segunda-feira, 24 de julho de 2017

MUITO PARA ALTERAR

Houve uma melhoria substancial na prestação competitiva da 4ª etapa do Grand Prix Series em relação às demonstrações competitivas das anteriores etapas.

Sendo a razão principal a maior coesão da equipa - não houve estreias e já havia, portanto, algum enraizamento - que provocou uma importante alteração de atitude, quer frente aos adversários quer de uns para com os outros com uma maior entreajuda colectiva. Mas houve também - e disso são os melhores resultados consequência - alterações na forma de jogar.

Ao contrário das outras etapas, nesta etapa de Exeter os jogadores portugueses sempre que tinham a bola “atacavam” a defesa, obrigando o defensor a preocupar-se, mais do que tudo, com o seu próprio corredor e a gastar depois mais energia - o deslize tem que ser feito a maior velocidade - quando precisava de desmultiplicar a sua defesa. Com esta forma de jogar, para além do cumprimento dos princípios e da geometria do jogo, há muito maiores hipóteses de explorar, em tempo útil, possíveis erros defensivos porque, jogando em cima, as hipóteses de romper a linha defensiva são maiores e mais difíceis de recuperar - os intervalos são mais difíceis de fechar e o espaço de penetração é superior. E ainda, ao contestar mais a defesa, possíveis erros nos movimentos dos adversários tendem a aparecer também em maior número.

Por outro lado e no que diz respeito à defesa, os jogadores portugueses mostraram bem a nítida preocupação de derrubar o portador da bola, procurando colocá-lo o mais rapidamente possível no chão - isto é, placando o portador da bola uma vez que só existe placagem se portador da bola e placador forem ao chão. Esta diferença provocou a possibilidade de mais recuperações de bolas mas, acima de tudo, permitiu que defesa colectiva se reorganizasse sem recuar demasiado, permitindo assim que a pressão sobre os atacantes fosse mais constante e, eventualmente, mais eficaz.


No entanto e apesar das melhorias e do 4º lugar conseguido, ainda há muito para fazer, para construir e para desenvolver e que não se compadece com a forma como a participação portuguesa foi preparada. De facto tivemos, em Exeter e comparativamente - como mostram os gráficos - com os adversários que obtiveram 50% de vitórias nos 6 jogos, a pior percentagem de quota de pontos marcados na relação da totalidade de pontos - 40% contra 49% da Espanha e 47% da Alemanha - e a pior diferença de pontos marcados/sofridos (-40 pontos que nos colocaram na 10ª posição entre os presentes no torneio inglês) de todos os 4º lugares do GPS dos anos de 2016 e 2017. O que demonstra, nas dificuldades da eficácia ofensiva e defensiva - marcamos ensaios a menos (porque usamos mal a bola ou porque não conquistámos as suficientes) e sofremos ensaios a mais (porque cometemos erros de coordenação da linha ou porque lemos mal os movimentos) - a distância a que nos encontramos do acesso a Mundiais e Jogos Olímpicos. Situação que apenas se resolve com determinação e visão estratégica dos dirigentes federativos e clubistas.


É aliás uma pena que os jogadores não sejam treinados/ensinados o suficiente nas questões técnico/tácticas individuais de maneira a que sejam suficientemente eficazes perante as situações que enfrentam. Fábio Conceição, por exemplo, mostra todas as condições para ser um caso sério no Sevens mundial mas a quem falta ainda um conjunto de ferramentas para poder ser um adversário temido e não ser trabalhado/ensinado é um desperdício desportivo que não é aceitável - os jogadores devem ter o direito de ser ajudados a atingir o máximo das suas capacidades. E as dele são elevadas.

Como também se percebe só de olhar, os Sevens exigem uma cada vez maior capacidade física que não é possível atingir apenas com os treinos. O que torna essencial a realização de torneios antes do GPS para garantir, para além da necessária coesão, consistência e experiência, a condição física que possibilite a constância de resultados e se assim não for por forma a garantir as classificações pretendidas.

Porque, de outra maneira e se assim não for, ficaremos sujeitos aos altos e baixos de uma sorte e de um azar. Dependendo mais dos outros do que de nós próprios.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ZÉ FILIPE NOBRE GUEDES (1946/2017)



Faleceu o Zé Filipe Nobre Guedes, meu amigo e meu companheiro na equipa do CDUL. Gostávamos do mesmo tipo de rugby - todas as bolas eram boas para atacar e o movimento da bola comandava tudo o resto - e depressa nos tornámos amigos.
Com 9 internacionalizações, foi o 71º jogador a vestir a camisola de Portugal e foi diversas vezes campeão nacional pelo CDUL. Foi, pela inteligência com que analisava o jogo, pela clara noção da importância da Linha de Vantagem, pela qualidade técnica - jogava a Nº8 com a facilidade e a fluidez de um Centro, tinha a elegância dos melhores em cada gesto técnico, chutava aos postes com a qualidade que nos daria vitórias, placava tudo o que fosse preciso e tinha eficazes linhas de corrida - o melhor - gosto de o dizer assim - jogador com quem joguei.
E não esqueço que, numa altura em que estava lesionado (rotura de ligamentos e 7 meses de canadianas) e que o Serafim Marques me tinha convidado para o ajudar - preparando as linhas-atrasadas - quando terminou o jogo que nos deu o título, atravessou o campo até ao "banco" para me dar um sentido e apertado abraço e agradecer-me o trabalho que tinha realizado. Depois, seguiu a minha carreira de treinador e, sempre que nos encontrávamos, falava-me dela e comentava resultados.
Quando esteve como dirigente no Sporting, encontrámo-nos diversas vezes e o rugby acabava sempre por prevalecer na conversa.
Ficarás guardado para sempre na minha memória, Zé Filipe. Um grande abraço e até sempre!
   

terça-feira, 18 de julho de 2017

OPORTUNIDADE DESTROÇADA

O quarto lugar conseguido pela selecção portuguesa de Sevens na 4ª e última etapa do Grand Prix Series disputado em Exeter - à frente dos já apurados para o Mundial 2018, Inglaterra e França e dos pressupostos adversários directos Espanha, Alemanha e Geórgia - veio demonstrar uma evidência: se preparada de forma adequada, a equipa portuguesa tinha todas as condições para uma participação competitiva de acordo com os objectivos desportivos pretendidos de acesso a Hong-Kong e/ou entrada na corrida ao Mundial de 2018.
Infelizmente a falta de visão e a existência, até, de preconceitos sobre a variante por parte dos responsáveis da modalidade a que a comunidade rugbística assistiu sem preocupações, tornaram impossível o cumprimento da missão portuguesa. E o resultado disso viu-se na posição final: um 8º lugar sem honra nem proveito.


O facto é este: foi por decisões erradas e falta de interesse da administração da modalidade - nomeadamente colocando o Portugal-Brasil de relativa importância num patamar que não merecia e que, apesar da desonrosa derrota, não teve quaisquer consequências no modelo seguido - e não por erros cometidos dentro do campo que Portugal não conseguiu melhor do que a 8ª posição num “europeu” que, à partida, lhe permitiria chegar bem mais longe. O que é grave, porque irresponsável, para uma área do Desporto de Rendimento onde, mais do que tudo, contam os resultados.
Esta falta de responsabilidade tem ainda duas consequências também graves:
  • diz-se que “o jogo de rugby pertence aos jogadores”, conceito que alerta para qualquer tomada de assalto que o possa desvirtuar e que coloca o jogador no centro da modalidade, como seu foco essencial de atracção. Quer isto dizer que todas as acções realizadas ou decisões tomadas devem ter sempre em atenção os jogadores e as consequências que os afectem uma vez que são eles que melhor expressam o interesse desportivo. Por isso e como exemplo, a introdução de “amarelos”, as preocupações sobre as concussões, a simplificação das regras para que haja uma perfeita compreensão das ilegalidades do jogo ou o aumento do valor dos ensaios - o momento mágico para que “vivem” os jogadores. No caso da participação portuguesa no europeu de Sevens - conhecida desde que os Sevens se organizaram - as decisões tomadas nunca tiveram em qualquer atenção os jogadores que poderiam estar envolvidos nos Sevens nem tão pouco o interesse desportivo da modalidade - que ultrapassa e muito o jogo dos pequenos interesses que estão sempre presentes. Foram decisões ou não-decisões (não)tomadas.
  • sabe-se, porque vem nos livros, que o “respeito” é um dos cinco valores exigidos para a prática do rugby. Ora as decisões (não)tomadas não tiveram qualquer respeito pelos jogadores. Que são amadores, que não recebem e que têm na possibilidade de participar em grandes provas - World Rugby Sevens Series, Mundiais ou Jogos Olímpicos - a recompensa para os seus sacrifícios. E esse respeito não existiu, deixando-se que tudo fosse tratado com o ardiloso livre arbítrio de uma qualquer zona de conforto.
E por tudo isso e sem razões que o justifiquem, a selecção portuguesa de sevens viu-se, durante as 4 etapas, a braços com 10 estreias absolutas e com 20 mudanças de etapa para etapa, nunca conseguindo uma equipa com a coesão necessária ao Alto Rendimento - repito o básico: a entrada da variante para o Movimento Olímpico modificou completamente a envolvente do jogo. O rigor é outro e as exigências são absolutas. Mas estas não devem ser preocupações nossas pois que e como parece, preferimos sempre actividades não mensuráveis e que dêem uma falsa ideia de progresso.

