sábado, 20 de maio de 2017

DIA DECISIVO

Desenho a dedo em iPad
Hoje é o dia decisivo para o rugby português, dia em que se espera que os Lobos se portem como uma alcateia capaz de sobreviver às piores circunstâncias.
Com uma vitória - seja por que números sejam - o rugby português voltará à divisão imediatamente abaixo das 6 Nações e defrontará no próximo ano a Geórgia, a Roménia, a Espanha, a Rússia e a Alemanha, retornando a uma dimensão de jogo que nos pode - saibámos organizarmo-nos de acordo com a exigência competitiva - permitir todos os sonhos, nomeadamente uma presença no caminho para o Mundial (sim, eu sei que graças à habilidade anti-desportiva da RE nós já estamos no caminho mundialista... que, no entanto, se aparenta mais com uma manobra de interesse eleitoralista do que com o objectivo de garantir que serão os melhores que estarão no Japão).
Bem, se ganharmos, o rugby português volta ao seu lugar e com aquilo que se vai procurando de ligação competitiva com os clubes espanhóis - que, aliás, tarda em decisões efectivas - renascem as possibilidades de uma competição interna que prepare os nossos jogadores para a competição internacional.
A análise através dos pontos do ranking da World Rugby mostra que a vitória pertencerá a Portugal por um ponto de diferença - o que é o mesmo que dizer que qualquer resultado será possível.

Para que se perceba a dificuldade do jogo que espera os portugueses é bom lembrar que as actuais pontuações das duas equipas resultam de circunstâncias particulares. Ou seja: a Bélgica, defrontando as equipas mais poderosas do Rugby Championship, só conseguiu derrotas e, naturalmente, só perdeu pontos; Portugal, jogando com as equipas mais fracas que disputam o Trophy, só obteve vitórias e, portanto, somou sempre pontos. O que explica, contando com a vitória de Novembro passado, contra a Bélgica por 26-21 - com os portugueses a não conseguirem quaisquer pontos na 2ªparte... - a diferença existente de 3,68 favorável a Portugal. Mas nada disto, por se basear no circunstancialismo de um ponto fraco do sistema, garante a necessária superioridade. O que significa que, mais do que tudo, seja preciso conquistá-la, deitando fora a nefasta esperança de queda do céu. Será preciso combater por cada bola, por cada centímetro do terreno e dar o corpo ao manifesto sempre que haja companheiros que precisem do mínimo de apoio.
Percebe-se, o jogo não será fácil para as hostes portuguesas. Com o peso ainda agravado de que uma derrota, mantendo a selecção portuguesa num grupo de fraco nível, não permitirá a melhoria competitiva para além de permitir ao futuro adversário de play-off uma adequada preparação. Oque torna o futuro mais sombrio e difícil.
Jogo de tudo ou nada? Quase! Porque as consequências da derrota para o rugby português serão altamente hegativas e exigirão uma reformulação que pode levar um tempo demasiado longo para responder em igualdade de circunstâncias aos adversários que não pararão o seu caminho de desenvolvimento.
E nós sem resultados que nos garantam os fundamentais patrocínios...
Lobos, o jogo de hoje não será fácil, mas como só a vitória nos interessa, espero que a vossa vontade e determinação de continuarem num quadro competitivo que vos aproxima dos melhores e vos permitirá a excelência da vossa superação garantá um final de sorriso e empatia entre vocês, jogadores, e nós, adeptos.
Lobos, entreguem a camisola que envergam numa melhor posição do que aquela em que a receberam!



segunda-feira, 15 de maio de 2017

CDUL: XX TÍTULO DE CAMPEÃO NACIONAL

Desenho a dedo em iPad
O CDUL conquistou o seu XX título de campeão nacional sénior de rugby continuando a ser o clube com mais títulos conseguidos - o adversário mais próximo, o GD Direito, conta 11 títulos.

Num jogo mais emotivo que de qualidade técnico-táctica, o CDUL, depois de ter estado inicialmente a perder e só tendo estado por poucos minutos na situação de vencedor acabou por, na última jogada do desafio, conseguir, num determinado agora-ou-nunca, o ensaio da vitória e garantir o resultado de 25-21.

A equipa de Agronomia entrou bem no jogo e marcou cedo dois ensaios, explorando muito bem as falhas da cobertura defensiva cdulista. Com evidente superioridade nas formações ordenadas - na primeira parte destroçou a formação azul - e com controlo eficaz nos alinhamentos, os agrónomos dispuseram do número suficiente de bolas para criarem a ideia que o título cedo lhes estaria entregue. No entanto e na segunda-parte - apesar de terem marcado novo ensaio num maul penetrante de força muito superior à capacidade defensiva dos adversários - Agronomia parece ter-se contentado com as aparências de já vencedora e... não fez (ou não conseguiu...) mais nada! Excepto o facto de ter conquistado um perigoso alinhamento defensivo e neutralizando assim o potencial perigo de circulação da bola pelo adversário.

De resto terá apenas utilizado as muitas bolas conquistadas de forma pouco criteriosa e sem mostrar objectivamente qualquer ideia para desestabilizar a equipa que tinha na sua frente.

O CDUL, cometendo durante a primeira parte demasiadas faltas, também não parecia capaz de contrariar a defesa adversária que se limitava a subir, encurtando o mínimo de espaço necessário e placando de acordo com uma equipa finalista. A mais também não era obrigada...

E o facto foi este na maior parte do tempo de jogo e praticado por ambas as equipas: o ataque à Linha de Vantagem era feito de colisões corpo-a-corpo e não através de combinações colectivas capazes de desequilibrar as defesas e que permitissem a evasão com a garantia da continuidade para manter o avanço necessário à marcação de ensaios. E portanto, com a excepção dos ensaios que resultaram de erros defensivos quase elementares, a conquista da LV era feita de centímetro em centímetro, morosa e numa constante de jogo pelo chão. E muito pouco, com excepção do ensaio de Kiko Pinto de Magalhães que repetiu a manobra feita oito dias atrás contra o GD Direito, se viu de leitura e adaptação ao posicionamento adversário procurando com o forte atacar o visível fraco.

Aliás foi deste mesmo princípio que se esqueceu Agronomia num momento em que também julgou o CDUL já morto e não apenas "mal enterrado". Não se percebe de facto porque é que, com as superioridades já referidas, Agronomia não as explorou através do jogo ao pé, obrigando o CDUL a jogar formações ordenadas ou alinhamentos próximos da sua área de ensaio, explorando assim as dificuldades defensivas e a tendência à falta que os sulistas vinham demonstrando.

Deixando o  adversário "respirar", os agrónomos esqueceram-se de uma outra realidade: a experiência dos jogadores e da própria equipa do CDUL, formada por diversos internacionais e com enorme quantidade de presenças em finais. Factos que compuseram o final e o seu resultado.

Com a entrada nos vinte minutos finais e já com a Agronomia fisicamente de rastos, o CDUL soube - apesar de uma decisão que ignorou as leituras percentuais do rugby mundial que estabelecem em 12% as possibilidades de se conseguirem pontos na troca de um pontapé de penalidade chutado aos postes (e que permitiria o empate 21-21 e a passagem para o prolongamento) por um alinhamento próximo da área adversária - avançar para a vitória. E que foi merecida pela determinação na procura.

