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quinta-feira, 7 de março de 2024

18 INTERNACIONAIS ANTIGOS ALUNOS HOMENAGEADOS


Os 18 internacionais Antigos Alunos do Colégio Militar

No intervalo do Portugal-Espanha — 1/2 final do European Championship — realizado no Estádio do Restelo a 3 de Março, dia do 221º aniversário do Colégio Militar — os 18 internacionais Antigos Alunos do Colégio Militar — qie se identificavam por uma credencial diferenciada — foram homenageados pelo Presidente da Federação Portuguesa de Rugby, Carlos Amado da Silva. De facto ter 18 Antigos Alunos de uma escola que nem sequer tinha o rugby como uma das suas práticas desportivas traduz, para além de ser um número que coloca o Colégio Militar num dos lugares do topo da tabela de estabelecimentos mundiais de ensino médio, é também uma demonstração da notável e variada formação desportiva do seu programa escolar que permitiu a rápida adaptação à modalidade escolhida.
Ouvindo as palavras de reconhecimento do Presidente que elogiou quer os 18 internacionais quer o Colégio Militar pelo carácter grandioso da relação com o rugby português, receberam, para além de um diploma alusivo ao acto, uma “gravata de internacionais” — que alíás não existia ao tempo destas internacionalizações — enquanto se ouvia pelos altifalantes do Estádio do Restelo o locutor de serviço a dizer o texto que segue:

O Colégio Militar tem uma tradição de elevada formação desportiva que já foi reconhecida pelo Comité Olímpico Internacional com a atribuição do Troféu COI. Comemorando hoje o seu aniversário que data de 3 de Março de 1803, dia deste Portugal-Espanha, decidiu a Federação Portuguesa de Rugby homenagear os seus 18 Antigos Alunos que representaram Portugal e o seu Rugby e têm o estatuto de jogadores internacionais. São eles:
    • Carlos Pardal (100/1947)
    • Manuel Ponte (384/1954)
    • Luis Matos Chaves (195/1954)
    • Pedro Lynce (21/1954)
    • Luís Lynce (27/1957)
    • Nuno Lynce (490/1958)
    • João Paulo Bessa (200/1957)
    • Francisco Lucena (405/1959)
    • António Duque (12/1958)
    • Carlos Moita (392/1965)
    • Olgário Borges (354/63)
    • Duarte Lynce (446/1970)
    • Carlos Ferreira (398/1964)
    • Vasco Lynce (21/1960)
    • Ricardo Durão (23/1970)
    • António Moita (214/1971)

Fazem parte ainda deste grupo de Antigos Alunos Internacionais os já falecidos Júlio Faria (219/1954) e José Spínola (539/1963) que recordamos com saudade. Que descansem em paz.

Estes 18 Antigos Alunos internacionais, numa interessante distribuição, representaram os clubes Académica, Agronomia, Arcos de Valdevez, Belenenses, Benfica, Cascais, CDUL, CDUP, Direito, Medecina e Técnico,

Tendo ainda sido quatro deles, Pedro Lynce, João Paulo Bessa, Olgário Borges e Vasco Lynce Seleccionadores-Treinadores do XV principal de Portugal. Para estes internacionais que tão bem representaram as tradições desportivas do Colégio Militar e a qualidade do Rugby Português pedimos uma calorosa salva de palmas.

VIVA PORTUGAL! À VITÓRIA!”


Após o intervalo voltámos para os nossos lugares na bancada para vermos o volte-face de 13-20 para os 33-30 da vitória dos Lobos a garantir um dia de boas memórias.


No final, retorno aos camarotes para a fotografia recordatória do grupo e a terminar num ZACATRÁZ de saudação e lembrança dos já falecidos.




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

BARRY “THE KING” JOHN (1945/2024)

Barry John, “The King” e provavelmente o melhor abertura de sempre

Com 79 anos faleceu Barry John, cognominado, pela sua classe, “The King” e provavelmente o melhor abertura de sempre do rugby mundial. Para além da memória que nos deixa da clareza da sua leitura do jogo encontrando os desequilíbrios defensivos que permitiam à sua linha de três-quartos explorar a eficácia da sua qualidade, da sua capacidade de evitar, pela variedade, as estratégias defensivas adversárias e ainda pela enorme qualidade  no seu jogo-ao-pé nomeadamente nos pontapés aos postes, a sua lembrança é intemporal.