O Alto Rendimento exige uma gestão precisa e rigorosa com uma estratégia simples, clara e determinada. Os objectivos desportivos devem ser precisos, motivadores e adequados às capacidades da equipa e capazes de serem atingidos por mais do que uma via por necessidade de respostas a imponderáveis. E estarem sempre suportados por um apoio constante que facilite os caminhos a percorrer.
A selecção portuguesa de Sevens mostrou que tinha os jogadores com as técnicas e o conhecimento táctico necessário para se bater até ao fim pelos resultados pretendidos. Mas nunca se viu envolvida por uma estratégia motivadora ou eficaz e os seus dirigentes deitaram fora uma oportunidade irrepetível para relançar uma carreira internacional decisiva para garantir os retornos necessários à continuidade do desenvolvimento.
E o Desporto de Rendimento não vive de penas ou de remorsos… vive de factos transformados em resultados.


sábado, 15 de julho de 2017

SAFOS! E O FUTURO?

Está feito! Desta já nos safamos e não desceremos de divisão!

Com uma diferente atitude - positiva, agressiva, resiliente, apostada na vitória - os jogadores determinaram os resultados necessários para a manutenção nesta última etapa do Grand Prix

Mas esta boa nova não retira os erros monumentais que foram feitos na área da variante e que nos levaram à situação lamentável de termos estado a lutar pela manutenção. Conforme previsão atempada e a vitória contra a França, os resultados da Inglaterra ou a falta de comparência da Escócia, demonstraram à evidência, as equipas já apuradas para o Mundial de 2018 não iriam apresentar equipas constituídas pelos melhores jogadores mas iriam aproveitar a ocasião para dar experiência a novos jogadores. E isso significava que haveria - como se viu - uma diminuição do número de adversários acima do nosso nível normal, aumentando assim as nossas possibilidades para recuperar as posições internacionais perdidas e poder conquistar, nomeadamente, um lugar para Hong-Kong com o objectivo - única forma de conseguir uma posição competitiva internacional capaz de o fazer concorrente ás grandes provas mundiais como o Mundial e Jogos Olímpicos - de voltar a disputar as World Sevens Series.
Uma perneciosa falta de visão e de conhecimento sistémico da variante fizeram-nos vir escada abaixo. A preparação, descuidada e ligeira, sem condições deste Grand Prix Series, retirou-nos uma oportunidade de renascer perante um futuro cada vez mais difícil - a integração da variante no movimento olímpico acabou de vez com ideia de brincadeira de final de época para a colocar num patamar de exigências onde só o rigor, o trabalho desportivo e um cada vez maior conhecimento técnico, táctico e científico podem traduzir resultados positivos. Dados aos quais e sob o manto parolo de predestinados, pouco ou nada ligamos.
E agora não resta outra hipótese que não seja a de esperarmos pela definição estratégica dos responsáveis da modalidade... Que pensam fazer?

LIONS, NOTAS FINAIS

Já foi dito e redito: o empate é uma chatice! Como "beijar a irmã", diz Steve Hansen. Sem graça nenhuma dizem os adeptos dos dois lados.
Mas olhando para a média estatística dos 3 testes o empate é o resultado do jogo. Veja-se que, se os All-Blacks têm vantagem no número de bolas disponíveis e de metros conseguidos no transporte da bola, os Lions têm vantagem no número de placagens realizadas. O que apenas dá uma vantagem de 0,4 na média dos ensaios favorável aos neozelandeses (5 ensaios All-Blacks e 4 para os Lions). Ou seja: as dificuldades do ataque para ultrapassar as defesas foram enormes.
E, por estes parâmetros, a figura da digressão foi o treinador da defesa dos Lions, Andy Farrell, que conseguiu a proeza de fazer baixar a média de ensaios dos All-Blacks de 5,7 para 1,67 e a de pontos de 40 para 22. Feito notável e que se baseou na "scramble* defense" - defesa mista rápida e adaptativa - constituída por uma superior capacidade táctica de análise e consequente adaptação imediata às diversas situações impondo a antecipação e não através de uma estrutura pré-definida, mas com uma atitude eficaz de controlo e corte das hipóteses adversárias, nomeadamente com ocupação do espaço para corte das linhas de passe. E que exige um espírito colectivo de grande densidade - nitidamente jogando uns pelos outros. Um enorme e bem concebido trabalho que conseguiu levar os jogadores a pensarem e decidirem, colocando-se fora da área de comodidade que os sistemas estruturados propõem. (A minha curiosidade remete para o método de treino utilizado...). Como diz o próprio Andy Farrell: "Não se trata apenas de sprintar a partir da linha. Trata-se de adaptação à situação. Se a oposição consegue um offload então o sistema tem que ser mudado."
Watson soube cortar a linha de passe e recuperar a bola num momento crítico para o resultado final

