segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

POR UM NADA...

…se perde, por um nada se ganha. E aquele pontapé que não subiu transformou-se no colapso do Estádio – último segundo, última oportunidade, o céu à vista e um tremendo nada.

Minutos antes, um três-contra-dois de escola a garantir uma oportunidade de excelência para resolver o jogo, foi pessimamente manobrada numa tomada de decisão de quem não tem treino nem qualidades para ser mais do que um finalizador. Momento de que ninguém se irá lembrar. Como pouco nos lembraremos da importância da incapacidade de conquista nos alinhamentos e da falta de soluções demonstrada. Ou a da decisão receosa de ir-aos-postes em vez do risco de um alinhamento em cima da área adversária suportado na vontade de ganhar para ficar na derrota de um ponto de distância. Na memória ficará, em vez de tudo isso, o pontapé que nos daria a vitória – como há quinze dias terá ficado junto dos seus o falhanço do chutador russo que nos garantiu a vitória por dois pontos. Um e outro nada entre vitória e derrota. Como se a estória de um jogo – esse enorme conjunto de decisões, erros, oportunidades, feitos – fosse apenas um pequeno nada. Mas ganha-se e perde-se, sabe-se, nos pormenores. E os pormenores portugueses foram maus. E quase ganhávamos…

A Geórgia até se pôs a jeito*. Mostrou-se um exemplo acabado de que velhos hábitos dificilmente se transformam – no treino que lhes vi mostraram-se muito mais interessantes, mais dinâmicos, mais movimentados. No jogo ficaram-se pelo papel de rolo compressor – usaram uma jogada treinada no ensaio – e só não perderam por acaso. Aliás, quem joga assim, quem mostra a total imperícia de utilização da enorme quantidade de bolas conquistadas, merece perder.

Porque não aconteceu? porque nós nada fizemos para ganhar, limitámo-nos, como lembra o poeta, a esperar acontecer e não saber que – quando? como? – riscos correr.
Depois das duas vitórias anteriores tudo parecia dever ser diferente. Porque foi assim?

A primeira razão: a Geórgia não é, hoje em dia, a Roménia ou a Rússia. Vale mais: tem outra experiência, outro traquejo mesmo quando, pela pressão envolvente, se limita ao jogo de afrontamento directo sem saídas de combate inteligentes.

Quando a pressão aumenta, os erros florescem. No campo desportivo o aumento de pressão, sem os hábitos de resposta adquiridos, é como se a Lei de Murphy tomasse conta de cada gesto. Tendendo ao exponencial se as coisas não estão convenientemente preparadas: e o quinze de Portugal não está convenientemente preparado para este outro nível de pressão. A maior parte dos seus jogadores não têm hábitos competitivos elevados – o nosso campeonato é fraco, fraquinho, de baixo ritmo, reduzido e sem competição capaz (as meias-finais em duas mãos é mais uma ajuda para não haver treino do agora-ou-nunca de que tratam os jogos internacionais) – e a montagem da equipa não me parece adequada.

Num jogo deste nível – a Geórgia é o 15º classificado do ranking IRB - os problemas já detectados em jogos anteriores tenderiam a ampliar-se. É fácil perceber que é um  risco desmedido utilizar jogadores em posições-chave que não têm – porque nunca tiveram ou porque já não têm – os hábitos necessários ao bom uso e desenvolvimento das situações. E o facto foi este: a equipa portuguesa não foi capaz de impor fosse o que fosse e viveu dos erros absurdos dos georgianos (se no Mundial as arbitragens não forem condescendentes com os mais fracos, não irão lá fazer nada). O que deu para disfarçar mas não para ignorar... estivemos sempre longe do controlo da vitória.

