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quinta-feira, 26 de setembro de 2024

FIJI VENCE PACIFIC NATIONS E OS LUSITANOS ESTIVERAM MAL


Com a vitória, por um ponto de diferença— num jogo com ensaios muito bem construídos e com o falhanço da penalidade de Mannie Libbok no último minuto de jogo — da Argentina sobre a África do Sul que, aliás, jogou sem sete habituais titulares seguindo a tese de Erasmus de garantir 30 jogadores do mesmo nível para conquistar o Mundial da Austrália, a Irlanda passou de novo para o 1º lugar do Ranking da World Rugby. 

Derrotando, pela primeira vez numa mesma época, os três grandes do Sul, a Argentina sonha agora com a hipótese de vitória na Championship — precisa de uma nova vitória sobre os Springboks, marcando 4 ensaios e não permitindo o ponto de bónus defensivo aos sul-africanos. Nada fácil mas como sonhar não é proibido…

Derrotando, fora e por 3 pontos de diferença, a Austrália, a Nova Zelândia espera, para poder chegar ao 2º lugar da Championship, que o filme do jogo Springboks-Pumas seja diferente do sonho argentino e tenha uma vitória sul-africana e que vença de novo e no Sky Stadium de Wellington, a Austrália.

Fiji, derrotando o Japão por expressivos 41-17 (24 pontos de diferença), venceu o Pacific Nations enquanto que Samoa, vencendo os Estados Unidos por uma diferença de 6 pontos, classificou-se em 3º lugar.

Com estes resultados o Ranking da World Rugby e para além do já assinalado acesso da Irlanda ao 1º lugar mas que o poderá perder se houver um empate no jogo do Mbombela Stadium, sofreu alterações — troca da Escócia com a Argentina, de Fiji com a Austrália e de Samoa com o Japão — que abrem enormes expectativas para os jogos internacionais deste Outono.


Na Super Cup europeia e depois de uma vitória sobre os espanhóis ditos Iberians, os nossos Lusitanos defrontaram os georgianos dos Black Lions e viram-se derrotados por 38-14 depois de terem estado a perder por 38-0 no final do terceiro-quarto do jogo, sofrendo 6 ensaios. Mais uma vez os Lusitanos mostraram os defeitos do rugby português que parece distraído destes permanentes erros competitivos: os portugueses fizeram faltas infantis que permitiram entregas grátis de terreno que só podem ser explicadas por uma de duas razões: ignorância das Leis do Jogo ou desconcentrações negligentes e desadequadas à importância do jogo. E assim não é possível!

Por outro lado, os portugueses continuam a não ser capazes de atacar próximo da linha-de-vantagem, dando, com o terreno que entregam, toda a vantagem à defesa adversária que, para além de conquistar terreno, entrega uma superioridade numérica que torna a defesa mais capaz. E perceber isto, esta geografia táctica de terreno, não é dificil desde que se percebam os Princípios Fundamentais do Jogo e que, longe de viver das habilidades individuais, o Rugby é um exigente jogo-colectivo que impõe a coordenação e adaptação entre todos os membros da equipa. E os portugueses não o fazem!

Para além desta incapacidade, os Lusitanos mostraram-se incapazes de realizar movimentos e suas alterações — linhas-de-corrida convergentes e divergentes, combinações falsas e verdadeiras de dobras, cruzamentos e jogo-ao-pé alternado em rasteiro e balão, tirando o melhor partido da nova lei de fora-de-jogo e garantindo um mínimo de conquista de terreno— que desequilibrem a defesa e abram intervalos por onde se pode atingir a área-de-ensaio. E a isto é necessário juntar o reconhecimento de que a conquista de terreno é fundamental para aumentar a pressão sobre os adversários.
 
Temos que nos lembrar que temos um Campeonato do Mundo onde pretendemos estar presentes e que isso, implicando a coesão de clubes, treinadores, árbitros e selecções, não permite distrações.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

FIJI-JAPÃO NA FINAL DO PACIFIC NATIONS CUP


Na penúltima jornada a África do Sul — a quem falta apenas uma vitória para vencer o Championship — jogará contra os Pumas na Argentina. Com uma previsão de vitória por 16 pontos de diferença, será o mais provável embora a Irlanda esteja a fazer figas a pedir uma derrota dos Springboks para voltar ao 1º lugar do ranking mundial. Jogando às nossas 22 horas deste sábado, próximo da meia-noite já saberemos se o pesado sonho irlandês abriu uma brecha e se tornou realidade.

Na Austrália, AllBlacks e Wallabies juntam ao jogo oficial a disputa anual da primeira mão da tradicional Bledisloe Cup com o favoritismo, embora jogando fora, a cair nas mãos dos neozelandeses. e se assim fôr, os tempos actuais dos australianos confirmarão, mais uma vez, as suas actuais incapacidades competitivas (lembre-se a recente derrota contra os Pumas por 40 pontos de diferença…)

No Pacific Nations Cup, Fiji vai disutar a final com o Japão enquanto o 3º e 4º lugares se disputarão entre os Estados Unidos e Samoa que surgirão como favoritos. Na final o favoritismo vai para os fijianos que, pela previsão, poderão ganhar por 16 pontos de diferença. No entanto e nos jogos recentes desta taça, ambas as equipas venceram os seus três jogos, marcando ambas 13 ensaios — o que permite perspectivar um jogo interessante de resultado imprevisível até ao fim, tudo dependendo da capacidade defensiva japonesa e da sua capacidade física para garantir que manterão a pressão suficiente durante um tempo de jogo que se prevê de grande intensidade. 

