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sábado, 21 de julho de 2018

O BENEFÍCIO DO INFRACTOR VIOLA A ÉTICA DESPORTIVA

O Desporto, acima de tudo, rege-se por princípios desportivos. 
O que significa que as interpretações sobre situações, factos ou actos do seu domínio se devem fazer, para que a competição e a superação sejam balizadas por limites, de acordo com o corpo de normas que formam o Espírito Desportivo, a Ética Desportiva e a Disciplina Desportiva. O que quer dizer que a interpretação de situações, factos ou actos do Desporto e no Desporto não se fazem pelo recurso abstracto de conceitos. 
Uma das regras elementares do Desporto — aprendidas por qualquer atleta logo desde os seus primeiros contactos desportivos — diz respeito ao conceito de “não beneficiar o infractor”. Situação tão elementar que se ouve amiúde em qualquer bancada e que serve de base, por exemplo, à chamada “lei da vantagem”— tão visível no rugby que, se não houver vantagem para a equipa não infractora, o jogo retorna à falta anteriormente cometida. E sendo o jogo um corpo sistémico de estratégia baseada nas leis técnicas, tácticas e comportamentais que o suportam, as coisas têm que andar ligadas e articuladas.
Não beneficiar o infractor faz, naturalmente, parte do conjunto de normas e regras que o Desporto utiliza para se poder reivindicar dos valores que apregoa. Chegar à vitória através de infracções que não foram consideradas - e que nalguns casos se aproximam da ideia de recurso à batota - não constitui a decência que o Desporto afirma defender.
A recente decisão do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby ao ignorar — branqueando — as cenas de pancadaria colectiva no campo de jogo da Tapada entre jogadores da AEIS Agronomia e do GD Direito peca, para além de outros já anteriormente referidos, também por este facto: benefício do infractor.
Ao considerar que o jogo referido é válido e que o “vencedor” — no caso, Agronomia — tem o direito de estar presente na final do Campeonato Nacional é óbvia e evidente a presença da figura do benefício do infractor — porque, tendo violado conjuntamente regras desportivas disciplinares e não se sabendo se ganharia o jogo, é beneficiada com a decisão.
Assim sendo, existe, na decisão tomada pelo Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby, por evidente benefício do infractor, uma violação grosseira dos princípios da Ética Desportiva. 
Se a esta violação juntarmos que a ignorância propositada dos factos — branqueando as acções — que são de conhecimento público generalizado desacredita a integridade da principal competição do Rugby português, afectando, simultaneamente, a credibilidade da modalidade, teremos formatado um quadro negativo de enquadramento cujas consequências serão, com certeza, perniciosas para o Rugby português. 
A garantia de integridade das competições e a credibilidade de uma modalidade enquadrada por uma Federação com o estatuto de Utilidade Pública Desportiva são factores que devem estar na primeira linha das preocupações de qualquer intervenção oficial e que a elaboração deste referido Acordão não teve em conta. 
E ao não o fazer, não deveria valer.

terça-feira, 17 de julho de 2018

UM BRANQUEAMENTO DE VIOLAÇÕES DESPORTIVAS

Sobre os graves acontecimentos do passado 28 de Abril ocorridos no Campo da Tapada em jogo das meias-finais do principal Campeonato Nacional de Rugby, o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby, decidiu assim:
“Pelo exposto, decide o Conselho de Justiça revogar a decisão recorrida, através da qual a Federação Portuguesa de Rugby aplicou à AEIS Agronomia [e ao GD Direito] uma falta de comparência não justificada, a sanção de desclassificação do CN1 e correspondente despromoção ao último escalão competitivo sénior.Nessa medida, mais decide que deve ser homologado o resultado que se verificava no momento em que o árbitro deu por terminado o jogo que opôs a AEIS Agronomia ao GD Direito, ocorrido no passado dia 28 de abril de 2018, com todos os efeitos daí decorrentes, nomeadamente a anulação da decisão de não realização da final do CN1, bem como da decisão administrativa de conceder o título de campeão nacional da época 2017-2018 ao clube que se apurou para disputar a referida final.”
Ou seja com esta decisão e objectivamente, o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby branqueou os inadmissíveis actos de pancadaria generalizada ocorridos no jogo Agronomia-Direito. Como se nada se tivesse passado. Mas, tratando-se de agressões repetidas no início e final do jogo com estaladas, pontapés e murros entre diversos jogadores de ambas as equipas que - sendo agressões repetidas no início e final do jogo com estaladas, pontapés e murros entre diversos jogadores de ambas as equipas - não foram acções de somenos e representam uma demonstração de elevado nível antidesportivo, afastando o jogo da essência dos seus princípios e que, pelo contravapor à constante referência de especiais valores, apenas resultam como descrédito do Rugby de que dizemos gostar.
Destes factos graves e inadmissíveis no campo desportivo em geral e no do rugby em particular - pela história e valores da modalidade - resultam apenas os castigos individuais - um deles anulado numa visão distorcida dos factos - a interdição do campo de ambos os clubes por seis jogos pelas cenas, posteriores ao jogo, que se desenrolaram com agressões entre adeptos dos dois clubes - numa modalidade que, não tendo receitas*, não se vê qual o prejuízo entre jogar no Jamor em vez dos interditos Tapada ou Monsanto... - para além de multas pecuniárias. No entanto a demonstração pública de repúdio pela violação grosseira da ética ficou-se numa frase perdida - "comportamento esse por si só merecedor de pública censura" - pelo meio do douto acórdão...
À semelhança do escamoteamento do péssimo e inadequado comportamento tido na Ucrânia por jogadores e técnicos integrados na selecção nacional, espera-se que o tempo, também aqui, opere o esquecimento. E assim os responsáveis pela disciplina federativa, determinam o resultado ao tempo da interrupção - com uma penalidade assinalada e não jogada - como resultado final do jogo. Nada querendo saber das implicações éticas, doutamente, determinam o vencedor da meia-final e declaram a exigência da disputa da final. Ganham os prevaricadores, usam-se os cumpridores... mas o mundo move-se.
Como consequência final disciplinar, às duas cenas de pancadaria generalizada num mesmo jogo provocadas por jogadores de equipas representantes de dois dos mais importantes clubes portugueses da modalidade e á sua gravidade ético-desportiva e cívica, foi dito nada. 
Mas há outras e evidentes consequências provocadas pela douta decisão: a primeira e óbvia é que fica garantido a quem quiser que o resultado momentâneo se transforme em resultado final, que lhe bastará fomentar uma sessão generalizada de pancadaria: o árbitro é obrigado a terminar o jogo e o resultado está estabelecido...Outra consequência é a verificação de que os valores desportivos, o espírito desportivo, a ética desportiva podem sempre e facilmente ser substituídos por atitudes violadoras dos princípios que regem a actividade desportiva porque haverá sempre interpretações normativas conceptualmente desfasadas que limparão a conspurcação das manchas. E os regulamentos que enquadram a modalidade continuarão a ser compostos em secretárias afastadas do sistema e do conhecimento desportivo... Como se nada tivesse a ver com nada.
A gestão deste quadro pelos diversos órgãos federativos, começou mal e terminou pior. O Rugby português fica mal na fotografia, mostra-se doente e perde credibilidade, escurecendo a sua transparência e diminuindo a largura dos seus caminhos de futuro. Uma tristeza... e o Rugby português, se não souber, quanto antes, arrepiar caminho, não terá caminho.

