrutura muscular necessária, botando um mínimo de corpo como se diz popularmente - há que encontrar outras e novas formas de desenvolvimento.

Jogar com Miguel Portela exige adaptações. E atenções. Miguel Portela é, demonstrou-o em campo, uma mais valia para a equipa portuguesa. Lê bem e depressa, corre riscos, cria situações difíceis para os defensores, apoia sempre os companheiros. Muitas vezes surpreende-nos (por isso sempre gostei de contar com ele a terceira-linha ou a ponta – lugares onde dispunha de toda a liberdade para agir, aparecendo onde era inesperado). Ora ele não está na equipa para não fazer aquilo que sabe: surpreender. Por isso, porque as suas capacidades se adequam à criação de desequilíbrios, os seus companheiros – no mínimo dois sempre de plantão - têm que ter uma atenção especial para poderem tirar proveito das situações que consegue criar. Porque elas não podem ser feitas com aviso prévio…e o clássico não é sempre a coisa mais eficaz a fazer. Trata-se aqui também de desenvolver as atitudes que são necessárias à personalização da equipa e ao modelo que, repito, Tomaz Morais definiu como sendo o da selecção.

Após estes três jogos, os dados estão lançados, as decisões tomadas. É necessário trabalho adequado – de que se salienta a absoluta necessidade de constituir e construir um cinco-da-frente capaz - consistente na revisão da matéria e com objectivos bem definidos no que diz respeito à garantia da sua eficiência. Aos jogadores compete a responsabilidade de garantir que a sua preparação se adapta às necessidades de ultrapassarem deficiências técnicas e tácticas. É para isso que serve o treino e a motivação de um jogador internacional não pode ser apenas a de vestir, mais uma vez, a camisola de Portugal.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ZERO-A-ZERO


É provavelmente um resultado único em jogos internacionais de Rugby. Foi um Itália-Portugal jogado em Padova, a 20 de Fevereiro de 1972 e que terminou empatado a zero.
Alinharam: Neto, José Augusto, João Carlos, Silvestre e Andrade; Toni, Gaspar Ramos e Raul Martins (cap.); Minhoto; Francisco Guedes, Nuno Lince e A. Cardoso Pinto; Gomes da Silva, Ramos Pinto e Bessa.
O jogo foi inacreditável. Na primeira jogada, pontapé de saída italiano, a bola - desconhecida, fabrico deles - voou, voou em trajectória estranha, sempre a fugir, e eles em desvairada corrida tipo bulldozer, a derrubar e limpar tudo o que apanhavam pela frente. Quando recebi o passe do Minhoto (era suposto conquistarmos a bola, não!?) estava no fundo da área de ensaio e já debaixo do bafo dos azzurri e dos gritos de um estádio cheio. Se ainda me lembro tivemos logo que preparar substituições – o Toni e o Andrade que se mantiveram em campo mais uns minutos apenas por rugbístico espírito de nobless oblige, deram lugar ao Ramos e ao Tomás Mayer (naquele tempo só havia duas substituições e com aval médico). Escapou da razia o José Augusto que, vendo as modas, se atirou para o chão e ficou-se a senti-los passar por cima. Ao Xico Guedes (abertura) só pedíamos que tentasse chutar as bolas – não havia muitas – para cima da cobertura do estádio para conseguirmos ganhar tempo e respiro. O Raul Martins, dentro da nossa área de ensaio, conseguiu agarrar um italiano com a bola, ficou por baixo dele e não o deixou virar-se para marcar. Épico! Como épicas foram as placagens que valeram tantas quantas as de dois campeonatos inteiros, com o Gaspar Ramos, exemplar, a correr o campo todo atrás de um qualquer portador de bola.

O César Pegado, que era o preparador físico (era assim que dizíamos na altura), montou umas palermices do tipo orquestra-de-instrumentos-vocais-de-sopro a entreter-nos num fungágá de brinde ao excelentíssimo público (fizemo-lo antes da entrada para os balneários) para que não pensássemos no jogo ou no adversário que tínhamos que enfrentar. Foi uma das sortes, com a inconsciência dos inocentes, batemo-nos como nunca e não perdemos – contra as expectativas italianas que nos arrasavam desde os jornais até aos cafés. Mas a outra sorte surgiu já na 2ª parte: estávamos arrasados e os italianos substituíram o formação – o que entrou era da casa, só ouvia aplausos, queria mais, quis brilhar e só fez disparates. Estragou-lhes o jogo e nós sobrevivemos. Azar, azar, só o árbitro, um romeno que roubou alarvemente – o Miramom, seleccionador (o Pedro Cabrita era o treinador) dava urros e murros no ar, ofendido com o desplante.
A noite comemorativa foi também grandiosa – um dia, voltarei a contá-la. O passeio por Veneza do dia seguinte, também.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

DIREITO-BELENENSES

Fraquinho o jogo. Principalmente se tivermos em conta que se tratam de duas equipas (das quatro!) candidatas ao título. E foi tão fraco que ao intervalo o árbitro tinha apenas apitado duas penalidades para cada lado… o que, para um jogo colectivo de combate, dá logo ideia da pouca dinâmica de qualquer das duas equipas. E a ultrapassagem da Linha de Vantagem* também foi mínima – sete vezes para o Direito, duas para o Belenenses. O que demonstra uma fraquinha capacidade de utilização da bola com a consequência irremediável de despacho ao pé sem nexo.
Mas se tudo isto foi mau – para além de erros técnicos que já não são admissíveis neste nível – o que mais me desagradou foi o facto do Belenenses – clube com muito boa formação como mostram as capacidades de jogar das suas equipas mais jovens – se ter apresentado em campo com oito estrangeiros. Com excepção das exigências da primeira-linha - e no actual estádio - não me parece justificável o recurso a tantos não-nacionais num clube que se pretende formador. Confesso que percebo mal a estratégia. Mesmo que estejam jogadores nos Sevens ou lesionados. Não vejo quem possa ganhar com isso – nem o clube, nem o rugby português.