Perdeu-se uma enorme oportunidade – calendário favorável, sequência de vitórias – que, como lembra o provérbio, não voltará mais. Mas, assim sendo, também se pode dizer, trocando com a encolha de ombros, que se ganhou um enorme campo de análise sobre o rugby português, a sua condição, as suas perspectivas e estratégias, o seu futuro e a forma como o pretendemos desenvolver e posicionar – não perder esta oportunidade de pensar a realidade exposta neste jogo é uma exigência que não deve ser escamoteada com as mais que prováveis duas vitórias internacionais que se seguirão... O sinal está dado. 
*ironicamente pode dizer-se que o abertura georgiano (nº10) foi, pelo que destruiu do jogo da sua equipa, o melhor defensor português - demonstração feita com a entrada do nº22 para o seu lugar.
Com um abraço ao Miguel Carmo

sábado, 26 de fevereiro de 2011

RETIRAR PRESSÃO E JOGAR

Os jogos ganham-se no chão – diz-se. É portanto na capacidade de libertar rapidamente a bola ou de a recuperar depois de uma placagem e jogar de forma adequada ao posicionamento adversário que uma equipa garante a vitória. No Portugal-Geórgia pode estar aqui, nesta relação de forças, a chave para a percepção de quem ganhará. Equipas de algum equilíbrio – a Geórgia mesmo a jogar fora é, no entanto, a favorita – e que se conhecem razoavelmente, com capacidade de conquista das próprias bolas nas situações ordenadas, terão na gestão dos pormenores o traço da vitória.

Ganhando – o que será um excelente resultado – Portugal ficará com a possibilidade de conquistar a Taça Europeia das Nações e com a certeza que subirá – qualquer que seja o resultado Roménia-Rússia – pelo menos um lugar no ranking (ver quadro). Caso perca, Portugal manterá o actual vigésimo lugar – Uruguai e Namíbia não jogam, a diferença para a Espanha é grande e a classificação da Geórgia não penaliza demasiado a derrota (é esta uma das boas qualidades do ranking IRB que não trata os jogos da mesma maneira mas sim de acordo com as diferenças pontuais, não favorecendo vitórias óbvias nem desfavorecendo derrotas inevitáveis).

Distribuição de pontos IRB de acordo com os resultados
Com o bom tempo, o jogo de hoje pode ser um agradável espectáculo. Não será um jogo fácil para os portugueses que terão, nomeadamente em defesa, de articular bem o movimento colectivo, cortando espaços e impedindo o desenvolvimento do lançamento dos peso-pesados georgianos. Afastada pelas Leis do Jogo a dita placagem-à-portuguesa, o dois-em-um não tem vindo a funcionar mal – apenas levando tempo demais a colocar o adversário no chão e atrasando a eficácia defensiva.

Pelo que se sabe a Geórgia procura adaptar-se à main-stream do actual rugby internacional – não fugindo totalmente ainda ao jogo à volta do prato (zona um), já procura deslocar para as zonas centrais do meio-campo as suas zonas de penetração e contacto, procurando a posse da bola e o desenvolvimento de sequências por fases que, deslocando os movimentos de penetração, procuram provocar os desequilíbrios defensivos que favoreçam o movimento da bola e de jogadores – a equipa técnica irlandesa (com um australiano de permeio) não será estranha a esta preocupação.

Portugal pode ganhar? pode, mas essa possibilidade não deve tornar-se numa pressão suplementar. Fazer o seu jogo, correr os riscos necessários, explorar colectivamente as oportunidades, sem pressas, nem precipitações, manter a bola viva evitando contactos desnecessários e, no final, a vitória pode ser portuguesa.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O PASSE DE THRIN-DUC

"A eficácia depende da experiência que se viver em casos semelhantes"
Malcolm Gladwel in Blink

video
Para realizar passes eficazes é preciso treiná-los. Tanto os clássicos como os outros. Com a pressão cada vez maior que as defesas criam, os atacantes, cada vez mais, têm que dominar técnicas que permitam atingir o objectivo - fazer chegar a bola ao companheiro em tempo útil - de forma expedita. Muitas vezes os resultados dependem dessa capacidade onde o risco, sendo elevado, pode e deve ser minorado pelo treino.

Na formação do jogador o gesto técnico não ortodoxo deve ter o seu espaço de assimilação, controlo e experiência.


A DERROTA DOS LIONS

No jogo televisivo de ontem à noite, o domínio dos Lions – posse e ocupação – foi, na 2ª parte, enorme. Embora sofrendo três ensaios, os Bulls defenderam muito – e ás vezes muito bem – principalmente quando encostados à linha de ensaio. À primeira vista dir-se-ia que a defesa ganhou o jogo. Não!

