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segunda-feira, 6 de novembro de 2023

CARTA ABERTA DE CAPITÃ PARA CAPITÃO

Olá Tomás, 

Eu sou a Daniela, capitã da Seleção Nacional Feminina de Rugby XV. Tal como tu, represento um grupo de atletas que nutre uma grande paixão pela nossa modalidade e que, apesar de ter pouca expressão no nosso país, não se deixa desmotivar. Aliás, estou certa de que a motivação poderá ser mesmo a grande impulsionadora de muitos feitos e conquistas, uma vez que ambos sabemos como é difícil ser atleta de Rugby em Portugal, representar o país e ter de gerir de forma exímia os vários papéis que desempenhamos na vida. Já para não falar na gestão e investimento financeiro que nem sempre corre a nosso favor. Ambos sabemos disto, mas talvez existam algumas outras coisas sobre as quais eu precise de te falar.

Há uns dias acordei inundada de partilhas e publicações sobre um podcast onde terias estado. Fui ouvir. De início ao fim. E a verdade é que não posso esconder alguma desilusão e, mais do que isso, incompreensão. Esta carta não pretende ser um pelourinho de castigo. Apenas me voluntario como porta-voz de uma comunidade, cada vez maior, para mostrar o nosso desagrado (sendo que não nos revemos nem nos identificamos com algumas das tuas afirmações) e poder deixar a perspetiva de quem vive e joga rugby no feminino. 

Depois de algumas das tuas palavras é legítimo que os comentários sobre o rugby feminino sejam algo parecido com “É de loucos como elas vão para dentro de um campo no meio de cabeçadas, placagens e com lesões sempre à espreita”. Mas as tuas próprias palavras são também capazes de nos ajudar a explicar algo que nos parece óbvio no meio desportivo, já que “se calhar, para nós, não é assim tão arriscado porque treinamos muito aquilo”. 

A certa altura falavas sobre as diferenças físicas entre a Seleção Portuguesa e outras equipas presentes no Mundial de Rugby. Dizias “Não vamos jogar como se tivéssemos a capacidade física das Fiji, ou da Geórgia...” e continuavas explicando de forma simples o modelo de jogo da seleção. Nesse momento, para mim foi inevitável transportar-me para o panorama feminino e para todos os argumentos que tendem a não validar o rugby para as mulheres: Uma  mulher também não procura jogar como se tivesse a capacidade física ou a estrutura de um homem. Usamos as nossas características e jogamos o nosso rugby. Simples... mas, aparentemente, pouco atrativo. 

Mas o que é que define, na realidade, um jogo atrativo? Um jogo bonito de se ver, que entusiasme, que nos deixe presos ao ecrã e que levante estádios? Certo, mas então o que seria de tantos outros desportos se esta fosse a premissa de encorajamento? E como poderá um desporto crescer e tornar-se atrativo com esta “publicidade”? Difícil de responder talvez... “Mas por outro lado tu pensas, quando chegas a (...) finais e etc, tu queres é ganhar”. E embora joguemos bonito também, nem sempre estamos lá para isso, queremos é ganhar, e nisso posso garantir que somos tão acérrimas e competitivas como vocês. 

Mas não deixamos de ser mulheres, e sendo o rugby um desporto tendencialmente caracterizado como masculino talvez seja preciso uma maior divulgação e incentivo para que mais meninas e mulheres conheçam o rugby e possam elas decidir se gostariam de jogar ou não. Talvez a evolução e crescimento do desporto, no geral, passe por este pequeno detalhe incluviso, tão particular.  

Compreendemos que as questões culturais, no nosso país, também influenciam a visibilidade do rugby. Mas sabemos também que esta é uma modalidade em constante evolução, que se adapta e reinventa, como bem referiste na entrevista. O rugby tem acompanhado os novos tempos e as necessidades dos atletas, por isso, a questão é: queremos mesmo ficar para trás e olhar apenas para o desporto masculino?

A cultura é tudo aquilo que a humanidade acrescenta à natureza, e a natureza do rugby está assente em valores muito convictos. O respeito ajuda-nos a aceitar e ver a diversidade como um acrescento necessário: existirão certamente poucos desportos tão inclusivos como o rugby, onde basta olhar para uma equipa para ver como há lugar para diferentes corpos e habilidades. Não será dificil então perceber que a estrutura feminina pode facilmente adaptar-se à exigência do desporto, como em outra qualquer modalidade. Indo mais longe, talvez faça mais sentido falar em resiliência e paixão, ao invés de masculinidade, quando nos impressionamos com “cabeçadas” e “narizes partidos”. E poderia continuar a listar mais valores, que encaixam tão bem em homens como em mulheres, porque para além do que o “rugby traz ao corpo” é sobre tudo isto que o rugby traz à mente... Mas tenho a certeza que os conheces bem, por isso a minha questão é, porquê? Bem sei que o momento apelava às tuas opiniões, num ambiente descontraído e sincero, mas saberás tão bem quanto eu que enquanto capitães, líderes, representantes de algo maior do que nós, o que dizemos tem impacto e pode gerar consequências. Num momento tão importante para o Rugby, no momento com mais visibilidade dos últimos anos, foram aquelas as melhores considerações que decidiste partilhar sobre o rugby feminino? Numa altura onde todos os holofotes apontam para os Lobos, foi aquele o contributo que quiseste dar ao rugby feminino? Sabemos que foi uma pergunta muito concreta e que, a par disso, na resposta reservavas-te claramente ao direito de dizer o que realmente pensavas, mas sendo tu também atleta deste desporto pouco valorizado por cá, tendo também passado por provações e desafios para jogar e representar o país, esperava um pouco mais. Um pouco mais de empatia por quem ama a mesma modalidade, se sacrifica por ela e que, no fundo, só quer o mesmo que tu: jogar. 

Nunca ninguém vai gostar de ver rugby feminino se nunca tiver tido essa oportunidade ou se nem sequer souber que existe rugby feminino em Portugal. Da mesma forma que ninguém vai querer ver rugby se essa cultura não existir em Portugal, e assim permanecerão as bancadas da DH intervaladas de espectadores. A proporção, as massas, o investimento, o retorno são tudo palavras importantes neste jogo da visibilidade, mas a responsabilidade também é nossa, que somos da casa, que somos do rugby. 

Num país onde sabemos qual é o desporto rei, torna-se inevitável a comparação. Nunca ninguém gostou de futebol feminino, não se conheciam as equipas nem os calendários: “Não é igual”, “Não é atrativo”, “É lento”... No último verão houve quem acordasse mais cedo para ver a Seleção Nacional Feminina de Futebol jogar no Mundial. Ouviram-se fartos elogios e abusou-se da preposição simples “até” antes do verbo “gostei”. Uma abordagem bem analítica para que percebamos com rigor que a aposta e a divulgação fazem crescer. Trazem responsabilidade e compromisso também e, no limite, as atletas tornam-se melhores e os jogos... atrativos. Hoje emitem-se jogos nos canais generalistas e até já se sabe o nome de algumas jogadoras. Porquê? Porque houve interesse e oportunidade.

Não querendo fazer publicidade ao patrocinador oficial que acompanha o futebol feminino, não poderia dar mais razão ao slogan que escolheram: “O Mundo já está a mudar o Mundo”. E o mundo somos nós, Tomás. Sou eu, que jogo rugby há 15 anos e que me dedico à modalidade para deixar um legado para as novas gerações; é a Joana de 14 anos que treina todas as semanas com as seniores sabendo que não vai jogar no fim-de-semana, porque não tem idade, nem no seu escalão porque no clube não existe, mas ela não desiste;  é o irmão que leva os primos e os amigos a experimentar um desporto “diferente”; é o professor que leva uma bola “estranha” para a aula para que todos, rapazes e raparigas, conheçam o rugby; és tu, que podes falar sobre o nosso desporto com câmaras e microfones apontados a saber que te vão ouvir, pensar sobre o que vais dizer e, quem sabe, influenciar alguém. 