Mas o mais interessante desta final esteve no planeamento cdulista que a preparou. Com base na análise dos anteriores campeonatos, Lourenço Fernandes Thomaz, presidente do CDUL, considerou que o facto de serem dadas possibilidades de presença nos play-offs a 6 equipas das 10 que disputam o campeonato - a diferença de 9 pontos de classificação entre o 6º e o 7º classificados mostrou a razão das observações - permitia uma forma distinta de planeamento da época desportiva, ampliando o período preparatório até Fevereiro/Março e, não sobrecarregando os jogadores em demasia, preparando-os para um pico de forma tardio e de acordo com o calendário da fase final das eliminatórias. Com quatro das suas seis derrotas contra equipas normalmente inferiores o CDUL garantiu assim, embora com o 5º lugar de ensaios marcados e o 4º de pontos do jogo marcados (488) mas o 1º de pontos de jogo sofridos (225), o 3º lugar que lhe permitiu jogar contra o pior apurado da fase regular - o Técnico. E se a melhor capacidade física já lhe tinha garantido o triunfo das duas eliminatórias anteriores, também contra Agronomia - embora num rés-vés de fazer parar corações - a melhor capacidade física dos jogadores do CDUL, permitiu a vitória e a conquista do campeonato. Fundamentalmente pela atenção e estudos de todas as componentes da competição entre as quais o calendário que a determina.
Parabéns pelo XX, CDUL!       

quarta-feira, 10 de maio de 2017

MUNDIAL 2019 JÁ RODA

Começou, com o sorteio dos Grupos para as equipas dos 12 países já apurados, o Mundial que tem o jogo de abertura em Setembro de 2019 e se realiza no Japão.
Dentro das sortes e dos azares a Inglaterra - 2ª no ranking mundial e, por isso, uma dos quatro cabeças-de-série - volta a ficar entalada num "grupo da morte" com a França e a Argentina. A sorte também não protegeu Daniel Horcade, mas a Argentina, classificada na 9ª posição do ranking, sairia, como o Japão, Itália ou Geórgia, do 3º pote e precisaria de muita sorte para se ver colocada num grupo que lhe permitisse sonhar com a passagem à fase de eliminatórias sem o risco constante de jogos do tudo-por-tudo. A Nova Zelândia, o actual campeã mundial, encontra a África do Sul no Grupo B com as duas equipas a fazerem o papel de favoritas à passagem aos quartos-de-final.
A Escócia, que fica no Grupo A com a Irlanda e o Japão, tem, de novo e avisada já da surpresa Japão que conta agora com o factor-casa, possibilidades de se qualificar para fase de eliminatórias. O mesmo se passa com Gales que, conseguindo posicionar-se no 2º pote por uma unha negra, tem, no Grupo D onde se junta com a Austrália, a Geórgia como adversário directo para a classificação para a fase seguinte.
As restantes 8 equipas que completam o quadro total de 20 equipas devem estar apuradas até Novembro de 2018.
A equipa europeia que se qualifique através do melhor posicionamento, retirada que seja a Geórgia, no Rugby Europe Championship - Europe 1 - jogará no Grupo A. A equipa imediatamente qualificada de acordo com o estranho processo europeu, terá a possibilidade, vencendo o play-off com a terceira equipa da Oceânia, de se qualificar para jogar também no Grupo A ou, embora derrotada neste play-off mas conseguindo vencer a Repescagem, encontrar lugar no Grupo B. Ou seja, a Europa para além de ter oito equipas representativas garantidas, pode ver ainda uma outra qualificada. Note-se no entanto que se fôr a equipa europeia a vencer o play-off contra a equipa da Oceânia, a Europa terá, numa espécie de jogos em casa a milhares de quilómetros, 4 equipas no Grupo A...

Grupos do Mundial 2019
Grupo A: Irlanda, Escócia, Japão, Europa 1, Vencedor do Play-off
Grupo B: Nova Zelândia, África do Sul, Itália, África 1, Vencedor da Repescagem
Grupo C: Inglaterra, França, Argentina, Américas 1, Oceânia 2
Grupo D: Austrália, Wales, Geórgia, Oceânia 1, Américas 2

sábado, 29 de abril de 2017

FASE REGULAR DA DIVISÃO DE HONRA TERMINADA

Terminou a fase regular da Divisão de Honra do Rugby português. E terminou com uma ligeira surpresa: a Agronomia. E com o mesmo reconhecimento: que muito cedo - apesar do recurso ao truque de um apuramento para os play-offs alargado e sem qualquer aumento de interesse competitivo durante a época - se compreendeu quem nunca teria possibilidades de se aproximar da classificação para as eliminatórias da fase final.
Mesmo tendo sido um campeonato mais competitivo do que os das duas épocas anteriores, ainda está longe de ter o equilíbrio necessário a uma competição interessante, atractiva e que prepare os jogadores para níveis mais evoluídos. Idealmente o campeonato principal do rugby português deveria - e isso seria deixar que os princípios desportivos se sobrepusessem a todo o tipo de interesses ou ignorâncias - iniciar-se subordinado à ideia que qualquer das equipas poderia ser apurada para a fase dos play-offs. Estaríamos então no domínio onde devemos pertencer: o desporto de rendimento.
É possível determinar - recorrendo ao algoritmo de VCoucello - o ìndice de Competitividade do nosso campeonato principal. Ao longo das diversas épocas só foi realmente competitivo - como se pode ver no quadro abaixo - quando foi disputado por 6 equipas. 
No rectângulo esverdeado encontra-se 
os resultados internacionais de cada época
 E nada evidencia que algo mudou para diferente: o campeonato principal do rugby português só será verdadeiramente competitivo no sentido de qualquer das equipas ter a possibilidade de vencer qualquer uma das outras, com uma real redução do número global das equipas. Como aliás mostram os outros indicadores de análise.  
% Vitórias= número de vitórias sobre o total de jogos; Quota de Pontos: relação dos pontos
marcados sobre o total de pontos de jogo marcados e sofridos; %Resultados Esperados e
%Resultados Inesperados: correspondem ou a vitórias sobre
equipas superiores ou a derrotas sobre equipas inferiores
 

Neste quadro é possível, por exemplo, que os números de resultados esperados - coluna verde -  aumentem com a diminuição da % de vitórias, não deixando de ser curioso verificar o equilíbrio decrescente entre estes valores apresentados pelas equipas que melhor se qualificaram. Cascais e Belenenses obtiveram os mesmos valores nos resultados esperados e inesperados com vantagem para Belém no que diz respeito às diferenças de pontuação nas vitórias. Não deixando de ser também curioso - como se verá noutro quadro - que a equipa de Belém na luta pelo 4ª lugar, marcou menos e sofreu mais ensaios mas encontrou as forças necessários para vencer jogos contra adversários de melhor "ranking" inicial como se pode ver no quadro seguinte e que lhe permitiram sobrepor-se ao maior valor de pontos de bónus conseguido pelo Cascais. 

Pode verificar-se que as equipas que melhor campeonato fizeram relativamente
ao ponto de partida da época de 2015/2016 foram a Agronomia, o Belenenses
e a Académica,. Por outro lado o CDUL e Direito tiveram pior comportamento do
que na época passada
Muito provavelmente o maior significado que se pode tirar do quadro anterior é a de que as equipas com pontos negativos (maiores perdas) não conseguiram atingir o nível de COESÃO necessário - e sabe-se hoje qual a importância do domínio colectivo deste factor, havendo demonstrações significativas que a medição deste valor compõe 40% da construção das vitórias - e sempre que me lembro deste conceito, penso na vitória da equipa equipa portuguesa de futebol no EURO 2016.
 Curioso é também o que revela este quadro: que o Cascais terá tido, com o mesmo número de vitórias do que o Técnico, uma maior facilidade nas suas vitórias que a equipa das Olaias e mesmo do que do Belenenses. O volta a colocar o ponto na questão da coesão colectiva e nas dificuldades que o Cascais terá tido nesse domínio ao enfrentar equipas melhor qualificadas.   
Outra demonstração de desequilíbrio está representada no quadro seguinte.
O valor conseguido pelos pontos de bónus defensivos e que seria, se fosse alto, uma das demonstrações de equilíbrio defensivo, vale 1/3 do valor dos pontos conseguidos com os pontos de bónus ofensivos. O que significa um fosso entre equipas e uma permeabilidade defensiva das equipas mais fracas que não permitirá a aproximação competitiva.
 Neste quadro dos ensaios marcados e sofridos, percebe-se também que é a partir do 6º lugar que se invertem os dados e o número de ensaios sofridos começa a ser superior ao número de ensaios marcados. O que demonstrará uma incapacidade de fazer frente aos restantes adversários - o que também é demonstrado no quadro dos pontos de bónus - e que, por isso, não permitirá elevar o nível competitivo do campeonato.