* a marcação da ultrapassagem da Linha de Vantagem é feita pela posição relativa no terreno entre duas interrupções do jogo (tipo futebol-americano). Ou seja, de nada serve – e não contará - ultrapassar a Linha de Vantagem se, quando de nova paragem de jogo, a bola se encontra atrás do ponto de onde partiu.

RUGBY NO FEMININO

A elegância do gesto

sábado, 5 de dezembro de 2009

O MELHOR ENSAIO DE SEMPRE


video

Hoje, 5 de Dezembro, jogam em Londres, num clássico cheio de tradições, os Barbarians e os All-Blacks. Em 1973 - há 36 anos atrás - os Barbarians fizeram o melhor ensaio de sempre - não me canso de o ver. Um praça-a-praça que começa em Phill Bennett e termina em Gareth Edwards com a participação de todo o colectivo. Vale a pena contar o número de passes, perceber como se forma o apoio, contar quantas vezes se forma o losango - esse ADN do rugby de movimento, qual o papel dos jogadores sem bola. Estas imagens são uma homenagem à interpretação dos princípios do jogo, à disponibilidade de participação e à excelência do jogo colectivo que o rugby é. Mas é também a minha homenagem a todos aqueles que conseguem exprimir o rugby de que gosto: o rugby de movimento

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

DECLAN KINDLEY

“O meu papel é relativo. Na verdade, não me lembro de ter feito uma placagem…”
Declan Kidney, irlandês, seleccionador nacional da Irlanda, treinador do ano 2009 da International Rugby Board

O PROBLEMA FO

O treinador dos sul-africanos campeões do mundo,Peter de Villers, diz assim: se os árbitros nos pudessem explicar claramente o que está errado nas nossas formações ordenadas, nós poderíamos trabalhar esse sector e encontrar soluções. Mas se não nos explicarem, nós não saberemos o que fazer.
O treinador all-black,Graham Henry, acrescenta: penso que é preciso reflectir sobre a questão da formação ordenada. Não sabemos exactamente o que é ou não permitido e isto vai de mal a pior.

Jogadores, árbitros e treinadores – e o público em geral, naturalmente - não se entendem sobre as formações ordenadas e sentem-se sujeitos a uma espécie de lotaria que está a inquinar o jogo e o seu espírito. O que é grave e deve levar à exigência de soluções que permitam a construção do resultado de acordo com as capacidades demonstradas pelas equipas e não pela interpretação quase aleatória do árbitro. Algo parece estar mal nesta área do jogo mas um membro do comité executivo da IRB, Mike Miller – sem qualificações técnicas que o permitam – vem dizer ao mundo que está tudo bem e que nada há de errado no jogo.

É o mesmo problema de sempre: alguém sem qualificação fala e rege sobre o que não sabe. O sr. Miller não foge à regra e a IRB, feita máquina financeira, esconde-se numas vagas e lentas preocupações sobre o assunto. Tudo aparenta o melhor dos mundos e as necessárias alterações só vão aparecer quando o jogo estiver já deteriorado. Até lá serão as quedas, possíveis lesões, tempo perdido, espectáculo sem ritmo, maior desinteresse e...maior dificuldade em encontrar jovens disponíveis para a 1ª linha

E a questão resolve-se com uma mera, simples e fácil pergunta: quem é que sabe do que fala? Jogadores, treinadores, árbitros ou o burocrata da IRB? A escolha, de tão óbvia, não oferece dúvidas. Então porque não se calam os burocratas, ouvem o que têm que ouvir e recolhem – sem sofismas ou rodeios - as regras em concordância?

JOGO-TESTE

Vi, com óbvio agrado, que a etiqueta do França-Nova Zelândia na Sport Tv tinha escrito “Jogo-Teste” em vez do erro de “Jogo de Preparação”. Defendendo que a correcta linguagem – manias de treinador – estimula a correcta atitude, esta alteração só ajudará a comunidade rugbística a perceber o significado dos jogos internacionais de rugby: não são a feijões e correspondem a momentos importantes e indispensáveis de avaliação do sistema.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

DO PORTUGAL- ARGENTINA A

Oito dias depois das notáveis demonstrações da importância de uma boa e eficaz formação ordenada - França-África do Sul e Itália-Nova Zelândia - a selecção portuguesa mostrou as suas debilidades neste domínio - impossibilidades genéticas como alguns pretendem fazer crer ou apenas resultado de anos da redutora proibição de empurrar nas camadas jovens de formação?
No final do jogo Daniel Hourcade apontava-me o exemplo de um pilar argentino que passava: É um Puma! Tem já 10 anos de treino de primeira-linha, tem muito trabalho em cima. Ou seja: o tempo como factor crítico decisivo - tinha já os 10 anos que Istvan Balyi, no Long Term Athlete (Player) Development, considera como tempo mínimo necessário para se desenvolver capacidades e atingir o nível máximo; tinha já o tempo que Malcom Gladwell (in Outliers) considera ser necessário para garantir o sucesso especializado.
A questão que se coloca ao nosso cinco-da-frente passa por muito treino específico - já que a inexistente competição interna pouco ajuda. Analisando as duas formações em confronto - a argentina e a portuguesa - detectam-se imediatamente diferenças que vão desde a posição do corpo - mais baixos sempre os jaguares - dos pés e do seu movimento - existem avanços a considerar - da direcção do olhar e da projecção do corpo para o contacto - questão de colocação do centro de gravidade - num conjunto de aspectos que tornam o sistema mais ou menos capaz. Tratando-se de uma das melhores escolas do mundo - inventores da terrível bajadita - ver e rever o vídeo do jogo nas formações ordenadas é - e não apenas para quem participou - uma lição que deve ser analisada e aproveitada.
Sem cinco-da-frente não é possível obter resultados de bom nível. Da sua eficácia nas formações ordenadas resultará, noutras fases do jogo, a capacidade de concentrar adversários para conseguir criar o tempo e o espaço que permitirão que a equipa possa correr e circular a bola. Com estes ou outros jogadores – aqueles que se mostrem capazes - os portugueses, tendo pouco tempo para atingir o nível necessário ao confronto internacional, precisam de descobrir soluções adequadas. Porque sem isso é ilusória a possibilidade de qualificação…