Espero, honestamente, que o Mundial tenha sido um bom trampolim, não apenas de sonhos, mas de concretização, mudança e evolução. Espero que, tal como referiste, existam “milhares de miúdos” que comecem a jogar rugby por vossa causa. Mas espero também que as crianças, jovens e famílias consigam ver um bocadinho mais além. Pois acredito que um pai ou uma mãe, depois de ouvir as tuas palavras , dificilmente considere que o rugby poderá ser um bom desporto para os seus filhos, pois em tenra idade as diferenças não são gritantes e o que não será benéfico para uma menina, dificilmente será para um menino também. 

Apesar das dificuldades, e da pequena janela de oportunidades e recrutamento, o rugby feminino vai continuar a lutar pelo seu lugar, que tem vindo a ganhar cada vez mais visibilidade, tanto nacional como internacionalmente. E ambicionamos, sim, percorrer o caminho do rugby masculino, que para nós têm sido uma referência. Mas precisamos de tempo, ajuda, investimento e, sobretudo, uma boa publicidade!

De capitã para capitão, espero que esta carta tenha sido útil para criar, pelo menos, uma reflexão sobre o impacto que as tua palavras poderão ter no desenvolvimento do rugby. 

A todas as meninas e mulheres que queiram experimentar o rugby, a porta está aberta.

Tomás, a ti, fica feito o convite para assistires a mais jogos de rugby feminino.

Daniela Correia

quarta-feira, 15 de junho de 2022

A LUTAR SE GANHA!

Estava-se no último minuto de jogo do Portugal-Geórgia que decidia a passagem às meias-finais da 1ª etapa do Women’s 7S Trophy 2022 com 19-12 favorável às portuguesas. Com uma troca de passes de lado a lado, uma georgiana rompeu a linha de defesa e isolou-se em direcção à área-de-ensaio portuguesa — o empate estava à vista… e o sempre doloroso prolongamento a pouco distância de terreno…
Resiliência, coragem e determinação a construir a vontade de vencer
…mas a Vera Simões não estava pelos ajustes e lutou como pôde para que as forças do braço agarrado à cintura dos calções da adversária não desistissem no arrasto para que, atrasando-a o suficiente, permitisse o tempo necessário para que o grupo mostrasse a solidariedade de uma equipa…

… e o colectivo respondeu com o apoio da Inês Spínola que, embora não evitasse o ensaio, obrigou a que fosse marcado suficientemente longe dos postes para que, mesmo com uma possível chamada dos deuses, a transformação consequente não fosse possível. 
Determinação e atitude dignas de registo numa demonstração final da capacidade, determinação e vontade de vencer colectivas de que deram mostras ao longo do torneio.

Com agradecimento ao Nuno Miranda Coelho

O VII Feminino de Portugal conseguiu um 3º lugar nesta 1ª etapa — com a Mariana Santos a qualificar-se, com 7 ensaios, no 2º lugar das melhores marcadoras — permitindo assimo que uma boa perspectiva para uma qualificação final que permita o acesso à categoria superior da Championship. 
As 5 vitórias em 6 jogos aparenta uma facilidade de percurso que não mostra a qualidade que as 12 jogadoras deram mostras dentro do campo — placaram muito e bem, lutaram pela conquista de terreno com boas subidas defensivas e constantes adaptações ao movimento de companheiras e adversárias. E ainda tiveram a confiança para correr riscos nomeadamente em passes muito próximos de off-loads que, infelizmente, nem todos foram eficazes, criando até algumas situações de grandes dificuldades. Mas, importante, importante, é que os falhanços não as impediram de tentar de novo. Muito bem!
Com mais uma semana de treino conjunto as melhorias dessas capacidades atacantes vão-se mostrar mais eficazes e o VII feminino de Portugal, acredito, não vai parar de nos surpreender e …
… lembremos que o Sevens é uma modalidade olímpica…

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

PORTUGAL-BÉLGICA FEMININO: 2º jogo internacional

 

A selecção feminina portuguesa obteve contra a bem mais experiente Bélgica, um belíssimo resultado, conseguindo conquistar 2 pontos de ranking — o que é muito bom porque não é fácil conseguir tantos pontos num só jogo (contra o Canadá a equipa masculina, apesar da vitória, só obteve 0,20 pts) e subiu 4 lugares — do 53º para o 49º.
Ao vencer um jogo que era suposto, de acordo com o posicionamento do ranking feminino da World Rugby, ser perdido, as rugbistas portuguesas deram uma notável demonstração de capacidade. Para além do mais e apesar da pouca experiência no domínio de XV ainda houve dificuldades, devido à pandemia, para formar a equipa — e por isso mesmo tiveram que jogar sem chutadora. Mas a atitude demonstrada fez o necessário. Aliás esta dificuldade para formar a equipa veio demonstrar que há mais profundidade com qualidade do que se poderia pensar.
A equipa jogou francamente bem e deu uma excelente — e, para muitos, pouco esperada — demonstração de conhecimento do jogo. O movimento da equipa, seguindo colectivamente o movimento da bola e distribuindo-se no terreno de jogo de acordo com as possibilidades da continuidade foi francamente bom quer em defesa, quer em ataque — e a combinação da “dobra” feita no desenvolvimento de jogadas ao largo, foram bem realizadas, no tempo adequado e com muita eficácia. Um gosto de ver — já para não falar na capacidade demonstrada no jogo no chão ou mesmo nos alinhamentos. 
Com este exemplo seria importante não perder o balanço e, para além de mais jogos de XV, uma reorganização das competições internas que permita um salto competitivo que habitue as jogadoras portuguesas ao nível internacional. Esta roeganização não será fácil como fácil não é ampliar o rugby feminino — mas uma boa e muito bem organizada divisão de XV e Sevens pode ajudar a resolver o problema. Elas merecem!
Este jogo contra a Bélgica levantou alguma celeuma porque houve gente que, desconhecendo a realidade da história da modalidade e da sua cultura, ignoraram o conceito de “jogo-teste” e resolveram decidir que este seria o primeiro jogo “oficial” de uma selecção feminina portuguesa  — os “jogos-teste” fazem como sempre fizeram parte da cultura da modalidade e não é necessário que um jogo para ser “oficial”— isto é, que se realize de acordo com as normas competitivas vigentes e veja o seu resultado reflectido na tabela oficial do ranking — esteja integrado em qualquer competição (como aliás aconteceu com os jogos-testes com o Canadá e o Japão). Portanto não era e não foi! O primeiro jogo de uma selecção feminina portuguesa realizou-se em 1995 em Heidelberg contra a Alemanha.
Demonstração:
a) A revista oficial da Federação Portuguesa de Rugby, Rugby Magazine, no seu nº10 datado de Junho de 1995 refere na sua página 3 e sob a chamada “ESTREIA NA ALEMANHA” um título “Selecção feminina não resistiu” onde, no início do artigo, informa que: “A equipa portuguesa feminina denominada “As Lusitanas”, jogou em Heidelberg com a sua congénere alemã, naquele que constituiu o primeiro encontro internacional de Portugal (…)”. Está portanto oficialmente admitido pela FPR da altura como jogo-teste, como, aliás, existem diversos no historial da selecção masculina.
b) E foi um jogo-teste porque assim foi considerado pela International Rugby Board — agora World Rugby — que aplicou as regras do seu ranking da altura e que estabeleciam que qualquer equipa que tivesse realizado um jogo internacional em 1987 receberia 80 pontos e que todas aquelas que o realizassem posteriormente descontariam 2 pontos por cada ano de diferença. E assim, Portugal jogando em 1995, viu ser-lhe atribuídos 64 pontos de ranking [80-(1995-1987)x2=64]. 64 pontos que duraram — mesmo sem qualquer jogo realizado — até Janeiro de 2020 altura em que Portugal ocupava o 13º lugar do ranking e se encontrava colocado à frente de 43 países, nomeadamente da África do Sul, que já tinham efectuado diversos jogos internacionais…No sentido de equilibrar a tabela, a WR, em Novembro de 2020, retirou pontos a Portugal — que desceu assim ao 53º lugar com 34 pontos — estabelecendo a pontuação com que Portugal se apresentou frente à Bélgica. 
Portanto, dois jogos internacionais integrados no Women´s Ranking da World Rugby, atribuindo naturalmente o título de internacional às jogadoras que participaram efectivamente nos dois jogos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