No mesmo dia de hoje continua a disputar-se o Rugby Europe Super Cup com os Lusitanos, no Jamor, a receberem os georgianos Black Lions. Tendo ambas as equipas derrotado a Espanha — os portugueses por 36-18 com a marcação de 5 ensaios e conquistando assim 1 ponto de bónus ofensivo e os georgianos com uma mais folgada vitória — também com um ponto de bónus ofensivo com 8 ensaios marcados — traduzida num resultado final de 54-3. O jogo não será fácil para os Lusitanos que tudo farão para mostrar que o empate entre as duas selecções principais conseguido no Mundial não terá sido obra do acaso. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

DE NOVO UM SPRINGBOKS-ALLBLACKS


No Rugby Championship dois jogos em que qualquer das equipas vai tudo fazer, pesem embora as previsões, para vencer e garantir a proximidade competitiva e a “moral” dos seus adeptos. No entanto as equipas da casa — Springboks e Pumas — têm o favoritismo. E para o garantir e depois do que se passou no jogo de há oito dias, os sul-africanos deixam de fora as novidades desta época como Sacha Feinberg-Mngomezulu — o abertura que mostrou novas capacidades do jogo sul-africano — e que é substituído pelo conhecido Handre Pollard, ficando no banco ou o defesa Aphelele Fassi que não faz parte do 23 que constitui a equipa. Voltando ao antigo conceito que lhes permitiu a conquista dos mundiais, estas alterações também significam algum receio... A adaptação dos AllBlacks ao mais que provável jogo ao pé longo dos Springboks parece fazer-se — embora numa estranha supresa — com a saída de Bauden Barrett e a deslocação do excelente ponta Will Jordan para a posição de defesa. A maior curiosidade será no entanto ver como os AllBlacks, para além da sua melhor adaptação aos conceitos da arbitragem,  conseguirão enfrentar a rush defense — convenhamos que com muitas saídas em fora-de-jogo a impedir a possibilidade de ataque organizado…

No embate entre Pumas e Wallabies a “vingança” argentina é uma exigência quase absoluta dos seus adeptos. No entanto os australianos querem mostrar que estão a atingir o seu nível habitual e como terão ainda de enfrentar os neozelandeses... A ver vamos.

Na Pacific Nations Cup os adversários directos — lugar acima e lugar abaixo — de Portugal são Tonga e Japão cujos resultados, defrontando Fiji e Estados Unidos, podem interferir com a posição dos Lobos no Ranking da World Rugby. A derrota, mais do que provável de Tonga e que lhes custará entre 0,34 e 0,50 ponto de ranking, consolidará, de momento, a 15ª posição portuguesa.

No nosso CAR do Jamor os Lusitanos defrontam os espanhóis ditos Iberians na 1ª jornada do Rugby Europe Super Cup com a curiosidade de se poder ver a capacidade dos jogadores portugueses que, como se sabe, não tiveram, depois de começada a época e após o defeso, jogos que lhes permitam as adaptações físicas, técnicas e tácticas necessárias à eficácia do jogo competitivo. Dir-se-á que dependerão da memória a comandar as acções… 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

SURPRESA ARGENTINA

 Neste início do Rugby Championship a grande surpresa foi a vitória (38-30) da Argentina sobre a Nova Zelândia — o ressentimento dos adeptos (as previsões garantiam 83% de hipóteses de vitória dos All-Blacks) só pode ter a sua importância reduzida na visão das 3 medalhas de ouro conquistadas nos Jogos de Paris pela canoísta Lisa Carrington a juntar às cinco já conquistadas em anteriores olimpíadas.

Ao intervalo, os All Blacks venciam por 20-15 mas logo no início da 2ª parte os Pumas chegaram ao empate e coseguiram manter-se suficientemente próximo do resultado para, aos 58’passarem para a frente do rsultado. Curiosamente não há — de acordo com as estatísticas do jogo e com excepção das formações-ordenadas (houve 4 no jogo e todas com introdução e conquista dos Pumas) não houve superioridade suficiente para explicar a vantagem final. E a conclusão só pode ser uma: indisciplina e falta de rigor técnico permitiram a superioridade argentina.


O jogo entre a Austrália e a África do Sul não teve história — 5 ensaios contra apenas um australiano.— tal foi a superioridade na eficácia da utilização dos Springboks.

No final da semana haverá repetição dos jogos e as expectativas fervem…

sábado, 6 de fevereiro de 2021

LOBOS: DIFÍCIL MAS NÃO IMPOSSÍVEL

Com o ponto de bónus administrativo recebido pela Roménia — ganhou 28-0 por falta da Bélgica — este jogo entre os Leones e os Lobos passou a contar mais do que o prestígio ibérico ou a possibilidade de ver o estado competitivo de cada equipa. Os três qualificados deste European Rugby Championship 2020 garantem para o próxima etapa de qualificação para o Mundial 2023 que, no torneio de 2021 terão dois jogos em casa e três fora, beneficiando da situação contrária no torneio de 2022. E como a qualificação do Mundial é determinada pelo somatório dos resultados dos dois torneios... percebe-se a importância futura do jogo e do seu resultado. 

Para Portugal o jogo não será fácil e é isso mesmo que o actual posicionamento do ranking da World Rugby mostra. Em teoria, 16 pontos farão a diferença final do resultado favorável à Espanha. E existe um histórico — 36 jogos com 10 vitórias e 2 empates para Portugal — que ajuda à perspectiva de favoritismo espanhol. Mas Portugal, os Lobos, que não defrontam a Espanha desde 2016, podem contrariar os prognósticos e vencer? Podem!

É pelo menos essa a confiança de Patrice Lagisquet, o selecionador nacional: "...não somos favoritos mas podemos vencer." Com um bloco de avançados essencialmente formado por jogadores — sete — que jogam o campeonato francês, o XV de Portugal consegue, desde logo, equilibrar a diferença de competitividade que os jogadores internos de ambos os países apresentam: em Espanha o campeonato principal vai na sua 9ª jornada para um português, na sua fase mais competitiva, de apenas 3 jornadas cumpridas.

A questão que envolve o jogo é esta: com o resultado atribuído à Roménia, só o vencedor deste Espanha-Portugal garantirá um lugar nos três primeiros da classificação e terá, por isso, acesso à teórica vantagem de ter mais jogos em casa na recta final do apuramento para o Mundial de 2023.

Mas, como se pode retirar dos quadros que seguidamente se apresentam, Portugal não tem, nos resultados obtidos nas anteriores jornadas do Rugby Europe Championship — embora haja uma boa diferença entre o Uruguai (fora) e o Brasil (casa) que constituíram os últimos adversários de ambas as equipas — uma visível inferioridade em relação à Espanha. E como não haverá público para ajudar os Leones... tudo é possível.  