*[E.T.- para além das receitas dos bares]

sábado, 28 de abril de 2018

TANTO TRABALHO PARA NADA!

Uma vergonha! Duas equipas recheadas de jogadores internacionais começaram e acabaram o jogo das meias-finais do Campeonato Nacional 2017/2018 da divisão principal da modalidade da mesma forma: numa algazarra de pancadaria colectiva.
Costuma dizer-se que o que começa mal, tarde ou nunca se endireita. O rugby português começou, ultimamente mal e tende a não se endireitar mais. E de nada vale dizer que se faz isto ou aquilo que se lança este ou aquele programa que irá desenvolver a modalidade e o seu futuro no que - na realidade - não passa de cortina de fumo feita areia para os olhos que só engana quem se quer deixar enganar. Se o nível superior da modalidade - o mais importante e o mais visível - não funciona - joga-se pouco e comporta-se mal numa doce, pretensiosa e, muitas vezes, propagandística aparência de importância desportiva - nada funciona! O topo da modalidade é o espelho da sua realidade, o resto vem por acréscimo. E como resultado dos factos, o rugby português vai de mal a pior!
Interrompeu-se a sequência do campeonato - a última jornada da fase regular realizou-se em 17 de Março p.p. - para um intervalo sem nexo disfarçado nas culpas de outros. O pouco ritmo foi-se, as cabeças desfocaram-se dos aspectos técnicos e tácticos e o jogo colocou-se no patamar do passatempo, incapaz de se adequar à natural pressão de jogos de bota-fora. E assim, perdidos no rumo e sem nexo sequencial, os actores - que deveriam ser os primeiros interessados na boa imagem da sua presença - não encontraram melhor solução do que pegarem-se à porrada. Porrada pegada entre eles dentro do campo e porrada pegada entre espectadores, fora do campo. Violência gratuita e inadmissível de um lado e outro das linhas. Violência que não é compatível quer com o sentimento de pertença quer com a ética desportiva.
E agora a pergunta que se impõe: alguém vai exigir responsabilidades pela degradação da imagem da modalidade ou - como de outras vezes - os responsáveis pelas modalidades e pelos clubes vão varrer tudo para debaixo do tapete da indiferença? Com a vergonhosa desculpa que, não se sabendo, também não haverá a perturbação das consequências.
Uma vergonha para continuar vergonhosa?
E, para espanto dos espantos, o jogo não teve árbitro oficial a dirigi-lo - teve um voluntário que, aliás, fez o que pode naquele mar de desajudas dos actores - teve assistentes não treinados para a função e não teve outro remédio que não fosse - numa acertadíssima decisão - acabar com o jogo para impedir a continuação do malhanço.

O que se passou neste jogo das meias-finais do principal campeonato da modalidade não é mais do que o reflexo da desorganização, indisciplina e desconhecimento que o rugby português demonstra. Não querendo perceber o sistema que a irresponsabilidade criou, não faltarão acusações desculpabilizadoras. Que aliás, de nada valerão. Porque é o sistema que tem de ser mudado com base no reconhecimento que o Desporto se rege por Princípios - e o Rugby por Valores - e que neste campo não pode haver qualquer tipo de cedências.

Se queremos transformar alguma coisa, reaproximando-nos dos valores significantes do espírito desportivo e do carácter da modalidade, se queremos que aquilo a que chamámos Rugby seja mais do que Rugby e seja realmente o nosso jogo, envolvendo uma comunidade que, valorizada pelo espírito desportivo, tenha os comportamentos éticos adequados a uma competição desportiva que se pretende - embora dura - leal, íntegra, solidária, disciplinada, comprometida e que envolva o respeito por uns e outros, devemos alterar o actual sistema. Quanto antes!
O jogo não valeu nada - uma equipa passou duas vezes a Linha de Vantagem, a outra nem isso. E o resultado traduziu aquilo que se conhece da fase regular da duas equipas: uma equipa a fazer faltas atrás das outras, a outra equipa, incapaz de bater as defesas adversárias, a construir o resultado, como habitualmente, na transformação de penalidades.
O jogo de hoje - uma meia-final do campeonato principal da modalidade, repete-se - ao violar os valores com que gostámos de encher a boca, demonstra o estado real a que chegou a modalidade. 
Uma vergonha! e apenas uma enorme tristeza traduz o que me vai no espírito: tanto trabalho para nada! 
Tanto trabalho de tanta gente durante muito tempo deitado fora numa leviandade que ignora regras, comportamentos e responsabilidades. A realidade é esta: o nosso jogo está nas ruas da amargura!

quarta-feira, 28 de março de 2018

ENORME CONFUSÃO: QUEM JOGA CONTRA QUEM?