PRIMEIRA SELECÇÃO FEMININA DE XV DE PORTUGAL

 


Agora que se vai jogar o Portugal-Bélgica a contar para o Women’s Trophy 2021/22 mostro, 26 anos depois, a fotografia, com os nomes das pioneiras dos treinadores Henrique Rocha e Vasile Constantin da primeira selecção feminina de Portugal que jogou contra a Alemanha em 15 de Maio de 1995.

Esperemos que desta memória isolada se encontre agora a continuidade necessária da representação nacional feminina.


sexta-feira, 19 de março de 2021

PARIS: GRAND SLAM OU TORNEIO PARA GALES OU ESPERANÇAS FRANCESAS NUMA VITÓRIA FINAL?


O “jogo do fim‑de‑semana” do Torneio das 6 Nações, realiza-se em Paris, no Stade de France, entre a França e o País de Gales. Se Gales, já vencedor da Triple Crown, vencer ou empatar (ou até se perder com ponto de bónus...)  — resultados contrários às probabilidades que os pontos de ranking mostram — conseguirá o seu 5º Grand Slam (2005, 2008, 20012 e 2019) da época 6 Nações (13º desde o início do Torneio).
O principal factor de vantagem galesa — para além da eficácia demonstrada na marcação de ensaios com os 17 já conseguidos — será a experiência da soma das suas 987 internacionalizações (serão mais de 1000 após o início do jogo) a que se junta o facto de catorze dos seus 15 jogadores iniciais terem já vencido um Grand Slam (só para a sua nova descoberta, Louis Rees-Zammit, será uma novidade) a que se acrescenta o facto, com todo o peso que tem dentro do campo, de serem capitaneados por aquele a quem a linguagem rugbista popular considera o novo Príncipe de Gales: Alun Wyn-Jones com a suas 147 selecções por Gales e 9 internacionalizações pelos Lions and British Lions.


E uma de duas: ou o Torneio fica fechado com a vitória ou empate de Gales sobre a França ou, caso os franceses consigam a vitória, ficarão ainda algumas esperanças — embora ténues pela enorme dificuldade de ultrapassar a diferença de pontos (no início do jogo contra galeses será de 9) — de vitória final para o seu último jogo com escoceses.
A disputar neste sábado, 20 de Março, pelas 20h00 portuguesas e a poder ser visto na SportTV5, este França-Gales tem todos os condimentos para ser um grande espectáculo com emoção a rodos.
Outro jogo “muito apertado” desta última jornada — uma vez que a vitória da Escócia sobre a Itália não deverá deixar de acontecer — será o Irlanda-Inglaterra em que os prognósticos fazem vitoriosos, pela margem mínima, os irlandeses.
No Rugby Europe Championship dois jogos cujos resultados interessam a Portugal: Rússia-Geórgia e Roménia-Espanha. No primeiro jogo para os portugueses e para que possam continuar a contar com russos como adversários, interessa a vitória georgiana sem ponto de bónus russos; no segundo jogo  seja de quem fôr a vitória, também interessa a portugueses que não haja pontos de bónus a distribuir. Qualquer destes jogos será visível na Rugby Europe TV.
Na RugbyTV portuguesa poderá ser vista a meia-final do campeonato nacional feminino entre o Sporting Clube de Portugal e o Sport Clube do Porto — duas equipas que conheço bem por ter sido treinador de uma e ser padrinho de outra — que se disputará a partir das 15h00 deste sábado. Um jogo que possibilitará a aferição do nível do rugby feminino português numa altura em que a World Rugby lança programas competitivos de desenvolvimento de Alto Rendimento que permitirão, em três divisões, o apoio e a competição às sete melhores equipas europeias.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

JOGAR COM TREZE NO UNION: UM ESCÂNDALO DE FALSA VANTAGEM

O Rugby League, Rugby de XIII ou, como o designam os franceses, o Treize, joga-se com 13 jogadores, com a mesma bola, num campo igual mais risco menos risco, com postes idênticos, tem marcação de ensaios, tem adiantados, tem formações-ordenadas organizadas em 3-2-1 praticamente sem disputa de bola e tem a diferença de não ter alinhamentos e de se jogar em 6 fases consecutivas de posse. Mas tem placagens, organizações defensivas, combinações de ataque e bastante público interessado nos campeonatos internos da Inglaterra, França, Nova Zelândia ou Austrália.
É uma modalidade profissional desde que nasceu e é, também por isso, um adversário concorrente do Rugby Union ou Rugby de XV, atraindo assistências, jogadores e treinadores. E, naturalmente, patrocinadores e televisões.
O Rugby de XIII nasceu, em 1895 e no Norte da Inglaterra, de uma cisão de classe, entre os aristocratas e os trabalhadores que jogavam nos diversos clubes de então. Os aristocratas, que viviam da renda das suas propriedades, queriam jogar ao sábado; os trabalhadores, que viviam do seu salário, queriam ser ressarcidos do dinheiro perdido pela falta ao trabalho. Que não! que o Rugby é um jogo de amadores e ninguém pode ganhar dinheiro algum por jogar ou ajudar a jogar. E este jogo de brutos jogado por cavalheiros criou o seu cisma: uns para um lado, outros para outro e sem relações ou pontos de contacto. Profissionais uns, amadores outros.
Sem relações mas concorrentes! A um ponto tal que até 1995 — um século depois do nascimento do XIII e quando o XV também permitiu o profissionalismo — qualquer jogador que tivesse estado inscrito nas federações trezistas estava proibido de jogar em qualquer clube da Union. Destes dois mundos à parte de então apenas se alterou o direito de circulação entre ambas as modalidades. Mas mantem-se a concorrência, a distância e as costas voltadas.
Baseada numa ideia peregrina de aproximação ao jogo de XV, em Portugal decidiu-se fazer disputar o Campeonato Nacional Feminino em equipas de 13 jogadoras. Não que se adoptassem as regras do Rugby League - excepto a obrigatoriedade da formação-ordenada organizada em 3-2-1— mas o recurso ao número traduz uma brutal ignorância da história da modalidade e constitui um atentado à sua cultura.
Manda a tradição histórico-cultural: no XV, o 13 não entra excepto na camisola do 2.º centro!
E esta absurda ideia pode ser a adaptação ao XV que se necessita? Não, não pode!

[Aliás e porque penso que o principal objectivo estratégico da Federação Portuguesa de Rugby deve estar centrado na consolidação dos clubes existentes e não na ampliação geográfica da modalidade, tenho naturais dificuldades em entender porque podem as equipas juntar 13 jogadoras e não juntar 15...]