 
As duas equipas equivalem-se na sua capacidade competitiva onde a diferença favorável à Espanha se faz apenas no facto de o seu somatório de pontos marcados ser essencialmente constituído por ensaios. O que demonstra uma boa capacidade atacante — mas o próprio seleccionador espanhol, Santi Santos, reconhece as qualidades defensivas portuguesas.


Em termos quer de compacticidade física — relação peso/altura — quer de experiência definida pelo número de internacionalizações, as duas equipas são muito equivalentes. No campo da experiência e a partir da meia-dúzia de internacionalizações já ninguém se deixa dominar pela pressão... E o cinco-da-frente português apresenta-se formado por jogadores muito capazes e com bom nome nos campeonatos franceses.

Aparentemente o resultado final irá depender da capacidade portuguesa de disponibilização rápida da bola (menos de 3s é o tempo óptimo) nos reagrupamentos — papel crucial do cinco-de-trás do bloco de avançados —  e de um jogo-ao-pé acutilante que coloque problemas — que os "meta em respeito", diz-se — ao três-de-trás espanhol. Porque, se assim fôr, as linhas atrasadas portuguesas terão o espaço e o tempo necessários para impôr pressão à defensiva adversária e mostrar as suas qualidades e eficácia atacantes. 

Portanto, difícil mas não impossível a procura da vitória que os nossos Lobos, com a sua habitual resiliência, nos garantirão neste jogo que abre uma época internacional muito importante no conjunto de jogos que tem um objectivo final: presença no Mundial 2023.

Força, Lobos!

terça-feira, 30 de julho de 2019

MAIS NOTAS PARA O MUNDIAL

Os prognósticos para os jogos do Rugby Championship do passado fim‑de‑semana saíram completamente furados. O que é bom!
E é bom porque nos chama a atenção para o facto de se tratar de jogos desportivos onde os algoritmos baseados no passado de cada equipa não determinam os vencedores. Porque existem outros factores, como a coesão por exemplo, com peso importante na construção da eficácia. Ou seja — e desde que haja equilíbrio competitivo com pertença das duas equipas adversárias ao mesmo plano de capacidades — não há vencedores antecipados! O que só favorece o interesse pela competição. 
Aumentando também as expectativas: quem ganhará o Championship? AllBlacks ou África do Sul? Que hipóteses terão no Mundial?
O resultado mais surpreendente foi, num jogo muito interessante e que mostrou, como se verá, aspectos tácticos que dominarão o Mundial, o empate em Wellington com a África do Sul a marcar no último momento da partida. 
Apesar de novo resultado muito próximo, mas sempre derrota, a Argentina, mesmo com um nível mais elevado de coesão colectiva por ter disputado, como Jaguares, o Super XV, mostra ainda muitas deficiências para poder considerar-se como potencial candidata ao Mundial. E com muito trabalho ainda pela frente.
O jogo entre os AllBlacks e a África do Sul foi determinado por dois princípios estabelecidos por Graham Henry, treinador e campeão mundial em 2011, e que definem que “o rugby é isto: ganhar a corrida pela linha de vantagem” e que “a posse da bola deve valer um ensaio”.
O primeiro aspecto foi demonstrado pela velocidade de subida da defesa sul-africana que criou uma enorme pressão sobre os atacantes neozelandeses que, por isso, cometeram — na preocupação de cumprimento do segundo princípio — diversos erros de manuseamento ao não conseguirem, por falha na adaptação ao tempo adequado de apoio, manter a continuidade do movimento. Muitas vezes por falharem um outro princípio do mesmo autor:”É melhor chegar atrasado do que adiantado. No primeiro caso ainda se pode ser útil, no segundo não!”
Houve portanto falta de eficácia neozelandesa demonstrável quer no baixo sucesso, 67%, dos pontapés aos postes, quer no facto de, tendo 57% de posse de bola — na 2ª parte, com evidente melhoria, teve 67% — não ter conseguido mais do que 51 ultrapassagens da linha de vantagem. O que é curto, representando apenas e sem contar com as bolas provenientes de pontapés recebidos, 38% de eficácia nas bolas utilizáveis e que apenas se traduziu pela marcação de 1 ensaio.
Vimos portanto uma permanente preocupação de atingir a linha-de-vantagem — com vantagem para a defesa sul-africana — uma também permanente preocupação de encadear o movimento principalmente por parte dos AllBlacks mas ainda incapazes da correcta adaptação ao tempo e espaço reduzidos pela necessidade de jogar na cara da defesa e ainda, como ferramenta táctica importante, o recurso ao pontapé longo.
Este recurso, obrigatório para colocar o três-de-trás adversário longe da sua linha de três-quartos e assim garantir possibilidades de criação de superioridades numéricas atacantes, tem ainda a vantagem de dificultar tremendamente o contra-ataque porque o tempo de voo da bola dá margem suficiente para uma boa transformação do ataque em defesa, obrigando, muitas vezes, o adversário a se limitar a entregar a bola pelo jogo-ao-pé, perdendo assim o menor terreno possível. 
Em termos defensivos ambas as equipas se mostraram muito capazes e bem organizadas e com preferência pelo recurso — obrigatório pela superioridade numérica atacante a que o recuo do três-de-trás obriga — á scramble* defense — defesa adaptativa em movimento — que tem por objectivo cortar linhas de passe e encaminhar o portador para as mãos de um defensor — muitas vezes o formação que tem a obrigação, semelhante à do sweeper nos Sevens, de fazer uma cobertura deslizante da sua linha de defesa. A afinação deste processo, diversas vezes em perseguição e dependendo muito da disponibilidade mental dos jogadores e da resiliência da sua atitude, exige uma constante adaptação aos movimentos do portador da bola e do seu apoio e irá obrigar, também aos atacantes, a adaptações permanentes e diversas quer no jogo entre-linhas, quer mesmo no jogo depois da defesa. O que coloca na articulação e adaptação colectivas a chave destes momentos que serão decisivos nos jogos entre equipas equilibradas. E no Mundial vamos ver muitos destes movimentos... que se basearão num princípio estratégico aplicável: a necessidade de adaptação a condições em mudança no terreno.
No outro jogo, os australianos mostraram querer voltar ao seu velho sistema de ataque com os três-quartos “em linha”. Situação que lhes vai ainda exigir bastante trabalho uma vez que os tipos actuais de defesa obrigam a diferentes adaptações deste sistema para garantir a sua eficácia. Embora ainda algo distantes da melhor eficácia, a proposta viu-se...
O que parece ressaltar destes jogos é que, sabendo-se que a defesa segura resultados, será preciso marcar para garantir vitórias. Daí que seja necessário que as equipas sejam capazes de adaptar o seu ataque às formas defensivas altamente pressionantes que encontrarão nos seus adversários — adaptação, que não sendo fácil, dará aos espectadores maiores motivos de interesse.
* Scramble — palavra-ordem da aviação britânica na II Grande Guerra para colocar com a máxima rapidez os aviões no ar, organizando as esquadrilhas já em voo, e assim evitar a destruição dos bombardeamentos alemães