Depois das questões levantadas - questões essencialmente éticas e que leva a nova reunião decisória da Rugby Europe amanhã, 5ª feira - pelo Bélgica-Espanha agora, qual cerejas, surgem novas acusações. Desta vez pelo uso indevido de jogadores no nível internacional.
A Alemanha acusa a Bélgica de ter utilizado um jogador - Victor Paquet - não elegível de acordo com a leis internacionais da World Rugby, no jogo entre ambas. A Rússia acusa a Roménia - pela utilização de Sione Faka'osilea, nascido em Tonga - do mesmo recurso a jogador não elegível. A Espanha vê-se também acusada nas suspeitas de que quer Thibaut Visensang quer Mathieu Bélie - que terão sido internacionais pela França Sub20 embora o caso do primeiro pareça sem problemas - ou Bastien Fuster não seriam elegíveis para os jogos efectuados.  
As possíveis consequências são simples mas grandes e de elevados prejuízos: se a Bélgica for desqualificada, a Espanha - se não tiver problemas com os seus próprios jogadores - ficará directamente apurada para o Mundial e serão os belgas a disputar com Portugal o jogo de barragem Championship/Trophy da Rugby Europe. Se a Roménia for desqualificada, será a Rússia - caso não haja problemas com a Espanha - que disputará a eliminatória de acesso ao Mundial com Portugal. Se houver problemas com a Espanha e juntando todos os outros, será, pelo menos por agora, a Rússia a ir ao Mundial, disputando a Alemanha o jogo de acesso com Portugal, mantendo-se os belgas na disputa do jogo de barragem. Se isto for por partes, isto é que haja decisões que não sejam idênticas por óbvias justificações, só a análise caso acaso decidirá quem joga contra quem e quem vai ou fica. Bonito, longo e muito prejudicial para a imagem que o Rugby gosta de ter no mundo...
Lembre-se que a World Rugby acabou de desqualificar Tahiti - que venceu, na qualificação para o Mundial, as Ilhas Cook por 13-9 - por utilização de dois jogadores, Guillaume Brouqui e Andoni Jimenez, considerados não elegíveis.    
Apesar das diversas alterações ao longo dos tempos - a última foi em Maio de 2017 que, entre outras coisas, resolveu  o problema de cativação que a nomeação das "segundas equipas representativas" nos Sub20 criou - as imposições regulamentares da World Rugby para a elegibilidade de jogadores são, embora complexas, claras e encontram-se na Regulation 8.
... Tanto se enche a boca com os valores que, embevecidos, nos esquecemos de os aplicar no quotidiano...

quarta-feira, 21 de março de 2018

O QUE PARECE, MUITAS VEZES, É

Já tenho idade e experiência desportiva-rugbística suficiente para saber que o rugby não corresponde - por muito que pudéssemos gostar que assim fosse - ao retrato conceptual do reverendo W.J. Carey e que deu o mote aos Barbarians RFC: "O Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas não para maus desportistas seja qual for a sua origem." E também gostaria que, na melhor tradição da modalidade, fosse aceite por todos os jogadores e treinadores a regra fundamental de respeito pelo árbitro e pelas suas decisões. Como escreve o jornalista Spiro Zavos "a integridade do jogo de rugby está no entendimento que o árbitro é o juiz final dos factos em qualquer jogo de rugby".

Dito isto, direi que o comportamento dos jogadores espanhóis no final do Bélgica-Espanha de domingo passado foi um vergonha, sendo desonroso para uma modalidade que se quer diferente do que assistimos noutras modalidades (principalmente no futebol e na sua envolvente) e não pode ser permitido. Não há desculpas!

Por pior que o árbitro tenha sido - e foi mau e prejudicial - os jogadores não têm qualquer direito a terem aquele destemperado comportamento. Não há desculpas!

Mas também - o que não quer dizer que os incorrectos comportamentos dos jogadores espanhóis possam ser absolvidos - não há desculpas para a demonstração de amadorismo incipiente da Rugby Europe e seus mandantes.

Na minha experiência internacional já assisti e já me vi envolvido em diversas situações que atiraram os princípios e valores desportivos para a sargeta. Tive que enfrentar situações, antes, durante ou depois de jogos que violaram as regras elementares do que defendemos como espírito desportivo e que gostámos de integrar no rugby como único e específico. Infelizmente as coisas são o que são e tapar os olhos com a peneira para fazer de conta que somos diferentes é um erro sistemático e que nos faz cair nos buracos armadilhados que, com medo de um "isto afinal é tudo o mesmo", são embrulhados no celofane de casuais acidentes.

A decisão da Rugby Europe de manter a nomeação de uma equipa de arbitragem romena para um jogo que se sabia decisivo desde 16 de Fevereiro último - nomeadamente para a Roménia - é um disparate sem dimensão e corresponde a uma atitude eticamente deplorável que atinge mesmo o nível do escândalo! Porque é uma situação que levanta as maiores suspeitas. Porquê? porque a equipa de arbitragem é romena, o presidente da Rugby Europe, Octavian Morariu, é romeno e a equipa que dependia do resultado é romena. Ou seja, tudo areia do mesmo saco. E como para ser sério não basta sê-lo, sendo preciso parecê-lo, o chefe dos árbitros europeus, Patrick Robin, em vez da leviandade (bastante habitual, diga-se) com que encarou o assunto deveria, de imediato, ter procedido à mudança. Não tendo procedido à sua substituição e colocando a resolução na dependência da sua vontade, aumentou o nível das suspeitas. Ou seja, como propositado não se conseguiria melhor.

Já assisti, quer no rugby quer noutras modalidades, a diversas arbitragens habilidosas para saber reconhecer o encaminhamento. E a arbitragem dos romenos no Bélgica-Espanha foi tendenciosa e, nitidamente - o que, repete-se não valida o comportamento final espanhol - favorecedora da Bélgica. Favorecendo assim a Roménia.