O Sevens jogado no feminino — sendo olímpico deve continuar a ser uma das prioridades — se possibilita a aprendizagem de diversas técnicas, nada prepara em termos de táctica individual para o XV. O Tens, que foi tentado como uma possibilidade de aproximação ao XV, não passa de um Sevens de menos exigência física — mas podia pelo menos permitir uma aproximação ao papel dos asas da 3.ª linha se fosse alterada a regra que obriga os dois jogadores da segunda linha (que prefiro designar por bases) a colocarem a cabeça entre o talonador e pilar e darem os braços um ao outro (ver figura). 
Posições na Formação-ordenada: uma possibilidade de formar terceiras-linhas

Pertencendo ao mundo mítico de que a formação-ordenada (FO) era base fundamental da capacidade das duas equipas em presença, esta regra faz cada vez menos sentido e deveria ser dada a possibilidade de escolha de colocação dos dois bases a cada equipa — o perigo não aumentaria (a exigência da colocação da cabeça dos bases desapareceu das Leis de Jogo mundiais desde as alterações de 2018 mas têm sido mantidas em Portugal)  e seria possível a aprendizagem das linhas-de-corrida e das tomadas tácticas de decisão da 3.ª linha que é, hoje em dia e como se viu no último Mundial, uma das posições mais importantes de uma equipa de XV — basta perceber o papel que se lhes pede nos sistemas actualmente em uso que estruturam o jogo.
Este problema é idêntico à FO em 3-2-1, com exigências regulamentares que também pertencem ao universo mítico passadista da visão de que “os avançados ganham os jogos e os três-quartos dizem por quanto”. Aliás as FO têm decrescido em importância e número por jogo — cada vez mais a média se situa de 12 para baixo. Mas o que não decresce são os breakdowns que ultrapassam a centena por jogo e onde a luta pelo domínio táctico da situação exige diversas decisões dos 3.ª-linhas, quer sejam defensores quer atacantes. O que impõe hábitos das já faladas linhas-de-corrida e de decisões tácticas só possíveis pela prática, em treino e jogo, constante.
Com a distribuição em 6-7 no modelo utilizado no Campeonato Feminino, se é verdade que se permite a aprendizagem — cada vez mais necessária e cuja falta de prática específica derrotou o Sporting na 1.ª Taça Ibérica Feminina — das componentes técnicas e tácticas individuais e colectivas do três-de-trás, nomeadamente no jogo-ao-pé e na construção do contra-ataque, continua a não existir qualquer possibilidade de preparar uma efectiva 3.ª-linha — o nº8 não chega nem tem o especial papel de ataque ao breakdown provocado entre três-quartos e, tampouco, tem a possibilidade de sair da FO com o apoio para multiplicar combinações.
Vamos admitir que não há possibilidade de juntar um mínimo de 15 jogador@s para jogar XV. Como fazer então?
- O jogo a 13, para além de não servir o objectivo da passagem ao XV e sendo uma heresia no seio do mundo da Rugby Union, fica irremediavelmente afastado;
- O Tens, embora não permitindo a aprendizagem dos processos do três-de-trás, já permite o posicionamento — como se pode perceber da actual redacção da alínea c) do ponto 7 das Variações para 10s da Lei 19 — de um asa. E se for derrogada a obrigatoriedade de se agarrarem um ao outro, pode permitir o recurso a dois asas de acordo com as necessidades da equipa em cada momento. A Federação Portuguesa no sentido de proporcionar a formação necessária ao jogo de XV deveria portanto alterar a obrigatoriedade da ligação entre os dois bases para permitir a formação de asas.
Mas existe, caso não seja ultrapassável a passagem directa da variante ao jogo maior, uma outra possibilidade que permite responder a ambas as necessidades: o DOZE.
Formando com 5 avançados pode, desde já e como se vê na leitura da lei actual, fazer o encaixe dos dois bases num dos pilares — colocando assim, num princípio de aprendizagem de linhas de corrida e de tomadas tácticas de decisão, um dos jogadores como asa. Retirando a obrigatoriedade de ligação destes jogadores, a possibilidade de jogar com dois asas ficaria feita, embora ficando sempre sem a possibilidade das combinações de 3.ªlinha. Mas era um avanço na progressão.
A equipa distribui-se então em 5-7, tendo jogadores suficientes nas linhas atrasadas para também introduzir a formação do três-de-trás. Ou seja, é possível, sem heresias e desperdícios, encontrar formas de fazer a transição — se não for possível a passagem directa, repete-se, do Sevens para o XV — com o foco nas necessidades prioritárias do jogo, formando objectivamente os jogador@s para terem acesso eficaz às variantes que verdadeiramente contam no Rugby Union: Sevens e XV.
Jogar com 13 jogador@s, não pertencendo ao léxico do Rugby Union ou de XV, mostra ignorância da História do Jogo e representa uma falta de respeito pela cultura rugbística, constituindo-se como escandaloso abuso e pretenciosismo pela imposição e desrespeito. E assim, pelo que culturalmente transporta, não deve ser mais considerado como recurso competitivo. E a Federação Portuguesa de Rugby não deve mais autorizá-lo.

sábado, 18 de janeiro de 2020

SPORTING FEMININO CAMPEÃO

Foto site FPR
Mostrando uma olímpica superioridade com a obtenção de 8 ensaios para somar um resultado de
50-0, a equipa feminina de Rugby do Sporting conquistou o título de Campeã Nacional, voltando assim conquistar o direito a participar na Taça Ibérica da próxima época onde defenderão o seu título.
O resultado não deixa quaisquer dúvidas sobre a justeza das vencedoras, mas refira-se a excelente atitude das jogadoras da Agrária de Coimbra que, apesar da acumulação do resultado, nunca desistiram e mantiveram uma presença em campo de grande dignidade, valorizando assim a final e o Rugby feminino.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

NÃO HÁ RESULTADOS SEM EXPERIÊNCIA

Foto FPR
A selecção nacional feminina de sevens conseguiu, nos seis jogos disputados da 1.ª etapa do 2019 Women Sevens Trophy Series de Budapeste, quatro vitórias. Mas não ultrapassou o 7.º lugar... Ou seja, mesmo conseguindo uma percentagem de sucesso de 67% a classificação obtida dificilmente permitirá — mesmo com a 2.ª etapa a disputar em Lisboa — a subida ao Womens Grand Prix Series do próximo ano ou o desejado apuramento olímpico que obrigaria, para acesso à qualificação europeia, a garantir o primeiro ou segundo lugares no final deste Trophy Series.

E que lições pode o rugby português retirar deste resultado?

A equipa mostrou boas capacidades, jogando um sevens vertical, atacando a defesa para a concentrar ou utilizar os intervalos com a constante intenção de, no mínimo, ultrapassar a linha de vantagem, mantendo a posse da bola em passes curtos permitidos pela muito atempada convergência do apoio, numa demonstração de bom conhecimento das questões tácticas que se colocam ao jogo. E marcou, numa média superior a 4 por jogo, 25 ensaios! E a equipa, pelo que jogou, não merecia esta classificação de 7.º lugar. Então o que falhou?

Falhou o rugby português que não mostra preocupações efectivas de adaptação ao programa internacional, não dando às jogadoras as necessárias condições de adaptação e experiência.

Em Portugal jogam-se os sevens femininos em torneios de um só dia, o Trophy ou o GPS jogam-se em dois com a agravante de o jogo que acaba por definir o grupo de classificação final — quatro primeiros, de 5.º a 8.º, de 9.º a 12.º — ser o primeiro encontro do segundo dia e que é realizado de manhã. E têm as jogadoras portuguesas hábitos competitivos que lhes permitam encarar este modo de competição com natural à-vontade? Não, não têm! E não há resultados sem adaptação e ajuste às competições que se vão disputar. Tão pouco sem experiência.

Mas, para pioria da situação, há ainda o juntar à competição interna de Sevens uma competição de Tens, essa coisa que não é nem carne, nem peixe e que em nada ajuda ao desenvolvimento competitivo do rugby feminino português — as provas internacionais são de sete ou de quinze, não de dez... De facto, ao reduzir em 300m2 a área por jogadora, transforma-se este Tens num “sevens menos intenso” que, só por ignorância, pode ser dado como preparador do acesso ao “quinze” — porque lhe falta a essência da aproximação a duas unidades essenciais e que se mostram fulcrais no moderno jogo a quinze: a terceira-linha e o três-de-trás.

