sábado, 22 de abril de 2017

SEVENS E O FACTOR OLÍMPICO

O recente torneio da World Rugby Sevens Series de Singapura foi surpreendente com a vitória do Canadá que - imagine-se - derrotou na final os Estados Unidos.  O Canadá, tendo atingido a final do Glasgow Sevens em 2014, venceu pela primeira vez enquanto que os Estados Unidos, tendo vencido o London Sevens de 2015, participavam em finais pela segunda vez. Mas a verdadeira surpresa foi o facto de - e julgo que nunca terá sido assim - duas equipas fora do TOP5 (terço superior das classificações) terem chegado à mesma final.
O Sevens com a entrada para os Jogos Olímpicos - e parece ter chegado para ficar definitivamente - alterou-se substancialmente e passou a ser uma preocupação desportiva generalizada. A cultura olímpica de muitos países tocou a rebate e as equipas do rugby reduzido dos mais diversos países - aumentando o número de opositores das tradicionais potências - passaram a ter preparações mais cuidadas, apertando-se assim as diferenças entre países e tornando os torneios altamente competitivos e, cada vez mais, com a possibilidade de vencedores inesperados. E assim sendo, o Sevens aumentará cada vez mais o interesse e impacto junto da generalidade dos espectadores adeptos da modalidade.
A Espanha é um bom exemplo resultante do factor olímpico. Equipa média que se viu afastada do núcleo central das World Series, arregaçou as mangas, definiu um programa competitivo e ajustado aos objectivos (estiveram até nas Ilhas Fiji onde deixaram marca pelo seu solidário comportamento de apoio às vitimas das inundações de 2016) e classificou as suas equipas feminina e masculina para os Jogos Olímpicos do Rio. Aproveitando o balanço, venceu agora o apuramento em Hong-Kong - derrotando na final a Alemanha - e no próximo ano pertencerá ao apetecido núcleo da World Series, garantido assim as condições competitivas necessárias para disputar um lugar nos Jogos do Japão.
E, neste quadro, o que se passa com Portugal? Afastado, por erro óbvio de visão estratégica, da World Series depois de ter falhado a possibilidade de disputar - ao contrário do conseguido pela equipa feminina - o torneio de Repescagem, o Sevens português masculino tem um difícil caminho de recuperação. Mas, caso o Brexit não estrague as coisas com eventual descontrução da Grã-Bretanha, a chegada da Espanha às World Series e a mais que provável manutenção da Russia - o Japão, com o apuramento garantido para os Jogos Olímpicos e apenas com a preocupação de construir uma equipa para o Mundial de 2018 não é de momento adversário capaz - a equipa portuguesa tem uma boa hipótese de conseguir a qualificação para a disputa do apuramento em Hong Kong 2018, tendo, para isso, de se qualificar no GPS Europeu no primeiro lugar, retiradas as 6 equipas que já se encontram qualificadas. No entanto e para além da Alemanha que tem investido muito na variante, Portugal terá ainda como adversários a Geórgia, a Itália, a Roménia ou a Irlanda. O que exigirá uma preparação cuidada e imediata.
E Mundial? Temos hipóteses de estar presentes?
Neste caso o apuramento fia mais fino. Apurados estão os oito semi-finalistas de Moscovo dos quais três são europeus: Inglaterra, Gales e Espanha. No final da World Series serão apuradas as 4 equipas melhores classificadas e que não estejam no primeiro grupo e prevendo-se que só dificilmente alguma delas seja europeia. Com os Estados Unidos também apurados como país organizador e dentro deste contexto, a Europa terá ainda dois lugares de classificação para os quais Escócia, Gales, Espanha, Alemanha, Geórgia, Roménia ou Irlanda serão os candidatos melhor preparados. 
As dependências da clkassificação são muitas e os factores competitivos são muito exigentes. Assim e antes do mais um objectivo: conseguir lugar na prova de apuramento de Hong Kong - sem a possibilidade de disputar de novo o World Series a preparação necessária para acesso aos Jogos Olímpicos ficará muito, se não totalmente, prejudicada. Conseguido este primeiro objectivo restarão as contas finais para o eventual, mas muito difícil, apuramento para o Mundial 2018. Mas o primeiro e essencial degrau - para que os Jogos Olímpicos não sejam uma miragem e possam estar dentro das possibilidades - é a classificação para Hong Kong. O resto se verá depois...

quinta-feira, 20 de abril de 2017

LIONS 2017 - A DIGRESSÃO


Já são conhecidos os 41 nomes escolhidos por Warren Gatland para constituir a equipa The British and Irish Lions para a digressão à Nova Zelândia onde durante cerca de mês e meio defrontarão os All Blacks - por 3 vezes - e realizarão mais 7 jogos contra equipas neozelandesas do Super18 e os Maori All Blacks. A escolha foi a da lista que segue:





































O capitão desta equipa equilibrada, versátil e experiente - 14 repetentes em digressões dos Lions e dois (o irlandês Rory Best e o galês Alan Wyn Jones) pela terceira vez e 7 irlandeses vencedores dos neozelandeses em 2016 em Chicago - é o galês Sam Warbuton que também repete a qualidade de Lion e de capitão. A distribuição por países apenas pode surpreender no número de jogadores galeses mas existem razões da ordem da experiência que o justificam.
A distribuição dos jogadores por posições mostra que alguns deles cobrem mais do que uma posição (Owen, Itoje, Moriarty, Liam Williams são bons exemplos) uma vez que alguns dos lugares, como os aberturas ou bases têm um número baixo para as necessidades, principalmente quando, pela dureza das exigências da  digressão. 

A experiência internacional dos jogadores convocados é elevada, como se pode verificar no quadro seguinte com 27 dos jogadores com mais do que 30 internacionalizações e este facto, a que se junta a experiência competitiva da Premiership inglesa, da PRO12 para irlandeses, galeses e escoceses e ainda o TOP14 francês e os hábitos competitivos das Taças europeias, dá uma dimensão de capacidade competitiva a estes Lions que não pode ser ignorada. É uma equipa potencialmente muito capaz, veremos se a "cola Gatland" será suficiente para fixar. 



A questão fundamental para que os Lions possam ter possibilidades de vencer os All Blacks estará na capacidade de atingirem o nível de coesão colectivo - o factor mais conta para o êxito nos desportos colectivos - necessário para enfrentar uma equipa que conhece de cor os seus caminhos e que tem na sua permanente atitude ganhadora um dos seus maiores trunfos. Com jogadores de quatro países e portanto de 4 selecções nacionais de estilos distintos, de 2 campeonatos diferentes (21 da PRO12 e 20 da Premiership) e de 17 clubes (9 ingleses, 3 irlandeses, 3 galeses, 1 escocês e 1 francês) os Lions constituem um conjunto de hábitos culturais e competitivos diferentes. Situação a que há ainda que juntar o facto de muitos dos jogadores poderem vir a estar envolvidos, praticamente até à hora da partida, nas finais dos respectivos campeonatos ou das Taças europeias. Como transformar este grupo numa equipa?
Gloucester Rugby joga na Premiership inglesa e o Toulon no TOP14 francês
E esta é a maior curiosidade desportiva que a digressão comporta: como vão fazer? de que métodos se irão servir? Como preparar uma equipa que se juntará totalmente apenas e quase dentro do avião?Gatland e os seus Lions têm já a experiência da viagem vitoriosa de 2013 (2-1 nas series) à Austrália - o que é uma boa plataforma de confiança nas capacidades e possibilidades - mas a tarefa é duríssima e o desafio enorme. Tão grande que torna estas digressões dos Lions - intervaladas de 4 em 4 anos - como um dos marcos, porque sem igual, do desporto mundial.
Apostando na versatilidade, mobilidade, capacidade técnica (principalmente num cinco-da-frente capaz de, para além de eficaz nas suas tarefas prioritárias, jogar em passes) e na experiência - daí a maior razão do número de jogadores galeses que têm 9 jogadores que já sentiram as dificuldades de jogar na Nova Zelândia na digressão de 2016 - a equipa técnica de Gatland começou já a demonstrar preocupações na adaptação dos seus jogadores ao meio ambiente que irão encontrar - e onde, falando embora a mesma língua, existem diferenças culturais assinaláveis - preocupado em garantir que a pretendida coesão desportiva não deslace pela componente social. O que se diga ou escreva na comunicação social será percebido e para que este factor não se torne prejudicial, Gatland já começou a propor aos jogadores que comecem a conhecer melhor a cultura neozelandesa e a sua forma de viver, vendo alguns filmes já recomendados. Evitar ser surpreendido e manter o foco é o objectivo. 
Na tratando estas digressões, por longas e de grande dureza competitiva - Graham Henry considera que o calendário é brutal - apenas do aspecto desportivo, será, no entanto e apenas, pelos resultados que a sua qualidade será analisada. E daí as enormes expectativas que envolvem este desafio. Que, como facto único, é um enorme ponto de interesse da comunidade rugbística mundial. 
Por cá - sempre com a secreta esperança de transmissões televisivas que nos coloquem dentro do campo - ficaremos com as expectativas de grandes jogos que se iniciarão a 3 de Junho contra os Provincial Barbarians.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

VERDADE DE QUEM MAIS PODE?


