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quinta-feira, 14 de março de 2024

DUAS SURPRESAS, UM DESASTRE E A EXPECTATIVA DO CRUNCH

Nesta 4ª Jornada do 6Nações 2024, duas surpresas e um desastre. A maior surpresa terá sido a vitória da Itália — a primeira italiana em casa nos 6 Nações em 11anos — sobre a Escócia numa boa sequência de resultados que indiciam uma melhoria de capacidades a aproximar-se dos 5 poderosos — em Sub-20 a Itália venceu a França em Béziers (23/20) e a Escócia em Treviso (47/14) e no 6Nações deste ano empatou com a França (13/13). Com este resultado a Itália entrou para o grupo das 10 primeiras do World Ranking. 

Outra das surpresas foi a inesperada vitória da Inglaterra sobre a Irlanda — as apostas eram todas no sentido contrário até com comentários do tipo “só se os irlandeses jogarem com 13 jogadores”. Interessante foi o facto de, finalmente!, a selecção inglesa aparecer a jogar um rugby mais solto e menos clássico — chutou em movimento 23 vezes contra uma habitual média de mais de 30 — de acordo, aliás com o que temos visto realizar as suas melhores equipas de clube. E Ford, de novo com um pontapé-de-ressalto, garantiu sobre o final a vitória inglesa pela diferença de 1 ponto.

O desastre pertenceu a Gales que, em Cardiff, só conseguiu resistir aos três primeiros quartos do jogo — encontrava-se a vencer por 24-23 aos 60’… O estoiro físico no último-quarto imposto pelo fortíssimo bloco-avançado francês permitiu ampliar a diferença com a marcação de 22 pontos. Embora, enquanto teve capacidade física, Gales tivesse mostrado momentos interessantes, a crise do rugby galês pós-pandemia, é uma forte evidência. Esperemos que haja breve recuperação organizativa e competitiva.

Como curiosidade do equilíbrio entre as 6 equipas, nesta jornada, qualquer delas teve — naquilo que é cada vez mais a chave do sucesso — mais de 50% de rucks resolvidos em 3 ou menos segundos, mostrando uma nítida melhoria no conceito táctico do contacto e na disponibilização da bola quando obrigados a ir ao chão. E assim o jogo ganha uma maior velocidade com elevados níveis de intensidade. O que só melhora o espectáculo.

Se a França, com a vitória conseguida também mostrou alterações estratégicas — o desapossessamento já não parece ser a prioridade de Galthié — e compositivas — a entrada de Depoortere e Le Garrec abriram novas oportunidades ao jogo francês e muito se conta da sua parte para embaraçar o super-agressivo sistema defensivo inglês procurando a alternância de espaços-livres com a circulação da bola na esperança de que haja, na rush-defence inglesa, um atraso que permita explorar o buraco da perna-de-cão. E será mais um crunch a marcar a rivalidade exacerbada dos dois lados da Mancha e que faz os adeptos dos dois lados passarem esta semana anterior ao Inglaterra-França nas mais diversas congeminações técnico-tácticas através das redes sociais repletas dos mais diversos comentários de treinadores de bancada. Mas lê-los é, para além do interessante confronto de opiniões, uma forma, às vezes surpreendente, de conhecer novas visões do que se possa vir a passar.

Ver o comportamento da Itália em Cardiff será  também interessante — Gales precisa da vitória com ponto de bónus neste jogo para fugir à colher-de-pau (“prémio” para o último classificado) e para ganhar alento na reformulação que está fazendo na sua equipa. A Itália — que venceu em Cardiff na última vez que lá jogou — quererá demonstrar, num jogo de difícil desequílibrio, que já tem direito a ser olhada com o respeito que os últimos resultados lhe permitem exigir. E como uma vitória, ainda por cima se aumentada por um bom resultado nos Sub-20, lhe aumentará a exigência… 

Em Dublin, a Irlanda, mesmo depois da derrota, estará a criar as melhores condições para vencer a Escócia e vencer assim o Torneio das 6Nações de 2024. 

Curiosamente, com estas defesas de subida muito rápida principalmente motivadas para evitar as consequências da rapidez de reciclagem das bolas dos rucks, pede-se por todo o lado que os árbitros estejam atentos ao fora-de-jogo defensivo bem como às entradas laterais dos defensores para atrasar a saída da bola nos reagrupamentos, motivadas pela conquista de terreno dos transportadores antes da sua ida ao chão.

Teremos, tanto quanto parece, belos e equilibrados jogos, neste fim-de-semana em que, domingo, também os nossos Lobos jogarão a final do European Championship contra a Geórgia.


 

sexta-feira, 8 de março de 2024

6 NAÇÕES COM VENCEDOR?


 Esta 4ª Jornada do 6 Nações 2024 pode definir desde já o vencedor final desde que a Irlanda, não perca o seu jogo contra a Inglaterra em Twickenham. Caso a vitória seja inglesa e como a Escócia não deve perder com a Itália teremos a definição na última jornada.