Houve melhorias no posicionamento dos três-quartos. Abandonada que foi a profundidade excessiva e aproximando-se da linha de vantagem, as linhas atrasadas - nas raras vezes em que puderam sair no pé da frente - deixaram indicações que, com maior adaptação ao cara-a-cara e maior rapidez na adequação das linhas de corrida para apoio do portador, compreenderam como podem atacar eficazmente as defesas adversárias. Esta questão da adaptação das linhas de corrida tem uma importância fundamental para ultrapassar as organizações defensivas actuais: é necessária uma percepção colectiva do momento decisivo da oportunidade. O que exige uma leitura atempada da linguagem corporal do portador da bola e a adequada resposta de geometria variável. Ou seja: o apoio, fechando o cone, tem que se aproximar das costas do companheiro, deixando-se aspirar no mesmo corredor e preparando-se para receber a bola em situações de enorme dificuldade técnica – compete aliás ao apoio, garantir a eficácia do passe. E assim a bola, em vez de morrer no chão, manter-se-á viva, prolongando o movimento de desequilíbrio da defesa. Estes momentos, se percebidos e ajustados colectivamente, transformam-se em progressões a que a defesa, desequilibrada, tem enormes dificuldades de resposta. A disponibilidade, organizada colectivamente, de cada um permitirá soluções de acordo com as situações que o movimento da bola suscita possibilitando então um comportamento da equipa objectivo e onde o todo valerá mais do que a soma das suas partes.

Um grande problema continua, no entanto, a ser o jogo-ao-pé. Sem precisão e sem propósito, não é arma ofensiva e torna-se apenas recurso. E assim é muito difícil controlar um jogo. Determinante no jogo contemporâneo, as diversas formas do jogo-ao-pé tem que ser estrategicamente adequadas ao correr do jogo e ao seu movimento. Não as utilizar eficazmente resulta num enorme e arriscado esforço de conquista de terreno.
A rever continua a utilização das bolas recebidas de pontapés adversários. O lançamento dos contra-ataques é defeituoso quer na leitura espacial, quer nos elementos que envolve ou que se disponibilizam. E também na forma previsível como pretendem avançar.

Gostei da passagem de Pedro Leal para defesa (é um típico jogador do três-de-trás onde encontra a liberdade de expressão necessária às suas características) e a entrada de Emmanuel Rebelo para formação - com passe mais rápido, de maior precisão e com hábitos de jogar sob pressão - parece ser a melhor solução actual. A equipa fica mais consistente quer na distribuição quer no jogo - por maior sentido colectivo - à volta das concentrações e aumenta as possibilidades de intercalação e lançamento do contra-ataque.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

JOGO DE PREPARAÇÃO?!

Não gosto daquela mania da SPORT TV de chamar aos jogos internacionais de rugby, Jogos de Preparação. Irrita-me. Porque o conceito nada tem a ver com o rugby e as suas tradições. No Rugby não há jogos de preparação, há jogos-teste. Porquê? Porque ao contrário do que sugere a etiqueta televisiva, o jogo de rugby entre equipas internacionais não serve para preparar o futuro sem consequências; no rugby, o jogo internacional - a ideia de "particular" é outro disparate - serve para avaliar - como exemplifica,aliás, qualquer teste escolar... - a situação de cada equipa num dado momento. Do que pode e não pode, das fraquezas e forças. Avaliação que serve para definir o rumo do trabalho a desenvolver e encontrar o melhor caminho a percorrer para atingir o limite das capacidades de cada equipa. Por isso, cada um destes jogos internacionais - oficializados pela IRB - conta para o ranking mundial. Um ranking escalonado de forma muito rigorosa e onde não é possível galgar posições por vitórias fáceis sobre os mais fracos. Mas que premeia a surpresa da vitória inesperada.
Um jogo de preparação não tem crítica eficaz possível: é para preparar. Num jogo-teste a crítica faz todo o sentido: ajuda a avaliar.
Cada jogo internacional de rugby é um caso sério de competitividade. Um teste às capacidades colectivas e individuais de cada equipa e onde se joga prestígio, colocando-se em jogo a posição adquirida.
Um jogo internacional de rugby não é para preparar coisa alguma, é para avaliar! E o resultado interessa.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

ENSAIO DE PENALIDADE

No final do jogo perguntei, como tinha feito sobre o "caso" de oito dias antes, a Stuart Dickinson sobre a sua justificação para a marcação do ensaio de penalidade contra Portugal: quem empurra 2, 3 metros também empurra o resto ... se ninguém desformar, disse.
É óbvio. A formação portuguesa, empurrada, não resistiu e...desfez-se, fazendo a falta que impediu que um ensaio fosse provavelmente marcado. Ao contrário da formação italiana que nunca conseguiu mover - empurrar - a neozelandesa, a formação portuguesa só em falta conseguiu parar o comboio. Foi ensaio de penalidade marcado com todo o rigor - e não vale a pena, como li, fazer passar a ideia que o árbitro nos prejudicou, usando critérios distintos dos utilizados junto da poderosa Nova Zelândia... Perdemos, ponto! Justificá-lo pelo árbitro, são desculpas de mau pagador. E sem quaisquer vantagens.

JOGOS DOS MIÚDOS

Fui sábado participar na campanha da Escola de Jovens Árbitros. É muito divertido ver os miúdos a jogar - a mim calhou-me os sub-12 - e alguns deles já mostram qualidades interessantes. No entanto notei, para além da dificuldade que é arbitrar, erros - atenção Treinadores e Monitores! - que se não forem corrigidos desde já, travarão qualquer carreira de alto nível. Duas situações, por demais repetidas, chamaram-me particularmente a atenção:
  • o transporte da bola com uma só mão;
  • a procura imediata do chão logo que sentem falta de espaço.