Quem viu o último França-Gales não se vai esquecer tão depressa do final de enorme prolongamento. E também não se esquecerá com certeza da questão levantada por George North que mostrou o braço com uma alegada mordida adversária - situação que a ser considerada como existente terminaria (por marcação de penalidade  e cartão vermelho) o jogo com vitória para Gales. Também nos lembrámos - eu, lembro-me - de que Wayne Barnes, o árbitro da partida, pediu ao TMO para visionar a jogada.
De imagens ficaram-nos as conseguidas do lado contrário do campo e onde apenas se viam as costas dos jogadores envolvidos. Do lado em que se veriam os braços e a cara dos jogadores envolvidos, nada.
Vi no domingo o Saracens-Glasgow a contar para os quartos-de-final dos Campeões Europeus. Ainda na primeira parte Chris Ashton, três-quartos-ponta dos Saracens, faz um tremendo esforço para conseguir colocar a bola na área de ensaio escocesa. Sim? Não? O árbitro do jogo, o francês Jerome Garcés, apelou para o TMO. E pudemos ver 5/6 ângulos diferentes para nos dar a certeza da invalidade do ensaio. Não foi ensaio e um estádio cheio de espectadores ficou convencido da exactidão da decisão.
Pouco tempo depois a mesma cena mas simétrica. Desta vez do lado esquerdo do campo nova chamada de Garcés ao TMO. Sim? Não? Não! depois da visualização de 5/6 ângulos diferentes que mostraram que não houve conformidade com as Leis do Jogo.
Um dos vários ângulos disponibilizados

Ou seja: pudemos ter certezas porque as câmaras colocadas nos sítios pré-determinados e que permitem retirar as dúvidas em situações de difícil visão directa nos mostraram, de diversos ângulos, as imagens necessárias.
Mantém-se-me a dúvida: porque é que no Stade de France não foram mostradas as imagens necessárias? Por erro na colocação das câmaras que não cumpriram o protocolado ou porque, pura e simplesmente, houve alguém que impediu a sua visão?
Grave é que o assunto pareça ter morrido e vai sair-se desta vergonha sem apuramento das responsabilidades. Voltando-se então à velha máxima: a verdade do jogo é a verdade de quem mais pode.
Mas mantendo a boca cheia de valores... Será?!

terça-feira, 4 de abril de 2017

ABRIR A ROTA DO FUTURO


Os Campeões Trophy Europeu!
Os 26 que formam a Equipa

Grande vitória dos U20 portugueses no campeonato da Rugby Europe U20 Trophy. Derrotando a Holanda (42-5), a Roménia (21-16) e a Espanha (12-7) a equipa de Portugal abriu caminho para a presença no World Rugby U20 Trophy (Grupo B do Mundial). O que, apesar de se tratar do segundo nível da competição e que apurará o 1º classificado para a prova maior de 2108 - o Mundial da categoria será disputado de 31 de Maio a 18 de Junho pela África do Sul, Argentina, Austrália, Escócia, França, Gales, Geórgia, Inglaterra, Irlanda, Itália, Nova Zelândia, Samoa - é um feito desportivo de assinalar como um dos melhores resultados da modalidade nos últimos anos. Ficando ainda marcado na memória das proezas individuais, pela excelência do ensaio praça-a-praça de Manuel Cardoso Pinto. A que se junta uma capacidade defensiva colectiva de grande categoria que se impôs quer contra a Roménia quer contra a Espanha, num muro intransponível construído em cada metro da linha de ensaio. Os jogadores e os treinadores foram notáveis e o rugby português fica a dever-lhes e, por isso e para que se lhes possa seguir a carreira - alguns deles podem (querendo) ter notáveis carreiras - aqui ficam, para memória futura, os nomes dos 26 jogadores envolvidos. Os treinadores foram o Luís Pissarra e o António Aguilar.
Esta vitória dos U20 portugueses vem mostrar que existem jogadores capazes de dar garantias de que a Selecção Nacional se pode manter no Rugby Europe Championship e ultrapassar a actual fase sem qualquer interesse competitivo que representa a III divisão europeia onde temos estado esta época - Portugal ganhou os 5 jogos sem quaisquer tipo de dificuldades. 
Tudo dependendo em termos desportivos e objectivos do próximo dia 20 de Maio - o jogo mais importante para o futuro do rugby português - esta vitória dos U20, demonstrando, repete-se, que há garantias qualitativas de futuro, exige um visão estratégica objectivada no resultado internacional. O que obrigará a mudanças na forma de olhar para a nossa competição interna que deve ser articulada com a missão federativa de estabelecer as condições adequadas à aproximação competitiva internacional.
O campeonato nacional principal tem que se adequar às exigências competitivas que o aproximem, tanto quanto possível, da competição internacional com que os nossos jogadores se têm que confrontar - e seria muito bom que uma competição ibérica de que se fala vai para anos, tivesse lugar quanto antes. E isso exige, para além da diminuição do número de equipas - vejam-se os resultados e analisem-se os números para se perceber que a competição se faz a seis! - a introdução de sistemas de pontuação classificativa que levem a uma maior condição competitiva em cada jogo. E que se considere que o play-off final, tendo sido introduzido em Portugal (ao contrário de outros países, não tem, porque não pode ter, a ver com um aumento de espectadores e, portanto, de receitas) porque permitia uma habituação dos melhores jogadores portugueses à participação em jogos decisivos como acontece no nível internacional, não pode continuar a ser considerado como uma simpática, mas antidesportiva, segunda oportunidade permanente - há uma época inteira para construir a oportunidade.
Com esta vitória abre-se uma exigência aos responsáveis, federativos e de clube, da modalidade: as decisões não podem ser prolongadas no tempo nem tomadas a conta-gotas. O tempo urge e os adversários não dormem!    