Nesta jornada os prováveis vencedores são as equipas visitante, havendo até piadas do tipo:”Para que a Inglaterra ganhe é preciso que a Irlanda jogue com 14 ou 13 jogadores…” E se a relação vitórias/derrotas passadas indicar tendências ver-se-á que o jogo mais equilibrado será o Inglaterra-Irlanda embora no fundo as previsões da diferença são praticamente iguais e ficam-se pelos 8/9 pontos.

Mas pode também acontecer que o jovem e em reformulação XV de Gales, jogando em frente ao seu sempre muito caloroso e apoiante público, faça uma surpresa. O cantar inicial do The Land Of My Fathers, dará logo o mote do estado de espírito da ligação bancadas/relvado.

Mais uma vez teremos oportunidade de ver o excelente domínio do jogo, das suas técnicas e das suas tácticas, da Irlanda. E mostrarão o adequado posicionamento da bola nas idas ao contacto com chegadas ao chão com a bola colocada de tal maneira que permite tempos de excelência na sua reciclagem, garantindo a continuidade de exploração do desequilíbrio anterior conseguido. Depois serão as linhas de corrida com a variação das convergências e divergências, dobras para abrir intervalos, passes fora e dentro, tudo a obrigar sempre a defesa a reagir para se adaptar a novas situações que enfrentam. A esta capacidade de ataque à linha-de-vantagem juntam também um jogo-ao-pé de grande consitência a permitir uma boa ocupação de terreno. Enfim, é sempre uma delícia ver estes irlandeses a jogar que se conhecem suficientemente bem — 10, do quinze inicial, jogam no Leinster — para garantirem a coesão necessãria ao sucesso.

Com os melhores jogos a serem jogados em dias diferentes, o fim‑de‑semana do rugby internacional visível pela televisão vai ser uma óptimo tempo de sofá.


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

A ITÁLIA QUASE, QUASE



O resultado do fim‑de‑semana foi da Itália que, empatada e no último momento da partida, viu  um pontapé de penalidade a bater no poste e a retorar-lhe uma surprenedente vitória. Com 14 jogadores, vermelho a Danty, durante toda a 2ª parte, a França a ganhar por 10-3 ao intervalo não teve forças suficientes — para além de um enorme tempo de reciclagem da bola — para asssegurar a vitória. E ao perder os pontos da vitória perdeu também a possibilidade de vencer o Torneio enquanto que a Itália, com os pontos ganhos por um empate em casa do adversário, voltou aos 10 lugares — 10ª posição actual — do ranking mundial.

Vitória que não deve fugir à Irlanda que, de novo deu uma notável lição de rugby-de-movimento — é formidável a técnica utilizada pelos seus jogadores sempre que se aproximam de uma colisão preparando a sequência e garantindo os meljores tempos d ereciclagem de qualquer das equipas adversárias. E o segredo é esse: ter a garntia de que a bola está disponível mal tocam no chão — treino, treino, muito treino, técnico na forma de transportar a bola e na posição do corpo para a colisão, táctico para a melhor escolha sobre o momentâneo fraco do adversário. Treino, treino, muito treino.
Gales com uma equipa muito jovem e inexperiente bem tentou ultrapassar as dificuldades que os irlandeses lhe colocavam — fizeram 194 placagens (81% de sucesso) e ainda obrigaram os irlandeses a fazer 192 mas com 92% de sucesso. Mas com apenas 47 ultrapassagens da linha-de-vantagem para apenas 1 ruptura contra 85 irlandesas para 12 rupturas o destino de 4 ensaios desfavoráveis estava estebelecido. Mas… Gales mostra futuro e daqui a alguns jogos internacionais, ganha a experiência necessária, não vão faltar bons resultados.
No Escócia-Inglaterra, a disputar a Calcutá Cup em paralelo, viu-se os escoceses com menor posse (46%) e menor domínio territorial (43%) e muito menores ultrapassagens da linha-de-vantagem — 40 contra 58 dos ingleses — conseguir 3 ensaios contra 2.  Terá sido portanto a defesa a ditar as suas leis com 150 placagens (85% sucesso) contra as 104 (82%) inglesas. 
E assim a Escócia, embora dependendo de terceiros, pode manter-se na corrida para um jogo final em Dublin.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