Resultados desta situação vergonhosa? Duvido que sejam palpáveis mas, no mínimo, deveriam traduzir-se no afastamento da arbitragem internacional dos romenos Iordarchecu, Petrescu e Ionescu e também no definitivo afastamento dos responsáveis pela sua nomeação bem como do ou dos responsáveis por terem ignorado o pedido espanhol de substituição da equipa de arbitragem.

E no meio disto como fica o Presidente Morariu? Mal! Só lhe valendo, para garantir a continuidade, alguns fretes e a demagogia das medidas que, ignorando as regras desportivas dos patamares competitivos que permitem a existência do equilíbrio da competição, estabelecem a "participação" como valor, permitindo que equipas de mais baixo nível e em "salto de cavalo" disputem  apuramentos imaginários para o Mundial como acontece com Portugal que, da 3ª divisão, faz o "difícil" jogo com a "melhor da 4ª divisão", a República Checa e trepa três melhores qualificados para entrar na disputa dos apuramentos seguintes. Simpatias que as federações europeias parecem gostar e admitir como boas práticas. E assim se conquistam aliados e se cobrem os erros e a falta de decisões adequadas.

O que se passou em Bruxelas - que teve repercussão mundial - mostra que muita coisa vai mal na administração da modalidade e que, para colmatar enquanto possível, mudar é absolutamente necessário.

Exige-se mudança e a responsabilidade está do lado das federações europeias. Que se mude quanto antes.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

LÁ COMO NÃO FIZERAM CÁ

Alguns dos jogadores da selecção francesa, na noite, depois da derrota com a Escócia, tiveram comportamentos que "faltaram ao respeito do seu dever enquanto internacionais". Quer dizer: portaram-se mal e deram má nota ao rugby francês que oficialmente representavam.
O presidente da Federação francesa, Bernard Laporte, mandou abrir um inquérito oficial e Jacques Brunel, principal responsável pela selecção francesa, dispensou de imediato, num total de 8, os jogadores que tiveram tal comportamento.
Toda a gente, franceses e não-franceses do mundo de rugby, ficaram a saber que o estatuto de internacional francês -"Pelo seu comportamento inapropriado não respeitaram o seu estatuto de jogador internacional e os deveres que daí decorrem" lê-se no comunicado federativo - não tolera este tipo de comportamento anti-social à mistura com copos. No Rugby o conjunto de valores de Integridade, Paixão, Solidariedade, Disciplina e Respeito não é, não pode ser, letra morta.
Procedimento este que é o inverso da federação portuguesa que, por factos similares acontecidos no pós-jogo (Ucrânia), escolheu a via de levantar a ponta do tapete e esconder o lixo... mas continuamos a encher os olhos de valores...

domingo, 13 de agosto de 2017

RETORNO BÊBADO CAMINHO RUA

Depois de Stuart Lancaster já ter chamado a atenção para a importância que Manu Tuilagi tinha para o XV da Inglaterra foi agora a vez de Eddie Jones vir dizer, apesar de, por diversas lesões, só ter jogado 20 minutos em jogos-testes da sua equipa, que o centro era o único jogador inglês capaz de "dar cabo" dos neozelandeses. E se assim o pensou, melhor o fez: convocou-o, apesar de uma condição sofrível, para o primeiro estágio da época da selecção inglesa.
E lá foi treinar aquele que Jones pensa que tem "potencial para vir a ser o melhor jogador do mundo".
Não terá durado muito este enlevo.
Numa licença de saída do estágio fez-se de volta com outro colega de equipa, Denny Solomona, madrugada de segunda-feira fora em notório estado de embiaguês - bêbados, como se diz no corrente. O que deixou, muito naturalmente, o treinador principal da Inglaterra possesso. E vai daí, foram os dois expulsos do estágio!
Havendo agora até quem diga que só muito dificilmente voltarão a ser chamados por Jones aos trabalhos da selecção. Causa e consequência, dir-se-á.
Pelo que se pode ver a condescedência não faz - e bem - parte do vocabulário do desporto de alto rendimento do responsável da selecção inglesa. Porque quem quer construir uma equipa ganhadora e capaz de derrotar, como afirma, os All Blacks, exige também elevado espírito de equipa - a tal coesão de que tenho falado - e rigor comportamental dentro e fora do campo, não podendo admitir abusos que violam os princípios elementares dos deveres de atletas e demonstram um sentido de irresponsabilidade que, tarde ou cedo, desmantelará a atitude competitiva no campo. Resolveu-se o problema limpando o mal pela raiz. Muito bem.
Infelizmente dentro das nossas portas não é este o espírito que impera! ... e depois, esquecendo-se que o Desporto de Rendimento não é uma prática de brincar ou entretém social, admiram-se com os resultados!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

DIFERENÇAS

Próximo de Bill Beaumont, ouvi-o, inflamado, dizer-me: viste isto? Respondi-lhe que sim e que achava ter sido um gesto gratuito, despropositado e inqualificável para mais num capitão da equipa nacional. Mas também acrescentei, sem retirar qualquer das qualificações, que estavamos mais perante aparência do que realidade.

Falavamos, é claro, sobre a considerada - e assim presumida pelos  cerca de 3 mil espectadores que estavam no Estádio Universitário - cabeçada que o capitão João Correia teria enfiado a um inglês que víamos estendido no campo. Tentei explicar, porque, por mero acaso, estava a olhar para o local durante a paragem do jogo, que o gesto havia sido um estúpido mas mero encostar de cabeça. Mas o antigo capitão da Inglaterra e dos British Lions estava demasiado indignado para encarar a hipótese. E a posição de gloriosa superioridade do velho British Empire também não ajudava - um dos deles estava no chão, a torcer-se e isso bastava para a presunção. Sir Beaumont não queria ouvir mais nada.

No sábado, no Escócia-Inglaterra, o capitão inglês Chris Robshaw encostou a cabeça - igualzinho ao João Correia - ao formação escocês, Chris Cusiter. Nada se passou, ninguém caiu - e julgo que também não terá havido nenhuma particular reacção de indignação por parte de Bill Beaumont. Tão pouco qualquer exigência de verificação vídeo por parte dele ou de outro qualquer inglês assistente ao XV Português - England Students.