sexta-feira, 31 de março de 2017

UM FINAL DE VENCEDOR E UMA FINAL A VER

Dois jogos internacionais da categoria sénior jogam-se amanhã: um, o jogo final do já conquistado 2017 REIC Rugby Europe Trophy; o outro, a final do 2017-U20 XV Men Championship que garante ao vencedor acesso ao Mundial da categoria etária.
Com uma curiosidade no caso da final U20: jogo entre latinos - final ibérica Portugal-Espanha - num também país latino - Roménia. E com resultado incerto. Mas, após o que se viu, com a certeza de que a capacidade de luta dos portugueses será uma constante a que a sorte dos deuses não puderá virar as costas. No entanto como nunca vi jogar a Espanha desta categoria não tenho ideia alguma sobre o que podem valer... e nisto de selecções etárias podem acontecer as maiores surpresas. Veremos... e veremos mesmo a partir das 15:00 horas de nariz colado ao ecrã.
O acesso da selecção portuguesa de sub-20 à final da competição fez-se num jogo muito difícil, vitória por 21-16, contra a Roménia - os últimos minutos foram de tirar o folêgo com uma defesa de grande atitude competitiva em cima da nossa linha de ensaio - e que teve no ensaio de Manuel Cardoso Pinto - um praça-a-praça exemplar que só pode ficar na história do torneio - o seu ponto mais alto. Recepção de um pontapé romeno, já a rolar no chão, dentro da área de ensaio portuguesa e contra-ataque a trocar as voltas a 3 defensores e a lançar-se numa corrida de 100 metros a encontrar os intervalos necessários e a garantir, na velocidade da corrida, a vantagem até à área de ensaio adversária. Um portento de capacidade individual! Um desplante de se lhe tirar o chapéu e guardar em vídeo. Um hino à virtude atacante e um exemplo a seguir: se há uma hipótese, usa-se! Ensaio! O objectivo essencial do jogo.
Mas a jogada é também um pequeno aviso sobre a perseguição de pontapés: como em todas as circunstâncias do jogo de rugby é necessário uma organização que permita a melhor adaptação ás possibilidades adversárias de exploração da situação. E os romenos não souberam montar essa organização - como modelo pode estabelecer-se que a equipa se deve organizar com 2 perseguidores que "atacam" o espaço da bola, outros 10 numa primeira linha defensiva e que, sem adiantamentos, procuram ocupar terreno, lateral e verticalmente, por forma a não abrir espaços e a não facilitar a colocação em jogo dos adversários pelo contra-atacante portador da bola e 3 outros em defesa profunda para poderem responder, em cobertura defensiva pendular, quer a um eventual pontapé quer a possíveis perfurações dos adversários - que Cardoso Pinto soube muito bem explorar. É também de louvar o espírito da construção da equipa - e conhecendo como conheço os treinadores Luís Pissarra e António Aguilar, sei das suas responsabilidades na exigente atitude de risco - que permite o nível necessário de confiança aos jogadores para explorar aquilo que resulta da leitura realizada. Ler, ponderar o risco e tomar a decisão é a sequência de acção que deve fazer parte integrante do processo de formação de jogadores. Porque será através do desenvolvimento dos processos que permitam o domínio do risco que o rugby português terá maiores capacidades na competição internacional. Principalmente se forem desenvolvidos em simultâneo com o aumento da competitividade interna.
Disto isto, que a sorte nos sorria e a audácia sirva para chegar à vitória.
No jogo da selecção principal não se espera outra coisa que não seja a vitória de Portugal como os nove lugares de diferença no ranking fazem prever, resultando da análise da diferença pontual uma previsão de diferença de 14 pontos no resultado final. De qualquer forma e desde que garantida a vitória, Portugal subirá um lugar no ranking da World Rugby - passará a 23º - trocando o Quénia (23º, 59,28). Jogo portanto de resultado esperado - vitória de Portugal, derrota da Ucrânia - mas que daria jeito que os jogadores portugueses conseguissem ultrapassar a diferença da previsão para atingir uma diferença de 15 ou mais pontos para garantir uma maior pontuação de ranking e, assim, tirar o maior partido da possibilidade de acumulação de pontos. Repare-se que neste tipo de ranking é necessário tirar o máximo partido dos jogos com as equipas pior qualificadas, acumulando pontos, para garantir que os jogos com as equipas mais fortes não provocam perdas demasiado significativas - veja-se a Alemanha que, embora jogando e mantendo-se numa divisão superior à de Portugal, se encontra posicionada em lugar inferior (25º, 58,40) e com todos os jogos do Championship já realizados. 
Por aqui não haverá qualquer surpresa num jogo que deve servir para aumentar os níveis de confiança para a "final" de 20 de Maio contra a Bélgica. Porque aqui, neste jogo-de-barragem, jogar-se-á o desenvolvimento qualitativo do rugby português.

domingo, 19 de março de 2017

TANTOS VALORES PARA UMA VERGONHA

% de Quota de pontos do vencedor estabelece o nível da vitória traduzível pela diferença de pontos marcados
Na última jornada do 6 Nações 2017 e nos jogos França-Gales e Irlanda-Inglaterra a pintura de uma modalidade pretendida como carregada de valores que a distinguem de todas as outras, saiu borrada. E saiu também porque de tanto se falar na excelência dos valores, acabámos por ficar tão embrenhados no conceito - nascido da visão aristocrática de que as regras, somos nós que as definimos e impomos - que não estamos preparados para lidar com as circunstâncias, acabando por encontrar justificações para o injustificável e explicações superiores para aquilo que não ultrapassa a baixeza e a mediocridade comportamental.
O Rugby é um Desporto, ponto! Não é uma escola de virtudes morais e éticas acima de qualquer suspeita como se pode perceber de cada vez que se vai a um campo e se percebe ser a mãe do árbitro a figura mais popular do jogo. É um Desporto e os seus valores centram-se nos valores desportivos: desportivismo, respeito, disciplina, responsabilidade, lealdade. E a solidariedade é um princípio importante a respeitar porque no desporto, como no tango, precisámos uns dos outros para que haja jogo. E por mais que os marketeers se esforcem por vender outros valores especiais e específicos, só nossos, não os reconheço ou consigo encontrar. Neste meu blogue junto à sua marca XV contra XV, uma série de valores que considero integrarem o jogo de Rugby, mas não os considerando como exclusivos - os outros desportos também vivem com eles.
E não há diferenças para os outros desportos? Claro que há, mas essencialmente porque o Rugby tem características próprias que o marcam e formatam e é marcado por um espírito de equipa essencial. Porque é um desporto colectivo de combate! O que faz toda a diferença que determina e exige tipo de comportamentos específicos que garantam a protecção, seja por exageros acidentais ou voluntários, da integridade física dos jogadores em confronto pela bola e pelos centímetros do terreno. E por isso as Leis do Jogo do Rugby estabelecem normas que são diferentes dos outros desportos. Não porque seja "especial" mas sim porque é diferente e porque as suas características exigem que a autoridade do árbitro - para salvaguarda dos jogadores - seja inquestionável. Tão inquestionável como noutros Desportos de Combate...
Ora o que acontece é que esta pretensão de "especiais e únicos" - que se ouve todos os dias - tem servido para desculpabilizar as mais variadas incorrecções e atentados aos valores que devem nortear o Desporto. Como se o mal que produzem tivesse consequências irrelevantes - por terem sido realizadas sem qualquer ponta de má intenção, entende-se. Mas este fim-de-semana internacional foi pródigo na negativa da sua demonstração.
No Irlanda-Inglaterra, Sexton foi, com o árbitro Jerôme Garcés distraído na crença da impossibilidade de deslealdades por parte de rugbistas, um alvo definido pelos jogadores ingleses com o objectivo de lhe diminuirem capacidades (suficientes para fazerem dele o portador da camisola 10 dos Lions) e que se serviram - numa demonstração de falta de desportivismo e respeito - da violência física provocada por placagens fora-de-tempo ou "limpezas" fora das leis. E pouco importa se elas foram "quase em-tempo" ou porque o prevaricador já iria lançado: as consequências são as mesmas e o jogador atingido não viu qualquer protecção à sua integridade física e não é admissível que se permita transformar qualquer jogador em alvo de feira.
Bom exemplo de Garcés e ao contrário destes foi a penalidade marcada à Irlanda por um dos seus jogadores ter placado um jogador inglês que se encontrava no ar. E isto apesar do jogador inglês ter saltado para receber um passe de um companheiro e não estar a captar qualquer pontapé adversário. A lei é clara: um jogador que esteja no ar, isto é, com os seus pés não assentes no chão, não pode ser placado, é intocável. E sendo-o por razões de protecção da sua integridade física uma vez que se encontra fisicamente desprotegido - como aliás sempre que sujeito a placagens tardias - o árbitro francês não teve dúvidas sobre a marcação da falta. Exemplo a reter.
Já no França-Gales as faltas ao desportivismo, à disciplina e ao respeito foram mais do que suficientes para deixar o inglês Barnes - para além de espectadores, dirigentes, treinadores e jogadores - em maus lençóis. Um fartar vilanagem, dir-se-ia. 
O árbitro Barnes esteve mal ao não atribuir ensaio de penalidade favorável a Gales por falta propositada do ponta Vakatawa que só viu "amarelo" - amarelo que deveria ter sido mostrado a Liam Williams por motivo anteriormente semelhante (apenas o "adiantado" provocado por Halfpenny terá sido acidental). O árbitro inglês - de quem tenho a dificuldade de esquecer a trapalhada do França-Nova Zelândia de 2007 em Cardiff - perdeu-se completamente no final do jogo que deverá ter atingido um recorde com os 100 minutos de formação ordenada em formação ordenada por faltas galesas propositadas e que deveria ter tido um epílogo longe dos vinte minutos de "prolongamento" com a marcação de ensaio de penalidade e vitória francesa mais cedo do que veio a acontecer.
Mas os espectadores do Stade de France não foram melhores e deram permanentes provas de má-educação, com demasiado barulho a cada pontapé de tentativa aos postes de Halfpenny. Faltando claramente ao respeito devido e que gostámos de dizer ser apanágio do Rugby.
E que dizer de um jogador francês que terá mordido o braço de George North e de que as câmaras televisivas só puderam mostrar um ângulo - quantos ângulos nos são mostrados para perceber de um pisar de linha? E numa demonstração antidesportiva, na posterior conferência de imprensa, Guy Novés - seleccionador/treinador francês - teve a desfaçatez de insinuar que o galês se teria mordido a ele próprio… Bonito e próprio!
E pior, muito pior, quando um senhor francês - que Barnes considerou "medic" (título que também tenho em diploma passado pela Ruby Union) - e que à pergunta sobre se Antoni estaria afectado por “pancada na cabeça” respondeu afirmativamente mal percebeu que assim poderia substituí-lo - naquele final de formação sobre formação - por um anteriormente já substituído (Slimani) mas, por casualidade, considerado como o melhor pilar francês e que se reaquecia junto à linha. Uma vergonha que tem um nome: fanática vigarice.
Não deixando saudades estes jogos finais do Torneio das 6 Nações violaram o conceito de Desporto que aprendi ainda na infância: é mais honroso uma derrota, por pior que seja, do que uma vitória com batota.
O Rugby, dispensando fanáticos, necessita sim de gente bem-formada e capaz de defender os bons princípios que o integram em vez da defesa acrítica e cega de uma exclusividade de valores para fechar os olhos à realidade dos comportamentos. O que se passou nesta última jornada do 6 Nações 2017, pondo em causa os valores desportivos e a decência que o Rugby exige, não me deixa tranquilo.