sexta-feira, 26 de julho de 2019

2.ª JORNADA NO RUGBY CHAMPIONSHIP


Na segunda jornada deste “meio” Rugby Championship — só tem metade das habituais jornadas devido à proximidade do Mundial — o favoritismo, quer do “XVcontraXV” quer do “RugbyVision”, vai para as equipas que jogam em casa. De acordo com o RugbyVision as probabilidades de vitória dos AllBlacks  situam-se nos 90,8% e a dos australianos nos 79%.

A importância que é dada pelos responsáveis ao primeiro jogo — Nova Zelândia/África do Sul — mostra-se quer no facto de os jogadores sul-africanos se terem, o que não é habitual, deslocado no início da semana para as necessárias adaptações climáticas e horárias, quer no facto de haver alterações na constituição das equipas — 13 diferentes jogadores em relação ao jogo do último fim‑de‑semana para os africanos e regresso dos jogadores “Crusaders”, com a novidade de Beauden Barrett jogar a defesa com a entrada do abertura Richie Mo’unga, à equipa dos AllBlacks. E percebe-se a razão das preocupações uma vez que o resultado final vai deixar marcas em ambas as equipas que têm o objectivo de conquistar o próximo Mundial.

No jogo da Austrália existe a exigência dos adeptos de uma vitória sem margem para dúvidas sobre os argentinos que têm a vantagem dos hábitos competitivos dos Jaguares.

sábado, 20 de julho de 2019

VITÓRIAS DOS FAVORITOS

Embora com valores muito diferentes dos prognósticos, venceram os favoritos: África do Sul e Nova Zelândia. E se a África do Sul se acabou por impôr sem margem para dúvidas, a “experimental” equipa neozelandesa teve que se opor à equipa argentina que, pela sua participação no Super Rugby enquanto Jaguares, mostrou-se já, ao criar dificuldades prometedoras aos seus adversários, suficientemente coesa para poder fazer figura no Mundial do Japão — a França que se cuide...

A verticalidade do jogo, a preocupação de atingir a linha de vantagem tão rápido quanto possível, a conquista de território pelo jogo-ao-pé e a adaptação defensiva em movimento e entre linhas - a “scramble defense” — parecem ser, para já, marcas do que iremos ver no Mundial. Mas os All-Blacks, embora com muitos jogadores menos experientes, mostraram, apesar de faltar ainda o acerto do hábito colectivo, as capacidades técnicas e tácticas que os caracterizam e que os colocam sempre num patamar superior, fazendo deles permanentes favoritos das competições que disputam.

APERITIVO DO MUNDIAL

 Há tempos e à pergunta de “como será jogado o Mundial? Que novas tácticas surgirão?”, a resposta  do especialista (de que não recordo o nome) foi simples:”vejam o Rugby Championship que logo perceberão.”.

Começando amanhã esta edição do Rugby Championship tem, para além da sua normal qualidade do jogo, este aliciante de um pré-mundial. África do Sul, Austrália, Argentina e Nova Zelândia são as equipas que, no Mundial do Japão, se oporão às equipas do Norte que, desta vez, se apresentam, pela posição no ranking da World Rugby, como adversárias de respeito. Mas se a Argentina, com a participação no Super Rugby com os Jaguares, já se apresenta com uma maior capacidade colectiva, as restantes equipas sulistas têm também a possibilidade de fazer uma preparação para o Mundial muito competitiva, experimentando jogadores, testando opções ou desenvolvendo sinergias colectivas.

Os favoritos desta 1ª jornada, de acordo com as posições das equipas nos rankings da World Rugby (oficial) e da Rugby Vision da autoria do neozelandês Niven Winchester, economista do MIT, são a África do Sul que de acordo com os prognósticos vencerá (a Rugby Vision atribui-lhe uma possibilidade de vitória de 72,6%) por uma diferença entre 8 a 10 pontos de jogo e a Nova Zelândia (a Rugby Vision atribui-lhe uma possibilidade de vitória de 90,8%) vencerá por uma diferença entre 20 a 25 pontos de jogo de diferença

De certo, com transmissão na Sport Tv, um bom aperitivo...

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

E O PONTAPÉ DE RESSALTO?