Portanto dois aspectos se mostram absolutamente de alteração necessária em todo o processo de acesso internacional do rugby feminino português: a adaptação da competição interna, aproximando-a do modelo internacional*, a que se deve juntar a participação em provas externas de dois dias; o acabar com os torneios de Tens pelo menos para as melhores equipas onde jogam as potenciais internacionais portuguesas.

A esta reorganização táctica deve juntar-se uma visão estratégica que permita a adequada preparação para possível acesso às competições marcantes do panorama internacional: campeonatos do mundo e Jogos Olímpicos. 

Assim, a escolha de jogadoras deve ser feita em tempo útil que possibilite a preparação também em tempo útil para os ciclos mundiais e olímpicos, garantindo um tempo disponível para permanência na equipa ajustado e evitando, tanto quanto possível, a transformação por mudanças do núcleo central das equipas em contra-ciclo.

A actual equipa, embora e naturalmente com falta de experiência, mostrou qualidades para uma boa participação internacional. Com o mundial daqui a 2 anos (2022) e o Jogos de Paris em 2024, bom seria que a generalidade dos responsáveis do rugby português mostrassem saber planear atempadamente e com uma eficaz visão de médio prazo o futuro desta selecção feminina.

[* nada impede a realização de torneios internos de dois dias se, por exemplo, apenas se considerar que a presença nos dois dias se destina às 2/3 equipas que constituem a base da selecção nacional enquanto que as restantes equipas seriam divididas por cada um dos dois dias, minorando-se assim a questão da carestia da presença.]

quarta-feira, 12 de junho de 2019

AGRESSÃO SEM CASTIGO


A capitã da equipa nacional de Sevens, Daniela Correia, foi violentamente atingida na cabeça por uma adversária no Portugal-Roménia (7-14) da 1.ª etapa do Sevens Trophy 2019. O embate foi de tal forma violento que provocou fracturas em dois ossos da face da jogadora portuguesa.
De acordo com as instruções actuais a jogador romena deveria ter sido penalizada — e pouco importa para o caso se foi propositado ou negligente (acidental não foi porque a defensora está liberta de qualquer intervenção exterior) — com um cartão vermelho e consequente retirada do jogo. Como é que a árbitro não viu nem, tão pouco, consultou os auxiliares?

Duplamente penalizada foi, portanto, a equipa portuguesa que perdeu a sua capitã para o jogo e resto do torneio e por ter continuado a jogar contra uma equipa completa quando tinham direito à superioridade numérica directa. Vá lá perceber-se...
... e com este erro de palmatória, a Roménia classificou-se em 2.º lugar...

segunda-feira, 10 de junho de 2019

BÁRBARA VALENTE ARBITRA FINAL DO TROPHY DE BUDAPESTE

A árbitro Bárbara Valente, em nova demonstração da qualidade da arbitragem portuguesa, apitou, em Budapeste, a final da 1.ª etapa — disputada entre a Alemanha e a Roménia (20-7) — do Sevens Trophy Feminino 2019.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

SPORTING FEMININO: TRI-CAMPEÃS NUMA ÉPOCA DE SONHO

As TRI-CAMPEÃS de Portugal
A equipa de rugby feminino do Sporting Clube de Portugal fez, sob o comando técnico de Nuno Mourão, uma época extraordinária. Notável mesmo!!! Venceram o Torneio de Abertura, a Supertaça, a Taça de Portugal, a Taça Ibérica, o Nacional de Tens e o Nacional de Sevens apresentando como palmarés dos 38 jogos realizados, 37 vitórias. Uma época extraordinária, repito! De conquista de todos os troféus disputados, com classe e muito bom e inteligente jogar. Numa evidente demonstração de coesão colectiva, o factor-chave do sucesso de uma equipa.
Época que deve ser mostrada, reconhecida, recordada e imitada.
Porque se baseia numa boa organização estratégica e num profundo trabalho técnico e táctico que proporcionou um bom desenvolvimento das características das jogadoras. Jogadoras amadoras que conseguem conciliar e compatibilizar a sua vida estudantil ou profissional, vida de casal ou de mãe com as exigências conseguidas de qualidade do Desporto Rendimento.
O desenvolvimento do rugby feminino em Portugal não é fácil — se já o masculino tem enormes dificuldades, quanto mais o feminino... — e a aposta do Sporting com os resultados demonstrados — quantas equipas saberiam manter-se continuamente no topo com as dificuldades competitivas existentes? — deve ser respeitada e deve haver um esforço federativo no sentido de conseguir uma melhoria qualitativa competitiva. Começando por terminar com a competição de Tens que não representa — como é facilmente demonstrável — nenhuma forma de adaptação ao rugby de XV. O rugby feminino deve assentar nas competições de Sevens e XV e com o objectivo da internacionalização, acompanhando o que se vai passando, pela restante Europa.
Conhecendo como conheço o rugby feminino do Sporting desde os responsáveis directivos e administrativos — Rafael Lucas Pereira, João Tiago Silva e Diogo Pesca —  ao corpo de fisioterapeutas — Rita Maggessi e Elisa Arnould — passando pelo corpo técnico de excelência com o Nuno Mourão, Pedro Leal, André Duarte e Nuno Leitão (com a responsabilidade da condição física da equipa) e um notável grupo de jogadoras capitaneadas pela internacional Isabel Ozório a que se juntam diversas outras — de quem só não refiro o nome, embora os guarde na memória, por serem muitas mas que ficam nomeadas na citação da sua capitã — jogadoras internacionais actuais e outras que o serão a breve prazo, sei que o grupo estará disponível para subir os degraus de um desenvolvimento qualitativo necessário e que urge. E urge por uma razão simples: as adversárias europeias estão cada vez mais organizados e mais competitivas. E se nas anteriores olimpíadas a selecção feminina deu uma muito boa demonstração da sua capacidade competitiva, é preciso garantir que o intervalo às adversárias europeias não aumentará e o exemplo do Sporting feminino deve servir de base às acções e decisões
necessárias.
O desafio do futuro para o Sporting será o de garantir a manutenção competitiva elevada. Desafio que exige um desenvolvimento qualitativo nacional, com maior número de adversárias que possam equilibrar as competições. Porque não há boa competição sem equilibrio.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

PARA AS LEOAS CAMPEÃS IBÉRICAS

Às Campeãs Ibéricas


To Kate and Harono

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O RUGBY FEMININO DO SPORTING CONQUISTA A TAÇA IBÉRICA 2018

foto JPBessa iPhone
Cabe agora, aos actuais e futuros responsáveis federativos, olhar o rugby feminino com outros olhos, definindo objectivos de progresso e internacionalização