sábado, 18 de março de 2017

6 NAÇÕES - PREVISÕES 5ª JORNADA



Nesta última jornada do 6 Nações 2017, não vão faltar motivos de interesse mesmo se a Inglaterra já assegurou o título  - mas ainda procura o Grand Slam e o recorde de 19 vitórias consecutivas - ou se a Escócia, confiante na vitória contra a Itália, olha para um honrosíssimo 2º lugar, sonhando que a França perca mas que Gales não tenha ponto de bónus e que a Irlanda não consiga derrotar a Inglaterra. Resultado último que, ganhando em Paris, também interessa a Gales que, se assim for, será cabeça-de-série no próximo Mundial de 2019. Vale que os jogos não são ao mesmo tempo e temos a possibilidade de fazer as contas com a calma dos intervalos.
Na visita ao Stade de France os galeses - em homenagem ao velho mito dos campos desportivos de que "em equipa que ganha não se mexe" - apresentam a mesma equipa que venceu a Irlanda em Cardiff. Apostando noutro velho mito de que a importância da defesa antecede a do ataque e garante a vitória - assim pareceria contra irlandeses não fora o facto de terem marcado três ensaios - Gales corre de novo o risco de pretender atacar com o hábito confortável de Biggar jogar longe da Linha de Vantagem, possibilitando assim que a defesa avance os seus componentes exteriores e "entale" o ataque. Fieis à ideia que as defesas não permitem ataques exteriores em 1º tempo (Shaun Edwards, dixit), os galeses - esquecendo as suas próprias evidências do contrário - encontram-se divididos entre o velho e previsível estilo das Warrenbals e a procura dos espaços exteriores. E contra franceses que foram formados no deslizar da defesa para, mesmo cedendo inofensivo terreno, imporem uma superioridade numérica capaz de cortar os apoios interiores, Gales corre grandes riscos de ineficácia atacante. E, como habitualmente, Sam Davies, que nasceu para atacar a Linha de Vantagem e fixar defesas, continuará a assistir ao jogo do banco.
Em Dublin, a Inglaterra procurará impôr o seu jogo - hoje mais rápido, com acelerações devastadoras a atacar intervalos - a uns irlandeses que irão precisar de todo o seu tradicional "fighting spirit" para resistir e repetir a proeza feita aos All Blacks: impedir a existência de 19 vitórias consecutivas entre equipas do Tiers 1. 
Sabendo-se que as maiores dificuldades inglesas estão - como se viu em Itália -  na adaptação a algo de novo ou diferente do habitual, fica a curiosidade de saber qual a surpresa táctica que os comandados de Joe Schmidt irão apresentar. Ou veremos a superioridade inglesa crescer com ataques sistemáticos ao canal de Sexton, desgastando-o e retirando-lhe lucidez atacante para aplicar as suas desequilibradoras "dobras"? De qualquer forma, um combate com bola oval a mediar.
Seja como fôr, os jogos vão garantir um sábado na frente da televisão. Entre as 12:30 e as 18:30 o rugby vai comandar e o almoço vai confundir-se com um lanche. Sandes portanto.

quinta-feira, 16 de março de 2017

DE OLHOS NO JOGO DECISIVO

Num jogo que não pode - pela diferença notória de capacidades - ser qualificado de competitivo, o XV de Portugal, sem recorrer a qualquer dos seus membros da "armada profissional", venceu a Moldávia por 59-0 com a marcação de 9 ensaios. No entanto e pese a vitória e a diferença "de 15 ou mais pontos de jogo", Portugal não somou quaisquer pontos - porque, jogando em casa, tem uma diferença de dez ou mais pontos de ranking sobre o adversário - e o jogo serviu para pouco.

Dos nove ensaios marcados apenas um - o 3º - mostrou o caminho daquilo que devem ser as preocupações do modelo português: apoio e continuidade em velocidade, ataque aos intervalos, mudanças de ângulos de linhas corridas com passes em carga (off-loads) e rapidez na reciclagem e relançamento. A jogada começou no 1/2 campo de Portugal e teve 3 fases - qualquer delas sem paragem que permitisse a reorganização defensiva - com 3 ultrapassagens da Linha de Vantagem (verticalidade portanto e não jogo lateral) e 12 passes com a particularidade da equipa se encontrar com 14 jogadores. Mas foi a única genuína construção - o restante dos ataques bem sucedidos foram mais por culpas da (des)organização defensiva dos moldavos do que da construção portuguesa - porque, verdade seja dita, a Moldávia - basta saber a forma como constituiu a equipa - não tem qualquer nível competitivo no rugby. E houve ainda muitas falhas - sempre que a necessidade do jogo obrigava a acelerações eram visíveis as dificuldades técnicas de execução ou de abertura de linhas de passe eficazes - e demasiadas penalidades. Ou seja, sempre que se pretendia sair do conforto habitual que nos proporciona o nosso campeonato, havia falhas - como demonstra o facto de, na quantidade de posse da bola, ter havido apenas uma diferença de 10% - Portugal com 55% e a Moldávia com 45%.

Para além de picar o ponto no calendário, o jogo não serviu para mais nada - não por culpa da equipa portuguesa e dos seus jogadores mas porque o adversário a nada obrigou que preparasse a nossa selecção para maiores exigências. E era bom que não fosse assim. Porque desenganem-se aqueles que julgam que estamos a fazer uma época formidável: não estamos! Estamos apenas, se não deixarmos que o fumo da percepção se sobreponha à realidade, a fazer uma época normal plena de resultados esperados - 83%, conquistando, com as 6 vitórias conseguidas, 4 posições e 4,58 pontos de ranking -  com excepção do resultado contra a Bélgica em Novembro que, de acordo com a teoria, terá sido um resultado inesperado uma vez que a obrigação de vitória, por mais elevada pontuação no ranking e na altura, estaria do lado belga.


Mas a vitória tem, para além da pouca coesão mostrada pela equipa belga, uma explicação que retira o inesperado da situação: a Bélgica jogou, nas duas épocas anteriores, nesta mesma III categoria e, por isso, o seu nível estabeleceu-se alinhando por baixo; Portugal chegava com outros hábitos - anos da categoria acima - e outras capacidades. E a diferença foi, inicialmente, evidente, chegando para uma vitória por 26-21 mas com um último quarto de aflitos e sem marcação de pontos na 2ª parte. E a 20 de Maio vai ser diferente: a Bélgica com hábitos mais competitivos (mesmo se só com derrotas) e Portugal com um nível de hábitos mais baixo (mesmo se só com vitórias) e portanto com prováveis maiores dificuldades para suportar o ritmo de um jogo decisivo. O que significa a necessidade de criar condições que permitam uma presença ao mais alto nível das capacidades competitivas do colectivo da selecção portuguesa no provável jogo de barragem em Bruxelas. O que exige atenção e, muito provavelmente, alterações por forma a libertar jogadores das suas obrigações com os clubes.

O australiano Eddie Jones, treinador da Inglaterra, deixa o recado:"Podem jogar rugby pelo clube 365 dias por ano mas o rugby internacional é mais rápido, tem maiores acelerações, a velocidade de corrida é superior e é preciso recorrer a formas diferentes de treino para o rugby internacional". Este conceito, embora dirigido ao nível mais elevado da competição internacional serve, na sua relatividade, para qualquer dos níveis - o nível internacional é sempre superior ao nível competitivo interno. E é por isso que os jogadores portugueses sempre que necessitaram de acelerar cometeram erros técnicos - gestos desadequados - e tácticos - má posição, má linha de corrida ou mau tempo de chegada. E para o modificar é preciso tempo de treino disponível. Para bem do rugby português porque, como afirma o capitão, Seam Armstrong, da selecção alemã: "A única maneira para ter sucesso a curto-prazo [no desenvolvimento da modalidade] é ter uma selecção nacional que empurre e eleve o perfil da modalidade." Ou seja e ao contrário daquilo que o sistema desportivo português procura impôr: que se desenvolva a qualidade primeiro para poder atingir, posteriormente, a quantidade. Como é aliás procedimento normal em qualquer actividade que procura alargar a sua influência.