Como maior curiosidade deste quadro da composição de pontos marcados estará o facto de apenas ter havido um único pontapé de ressalto válido em toda a competição. O que se por um lado poderá demonstrar a falta de domínio deste gesto técnico, demonstra por outro que as debilidades defensivas permitiam encontrar soluções eficazes na procura de pontos sem obrigar a este recurso técnico para conseguir marcar. Também aqui ressalta que qualquer das equipas tem no ensaio a sua arma mais eficaz de marcação de pontos, mas mostra também valores de pontapés de penalidade que devem fazer reflectir as equipas mais capazes - provavelmente o seu número de faltas contra equipas mais fracas está a ser demasiado elevado.
Em qualquer destes quadros é fácil perceber que as coisas mudam a partir do 6º classificado. Até lá existe algum equilíbrio com hipóteses de vitórias mútuas. A partir daí a incerteza que deve caracterizar uma competição desportiva deixa de ter lugar. Os valores, os números, não enganam: é preciso agir rápido. Mudando e definindo os objectivos desportivos pretendidos

sexta-feira, 28 de abril de 2017

SERAFIM MARQUES (1924/2017)

Faleceu Serafim Marques. Despediu-se da Família e dos Amigos em fato azul e com a gravata do CDUL, o seu grande amor desportivo.
O Rugby português deve-lhe muito. Para além de ter sido fundador do CDUL - sócio nº 2 - foi seu treinador e um dos responsáveis pelo brilhante palmarés que o clube detém, sendo, ainda hoje,  o clube com mais campeonatos conquistados (19), muitos dos quais com a sua participação directa.
Serafim Marques foi o homem que deu voz ao Rugby, quer ao nacional com a escrita no Diário Popular, quer mostrando-nos, com a sua persistência e qualidade de comentador, o rugby internacional através da sua voz que acompanhava os jogos, a preto-e-branco, do então Torneio das Cinco Nações. Com ele muitos portugueses passaram a gostar de rugby, com ele muitos jogadores portugueses aprenderam a ser melhores, vendo as grandes vedetas internacionais e percebendo as diversas possibilidades de resolução de problemas que o jogo coloca. Com ele, Serafim Marques, o rugby português ganhou uma faceta cosmopolita. Com as transmissões que ele possibilitou - sei bem da luta constante que travou para garantir a sua continuidade - o rugby português percebeu que se pode ser adepto e ser civilizado, que se pode estar sentado ao lado do cachecol diferente sem que isso provoque qualquer atitude menos civilizada.
Fui, sou, Amigo de Serafim Marques. Em fase já avançada da sua incapacidade, conversámos e tive a grata alegria de ser reconhecido e, mais, muito mais, podermos recordar histórias comuns. Sei que há dias perguntou por mim a um amigo comum: já não fui a tempo...
Devo, para além da Amizade, muito ao Serafim - o Cordeiro do Vale jornalista. Aprendi com ele as técnicas da escrita jornalística - foi ele que me "empurrou" para a minha participação jornalística no República - foi com ele que aprendi a montar os vídeos televisivos de jogos, foi com ele que fiz os meus primeiros comentários em transmissões televisivas rugbísticas. E foi com ele - com a sua paciência e persistência em longas horas de treino individual - que melhorei as minhas capacidades técnicas. E foi também com ele que iniciei a minha carreira de treinador - era capitão de equipa e lesionei-me com largo tempo de recuperação - ao desafiar-me para o ajudar, treinando as linhas atrasadas da equipa sénior do CDUL. Fomos campeões nacionais, ganhei-lhe o gosto e fiz-me treinador para o resto da vida.
Perdi um Amigo que não esquecerei. E perdi-o no dia em que fiz 70 anos.

sábado, 22 de abril de 2017

SEVENS E O FACTOR OLÍMPICO

O recente torneio da World Rugby Sevens Series de Singapura foi surpreendente com a vitória do Canadá que - imagine-se - derrotou na final os Estados Unidos.  O Canadá, tendo atingido a final do Glasgow Sevens em 2014, venceu pela primeira vez enquanto que os Estados Unidos, tendo vencido o London Sevens de 2015, participavam em finais pela segunda vez. Mas a verdadeira surpresa foi o facto de - e julgo que nunca terá sido assim - duas equipas fora do TOP5 (terço superior das classificações) terem chegado à mesma final.
O Sevens com a entrada para os Jogos Olímpicos - e parece ter chegado para ficar definitivamente - alterou-se substancialmente e passou a ser uma preocupação desportiva generalizada. A cultura olímpica de muitos países tocou a rebate e as equipas do rugby reduzido dos mais diversos países - aumentando o número de opositores das tradicionais potências - passaram a ter preparações mais cuidadas, apertando-se assim as diferenças entre países e tornando os torneios altamente competitivos e, cada vez mais, com a possibilidade de vencedores inesperados. E assim sendo, o Sevens aumentará cada vez mais o interesse e impacto junto da generalidade dos espectadores adeptos da modalidade.
A Espanha é um bom exemplo resultante do factor olímpico. Equipa média que se viu afastada do núcleo central das World Series, arregaçou as mangas, definiu um programa competitivo e ajustado aos objectivos (estiveram até nas Ilhas Fiji onde deixaram marca pelo seu solidário comportamento de apoio às vitimas das inundações de 2016) e classificou as suas equipas feminina e masculina para os Jogos Olímpicos do Rio. Aproveitando o balanço, venceu agora o apuramento em Hong-Kong - derrotando na final a Alemanha - e no próximo ano pertencerá ao apetecido núcleo da World Series, garantido assim as condições competitivas necessárias para disputar um lugar nos Jogos do Japão.
E, neste quadro, o que se passa com Portugal? Afastado, por erro óbvio de visão estratégica, da World Series depois de ter falhado a possibilidade de disputar - ao contrário do conseguido pela equipa feminina - o torneio de Repescagem, o Sevens português masculino tem um difícil caminho de recuperação. Mas, caso o Brexit não estrague as coisas com eventual descontrução da Grã-Bretanha, a chegada da Espanha às World Series e a mais que provável manutenção da Russia - o Japão, com o apuramento garantido para os Jogos Olímpicos e apenas com a preocupação de construir uma equipa para o Mundial de 2018 não é de momento adversário capaz - a equipa portuguesa tem uma boa hipótese de conseguir a qualificação para a disputa do apuramento em Hong Kong 2018, tendo, para isso, de se qualificar no GPS Europeu no primeiro lugar, retiradas as 6 equipas que já se encontram qualificadas. No entanto e para além da Alemanha que tem investido muito na variante, Portugal terá ainda como adversários a Geórgia, a Itália, a Roménia ou a Irlanda. O que exigirá uma preparação cuidada e imediata.
E Mundial? Temos hipóteses de estar presentes?
Neste caso o apuramento fia mais fino. Apurados estão os oito semi-finalistas de Moscovo dos quais três são europeus: Inglaterra, Gales e Espanha. No final da World Series serão apuradas as 4 equipas melhores classificadas e que não estejam no primeiro grupo e prevendo-se que só dificilmente alguma delas seja europeia. Com os Estados Unidos também apurados como país organizador e dentro deste contexto, a Europa terá ainda dois lugares de classificação para os quais Escócia, Gales, Espanha, Alemanha, Geórgia, Roménia ou Irlanda serão os candidatos melhor preparados. 
As dependências da clkassificação são muitas e os factores competitivos são muito exigentes. Assim e antes do mais um objectivo: conseguir lugar na prova de apuramento de Hong Kong - sem a possibilidade de disputar de novo o World Series a preparação necessária para acesso aos Jogos Olímpicos ficará muito, se não totalmente, prejudicada. Conseguido este primeiro objectivo restarão as contas finais para o eventual, mas muito difícil, apuramento para o Mundial 2018. Mas o primeiro e essencial degrau - para que os Jogos Olímpicos não sejam uma miragem e possam estar dentro das possibilidades - é a classificação para Hong Kong. O resto se verá depois...

quinta-feira, 20 de abril de 2017

LIONS 2017 - A DIGRESSÃO


Já são conhecidos os 41 nomes escolhidos por Warren Gatland para constituir a equipa The British and Irish Lions para a digressão à Nova Zelândia onde durante cerca de mês e meio defrontarão os All Blacks - por 3 vezes - e realizarão mais 7 jogos contra equipas neozelandesas do Super18 e os Maori All Blacks. A escolha foi a da lista que segue:





































O capitão desta equipa equilibrada, versátil e experiente - 14 repetentes em digressões dos Lions e dois (o irlandês Rory Best e o galês Alan Wyn Jones) pela terceira vez e 7 irlandeses vencedores dos neozelandeses em 2016 em Chicago - é o galês Sam Warbuton que também repete a qualidade de Lion e de capitão. A distribuição por países apenas pode surpreender no número de jogadores galeses mas existem razões da ordem da experiência que o justificam.
A distribuição dos jogadores por posições mostra que alguns deles cobrem mais do que uma posição (Owen, Itoje, Moriarty, Liam Williams são bons exemplos) uma vez que alguns dos lugares, como os aberturas ou bases têm um número baixo para as necessidades, principalmente quando, pela dureza das exigências da  digressão. 

A experiência internacional dos jogadores convocados é elevada, como se pode verificar no quadro seguinte com 27 dos jogadores com mais do que 30 internacionalizações e este facto, a que se junta a experiência competitiva da Premiership inglesa, da PRO12 para irlandeses, galeses e escoceses e ainda o TOP14 francês e os hábitos competitivos das Taças europeias, dá uma dimensão de capacidade competitiva a estes Lions que não pode ser ignorada. É uma equipa potencialmente muito capaz, veremos se a "cola Gatland" será suficiente para fixar. 