Com uma vitória por 26(4E,3T)-8(E,P) sobre a campeã espanhola Olimpico Pozuelo, a equipa feminina de Rugby do Sporting conquistou ontem, em Lisboa, a Taça Ibérica 2018.
O jogo partia de um desequilíbrio evidente: de um lado uma equipa, a portuguesa, habituada apenas aos jogos de Sevens e Tens; do outro a equipa espanhola que joga um campeonato nacional de XV num país onde os contactos internacionais são já uma realidade (9.ª classificada no ranking mundial). Uma diferença entre a descoberta e a experiência.
E como foi possível então a vitória e por números expressivos?
Acima de tudo com trabalho e com entrega. Durante o último mês, quatro treinos semanais foi o compromisso destas amadoras de dias cheios de estudos ou afazeres profissionais e/ou maternais. Pelo meio, um único jogo de XV contra uma selecção regional de Lisboa, formada por jogadoras de outros clubes.
Passar do jogo de Sevens ou Tens para o jogo de XV é muito difícil. Porque não há mais de comum do que as regras gerais e os gestos técnicos básicos. Mas nada é estratégica ou tácticamente idêntico ou sequer parecido. 
No Sevens e Tens o espaço existe, está lá e há que o aproveitar enquanto que no XV o espaço, recorrendo às mais diversas manobras, tem que ser criado para poder ser aproveitado e permitir chegar ao ensaio. E esta diferença entre espaço existente e espaço a criar faz toda a diferença entre os comportamentos colectivos e a sua complexidade síncrona.
E se este aspecto já seria o suficiente para definir realidades diferentes, junte-se o facto do XV exigir - com carácter fundamental - mini-unidades que não existem nas variantes como a terceira-linha e o três-de-trás, para se perceber as dificuldades ultrapassadas pelas capacidades e determinação das jogadoras.
As jogadoras do Sporting, desde logo entusiasmadas com a possibilidade de voltarem a jogar uma Taça Ibérica - disputada pela primeira vez no ano passado nos arredores de Madrid e entre as mesmas duas equipas mas com vitória espanhola por 27-15 - fizeram os esforços necessários à melhor adaptação possível, ultrapassando obstáculos, dúvidas, receios e procurando desenvolver os conceitos colectivos transformadores onde a regra básica para manter livre o espaço criado exige o ataque à defensora directa. E assim, tornando possível que o comprometimento, fixação e concentração das adversárias provocados pela estrutura 2-4-2, tenha a continuidade necessária para explorar os desequlíbrios conseguidos.
No jogo de disputa da Taça Ibérica o Sporting contou com os reforços neozelandeses, ambas Black Fernes, da Kate Matau e Harono Iringa. E naturalmente que estes reforços tiveram importante peso no desenrolar do jogo, possibilitando, com o acompanhamento de Tânia Semedo que se mostrou à altura das suas novas companheiras, uma capacidade de transporte, penetração e manobra do 4-do-meio que criou, como se pretendia, os espaços livres que permitiram a marcação dos ensaios que fizeram a diferença. Mas, clarifique-se, o modelo estrutural de suporte ao movimento utilizado exige uma coerência e sincronização colectivas enorme e permanente e foi a equipa, com a coesão e determinação das suas jogadoras, que impôs a eficácia e permitiu a vitória. 
Toda a estratégia leonina foi montada de forma a proporcionar, imediatamente a seguir à conquista da bola, as manobras necessárias para que as integrantes do 4-do-meio tivessem tempo de ocupar as suas posições no corredor central para, então, atacarem a defesa, concentrando, pelo seu avanço no terreno e transporte de bola, defensoras adversárias e abrindo espaços nos corredores laterais por onde um segundo movimento se pudesse realizar. As combinações seguintes far-se-iam de acordo com a situação – “jogando de acordo com aquilo que têm na frente” – apresentada pela defesa e encadeando, naturalmente, pelo lado mais fraco. O ensaio de Kate - já viral nas redes sociais - só na aparência se mostra como resultado único do seu trabalho individual  porque houve um trabalho anterior de manobra colectiva criador do desequlíbrio que possibilitou o seu “pick and go” e o caminho para o ensaio. E as jogadoras do Sporting tiveram sempre a qualidade demonstrativa de que o rugby é um desporto colectivo. 
O recurso a alinhamentos de cinco jogadoras - embora sendo a forma a que a equipa estava mais habituada pela variante Tens - estava inserida na mesma estratégia geral de manobrar antes de colidir para garantir superioridade territorial e numérica.
À superioridade colectivamente demonstrada nas formações ordenadas - treinadas na máquina e com os jogadores masculinos do CDUL - à rapidez de resolução dos rucks, à articulação na exploração dos desequilíbrios e espaços, a equipa juntou uma capacidade - e quantas vezes coragem - defensiva exemplar. Num verdadeiro espírito de “umas pelas outras” e superando-se permanentemente, as jogadoras sportinguistas mostraram uma notável capacidade de combate e foram defensivamente insuperáveis. Desde as placagens realizadas até à imposição de lentidão nas bolas adversárias. Umas leoas formidáveis a defender o seu território.
A equipa leonina teve momentos de demonstração exímia de qualidades técnico-tácticas em que o todo construído ultrapassou a soma das suas partes, levando assim a situações de superioridade numérica territorial altamente vantajosa - e daí os 4 ensaios marcados.
Ganhar este jogo, conquistar esta Taça Ibérica não foi um acaso. Teve uma preparação exemplar, organizativa, estratégica, táctica, técnica e psicológica com cada um dos envolvidos focados na vitória que queriam e transformaram em possível. Numa demonstração do somatório de competências - o elevado nível de intensidade dos treinos foi uma delas - que devem constituir uma equipa. Mas foram as jogadoras - as 23 da ficha de jogo mais todas aquelas que participaram nos treinos e ajudaram a preparar a equipa - e a sua determinação e exemplo que possibilitaram a convocação global das diversas componentes para o resultado procurado.
A equipa feminina de rugby do Sporting foi uma equipa notável. Uma equipa notável no tempo de treino e preparação, uma equipa notável durante a experiência da aventura de oitenta minutos. Esta vitória com a conquista da Taça Ibérica ficará a representar um marco histórico quer para o clube Sporting Clube de Portugal, quer para o rugby português. Ter participado nele foi um privilégio que agradeço.
As campeãs ibéricas 2018:
Daniela Correia, Thamara Rangel e Josefa Gabriel (E); Leonor Amaral, Francisca Baptista e Isabel Ozório (c) ( 3T); Antónia Braga; Maria Heitor, Catarina Pargana e Sara Saúde (E); Margarida Arriaga e Harono Iringa; Kate Matau (E), Inês Marques (E) e Tânia Semedo.
Suplentes utilizadas:
Filipa Gavinho, Maria Branco, Maria Teixeira, Mariana Sobrinho, Catarina Esaguy, Marcela Máximo, Ana Freire e Constança Serra.

Nota final: Conseguida a vitória a ninguém assiste o direito de afirmar ou tirar conclusões de que o Tens - como esta vitória prova como alguns ignorantes pretenderão - representa o bom caminho para atingir o XV. Não! Não é o bom caminho nem representa qualquer estádio de progressão. O Tens não serve para chegar ao XV como o sabem todas e todos os envolvidos na preparação da equipa do Sporting para esta vitória.

domingo, 18 de novembro de 2018

SPORTING FEMININO VENCE TAÇA DE PORTUGAL DE TENS

Taça de Portugal, Tens, 2018/2019, Sobreda
Foto iPhone JPBessa
Ao vencer o SL Benfica por 31-0, a equipa feminina do Sporting Clube de Portugal venceu a Taça de Portugal na variante de Tens pela terceira vez consecutiva.
Os jogos desta Taça de Portugal de Tens feminino realizaram-se no Campo da Pista de Atletismo da Sobreda, sob chuva, com fraca iluminação e com um árbitro a ter que fazer a grande maioria dos jogos, demonstrando-se, mais uma vez, o pouco cuidado tido pelos responsáveis federativos na organização das competições femininas.
A equipa sportinguista mostrou-se sempre mais forte (ao intervalo já vencia por 17-0 com três ensaios marcados), melhor adaptada às condições meteorológicas, com maior eficácia atacante e uma excelente atitude defensiva.
Uma boa e merecida vitória a abrir boas perspectivas - pese a necessária e difícil adaptação (o Tens não é, de forma alguma, preparatório do jogo de Quinze - falta-lhe a terceira-linha, unidade de três jogadoras e essencial no jogo contemporâneo e falta-lhe ainda o contínuo desgaste do bastante superior tempo de jogo) - para a Taça Ibérica de 16 de Dezembro.

sábado, 8 de setembro de 2018

DE PROPÓSITO NÃO SE FARIA MELHOR

A selecção feminina portuguesa de Sevens, ao classificar-se em 12º e último lugar no final das duas etapas - Marcoussis e Kazan - que compuseram o Europeu de 2018 da variante, desceu à 2ª divisão europeia.