Uma liga com a outra. Transportando a bola numa só mão, a proximidade do contacto torna o passe mais difícil (mesmo havendo apoio) e o portador, para manter a posse da bola, atira-se para o chão - parando o movimento e dando enormes vantagens à defesa (cf. Ir para o chão? Não obrigado!).

A bola é para ser mantida viva e controlada pelo jogo de passes de uns para os outros, avançando no terreno, para aproveitar o mínimo desequilíbrio conseguido sobre a defesa. Desequilibrar a defesa e atirar-se para o chão é um esforço inglório - prejudica o movimento dos companheiros e só leva à recuperação defensiva.

sábado, 21 de novembro de 2009

MIGUEL PORTELA

O Miguel Portela faz de novo parte da Selecção Nacional. O que é bom.

Quem o conhece já adivinhava que a ida à selecção europeia traria de novo à superfície o animal desportivamente competitivo que vive nele. E com ele, a selecção só ganha: porque garante atitude e impõe atitude aos companheiros; porque traz inteligência e saber ao jogo. Porque, lendo mais depressa, adivinhando tempos, criará espaços que surpreenderão adversários.

Portela corresponde à definição de Jorge Valdano para bom jogador: aquele que encontra soluções para os companheiros e cria problemas aos adversários. Mas, acima de tudo, a sua presença demonstra que os responsáveis querem perante a Argentina A, e bem!, uma selecção diferente daquela que jogou contra a Namíbia. Um quinze capaz de utilizar criativamente a posse da bola, que jogue colectivamente, que avance e que deixe a pele em campo na procura do melhor resultado possível. E para isso, o exemplo de Portela é uma certeza.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

FABIEN GALTHIÉ

Cito de Fabien Galthié, francês, médio-de-formação, internacional, capitão da selecção nacional e, agora, treinador: digo sempre aos meus terceira-linhas que o apoio que devem fazer não é mais do que uma corrida: cada um deve, simplesmente, chegar primeiro do que o seu adversário directo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ainda STUART DICKINSON

Das opiniões de Stuart Dickinson ressaltam ainda os seguintes conceitos:
  • o jogo pertence aos jogadores;
  • o árbitro é a trigésima-primeira figura do jogo, não a primeira;
  • as Leis do Jogo são para aplicar mas há momentos em que a lei não se aplica – ou seja, pode haver falta não marcável desde que esta seja irrelevante para a sequência do jogo, atendendo sempre que o essencial do jogo está na criação de tempo e espaço;
  • sempre que há prejuízo de uma equipa, a falta deve e tem que ser marcada;
  • proposta de sequência de avisos: avisar o jogador; aviso chamando o jogador e o seu capitão; cartão amarelo;

A questão central para a qual o árbitro deve garantir – e não ignorar – a aplicação das Leis do Jogo está no conceito de que, havendo prejuízo para uma das equipas, a penalidade correspondente deve ser marcada sem esquecer, obviamente, a aplicação da Lei da Vantagem. A qual – e porque o jogo pertence aos jogadores – deve poder ser recusada pela equipa não infractora (e se o gesto usual é tido por pouco estético (?!) que se defina outro!).

Para que não haja dúvidas sobre os diversos papeis e para que tudo possa melhorar dentro do campo lembro a juíza americana do Supremo Tribunal, Sónia Sottomayor, e cito: a tarefa de um juiz não é fazer a Lei, é aplicar a Lei. A dos árbitros também.

STUART DICKINSON, árbitro internacional

Tive oportunidade, juntamente com diversos árbitros portugueses, de assistir à sessão realizada com o árbitro australiano internacional, Stuart Dickinson. Vindo de arbitrar o Itália-Nova Zelândia e indo arbitrar o Portugal-Argentina A no próximo sábado, Dickinson veio falar-nos sobre a sua experiência de árbitro internacional, da aplicação das Leis do Jogo, da gestão do jogo – firm but fair - e da gestão dos jogadores – tratá-los como gostaria de ser tratado – da compreensão do jogo – o jogo trata da criação de tempo e espaço - do equilíbrio e consistência necessários – erros de julgamento mas não erros de leis - das vantagens de treinar nas sessões de treino dos clubes, da Lei da Vantagem – táctica ou territorial mas não, necessariamente, em simultâneo a que se junta a inteligência necessária para o seu limite temporal. Enfim, um manancial de conceitos, dicas e princípios, num diálogo muito interessante de seguir e com uma certeza: arbitrar um jogo de rugby não é fácil!

Estava curioso por conhecer a sua análise dos últimos dez minutos do Itália/All Blacks onde, pelas minhas notas e nas proximidades da área de ensaio neozelandesa, existiram:


E a pergunta – a mesma do capitão italiano Sérgio Parisse – foi: porque não marcou ensaio de penalidade favorável à Itália? A resposta foi directa: porque não os moveram!

A Itália rugbística inteira queria aquele ensaio, S. Siro queria aquele ensaio. Os jogadores também e bateram-se até ao limite do possível com a frustração final de se sentirem injustiçados. Mas tiveram sempre uma notável compostura - o desportivismo da aceitação, da boa-educação. O árbitro apitou de acordo com a informação que possuía naquele instante, não a das câmaras de televisão, não a do telespectador, não mesmo a de alguns espectadores. Tão pouco a das impressões dos jogadores. Decidiu, ponto!