A questão fundamental para que os Lions possam ter possibilidades de vencer os All Blacks estará na capacidade de atingirem o nível de coesão colectivo - o factor mais conta para o êxito nos desportos colectivos - necessário para enfrentar uma equipa que conhece de cor os seus caminhos e que tem na sua permanente atitude ganhadora um dos seus maiores trunfos. Com jogadores de quatro países e portanto de 4 selecções nacionais de estilos distintos, de 2 campeonatos diferentes (21 da PRO12 e 20 da Premiership) e de 17 clubes (9 ingleses, 3 irlandeses, 3 galeses, 1 escocês e 1 francês) os Lions constituem um conjunto de hábitos culturais e competitivos diferentes. Situação a que há ainda que juntar o facto de muitos dos jogadores poderem vir a estar envolvidos, praticamente até à hora da partida, nas finais dos respectivos campeonatos ou das Taças europeias. Como transformar este grupo numa equipa?
Gloucester Rugby joga na Premiership inglesa e o Toulon no TOP14 francês
E esta é a maior curiosidade desportiva que a digressão comporta: como vão fazer? de que métodos se irão servir? Como preparar uma equipa que se juntará totalmente apenas e quase dentro do avião?Gatland e os seus Lions têm já a experiência da viagem vitoriosa de 2013 (2-1 nas series) à Austrália - o que é uma boa plataforma de confiança nas capacidades e possibilidades - mas a tarefa é duríssima e o desafio enorme. Tão grande que torna estas digressões dos Lions - intervaladas de 4 em 4 anos - como um dos marcos, porque sem igual, do desporto mundial.
Apostando na versatilidade, mobilidade, capacidade técnica (principalmente num cinco-da-frente capaz de, para além de eficaz nas suas tarefas prioritárias, jogar em passes) e na experiência - daí a maior razão do número de jogadores galeses que têm 9 jogadores que já sentiram as dificuldades de jogar na Nova Zelândia na digressão de 2016 - a equipa técnica de Gatland começou já a demonstrar preocupações na adaptação dos seus jogadores ao meio ambiente que irão encontrar - e onde, falando embora a mesma língua, existem diferenças culturais assinaláveis - preocupado em garantir que a pretendida coesão desportiva não deslace pela componente social. O que se diga ou escreva na comunicação social será percebido e para que este factor não se torne prejudicial, Gatland já começou a propor aos jogadores que comecem a conhecer melhor a cultura neozelandesa e a sua forma de viver, vendo alguns filmes já recomendados. Evitar ser surpreendido e manter o foco é o objectivo. 
Na tratando estas digressões, por longas e de grande dureza competitiva - Graham Henry considera que o calendário é brutal - apenas do aspecto desportivo, será, no entanto e apenas, pelos resultados que a sua qualidade será analisada. E daí as enormes expectativas que envolvem este desafio. Que, como facto único, é um enorme ponto de interesse da comunidade rugbística mundial. 
Por cá - sempre com a secreta esperança de transmissões televisivas que nos coloquem dentro do campo - ficaremos com as expectativas de grandes jogos que se iniciarão a 3 de Junho contra os Provincial Barbarians.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

VERDADE DE QUEM MAIS PODE?


Quem viu o último França-Gales não se vai esquecer tão depressa do final de enorme prolongamento.

E também não se esquecerá com certeza da questão levantada por George North que mostrou o braço com uma alegada mordida adversária - situação que a ser considerada como existente terminaria (por marcação de penalidade  e cartão vermelho) o jogo com vitória para Gales. Também nos lembrámos - eu, lembro-me - de que Wayne Barnes, o árbitro da partida, pediu ao TMO para visionar a jogada.

De imagens ficaram-nos as conseguidas do lado contrário do campo e onde apenas se viam as costas dos jogadores envolvidos. Do lado em que se veriam os braços e a cara dos jogadores envolvidos, nada.

Vi no domingo o Saracens-Glasgow a contar para os quartos-de-final dos Campeões Europeus. Ainda na primeira parte Chris Ashton, três-quartos-ponta dos Saracens, faz um tremendo esforço para conseguir colocar a bola na área de ensaio escocesa. Sim? Não? O árbitro do jogo, o francês Jerome Garcés, apelou para o TMO. E pudemos ver 5/6 ângulos diferentes para nos dar a certeza da invalidade do ensaio. Não foi ensaio e um estádio cheio de espectadores ficou convencido da exactidão da decisão.

Pouco tempo depois a mesma cena mas simétrica. Desta vez do lado esquerdo do campo nova chamada de Garcés ao TMO. Sim? Não? Não! depois da visualização de 5/6 ângulos diferentes que mostraram que não houve conformidade com as Leis do Jogo.
Um dos vários ângulos disponibilizados

Ou seja: pudemos ter certezas porque as câmaras colocadas nos sítios pré-determinados e que permitem retirar as dúvidas em situações de difícil visão directa nos mostraram, de diversos ângulos, as imagens necessárias.

Mantém-se-me a dúvida: porque é que no Stade de France não foram mostradas as imagens necessárias? Por erro na colocação das câmaras que não cumpriram o protocolado ou porque, pura e simplesmente, houve alguém que impediu a sua visão?

Grave é que o assunto pareça ter morrido e vai sair-se desta vergonha sem apuramento das responsabilidades. Voltando-se então à velha máxima: a verdade do jogo é a verdade de quem mais pode.

Mas mantendo a boca cheia de valores... Será?!

terça-feira, 4 de abril de 2017

ABRIR A ROTA DO FUTURO


Os Campeões Trophy Europeu!
Os 26 que formam a Equipa

Grande vitória dos U20 portugueses no campeonato da Rugby Europe U20 Trophy. Derrotando a Holanda (42-5), a Roménia (21-16) e a Espanha (12-7) a equipa de Portugal abriu caminho para a presença no World Rugby U20 Trophy (Grupo B do Mundial). O que, apesar de se tratar do segundo nível da competição e que apurará o 1º classificado para a prova maior de 2108 - o Mundial da categoria será disputado de 31 de Maio a 18 de Junho pela África do Sul, Argentina, Austrália, Escócia, França, Gales, Geórgia, Inglaterra, Irlanda, Itália, Nova Zelândia, Samoa - é um feito desportivo de assinalar como um dos melhores resultados da modalidade nos últimos anos. Ficando ainda marcado na memória das proezas individuais, pela excelência do ensaio praça-a-praça de Manuel Cardoso Pinto. A que se junta uma capacidade defensiva colectiva de grande categoria que se impôs quer contra a Roménia quer contra a Espanha, num muro intransponível construído em cada metro da linha de ensaio. Os jogadores e os treinadores foram notáveis e o rugby português fica a dever-lhes e, por isso e para que se lhes possa seguir a carreira - alguns deles podem (querendo) ter notáveis carreiras - aqui ficam, para memória futura, os nomes dos 26 jogadores envolvidos. Os treinadores foram o Luís Pissarra e o António Aguilar.
Esta vitória dos U20 portugueses vem mostrar que existem jogadores capazes de dar garantias de que a Selecção Nacional se pode manter no Rugby Europe Championship e ultrapassar a actual fase sem qualquer interesse competitivo que representa a III divisão europeia onde temos estado esta época - Portugal ganhou os 5 jogos sem quaisquer tipo de dificuldades. 
Tudo dependendo em termos desportivos e objectivos do próximo dia 20 de Maio - o jogo mais importante para o futuro do rugby português - esta vitória dos U20, demonstrando, repete-se, que há garantias qualitativas de futuro, exige um visão estratégica objectivada no resultado internacional. O que obrigará a mudanças na forma de olhar para a nossa competição interna que deve ser articulada com a missão federativa de estabelecer as condições adequadas à aproximação competitiva internacional.
O campeonato nacional principal tem que se adequar às exigências competitivas que o aproximem, tanto quanto possível, da competição internacional com que os nossos jogadores se têm que confrontar - e seria muito bom que uma competição ibérica de que se fala vai para anos, tivesse lugar quanto antes. E isso exige, para além da diminuição do número de equipas - vejam-se os resultados e analisem-se os números para se perceber que a competição se faz a seis! - a introdução de sistemas de pontuação classificativa que levem a uma maior condição competitiva em cada jogo. E que se considere que o play-off final, tendo sido introduzido em Portugal (ao contrário de outros países, não tem, porque não pode ter, a ver com um aumento de espectadores e, portanto, de receitas) porque permitia uma habituação dos melhores jogadores portugueses à participação em jogos decisivos como acontece no nível internacional, não pode continuar a ser considerado como uma simpática, mas antidesportiva, segunda oportunidade permanente - há uma época inteira para construir a oportunidade.
Com esta vitória abre-se uma exigência aos responsáveis, federativos e de clube, da modalidade: as decisões não podem ser prolongadas no tempo nem tomadas a conta-gotas. O tempo urge e os adversários não dormem!    