Num dos muitos artigos referentes ao Nova Zelândia - África do Sul, alguém escreveu que “a Nova Zelândia é a única mundial que não tenta o pontapé de ressalto numa situação destas.” De facto não se percebe como, com o domínio territorial dos últimos dez minutos e à distância de 2 pontos, não houve qualquer preparação para um pontapé de ressalto vitoriosa. Esqueceram-se?! Falta de confiança de Beauden Barrett? Exigência de ensaio do capitão, Kieran Read? Arrogância alicerçada nos notáveis resultados dos últimos anos?
Como perderam os AllBlacks um jogo em que tiveram a superioridade que as estatísticas demonstram? Como foi possível?
A resposta simples é a de culpar Beauden Barrett pelas suas falhas nos pontapés ou a precipitação do irmão Jordie ao lançar, tão longe, uma bola num alinhamento rápido que deu todo o tempo de mundo para Willie Le Roux interceptar a bola enquanto Rieko Ioane, em vez de “entrar no passe” esperava que a bola chegasse às suas mãos ou ainda que Lienert-Brown não tivesse permitido a intercepção de Kolbe.
Claro que estes erros, que na sua maioria constituem riscos do jogo que fazem dos AllBlacks a melhor equipa do mundo, são a face imediatamente visível da derrota mas não representam a verdadeira face da derrota. Porque no Rugby quem ganha ou perde é a equipa. que tem que saber, colectivamente, ultrapassar os erros individuais.
A verdadeira face da derrota está, portanto, nos erros defensivos colectivos que permitiram a marcação de 36 pontos pelos sul-africanos até porque, de facto, os neozelandeses marcaram 6 ensaios que deveriam chegar e sobrar para garantir a vitória.
Portanto as causas da derrota — a dar razão ao actual treinador dos Crusaders Ronan O´Gara que considera que em termos defensivos os europeus estão muito mais avançados do que os neozelandeses — foram os erros defensivos que a percentagem de apenas 80% de sucesso nas placagens demonstra. E as causas da vitória estiveram na capacidade defensiva inexcedível — 235 placagens tentadas para 196 conseguidas - e na coesão colectiva dos sul-africanos — os últimos dez minutos foram defensivamente épicos. No fundo a permissividade defensiva de uns e a coesa capacidade defensiva colectiva de outros como razão fundamental deste resultado surpreendente.
No final do jogo, o treinador neozelandês Steve Hansen dando como principal razão da derrota os 36 pontos permitidos e lembrando permissividades defensivas considerava que esta derrota, pelo que ensinava, iria permitir que a equipa se tornasse mais forte. Agora, garantiu, irão, no tempo de treino de que dispõem, trabalhar os factores que se mostraram demasiado fracos para o nível internacional. 

O ciclo de análise, avaliação, correcção e execução está lançado. E, estou certo, o recurso ao pontapé de ressalto, com a preparação devida e em situações idênticas à deste jogo não será esquecido.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

WORLD RUGBY, APURAMENTO PARA O MUNDIAL E PORTUGAL

A World Rugby oficializou as decisões da comissão independente sobre a salgalhada do Rugby Europe Championship de 2018. As sanções estabelecidas, para além de multas pecuniárias, retiram 5 pontos de classificação por cada jogo em que a Roménia, Espanha e Bélgica tenham utilizado jogadores não ilegíveis. A Espanha perdeu assim 40 pontos e a Roménia e Bélgica, 30 pontos cada uma, ficando assim estabelecida a classificação final do 2018 Rugby Europe Championship:
1.º Geórgia, 24 pts
2.º Rússia, 11 pts
3.º Alemanha, 0 pts
4.º Roménia, (14-30), -16 pts
5.º Bélgica, (9-30), -21 pts
6.º Espanha, (13-40), -32 pts
Neste quadro em que a Geórgia se encontra, pelos resultados obtidos na edição anterior, já qualificada, a Rússia passará então a ser Europe 1 e disputará a abertura do Mundial contra o Japão e a Alemanha, como Europe 2, disputará o jogo, já a 9 de Junho próximo, com Portugal para definir qual será o adversário de Samoa num jogo que garantirá, para o vencedor, o acesso directo ao Mundial, cabendo ao derrotado a possibilidade de disputar  o grupo de repescagem, juntamente com o Canadá, Hong-Kong e —provavelmente — Quénia, para conseguirem o último lugar de acesso para o Mundial 2019.
E se Portugal — pode dizer-se — teve a sorte de ver um caminho para o Mundial mais facilitado ao apanhar como adversário a Alemanha que, depois dos problemas internos que enfrentou, não conseguiu um único ponto de classificação no último Championship europeu e atingiu, com 359 pontos de jogo sofridos para apenas 34 marcados, a baixíssima Quota de Pontos de 9% — Portugal no seu ano de despromoção não tendo, também, conseguido qualquer ponto nas suas cinco derrotas, atingiu uma Quota de Pontos de 26%, viu a contraparte surgir-lhe — naquele que é, embora sem data ainda marcada, o mais importante jogo desta época desportiva — a Espanha como adversário do jogo de barragem no acesso/manutenção ao Rugby Europe Championship. E a Espanha nos jogos sem o desconto dos pontos conseguiu a 3.ª posição no grupo com 3 vitórias e 66% de Quota de Pontos...
Mas neste processo todo há muito interesse à mistura e muita zona cinzenta…
A World Rugby nada diz na sua posição sobre o comportamento da Rugby Europe quer na nomeação do árbitro — óbvia parte interessada para o que basta ver a sua pressionante actuação bancada fora num Roménia-Portugal... - ou na negligência cometida por ter autorizado, sem qualquer controlo, a presença de jogadores inelegíveis nas diferentes equipas e num mínimo de seis jogos.
Também aceita e contrariamente à sua própria opinião, o facto da Judicial and Disputes Committee não considerar, no seu julgamento, haver "razão suficiente" para repetir o jogo Bélgica-Espanha.
Aliás reconheço que a Espanha é a principal — e nós por tabela — prejudicada por estas decisões. A Espanha é dada como culpada de ter utilizado dois jogadores que haviam representado a selecção francesa de Sub-20 que foi dada como “segunda equipa” da França podendo assim “capturar” jogadores de acordo com a Regulation 8 — tanto quanto sei três portugueses foram assim capturados. Acontece que a Federação francesa não terá cumprido a regra de “4 anos” obrigatória para o reconhecimento do “capture team” como se pode ver na lista seguinte: 
  • 2003/2006, França A 
  • 2007/2011, França U21
  • 2008/2012, França U20 
  • 2010/2014, França A
O que, deveria invalidar as capturas quando as "segundas equipas" parecem ser nomeadas pelo maior jeito que possam dar em cada momento. Não podemos esquecer que, desde Janeiro de 2017, a França considera — e assim Gomes de Sá foi capturado antes de ter a nacionalidade francesa — como sua “segunda equipa”os Barbarians Franceses, onde já não conta a idade e tão pouco a nacionalidade, como sua “segunda equipa”. 
Os espanhóis, para além de considerarem que a Federação Francesa não terá tido um comportamento correcto, estão, com base nesta situação, a defender — e têm 14 dias para apresentar a sua contestação — que as “capturas” de 2008 e 2012 não têm qualquer validade.
Curiosamente a World Rugby decidiu considerar que, desde Janeiro 2018, não seria mais permitido utilizar a selecção Sub-20 como “capture team”. Num mais vale tarde do que nunca foi pena que a resolução da decisão não estabelecesse a mais que justa anulação de qualquer captura nesta selecção etária. Os argumentos são evidentes — e são a justificação para anulação agora realizada mas que não anulou, como se a retroactividade desta decisão trouxesse prejuízos fosse a quem fosse, as “habilidades” feitas até então. 
E o caso está assim: Portugal apenas sabe que irá defrontar a Alemanha a 9 de Junho próximo e, no fundo, não faz ainda bem ideia quem poderá ser o seu adversário no “jogo de barragem” — o tal mais importante desta época — nem quando o puderá disputar.
No entanto a World Rugby garantiu para Samoa a disputar — “no sentido de maximizar a sua preparação” e portanto num óbvio favorecimento — o 2018 World Rugby Pacific Nations Cup entre 9 e 16 de Junho com Fiji, Georgia e Tonga deixando que a preparação dos europeus se faça na espera das decisões.