Dir-se-ia que, se fosse propositado, não se faria melhor.

Porque ninguém parece querer saber de uma competição interna capaz e em condições de permitir às jogadoras uma aproximação à exigência internacional.

A equipa portuguesa feminina de Sevens — ao contrário da masculina   lutou até à última pela classificação para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, atingindo o ultimo patamar classificativo ao disputar a Repescagem Olímpica Mundial, em Dublin depois de ter conseguido, em Lisboa, o 3º lugar na Repescagem Europeia através de 4 vitórias nos seis jogos disputados.

Ou seja, a equipa feminina portuguesa de Sevens, não sendo uma equipa de primeiro nível europeu ou mundial, mostrou-se sempre com a qualidade necessária para competir no quadro europeu principal da variante. O gráfico seguinte mostra as classificações obtidas desde 2003, ano em que o Europeu, ainda numa só prova — as etapas múltiplas tiveram início em 2011 — se iniciou.
E não se pense que as dificuldades dos resultados se deviam à pequenez ou leveza - perfil morfológico - das jogadoras nacionais. O quadro seguinte mostra a proximidade dos factores físicos com espanholas ou francesas. Não foi, portanto, por aqui.

Tão pouco pela atitude ou espírito de luta — quem se lembra do seu comportamento na etapa de Lisboa da Repescagem Europeia para o Rio 2016, percebe a que me refiro. Elas são lutadoras e determinadas.
Compacticidade:  distribuição do peso pela altura
As razões são outras e dizem respeito à incompreensão, à ignorância, à irresponsabilidade e á indiferença — os 4Is — de quem manda ou mandou.

Ignorar que a entrada dos Sevens nos Jogos Olímpicos iria transformar a variante é ignorar o domínio mundial do Desporto. Com o anúncio da sua entrada para a área olímpica, diversos países começaram a olhar de forma diferente - principalmente no feminino uma vez que o masculino já tinha assente, com a criação das World Series, a sua competição internacional para o intervalo entre Mundiais — para a variante e o seu desenvolvimento. O que significava que a competição internacional iria subir, como subiu, de nível. Com a certeza da continuidade olímpica, o aumento competitivo de cada torneio, etapa, prova, subiu ainda mais. O que exigia análise e estratégia para atingir um propósito definido e realista como a manutenção na divisão principal europeia com o objectivo, a médio prazo, de conseguir entrada para o circuito mundial.

E que fizemos nós em Portugal para seguir a tendência? Nada para além de aumentarmos erros que retiraram qualquer possibilidade de aproximação à competição internacional por parte das jogadores portuguesas.

É, portanto, esta a razão principal da descida: as jogadoras portuguesas não têm competição interna com o nível necessário à participação internacional. Ou seja, os responsáveis federativos não quiseram saber do cumprimento da sua principal Missão federativa que assenta na promoção das condições internas necessárias ao equilíbrio competitivo internacional d/o/a/s jogador/es/as portugues/e/a/s.

Mas ninguém se preocupou com nada disso. Pelo contrário, aos 5 torneios anuais mais a Super Taça de Sevens juntaram 6 torneios de Tens a que se acrescenta um jogo da Taça de Portugal. Não há aproximação competitiva que resista a um calendário de 5 etapas... para mais se tão desequilibrado que em cada etapa apenas um jogo — no descanso de todos os outros — atingia o nível competitivo com a intensidade necessária num mesmo cenário: uma final Sporting-Benfica.

Por indiferença e ignorância acrescentaram aos Sevens essa aberração que dá pelo nome de Tens e que não passa de um entretém sem qualquer interesse - conheci-o há muitos anos em Hong-Kong jogado por trintões que gostavam de Sevens e que já não podiam, chamando mais três para tapar as lacunas.

A entrada do Tens — que não se percebe a lógica porque o Rugby joga-se Quinze ou Sevens - teve como justificação que seria o bom percurso para atingir o patamar do jogo a quinze. O problema é que não é!

O Tens não serve nem para desenvolver os Sevens nem para proporcionar condições de acesso ao Quinze! Por um lado —Sevens — porque diminui o espaço, reduzindo a área por jogador e diminuindo o intervalo — facilitando a tarefa defensiva — entre os jogadores da linha _ e diminuindo o esforço de cada sequência; por outro — Quinze — porque nada ensina dessa essência do jogo completo que dá pelo nome de 3ª linha — a unidade decisiva da movimentação geral do jogo. E que o Tens não tem nem a Lei deixa ter — as Variações das Leis impõem que a/o/s d/ua/oi/s jogador/as/es da segunda-linha formem nos pilares mas ligados entre si (se ainda pudessem jogar formados na perna exterior de cada pilar... haveria alguns princípios de asas/flanqueadores que podiam ser aprendidos como linhas de corrida atacantes e defensivas, tempo de apoio exterior e interior ou des/co/locação nos corredores externos para apoiar segundos/terceiros tempos. E o Tens não abre lugar a perfis morfológicos diferentes do Sevens e que serão necessários no Quinze. Dito de outra forma: as gordas necessárias e fundamentais à primeira-linha do Quinze também não têm aqui lugar...

Mas de pior, há mais no Tens: possibilitando intervalos maiores do que os que irão ser encontrados no Quinze, permite uma maior facilidade de evasão individual e é menos exigente na formação e na distância do apoio. Ou seja: o Tens não serve! Não serve senão para o espanto de, na passagem para o jogo completo, existirem 3 jogador/as/es que não sabem que tarefa lhes cabe ou outras 3 jogador/as/es que dificilmente adquirem a experiência necessária às formações-ordenadas — o que, para além de mau, é perigoso!

O desenvolvimento do rugby feminino português passa pela criação de etapas de Sevens mais equilibradas e com mais competição — melhores treinos para melhores conhecimentos técnico-tácticos exigem-se — e que possibilitem resultados internacionais atractivos.  

Também por outro lado é preciso colocar o rugby feminino a jogar Quinze, jogando Quinze. Clubes que não consigam juntar as jogadoras necessárias para completar uma equipa de Quinze, jogarão Sevens; os que conseguirem jogarão entre si independentemente do número total de equipas que o consigam.

No actual estado, baixado que foi de divisão, o que se pode fazer para recuperar? Que propósitos definir? Que estratégia estabelecer para voltar à I Divisão Europeia do Rugby Feminino?

No fundo, no fundo, trata-se de responder a isto: como estabelecer condições internas de competição que permitam o desenvolvimento competitivo das jogadoras com o objectivo de igualar internacionalmente competências?