Primeiro, o ataque dos Bulls marcou os pontos necessários à vitória; segundo a defesa dos Bulls fez a sua obrigação, defendeu. O problema do jogo e da vitória ou derrota – sabendo-se que é mais fácil defender do que atacar - esteve no facto do ataque dos Lions ter sido previsível, pouco operante e raramente eficaz – quem tem aquela vantagem de posse e ocupação territorial tem que a saber traduzir nos pontos necessários à vitória.

Perdeu assim quem não foi capaz de utilizar eficazmente as vantagens que teve.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

SOLIDÁRIOS

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O MOVIMENTO É A CHAVE

Na última jornada do 6 Nações, a Itália foi varrida em Twickenham e não estou certo que tenha percebido as razões do desastre. Como acontece muitas vezes, Nick Mallet - o treinador responsável - apoia-se no classicismo das estatísticas para encontrar o que possa justificar o tratado de oval sofrido: incapacidade de conquista nos alinhamentos e falhas de placagem, detectou. Embora o banho nos alinhamentos fosse um facto – 9 lançamentos próprios conquistados pelos ingleses - a questão-chave não estaria aí… Do meu ponto de vista, embora também legíveis nas estatísticas, as principais razões são outras: os ingleses ultrapassaram 15 vezes a linha de vantagem e realizaram 17 passes-em-carga (off-loads). Ou seja: mostraram que o que conta é a capacidade de uso da bola, ultrapassando a linha-de-vantagem, criando o desequilíbrio que, apoiado em linhas de corrida de ângulos diversos, irá permitir a criação da superioridade numérica profunda – a que realmente conta -  fornecendo a plataforma suficiente e necessária à manutenção da continuidade do movimento. E isso fez – faz! - toda a diferença mesmo que tivesse havido igualdade nas conquistas dos alinhamentos.

No intervalo recebi uma chamada do António Coelho directamente de Twickhenham: “Os ingleses estão a alterar o tipo de jogador. Já não querem os bisontes que não sabem usar a bola.” Claro que não, querem-nos mais dúcteis, mais técnicos, mais capazes de “jogar de cabeça levantada” para ler as forças e fraquezas e tomar as decisões mais adequadas. Que sejam menos gym monkeys – esse ódio de estimação de McGeechan - e mais jogadores. A Inglaterra está a lançar-se para o Mundial, veremos até onde chega – mas a procura do modelo eficiente já lá está.

Os jogos deste fim-de-semana e com a preocupação de surpreender defesas, trouxeram também para a ribalta os pontas. Como gosto de acentuar, o ponta é hoje um ás-de-trunfo do colectivo: rápido, difícil de marcar, com enorme liberdade, pode aparecer onde menos se espera e criar a diferença. Vindos de um lado ou outro do campo, aparecendo como isco ou como actor, mas mostrando-se sempre disponíveis para participar e elevar o nível de alternativas do seu ataque, Chris Ashton, Shane Williams, Mc Fadden, Medard, Cueto ou Gonçalo Foro mostraram-nos a importância da sua utilização. Isto sem falar na cada vez maior presença de aberturas - o recurso de Gales a Hook mostra a evidência - que coloquem dúvidas aos defensores, que sejam capazes de atacar a defesa, bloqueando a subida, ganhando o espaço e o tempo necessários à leitura do posicionamento dos defensores e á construção do apoio. O jogo começa portanto a ter exemplos práticos e cada vez mais amplos do jogo total pretendido por Greenwood e que Gales dos anos setenta de Ray Williams ou o Toulouse de Villepreux dos anos 80 já tinham deixado marcas características – e que All-Blacks e Austrália mostram realizável hoje em dia.  

A configuração dos resultados que aconteceram trouxe à baila uma outra questão a que gostamos de dar importância: que as defesas ganham jogos. Ganham… mas apenas se conseguirem aguentar os pontos marcados pelo ataque. Ou seja, não havendo ataque que marque a única coisa que a boa defesa poderá garantir é que não haverá nenhuma abada, mais nada. Uma equipa ganhadora exige equilíbrio na relação ataque/defesa, exige qualidade em ambos os aspectos: tornando-se capaz de defender, pressionando o adversário e conquistando terreno quando não tem a bola; capaz de ser eficiente no uso da bola, atacando intervalos, pressionando para conquistar terreno e apoiando para continuar o movimento. Jogando um rugby total. E, curiosamente, as duas recentes vitórias do XV de Portugal resultam mais da capacidade de marcar pontos que permitiram comandar o resultado e menos da capacidade defensiva que, nos últimos momentos de qualquer dos jogos, deixou algo a desejar e permitiu a aproximação pontual dos adversários. Em defesa, aguentaram o que o ataque conseguiu… e ganharam.