[corre por aí e segundo parece por determinação da Rugby Europe que o adversário de Portugal no jogo de barragem para ascensão/manutenção na Rugby Europe Championship deverá ser realizado contra a Roménia. Embora não saiba qual o critério que o determina - menos jogos em 2018 com uso de jogadores não eligíveis? — porque a classificação final seria, se bem o percebi na má explicação dada no relatório e dividindo os pontos pelas duas épocas, não a primeiramente apresentada acima mas esta:

1.º Geórgia, 24 pts
2.º Rússia, 11 pts
3.º Alemanha, 0 pts
4.º Roménia, (14-15), -1pts
5.º Bélgica, (9-15), -6 pts
6.º Espanha, (13-20), -7 pts

mas que não altera o posicionamento equipas das equipas...  
... fica-se à espera da confirmação]  

sábado, 20 de maio de 2017

DIA DECISIVO

Desenho a dedo em iPad
Hoje é o dia decisivo para o rugby português, dia em que se espera que os Lobos se portem como uma alcateia capaz de sobreviver às piores circunstâncias.
Com uma vitória - seja por que números sejam - o rugby português voltará à divisão imediatamente abaixo das 6 Nações e defrontará no próximo ano a Geórgia, a Roménia, a Espanha, a Rússia e a Alemanha, retornando a uma dimensão de jogo que nos pode - saibámos organizarmo-nos de acordo com a exigência competitiva - permitir todos os sonhos, nomeadamente uma presença no caminho para o Mundial (sim, eu sei que graças à habilidade anti-desportiva da RE nós já estamos no caminho mundialista... que, no entanto, se aparenta mais com uma manobra de interesse eleitoralista do que com o objectivo de garantir que serão os melhores que estarão no Japão).
Bem, se ganharmos, o rugby português volta ao seu lugar e com aquilo que se vai procurando de ligação competitiva com os clubes espanhóis - que, aliás, tarda em decisões efectivas - renascem as possibilidades de uma competição interna que prepare os nossos jogadores para a competição internacional.
A análise através dos pontos do ranking da World Rugby mostra que a vitória pertencerá a Portugal por um ponto de diferença - o que é o mesmo que dizer que qualquer resultado será possível.

Para que se perceba a dificuldade do jogo que espera os portugueses é bom lembrar que as actuais pontuações das duas equipas resultam de circunstâncias particulares. Ou seja: a Bélgica, defrontando as equipas mais poderosas do Rugby Championship, só conseguiu derrotas e, naturalmente, só perdeu pontos; Portugal, jogando com as equipas mais fracas que disputam o Trophy, só obteve vitórias e, portanto, somou sempre pontos. O que explica, contando com a vitória de Novembro passado, contra a Bélgica por 26-21 - com os portugueses a não conseguirem quaisquer pontos na 2ªparte... - a diferença existente de 3,68 favorável a Portugal. Mas nada disto, por se basear no circunstancialismo de um ponto fraco do sistema, garante a necessária superioridade. O que significa que, mais do que tudo, seja preciso conquistá-la, deitando fora a nefasta esperança de queda do céu. Será preciso combater por cada bola, por cada centímetro do terreno e dar o corpo ao manifesto sempre que haja companheiros que precisem do mínimo de apoio.
Percebe-se, o jogo não será fácil para as hostes portuguesas. Com o peso ainda agravado de que uma derrota, mantendo a selecção portuguesa num grupo de fraco nível, não permitirá a melhoria competitiva para além de permitir ao futuro adversário de play-off uma adequada preparação. Oque torna o futuro mais sombrio e difícil.
Jogo de tudo ou nada? Quase! Porque as consequências da derrota para o rugby português serão altamente hegativas e exigirão uma reformulação que pode levar um tempo demasiado longo para responder em igualdade de circunstâncias aos adversários que não pararão o seu caminho de desenvolvimento.
E nós sem resultados que nos garantam os fundamentais patrocínios...
Lobos, o jogo de hoje não será fácil, mas como só a vitória nos interessa, espero que a vossa vontade e determinação de continuarem num quadro competitivo que vos aproxima dos melhores e vos permitirá a excelência da vossa superação garantá um final de sorriso e empatia entre vocês, jogadores, e nós, adeptos.
Lobos, entreguem a camisola que envergam numa melhor posição do que aquela em que a receberam!



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A ARGENTINA PROMETE


Dois dos "nossos" no melhor nível do rugby mundial
O Nova Zelândia-Argentina era uma jogo imperdível. Por diversas razões: porque vale sempre a pena ver a melhor e mais estimulante equipa do rugby mundial; porque havia uma enorme curiosidade sobre as reais capacidades argentinas; porque ainda - um ponto nada despiciendo -  neste jogo participavam dois dos "nossos", Daniel Hourcade - treinador principal dos Pumas e o único dos treinadores estrangeiros que deixou um verdadeiro legado ao rugby português - e Rohan Hoffman, jogador internacional por Portugal - excelente e de enorme carácter (tive a sorte de contar com ele nas selecções da minha responsabilidade) - e que, começando cá a sua carreira de árbitro, era um dos árbitros auxiliares do jogo.