sexta-feira, 31 de março de 2017

UM FINAL DE VENCEDOR E UMA FINAL A VER

Dois jogos internacionais da categoria sénior jogam-se amanhã: um, o jogo final do já conquistado 2017 REIC Rugby Europe Trophy; o outro, a final do 2017-U20 XV Men Championship que garante ao vencedor acesso ao Mundial da categoria etária.
Com uma curiosidade no caso da final U20: jogo entre latinos - final ibérica Portugal-Espanha - num também país latino - Roménia. E com resultado incerto. Mas, após o que se viu, com a certeza de que a capacidade de luta dos portugueses será uma constante a que a sorte dos deuses não puderá virar as costas. No entanto como nunca vi jogar a Espanha desta categoria não tenho ideia alguma sobre o que podem valer... e nisto de selecções etárias podem acontecer as maiores surpresas. Veremos... e veremos mesmo a partir das 15:00 horas de nariz colado ao ecrã.
O acesso da selecção portuguesa de sub-20 à final da competição fez-se num jogo muito difícil, vitória por 21-16, contra a Roménia - os últimos minutos foram de tirar o folêgo com uma defesa de grande atitude competitiva em cima da nossa linha de ensaio - e que teve no ensaio de Manuel Cardoso Pinto - um praça-a-praça exemplar que só pode ficar na história do torneio - o seu ponto mais alto. Recepção de um pontapé romeno, já a rolar no chão, dentro da área de ensaio portuguesa e contra-ataque a trocar as voltas a 3 defensores e a lançar-se numa corrida de 100 metros a encontrar os intervalos necessários e a garantir, na velocidade da corrida, a vantagem até à área de ensaio adversária. Um portento de capacidade individual! Um desplante de se lhe tirar o chapéu e guardar em vídeo. Um hino à virtude atacante e um exemplo a seguir: se há uma hipótese, usa-se! Ensaio! O objectivo essencial do jogo.
Mas a jogada é também um pequeno aviso sobre a perseguição de pontapés: como em todas as circunstâncias do jogo de rugby é necessário uma organização que permita a melhor adaptação ás possibilidades adversárias de exploração da situação. E os romenos não souberam montar essa organização - como modelo pode estabelecer-se que a equipa se deve organizar com 2 perseguidores que "atacam" o espaço da bola, outros 10 numa primeira linha defensiva e que, sem adiantamentos, procuram ocupar terreno, lateral e verticalmente, por forma a não abrir espaços e a não facilitar a colocação em jogo dos adversários pelo contra-atacante portador da bola e 3 outros em defesa profunda para poderem responder, em cobertura defensiva pendular, quer a um eventual pontapé quer a possíveis perfurações dos adversários - que Cardoso Pinto soube muito bem explorar. É também de louvar o espírito da construção da equipa - e conhecendo como conheço os treinadores Luís Pissarra e António Aguilar, sei das suas responsabilidades na exigente atitude de risco - que permite o nível necessário de confiança aos jogadores para explorar aquilo que resulta da leitura realizada. Ler, ponderar o risco e tomar a decisão é a sequência de acção que deve fazer parte integrante do processo de formação de jogadores. Porque será através do desenvolvimento dos processos que permitam o domínio do risco que o rugby português terá maiores capacidades na competição internacional. Principalmente se forem desenvolvidos em simultâneo com o aumento da competitividade interna.
Disto isto, que a sorte nos sorria e a audácia sirva para chegar à vitória.
No jogo da selecção principal não se espera outra coisa que não seja a vitória de Portugal como os nove lugares de diferença no ranking fazem prever, resultando da análise da diferença pontual uma previsão de diferença de 14 pontos no resultado final. De qualquer forma e desde que garantida a vitória, Portugal subirá um lugar no ranking da World Rugby - passará a 23º - trocando o Quénia (23º, 59,28). Jogo portanto de resultado esperado - vitória de Portugal, derrota da Ucrânia - mas que daria jeito que os jogadores portugueses conseguissem ultrapassar a diferença da previsão para atingir uma diferença de 15 ou mais pontos para garantir uma maior pontuação de ranking e, assim, tirar o maior partido da possibilidade de acumulação de pontos. Repare-se que neste tipo de ranking é necessário tirar o máximo partido dos jogos com as equipas pior qualificadas, acumulando pontos, para garantir que os jogos com as equipas mais fortes não provocam perdas demasiado significativas - veja-se a Alemanha que, embora jogando e mantendo-se numa divisão superior à de Portugal, se encontra posicionada em lugar inferior (25º, 58,40) e com todos os jogos do Championship já realizados. 
Por aqui não haverá qualquer surpresa num jogo que deve servir para aumentar os níveis de confiança para a "final" de 20 de Maio contra a Bélgica. Porque aqui, neste jogo-de-barragem, jogar-se-á o desenvolvimento qualitativo do rugby português.