Com Gareth Edwards formou uma dupla de médios inesquecível. E a esse propósito deixou-nos uma frase que define a estrutura de uma parelha eficaz. Naquele tempo — 1967— as selecções nacionais que disputavam o Cinco Nações não tinham treinos de equipa (questão de manter o amadorismo no seu estado mais puro) e Barry John e Gareth Edwards conheceram-se na manhã do seu primeiro jogo internacional. Gareth Edwards fez-lhe a pergunta natural: “Como queres a bola?” para Barry John responder de imediato: “Atira que eu agarro!”. Resposta que, desde logo, demonstra um profundo conhecimento do jogo ao indiciar que sendo o médio-de-formação o elemento que estará sob pressão compete ao receptor adaptar-se da melhor forma possível, facilitando o canal de passe e retirando toda a pressão ao passador, deixando-o apenas com a necessidade de fazer o melhor possível dadas as circunstâncias do momento.

Também no jogo ao pé outra frase sua marca a táctica do jogo-ao-pé: “Vamos lá mostrar os números que trazem nas costas!” significando com isto que o jogo-ao-pé tacticamente eficaz é aquele que obriga os adversários defensores a recuar no terreno e de costas para os atacantes. Conseguindo assim três factores importantes para a perturbação defensiva adversária: conquista de terreno; dificuldades na adaptação à surpresa que o correr de costas para os atacantes sempre provoca; aumento da dificuldade da construção do apoio para os receptores, significando que, assim, a conquista de terreno se pode tornar efectiva e com o retorno da posse da bola.

A oportunidade de ter visto nas transmissões televisivas Barry John na sua melhor expressão rugbística permitiu-me perceber melhor o jogo e a memória dos seus ensinamentos perdurará sempre no meu entendimento do jogo. Rest in peace, dear Barry, The King, John.

Nota: Esta é a versão que conheci desde sempre. No entanto pude ler agora e na versão — bem mais picaresca — do próprio Gareth Edwards publicada no WalesOnline, a descrição da situação, num artigo de homenagem ao seu amigo de uma vida — Ele nunca, nunca será esquecido — e que levou à imortal frase. Assim a conta;

“Jogamos um contra o outro num Prováveis/Possíveis em Maesteg em 1966 e fomos ambos convocados para os Prováveis num novo teste no início de 1967. Éramos então ambos estudantes — ele no Trinity College em Carmarthen e eu no Cardiff Training College — e telefonei-lhe para sugerir que nos deveríamos encontrar antes de jogarmos juntos.

Eu tinha carro e fiquei satisfeito por guiar desde Cardiff e assim o encontro ficou marcado para um campo de Carmarthen. Quando cheguei ao Trinity College, Barry não estava encontrável em parte alguma. E aí estava eu, parecendo imaculado no meu fato-de-treino verde da faculdade, botas na mão e pronto para a acção. Mas Barry aparentemente tinha-se esquecido do nosso encontro.

Cruzei-me com alguém que conhecia e ele disse-me que tinha visto Barry numa divertida festa na noite anterior. […] Quando ele finalmente apareceu, parecia um pouco desatinado e não tinha botas, apenas ténis.

Eu estava preocupado com o meu passe porque todos diziam que não era muito bom e por isso fizemos alguns lançamentos. Ele escorregava por tudo quanto é sítio e no final aproximou-se e disse a frase imortal: Gar, you just play and I get it!”. E assim fizemos desde então.”

(tradução livre).

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

JPR WILLIAMS FALECEU (1949/2024)


Com 74 anos faleceu John Williams, o extraordinário jogador JPR — uma referência mundial como nº15 (e como eu estudava a sua maneira de jogar…) — capitão e internacional por Gales em 55 vezes naquela que foi a melhor equipa galesa de sempre e, em 1971 e 1974,  jogou 8 vezes pelos Lions. Médico — cirurgião ortopédico — teve grande responsabilidade, expressando a sua solidariedade profisional, na criação de programas para tratamento de rugbistas lesionados.

Tendo jogado pelo clube de Bridgend, sua terra natal, e do qual foi recentemente Presidente, seguindo as pisadas de seu Pai, jogou também pelo London Welsh e fez parte dos Barbarians — jogou o célebre jogo contra os AllBlacks em 1973 ver aqui — e recebeu o MNE em 1977 pelos serviços prestados ao Rugby.

Casado com Scilla, que também conheci e de quem lembro a frase na subida das escadas do Estádio Nacional do Jamor depois de lhe ter proposto ir de carro: — “Os joelhos vão ficar a doer-lhe, mas meteu-se-lhe na cabeça que subiria as escadas para ir ao camarote presidencial. Ele é assim…”e sorria. 

JPR deixa-nos uma saudade imensa guardada nas memórias do seu jogo — a maior parte das vezes com as meias caídas — e do seu espírito guerreiro, batalhador, competitivo e inventivo por cada camisola que envergava — um autêntica muralha defensiva com placagens memoráveis a que juntava uma notável capacidade atacante enquanto um dos grandes transformadores do conceito da posição de defesa. 