OS MELHORES JOGADORES DA DIGRESSÃO
SAM WARBURTON (Gales)
Foi um capitão notável, dentro e fora do campo. Tendo começado o 1º teste no banco, a sua influência nos restantes foi visível. Atento, álerta, congregador, tacticamente influente - ainda me lembro do aviso aos companheiros: atenção ao jogar rápido! logo que o árbitro apitou penalidade. A eficácia da sua placagem (19), o contributo nos alinhamentos com 5 bolas ganhas e a capacidade de participar no início da organização defensiva foram as suas armas positivas. Para além de tudo o mais terá sido ele -pelo que se lê - que lembrou a Poit a figura de fora-de-jogo acidental...
LIAM WILLIAMS (Gales)
Lançado como defesa nos três testes jogou como se aí fosse o seu lugar de eleição. Com 151 metros de transporte de bola e o lançamento da jogada do ensaio da digressão marcado por Sean O'Brien no 1º teste, com uma movimentação notável a deixar adversários colados ao chão, o defesa dos Lions foi sempre uma ameaça atacante.
ANTHONY WATSON (Inglaterra)
A demonstração de conhecimento táctico realizada no momento de jogo em que Jonathan Davies placou, depois de uma sufocante corrida, o centro neozelandês Laumate, resistindo à tentação de ir à bola - teria que dar a volta e entrar pela "porta" - abrandar a sua corrida e cortar a linha de passe, acabando por captar o offload, foi notável e mostrou a qualidade de jogador que é. Aliás se não fosse esta sua acção dificilmente o empate das séries seria o resultado final. Um jogador a ter em atenção no caminho para o Mundial 2019
JONATHAN DAVIES (Gales)
Ter sido considerado pelos seus companheiros como o jogador da digressão basta para se perceber a sua importância. Mas se verificarmos o seu transporte de bola - participou também no ensaio de O'Brien - de 146 metros, as 5 rupturas defensivas, a consistência defensiva, a qualidade do seu jogo ao pé podemos apostar que estamos na presença de um centro de categoria mundial.
OWEN FARRELL (Inglaterra)
Não terá feito dos melhores jogos, cometeu alguns erros que iam comprometendo a equipa, mas a sua capacidade de chutar aos postes (31 pontos) e a sua consistência defensiva (20 placagens), permitindo impedir as rupturas defensivas no canal central, foram fundamentais para o resultado final.
CONOR MURRAY (Irlanda)
Foi rápido a passar e o seu jogo ao pé foi sempre tacticamente adequado e a colocar problemas ao três-de-trás adversário. Marcou um ensaio, criou 3 rupturas e ainda fez 16 placagens. Nada que se estranhe de um dos melhores médios-de-formação mundiais.
TADHG FURLONG (Irlanda)
Um senhor pilar capaz de marcar posição nas formações-ordenadas mas ainda de transportar a bola e ainda de placar 16 vezes. De facto funciona como uma verdadeira ameaça sempre que recebe a bola em movimento. Será uma figura irlandesa no próximo 6 Nações.
MARO ITOJDE (Inglaterra)
Que se pode dizer deste gigante que, para além da sua importância nos alinhamentos, faz 24 plcagens, sabe transportar a bola e ainda garante o apoio aos seus companheiros que colidiram com defensores? Não será exagero afirmar que é um dos poucos que pertence ao reduzido grupo de Bases de categoria mundial. Espera-se com expectativa o que nos vai mostrar no 6 Nações. 
SEAN O'BRIEN (Irlanda)
Na linha dos agressivos e resilientes terceiras-linhas irlandeses - lembram-se de Slatery? -  O'Brien teve enorme infuência no processo defensivo dos Lions - realizou 24 placagens e transportou a bola por 70 metros gastando alguns deles para marcar o ensaio da digressão com uma linha de corrida de apoio notável para aparecer no momento certo.
O PIOR DOS JOGADORES
KYLE SINCKLER
O pilar inglês foi preso na madrugada posterior, cerca das 3 da manhã, ao último teste "por um incidente menor que, depois dos inquéritos realizados, se demonstrou sem consequências" - segundo a polícia da Auckland que o escultou de volta ao hotel da equipa. 
Dadas as circunstâncias do comunicado policial e tendo lembrado ao jogador "as suas responsabilidades enquanto Lion que são extensíveis ao seu comportamento fora do campo", John Spencer, responsável da comitiva dos Lions e o capitão Warburton consideraram o assunto como definitivamente encerrado.
Apesar desse facto, o pilar inglês, que realmente teve um comportamento fora do expectável para um jogador internacional, fez um formal pedido de desculpas. Assim: "Peço desculpa de me ter colocado e aos Lions nesta situação e também à polícia e a quaisquer outros que tenham sido afectados.
Dois factos se salientam a demonstrar a actuação normal em casos semelhantes: o conhecimento público do acontecimento e o seu não escamoteamento por parte dos responsáveis dos Lions e o pedido de desculpas também públicas de Kyle Sinckler.

* "scramble" era a palavra utilizada pela aviação britânica quando ameaçada para colocar tão depressa quanto possível os seus aviões no ar sem qualquer formação ou ordem especial numa desordem que se transformava em ordem pelo traquejo dos pilotos e pela necessidade da eficácia.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BATALHA DE FAZ DE CONTA


Composição de Nicholas Bishop
O analista e consultor - trabalhou com Graham Henry, Mike Ruddock e Stuart Lancaster - Nicholas Bishop fez as montagens necessárias para demonstrar a inexistência - como também considero - de toque-para-diante ou adiantado de Liam Williams e que terá motivado a decisão precipitada de Romain Poite. E precipitada porquê? porque se fiou nas aparências e não se preocupou com a análise da trajectória da bola - único ponto, fora dos relacionados com jogo desleal ou violento (Lei 10), que importa focar antes de qualquer outro em situações idênticas.
Pode aliás perguntar-se onde estaria Jérôme Garcés, o árbitro-auxiliar? Deixando-se ficar junto à linha de meio-campo o também árbitro internacional francês cometeu um erro de palmatória e não pode sequer elucidar o seu chefe de equipa da inexistência de qualquer falta dos Lions (em princípio estaria na linha da salto dos dois jogadores).
Curiosamente o posicionamento de ambos os juízes estava errado neste pontapé de recomeço: Poite do lado do pé do chutador, Garcés no meio-campo. O primeiro, avançando pode impedir a utilização da totalidade do ângulo de pontapé e, tendo por isso, que ter uma maior atenção à bola, não verá o que se passa nas suas costas - e não viu, no que parece um fora-de-jogo - a relação entre a ultrapassagem da linha de meio-campo de Kieran Read e da bola. Na linha de meio-campo e com todo o campo de visão liberto, Garcés deixou seguir. Passemos á frente: por mais que pareça, Read não terá arrancado em falta.
Bastante adiantado em relação aos companheiros (primeira figura), Read salta para a  bola com um braço estendido e colide com Sam Williams que, também no ar, tentava captar a bola. Ken Owens, o número 16 dos Lions, está mais próximo da linha de ensaio adversária do que o defesa seu companheiro e portanto em fora-de-jogo e que corre na direcção do seu campo para se colocar em jogo. Situação que não é penalizável até que, nessa posição, interfira no jogo.
Repare-se na primeira figura: Williams está a saltar no prolongamento da letra "L" da palavra Life - onde a bola lhe ressaltou - e o seu companheiro Owen, continuando a correr em direcção à sua área-de-ensaio, está na zona do "f".
Depois da bola ter ressaltado Williams, Owens (segunda figura) apanha a bola entre a zona "r" e "d" da palavra Standard - ou seja, a bola ressaltou de Williams para trás, em direcção à sua área-de-ensaio, e, portanto, não houve qualquer adiantado ou toque-para diante.
Williams (terceira figura) atinge o chão, empurrado por Read, no prolongamento do início da letra "n" e Owen, que já havia - com ar assustado - largado a bola, continua "à frente" de Williams. Porque Williams, já sem bola, recuou no terreno da letra "L" à letra "n"...
A bola rolou e foi apanhada pelo centro neozelandês, Lienert-Brown, que ficou numa excelente posição de vantagem. O árbitro apitou!
Partindo do princípio que Read não fez falta sobre Williams - o que é duvidoso, mas a má posição de Garcés a nada ajudou - não há qualquer falta sequente - tão pouco fora-de-jogo acidental e o jogo deveria prosseguir.
Então porque houve a precipitação de Poite e toda a trapalhada que se lhe seguiu?
Fundamentalmente penso que por cansaço - falta de oxigénio suficiente a arejar o cérebro uma vez que o jogo teve uma intensidade muito superior àquela que os árbitros franceses estão habituados.
E agora? Agora nada ! - embora se espere que a Rugby World clarifique estas regras que já haviam sido motivo de reparo quando do caso Joubert no Austrália-Escócia do Mundial de 2015.
O mais impressionante de toda esta situação, a 2 minutos do final do jogo, foi que, terminado, todos os envolvidos justificaram o meu "agora nada!" e tiveram um comportamento exemplar. Kieran Read, capitão neozelandês, declarou que "não foi por o árbitro não ter marcado falta que perdemos" - curiosa expressão; Steve Hansen, o treinador principal dos All-Blacks lembrou que "nós devemos apoiar os árbitros e não criar-lhes situações de aperto". 
Ninguém gosta de ficar com a sensação de que deixou escapar a vitória por entre os dedos e todos os que falaram no pós-jogo lembraram que prefeririam a vitória. Apenas isso, sem acusações ou azedumes. Numa demonstração de desportivismo exemplar para quem tinha passado 80 minutos a lutar, uns contra os outros, com quanta força e energia tinha. Razão tinha o Rt Reverendo W. J. Casey quando em 1894 estabeleceu: o Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas nunca para maus desportistas, sejam de que classe forem
Tendo sido um formidável jogo de rugby foi também uma enorme demonstração dos valores da competição desportiva. Um exemplo!
Final do 3º teste - o jogo é uma batalha de faz-de-conta!
  