A diferença?

A diferença esteve apenas no carácter dos opositores!

Para um mesmo gesto, o escocês comportou-se com a dignidade exigível num momento daqueles - não estremeceu e mostrou ao que estava: para jogar sem se deixar intimidar; para um mesmo gesto, o student inglês comportou-se como um aprendiz de chico esperto da escola da rua e tentou fugir às responsabilidades atirando-se deliberada e dramaticamente para o chão, deixando aos espectadores a convicção do sofrimento de violentíssima repugnante agressão.

Resta o facto. De um gesto desajustado ao espaço desportivo de um campo de jogo o carácter de um e outro dos visados, fez a diferença essencial: João Correia, capitão da selecção portuguesa, está suspenso da actividade de jogador; Chris Robshaw, capitão inglês, vai continuar a jogar e a capitanear a Inglaterra.

Tudo por causa do outro.

sábado, 9 de julho de 2011

ISTO É RUGBY!

Numa excelente final do Super 15 entre os Reds (vencedores) e os Crusaders, dois pontos essenciais a reter:
- o comportamento. Com dois ensaios não considerados e à atenção de jogadores, treinadores e dirigentes portugueses, o comportamento dos jogadores: nem uma palavra, nem um gesto, apenas o respeito pelo cumprimento das decisões da arbitragem. No final, de novo a demonstração do respeito desta vez dos jogadores uns pelos outros: abraços e felicitações genuinamente partilhados – de um lado e de outro gostam do jogo que escolheram e não há rugby sem adversário. Não houve quesílias, amarelos ou vermelhos - e era uma Final! Excelente demonstração de espírito desportivo, de fair-play, de respeito – de novo – pelos valores que fazem do rugby uma modalidade desportiva particular. Uma lição a reter e a fazer constar onde quer que haja uma bola oval do jogo de XV contra XV.
- a assumpção do risco. Nada de calculismo à espera que a vitória caia do céu. O rugby é um jogo de ataque e é o ataque que ganha  - mesmo que se insista no contrário - e para defrontar defesas colectivamente bem organizadas é preciso imaginação, criatividade e capacidade de correr riscos para descobrir a oportunidade a explorar. É preciso confiança só possível através do treino adequado ao jogo. A pressão é altíssima, não há espaço nem tempo para jogar classicamente, o ataque tem que descobrir novas formas de exploração do uso da bola: passes heterogéneos, ângulos de corrida desequilibradores, abertura de linhas de passe no limite do tempo e a esconder atenções, leitura das formas defensivas, dos espaços do posicionamento de companheiros e adversários, recurso a todo o tipo de alternâncias possíveis. E fica a questão-chave para reflexão: como é que se formam jogadores para este tipo actual do jogo? Começando, obviamente, pela cabeça, como é que se fornecem os instrumentos e ferramentas técnicas e tácticas para construir uma estratégia eficaz na utilização do tempo e do espaço?
É na formação que estas respostas têm de ser dadas – estabelecendo os Princípios Fundamentais e adequando-os aos tempos do jogo e levando os jogadores à descoberta das soluções que as suas capacidades permitam: assumindo riscos sem receios.   

FORA DO TEMPO: neste jogo final, os jogadores protagonistas interpretaram como deve ser a máxima que o Desporto deve demonstrar:

vencer com humildade, perder com dignidade

terça-feira, 5 de outubro de 2010

VIVÁ REPÚBLICA!

Qualquer um pode cobrir-se de pele de cordeiro. Qualquer um pode, até, envolver-se na capa de moralista e julgar esvoaçar por cima de todos os outros. Pode, até, sentir-se seguro por tomar como regra universal a invenção propagandística do famigerado Goebbels de que “uma mentira mil vezes repetida, torna-se verdade”. Pode.
Mas a História tem mostrado maior certeza na aplicação do conceito de Abraham Lincoln: “Pode enganar-se algumas pessoas durante todo o tempo e todas as pessoas por algum tempo, mas não se consegue enganar todas as pessoas durante todo o tempo.”
E – para o caso que interessa – sendo o Desporto um cadinho de relações sociais, onde tudo se apressa e tudo se detecta, vale a máxima de Heywood Broun* (1888/1939): “O desporto não desenvolve o carácter. Apenas o revela.”.

Que significa isto? Porque é que o escrevo? A que propósito? Porque não sou nem espelho nem almofada seja de quem for. Tão pouco borracha dos erros alheios – chegam-me os meus com os quais sei viver. Só por isso e por ser dia da comemoração do Centenário da República cujos ideais consolidam a primazia do cidadão sobre o súbdito e do direito sobre o privilégio.

          *Jornalista norte-americano que dá o nome a prémio sobre artigos escritos que defendam a justiça para os mais desprotegidos.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

VALORES NUCLEARES

A Rugby Football Union - RFU, Inglaterra - estabeleceu, com conceitos simples mas - ao que afirmam - após muitas horas de trabalho e discussão, o seu código ético e pretende que seja cumprido em todas as categorias e por todos os agentes. Por razões óbvias - para que possa servir como exemplo - apresenta-se a sua tradução. 