Agora falta apenas um jogo do grupo contra a Ucrânia que se tem mostrado como a mais fraca das equipas deste grupo - com 20% de quota de pontos marcados e 6 ensaios a favor contra 23 sofridos, contra 40% de quota de pontos marcados e 13 ensaios a favor contra 20 sofridos da Moldávia - e que nos deve preparar para o jogo mais importante da época a 20 de Maio - provavelmente contra a Bélgica a quem não se vê possibilidades de derrotar a Espanha em Madrid e em jogo que deve ser atentamente analisado - e libertarmos-nos de vez desta inacreditável III divisão da Rugby Europe. Porque estar aqui e nestas companhias, não nos serve, nem para o desenvolvimento, nem para aumentar a atractividade do nosso rugby.

Aliás a Rugby Europe tem, forçosamente, de olhar para o estado de não-competitividade destes grupos abaixo do Championship - não têm qualidade e provocam distorções óbvias no sistema de ranking. Não por o método adaptativo do ranking estar errado mas sim porque as competições são, para algumas equipas muito desequilibradas - e não basta a preocupação a exigir a abertura da porta do 6 Nações. É preciso, para que o rugby europeu se desenvolva competitivamente e não através de números de primária caça ao cheque, reformular muita coisa, utilizando leis e conceitos desportivos e não meros passos de marketing - como é possível considerar que uma equipa que, no ano em que se encontra na IV divisão europeia, pode, pelo menos no plano teórico, ter acesso ao Mundial? Só a brincar, só para obrigar a mais um jogo de resultado esperado, só para perder tempo sem ganhos para ninguém! Porque para desenvolver o interesse pelo rugby vale 80 minutos sem continuidade!

Como se pode ver no quadro seguinte, uma equipa como Portugal e na III divisão consegue, com as mesmas 4 vitórias, mais pontos de ranking do que equipas em níveis superiores. E no caso das últimas classificadas, a situação é idêntica: quanto pior o nível maior o número de pontos perdidos. Alguma coisa está mal e, repete-se, não é o método mas o desequilíbrio competitivo.

Ora esta situação e as suas consequências devem ser analisadas e servirem de base para as alterações necessárias, dando aos grupos um superior equilíbrio competitivo com as vantagens do aumento do interesse do público. Como aliás o desporto americano tem demonstrado ao longo dos anos.

Conclusão: O European Trophy é, ao nível do rendimento desportivo, um desastre e não ajuda nem ao desenvolvimento nem à atractividade do rugby português e, pelo contrário, contribuirá, se não lhe fugirmos, para a sua degradação e desinteresse. A ideia do rugby como convívio não é desinteressante desde que, como descobriram todas as principais potências rugbísticas, dentro do campo a qualidade dos jogadores e das suas acções se imponham. Como também se sabe, não há desenvolvimento sem resultados - a qualidade é prioritária sobre a quantidade como resulta da evidência de qualquer sucesso - e assim é necessário que ultrapassemos esta fase tão rápido quanto possível, isto é, que a Selecção de Portugal vença o jogo de barragem do próximo dia 20 de Maio. O que exige que sejam criadas as condições necessárias para que a equipa não perca esta oportunidade de relançamento. Porque o rugby português não resistirá muito tempo à manutenção na III divisão. 


sexta-feira, 10 de março de 2017

PORTUGAL-MOLDÁVIA, 4ª JORNADA DO RET

Depois de ultrpassado adversário principal, a Holanda, restam ao XV de Portugal dois jogos contra adversários que não têm hábitos competitivos de nível semelhante ao que os portugueses têm nos últimos largos anos. E essa falta de hábitos vai fazer toda a diferença para a construçãodo resultado final.
A partir da vitória sobre a Holanda os jogadores portugueses devem começar a preparar, vencendo sem margem para dúvidas quer em resultado, quer em exibição, o jogo de barragem de 20 de Maio que decidirá da subida à II divisão - lugar onde devemos pertencer - ou da manutenção nesta pouco competitiva e desinteressante III divisão.
O jogo de hoje, inserido na 4ª jornada do Rugby Europe Trophy, contra a Moldávia que não tem nem tradição nem resultados da modalidade, é uma clara manifestação desse desequilibrio: seja qual fôr resultado da vitória, Portugal não obterá qualquer ponto para o ranking da World Rugby. Porque, jogando em casa e no conceito adaptativo que constrói a pontuação e tendo mais de dez pontos do que o adversário, tem a obrigação de vencer sem qualquer prémio. 
E isto é, tendencialmente, o que se irá passar entre equipas habituadas ao nível competitivo próximo do Tiers 2 e as habituadas a qualquer coisa como o Tiers 4. Jogar sem prémio mas pagando caro, muito caro, qualquer distracção. O que significa que não sendo a III divisão Europeia qualitativamente competitiva, estar lá significa a habituação à mediocridade. Ou seja, a jogar um rugby que se apresenta como simpaticamente social mas não vale desportivamente - porque desporto é superação e não o arrastar pausado das formas do jogo.
A diferença entre as duas equipas pode ver-se nestes dados: Portugal tem 75% da quota do somatório de pontos marcados e sofridos em pontos marcados com 2 pontos de bónus atacantes, enquanto a Moldávia só atinge 52% da quota e 1 ponto de bónus atacante e outro defensivo. Por outro lado Portugal marcou 12 ensaios sofrendo apenas 3 e a Moldávia embora com 13 ensaios marcados sofreu 11. Situações que mostram a superioridade portuguesa e que deve ser mostrada em campo  dando a entender o crescimento e progresso da equipa depois dos jogos realizados e que tem a origação de garantir uma coesão colectiva superior.

O XV de Portugal tem, assim, obrigação de ganhar e impôr uma superioridade que demonstre a sua capacidade de se encontrar no patamar superior. O que significa que se espera uma vitória com uma diferença de cerca de 40 pontos - a diferença resultante do algoritmo não tem em conta factores como experiência e hábitos competitivos. Para o que é preciso jogar de acordo com os Princípios Fundamentais de Avançar, Apoiar, Continuar e Pressionar a que se devem acrescentar sub-princípios como Velocidade, Comunicação, Reacção e Adaptação. 
A responsabilidade que os jogadores da selecção nacional têm em relação à comunidade rugbística portuguesa é relevante - é com a sua demonstração de capacidade técnico-táctica e de querer que o rugby português pode resituar-se e desenvolver. Vitórias apenas sem mostrar perspectivas de melhoria qualitativa e competitiva não servem para nada no quadro em que nos situámos. É preciso mais e é nisso que a equipa deve apostar.

quinta-feira, 9 de março de 2017

4ª JORNADA DO 6 NAÇÕES

Dois jogos da 4ª jornada do 6 Nações, estarão sob todas as atenções por razões diferentes. Em Twickenham, os ingleses tentarão tudo que os conhecimentos de Eddie Jones permitam para vencer e igualar os All Blacks no número de 18 vitórias consecutivas contra equipas do Tiers 1. E embora não exista qualquer possível comparação entre o jogo que cada uma das equipas apresenta - sendo o dos neozelandeses muito mais interessante, dinâmico e inteligente. O facto é que dependemos todos dos escoceses para não ter que ouvir ou ler a prosápia inglesa que nos cairá em cima caso atinjam a vitória pretendida. 
Em Cardiff, Gales tem uma tarefa difícil contra os irlandeses. Howell decidiu manter a mesma equipa que perdeu com a Escócia na anterior jornada. Apesar da tese que apresenta - do tipo: a confiança que tramsmitimos aos jogadores mantendo-os na equipa e possibilitando-lhes reabilitarem-se perante o seu público vai levá-los a superarem-se - a decisão não parece das melhores nesta aposta na reputação mais do que na actual capacidade de cada um e tem feito correr muita tinta. Há até quem diga que a preocupação maior parece ser a de dar a North a possibilidade de garantir a sua selecção pelos Lions mas, pelos seus demasiados erros defensivos, o prejuízo tem sido para a equipa galesa. E o que está em questão é a necessidade - para evitar idêntico "grupo da Morte" como em 2015 - de garantir uma posição no ranking da World Rugby dentro dos 8 primeiros classificados. E a coisa está rés-vés com argentinos à espreita. 