E JÁ SÃO QUATRO BÓNUS DEFENSIVOS

A Irlanda mostrou de novo o que vale o seu “rugby de movimento”. Com um bloco de avançados que, ao contrário da França, trocam o peso pela boa técnica, os irlandeses usam o movimento da bola com corridas individuais de recepção variadas, desde paralelas a convergentes ou divergentes para abrir os espaços necessários à penetração nas linhas adversárias, mostrando sempre um notável movimento dos jogadores sem bola a provocar problemas decisórios aos defensores — deve ser uma dor de cabeça manter a organização defensiva contra tanto e tão variado movimento. Um exemplo a ver e rever pelas equipas portuguesas que devem procurar — pelos seus perfis morfológicos — aproximar~se deste tipo de jogo, lembrando-se sempre a pretensão de “jogar ao largo” exige muito mais do que passar a bola para o lado. E ver este tipo de jogo dos irlandeses lembrou-me uma frase de Barry John que, há uns anos perguntado sobre se gostaria de jogar hoje, respondeu: “No meu tempo nós procurávamos abrir espaços e utilizá-los. Hoje só colidem… Não não gostava!”. Mas gostaria concerteza de jogar nesta equipa irlandesa…

No Escócia-França o último segundo do jogo foi decisivo para a vitória francesa com a decisão arbitral de “no try!”. Embora possámos ter opinião diferente, o TMO fez o que lhe competia — não tendo visto nenhuma imagem que irrefutavelmente contrariásse a decisão do árbitro no terreno-de-jogo, deu cobertura à voz do árbitro. Azares dos escoceses, sortes dos franceses.

Aparentemente Gales deitou fora uma saborosa vitória em Twickenham contra os mais do que adversários ingleses. A ganhar ao intervalo por 14-5 e por 15-8 aos 62´ Gales perde o jogo em cima do fim, provavelmente — como acusa Clive Woodward na sua coluna do Daily Mail — pela decisão de Gatland, aos 55’ e assente no prévio bloco-notas, de fazer sair o pilar Keiron Assirati e o talonador Eliot Dee. A partir daí as boas prestações galesas na FO e Al começaram a vir por aí abaixo. 

De positivo o facto da jovem equipa galesa ter mostrado que começam a construir uma equipa. Quanto à Inglaterra, continua na mesma e mostra desconhecer em absoluto o conceito do futebolista brasileiro Zico: “É mais importante surpreender do que obedecer no futebol” (e no rugby também, digo eu). E o conceito é tão verdadeiro que basta ver as equipas inglesas a jogar na Championship onde atingem níveis de capacidade — veja-se o número de ensaios — muito elevados.

Pelo andar da carruagem poderemos ter uma decisão do Torneio no Irlanda-Inglaterra a 9 de março…que, seja ou não uma “final”, será sempre um grande jogo.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

6 NAÇÕES COM BONS JOGOS

 O 6 Nações de 2024, depois desta 1ª jornada com jogos de grande competitividade e de resultado muito próximo — com excepção do França-Irlanda que teve um resultado com uma diferença (um jogaço) inesperada — dá-nos esperança para uma série de jogos de grande qualidade. Repare-se que nos 3 primeiros jogos foram marcados 19 ensaios que permitiram 4 pontos de bónus. O que mostra a dimensão táctica em que as equipas se estão a colocar. Com um segredo prioritário: rapidez na reciclagem da bola nos reagrupamentos no solo — o que exige enorme qualidade técnica no transporte da bola nas situações de colisão.


Duas outras curiosidades aconteceram nos jogos efectuados: derrotas de duas equipas que marcaram mais ensaios do que os adversários, a Itália que marcou 3 ensaios contra 2 da Inglaterra e o País de Gales que marcou 4 ensaios contra 3 da Escócia. E, normalmente, como dizem as estatísticas, a equipa que marca mais ensaios vence o jogo…

A segunda curiosidade, para além do facto de todas as vitórias terem sido conseguidas em casa dos adversários, foi também o facto de Gales ter conseguido a raridade de 2 pontos de bónus — um por ter marcado 4 ensaios e o segundo por ter sido derrotado por menos de 8 pontos de diferença.

Com a qualidade dos jogos que se tem visto em demonstrações sucessivas das expressões tácticas que ultrapassam os problemas que as defesas colocam, o 6 Nações 2024 promete… e representa um factor importante de análise para o rugby português. Porque aí se pode perceber as formas de encurtamento das defesas, variando com a extensão da defesa que abre espaços no meio-campo como nos mostra a Irlanda, percebendo-se, cada vez mais, como o jogo-ao-pé pode ser efectivo na conquista de terreno e ainda como os grupos das equipas se devem organizar em movimento, fazendo um apoio eficaz, adaptando-se às diferentes formas defensivas e utilizando bem o lançamento em velocidade dos receptores da bola para aproveitamento dos intervalos e ultrapassar a linha-de-vantagem e conseguir desequilibrar a defesa. E continua a ser verdade a visão do grande Graham Henry: “o rugby é isto: ganhar a linha-de-vantagem” a que Spiro Zavos, jornalista neozelandês,  dá a expressão total: “Uma das maiores verdades do rugby é que a equipa que ganhar a batalha da linha-de-vantagem é a equipa que ganhará o jogo.



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