John Peter Rhys Williams, o JPR, foi uma demonstração permanente  do carácter que marca um fora-de-série deste nosso desporto de combate. Guardaremos na memória os seus grandes momentos como. aqui



terça-feira, 5 de abril de 2022

MIGUEL NOBRE FERREIRA: HOMENAGEM MAIS QUE MERECIDA

 Com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o Grupo Desportivo de Direito prestou uma justíssima homenagem ao Miguel Nobre Ferreira, atribuindo o seu nome à sua infraestrutura desportiva que passa a designar-se por: Complexo Desportivo G.D. Direito Miguel Nobre Ferreira. Bonito e muito merecido!


Conheci o Miguel Ferreira dentro do campo de Rugby - ele a jogar pelo Direito e eu pelo CDUL 

Mais tarde, treinava eu, por convite do Duarte Leal, a selecção de Juniores e o Miguel convidou-me para treinar a equipa principal de Direito. Juntei-me então ao grupo que treinava no Estádio Universitário de Lisboa e tinha na Rua do Salitre, próximo da Avenida da Liberdade, a sua sede e local dos nossos encontros com as cervejas. Treinei o Direito de 1980 a 1988 em 8 anos divertidos, de excelente espírito e onde realizei uma óptima aprendizagem de treinador — como não dava para ganhar campeonatos, colocámos os objectivos no aumento do número de internacionais do Clube (e conseguimos, numa aposta a que os jogadores aderiram, uns quantos… que iriam ajudar a equipa a crescer) — e criei amigos suficientes para entender o clube também como minha casa que se prolonga ainda pelos dias de hoje.

O sonho do Miguel estava a nascer nessa altura e a ideia de um Monsanto já andava na sua cabeça. Com o terreno, que é o de hoje, já filado e com boas perspectivas de se tornar no campo do clube, havia que mostrar o pretendido e manter a pressão.

Pediu-me se faria o anteprojecto para o Clube. Assim desenhei, sob o olhar sempre vigilante, amigo e atento do Armando Fernandes: balneários, bancadas, sala/bar/convívio, varanda para camarote presidencial, espaços de arrumação de materiais, etc., etc. Ou seja tudo aquilo que faria do espaço de Monsanto cedido, um espaço desportivo de boa qualidade… depois se veria como arranjar o dinheiro… que nunca foi o suficiente para o projecto inicial pretendido mas foi o suficiente para criar um campo onde o Rugby se treinava e jogava.

Uma noite nesses anos de esperança, Kruz Abecassis, então Presidente da Câmara de Lisboa, foi, com prévia combinação do Miguel, visitar-nos  à sede do Salitre. O Miguel deu as explicações necessárias sobre as necessidades e sobre as vantagens para Lisboa e sua juventude da existência de um novo campo dedicado ao Rugby. Eu, apresentei e expliquei o projecto com as folhas desenhadas penduradas na parede. Kruz Abecassis gostou do que ouviu e viu e o sonho do Miguel ficou ali lançado…

… e começou a construção com a passagem do sonho à realidade das dificuldades físicas e financeiras e com o Miguel a encontrar soluções — e conhecimentos — para ultrapassar todas as dificuldades.

Dar o nome de Miguel Nobre Ferreira ao que é hoje um esplêndido espaço de prática desportiva que a perseverança do Luís Filipe Morais, actual presidente do Clube, continuou e desenvolveu, é da mais elementar justiça para lembrar o legado que fica para novas gerações que, nas idas e saídas dos balneários, podem perguntar-se quem será este Miguel Nobre Ferreira ali no murete, ouvindo — mais tarde ou mais cedo — a resposta: é o fundador do que é hoje o Campo do Direito. O nosso campo!

Parabéns e obrigado Miguel Nobre Ferreira pela tua visão, esforço e teimosia mostrada num entendimento que qualquer negativa não passava de um ligeiro atraso, ultrapassável na próxima tentativa. Muito obrigado, Senhor Advogado!


quinta-feira, 24 de março de 2022

IMPACTO ALLBLACK

Embora atento, continuo muito mais preocupado com a guerra provocada na Ucrânia pela assassina invasão russa determinada por Putin, do que com o Rugby e os seus jogos.

Refugiada ucraniana na fronteira da Polónia que espero possa voltar
para a sua cidade e para a sua casa e família

Assim, a todos aqueles que com notável coragem, denodo e resiliência têm lutado e resistido aos invasores, defendendo as suas cidades e a sua terra e permitindo que mulheres e crianças possam atingir os mais seguros países fronteiriços, deixo a minha profunda homenagem e solidariedade.