O árbitro no rugby, como gosto de acentuar, tem sempre razão… mesmo quando erra! E nem sequer tenho a certeza que Stuart Dickinson tenha errado no seu julgamento. Mas sei que a Lei 10.3(b) foi cumprida.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

FIM-DE-SEMANA SOBERBO


Dos doze primeiros classificados do Ranking da IRB, dez jogam este fim-de-semana na Europa. Serão com certeza jogos de grande qualidade entre equipas muito próximas e cujos resultados poderão mexer com o ranking, posicionando as equipas de forma diferente da actual.
De acordo com a distribuição de pontos possíveis o quadro mostra as diferentes hipóteses de posicionamento das equipas conforme os resultados de derrota por menos ou mais de quinze pontos, empate ou vitória também por menos ou mais de quinze pontos.
No primeiro jogo do fim-de-semana a favorita África do Sul (1º-91,96), caso perca com a França (5º-81,48), trocará de lugar com a Nova Zelândia (2º-90,52) que não terá grandes problemas em vencer a Itália (12º-71,23).
A Irlanda (4º-83,27), recebendo a Austrália (3º-85,56) num jogo para qualquer resultado, só troca de posição vencendo por mais de 15 pontos – mas perdendo, pode descer dois lugares. A Inglaterra (8º-80,27) recebe a Argentina (6º-81,29) noutro jogo de difícil prognóstico mas que dará troca de posição com vitória inglesa. Gales (7º-80,38) defronta Samoa (11º-73,48) mas com a diferença pontual existente está obrigado a vencer só ganhando posição no ranking com derrota dos seus adversários pontuais, nomeadamente da Inglaterra. Suficiente para horas de conversa do terceiro-tempo dos aderentes. E no meio de todo este rugby, o Luis Pissarra e o Miguel Portela vão jogar numa selecção europeia comandada pelo Tomaz Morais contra os Barbarians franceses. Bonito.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

IR PARA O CHÃO? NÃO OBRIGADO!

Qual é a primeira preocupação de um defensor em relação ao portador da bola que o desafia? Derrubá-lo!
Porquê? Porque assim, para além de lhe impedir o avanço, abre uma possibilidade de recuperação da bola para a sua equipa.

Portanto: levar o adversário ao chão é um interesse da defesa. Com consequentes vantagens. Assim, deixar-se ir para o chão é um presente oferecido à defesa.

Se é assim, porque é que o portador da bola se deixa ir para o chão sem necessidade, nada fazendo para o contrariar e não recorre às técnicas que o poderiam ajudar a manter a bola viva?

Hábitos da formação ou insuficiente cultura táctica?












Em resumo pode dizer-se:
  1. Ir para o chão na posse da bola é um erro que só favorece a defesa. É uma benesse aos deuses defensivos – permite a reorganização, pára o movimento, cria superioridade numérica - e deve ser um último recurso a utilizar para manter a posse da bola;

  2. A bola deve ser mantida em jogo de passes tanto quanto possível – a melhor forma de desorganizar uma defesa, variando ângulos de corrida e sentidos de passe - e para isso existe uma panóplia de gestos técnicos que permitem, em situação de contacto ou pré-contacto, entregar a bola a um companheiro com espaço: passe-em-carga (off-load); meia-volta contacto (ou o contrário mas já dependente da relação directa de forças); passe-ecrã (screen pass)
  3. A continuidade do movimento do jogo de passes depende da inteligência da leitura do jogo e da capacidade da equipa de construir e organizar o apoio, adaptando-o a cada situação específica – por isso o rugby é o mais colectivo dos jogos de equipa e tem no losango o seu ADN.

  4. A regra de ouro para as equipas com pretensões de jogar rugby expansivo, divertido e eficaz deve então escrever-se assim: manter a bola viva até ao limite do ensaio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

POSSE DA BOLA E TERRENO



A única qualidade que se reconhece à posse da bola por si só é a de impedir que o adversário marque pontos. Mais nada. Ter a bola e não conquistar terreno – ultrapassando a linha de vantagem – não cria dificuldades à defesa, não a desequilibra uma vez que esta – porque os defensores podem agarrar e derrubar, vulgo placar – passa a ter vantagem. Uma equipa para jogar, para correr os riscos inerentes ao ataque, precisa de ter terreno nas suas costas. O que só se consegue, conquistando no terreno. Tão pouco a posse, por si só, aproxima da área de ensaio adversária.

O objectivo de uma sequência é conquistar terreno, a posse da bola é uma consequência. Há jogos todos os dias em que o quinze com maior tempo de posse de bola acaba derrotado. O último foi no sábado: a Inglaterra, cheia de posse de bola, perdeu

domingo, 8 de novembro de 2009

UM SINAL DE ALARME

Portugal, contra a Namíbia, perdeu um jogo que lhe competia ganhar.
A selecção portuguesa apresentou no campo grandes lacunas e nunca foi capaz de mostrar a atitude necessária para vencer. E este terá sido talvez – dado que a Namíbia não é mais do que uma equipa capaz de cumprir aceitavelmente os princípios básicos – o maior problema demonstrado – porque é base de outros - e sobre o qual os jogadores terão que reflectir: o que querem ser? Uns auto-convencidos de grandes jogadores que morrem no campo em usos individualistas ou humildes e competitivos jogadores com a atitude colectiva que pode fazer deles uma equipa ganhadora? Foi com a segunda atitude que chegaram ao Mundial de 2007, não será com a primeira que chegarão ao Mundial de 2011…

Portugal, não saindo da sua “zona confortável”, não correndo quaisquer riscos aceitáveis, deixou que a Namíbia defendesse bem: incapaz de jogar em cima da sua defesa, nunca lhe colocou problemas que a testassem e deixou que os defensores lessem as intenções e se desmultiplicassem, garantindo a superioridade numérica no final da linha. Por isso a linha de vantagem, salvo raríssimas excepções, não foi ultrapassada.