O jogo não desmereceu. A Argentina - e quem conhece Hourcade sabe que as suas equipas se formam com guerreiros - demonstrou, com a sua capacidade de luta e organização táctica, o que já se suspeitava: a ideia de que será uma equipa a ter em contínua conta no panorama internacional - para Hourcade o "seu" Campeonato do Mundo será o de 2019. 

Apesar da chuva, os AllBlacks demonstraram a suas enormes capacidades na circulação da bola - o tempo de passe e de posicionamento do receptor são simplesmente notáveis e obrigam a repensar em métodos e processos de treino. Mas desta vez o conceito de que o uso do jogo-ao-pé - que Hansen frisou ter melhorado muito, quer na técnica, quer na oportunidade - foi uma realidade. Por um lado pela estrutura defensiva argentina que obrigou a muito jogo-ao-pé por parte dos neozelandeses, por outro porque existe uma confiança enorme na técnica de cada um e no cumprimento da regra-chave: a qualidade de um pontapé ofensivo depende da eficácia da perseguição. Daí a exigência da colocação dos pontapés - que possibilita a perseguição - e, nisso, os neozelandeses são tremendos. Veja-se o primeiro ensaio: pontapé-rasteiro de Beauden Barrett para Retallick captar e passe em pontapé-rasteiro de Conrad Smith para Savea marcar. Tudo feito com o propósito adequado: usar a posse da bola da forma mais eficaz possível. E não me lembro que algum dos muitos pontapés-na-caixa de Aaron Smith tenha permitido algum contra-ataque argentino.

Os argentinos conseguiram uma coisa notável: no final da primeira parte eram a equipa com mais posse de bola e superior ocupação territorial. O que, contra AllBlacks, representa um feito! Que só foi insuficiente porque do outro lado estava a equipa que sabe explorar como ninguém as oportunidades que o jogo lhe oferece. Na segunda-parte o segundo-empurrão dos Pumas nas formações-ordenadas foi formidável - apesar do segundo ensaio neozelandês, ainda na primeira-parte, ter nascido de uma conquista - "bola de ouro" na gíria - de formação-ordenada de introdução argentina com exploração imediata da colocação das linhas atrasadas. Provavelmente a maior dificuldade dos Pumas nestes jogos de primeiro nível, estará na ultrapassagem da linha-de-vantagem após a conquista nas fases ordenadas, onde dão demasiado campo com passe em ângulo muito aberto e facilitando a vida à defesa adversária - curiosamente nas fases espontâneas o ataque à LV é muito mais eficaz. 

Interessante, para além de algumas novas combinações neozelandesas - o seu quarto ensaio, próximo da área-de-ensaio argentina e sobre uma formação-ordenada numa divisão 4-2 dos três-quartos (os argentinos responderam com um inevitável e perdível  3-3) seguida de um desequilibrador 89, é uma demonstração da forma de colocar problemas, diria insolúveis, à defesa - as combinações de ambas as equipas nos alinhamentos, variando o suficiente para garantir a conquista da bola sem grande perturbação -  dos 31 lançamentos apenas 3 foram captados pelos saltadores adversários.

Com 4-0 em ensaios a vitória da Nova Zelândia não deixou dúvidas mas a Argentina começa a atingir um nível qualitativo internacionalmente muito interessante. E Daniel Hourcade tem na sua cabeça as ideias e conceitos para ainda lhe elevar mais o actual nível. Uma boa surpresa e, talvez finalmente, encontremos um sustentável desmancha-prazeres no rugby mundial... 

Preocupante é, no entanto e a um ano do próximo Mundial, o que se vai passando nas arbitragens. Depois do enorme disparate, com benefício evidente do infractor, da exigência do comando do árbitro na introdução da bola nas formações-ordenadas, parece haver de novo a tendência para os árbitros definirem os resultados dos jogos. Na final do Super XV a decisão sobre uma falta inexistente de Mc Caw, ditou o vencedor; no Argentina-África do Sul não consegui - eu e muitos outros - ver a falta do pilar direito argentino que determinou a vitória sul-africana.

Neste fim-de-semana o árbitro, o francês Pascal Gauzere, tirou um ensaio à Argentina sem que possa haver qualquer razão para o facto - carga sobre um pontapé, captação da bola do chão e corrida para o ensaio. No outro jogo - Austrália-África do Sul com dois excelentes ensaios australianos - a atribuição muito duvidosa - foi apenas falta por placagem alta mas que não se aproximou de jogo perigoso - de um cartão amarelo aos 65' a Bryan Habana - que cumpria o seu 100º jogo internacional - deu toda a possibilidade de vitória aos australianos (Curiosidade: Habana só não entrou em jogo antes do ensaio australiano porque o seu companheiro Morne Steyn falhou a saída da bola num pontapé de penalidade e, por isso, não houve paragem do jogo).

Como nota positiva destes erros - graves! - de arbitragem, a ética do comportamento de treinadores e jogadores. Desde "o árbitro tem sempre razão" até ao "não estou aqui para falar dessas coisas", nenhum dos intervenientes criticou publicamente os árbitros. Mais razão ainda para haver uma maior atenção - porque jogadores que respeitam o código do fair-play merecem todo o respeito - por parte dos árbitros e, principalmente, uma maior coerência global nas suas interpretações das Leis do Jogo.     