domingo, 4 de março de 2018

SPORTING FEMININO VENCE A TAÇA DE PORTUGAL

iPhone JPB
Com uma bela vitória de 14-12 sobre o SL Benfica, o Sporting Rugby Feminino conquistou a Taça de Portugal em Tens. Num jogo bem disputado e com duas partes distintas - na 1ª parte o domínio territorial pertenceu ao Benfica para, no 2º tempo, ser o Sporting a dominar - onde excelentes placagens, principalmente das sportinguistas, fizeram a demonstração da qualidade do rugby feminino português.
Desta boa demonstração técnica de rugby fica, no entanto, uma enorme dúvida: porque jogam Tens?
Internacionalmente existem campeonatos de Sevens e de XV - o Tens não existe em termos competitivos sérios, não ultrapassando o divertimento. Então para quê jogá-lo? Porque pode ser a passagem do Sevens para o XV como ouço como justificação? Não pode! Pensá-lo é pura ficção.
O Tens é um Sevens com mais jogadores em campo e, portanto, com um esforço físico mais doseado mas é tacticamente a mesma coisa. Ou seja: o Tens - opinião que mantenho desde a primeira vez que o vi em HongKong e já lá vão umas dezenas de anos - é apenas um Sevens para pessoas que já não aguentam a sua intensidade. E acrescentam mais três jogador@s.
Porque não garante qualquer aproximação ao XV? Por uma razão muito simples: não permite a existência da 3ª linha - principalmente dos cada vez mais necessários 6 e 7 - e dificulta a variedade do jogo com ataques pelo lado fechado.
Os Asas e Flanqueadores são uma necessidade maior e característica do XV e exigem uma grande e demorada formação. Porque, com pouco tempo para ler - ao contrário de outras posições - vivem do instinto, do "cheiro", do adivinhar da melhor linha de corrida. Da experiência.
Estes 6 e 7 e as suas linhas de corrida, feitas de inúmeras e sucessivas adaptações de ângulos de corrida na aproximação aos pontos de quebra da continuidade do movimento, são decisivos quer no apoio atacante para tentar que a sua equipa não seja obrigada a passar pelo chão e permitir a reorganização ofensiva, quer no apoio defensivo para recuperar ou para atrasar a reciclagem da bola adversária. E o Tens não ensina ou dá qualquer experiência sobre esta matéria. Depois, quando é preciso esta experiência, nada há que lhe valha.
Se não tivesse definida a regra que impõe a formação d@s "segundas-linhas" com a cabeça entre @ pilar e @ talonador, permitindo que esses jogador@s pudessem formar na perna exterior d@s pilares, ainda vá. Teríamos a exigência de procurar linhas de corrida eficazes. Mas da forma como se tem de jogar não prepara para o XV coisa nenhuma! Em termos de desenvolvimento competitivo constitui uma pura perda de tempo.
E a equipa do Sporting bem sentiu a falta que lhe fez essa experiência na recente Taça Ibérica.
O rugby feminino português deveria - preparando assim da melhor maneira as possibilidades internacionais - ser jogado em Sevens e XV. Coisa aliás que é e pelo que ouvi, a vontade expressa das jogadoras sportinguistas.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

SPORTING CP NA I TAÇA IBÉRICA FEMININA DE RUGBY

A equipa feminina de Rugby do Sporting CP na I Taça Ibérica, Madrid 2017
Pelos inícios de 1500, Duarte Pacheco Pereira, avisava no seu Esmeraldo de Situ Orbis que “a experiência, que é a madre das cousas, nos desengana e de todas as dúvidas nos tira”. E foi apenas este saber de experiência feito que faltou à equipa de rugby feminina do Sporting Clube de Portugal para acrescentar à história de ter participado na disputa da I Taça Ibérica de Rugby Feminino a possibilidade da sua conquista.
Com apenas três jogadoras - a capitã e centro, Isabel Osório, a Nº8, Maria Heitor e a pilar neozelandesa Leilani Perese - com conhecimentos sustentados do jogo de XV, as jogadoras leoninas mostraram uma notável capacidade, pelo pouco tempo de treino dedicado, de adaptação demonstrando duas coisas: que existe capacidade para o desenvolvimento do rugby de XV feminino e que o “Tens” não corresponde a qualquer forma adequada de passagem do “Sevens” para o XV.
Habituadas ao “Sevens” e a alguns jogos de “Tens” - esse mero modelo de “Sevens” fisicamente menos exigente - as jogadoras do Sporting, acusando a falta de hábito nas transformações estratégicas e tácticas que diferenciam o XV das outras variantes, tiveram naturais dificuldades nalgumas áreas de jogo como na defesa do terreno sobre jogo-ao-pé adversário (dois ensaios foram assim sofridos), na continuidade do jogo sem passagem pelo chão (quando o conseguiram a sua conquista territorial foi evidente), nas linhas de corrida defensivas e ofensivas da 3ª linha, na necessidade de retirar rapidamente a bola dos pontos de quebra (nos “Sevens” ou “Tens” a vantagem desta rapidez, pela sobrevalência da “posse”, é relativa) ou ainda na capacidade de recorrer eficazmente ao jogo-ao-pé ofensivo e defensivo quer, no primeiro caso, porque os espaços se apresentam no XV de forma diferente, quer, no defensivo, por falta do comprimento necessário por falta do recorrente hábito - não se passa a época a treinar um gesto técnico de que pouco se necessita...
A equipa feminina do Sporting assentou a estratégia da sua preparação construindo sobre aquilo que melhor sabiam fazer - como exemplo o facto de nos alinhamentos só haver praticamente lançamentos curtos - procurando assim as adaptações necessárias para execuções que pudessem surpreender as adversárias no jogo de XV. Estes propósitos tiveram por base o sistema de organização de 2-4-2 que permitia tirar todo o partido das notáveis capacidades de penetração das pilares Tânia Semedo e Leilani Perese. E assim foi, com a conquista territorial a mostrar-se muito positiva numa continuidade com muitos metros de transporte de bola conseguidos através do movimento de diversas jogadoras que, com recurso ao “passe-em-carga” (off-loads), mantinham o objectivo de avançar e conquistar território. Terá aqui faltado a audácia de menor aceitação da passagem pelo chão ou uma maior rapidez de retirada da bola para tirar todo o partido dos desequilíbrios conseguidos - facto compreensível por se tratar de um risco demasiado elevado para os hábitos competitivos que conhecem…  
Se em relação à defesa as jogadoras leoninas mostraram grande capacidade de eficácia - com placagens de fazer levantar estádios - a participação do Luís Pissarra elevou a fasquia para a adoção do 2x1 defensivo que permitiu até algumas recuperações de bolas que não estariam nas melhores expectativas. Nas formações ordenadas - fase onde poderiam, pela óbvia falta de hábitos, ter maiores problemas - a ajuda dos avançados masculinos do CDUL (que desde logo se mostraram disponíveis) veio possibilitar às avançadas leoninas a oposição adequada aos arranjos necessários para que o colectivo pudesse responder ao maior traquejo das avançadas espanholas. E as respostas no campo e no dia da final foram as melhores.
Perdendo por 4 ensaios contra 3 (2 de Júlia Araújo  e 1 de Lani Perese) nos 27-15 finais, a equipa feminina do Sporting teve um comportamento exemplar numa demonstração de capacidades, vontades e dignidade que possibilitaram uma atitude competitiva de elevado nível - reconhecida aliás pela equipa adversária, seus dirigentes e público espectador presente.
Foi pena, repete-se, não ter sido possivel conquistar a I Taça Ibérica mas é bom lembrar que o Olimpico de Pozuelo é a equipa campeã de um país que, na componente feminina, esteve presente, em Sevens, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e, em XV, nos Mundiais Femininos de 2017. Portanto pertencente a um mundo que nós embora qualificados, por pura obra e graça de um qualquer algoritmo, no 15º lugar do Ranking Feminino da World Rugby com 64,00 pontos, desconhecemos por completo ao não termos qualquer competição feminina de XV e nos limitarmos a fazer de conta que preparamos o futuro.
A minha participação, enquanto Conselheiro Técnico desta equipa liderada por Nuno Mourão, neste grupo de elevado grau de coesão - foi notável a maneira como incluiram a recém-chegada neozelandesa e Maori, Lani Perese, aceitando que fosse ela a fazer, na sua língua natal, os votos de Acção de Graças antes das refeições - foi muito interessante e, naturalmente, obrigou-me - para garantir o cumprimento do conceito de que “a estratégia pode apresentar-se como brilhante mas é a sua execução que a define” - a voltar às acções de campo com tudo o que elas têm de demonstração do acerto e da eficácia. Foram uns dias muito agradáveis junto a um grupo de jogadoras muito interessadas e empenhadas em garantir a boa imagem da camisola que envergam. Uma experiência que ficará na memória e que a medalha que me ofereceram não deixará esquecer.   

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