terça-feira, 11 de julho de 2017

ELOGIO DO RUGBY

Homenagem a um jogo formidável
Como é que se define um jogo como este 3º teste entre All Blacks e Lions? Notável, foi. De tirar a respiração, também. De exigir revisões, pela certa! Técnicas, estratégicas, tácticas, regulamentares - um tratado de estudos.
A primeira e enorme impressão é esta: a principal preocupação estrutural de qualquer das equipas é que os seus jogadores cumpram os Princípios Fundamentais do Jogo: Avançar Sempre!, Apoiar, Continuar e Pressionar. E fazê-lo em cada momento do jogo sem hesitações para garantir coesão e organização colectiva. E o jogo faz-se, correndo riscos para procurar uma diferença através do movimento global com cada jogador a saber - porque ensinado - jogar de acordo com a posição em que foi apanhado e atacando os pontos fracos do que pode ler na defesa que se encontra na sua frente. Ou seja: Menos preocupados em reger-se por uma estrutura trazida do balneário qualquer das equipas confiou nas suas capacidades técnicas e conhecimentos tácticos para poder surpreender o adversário. E se esse factor era mais favorável aos All Blacks por maior coesão da equipa conseguida pelo melhor conhecimento mútuo dos seus jogadores, a adesão dos Lions ao conceito possibilitou o interessante jogo que vimos. Na óbvia esperança que a moda pegue... e possamos ver mais jogos "abertos".
Quer em ataque, quer em defesa, o cortar o espaço disponível para levar ao erro foi uma constante. Que houve muitos erros? Claro, porque a intensidade do jogo e a pressão, a cortar tempo e espaço, a isso levaram. Mas não porque os actores fossem de fraco nível.
Em ataque, cada vez que o portador da bola não se aproximava o suficiente para fixar o defensor - caso de Owen Farrell em algumas vezes da 1ª parte - a defesa deslizava e liquidava a vantagem numérica obtida até então. Ou seja: quem não agisse de acordo com os cânones era imediatamente suplantado pelo adversário, num jogo a exigir o máximo de qualquer dos notáveis jogadores presentes. Jogo a ver e rever, a retirar foto a foto, como demonstração do que se deve fazer, como lição táctica constante.
O jogo ao pé, excepção para os pontapés aos postes de Beauden Barrett, foi espectacular ao constituir uma permanente arma de ataque, criando constantes problemas aos defensores, nomeadamente com o passe ao pé do mesmo Barrett - aposto que treinado nas brincadeiras dos jardins de casa - para o seu irmão Jordie que, qual jogador de vólei, passou a bola para a corrida de Ngani Laumape. Mas o jogo ao pé do formação Connor Murray foi também de enorme categoria na acuidade e temporização e o de Farrell de uma precisão superior. Aliás Warren Gatland avisou desde o início da digressão que a qualidade de jogo ao pé - quer colocado quer “da mão” - era uma das armas diferenciadoras da sua equipa. E viu-se… 
Um empate é sempre um resultado que não agrada aos gregos e troianos que participaram - como jogadores ou espectadores - no jogo. Mas este empate não fica mal e resulta das capacidades equilibradas de cada equipa. Um empate significa equilíbrio e esse equilíbrio nota-se desde logo na constituição física - o índice de compacticidade - dos jogadores presentes.

Deste equilíbrio físico, resultou o equilíbrio do jogo.
A posse da bola dividiu-se com 51% para os AllBlacks e 49% para os Lions enquanto que no domínio territorial os neszelandeses dominaram com 56% para acabarem no final com 2 ensaios marcados enquanto que os Lions apenas conseguiram marcar através de pontapés de penalidade (4 de Owen Farrell e um, portentoso de mais de 50 metros de Elliot Daly). 
Esse equilíbrio mostrou-se também nas placagens efectuadas - 110 para os All-Blacks (86%) e 106 para os Lions (84%) - ou nos passes conseguidos - 148 neozelandeses contra 142 dos Lions - ou pontapés realizados (21 contra 23) mas onde os All-Blacks se mostraram superiores foi nas variáveis estatisticas que constroem o resultado: 9 rupturas (a sua média habitual) contra apenas 2 dos Lions; 430 metros percorridos com bola  (aproximando-se da sua média de 490 metros) correspondentes, em média a 3,9 metros por corrida e a 4 metros por bola disponível contra 350 metros dos Lions a que corresponderam 2,9 metros por corrida e a 3,4 metros por bola disponível. A ultrapassagem da Linha de Vantagem foi feita em 47% das bolas disponíveis por parte dos All Blacks e em 41% das bolas disponíveis por parte dos Lions - o que dá uma boa ideia do comportamento defensivo de ambas as equipas.
Vencendo todas as Formações Ordenadas e Alinhamentos da sua responsabilidade, os All-Blacks igualaram nos Rucks e viram-se ultrapassados pelos Lions nos turnovers (7-4) e offloads (8-6) e principalmente nas penalidades concedidas com 9 contra 5, dando assim a possibilidade aos Lions de construir o empate.  
Embora com o resultado sempre muito próximo com uma diferença máxima de 6 pontos, o jogo exigiu muito das defesas para se imporem ao domínio de jogo adversário.Nos primeiros dez minutos o domínio do jogo (ocupação de território, posse da bola, metros conquistados e combinações atacantes do meio-campo adversário) pertenceu aos All-Blacks para, apesar de um equilíbrio mais conseguido, continuarem a dominar durante a 1ª parte. Na 2ª e á medida que o tempo avançava, os Lions conseguiram dominar as operações para se verem completamente dominados nos últimos 15 minutos mas conseguindo ainda uma penalidade quase sobre o meio-campo que permitiu os 15-15.
E no pontapé de recomeço…