E a propósito da selecção portuguesa também se gosta muito de acentuar a amizade existente entre os jogadores como elemento essencial de superações inesperadas. Pode ser bonito mas nem é questão essencial, nem tem qualquer importância fundamental para a construção de uma boa equipa. Essencial é, para além da clara definição de uma cultura de equipa – a maneira como fazemos as coisas – que haja, dentro e fora do campo, respeito entre uns e outros e por uns e por outros e ainda, dentro do campo, no tempo do jogo, que haja solidariedade que eleve o individualismo a padrões de confiança que permitam a presença colectiva permanente e a capacidade colectiva do risco. E será desta combinação que resultarão as vitórias significativas.

Penso, cada vez mais, que as vitórias recentes dos portugueses vivem disso: de um maior empoderamento (delegação de poder) da decisão pelos jogadores – menos padrão e mais decisão – e de uma solidariedade feita à volta do que conta: o jogo, o campo, a equipa. E acho que isso se começa a notar em cada movimento do jogo. Com bons resultados.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

PORTUGAL GANHA NA RÚSSIA

Portugal ganhou á Rússia por 21-19. Excelente vitória, superior à da semana passada porque fora e contra adversário com melhor qualificação no ranking IRB - a Rússia é 18ª e a Roménia 19ª. Com esta vitória Portugal consegue 63,81 pontos de ranking e consolida a sua 20ª posição.

E vão duas vitórias sobre dois mundialistas apurados para a Nova Zelândia e que foram nossos adversáriosa directos. A pertinência da pergunta ganha maior amplitude: porque que é que não nos conseguimos apurar?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

UM SÓ MÉDIO-DE-FORMAÇÃO?

O XV de Portugal leva apenas, nos seus vinte-e-três jogadores da lista oficial, um médio-de-formação. Não percebo.

Como é que para um jogo deste nível se aposta apenas num jogador que, ainda por cima, não é um permanente do lugar? Mas mesmo que esta liberdade poética – chamemos-lhe assim – seja admissível por qualquer razão que desconheço, a não ida de outro causa enorme estranheza. E se os russos fizeram o trabalho de casa, se leram a constituição da equipa? Repito: não percebo.

O médio-de-formação é, sabemos todos isso, uma posição-chave da equipa. Por ali passa o ritmo, a primeira boa decisão, a forma de ocupação, a rapidez que permite explorar qualquer sucesso conseguido nas sequências da continuidade do movimento. O passe – na rapidez e dimensão - a leitura sob pressão de tempo e espaço, são decisivos e exigem hábitos da posição. Apesar de gostar muito do Pipoca como jogador e pessoa, não me parece que a sua escolha para jogar a 9 seja uma boa nova. Mas pior nova é o facto de não haver outro jogador dedicado ao lugar sentado no banco. Não há mais nenhum? Não serviriam os que representaram as outras três equipas portuguesas do Final Four do campeonato nacional? Ou estão todos indisponíveis?

Não servindo ou não querendo, existem outros portugueses que jogam em França e que são bastante capazes de cumprir o lugar em causa como Emmanuel Rebelo do Dijon (Federal) que já jogou – e bem! – por Portugal ou Fábio da Silva do St. Ettienne que joga na PROD2 ou ainda Samuel Marques que joga no Pau (PROD2) e que assinou há dias um contrato de profissional e que já vi - e gostei - em vídeo. Porque não foram chamados?

Que ninguém perceba a fraqueza da equipa e que o desnecessário risco não se transforme num pesadelo...
Seja como for, qualquer que seja o resultado, Portugal manterá a vigésima posição – para subir mais um lugar necessitaria de vencer a Rússia por mais de quinze pontos e que a Roménia, naquilo que parece uma impossibilidade, perdesse com a Ucrânia. A Espanha com 58,03 pontos, faça que resultado fizer contra a Geórgia, não nos apoquenta e Uruguai e Namíbia não jogam. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

GRANDE VITÓRIA

Uma vitória é uma vitória. E esta conseguida por Portugal sobre a Roménia é ainda melhor: é uma grande vitória – uma das poucas conseguidas nos últimos anos sobre adversário melhor qualificado no Ranking IRB (terceira em 23 jogos após o Mundial de 2007). Com esta vitória, Portugal passa para o 20º lugar da tabela, ultrapassando o Uruguai e ficando agora com 62,10 pontos. 
Um bom começo de ano.