PAZ!



quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

O QUIM PEREIRA FAZIA ANOS HOJE

O Quim fazia hoje 84 anos. Infelizmente, deixou-nos antes de o podermos comemorar...

Tive com o Quim uma relação de profunda amizade construída na relação de jogadores de uma mesma equipa — CDUL —e com uma mesma visão rugbística, entre o treinador que ele era e o jogador que eu fui e entre o treinador que sou e o jogador que ele foi. Ou seja: jogamos juntos, ele foi meu treinador e eu fui seu treinador num ciclo invejável. A sua última selecção foi, comigo a seleccionador, contra a Espanha em 1984 — tinha então 46 anos! E jogou pelo CDUL até aos 50. Uma força da natureza.

E tivemos diversas aventuras nas viagens pelo país fora. Numa delas, numa vinda de um jogo em Coimbra já depois do jantar e de uma cervejolas no clube, ficámos sem gasolina no carro — o Quim tinha-se esquecido de verificar o depósito... Já era noite e com o carro parado na estrada, só víamos faróis aos quais acenávamos a ver se alguém parava... Parou um e quando explicávamos que éramos dos rugby e tínhamos ficado sem gasolina ouvimos um "Do Rugby?! Você é o Quim Pereira, não é?" e tivemos a oferta do Joaquim Meirim, treinador de futebol, que, com toda a simpatia, nos disponibilizou toda a gasolina que precisássemos. Uma sorte!

Recordo também e sempre os seus telefonemas quando estava na tropa: “Podes vir jogar no domingo?”. E quantas vezes, de serviço, mas com o apoio do “sargento-de-dia” vinha de Tancos a Lisboa numa ida-e-volta com jogo pelo meio. Belos tempos passados em treinos, em viagens, em jogos, em recuperações à mesa e sempre com o Rugby como tema.

O Quim foi, no rugby português e numa longevidade ímpar, um “homem dos sete ofícios”: jogador internacional, formador de centenas de jogadores, jogador-treinador, treinador-jogador, treinador de selecções jovens, adjunto de selecções nacionais.

Como jogador, foi 17 vezes internacional a ponta, terceira-linha e pilar (a ponta foi uma maldade que lhe fizeram: como era grande e forte podia parar os “monstros” dos romenos...). No CDUL, onde participou na conquista de 11 campeonatos nacionais,  tinha a qualidade de obrigar os companheiros a darem o seu melhor nem que fosse com uma palmada disfarçada — pedagógica, dizia — numa qualquer molhada, de “agressão do adversário” — “Então já te deram e tu ficas-te?!” perguntava com um ar mal disfarçado de brincadeira. E nunca saiu do campo zangado fosse com quem fosse.

Nuns tempos em que ainda havia muito de “postes às costas”, o Quim Pereira foi, pelos processos e métodos utilizados, um modernizador do rugby português. Com ele houve um salto do “vamos lá
jogar” para uma organização relacionada com o Desporto de Rendimento que o Rugby português haveria de percorrer. 

O Rugby Português em geral e o CDUL em particular devem muito ao Quim. O CDUL porque foi ele que, durante anos e alguns deles muito difíceis no pós-revolução de Abril, o manteve vivo, na permanência como clube rugbísticamente qualificado. A sua mala do carro foi, ao longo de anos, a secretaria do clube. Aí se guardavam todos os documentos como as fichas e licenças dos jogadores, os equipamentos e as bolas. Em dia de jogo era, depois de ter passado na lavandaria e de definir a equipa, abrir a mala, retirar as licenças, preencher o boletim-de-jogo, distribuir os equipamentos, pegar nas bolas, fechar o carro e ir para o campo para jogar. Mas os trabalhos do Quim não acabavam aqui, se ao sábado eram seniores, ao domingo eram juniores. E os treinos, para uns e outros e numa sequência constante, eram quase todos os dias da semana...Uma vida dedicada ao Rugby.

Nuns tempos em que ainda havia muito de “postes às costas”, o Quim Pereira foi, pelos processos e métodos utilizados e para além do contributo para a formação humana, desportiva e cívica de centenas de jovens, um modernizador do rugby português. Com ele houve um salto do “vamos lá jogar” para uma organização relacionada com o Desporto de Rendimento que o Rugby português haveria de percorrer.

Para o Rugby, o Quim Pereira não morreu, mantém-se e manter-se-á vivo na nossa memória como um dos mais distintos praticante e educador. Um inesquecível!

Tão inesquecível que o seu nome — Quim Pereira, assim dito e assim escrito — deveria ser dado ao novo Campo 2 do Estádio Universitário.

(A base deste texto foi publicada neste blog em 12/04/2019 quando da sua condecoração pelo Governo português com a Medalha de Mérito Desportivo)

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