Como mostra o quadro e se a vitória da Inglaterra parece, no campo das previsões (87,9% das probabilidades da Rugby Vision do neozelandês do MIT, Niven Winchester) incontestável, já o jogo Gales-Irlanda se apresenta com um grande equilíbrio. Um autêntico jogo de tripla com as equipas muito equilibradas em diversos aspectos como se pode ver no gráfico.


Do passado sabe-se que estas duas equipas se defrontaram neste actual 6 Nações por 17 vezes com 6 vitórias de Gales, um empate e com 10 vitórias da Irlanda. Do presente 6 Nações, Gales tem uma vitória e a Irlanda duas. A quota de pontos marcados no total da soma de pontos é de 52% para Gales e de 69% para a Irlanda. O que, dando vantagem aos irlandeses, puderá ser reduzida pelo factor casa e pelo tecto fechado do estádio - tanto quanto se sabe, assim será - que permitirá que as vozes de apoio retirem compostura aos visitantes. A ver. 



domingo, 5 de março de 2017

PREPARAR O RETORNO

Ao vencer a Holanda por 26-10, o XV de Portugal cumpriu as melhores expectativas: vitória contra o principal adversário; 4 ensaios marcados e um ponto de bónus; mais de 14 pontos de jogo com maior número de pontos de ranking conquistados, atingindo agora os 58,88.
Comparação ao longo de 5 anos entre as duas equipas incluindo já o último resultado
ou os pontos nos iii
Com esta vitória Portugal coloca-se em primeiro lugar do Grupo da RE Trophy 2016/2017 e afirma-se como principal favorito a disputar a subida - o retorno - ao RE Championship uma vez que os dois jogos que faltam - Moldávia e Ucrânia - são contra equipas que não têm os hábitos competitivos que a selecção portuguesa tem.
Estão, portanto, os dados lançados com tendência para mostrarem a melhor face para Portugal.
No entanto, mesmo com óptimas perspectivas, é avisado não embandeirar em arco: o jogo de "barragem" - provavelmente contra a Bélgica e em casa desta não vai ser fácil e exigirá preparação cuidada e adequada. Porque o último classificado sairá de uma divisão de maior nível competitivo para jogar contra o nosso actual hábito de jogos de menor nível qualitativo e de menor combate. E fazer a aproximação exige muito trabalho, muita focagem e, até, muita resiliência. O mesmo se passará com o nada fácil percurso para o Mundial 2019.
O objectivo está aí, à vista de todos, e obriga à melhor atenção e alinhamento: desde à organização ao treino para garantir a coesão da equipa necessária à vitória. Tudo com uma estratégia pré-estabelecida, sem últimas da hora e, principalmente, sem esperar qualquer milagre como a moda parece ter introduzido na linguagem formal. Porque apesar desta vitória, o rugby português continua com um campeonato pouco competitivo e longe das exigências da competição internacional de melhor nível e sempre com enormes dificuldades para conseguir juntar os seus melhores jogadores em tempo útil para constituir uma equipa coesa para além das dificuldades existentes na adaptação de treinadores e jogadores aos desenvolvimentos do jogo. E, ainda e sempre e como se pode ver no quadro comparativo, com dificuldades na compleição física o que exige um desenvolvimento de técnicas e tácticas que possam contrariar o poder físico dos adversários. O que exige tempo e disponibilidade competitiva.
Comparação da compacticidade por posições das equipas 
apresentadas por Portugal no Trophy 2016/2017 
e comparadas com a equipa da Geórgia que disputou o Mundial de 2015
Este resultado conseguido por Portugal mostra-nos aspectos que valerá a pena analisar. Em teoria - como o valor obtido pelo algoritmo utilizado  para a previsão e com base nas classificações do ranking demonstra - o resultado deveria mostrar grande equilíbrio entre as duas equipas mais fortes deste Trophy. Como explicar então a grande diferença - o mínimo de 15 pontos de jogo de diferença significa para a World Rugby uma vitória sem margem para qualquer dúvidas - conseguida?
Antes do mais este jogo fez voltar uma dúvida não esclarecida e que voltou com intensidade: como foi possível a derrota na Alemanha por 50-27? Que desleixos a podem explicar: organizativo? preparação do jogo? constituição da equipa? preparação do futuro? Que inconsistências existiram? que falhanços se sobrepuseram? Sejam quais forem as razões que nunca foram suficientemente analisadas por quem o deveria fazer, a consequência está na disputa deste Trophy contra equipas que estão longe de nos preparrarem para os combates que pretendemos realizar.
A explicação desta vitória e dos seus números só pode ter a ver com os percursos anteriores das duas equipas e com o evidente desequilíbrio existente entre os diferentes Tiers - desequilíbrio que afecta também a precisão das previsões, colocando problemas de difícil resolução ao nível do algoritmo utilizado. Desde há dezena e meia de anos que as duas equipas seguiram caminhos diferentes e deixaram de se encontrar: Portugal passando a jogar com equipas de nível superior; a Holanda, em baixo, jogando com os níveis onde hoje se encontra. E isto faz toda a diferença! Porque os hábitos competitivos são essenciais para garantir a capacidade competitiva e Portugal aproveitou muito bem essa capacidade para se impôr.

Por isso urge aproveitar a oportunidade - criando e desenvolvendo as necessárias condições - que temos aberta à nossa frente para garantir o retorno ao nível superior. Porque se assim não for, limitaremos o nosso rugby a vitórias de pouco significado que, por muitas que sejam, só servem a propaganda e não o desenvolvimento. Nem a nossa participação internacional...

DESAPARECIMENTO DE POST

Por um qualquer erro que cometi apaguei a página sobre o jogo Holanda-Portugal a contar para o Rugby-Europe Trophy 2016/2017.
Como não tenho forma de recuperar o texto - que falava das hipóteses de Portugal mesmo se o algoritmo utilizado previa a vitória da Holanda por 1 ponto de diferença e levantava a questão (que o algoritmo não contempla) de qual a maior importância para a construção do resultado final: se a habituação - mesmo tendo descido na última época - de jogar a nível superior dos portugueses ou se  o momento de subida holandês mas realizado a baixo nível?
Deixo aqui os gráficos então apresentados como o da previsão da diferença de pontos no resultado final e que comparam as duas equipas quer pelos resultados no Trophy, quer ao longo dos últimos cinco anos

Previsão da diferença de resultado com base nos rankings da World Rugby. 
A vantagem  holandesa reside no factor casa

Comparação das duas equipas pela prestação competitiva no Trophy 2016/2017

Comparação das duas equipas ao longo dos últimos cinco anos pala pontuação no
ranking e separação da ordenação das posições no ranking lugares.
Dados retirados em Janeiro de cada ano.


quinta-feira, 2 de março de 2017

EXIGÊNCIA DE MUDANÇA



Estatísticas - Ultimate Rugby 
Com estes dados estatísticos - de enorme equilíbrio - como é que Gales foi derrotado por uma diferença de 16 pontos? Ainda por cima com mais metros percorridos e mais ultrapassagens da Linha de Vantagem? Como foi possível?
Foi possível com erros, com desperdícios, com más decisões e com mais faltas como mostra o quadro abaixo de que resultaram 15 pontos e muita perda de terreno.

Estatísticas - Ultimate Rugby

O australiano Ben Darwin da Gain Line Analytics  sintetiza de forma brilhante e com a frase "O que acontece dentro do campo é apenas um sintoma e não a causa do sucesso ou do falhanço" aquilo que penso dever ser o ponto de vista de qualquer treinador - o que se passa no campo tem razões, positivas ou negativas, de que é necessário perceber as causas. Por este prisma os sintomas demonstrados à evidência por Gales mostram que a equipa não tem a coesão colectiva que as equipas necessitam demonstrar neste elevado nível. Falta de coesão que resulta, por um lado, do sistema de selecção - maior preocupação pelo prestígio passado do que pela capacidade presente (veja-se North ou Faletau) - e por outro pelo método de treinos empregue que parece estar longe daquilo que as equipas mais avançadas utilizam, retirando-lhe, nomeadamente, capacidade física para a totalidade do jogo. E a continuar assim, Gales não conseguirá resultados que satisfaçam a suas pretensões.
Mudança, espera-se portanto. De imediato, no método!
Até porque joga-se já neste 6 Nações o próximo Mundial do Japão cujo sorteio se realiza a 10 de Maio. Assim este torneio europeu constitui a última oportunidade para que os países pré-qualificados - os 12 que se classificaram nos três primeiros lugares de cada grupo do Mundial de 2015 - melhorem as suas classificações no ranking mundial. Porque serão aos oito melhores classificados que serão distribuídos pelos dois primeiros lugares de cada grupo. Ora Gales já tem a experiência do que pode acontecer se não se mantiver nos oito primeiros - caiu no "grupo da morte" com a Inglaterra, Austrália, Fiji e Uruguai, embora qualificando-se, terá aí deixado as energias que não lhe permitiram ir mais além. 
A mudança para garantir vitórias é decisiva - Gales entrou no 6 Nações no 5º lugar com  82,55 pontos e está hoje, à entrada da 4ª jornada, no 7º lugar do ranking mundial com 81,16 pontos, ou seja e após ter perdido 1,39 pontos, com mais 0,59 pontos do que a França (8º) e a mais 1,25 pontos do que a Argentina (9º). E se é verdade que a Argentina, ao contrário da França, não terá jogos para aumentar o seu pecúlio, a margem não é confortável...
... e Gales terá que se apresentar nas suas melhores condições e capacidades - os jogos que lhe faltam são contra a Irlanda e França - para garantir - uma vez que a total dependência de terceiros lhe retira a possibilidade de vitória no 6 Nações - uma posição inicial apropriada - às pretensões no próximo Mundial.