CASCATA DE FALTAS? 
O árbitro francês, Romain Poite, decidiu, depois de um intervalo para ver imagens e ouvir o auxiliar do dia Jerôme Garcés, considerar um “fora-de-jogo acidental” (Lei 11.6 - sanção: formação ordenada) a Ken Owens naquilo que havia considerado primeiramente como “fora-de-jogo depois de um toque-para-diante” (Lei 11.7 - sanção: penalidade). A sessão teve reunião de capitães e está ainda em discussão mundial. Mas, muito provavelmente, o árbitro francês ficou-se pelo aspecto menos relevante de uma situação mais ampla. Tudo começou no pontapé-de-recomeço após o empate. Eis a sequência:
  1. Beauden Barrett chuta o pontapé-de-ressalto e Kieran Read é o primeiro neozelandês a entrada na zona dos 10 metros situação que deveria ser analisada de acordo com a Lei 13.3 - Posição dos companheiros do chutador num pontapé-de-saída. Considerada faltosa esta situação obrigaria a uma formação-ordenada no centro do terreno com introdução favorável aos Lions;
  2. Kieran Read salta com um braço estendido para a bola e derruba Liam Williams que, no ar, procurava encaixar a bola devendo ser a situação analisada através da Lei 10.4 (i) - Placar o saltador no ar - que, em caso de movimento ser considerado em falta, seria punível com pontapé de penalidade favorável aos Lions;
  3. Ressaltando a bola de Williams, encontra Ken Owens, pilar Lions, que a toca e larga de imediato. Duas questões nesta situação: houve “toque-para-diante” de Williams e estava Owens à frente de Williams quando recebeu a bola em situação de impedir um adversário de tirar vantagem (Lei 11.7 - Fora-de-jogo após um toque-para-diante. Sanção: penalidade) ou Owen não poderia impedir que a bola lhe tocasse e seria “fora-de-jogo acidental” (Lei 11.6 - Fora-de-jogo acidental; sanção: formação-ordenada)?
  4. A bola, largada para o chão por Owen é apanhada pelo centro neozelandês Lienert-Brown que fica em condições de a jogar e cria uma situação de grande vantagem (Lei 8 - Lei da Vantagem) para os All Blacks - poderia acabar em ensaio.
O que viu Poite, o que não viu, que falta marcou e o que devia ter marcado?
Houve ou não falta?
Não considerando qualquer falta de Read no pontapé-de-recomeço e considerando - como pareceu ouvir-se - que o seu salto e empurrão sobre Williams foi legal, restava a Poite analisar a trajectória da bola deixada por Williams.
E se as situações anteriores não foram considerados por Poite, a sua interpretação final, que o leva, em primeiro momento, a considerar penalidade favorável aos neozelandeses e, dada a posição no terreno, a favorecer a vitória dos All Blacks neste 3º e último teste de tira-teimas, foi errada. Tomando a nuvem por Juno, Romain Poite preocupou-se com o pormenor e esqueceu a visão geral do lance. De facto o árbitro francês teve mais em consideração o ponto de queda de Liam Williams - empurrado uns metros por Read - do que a trajectória da bola que, no fundo, deve ser o que conta para o ajuizar da situação. 
Sendo verdade que Ken Owens se encontrava à frente - mais próximo da linha-de-ensaio adversária - de Williams mas também é um facto que um jogador - como tantas vezes acontece em situações de jogo - em fora-de-jogo pode vir a apanhar uma bola se a sua trajectória não resultar de um adiantado ou de toque-para-diante. Foi o que aconteceu: a bola vinda de Williams não constitui um adiantado ou toque-para-diante e Owens não terá cometido qualquer falta acidental ou não. O que resta para marcar?
Nada! Deixar seguir o jogo e porque não houve qualquer falta dos jogadores dos Lions, ver o que faria o jogador neozelandês que ficou com posse da bola e em situação de óbvia vantagem. 
Se não se tivesse precipitado - cansaço de um jogo muito intenso? - Poite apenas teria que decidir sobre uma de duas coisas: falta no ar do capitão neozelandês ou continuação do jogo?
Esta Lei 11.6 já tinha demonstrado a sua ambiguidade no caso Jobert do Austrália-Escócia do Mundial 2015. Muito se falou mas nada se modificou. Talvez agora tenhamos mais sorte e haja uma clarificação por parte da World Rugby. Que aliás deve analisar uma outra situação: a validade da placagem - caso Famuina no 2º teste - a um jogador no ar por ter saltado para apanhar um passe de um companheiro (quando se corre em boa velocidade há alturas em que os dois pés estão no ar em simultâneo, posso placar?).
Esta digressão de 2017 foi extraordinária - 5 vitórias, 3 derrotas e 2 empates - e deixará uma marca na história dos British and Irish Lions que representam, desde 1888, o melhor que o rugby tem. Formado por jogadores de 4 países diferentes que escolheram o galês Jonathan Davies como o melhor jogador da digressão e que, representando culturas diferentes com histórias passadas desavindas, com processos desportivos e rugbísticos distintos e que têm apenas de comum a língua inglesa, conseguem, em muito pouco tempo, formar uma equipa com a coesão suficiente para que cada um se bata como se estivesse a jogar pelo seu próprio país e poder defrontar os triplos campeões do Mundo. Com pouco tempo conjunto esta coesão só pode dever-se ao elevadíssimo prestígio da instituição que leva os jogadores, por orgulho e sentido de responsabilidade histórica, a demonstrarem de forma evidente a capacidade de integração demonstrativa do Desporto e definir o padrão do One for All que os caracteriza.

domingo, 9 de julho de 2017

MISSÃO CUMPRIDA NO FEMININO

Lista de jogadoras presentes na 2ª etapa do WGPS de Kazan

Apesar de todas as dificuldades atravessadas para a sua preparação, nomeadamente o fraco nível da competição interna e, praticamente, a inexistência de preparação internacional, a selecção feminina de Sevens conseguiu garantir a sua manutenção para o próximo ano na Womens Grand Prix Series.
Partindo de um fraco resultado - 11º lugar - na 1ª etapa de um Europeu que se disputa apenas em duas etapas e que despromove duas equipas à divisão inferior, a selecção feminina fez uma excelente competição de grupo em Kazan derrotando a Espanha (22-10) e a Bélgica (12-5), perdendo para a França (26-5) e conseguindo o 2º lugar que lhe garantiria, na pior das hipóteses, 6 pontos no ranking a juntar aos dois conseguidos em Malemort para um mínimo de 8 pontos finais. Com estes 8 pontos, Portugal ficaria sempre à frente da Suécia - que apenas poderia ter um máximo de 6 pontos após os resultados de sábado - e da Holanda que apenas poderia atingir os 5 pontos finais. 
Com estes resultados e dando uma demonstração de notável atitude - essa pequena coisa que faz toda a diferença como lembrava Winston Churchill - a selecção feminina de Sevens, agora em profunda remodelação por final de carreira de muitas das jogadoras após o ciclo olímpico do Rio, ao atingir o objectivo da manutenção cumpriu a missão que - numa visão realista da situação -  lhe estava atribuída pelo seu treinador/selecccionador João Mirra. 
Parabéns! Ao treinador e a todas as jogadoras. Excelente demonstração de vontade e responsabilidade face ao direito de uso da camisola de Portugal.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

POR UM FUTURO COM RESULTADOS

Sendo a missão das federações desportivas a criação das condições de competição desportiva que permitam a melhor preparação possível para o confronto internacional e não, como muitos gostam de julgar, a de dever espalhar a prática do desporto pelo país inteiro - isso é obrigação do Estado através da Escola e do apoio das Autarquias - têm portanto como seu objectivo e propósito, o desenvolvimento do Desporto Rendimento. 
Na actual situação, com o excesso de equívocos com que o Desporto tem sido rotulado - se não houvesse desporto para atacar tantas maleitas nem sei como existiríamos... - não será grave a co-existência, numa mesma federação, das duas componentes: Desporto-Rendimento e Desporto-Social ou Lazer. Desde que...
...desde que não haja ingerências e que exista nítida separação de meios e acções uma vez que, sendo os interesses e conteúdos distintos também o serão uma e outra das práticas. Assim o que faz sentido é separar as duas componentes em duas estruturas distintas com corpo de tomada de decisões também distinto numa adaptação das ligas profissionais à estrutura amadora das diversas federações. Ou seja: de um lado aqueles que têm capacidade organizativa para ser sustentavelmente competitivos na área do Desporto Rendimento; do outro aqueles que mais ligados à prática de lazer da modalidade não têm ainda, ou não quererão ter nunca, as estruturas necessárias para ultrapassar o conceito desportivo de lazer. O que não quer dizer que não possa haver competição para ambos os conceitos. Mas com exigências diferentes, fazendo-se a articulação (ou passagem) de um nível para o outro por candidatura demonstrativa das capacidades de cumprimento de um caderno de encargos previamente estabelecido e demonstrado ao longo de determinado tempo.
Veja-se o que se passa com as provas populares de estrada no Atletismo: partem em primeiro lugar os atletas de Alto Rendimento que são seguidos, após intervalo de tempo ou de distância, por milhares de praticantes que, embora a velocidades diferentes, fazem o mesmo percurso, cumprindo os seus objectivos próprios, mas sem interferência entre uns e outros.
A organização da federação nestes termos de separação de conteúdos não coloca qualquer problema legal como lembra o preâmbulo do Decreto-Lei nº93/2014 de 23 de Junho que procede à primeira alteração ao Decreto-Lei nº 248-B/2008 de 31 de Dezembro que estabelece o regime jurídico das federações desportivas e as condições de atribuição do estatuto de utilidade pública desportiva. Escreve-se assim no referido preâmbulo e mostrando assim o “espírito da lei”: Em sétimo lugar, são revogadas as disposições relativas às associações de clubes não profissionais e às associações territoriais de clubes, deixando à total liberdade das federações desportivas a respetiva organização interna e admitindo o agrupamento dos clubes ou sociedades desportivas da forma que entenderem mais conveniente. (sublinhado meu) 
Todos os países adversários evoluiram e se nós não encontrarmos uma saída para o marasmo actual - estamos sem resultados que garantam o interesse das pessoas e dos patrocinadores e o nível do jogo tem vindo a baixar - tenderemos à queda vertical. E o rugby, enquanto jogo de rendimento onde a superação, o resultado e a constante melhoria técnico-táctica são suas características essenciais, acaba-se. Ou seja: desaparece o jogo desportivo que conhecemos como rugby
O desporto é competição com base na superação, no rendimento e na qualidade dos resultados. Não uma forma de lazer paga pelos dinheiros públicos. Tem uma exigência de resultados qualitativos que, então sim, podem proporcionar quantidades até ao limite da capacidade da organização. Mas são precisos resultados!
O Rugby é um Desporto Colectivo de Combate. Como Desporto representa os valores que estão associados a qualquer modalidade desportiva. É o facto de ser, para além de Desporto, Colectivo e de Combate que lhe garante características próprias e que as Leis do Jogo traduzem (por exemplo, 10 metros, forma de placar, cartão amarelo, fora-de- jogo, etc. etc) e que levam a que os comportamentos sejam geralmente mais moderados do que se poderia supôr. E é esse comportamento que é (ou deveria ser) extensível às comunidades que suportam o jogo. Ou seja são as características do jogo que desenvolvem e ampliam alguns dos valores que se consideram como desportivos e que se traduzem (ou deveriam traduzir) numa forma comportamental distinta e que lhe garante uma áurea própria. Que se perde se não houver colectivismo e combate...
Fazer da modalidade um caso especial, diferente de todas as outras, é pretensioso e deslocado, retirando, por um lado, sentido crítico e, por outro, impedindo de perceber o sistema desportivo mais global  - seja interno ou externo - ao qual pertencemos. Continuar com a retórica de valores que nos tornam especiais e diferentes tem apenas servido para esconder as questões que têm diminuído a qualidade interna da modalidade. Olhar de frente os problemas e enfrentá-los é a acção necessária e urgente. Antes que o tempo nos ultrapasse.