E este é um dos muitos erros que Portugal mostrou ontem que necessita de imediata alteração táctica:

  • é errado pensar-se que para jogar no canal 3 se deve formar em profundidade. Para garantir espaço “à ponta” é necessário “fixar” o meio-campo adversário, obrigando-o a virar a linha de ancas para os seus próprios avançados – “para dentro”, como habitualmente se diz. De outra forma, a defesa consegue ler o movimento com cada um dos seus defensores a controlar visualmente e sem problemas o seu companheiro interior e a poder desmultiplicar-se construindo as sucessivas cortinas defensivas que vão impedindo o avanço eficaz dos atacantes. A regra táctica é simples: para atacar ao largo, as linhas atrasadas têm que jogar mais próximas da linha de vantagem, posicionando-se mais “em linha” – com pouca profundidade – e recebendo a bola já lançados, competindo nomeadamente ao abertura, é mesmo uma exigência de eficácia, lançar a sua linha atacando o passe do formação e recebendo-o tão próximo quanto possível da linha de vantagem. Então sim, a defesa estará fixada e a construção do losango – um apoio de cada lado e outro em profundidade - será decisiva para ultrapassar a defesa contrária.
Aos médios compete gerir o jogo. Ao formação exige-se constância e consistência na procura do espaço livre, ao abertura exige-se a capacidade de ler e jogar de forma a garantir a manutenção desse espaço para a melhor utilização dos seus companheiros – com ainda a obrigação de inventar espaço se ele, aparentemente, não existir. O que exige, ao contrário do que vimos ontem:
  • capacidade de realizar passes rápidos – tirar a bola depressa - dos pontos de quebra do movimento - e cuja primeira responsabilidade diz respeito à técnica de contacto do portador da bola;
  • capacidade de jogar na cara dos defensores para impedir o seu deslizamento – resultado de bolas rápidas nos reagrupamentos ou da preocupação de conquista do intervalo entre linhas;
  • ter um jogo ao pé objectivo – joga-se ao pé para conquistar terreno, chutando para o espaço vazio e criando problemas aos adversários (ontem foi confrangedor o número de pontapés entregues nos braços dos adversários…)
A selecção nacional, julgava, tinha adquirido uma capacidade de utilização da bola nas recuperações que constituía uma eficaz imagem de marca. Por incapacidade do jogo no chão essa capacidade perdeu-se… e urge garanti-la. Com disciplina, concentração e atitude. Tão pouco é admissível que jogadores internacionais com a experiência que os portugueses já têm, cometam erros tácticos elementares como falhar o jogo de passes em situações de superioridade ou ignorar manobras de in/out no final da linha. A sua resolução passa, obviamente, por exigências de concentração competitiva e responsabilidade colectiva.

A solução para estes momentos em que as equipas parecem descrer e decrescer – e a derrota com a Namíbia representa um sinal de alarme – estão, como ensina Jorge Valdano, em procurar a caixa negra e ir às fontes, ou, como lembra Clive Woodward na mnemónica T-Cup do seu Thinking Correctly Under Pressure, imitar os campeões quando as coisas correm mal e voltar às bases para recomeçar.

O colectivo é sempre o mais importante. A equipa não se faz com uma parte à espera da outra parte – a divisão entre forçados e bailarinos não passa de um mito e apenas caracteriza equipas fracas e vulgares. A equipa é um todo que deve valer mais do que a soma das suas partes. Se existem problemas no cinco-da-frente para se impor ou para não se deixar dominar, compete ao resto da equipa encontrar as soluções necessárias para inverter as situações. Físicas, psicológicas, tácticas… Não desistindo! Nunca!

sábado, 7 de novembro de 2009

FINAL DA CURRIE CUP

O jogo da final da Currie Cup entre os Blue Bulls e os Cheetahs foi muito bom. Com uma dinâmica excelente, grandes momentos de combate colectivo e demonstrações de elevada técnica e táctica individuais. Mas principalmente porque aquilo que faziam os jogadores em campo traduziu sempre uma correcta aplicação de princípios básicos do jogo. Assim:

  • preocupação de só passar a bola para companheiros lançados;
  • preocupação de manter a bola viva em situações de contacto, procurando, antes de chegar ao chão, passá-la a um companheiro. E se no chão, libertando a bola de imediato e em condições de manter a sequência do movimento;
  • jogo no chão de acordo com as Leis do Jogo, fazendo muito poucas faltas;
  • o jogo ao pé nunca foi utilizado para “despachar” a bola mas sim para colocar problemas ao adversário e para conquistar terreno. Cada pontapé tinha um propósito claro e ofensivo;
  • a preocupação defensiva foi sempre a de levar o adversário ao chão – ou seja a de o placar;
  • a preocupação permanente de, ao ocupar o território adversário, só admitir a retirada com pontos na bagagem - como aliás recomendava Sun Tzu quando preconizava que um bom exército se alimenta no território inimigo.

Boa vitória do Blue Bulls que soube aproveitar todas as oportunidades que teve sem esquecer que quem tem na sua equipa um jogador do gabarito do Fourie du Preez corre sempre o risco – como diria Mário Wilson – de ganhar qualquer campeonato.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

PORTUGAL-NAMÍBIA

A metodologia do Ranking da International Rugby Board, equilibrada, tendo em atenção a capacidade demonstrada por cada uma das equipas ao longo do tempo e não permitindo vantagens abusivas entre equipas de níveis distintos, define para o jogo Portugal-Namíbia um risco maior para os portugueses – sendo, aliás, o único jogo de risco classificativo desta janela internacional de Novembro.

Colocado no 20º lugar com 62,16 pontos de ranking, Portugal encontra-se melhor colocado que a Namíbia – 25º lugar com 56,60 pontos de ranking. Significa isto que Portugal é favorito. Jogando em casa, o intervalo de avaliação – diferença entre pontuações – sobe de 5,56 para 8,56 pontos de ranking e, consequentemente, faz subir as obrigações desportivas. Nesta situação pode dizer-se que no estrito plano teórico e para que o jogo traduza a realidade classificativa, Portugal deveria vencer por uma diferença de cerca de 17 pontos de jogo (equivalente a uma superioridade sobre o adversário de mais 2 ensaios transformados e um pontapé de penalidade ou de ressalto convertidos).

Ora, este entendimento – que constrói para cada nível de resultado uma quantidade de pontos a trocar entre vencedores e vencidos – leva a que na formulação dos pontos para a classificação do Ranking da IRB, Portugal tenha, do intervalo dos pontos de troca em disputa, uma menor parte no caso da sua provável vitória, recebendo a Namíbia, no caso da sua improvável vitória, cerca de 13 vezes o valor destinado aos portugueses. É o aceno da cenoura para estimular a façanha.