CÓDIGO DO RUGBY

Espera-se que qualquer pessoa envolvida no rugby em Inglaterra, seja como jogador, treinador, árbitro, dirigente, pai ou espectador apoie os VALORES NUCLEARES do nosso desporto


ESPÍRITO DE EQUIPA
RESPEITO
DIVERTIMENTO
DISCIPLINA
DESPORTIVISMO


Jogar para ganhar – mas não a qualquer preço
Ganhar com dignidade, perder com elegância
Cumprir as Leis e regulamentos do jogo
Respeitar adversários, árbitros e todos os participantes
Rejeitar batota, racismo, violência e drogas
Valorizar voluntários bem como os agentes profissionais
Divertir-se com o jogo



ISTO É RUGBY.

terça-feira, 13 de julho de 2010

JUSTIÇA ESPERADA

Como esperava, Bakkies Botha foi castigado. Nove semanas sem poder participar em qualquer jogo de rugby é o resultado da estúpida agressão à cabeçada sobre Jimmy Cowan. E não foi preciso ser visto pelo árbitro: foi citado pelo comissário da SANZAR e tanto bastou. De nada lhe valendo os pedidos de desculpa posteriores, vai ver a totalidade do TriNations pela televisão.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

JUSTIÇA

Ao longo dos séculos a civilização construiu e estabeleceu diversos princípios comuns daquilo que hoje designámos por cidadania. Obrigando-nos, com eles vivemos e com eles conseguimos uma vida melhor, de respeito mútuo e maior harmonia, tentando garantir que os preconceitos não tomem conta do nosso quotidiano.

Um desses princípios de cidadania impõe-nos que não façamos justiça pelas próprias mãos.

Princípio que se aplica, naturalmente, ao desporto - a expressão civilizada do confronto - em geral e ao rugby em particular, cujos valores característicos assim o exigem. Nenhum jogador, passe-se o que se passar, está autorizado a fazer justiça pelas suas próprias mãos – para isso existe um árbitro e, depois, toda uma estrutura directiva – constituída por diversos órgãos institucionais – que deverá tratar do assunto de acordo com as normas e regras estabelecidas.

No recente Nova Zelândia-África do Sul, o segunda-linha sul-africano Bakkies Botta agrediu com um despropositado e desajustado golpe de cabeça a nuca do formação neozelandês Jimmy Cowan, pretendendo responder – impondo a justiça das suas próprias mãos – a um puxão de camisola. O árbitro não viu, o jogo continuou mas a televisão mostrou por diversas vezes a agressão. Dir-se-á – na distorsão típica da visão macho/marialva – que, pelo menos, valeu a pena: o outro ficou avisado… Para além da óbvia desproporcionalidade (cabeçada v. agarrar de camisola) é também óbvio o abuso e o nenhum respeito pelo espaço de confronto leal e de acordo com as regras que é o jogo. E não deve ficar impune.

Ficarei muito admirado que, dentro de dois ou três dias, não surja a notícia do castigo imposto pelas autoridades desportivas que superintendem ao Três Nações. De facto não pode valer a pena!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

PREPOTÊNCIAS

Outra pergunta que chegou: O que é que se pode pensar de uma situação assim?

Um jogador portador da bola, a disputar um jogo, tem um momento de dúvida da legalidade da acção - com o beneplácito do gesto do árbitro, continua a jogada. Qual não é o seu espanto quando tempos depois, jogada corrida, andada e esquecida, o árbitro apita, interrompe o jogo, rebobina, e manda tudo voltar a uma forma primeira de minutos atrás: gesticulando para pontapé de penalidade e expulsão do jogador. Para maior espanto, veio a saber o jogador - por ter jogado de acordo com a anuência do árbitro?! - que no boletim do jogo se propunha um inquérito disciplinar pela sua conduta

Não se deve responder a uma pergunta com outra, mas não tenho outra saída: as pessoas não estão tontas, pois não?

terça-feira, 11 de maio de 2010

A BORRACHA DA MUDANÇA?

Um amigo enviou-me um mail com uma pergunta: se um jogador for castigado neste final de época e se o cumprimento completo desse castigo só for possível na próxima época, mudando ele de clube o castigo desaparece e, assim, não sendo mais necessário cumpri-lo, pode jogar desde logo pelo seu novo clube ou, pelo contrário, tem que cumprir o castigo na sua nova equipa?

Respondi-lhe com o que penso: que, por razões de decência ética, a interpretação só poderia ser a de cumprir o que restará do castigo na sua nova equipa. Não vejo, aliás, que possa ser de outra maneira - a interpretação do desaparecimento do castigo não representaria outra coisa que não a subversão do sistema disciplinar federativo.

sábado, 24 de abril de 2010

UMA FINAL, UMA FESTA

(o desenho é da autoria da minha amiga Cristina Menezes)

Hoje disputa-se a Final do principal Campeonato do rugby português. Espera-se um dia de festa. Mesmo sabendo que haverá vencedores e vencidos: uns mais contentes que outros; uns mais tristes a maldizer o erro, a falta de lucidez, a indecisão; os mais contentes a deixar para trás tudo o que foi desperdício, mau jogo ou falhas. É assim, uns e outros vítimas da sorte do jogo.

O que se espera - o que eu espero - é que seja uma FESTA! Um bom jogo, divertido de ver, interessante, emotivo de vencedor inesperado até ao final.

O que se espera - o que eu espero - é que, ao contrário do ano passado (uma mesma final entre as mesmas equipas), impere o fair-play dentro e fora do campo. E que o árbitro não seja o sujeito de toda a sorte de insultos a traduzir a enorme culpa das incapacidades das equipas e das frustrações dos espectadores.

Um jogo é um jogo - tem sortes. Numa final alguém perde e alguém ganha com mais e menos justiça. É assim: faz parte do jogo. Faz parte do interesse do jogo que, vivendo também de outros interesses - soluções tácticas colectivas, de mini-unidades, de oposição do forte ao fraco, de diversas inteligências, de acutilâncias técnicas - vive muito da emoção.

Emoção e razão, dois ingredientes essenciais para que a tarde seja interessante. Deixar correr o sentimento de pertença mas adoçá-lo com a razoabilidade cívica - para um gozo maior: porque se um perde é porque o outro terá feito qualquer coisa para ganhar. O mérito há-de lá estar, bastará querer ver.

Aos jogadores das duas equipas, Agronomia e Direito - muitos deles internacionais e habituados aos grandes palcos da tensão e da pressão competitivas - os meus votos para que possam deixar fluir as suas capacidades e provoquem um bom jogo. Ao árbitro,Pedro Murinello - também ele antigo jogador internacional - os votos de uma tarde acertada e de boa arbitragem.