A separação dos conteúdos que se confundem na actual federação desportiva é exigência fundamental para permitir o desenvolvimento competitivo do rugby português e possibilitar a sua aproximação aos países com quem disputamos competições internacionais. Não o fazer, diminuindo assim, por falta de resultados atractivos, a penetração no tecido patrocinador, criará as maiores dificuldades à existência da modalidade no rectângulo português. Fazê-lo, pelo contrário, permite estruturar o caminho da qualidade que, essa sim, atrairá a quantidade.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SEVENS FORA...NADA!


As aparências podem iludir mas os resultados não.
E nos Sevens - o Grand Prix Sevens, vulgo “Europeu” - os resultados são a evidência do que muito mal vai no rugby português.
Este ano de 2017 era muito importante para a reclassificação dos sevens portugueses. E haveria algumas facilidades que poderiam ajudar: classificando para o Mundial teria equipas a competir que, por já classificadas por resultados anteriores, não se apresentariam na máxima força mas apresentariam jogadores da área do desenvolvimento para lhes permitir alguma rotação e garantir   competitividade interna para a melhor constituição da equipa para o Mundial de 2018. E foi isso que se viu na Inglaterra, na França, na Escócia - que nem se apresentou - ou Gales. Por outro lado, com a Russia e a Espanha já qualificadas como equipas residentes no Sevens World Series, a luta por um lugar para o “qualifying” de Hong-Kong estava reduzida à Irlanda, Alemanha e Geórgia uma vez que a aposta da Itália ainda não parecia absoluta. Neste quadro, um dos lugares para o Mundial e a possibilidade Hong-Kong poderia ainda ser uma hipótese.
A Portugal, naturalmente, interessaria poder estar presente em Hong-Kong quer para lutar pelo acesso ao Sevens World Series quer para um mínimo de competição de nível mais elevado que lhe permitisse iniciar da melhor maneira o percurso de classifucação para os Jogos de 2020 no Japão.
É claro que haveria que contar com a substancial melhoria que as diversas equipas - motivadas pelo factor olímpico - têm vindo a mostrar. O que significava ser necessário um cuidado assinalável na preparação. Até porque há existência de resultados nesta variante corresponde - para além da inexistência de custos nas viagens e estadas competitivas - o recebimento de quantias nada desprezíveis vindas quer da World Rugby, quer do Comité Olímpico de Portugal.
Se assim se pensou - inclusive com a garantia que, após o jogo com a Bélgica, o sevens teria prioridade absoluta - pior se executou - não houve qualquer prioridade e deixou-se que as coisas corressem ao deus dará. E os resultados estão à vista e demonstram a incapacidade da equipa portuguesa e da sza envolvente para atingir um lugar de relevo. Ou seja: depois do erro estratégico que nos custou a presença na Sevens World Series - e como iremos lá voltar é a resposta para um milhão de euros - novos erros deitaram fora a melhor oportunidade que nos aparecerá nos próximos tempos (sabe-se de análises feitas: o ano de melhores oportunidades para conquistar posições em modalidades olímpicas é o ano pós-Jogos).
As nossas classificações, nas três etapas do GPS, foram de 6º, 11º e 12º para atingir um total de 13 pontos classificativos que nos colocam, a par da Bélgica, na penúltima posição do Europeu 2017. Isto é, do sonho de chegar a algum lado visível, ficamos apenas na tentativa de não baixar de divisão - a Polónia, último lugar com 4 pontos, por ser uma das organizadoras de uma das etapas não pode, por regulamento, baixar de divisão. Ou seja, estamos na corda bamba. ficando até dependentes de uma qualquer surpresa que a Polónia (felizmente apenas com 4 pontos) possa conseguir no último torneio.*
Com o deitar borda fora da prioridade prometida - má gestão, pior visão e entrega cómoda e irresponsável do comando generalizado das decisões a quem não mostra(ou) capacidades - a selecção portuguesa apresentou-se para o primeiro torneio, Moscovo, com 4 jogadores estreantes, em Lodz com, de novo, 4 estreias em 8 mudanças de jogadores em relação à etapa anterior e em Clermont com 2 jogadores a estrear em 7 mudanças em relação à etapa russa - em três etapas foram realizadas 10 estreias e um número elevadíssimo de alterações em relação à equipa utilizada na 1ª etapa. O que representa, obviamente, uma desconstrução daquilo que se quer construir. Ou seja, um erro de processo!
Sabe-se da demonstração de estudos científicos ser a coesão o factor essencial da construção de resultados desportivos positivos nas modalidades colectivas. Mais importante até que o valor do talento que possa existir que, não sendo devidamente integrado, se mostra pouco eficaz.
Ora a coesão da equipa depende do factor tempo, isto é, do tempo em que os jogadores actuam conjuntamente - e é evidente que uma equipa constituída desta forma pouco cuidadosa não pode ter a coesão necessária ao melhor comportamento desportivo no alto-rendimento.
Se a este facto juntarmos os maus hábitos competitivos internos ou as cada vez maiores dificuldades técnicas - nomeadamente por erros na formação - que patenteiam os jogadores portugueses, teremos o conjunto explicativo do nosso desaire. De facto o jogador português placa mal, tem dificuldades na precisão, rapidez e comprimento do passe, a que se juntam dificuldades de leitura que lhe impedem a necessária convergência para romper a defesa adversária. Para além disto sabemos que não dispomos de jogadores com elevada velocidade que possam estabelecer diferenças apenas pelo facto de haver espaço frontal desprotegido - facto que exige uma importante capacidade desmultiplicadora e de jogar “em cima”, do adversário, fixando-o e atrasando-o no seu deslizar.
Acresce ainda a estes factores uma outra necessidade: os jogadores portugueses têm vindo a ser formados - ou a isso fazem crer pelo seu comportamento - com a ideia de blocar, agarrando ao tronco e envolvendo os braços do portador da bola de forma a impedi-lo de a passar e até de garantir um maul sem progresso ou libertação da bola e assim recuperar, através da formação ordenada sequente, a sua posse. Bom, teoricamente interessante, possível de utilizar nas competições internas mas impossível de transportar para o nível internacional. Porque a nossa compleição física não nos garante qualquer vantagem nesta execução e, pelo contrário, permite que o portador da bola avance no terreno enquanto, simultaneamente, o apoio se vai aproximando, garantindo assim a posse da bola e a continuidade do movimento com a defesa, sempre a recuar e a não ter tempo de se organizar devidamente.
O objectivo dis jogadores portugueses ao nível internacional deve ser o de derrubar o portador da bola o mais rapidamente possível, isto é, placar efectivamente. A eventualidade, que existe, do placado conseguir um passe, para além do risco técnico que envolve, exige a rapidez e proximidade do apoio - nem sempre fácil, principalmente em Sevens - mas que não deve sobrepor-se ao facto de o jogador placado ser obrigado, imediatamente ao contacto com o chão, a largar a bola, abrindo assim uma oportunidade à sua recuperação. Obviamente que esta opção exige treino suficiente para que se não caia na armadilha da falta - mas feita com um mínimo de capacidade técnico-táctica permite, pelo menos, que a defesa se recoloque e que se apresente em superioridade numérica.
Perdida qualquer - por erros que roçam a negligência, repete-se - possibilidade de conseguir uma boa classificação - mesmo a vitória na última etapa não nos daria melhor do que um sexto lugar geral - resta-nos aprender e modificar processos e métodos. E, acima de tudo, desistir de pretender obter resultados diferentes com os mesmos procedimentos.