                                       


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

6 NAÇÕES - NOTAS DA 3ª JORNADA


Gales conseguiu o pior resultado da jornada ao perder pela diferença de 16 pontos de jogo num desafio em que a derrota, sendo o mais provável, seria por margem mínima, fazendo do jogo um combate até ao último minuto. Aliás, olhando para as estatísticas do jogo, não se compreende, pela proximidade dos valores, como foi possível tal diferença.
Erros e mais erros, enormes dificuldades sempre que a intensidade do jogo aumentava mostraram que os galeses parecem estar longe da preparação seguida pelas outras equipas. Pela segunda vez e em dois jogos seguidos morrem fisicamente e "deslaçam" na 2ª parte, mostrando um baixo nível de coesão e falta de treino a níveis de intensidade adequada. Ou seja: na equipa técnica galesa não parece haver noção de que as competições onde os seus jogadores evoluem estão abaixo do nível exigido pela competição internacional. O que significa que o conforto dessa aceitação, para além dos erros técnicos que permite, ainda levou à contestação da decisão do "capitão" Alun Wyn Jones que pretendia, com o resultado em 16-13 e com tempo de jogo suficiente (30'), chutar aos postes no que foi contrariado pelos "seus chutadores" - Halfpenny e Biggar - que decidiram, ignorando o que dizem as estatísticas para um zona de fácil êxito, procurar um alinhamento a 5 metros da linha de ensaio. Depois do que se viu, incluindo a selecção de George North sem um mínimo de condições e de novo a saída de Moriarty para entrar um Faleteau ainda sem capacidade para ser uma mas valia, Gales tem que mudar. De técnicos e de modelo.
Como curiosidade e provável consequência do modelo actual, Biggar parece desconhecer a necessária geometria do jogo-ao-pé ao utilizar a direcção mais longa para realizar pontapés de penalidade para fora - o abertura italiano, Tommaso Allan, também o fez. Mas se neste caso o cansaço pode ser a razão da pouca clareza, no de Biggar será o de um modelo pouco exigente - que, aliás, já fez a derrota contra a Inglaterra.
Por outo lado a França demonstrou em Dublin que, por maior que seja o esforço de Guy Novés, vai levar muito tempo a conseguir uma equipa com a destreza técnica que permita tirar parido das condições físicas que os jogadores franceses apresentam. Um momento ou outro em que se percebem tentativas de jogo de acordo com os princípios do rugby de movimento não são suficientes para dar à equipa da França a consistência necessária para se impôr como equipa de nível internacional elevado.
Mais uma vez a Inglaterra - sem ter jogadores da melhor qualidade (pelo que se tem visto poucos serão os que constituirão a primeira equipa dos Lions) - conseguiu vencer na parte final do jogo depois de demonstrar enormes dificuldades, nomeadamente sempre que os italianos não faziam o esperado - como quando decidiram não se opôr, de acordo com as Leis do Jogo, às placagens, evitando a construção dos habituais rucks. As razões desta capacidade de impôr uma impressionante pressão com a aproximação do final do jogo estão, de acordo com Eddie Jones, nos conhecimentos adquiridos no manual de José Mourinho e nos conhecimentos da "periodização táctica" transmitidos pelo espanhol Villanueva e desenvolvidos pelo português Vítor Frade e que estabelecem um princípio de treino que, não dividindo as componentes em acções independentes, se realiza em níveis de intensidade muito superiores às necessidades do jogo normal, levando a menos tempo de treino mas com muito maior velocidade de acção e decisão. Com este sistema a coesão da equipa e a sua eficácia, à medida que o tempo passa - 43% de posse da bola na 1ª parte contra 61% na segunda - e os adversários vão ficando exaustos, aumentam a diferença e deixam o adversário sem capacidade de resposta. 
Mas interessante, interessante nesta jornada, para além do ensaio de levantar o estádio do italiano Michele Campagnaro, foi o inteligente recurso da Itália de O'Shea a uma interpretação das Leis do ruck que, surpreendendo, criaram enormes dificuldades à Inglaterra. Mas já muito pouco inteligente - em nítida montagem de mind games para os jogos que faltam - terá sido a reacção de Eddie Jones ao considerar que estes recursos se traduzem numa postura anti-rugby. Como se os Davides tivessem outro recurso para derrotar os Golias que não a inteligência e a surpresa. Mostrar a indignação que Jones mostrou e que contaminou George Ford, acusando os italianos de utilizaram processos pouco éticos e destruidores do rugby em simultâneo com a exigência à World Rugby da imediata mudança da Lei, não é próprio de quem tem sido, pelos seus processos e procura de novas soluções, considerado um percussor e reunido as atenções de muitos dos seus pares. Tanto mais que este processo é conhecido - para além do XV já foi utilizado pelo Sevens -  e segue o mesmo caminho do já feito para evitar os mauls penetrantes ou a exploração da Lei para aumentar o número de jogadores do alinhamento - como fez a Escócia contra a Irlanda - num procedimento conhecido há mais de vinte anos.
Sendo o "músculo" mais importante de um jogador de rugby o seu cérebro, impedir o recurso à inteligência como forma de equilibrar desvantagens tornará o jogo de rugby num mero combate de força física com vencedor antecipado. O que tirará, isso sim, todo o interesse ao jogo.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

6 NAÇÕES - PREVISÕES 3ª JORNADA



De novo com recurso às previsões da RugbyVision a que junto as minhas, aqui ficam as previsões das diferenças de pontos de jogo e os favoritos para cada um dos desafios desta terceira jornada das 6 Nações. 
Segundo ainda as previsões da Rugby Vision a Escócia tem 53,8% de hipóteses de vencer Gales, a Irlanda tem 81,1% de hipóteses de vencer a França e a Inglaterra é quase vencedora garantida com 98,8% de hipóteses sobre a Itália.
Sobre os vencedores não parece haver dúvidas - diferentes algoritmos apostam nos mesmos vencedores - e se as previsões se cumprirem a Escócia continuará em luta pela Triple Crown - vitórias sobre os que falam inglês - com última discussão em Twickenham a 11 de Março.
No entanto e mesmo que o meu algoritmo preveja uma curta vitória da Escócia, a minha aposta vai para Gales! Cymru am byth!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