Embora só seja possível uma troca de posição entre os dois países se a Namíbia vencer por mais de quinze pontos de diferença, o resultado do jogo irá ter repercussões na classificação geral e na relação com outros países.

Assim, a vitória da Namíbia dar-lhe-á desde logo a possibilidade de subir 2 lugares e atingir a 23ª posição, ultrapassando Coreia e Chile. Caso a vitória seja por mais de 15 pontos de diferença, a Namíbia subiria para o 21º lugar, ultrapassando ainda Espanha e Portugal.

Vencendo, Portugal manterá a mesma 20ª posição mas, perdendo ou empatando, cederá o lugar ao Uruguai (21º com 61,97 pts.) e, como se viu, perdendo por mais de 15 pontos de diferença, descerá dois lugares passando a ocupar o 22º lugar atrás do Uruguai (20º) e da Namíbia (21º).

Ou seja, num jogo deste tipo, com adversário com posição inferior e menos pontos de ranking e jogando em casa, o risco é todo do melhor classificado. Que fica com a obrigação de ganhar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

PARAR A DEFESA E GANHAR ESPAÇO

Num jogo de fraco nível, Agronomia-Direito, poucas foram as vezes que a Linha de Vantagem foi ultrapassada.
Um dos pouquíssimos momentos interessantes, ainda na primeira parte, foi protagonizado por Miguel Portela que, perfurando a defesa adversária conseguiu criar uma situação em que o ensaio parecia praticamente feito. Depois de ter ultrapassado a primeira cortina defensiva num belo zigue-zague, Portela, tendo um companheiro do lado de fora e muito próximo da linha lateral, teve que manobrar contra uma segunda cortina defensiva e em corrida lateral. No momento que entendeu por adequado, passou a bola e viu o companheiro ser blocado e depois placado por dois adversários. O ensaio foi-se. Porquê?

Ao passar a bola, Portela deu a certeza aos defensores do papel defensivo que teriam de desempenhar e que competiria a cada um: com um deles a cobrir o interior, lançaram-se, sem grandes dúvidas, para cima do receptor do passe. Poderia Portela ter feito outra coisa? Duvidoso: se não desse a bola, morreria com ela ás mãos de uma cada vez mais próxima defesa deslizante.

Portanto a solução eficaz da situação exigia que fosse colocado um problema aos defensores. Impunha-se fazê-los duvidar. Como?

O companheiro de equipa do Portela que se tinha, e bem!, mantido à distância e próximo da linha lateral para “abrir” a defesa deveria ter alterado o ângulo da sua linha de corrida e aproximar-se (IN) do portador da bola, obrigando os defensores em corrida lateral a abrandar pela necessidade de impedir a penetração interior. Recebida a bola e tendo abrandado a defesa, o receptor do passe – batendo o pé - sairia para fora (OUT) para explorar, em velocidade, o espaço então criado. Os defensores, tendo perdido velocidade, pouca possibilidade teriam de o apanhar e o ensaio estaria garantido.

REGRA PRÁTICA: Ataca-se a cortina defensiva lateral correndo na sua direcção. Com dois objectivos em simultâneo:
- Abrandar a corrida dos defensores pela dúvida que se lhes coloca;
- Arranjar espaço no exterior que possa ser explorado, pelo próprio ou por um companheiro, utilizando, se necessário, um cruzamento.
É o velho IN-OUT em funcionamento, domínio táctico de qualquer jogador evoluído.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

FORA-DO-JOGO

Leio na decisão do Conselho Jurisdicional acerca do jogo da final do Campeonato Nacional 2008/2009: “O jogador arguido, que é de grande estatura, atinge o jogador da AEIS Agronomia, que é de estatura substancialmente menor, com agressividade, mas de forma legal, dentro das regras que regem o jogo de rugby.”
Pode esta formatação da decisão ser considerada muito “politicamente correcta” pela aparente preocupação de tentar mostrar argumentos que a sustentem (?!). Mas, mais do que tudo, demonstrando ignorância sobre o jogo e seu enquadramento, está fora-do-jogo.
Nada na estrutura que define e enquadra o jogo de rugby autoriza o recurso às particularidades de cada jogador para estabelecer juízos de legalidade sobre as acções do jogo.
Veja-se:
O Código do Rugby (Playing Charter) que pretende ser um modelo da referência a respeitar por todos aqueles que se relacionam de alguma maneira com o jogo de rugby estabelece no seu capítulo “Os Princípios das Leis do Jogo”, no pontoUm jogo para todos” que: “As Leis do Jogo dão a oportunidade a que jogadores de qualquer estrutura física, […] possam participar no jogo de acordo com as suas capacidades e num ambiente controlado, competitivo e agradável.”
As faltas existem ou não de acordo com o corpo regulamentar constituído pelas Leis do Jogo e pareceres técnicos da IRB enquadradas globalmente pelo Código do Rugby. Chamar à colação outro tipo de argumentação é, para além de pretensioso, mais um passo na retórica da confusão…
… E se os árbitros levassem isto a sério… como apitariam?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Haja luz!


Pouco depois de ter colocado o post sobre a falta de luz no campo de rugby do Jamor, soube que surgiu luz capaz. Claramente não por efeito do post – mas porque assim aconteceu. E agora já há um mínimo de condições para que todos vejam a bola e se vejam dentro do campo – e nós, nas bancadas, vê-los a eles. A partir daqui é com os jogadores.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Jogo da Batalha Medieval


O râguebi é um jogo simples. Tão simples que mais parece um jogo de batalha medieval.

De cada lado do campo, um castelo — a área de validação — com uma torre de menagem — os postes. O objectivo do jogo consiste em conquistar um dos castelos, colocando a bandeira - a bola - no seu pátio interior o que, em termos do jogo, significa marcar um ensaio. Ensaio a que se segue a possibilidade da “transformação” — pontapé colocado — que mais não simboliza do que o bombardeamento da torre para, impossibilitados de manter a ocupação, impedir a sua reutilização pelo derrotado.