* Por não ter reconhecido ser a Polónia um dos países organizadores de uma das etapa do GPS, escrevi como se ainda contasse para a classificação final. Não conta, estamos em último lugar com a Bélgica e, portanto, a lutar para não descer.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

EIS A NEGRA

Os deuses, ao entortarem a bota de Beauden Barrett, estiveram do nosso lado e permitiram assim uma negra, no próximo sábado, que encheria quatro ou cinco estádios se o Eden Park fosse elástico. 

Apesar da chuva, o jogo foi formidável com uma notável demonstração das características de conquista de cada centímetro de terreno - e com uma curiosidade: com a mesma dimensão de posse de bola, o resultado foi inverso, isto é, com apenas 39% da posse da bola (e 42% de domínio territorial), os Lions ganharam.  E ganharam com uma defesa espectacular - 122 placagens (91% de eficácia) e apenas a admissão de uma ruptura - um bloco de avançados a impôr a sua presença e um meio-campo capaz de colocar permanentes problemas à defesa adversária (45% das bolas utilizadas ultrapassaram a linha de vantagem para 218 metros conquistados).

De facto a escolha de Gatland, de Saxton - que mais uma vez demonstrou a enorme vantagem da sempre surpreendente dobra - e Farrell a juntar a Jonathan Davies e deixando de fora os melhores demonstradores da filosofia das Warrenballs, deu às linhas atrasadas europeias uma fluidez e capacidade atacante que permitiram surprender a defesa neozelandesa - 6 rupturas conseguidas para 2 ensaios.

Não fora a enorme indisciplina dos Lions - 13 faltas das quais 10 a serem tentadas e que Barrett apenas converteu 7 - e o jogo poderia ter tido um outro resultado. 
Momento-chave, para além das decisões tácticas para evitar o jogo atacante próximo ou permitir que o abertura neozelandês jogasse com confortável tempo e espaço, foi a expulsão de Sonny Bill Williams. Justíssima aliás! Ao ponto de se escrever no New Zeland Herald que o neozelandês “não tem instintos rugbísticos, não os genuínos” uma vez que continua no modelo antigo de uso defensivo do ombro da Rugby League...
[contradição óbvia da lei: o defensor não pode usar o ombro para o embate sem uso dos braços mas o portador da bola pode utilizá-lo - cutting edge, é a expressão inglesa - sem preocupações]

Reduzidos a catorze jogadores os All-Blacks fizeram uma notável demonstração de capacidade competitiva e que levou o comentador Stuart Barnes, antigo abertura da Inglaterra, a dizer que “com os All-Blacks com menos um jogador, o jogo fica agora equilibrado”. Mas o facto, apesar do domínio territorial e de posse da bola no primeiro quarto dos neozelandeses, é que, completos, não conseguiram apoquentar a bem montada defesa vermelha. 

Diga-se que Vunipola, neozelandês nascido em Wellington mas inglês por opção, teve também a sorte dos deuses ao ser castigado apenas com um amarelo - julgo que deveria ter sido expulso e portanto as equipas jogariam os últimos vinte minutos em equilíbrio numérico - ao lançar-se de forma violenta sobre o abertura neozelandês. O que daria evidente vantagem à equipa da casa. Ou pelo menos assim se pensa embora a muito bem estruturada jogada do ensaio de Faletau tenha sido conseguida em equilíbrio numérico de 14 para cada lado - equilíbrio desfeito pela já referida dobra de Saxton.

Empatados 21-21 a 10’ do fim, os Lions viram Jerome Garcés marcar penalidade a uma placagem sobre Sinckler que havia saltado para agarrar uma bola que lhe foi passada demasiado alta. Polémica a decisão - Kieran Read, capitão neozelandês, observou, indignado, que iria passar a saltar quando o fossem placar - mas certa de acordo com a lei: “um jogador não pode placar um adversário que não tenha os pés no chão. Sanção: pontapé de penalidade”.

Esta situação com a observação de Read deverá obrigar a World Rugby a melhor explicitar a aplicação da regra nomeadamente, como muitos defendem, limitando a sua aplicação quando a bola vem de um pontapé - a situação verdadeiramente perigosa que se pretende proteger.

Houve ainda o caso de O’Brien - muito elogiado pelo treinador de avançados e antigo pilar internacional, Graham Rowntree - que terá “engravatado” Waisake Naholo (que não continuou no jogo) mas que foi ilibado pela Comissão de Análise Disciplinar e que, ao contrário de SBWilliams que foi punido com 4 jogos de suspensão, poderá jogar no próximo sábado.

No fim de todas as peripécias de um jogo, repete-se, de excelente nível, a justeza da vitória pertence aos Lions: marcaram dois ensaios contra nenhum (um intervalo de vinte anos desde a última vez que os All-Blacks não conseguiram marcar) e tiveram em Owen Farrell - pai e filho têm todas as razões para comemorar - um pontapeador eficaz num cinco em seis de categoria.

O jogo do próximo sábado tem todas as condições para ser especial e a curiosidade estará em ver como se comportarão os Lions frente à mais que esperada e dura reacção - odeiam perder como demonstraram no segundo jogo contra a Irlanda - dos neozelandeses. 
Como se prepararão os europeus? Trabalhar a disciplina técnica de certeza porque, como avisa Rowntree, “não podemos perder a série de testes por causa de penalidades estúpidas, isso será inaceitável. Como poderemos viver com isso o resto das nossas vidas?”. Um jogo muito mais do que um jogo na visão do “todos por um” dos Lions.

terça-feira, 27 de junho de 2017

NOTAS DE UM FIM-DE-SEMANA

PRIMEIRA NOTA
Para que se possa perceber melhor o significado muito negativo da derrota com o Brasil - esquecendo por momentos a também muito má derrota com a Bélgica - basta ver o resultado conseguido pelos brasileiros neste fim-de-semana na deslocação à Roménia: perderam por 56-5, sofrendo 8 ensaios (a previsão era favorável aos romenos pela diferença de 38 pontos de jogo, foram 51).

Com este resultado, ficando desfeitas as dúvidas sobre o nível brasileiro, fica também a nu a absoluta necessidade de mudanças no rugby nacional e uma certeza absoluta: se nada for alterado e se continue a insistir na ideia de que as mesmas acções podem traduzir-se por resultados diferentes e sem querer perceber a evidência dos erros, o caminho será o do declínio acelerado com a certeza de um poço sem fundo como terminal.

OUTRAS NOTAS
Previsões 


Rugby Vision
XV CONTRA XV
Margem real
Samoa
Gales
-15
-14
-2
Fiji
Escócia
-9
-9
5
Austrália 
Itália 
31
33
13
Japão 
Irlanda
-22
-16
-22
África do Sul
França
11
13
23
Argentina
Geórgia
28
17
16
Diferença
69
63

Canadá
USA
-
-8
0
Roménia
Brasil

38
51
O sinal negativo significa previsão de vitória para o visitante

Usando rankings diferentes para obter as previsões aqui fica uma comparação entre as propostas da Rugby Vision e minhas para os jogos que se disputaram este fim‑de‑semana. A Rugby Vision utiliza um ranking próprio mas que só cobre os 20 primeiros lugares - daí que não se possa comparar os jogos Canadá/USA e Roménia/Brasil. O sistema que utilizo usa o ranking oficial da World Rugby. 