O que se espera - o que eu espero - é que o jogo seja BOM!: bem jogado, bem disputado e em bom clima. Que seja uma FESTA do RUGBY!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ACUSAÇÃO IRRESPONSÁVEL

O Código do Jogo atribui – em Princípios do Jogo/ Espírito - a treinadores, capitães de equipa, jogadores e árbitros a responsabilidade do Rugby ser jogado de acordo com a letra e os espírito das Leis do Jogo. O que significa que o cumprimento da ética, do desportivismo e da boa-educação é responsabilidade de todos os participantes no jogo.

Contrariando este princípio, o treinador do Belenenses, Francisco Borges, justificou, para o som e imagem da SPORT TV, a derrota da sua equipa com Direito (24-13) assim: “Eu acho que foi uma arbitragem vergonhosa de um árbitro que tem qualidade. Não quis demonstrar esta qualidade hoje em campo. Não sei porque razão, prejudicou deliberadamente o Belenenses. Sem tirar mérito ao Direito, acho que o Belenenses foi prejudicado por uma arbitragem vergonhosa que como há muito eu não via no rugby português. Vergonhoso!”

Não foi esta a opinião que os responsáveis pelos comentários na SPORT TV deixaram no ar. António Henriques disse: "Não me parece que Rohan tenha feito uma arbitragem má, quanto mais vergonhosa…”. Luís Claro, confirmou: “Roham Hoffman, no meu ponto de vista, faz uma arbitragem capaz.”.

Pessoalmente também não acho que a arbitragem de Rohan fosse vergonhosa, tão pouco que tenha havido prejuízo do Belenenses e que o putativo deliberadamente tivesse sequer existido. Mas já acho que as afirmações do treinador do Belenenses são deslocadas, indecorosas e abusivas. E que consubstanciam uma grave e ilegítima acusação.

Se um treinador pode discordar da arbitragem e dos seus critérios, se pode, até, entender que algumas das decisões da arbitragem terão sido prejudiciais para a sua equipa, já não pode – de maneira alguma – pôr em causa, sem qualquer prova, a dignidade de um árbitro, declarando que eventuais prejuízos foram deliberadamente provocados. Que, no fundo, serviriam interesses inconfessáveis. E não pode porque, ao fazê-lo e não mostrando provas, está, ao colocar uma enorme suspeição no ar, a atingir todo o sistema da modalidade e, ao contrário do que julgará, a prestar-lhe um péssimo serviço. E um treinador responsável não tem este tipo de comportamento – quaisquer que sejam as frustrações das suas expectativas. Uma acusação desta natureza, nos termos e circunstâncias em que foi feita, é irresponsável e inadmissível.

Rohan Hoffman é um antigo e exemplar jogador internacional por Portugal. Hoje é um árbitro internacional também por Portugal. Merece mais respeito e maior tempero na linguagem.

Claramente o Belenenses não perdeu o jogo e a impossibilidade de se qualificar para a final do campeonato por causa do árbitro. Perdeu por culpa própria!

No início do jogo, marcando um ensaio – que colocava a diferença de pontos entre as equipas em 9 – e com o vento favorável, tudo parecia decidido. Mas era preciso inteligência táctica para o conseguir. Que não teve e, pelo contrário, teve erros. Que pioraram quando Direito mudou de médios e alterou o até então jogo previsível com que se vinha apresentando. Faltas desnecessárias, decisões erradas, erros primários sucederam-se e Direito limitou-se a aproveitar o pontapé curto mas certeiro de Pedro Leal que, quase no final, aproveitou ainda dois ataques pelo lado fechado para explorar a incompetência defensiva belenense e marcar os dois ensaios que garantiram a vitória absoluta à sua equipa.

Jogo perdido por culpa do árbitro? Nem um pouco! O jogo foi perdido porque o Belenenses não soube ”segurar” a diferença, jogando pelo seu ponto forte – um cinco-da-frente de boa categoria – porque decidiu mal em momentos importantes – optando por pontapés aos postes em vez da conquista de terreno – e ainda, porque a isso juntou erros técnicos e tácticos. Como pode uma equipa pretender ganhar um campeonato se não sabe organizar a defesa do “lado fechado”?

E a culpa é do árbitro?!...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

AINDA A DATA DAS ELEIÇÕES

A vinda a público do Presidente da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Rugby (PAG) para explicar a sua escolha da data eleitoral é gesto que se saúda. É um bom princípio. Para além de nos dispensar da informação do “Esclarecimento sobre a convocação de eleições” da autoria do candidato pela oposição que, julgo - por não lhe competir marcar ou convocar mas apenas concorrer - é perfeitamente descabido.
No entanto a Breve nota sobre o fundamento [...] do PAG, fundamenta pouco – até pela confusão que estabelece entre pretensos compromissos de terceiros com pretensas decisões da nova AG – e não muda a opinião que mantenho: a decisão de marcação da data é irresponsável!

Porquê? Porque – desviando as atenções do essencial para o mundo dos pequenos interesses – perturba aquilo que é o objectivo actual mais importante do rugby português: o apuramento para o Mundial da Nova Zelândia. E essa perturbação pode ter consequências graves como é exemplo a imensa perplexidade provocado pela gratuitidade do recurso à frase-assassina“A selecção nacional é um projecto pessoal de Tomaz Morais” – proferida pelo candidato da oposição. O clima está toldado, como seria previsível acontecer. E, claramente, o cumprimento escrupuloso dos deveres que lhe foram confiados que reivindica o PAR, deveria traduzir-se – uma vez que estatutariamente nada o obrigou – no bom senso da marcação das eleições para o final da época. O resto é retórica.

Como é retórica essa estória dos clubes em vias de definhar por uma política de destruição de clubes. O eventual definhamento de clubes – de que vejo apenas a consequência prática de resultados competitivos muito maus – traduz a prática interna de cada um (até há quem definhe cheio de estrangeiros…) e a falta de análise e percepção das causas. Mas a solução não será nunca encontrada com a aplicação da receita do “caranguejo português” – puxar para baixo quem quer subir. A solução estará sempre no questionamento da sua envolvência e participação – tipo/qualidade/existência de formação, qualidade dos treinadores, organização interna, lutas intestinas, objectivos, interesses, etc., etc.