Como foi também óptimo o começo do jogo – ainda os romenos não tinha tirado as dimensões ao campo e já estavam a perder por 10-0. Um atraso futebolístico para uma área sem guarda-redes provocado por uma pressão bem montada deu um ensaio ao oportuno Pedro Silva logo nos primeiros momentos e o mote para o que se iria ver. Um pontapé de 53 metros de Gardener garantia mais três pontos e fazia aumentar a confiança nas bancadas. A tarde prometia.

A distribuição ao pé de Gardener garantia uma boa ocupação de terreno e dava-nos abrigo nas costas; a defesa comportava-se em bom plano – quem tem Bardy tem muito. Duvidoso apenas a capacidade do 5-da-frente nas formações ordenadas. Aguilar marca novo ensaio e Frederico Oliveira dá nota do que sabemos dele e já tínhamos visto contra a Inglaterra – é um terrível finalizador (uma qualquer porta aberta basta mas seria bom que lhe ensinassem os movimentos surpresa que o rugby oferece) mas duvido que seja o criador que a selecção precisa como segundo centro. Ao intervalo a festa: 24-3 e a um passinho do ponto de bónus (novidade deste campeonato que se adianta ao 6 Nações).

Atitude – no movimento adequado de cada um; galhardia – no dar o corpo ao manifesto para parar os enormes romenos; valentia – exemplar num encontro aéreo entre o pequeno Pipoca e um brutamontes romeno. Tudo isto marcava a equipa portuguesa na primeira parte. Parafraseando em parte Stuart Barnes, a selecção portuguesa mostrava-se de raciocínio acutilante, rigorosa na execução e valorosa na acção.

O início da segunda parte também parecia assim lançado. Falta de hábitos competitivos para este nível, desconcentrações e ainda substituições que nada adiantaram permitiram o levantar de cabeça dos romenos – que não ganharam o jogo mas que nos fizeram perder dois pontos classificativos: o de bónus que não conseguimos e o de bónus que consentimos. Dir-se-á: mas ganhámos! Claro e uma vitória vale uma vitória! Mas deitámos fora uma enorme oportunidade de arrasar a Roménia e de nos posicionarmos claramente para jogar uma final com a Geórgia para conquistar o lugar que garante participação efectiva na janela internacional de Novembro.

A defesa esteve quase sempre bem – excepto no último ensaio sofrido – a garantir o conseguido pelo ataque que cumpriu melhor do que em jogos anteriores. Mas o recurso à passagem pelo chão para garantir a continuidade de posse e uso da bola, dando todas as vantagens à defesa, tem que ser revisto – a demora na reciclagem impede o aproveitamento do desequilíbrio criado e obriga a que tudo de reinicie. A que se acrescenta o facto do ataque à linha de vantagem, não sendo tão próximo quanto o possível e necessário, permitir que a defesa se readapte ao movimento atacante. Ou seja: passar pelo chão, demorar tempo na disponibilização da bola e jogar longe da linha de vantagem são factores que facilitam a vida dos defensores – o nível internacional exige mais. Como seja, e por outro lado, saber alterar a direcção dos movimentos – colocando dúvidas e desconfortos à defesa e evitando que se limite a correr para fora – para o que é necessário adaptar o posicionamento da linha em movimento de maneira a permitir o jogo para o interior em contra-pé (mais do que uma vez este recurso teria aberto auto-estradas na defesa romena…). Cada vez mais o nível internacional impõe a capacidade de decidir e executar no mínimo de espaço e de tempo – o treino e a formação têm que ter, cada vez mais, este aspecto em conta.