Pela análise do quadro percebe-se que a grande surpresa deste fim‑de‑semana foi a vitória de Fiji frente à Escócia (27-22) que, marcando 3 ensaios contra 2 fijianos, foi suficientemente indisciplinada para entregar 15 pontos em 11 penalidades concedidas. Os escoceses que haviam vencido a Austrália dias antes por 24-19, deixaram Gregor Townsend, o antigo internacional e novo treinador, “profundamente desapontado”.

No primeiro dos testes, os Lions - embora tivessem mostrado a espaços notáveis capacidades (o seu 2º ensaio percorreu o campo num superior lançamento de contra-ataque por Liam Williams) - não se mostraram adversário à altura da maré negra que conseguiu 10 turnovers e se oistrou muito mais eficaz na formação-ordenada do que se previa... assim possibilitando que Bauden Barrett pudesse pautar o jogo até ocupar o lugar de defesa para continuar um perigo permanente através da sua excelente visão de jogo.

Desastrosa foi a digressão francesa pela África do Sul. Três derrotas em três testes e uma única demonstração: o recurso ao desafio físico, à colisão, numa total demonstração de falta de qualidade técnica e táctica e sem soluções para interpretar o movimento que lhes deu fama e fez o mundo invejar o french flair. É um facto: em França joga-se um rugby que pretende fazer da força directa o seu primeiro motor, esquecendo a inteligência da leitura do adversário e a consequente adaptação. Ou seja, o uso da bola com adaptação aos pontos fracos da defesa é um desuso francês e o seu resultado é a perda de referências técnicas que se traduzem numa impossibilidade quase absurda de se impor ao adversário. Compare-se, na tabela seguinte, as estatísticas entre os neozelandeses que venceram os Lions pelo dobro dos pontos (30-15) e os franceses que perderam por 20 pontos de diferença (35-15). Curiosamente ambas as equipas tiveram superioridade em termos de posse de bola e de vantagem territorial. Mas os All-Blacks ganharam e os franceses perderam… Porquê? Comparemos as estatísticas do jogo de ambas as equipas.

Comecemos pela percentagem de eficácia de utilização da bola de cada uma das equipas - número de bolas disponíveis e nº de ultrapassagens das linhas de vantagem correspondentes: 52% para os All Blacks e 35% para os franceses. Se a estes valores juntarmos as 12 rupturas contra 4 conseguidas pelos franceses teremos uma boa perspectiva das razões da marcação de 3 ensaios pelos neozelandeses e de nenhum pelo lado francês.


Nova Zelândia
França
Posse
61%
54%
Território
63%
56%
Metros conquistados
559
383
Nº de passes
212
140
Rupturas
12
4
Placagens
83%
75%
Offloads
13
11
Turnovers conquistados
10
4
Rucks ganhos
127
73
AL ganhos
8
15
FO ganhos
8
1
Pontapés em jogo
26
14
Penalidades ganhas
11
14
Nº de Bolas
164
107
Passagens L Vantagem
86
37
Ensaios
3
0
Transformações
3
0
Eficácia B/LV
52%
35%
Eficácia E/LV
3%
0%
Resultado
30-15
35-15

Este dado da eficácia de utilização da bola definido pela ultrapassagem da Linha de Vantagem é significativo uma vez que para se chegar ao ensaio é necessário ultrapassar a linha de vantagem - linha imaginária paralela às linhas de ensaio e que passa pelo ponto da bola em cada momento de quebra da continuidade do jogo. Assim, a linha de vantagem desloca-se de acordo com o movimento ou transporte da bola e a sua ultrapassagem, representa uma superioridade numérica para a equipa que avança - o número de jogadores da equipa do portador da bola em condições de receber um passe é, ultrapassada que esteja a linha, superior ao número de defensores que o tentam evitar. Este parâmetro, ultrapassagem da linha de vantagem, define portanto a capacidade de utilização da bola por parte de uma equipa. 

Por outro lado o número de passes correspondentes às 107 bolas disponíveis foi de apenas 140 (76%) , correspondendo a 33 passes para além do 1º transmissor - os AB’s apresentaram 48 passes para além do 1º transmissor. E isto apesar de terem, por decisão táctica, jogado muito pelos canais envolventes às formações. O que significa que os All Blacks criaram maiores dificuldades à defesa dos Lions - as dificuldades aumentam naturalmente pelo movimento dos jogadores que o número de mais passes significa - do que os franceses conseguiram fazer aos sul-africanos.

Se olharmos para a quantidade de metros conquistados na utilização da bola e os dividirmos pelo número de bolas disponíveis por equipa veremos que os All Blacks avançaram em média 3,4 metros por bola utilizada e os franceses avançaram mais no terreno com os seus 3,6 metros/bola. Juntando a estes valores o valor das rupturas conseguidas, poderemos concluir que a França se mostrou incapaz no capítulo da continuidade do jogo - situação que é agravada pelo facto de terem feito 11 offloads (os neozelandeses fizeram 13) - uma vez que isto poderá significar  que a França está a “passar pelo chão” de forma sistemática e limitada a bolas lentas. O que é todo o contrário daquilo que se pretende fazer: que a ida ao chão seja o mais limitada possível mas, se acontecer, que seja o mais rápida possível para impedir que o adversário defensor possa anular a vantagem posicional… e os franceses não mostraram ser capazes de o fazer. Muito provavelmente por razões do campeonato interno que, para além de estar cheio de estrangeiros, rege-se ainda pelo não perder. Ou seja, sem correr quaisquer riscos. O que significa falta de confiança nas próprias capacidades - confiança que os All Blacks têm em barda...

...e por isso jogam a correr riscos como mostraram contra os Lions. Um excelente jogo onde, mais uma vez, os neozelandeses demonstraram porque são os melhores do mundo mostrando que o passe e a recepção são interpretados de outra maneira - qualquer estilo é bom desde que eficaz!
E mostraram a sua eficácia contra uma equipa que tinha na subida rápida a sua melhor arma defensiva. Utilizando as alternâncias necessárias para não deixar os adversários estarem confortáveis - os All-Blacks continuam a ser uma das equipas que mais utiliza o jogo ao pé (26 neste jogo).

Os Lions não jogaram mal e honraram a ideia que o confronto era entre as duas melhores equipas mundiais mas ainda não apresentam (como poderiam fazê-lo?) a coesão necessária para transformar este excelente grupo de jogadores numa equipa capaz de derrotar os campeõs do mundo. Mas a ideia de desforra vai estar presente em Wellington no próximo sábado.

CONSTATAÇÕES
Os British & Irish Lions são - depois do XV da Irlanda que, neste aspecto, ultrapassa todas as expectativas - a melhor demonstração das possibilidades do Desporto que, com a sua linguagem universal, permite a integração eficaz de diferentes culturas, percepções ou estilos, com real contribuição de todos para os objectivos comuns.

O treinador principal dos Lions, o neozelandês Warren Gatland - treinador de Gales - tem feito um excelente trabalho. A sua maior dificuldade estaria em formar um colectivo de um grupo constituído por jogadores que, vindos de diferentes culturas e, na sua maioria, apenas conhecendo os nomes uns dos outros. E percebe-se que a qualidade da enorme dificuldade que a "coesão" representa, aumenta de jogo para jogo.

Esta digressão, com os jogos que temos vistos, tem demonstrado a importância dos segunda-linhas, normalmente com os números 4 e 5, na produção de cada equipa. Transportam bolas, placam que se fartam, empurram nas FO, conquistam nos alinhamentis, sabem passara bola e ainda limpam rucks. Por isso, porque são essenciais a uma equipa, gosto de lhes chamar "bases". O seu papel é tão importante que, vencendo por 14 pontos de diferença quando viram, aos 65', o nº 4, Iain Henderson, apanhar um cartão amarelo e passar 10' no banco dos pecadores, os Lions sofreram dois ensaios e empataram o jogo.

Os All-Blacks constituem uma constante demonstração do melhor nível que se pode atingir na expressão da técnica e táctica do rugby. Se assim é como mostra a evidência, porque é que não se copiam - adaptando o que for necessário - os seus métodos de fomação de jogadores? Que aliás são simples e objectivos.

O jogo Hurricanes-Lions (31-31) foi um jogo formidável - a recuperação dos Hurricanes é notável - e aumenta a curiosidade para a constituição da equipa dos visitantes para o 2º teste.

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