domingo, 19 de março de 2017

TANTOS VALORES PARA UMA VERGONHA

% de Quota de pontos do vencedor estabelece o nível da vitória traduzível pela diferença de pontos marcados
Na última jornada do 6 Nações 2017 e nos jogos França-Gales e Irlanda-Inglaterra a pintura de uma modalidade pretendida como carregada de valores que a distinguem de todas as outras, saiu borrada. E saiu também porque de tanto se falar na excelência dos valores, acabámos por ficar tão embrenhados no conceito - nascido da visão aristocrática de que as regras, somos nós que as definimos e impomos - que não estamos preparados para lidar com as circunstâncias, acabando por encontrar justificações para o injustificável e explicações superiores para aquilo que não ultrapassa a baixeza e a mediocridade comportamental.
O Rugby é um Desporto, ponto! Não é uma escola de virtudes morais e éticas acima de qualquer suspeita como se pode perceber de cada vez que se vai a um campo e se percebe ser a mãe do árbitro a figura mais popular do jogo. É um Desporto e os seus valores centram-se nos valores desportivos: desportivismo, respeito, disciplina, responsabilidade, lealdade. E a solidariedade é um princípio importante a respeitar porque no desporto, como no tango, precisámos uns dos outros para que haja jogo. E por mais que os marketeers se esforcem por vender outros valores especiais e específicos, só nossos, não os reconheço ou consigo encontrar. Neste meu blogue junto à sua marca XV contra XV, uma série de valores que considero integrarem o jogo de Rugby, mas não os considerando como exclusivos - os outros desportos também vivem com eles.
E não há diferenças para os outros desportos? Claro que há, mas essencialmente porque o Rugby tem características próprias que o marcam e formatam e é marcado por um espírito de equipa essencial. Porque é um desporto colectivo de combate! O que faz toda a diferença que determina e exige tipo de comportamentos específicos que garantam a protecção, seja por exageros acidentais ou voluntários, da integridade física dos jogadores em confronto pela bola e pelos centímetros do terreno. E por isso as Leis do Jogo do Rugby estabelecem normas que são diferentes dos outros desportos. Não porque seja "especial" mas sim porque é diferente e porque as suas características exigem que a autoridade do árbitro - para salvaguarda dos jogadores - seja inquestionável. Tão inquestionável como noutros Desportos de Combate...
Ora o que acontece é que esta pretensão de "especiais e únicos" - que se ouve todos os dias - tem servido para desculpabilizar as mais variadas incorrecções e atentados aos valores que devem nortear o Desporto. Como se o mal que produzem tivesse consequências irrelevantes - por terem sido realizadas sem qualquer ponta de má intenção, entende-se. Mas este fim-de-semana internacional foi pródigo na negativa da sua demonstração.
No Irlanda-Inglaterra, Sexton foi, com o árbitro Jerôme Garcés distraído na crença da impossibilidade de deslealdades por parte de rugbistas, um alvo definido pelos jogadores ingleses com o objectivo de lhe diminuirem capacidades (suficientes para fazerem dele o portador da camisola 10 dos Lions) e que se serviram - numa demonstração de falta de desportivismo e respeito - da violência física provocada por placagens fora-de-tempo ou "limpezas" fora das leis. E pouco importa se elas foram "quase em-tempo" ou porque o prevaricador já iria lançado: as consequências são as mesmas e o jogador atingido não viu qualquer protecção à sua integridade física e não é admissível que se permita transformar qualquer jogador em alvo de feira.
Bom exemplo de Garcés e ao contrário destes foi a penalidade marcada à Irlanda por um dos seus jogadores ter placado um jogador inglês que se encontrava no ar. E isto apesar do jogador inglês ter saltado para receber um passe de um companheiro e não estar a captar qualquer pontapé adversário. A lei é clara: um jogador que esteja no ar, isto é, com os seus pés não assentes no chão, não pode ser placado, é intocável. E sendo-o por razões de protecção da sua integridade física uma vez que se encontra fisicamente desprotegido - como aliás sempre que sujeito a placagens tardias - o árbitro francês não teve dúvidas sobre a marcação da falta. Exemplo a reter.
Já no França-Gales as faltas ao desportivismo, à disciplina e ao respeito foram mais do que suficientes para deixar o inglês Barnes - para além de espectadores, dirigentes, treinadores e jogadores - em maus lençóis. Um fartar vilanagem, dir-se-ia. 
O árbitro Barnes esteve mal ao não atribuir ensaio de penalidade favorável a Gales por falta propositada do ponta Vakatawa que só viu "amarelo" - amarelo que deveria ter sido mostrado a Liam Williams por motivo anteriormente semelhante (apenas o "adiantado" provocado por Halfpenny terá sido acidental). O árbitro inglês - de quem tenho a dificuldade de esquecer a trapalhada do França-Nova Zelândia de 2007 em Cardiff - perdeu-se completamente no final do jogo que deverá ter atingido um recorde com os 100 minutos de formação ordenada em formação ordenada por faltas galesas propositadas e que deveria ter tido um epílogo longe dos vinte minutos de "prolongamento" com a marcação de ensaio de penalidade e vitória francesa mais cedo do que veio a acontecer.
Mas os espectadores do Stade de France não foram melhores e deram permanentes provas de má-educação, com demasiado barulho a cada pontapé de tentativa aos postes de Halfpenny. Faltando claramente ao respeito devido e que gostámos de dizer ser apanágio do Rugby.
E que dizer de um jogador francês que terá mordido o braço de George North e de que as câmaras televisivas só puderam mostrar um ângulo - quantos ângulos nos são mostrados para perceber de um pisar de linha? E numa demonstração antidesportiva, na posterior conferência de imprensa, Guy Novés - seleccionador/treinador francês - teve a desfaçatez de insinuar que o galês se teria mordido a ele próprio… Bonito e próprio!
E pior, muito pior, quando um senhor francês - que Barnes considerou "medic" (título que também tenho em diploma passado pela Ruby Union) - e que à pergunta sobre se Antoni estaria afectado por “pancada na cabeça” respondeu afirmativamente mal percebeu que assim poderia substituí-lo - naquele final de formação sobre formação - por um anteriormente já substituído (Slimani) mas, por casualidade, considerado como o melhor pilar francês e que se reaquecia junto à linha. Uma vergonha que tem um nome: fanática vigarice.
Não deixando saudades estes jogos finais do Torneio das 6 Nações violaram o conceito de Desporto que aprendi ainda na infância: é mais honroso uma derrota, por pior que seja, do que uma vitória com batota.
O Rugby, dispensando fanáticos, necessita sim de gente bem-formada e capaz de defender os bons princípios que o integram em vez da defesa acrítica e cega de uma exclusividade de valores para fechar os olhos à realidade dos comportamentos. O que se passou nesta última jornada do 6 Nações 2017, pondo em causa os valores desportivos e a decência que o Rugby exige, não me deixa tranquilo.

sábado, 18 de março de 2017

6 NAÇÕES - PREVISÕES 5ª JORNADA



Nesta última jornada do 6 Nações 2017, não vão faltar motivos de interesse mesmo se a Inglaterra já assegurou o título  - mas ainda procura o Grand Slam e o recorde de 19 vitórias consecutivas - ou se a Escócia, confiante na vitória contra a Itália, olha para um honrosíssimo 2º lugar, sonhando que a França perca mas que Gales não tenha ponto de bónus e que a Irlanda não consiga derrotar a Inglaterra. Resultado último que, ganhando em Paris, também interessa a Gales que, se assim for, será cabeça-de-série no próximo Mundial de 2019. Vale que os jogos não são ao mesmo tempo e temos a possibilidade de fazer as contas com a calma dos intervalos.
Na visita ao Stade de France os galeses - em homenagem ao velho mito dos campos desportivos de que "em equipa que ganha não se mexe" - apresentam a mesma equipa que venceu a Irlanda em Cardiff. Apostando noutro velho mito de que a importância da defesa antecede a do ataque e garante a vitória - assim pareceria contra irlandeses não fora o facto de terem marcado três ensaios - Gales corre de novo o risco de pretender atacar com o hábito confortável de Biggar jogar longe da Linha de Vantagem, possibilitando assim que a defesa avance os seus componentes exteriores e "entale" o ataque. Fieis à ideia que as defesas não permitem ataques exteriores em 1º tempo (Shaun Edwards, dixit), os galeses - esquecendo as suas próprias evidências do contrário - encontram-se divididos entre o velho e previsível estilo das Warrenbals e a procura dos espaços exteriores. E contra franceses que foram formados no deslizar da defesa para, mesmo cedendo inofensivo terreno, imporem uma superioridade numérica capaz de cortar os apoios interiores, Gales corre grandes riscos de ineficácia atacante. E, como habitualmente, Sam Davies, que nasceu para atacar a Linha de Vantagem e fixar defesas, continuará a assistir ao jogo do banco.
Em Dublin, a Inglaterra procurará impôr o seu jogo - hoje mais rápido, com acelerações devastadoras a atacar intervalos - a uns irlandeses que irão precisar de todo o seu tradicional "fighting spirit" para resistir e repetir a proeza feita aos All Blacks: impedir a existência de 19 vitórias consecutivas entre equipas do Tiers 1. 
Sabendo-se que as maiores dificuldades inglesas estão - como se viu em Itália -  na adaptação a algo de novo ou diferente do habitual, fica a curiosidade de saber qual a surpresa táctica que os comandados de Joe Schmidt irão apresentar. Ou veremos a superioridade inglesa crescer com ataques sistemáticos ao canal de Sexton, desgastando-o e retirando-lhe lucidez atacante para aplicar as suas desequilibradoras "dobras"? De qualquer forma, um combate com bola oval a mediar.
Seja como fôr, os jogos vão garantir um sábado na frente da televisão. Entre as 12:30 e as 18:30 o rugby vai comandar e o almoço vai confundir-se com um lanche. Sandes portanto.

quinta-feira, 16 de março de 2017

DE OLHOS NO JOGO DECISIVO

Num jogo que não pode - pela diferença notória de capacidades - ser qualificado de competitivo, o XV de Portugal, sem recorrer a qualquer dos seus membros da "armada profissional", venceu a Moldávia por 59-0 com a marcação de 9 ensaios. No entanto e pese a vitória e a diferença "de 15 ou mais pontos de jogo", Portugal não somou quaisquer pontos - porque, jogando em casa, tem uma diferença de dez ou mais pontos de ranking sobre o adversário - e o jogo serviu para pouco.

Dos nove ensaios marcados apenas um - o 3º - mostrou o caminho daquilo que devem ser as preocupações do modelo português: apoio e continuidade em velocidade, ataque aos intervalos, mudanças de ângulos de linhas corridas com passes em carga (off-loads) e rapidez na reciclagem e relançamento. A jogada começou no 1/2 campo de Portugal e teve 3 fases - qualquer delas sem paragem que permitisse a reorganização defensiva - com 3 ultrapassagens da Linha de Vantagem (verticalidade portanto e não jogo lateral) e 12 passes com a particularidade da equipa se encontrar com 14 jogadores. Mas foi a única genuína construção - o restante dos ataques bem sucedidos foram mais por culpas da (des)organização defensiva dos moldavos do que da construção portuguesa - porque, verdade seja dita, a Moldávia - basta saber a forma como constituiu a equipa - não tem qualquer nível competitivo no rugby. E houve ainda muitas falhas - sempre que a necessidade do jogo obrigava a acelerações eram visíveis as dificuldades técnicas de execução ou de abertura de linhas de passe eficazes - e demasiadas penalidades. Ou seja, sempre que se pretendia sair do conforto habitual que nos proporciona o nosso campeonato, havia falhas - como demonstra o facto de, na quantidade de posse da bola, ter havido apenas uma diferença de 10% - Portugal com 55% e a Moldávia com 45%.