Para o desenvolvimento desta batalha, as equipas dispõem das clássicas forças que compõem os exércitos: uma infantaria — o bloco de avançados — uma cavalaria —, os três-quartos —, uma artilharia, formada pelos pontapeadores e uma dupla de estrategos — os dois médios. Como na batalha, à infantaria competirá atacar as linhas defensivas adversárias, desorganizando-as e criando rupturas por onde se possam fazer avanços — as penetrações — que obriguem as defesas a deslocar elementos de outros terrenos para tapar as brechas. Conseguido isto, é altura de lançar, na exploração do sucesso obtido, a cavalaria que, em desfilada, ataca o espaço livre e procura atingir o interior do castelo.

Quando, por boa organização defensiva, a infantaria se mostra incapaz de cumprir a sua missão, compete aos estrategos deste exército recorrer à artilharia — jogo ao pé — para, bombardeando o campo adversário, obrigar ao recuo das suas linhas de defesa.

Ganha esta batalha quem mais vezes conquistar o castelo adversário. O que se consegue através de uma infantaria poderosa, organizada e conquistadora, de uma cavalaria rápida e acutilante e da capacidade dos estrategos de decidirem, em tempo útil, pelas alternâncias de ataque — penetrante, envolvente ou de bombardeamento — que as forças do seu exército proporcionam. No jogo do râguebi, traduz-se assim essa estratégia: “são os avançados que ganham os jogos, restando aos três-quartos afirmar por quantos.”.

Publicado no Público, Lado Aberto, 1995 por ocasião da Taça do Mundo

E a luz?

Fui ver o jogo-treino da Selecção Nacional no Estádio. Bem…ver é uma força de expressão. A luz é tão fraca e tão desequilibrada que o quem é quem? se transforma numa adivinha. Convenhamos: não são condições de treino para uma selecção que é 20ª no ranking mundial e que se prepara para conquistar nova presença numa fase final de um Mundial.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Bola fora ou bola dentro?

Em jogo recente houve muitas dúvidas sobre se a bola, a voar sobre a linha lateral e com jogador a tentar recuperá-la, estaria, ou não, jogável. Mostro a síntese das hipóteses.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

RUGBY, UM JOGO PARA GENTE BEM-EDUCADA



Nós, gente do rugby, gostamos, mostrando o diferente que nos sentimos, de publicitar a definição do jogo no conceito “um jogo de rufias jogado por gente bem-educada” – já não por cavalheiros porque, como também sabemos, os homens não são únicos na modalidade.
E há toda uma profunda razão para o definirmos assim. Desde sempre o jogo de rugby tem uma ética própria subordinada a um conjunto de valores que se estabelecem no seu “Código do Jogo”. De facto, existe toda uma maneira de estar que se pretende diferente e tradutora de uma cultura distinta em que o respeito, o “fair-play”, o espírito colectivo de equipa, o companheirismo, a abnegação, a boa educação constituem algumas das componente de valores e atitudes que formatam a envolvente do jogo.
E assim sendo, é natural que possamos utilizar, com orgulho, a marca da diferença – um amigo meu, médico e frequentador internacional de estádios de futebol, viu, pela primeira vez, um jogo de rugby no França-All Blacks do centenário da FFR: não julgava possível, dizia, a confraternização permanente entre os espectadores adversários que o rodeavam. Espantado, tornou-se adepto.
Mas se pretendemos sê-lo, devemos, no mínimo, parecê-lo. E o que se passa à volta dos nossos campos em dia de jogo não pertence a este mundo idílico que pretendemos transmitir aos de fora. Espectadores, antigos jogadores na sua maioria, insultam árbitros e adversários, chamam nomes a quem bem querem e comportam-se como rufiotes numa constante demonstração arruaceira, deixando - para inglês ver – a proclamação da pretendida boa educação.
O jogo de rugby não é fácil de gerir. Os árbitros, como os jogadores, têm dificuldades na análise da sequência pela rapidez da acção e pelo número de intervenientes. Mas próximos e se pertencentes ao mesmo patamar, vêem melhor e analisam quase sempre melhor. E, na grande maioria dos casos, tomam a decisão correcta e são os espectadores que, ignorantes da Lei, protestam violentamente, impondo a emoção à razão, pressionando para que a sua cor, apesar de faltosa, deixe de ser “roubada!”.
Nada deste comportamento se justifica ou ajuda o rugby português no seu desenvolvimento e progressão. Pelo contrário: desfocaliza jogadores, pressiona treinadores e árbitros de forma desadequada, retira lucidez aos intervenientes e transforma o jogo num espectáculo nada dignificante e que só diminui o campo de influência da modalidade.
Precisamos de melhorar todos os dias o rugby que se joga em Portugal. Para o que necessitamos de melhores treinadores, melhores jogadores, melhores árbitros, melhores dirigentes. Numa vontade que dispensa claramente os piores exemplos da Blood, Sweat and Beers de antanho.
E se, em vez deste comportamento trauliteiro e para começar o novo ano, fizéssemos um esforço para aprender as Leis do Jogo e a sua aplicação prática? Um esforço para que os treinadores fossem exigentes com os seus jogadores, educando-os de acordo com as Leis do Jogo; um esforço dos dirigentes para imporem o rigor das Leis do Jogo nas equipas dos seus clubes e decente comportamento aos seus adeptos; um esforço dos espectadores para que se comportassem como gente bem-educada. E se não há, como também sabemos, jogos sem árbitros e para um futuro com tudo a correr pelo melhor, porque não tentar uma parceria: criar o hábito de convidar os árbitros para se treinarem semanalmente com os diversos clubes.
Talvez assim pudéssemos fazer compreender a marca da nossa diferença: no Rugby, a vitória, sendo importante, não é o mais importante; o mais importante é poder pertencer a uma comunidade muito especial – a comunidade rugbística.
Lisboa, 1 de Janeiro de 2009

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