DEVER CUMPRIDO

O vinte-e-três de Portugal, utilizando, sobre a maior corpulência dos adversários, a inteligência e capacidade técnica - conhecidas como armas vencedoras desde a vitória de David sobre Golias, fez o que lhe competia: ganhar por mais de 15 pontos de diferença - garantindo assim o máximo coeficiente na pontuação do ranking da World Rugby - e atingir o mínimo de 4 ensaios para garantir 1 ponto de bónus. Dever cumprido!
Com uma diferença de 25 pontos, o resultado de 35-10 ultrapassa o resultado previsto (16 pontos de diferença) e, ao creditar a partilha de pontos marcados em 75%, demonstra de forma indiscutível a superioridade portuguesa.
Ao contrário do que se poderia pensar, os avançados portugueses não tiveram qualquer problema no confronto com os seus adversários directos - nomeadamente nas formações ordenadas ou mauls penetrantes. O facto da Polónia ter a mais o equivalente a um jogador no seu bloco de avançados não lhe deu grande vantagem - apenas conseguiu, na meia-dúzia de tentativas, um ensaio no empurrão da formação com a bola transportada. Com uma falta absoluta de sincronismo, a formação polaca permitiu que a defesa conjunta dos avançados portugueses, numa clara demonstração que a coesão colectiva se sobrepõe à mera força, se superiorizasse na maior parte das situações. Ou seja, aquilo que se poderia temer da maior corpulência polaca não resultou em nenhum particular desgaste português.
Feito o jogo e a vitória com os resultados pretendidos, vale a pena olhar, sem entusiasmos desmedidos, para a produção portuguesa.
Contra uma defesa que não conseguia organizar a sua defesa profunda - não havia linhas defensivas de cobertura - os jogadores portugueses conseguiram encontrar os espaços de penetração que permitiram ultrapassar a linha de vantagem por diversas vezes para além daquelas que permitiram a marcação de 5 ensaios. Mas houve ainda muito desperdício: uns por individualismo escusado; outros por falhas técnicas pouco admissíveis e resultando em erros não forçados demonstrativos de menor consistência. Demonstrando assim a diferença a que ainda se encontra do nível que se pretende atingir.
A regra das coisas é simples: é da responsabilidade do jogador que apoia o portador da bola e enquanto jogador que não pode ser directamente pressionado ou incomodado, criar as melhores condições para a eficácia do passe que liga os dois jogadores. O que exige quer a abertura, através da adequação da velocidade, de uma linha de passe e ainda a aproximação ou distanciamento do portador da bola de acordo como a situação se apresente. Ou seja: as linhas de corrida dos apoiantes devem ser convergentes ou divergentes mas quase nunca paralelas. Ora os jogadores portugueses mostram grandes dificuldades na execução deste simples gesto técnico que depende  muito mais da atitude táctica competitiva do que de alguma especial capacidade técnica. Foram perdidos, para além daqueles desperdiçados por individualismos egoístas e vaidosos, alguns ensaios que construiriam um resultado condizente com o valor demonstrados pelas duas equipas no Jamor. E que colocaria, na relação com os restantes adversários, alguns pontos nos iiis.
A equipa da Polónia foi uma decepção e mostrou-se muito abaixo das capacidades de uma equipa com pretensões. As dificuldades competitivas demonstradas, podendo estar relacionadas com as dificuldades conhecidas para a realização de jogos e treinos, são demasiado visíveis para que possa ultrapassar uma mera vontade sem efeitos práticos. Mas, mesmo que tudo melhore, aquele modelo de jogo alicerçado numa visão sul-africana ultrapassada não os levará a qualquer lado significativo.
Quanto ao "quinze" de Portugal terá ainda, para que possa continuar a perseguir os objectivos a que se propôs, que alterar bastantes conceitos do seu processo. Começando desde logo por um aumento da intensidade dos seus treinos para permitir uma adaptação mais eficaz aos momentos cruciais do jogo e possibilitar o domínio dos tempos de posse de forma a que se traduzam na conquista de terreno e na conquista de terreno contra adversários de uma outra valia. E para que o jogo de continuidade possa ser mais eficaz exige-se uma muito maior velocidade de disponibilização da bola no jogo no chão. Tratando-se de uma manobra que tem que fazer parte do ADN da equipa - a sua corpolência pouco elevada obriga, para garantir a continuidade do movimento, a passar pelo chão em situações de impasse - é necessário garantir, ao contrário do que se passa na maioria dos momentos, que a bola seja disponibilizada ANTES da defesa adversária se recolocar. O que exige uma forma dustinta de encarar o jogo por parte dos médios, esses pautadores dos tempos e ritmos do jogo e responsáveis pela incerteza defensiva adversária.
Por outro lado, o jogo ao pé necessita de ser mais objectivo com propósito ofensivo mais claro para que seja possível transformar situações de jogo, alterando o campo de sujeição para dificuldades ao adversário. E a regra aqui também é simples: fazer funcionar o princípio da manta curta e explorar a área descoberta do adversário - porque uma estará sempre descoberta. O que implica melhorias na capacidade de leitura colectiva e sincronia na perseguição.
Tudo isto porque, de acordo com os resultados, a Holanda - próximo adversário - é superior a esta fraca Polónia.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

PORTUGAL É FAVORITO

Previsão: vitória de Portugal por 16 pontos de diferença

De acordo com o passado de cada equipa - uma, Portugal, vinda do European Championship (II divisão) e outra, Polónia, vinda da III divisão - com posições distintas no ranking da World Rugby - Portugal, 25º classificado e a Polónia no 32º lugar - a selecção portuguesa, para mais jogando em casa, apresenta-se como favorita e a análise da diferença da pontuação no ranking permite prevêr uma vitória por 16 pontos de diferença.
Mas será mesmo assim? Será que a história - onde se baseia a diferença de pontuação entre as duas equipas - irá prevalecer sobre a realidade?
De facto Portugal tem uma vantagem para além do hábito competitivo internacional mais elevado: tem, mesmo que competitivamente desequilibrado, um campeonato que tem tido o seu normal desenrolar enquanto que os polacos têm deparado com mau estado do tempo, o que lhes tem dificultado jogos e treinos. Ou seja, os portugueses têm, de momento, mais hábitos competitivos do que os polacos. E isso pode pesar na eficácia das oportunidades com que se deparem.
Para que possa vencer, a selecção portuguesa necessita de ter a inteligência colectiva para ultrapassar o maior poder, pelo menos estático, que a selecção polaca demonstra - veja-se o quadro do Índice da Compacticidade. Se o equilíbrio na capacidade de choque, vulgo colisões, parece existir no 1/2 campo, já no bloco de avançados a diferença favorável aos polacos parece evidente. Com um cinco-da frente português com menos 54 quilos de peso do que os polacos, a tarefa nas formações ordenadas será exigente e desgastante.
Principalmente se tivermos em atenção que o total do bloco de avançados polaco conta com o peso de mais um homem (92 quilos) - ou seja e simplificando: Portugal jogará um 8 contra 9 em cada formação ordenada. O que para além de constituir um enorme desgaste para os portugueses, poderá ainda e se houver qualquer quebra de concentração, tornar-se num foco de faltas para proveito do bom chutador que Piotrowicz Wojciech é - 17 pontos contra a Ucrânia. Para contrariar esta vantagem não resta mais aos avançados portugueses do que usarem o melhor da sua capacidade técnica com grande concentração colectiva em cada formação ordenada - e nas bolas de introdução portuguesa uma adequada sincronização será meio caminho andado para uma boa utilização da bola.
Analisando a compacticidade - gramas por centímetro da altura, correspondendo à capacidade física e traduzível na capacidade de choque - das duas equipas pode ver-se, para além do equilíbrio dos dois 1/2 campo, que no bloco avançado existem áreas críticas quer na 1ª linha - 316 contra 362 kg para alturas idênticas - quer no 5-de-trás - 508 contra 554 kg - com influência em qualquer maul pós-alinhamento próximo da área de validação portuguesa e a que acrescerá o recurso ao pilar direito de brutais 140 kg. No entanto o facto de Portugal poder contar nas suas fileiras com o mais alto jogador do alinhamento - Gonçalo Uva, 201 centímetros - pode permitir uma atitude pró-activa que contrarie a conquista polaca.
Para ganhar o jogo, Portugal terá de jogar, para além de uma demonstração de coesão e espírito de colectivo de combate - possível com o conhecimento mútuo dos jogadores em campo e por a equipa ser constituída por 11 jogadores que se dividem por duas equipas - com base na evasão, evitando colisões e atacando a linha de vantagem com linhas de corrida capazes de prenderem os defensores adversários e impedi-los de se desdobrarem defensivamente. Para que isto seja possível será necessário garantir muita rapidez - pensando um tempo antes no "o que fazer?" - na libertação da bola nas fases das formações expontâneas de jogo no chão. O que implicará uma predisposição dos médios para fluir o jogo.
Deve no entanto lembrar-se que, tendo ambas as equipas uma vitória no actual Trophy, a equipa polaca apresenta uma percentagem de 100% na partilha de pontos marcados enquanto Portugal atingiu os 76% - no total das três vitórias conseguidas no passado trimestre, a equipa portuguesa apresenta uma partilha de pontos marcados de 61% o que, mostrando dificuldades na tradução em pontos de algumas das vantagens conseguidas, demonstra maiores vulnerabilidades defensivas do que a Polónia. 
Dado o facto das dificuldades polacas para - ao que se sabe de ouvir dizer - garantir um ritmo de jogo adequado à participação internacional, o recurso a uma intensidade elevada por parte dos portugueses - procurando, em termos de resultado, abrigar-nos de difíceis vinte minutos finais - pode ser o trunfo que faça a diferença final num jogo de grande sacrifício individual e colectivo mas que, para as pretensões portuguesas de abrir caminho para o Mundial 2019, só pode terminar em vitória portuguesa.


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