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

JOGO A REVER

O último África do Sul-Nova Zelândia merece ser visto de novo e mais do que uma vez. Foi um jogo muito bom! E cheio de ensinamentos, para além de nove - nove! - ensaios.
O primeiro facto remarcável foi a vitória dos All-Blacks: ir ganhar no Ellis Park onde a África do Sul, sob o olhar e alegria de Mandela, se tinha sagrado campeã mundial em 1995, não é para qualquer. Menos ainda com o estilo que vimos. 
Logo duas diferenças entre as equipas. A primeira com os all-blacks a tirarem a bola rapidamente de qualquer reagrupamento através de um qualquer jogador que se aproximasse no momento próprio; do lado sul-africano, pelo contrário, a lentidão do conservadorismo de esperar pelo nº 9 para que a bola pudesse ser "aberta". E daqui duas formas diferentes de exploração da bola. 
De certa maneira a mesma relação entre inovação e conservadorismo se viu na forma de encarar o jogo-ao-pé de ambas as equipas: do lado all-black a procura constante de espaços livres para colocar a bola dentro do terreno de jogo seguida da pressão e cobertura suficiente de terreno para obrigar a pontapé de resposta com recuperação e lançamento de contra-ataques sempre bem apoiados; do lado sul-africano a procura de conquista de terreno esteve mais presente - talvez por convicção da inferioridade da capacidade de conquista dos neozelandeses - e acabou por significar retorno à posição inicial pelo efeito boomerang desta táctica. Duas concepções com resultados muito diferentes.
Duas notas individuais: Richie McCaw mostrou-se, mais uma vez e pesem as cegueiras ou "dores de cotovelo" que impedem viver com a capacidade alheia, um enorme talento: fez 26 placagens e viu-se em todo lado, apoiando em permanência e abrindo linhas de passe que colocavam dúvidas na estrutura defensiva adversária. McCaw é um enorme jogador - encontrando soluções para os companheiros e criando problemas aos adversários como lembra Jorge Valdano - e um notável explorador das Leis do Jogo, percebendo num ápice, da existência ou não de "formação expontânea" para agir em conformidade. 
A outra nota vai para o infeliz Bryan Habana que, apesar de lesionado - e com dor suficiente - foi capaz de manter a frieza suficiente para, em favor da equipa, marcar o pontapé livre após o "marco!" - se não o tivesse feito, a sua equipa, dentro da sua área de 22, seria obrigada a uma cada vez mais difícil - pela 4ª voz - "formação ordenada".
Dois pontos negativos: a "formação ordenada" e a arbitragem de Nigel Owens. Na "formação ordenada" a 4ª voz do árbitro leva, ao contrário do pretendido, à óbvia introdução "torta" - criando uma situação de 8x7 em benefício do infractor, não há médio que resista à garantia de conquista da sa equipa...
A arbitragem foi também mazota e sem já falar em diversos erros de análise, vale a pena referir o paternalismo que impediu a mostra de um "cartão vermelho" à agressão - com o claro objectivo de afastar do jogo o influente McCaw - do pilar sul-africano Tendai Mtawarira.
Nove ensaios, belíssimos ataques a trocar os olhos a defensores - linhas de corrida e angulos a criar contrapés - passes longos, rápidos e das mais variadas maneiras, ataques aos intervalos da defesa apoiados de imediato. Uma beleza. A rever.

domingo, 30 de setembro de 2012

DERROTA COM FUTURO

4 Nations: Celebração da vitória All-Black,
iPhone desenho com dedo no Adobe Ideia
Em teoria e de acordo com o valor das duas equipas expresso no seu posicionamento no ranking da IRB, a Argentina perderia em casa e em jogo com a Nova Zelândia por vinte pontos de diferença.

Não foi assim, perdeu pela diferença de 39 pontos, sofrendo sete ensaios – mesmo marcando dois – e aparentemente os argentinos não terão nada para se vangloriar.

Não penso assim.

Paradoxalmente e apesar do peso do resultado, acho que os Pumas mostraram capacidades que ainda não lhes tinha voltado a ver depois da disputa do 3º e 4º lugares que lhes vi em Paris para o Mundial de 2007.

Por razões que se compreendem – necessidade de se mostrar à altura do desafio – a Argentina apresentou-se anteriormente em campo com elevadas preocupações defensivas, procurando garantir que perderia por diferença reduzida e, assim, mostrar que pertencia ao grupo por direito. Nesses jogos o uso da bola não era o mais importante, a conquista de terreno para garantir espaço de recuperação nas costas sobrepunha-se a qualquer romantismo de ataque longo. Desta estratégia terá feito parte também a necessidade de adaptação ao elevado ritmo e nível de contacto –  mesmo colisões como se começam a designar…- que estes jogos exigem.

Mas ao mesmo tempo, sei-o de boa fonte, o campus argentino estava preocupado e trabalhava arduamente a procura da melhor utilização da bola – o objectivo do jogo é marcar mais pontos que o adversário e como não há no rugby – como diz o meu irmão Luis – golos na própria baliza, é preciso avançar no terreno, conquistar a bola e transportá-la até à área de ensaio. E foi isso que os Pumas mostraram, neste jogo contra os notáveis All-Blacks, que sabiam fazer e que estavam dispostos a fazer. E por isso jogaram as bolas de que dispuseram. Com uma muito apreciável qualidade, diga-se.

Falta ainda uma maior assertividade no apoio? Falta. Falta uma maior capacidade de leitura e compreensão da situação com a adequada adaptação à acção do portador da bola? Falta. Falta a capacidade de linhas de corrida complementares que permitam criar dúvidas à defesa, obrigando-a a diminuir os seus índices de agressividade? Falta. Falta a capacidade de lançar contra-ataques que garantam a continuidade da posse, conquista de terreno e jogar em superioridade numérica? Falta. Mas já faltou muito mais nos jogos anteriores do que faltou neste.

A defesa como base estratégica de uma equipa – e os argentinos sabem-no – pode permitir resultados aproximados mas dificilmente garantirá vitórias. Limita-se ao perder por poucos… Procurando ganhar um dos jogos, os Pumas tinham que se testar na capacidade de utilizar a bola. E conseguiram movimentos interessantes e desequilibradores a que terá faltado uma maior resiliência na continuidade do jogo. Mas o jogo era contra os All-Blacks…

…E os All-Blacks são só a melhor equipa do mundo. As suas capacidades – donde ressalta, pela muito elevada cultura táctica individual conseguida desde os tempos da sua formação, a enorme capacidade de compreensão e adaptação às situações com que se confrontam durante o jogo: seja qual for o número da camisola o gesto escolhido para solucionar a situação é o adequado. Um gozo de ver.

Mas a Austrália não vale o mesmo e, ao contrário do que parece ser a voz corrente, esta prestação argentina, porque motivadora na demonstração de capacidade, vai ajudar ao resultado do próximo jogo. Que não se deve perder.    

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