A arbitragem esteve bem. E para quem julgue que houve má interpretação no último ensaio romeno, cito, das leis em português publicadas em Agosto de 2008, a Lei 12 - TOQUE OU PASSE PARA DIANTE.”Definição. Toque para diante: Há toque para diante quando a bola segue para diante após um jogador ter perdido a sua posse ou, após um jogador a ter impulsionado ou batido com a mão ou braço, ou após ela ter batido na mão ou no braço de um jogador e ter tocado o solo ou outro jogador antes de ser controlada pelo mesmo jogador”.(sublinhado meu). Não houve portanto qualquer falta romena. O árbitro esteve bem. Pena, mas é assim.

Acabado o jogo e dada a forma como decorreu – mesmo com a recuperação romena – a pergunta não pode deixar de ser feita: o que vai fazer a Roménia ao Mundial? Questão que coloca outra e esta mais importante: porque é que nós, portugueses, não nos qualificamos para o Mundial da Nova Zelândia? Alguém se preocupou em analisar as razões – com os erros aprende-se, com o silêncio consente-se.

Gostei muito de ver os jogadores luso-descendentes que vestem a camisola do rugby de Portugal a cantar o Hino Nacional como se tivesse andado na nossa escola primária - eles gostam de estar connosco. Vê-se nas palavras que cantam.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

RUGBY EUROPEU EM MARCHA

Ano de Mundial e a Europa do rugby começa a mostrar-se este fim-de-semana. Das doze equipas que disputam o Torneio das Seis Nações e o Torneio Europeu das Nações, nove estarão presentes entre as vinte equipas que daqui a seis meses se apresentarão na Nova Zelândia. Como apresentação a Inglaterra foi arrancar (26-19) uma boa vitória a Cardiff e marcou pontos nas lojas de apostas das previsões mundialistas.
No Europeu, num outro nível, Portugal joga, em Lisboa, contra a Roménia em jogo onde não se esperam facilidades. Apurados para o Mundial, os romenos aparecerão na sua máxima força e não quererão deixar a sua preparação iniciada com uma derrota. Veremos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

DEFESA? ATAQUE? EQUIPA!

“Os guerreiros hábeis dos tempos antigos começaram por acautelar a possibilidade de serem derrotados, tornando-se primeiro invencíveis, e depois esperavam a oportunidade adequada para derrotar o inimigo.” Sun Tzu
É corrente dizer-se que “o ataque ganha jogos e a defesa campeonatos”. O que é diferente de colocar a tónica na defesa, afirmando que ela ganha jogos. O conceito vem do basquete americano – onde por norma o ataque marca e o resultado pode depender tão só de uma defesa capaz de impedir um ou outro cesto – ou do futebol americano que muda de equipa para cada situação de luta directa (e métrica) pela conquista de terreno. No caso do rugby – modalidade colectiva de combate organizado para a conquista de terreno mas que mantém os mesmos jogadores para as diversas tarefas  a questão da defesa – impedindo a eficácia do ataque e procurando recuperar a bola – tem uma enorme importância. Mas, se o ataque não marcar, a defesa garante o quê? vitórias? campeonatos? Garantido é que a boa defesa garante o que o ataque consegue.

“A defesa é, por natureza, mais forte do que o ataque.” ditou Clausewitz. O que obriga a que o ataque se tenha de municiar de processos com a sofisticação estratégica necessária para alterar essa natureza das coisas. Como sejam:
- conhecer os pontos fortes e fracos de ambas as equipas
- saber impor o forte ao fraco adversário
- obrigar a defesa a ocorrer a várias frentes
- diminuir o tempo de adaptação e retirar a defesa da zona de conforto
- continuar o movimento
E para que seja possível garantir que a eficácia ofensiva seja tacticamente capaz de encontrar as formas de ultrapassar a organização defensiva adversária, explorando colectivamente os desequilíbrios criados, é preciso poder surpreender os defensores. Porque, e de novo com Clausewitz: 
“A surpresa é o princípio mais eficaz para obter a vitória.”
Defesa e ataque articulam-se num sistema que exige alterações significativas – não necessariamente aparatosas – para se desequilibrar. Cito Lorenz na teoria do caos: “Pequenas alterações em sistemas dinâmicos podem ter consequências imprevisíveis.”
A defesa ganha jogos? Ganha, se o ataque garantir os pontos que coloquem a equipa à frente do adversário...

O rugby, se jogado de acordo com os seus Princípios Fundamentais, pode ser um enorme divertimento. Principalmente se cumpre o objectivo para que foi criado: marcar ensaios!

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