Conhecendo os seus pontos fortes e fracos, estabelecendo uma visão realista das capacidades, percebidas as necessidades, perspectivando caminhos possíveis e estabelecida uma estratégia de concertação, será então altura de apresentar à Federação um plano e uma programação, procurando obter – dentro dos meios disponíveis e dos planos aprovados – os possíveis apoios necessários. E deverá ser assim porque, não sendo os clubes todos iguais, também não há receituário comum – não pertencem ao mesmo mundo clubes que têm atletas que treinam por dia um determinado número de horas e clubes que treinam essas mesmas horas por semana.

Quer dizer que não podemos todos jogar rugby? Não! Quer precisamente dizer que todos podemos jogar – mas ao nível das nossas capacidades e com a maior equidade possível.
Se olharmos para o resto do mundo – aquele mundo que tem cultura desportiva e rugbística desenvolvida – veremos que as diferenças perante distintos objectivos, condições e capacidades, estão definidos: de um lado a elite do alto rendimento; do outro, o conjunto de equipas que se posicionam no rugby de lazer, do jogar por puro entretenimento (o modelo francês, mesmo com enorme área de rugby amador, ao exigir uma massa crítica impossível para nós, é impraticável).

É errado tomar o conceito de clube como um todo homogéneo e ignorar as diferentes expressões desportivas. Deve falar-se de clubes conforme as suas capacidades e perspectivas competitivas. Agrupando-os por afinidades e procurando, cada vez mais, encontrar novas formas de enquadramento de competições diferentes do já gasto modelo actual e que se adequem às realidades associativas. Porque só assim é possível fazer progredir a competição e aumentar o número de praticantes da modalidade. O tudo no mesmo saco da treta demagógica de pretensos direitos e igualdades competitivas, para além de confundir e nivelar negativamente objectivos, impede a procura da excelência.

Lembro de novo: o único compromisso a honrar por um Presidente da Assembleia Geral diz respeito à garantia da correcta aplicação dos estatutos. Actuando sempre que eles estão em causa ou que uma eventual crise grave esteja em vias de desacreditar a modalidade ou a instituição. O resto, também aqui, é retórica.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

RUGBY, UM JOGO PARA GENTE BEM-EDUCADA



Nós, gente do rugby, gostamos, mostrando o diferente que nos sentimos, de publicitar a definição do jogo no conceito “um jogo de rufias jogado por gente bem-educada” – já não por cavalheiros porque, como também sabemos, os homens não são únicos na modalidade.
E há toda uma profunda razão para o definirmos assim. Desde sempre o jogo de rugby tem uma ética própria subordinada a um conjunto de valores que se estabelecem no seu “Código do Jogo”. De facto, existe toda uma maneira de estar que se pretende diferente e tradutora de uma cultura distinta em que o respeito, o “fair-play”, o espírito colectivo de equipa, o companheirismo, a abnegação, a boa educação constituem algumas das componente de valores e atitudes que formatam a envolvente do jogo.
E assim sendo, é natural que possamos utilizar, com orgulho, a marca da diferença – um amigo meu, médico e frequentador internacional de estádios de futebol, viu, pela primeira vez, um jogo de rugby no França-All Blacks do centenário da FFR: não julgava possível, dizia, a confraternização permanente entre os espectadores adversários que o rodeavam. Espantado, tornou-se adepto.
Mas se pretendemos sê-lo, devemos, no mínimo, parecê-lo. E o que se passa à volta dos nossos campos em dia de jogo não pertence a este mundo idílico que pretendemos transmitir aos de fora. Espectadores, antigos jogadores na sua maioria, insultam árbitros e adversários, chamam nomes a quem bem querem e comportam-se como rufiotes numa constante demonstração arruaceira, deixando - para inglês ver – a proclamação da pretendida boa educação.
O jogo de rugby não é fácil de gerir. Os árbitros, como os jogadores, têm dificuldades na análise da sequência pela rapidez da acção e pelo número de intervenientes. Mas próximos e se pertencentes ao mesmo patamar, vêem melhor e analisam quase sempre melhor. E, na grande maioria dos casos, tomam a decisão correcta e são os espectadores que, ignorantes da Lei, protestam violentamente, impondo a emoção à razão, pressionando para que a sua cor, apesar de faltosa, deixe de ser “roubada!”.
Nada deste comportamento se justifica ou ajuda o rugby português no seu desenvolvimento e progressão. Pelo contrário: desfocaliza jogadores, pressiona treinadores e árbitros de forma desadequada, retira lucidez aos intervenientes e transforma o jogo num espectáculo nada dignificante e que só diminui o campo de influência da modalidade.
Precisamos de melhorar todos os dias o rugby que se joga em Portugal. Para o que necessitamos de melhores treinadores, melhores jogadores, melhores árbitros, melhores dirigentes. Numa vontade que dispensa claramente os piores exemplos da Blood, Sweat and Beers de antanho.
E se, em vez deste comportamento trauliteiro e para começar o novo ano, fizéssemos um esforço para aprender as Leis do Jogo e a sua aplicação prática? Um esforço para que os treinadores fossem exigentes com os seus jogadores, educando-os de acordo com as Leis do Jogo; um esforço dos dirigentes para imporem o rigor das Leis do Jogo nas equipas dos seus clubes e decente comportamento aos seus adeptos; um esforço dos espectadores para que se comportassem como gente bem-educada. E se não há, como também sabemos, jogos sem árbitros e para um futuro com tudo a correr pelo melhor, porque não tentar uma parceria: criar o hábito de convidar os árbitros para se treinarem semanalmente com os diversos clubes.
Talvez assim pudéssemos fazer compreender a marca da nossa diferença: no Rugby, a vitória, sendo importante, não é o mais importante; o mais importante é poder pertencer a uma comunidade muito especial – a comunidade rugbística.
Lisboa, 1 de Janeiro de 2009

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