Para além de picar o ponto no calendário, o jogo não serviu para mais nada - não por culpa da equipa portuguesa e dos seus jogadores mas porque o adversário a nada obrigou que preparasse a nossa selecção para maiores exigências. E era bom que não fosse assim. Porque desenganem-se aqueles que julgam que estamos a fazer uma época formidável: não estamos! Estamos apenas, se não deixarmos que o fumo da percepção se sobreponha à realidade, a fazer uma época normal plena de resultados esperados - 83%, conquistando, com as 6 vitórias conseguidas, 4 posições e 4,58 pontos de ranking -  com excepção do resultado contra a Bélgica em Novembro que, de acordo com a teoria, terá sido um resultado inesperado uma vez que a obrigação de vitória, por mais elevada pontuação no ranking e na altura, estaria do lado belga.


Mas a vitória tem, para além da pouca coesão mostrada pela equipa belga, uma explicação que retira o inesperado da situação: a Bélgica jogou, nas duas épocas anteriores, nesta mesma III categoria e, por isso, o seu nível estabeleceu-se alinhando por baixo; Portugal chegava com outros hábitos - anos da categoria acima - e outras capacidades. E a diferença foi, inicialmente, evidente, chegando para uma vitória por 26-21 mas com um último quarto de aflitos e sem marcação de pontos na 2ª parte. E a 20 de Maio vai ser diferente: a Bélgica com hábitos mais competitivos (mesmo se só com derrotas) e Portugal com um nível de hábitos mais baixo (mesmo se só com vitórias) e portanto com prováveis maiores dificuldades para suportar o ritmo de um jogo decisivo. O que significa a necessidade de criar condições que permitam uma presença ao mais alto nível das capacidades competitivas do colectivo da selecção portuguesa no provável jogo de barragem em Bruxelas. O que exige atenção e, muito provavelmente, alterações por forma a libertar jogadores das suas obrigações com os clubes.

O australiano Eddie Jones, treinador da Inglaterra, deixa o recado:"Podem jogar rugby pelo clube 365 dias por ano mas o rugby internacional é mais rápido, tem maiores acelerações, a velocidade de corrida é superior e é preciso recorrer a formas diferentes de treino para o rugby internacional". Este conceito, embora dirigido ao nível mais elevado da competição internacional serve, na sua relatividade, para qualquer dos níveis - o nível internacional é sempre superior ao nível competitivo interno. E é por isso que os jogadores portugueses sempre que necessitaram de acelerar cometeram erros técnicos - gestos desadequados - e tácticos - má posição, má linha de corrida ou mau tempo de chegada. E para o modificar é preciso tempo de treino disponível. Para bem do rugby português porque, como afirma o capitão, Seam Armstrong, da selecção alemã: "A única maneira para ter sucesso a curto-prazo [no desenvolvimento da modalidade] é ter uma selecção nacional que empurre e eleve o perfil da modalidade." Ou seja e ao contrário daquilo que o sistema desportivo português procura impôr: que se desenvolva a qualidade primeiro para poder atingir, posteriormente, a quantidade. Como é aliás procedimento normal em qualquer actividade que procura alargar a sua influência.

Agora falta apenas um jogo do grupo contra a Ucrânia que se tem mostrado como a mais fraca das equipas deste grupo - com 20% de quota de pontos marcados e 6 ensaios a favor contra 23 sofridos, contra 40% de quota de pontos marcados e 13 ensaios a favor contra 20 sofridos da Moldávia - e que nos deve preparar para o jogo mais importante da época a 20 de Maio - provavelmente contra a Bélgica a quem não se vê possibilidades de derrotar a Espanha em Madrid e em jogo que deve ser atentamente analisado - e libertarmos-nos de vez desta inacreditável III divisão da Rugby Europe. Porque estar aqui e nestas companhias, não nos serve, nem para o desenvolvimento, nem para aumentar a atractividade do nosso rugby.

Aliás a Rugby Europe tem, forçosamente, de olhar para o estado de não-competitividade destes grupos abaixo do Championship - não têm qualidade e provocam distorções óbvias no sistema de ranking. Não por o método adaptativo do ranking estar errado mas sim porque as competições são, para algumas equipas muito desequilibradas - e não basta a preocupação a exigir a abertura da porta do 6 Nações. É preciso, para que o rugby europeu se desenvolva competitivamente e não através de números de primária caça ao cheque, reformular muita coisa, utilizando leis e conceitos desportivos e não meros passos de marketing - como é possível considerar que uma equipa que, no ano em que se encontra na IV divisão europeia, pode, pelo menos no plano teórico, ter acesso ao Mundial? Só a brincar, só para obrigar a mais um jogo de resultado esperado, só para perder tempo sem ganhos para ninguém! Porque para desenvolver o interesse pelo rugby vale 80 minutos sem continuidade!

Como se pode ver no quadro seguinte, uma equipa como Portugal e na III divisão consegue, com as mesmas 4 vitórias, mais pontos de ranking do que equipas em níveis superiores. E no caso das últimas classificadas, a situação é idêntica: quanto pior o nível maior o número de pontos perdidos. Alguma coisa está mal e, repete-se, não é o método mas o desequilíbrio competitivo.

Ora esta situação e as suas consequências devem ser analisadas e servirem de base para as alterações necessárias, dando aos grupos um superior equilíbrio competitivo com as vantagens do aumento do interesse do público. Como aliás o desporto americano tem demonstrado ao longo dos anos.

Conclusão: O European Trophy é, ao nível do rendimento desportivo, um desastre e não ajuda nem ao desenvolvimento nem à atractividade do rugby português e, pelo contrário, contribuirá, se não lhe fugirmos, para a sua degradação e desinteresse. A ideia do rugby como convívio não é desinteressante desde que, como descobriram todas as principais potências rugbísticas, dentro do campo a qualidade dos jogadores e das suas acções se imponham. Como também se sabe, não há desenvolvimento sem resultados - a qualidade é prioritária sobre a quantidade como resulta da evidência de qualquer sucesso - e assim é necessário que ultrapassemos esta fase tão rápido quanto possível, isto é, que a Selecção de Portugal vença o jogo de barragem do próximo dia 20 de Maio. O que exige que sejam criadas as condições necessárias para que a equipa não perca esta oportunidade de relançamento. Porque o rugby português não resistirá muito tempo à manutenção na III divisão. 


sexta-feira, 10 de março de 2017

PORTUGAL-MOLDÁVIA, 4ª JORNADA DO RET

Depois de ultrpassado adversário principal, a Holanda, restam ao XV de Portugal dois jogos contra adversários que não têm hábitos competitivos de nível semelhante ao que os portugueses têm nos últimos largos anos. E essa falta de hábitos vai fazer toda a diferença para a construçãodo resultado final.
A partir da vitória sobre a Holanda os jogadores portugueses devem começar a preparar, vencendo sem margem para dúvidas quer em resultado, quer em exibição, o jogo de barragem de 20 de Maio que decidirá da subida à II divisão - lugar onde devemos pertencer - ou da manutenção nesta pouco competitiva e desinteressante III divisão.
O jogo de hoje, inserido na 4ª jornada do Rugby Europe Trophy, contra a Moldávia que não tem nem tradição nem resultados da modalidade, é uma clara manifestação desse desequilibrio: seja qual fôr resultado da vitória, Portugal não obterá qualquer ponto para o ranking da World Rugby. Porque, jogando em casa e no conceito adaptativo que constrói a pontuação e tendo mais de dez pontos do que o adversário, tem a obrigação de vencer sem qualquer prémio. 
E isto é, tendencialmente, o que se irá passar entre equipas habituadas ao nível competitivo próximo do Tiers 2 e as habituadas a qualquer coisa como o Tiers 4. Jogar sem prémio mas pagando caro, muito caro, qualquer distracção. O que significa que não sendo a III divisão Europeia qualitativamente competitiva, estar lá significa a habituação à mediocridade. Ou seja, a jogar um rugby que se apresenta como simpaticamente social mas não vale desportivamente - porque desporto é superação e não o arrastar pausado das formas do jogo.
A diferença entre as duas equipas pode ver-se nestes dados: Portugal tem 75% da quota do somatório de pontos marcados e sofridos em pontos marcados com 2 pontos de bónus atacantes, enquanto a Moldávia só atinge 52% da quota e 1 ponto de bónus atacante e outro defensivo. Por outro lado Portugal marcou 12 ensaios sofrendo apenas 3 e a Moldávia embora com 13 ensaios marcados sofreu 11. Situações que mostram a superioridade portuguesa e que deve ser mostrada em campo  dando a entender o crescimento e progresso da equipa depois dos jogos realizados e que tem a origação de garantir uma coesão colectiva superior.

O XV de Portugal tem, assim, obrigação de ganhar e impôr uma superioridade que demonstre a sua capacidade de se encontrar no patamar superior. O que significa que se espera uma vitória com uma diferença de cerca de 40 pontos - a diferença resultante do algoritmo não tem em conta factores como experiência e hábitos competitivos. Para o que é preciso jogar de acordo com os Princípios Fundamentais de Avançar, Apoiar, Continuar e Pressionar a que se devem acrescentar sub-princípios como Velocidade, Comunicação, Reacção e Adaptação. 
A responsabilidade que os jogadores da selecção nacional têm em relação à comunidade rugbística portuguesa é relevante - é com a sua demonstração de capacidade técnico-táctica e de querer que o rugby português pode resituar-se e desenvolver. Vitórias apenas sem mostrar perspectivas de melhoria qualitativa e competitiva não servem para nada no quadro em que nos situámos. É preciso mais e é nisso que a equipa deve apostar.

quinta-feira, 9 de março de 2017

4ª JORNADA DO 6 NAÇÕES

Dois jogos da 4ª jornada do 6 Nações, estarão sob todas as atenções por razões diferentes. Em Twickenham, os ingleses tentarão tudo que os conhecimentos de Eddie Jones permitam para vencer e igualar os All Blacks no número de 18 vitórias consecutivas contra equipas do Tiers 1. E embora não exista qualquer possível comparação entre o jogo que cada uma das equipas apresenta - sendo o dos neozelandeses muito mais interessante, dinâmico e inteligente. O facto é que dependemos todos dos escoceses para não ter que ouvir ou ler a prosápia inglesa que nos cairá em cima caso atinjam a vitória pretendida. 
Em Cardiff, Gales tem uma tarefa difícil contra os irlandeses. Howell decidiu manter a mesma equipa que perdeu com a Escócia na anterior jornada. Apesar da tese que apresenta - do tipo: a confiança que tramsmitimos aos jogadores mantendo-os na equipa e possibilitando-lhes reabilitarem-se perante o seu público vai levá-los a superarem-se - a decisão não parece das melhores nesta aposta na reputação mais do que na actual capacidade de cada um e tem feito correr muita tinta. Há até quem diga que a preocupação maior parece ser a de dar a North a possibilidade de garantir a sua selecção pelos Lions mas, pelos seus demasiados erros defensivos, o prejuízo tem sido para a equipa galesa. E o que está em questão é a necessidade - para evitar idêntico "grupo da Morte" como em 2015 - de garantir uma posição no ranking da World Rugby dentro dos 8 primeiros classificados. E a coisa está rés-vés com argentinos à espreita. 

Como mostra o quadro e se a vitória da Inglaterra parece, no campo das previsões (87,9% das probabilidades da Rugby Vision do neozelandês do MIT, Niven Winchester) incontestável, já o jogo Gales-Irlanda se apresenta com um grande equilíbrio. Um autêntico jogo de tripla com as equipas muito equilibradas em diversos aspectos como se pode ver no gráfico.


Do passado sabe-se que estas duas equipas se defrontaram neste actual 6 Nações por 17 vezes com 6 vitórias de Gales, um empate e com 10 vitórias da Irlanda. Do presente 6 Nações, Gales tem uma vitória e a Irlanda duas. A quota de pontos marcados no total da soma de pontos é de 52% para Gales e de 69% para a Irlanda. O que, dando vantagem aos irlandeses, puderá ser reduzida pelo factor casa e pelo tecto fechado do estádio - tanto quanto se sabe, assim será - que permitirá que as vozes de apoio retirem compostura aos visitantes. A ver. 



domingo, 5 de março de 2017

PREPARAR O RETORNO

Ao vencer a Holanda por 26-10, o XV de Portugal cumpriu as melhores expectativas: vitória contra o principal adversário; 4 ensaios marcados e um ponto de bónus; mais de 14 pontos de jogo com maior número de pontos de ranking conquistados, atingindo agora os 58,88.
Comparação ao longo de 5 anos entre as duas equipas incluindo já o último resultado
ou os pontos nos iii
Com esta vitória Portugal coloca-se em primeiro lugar do Grupo da RE Trophy 2016/2017 e afirma-se como principal favorito a disputar a subida - o retorno - ao RE Championship uma vez que os dois jogos que faltam - Moldávia e Ucrânia - são contra equipas que não têm os hábitos competitivos que a selecção portuguesa tem.
Estão, portanto, os dados lançados com tendência para mostrarem a melhor face para Portugal.
No entanto, mesmo com óptimas perspectivas, é avisado não embandeirar em arco: o jogo de "barragem" - provavelmente contra a Bélgica e em casa desta não vai ser fácil e exigirá preparação cuidada e adequada. Porque o último classificado sairá de uma divisão de maior nível competitivo para jogar contra o nosso actual hábito de jogos de menor nível qualitativo e de menor combate. E fazer a aproximação exige muito trabalho, muita focagem e, até, muita resiliência. O mesmo se passará com o nada fácil percurso para o Mundial 2019.
O objectivo está aí, à vista de todos, e obriga à melhor atenção e alinhamento: desde à organização ao treino para garantir a coesão da equipa necessária à vitória. Tudo com uma estratégia pré-estabelecida, sem últimas da hora e, principalmente, sem esperar qualquer milagre como a moda parece ter introduzido na linguagem formal. Porque apesar desta vitória, o rugby português continua com um campeonato pouco competitivo e longe das exigências da competição internacional de melhor nível e sempre com enormes dificuldades para conseguir juntar os seus melhores jogadores em tempo útil para constituir uma equipa coesa para além das dificuldades existentes na adaptação de treinadores e jogadores aos desenvolvimentos do jogo. E, ainda e sempre e como se pode ver no quadro comparativo, com dificuldades na compleição física o que exige um desenvolvimento de técnicas e tácticas que possam contrariar o poder físico dos adversários. O que exige tempo e disponibilidade competitiva.
Comparação da compacticidade por posições das equipas 
apresentadas por Portugal no Trophy 2016/2017 
e comparadas com a equipa da Geórgia que disputou o Mundial de 2015
Este resultado conseguido por Portugal mostra-nos aspectos que valerá a pena analisar. Em teoria - como o valor obtido pelo algoritmo utilizado  para a previsão e com base nas classificações do ranking demonstra - o resultado deveria mostrar grande equilíbrio entre as duas equipas mais fortes deste Trophy. Como explicar então a grande diferença - o mínimo de 15 pontos de jogo de diferença significa para a World Rugby uma vitória sem margem para qualquer dúvidas - conseguida?
Antes do mais este jogo fez voltar uma dúvida não esclarecida e que voltou com intensidade: como foi possível a derrota na Alemanha por 50-27? Que desleixos a podem explicar: organizativo? preparação do jogo? constituição da equipa? preparação do futuro? Que inconsistências existiram? que falhanços se sobrepuseram? Sejam quais forem as razões que nunca foram suficientemente analisadas por quem o deveria fazer, a consequência está na disputa deste Trophy contra equipas que estão longe de nos preparrarem para os combates que pretendemos realizar.
A explicação desta vitória e dos seus números só pode ter a ver com os percursos anteriores das duas equipas e com o evidente desequilíbrio existente entre os diferentes Tiers - desequilíbrio que afecta também a precisão das previsões, colocando problemas de difícil resolução ao nível do algoritmo utilizado. Desde há dezena e meia de anos que as duas equipas seguiram caminhos diferentes e deixaram de se encontrar: Portugal passando a jogar com equipas de nível superior; a Holanda, em baixo, jogando com os níveis onde hoje se encontra. E isto faz toda a diferença! Porque os hábitos competitivos são essenciais para garantir a capacidade competitiva e Portugal aproveitou muito bem essa capacidade para se impôr.

Por isso urge aproveitar a oportunidade - criando e desenvolvendo as necessárias condições - que temos aberta à nossa frente para garantir o retorno ao nível superior. Porque se assim não for, limitaremos o nosso rugby a vitórias de pouco significado que, por muitas que sejam, só servem a propaganda e não o desenvolvimento. Nem a nossa participação internacional...

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