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terça-feira, 22 de setembro de 2020

NORTE-SUL: UMA LIÇÃO DE MOVIMENTO

Pudemo-nos perguntar vezes sem conta como ganhou o Sul (38-35) este admirável jogo de movimento no retorno do clássico Norte-Sul neozelandês.

Olhando para o quadro acima e apenas com uma diferença de 4% de Capacidade Competitiva, também se percebe a proximidade do resultado - tão próximo que virou apenas no último segundo do jogo num pontapé cruzado do recém entrado Josh Ioane com uma soberba captação aérea do ponta Will Jordan.

As duas equipas estiveram muito equilibradas — os mesmos três pontos de diferença para o Sul ao intervalo reproduziram-se no final — e produziram momentos de alto nível rugbístico - tecnicamente muito bom, tacticamente muito inteligente e sempre com uma notável atitude competitiva.


Embora a vitória fosse conseguida apenas no último segundo da partida, o Sul, como se pode ver pelo domínio exercido na posse, quota de bolas e na ocupação territorial que lhe permitiu uma ligeiramente superior capacidade competitiva, venceu com o mérito de nunca ter desistido.

Mas não foi nada fácil esta vitória arrancada a ferros e o Norte com mais metros percorridos — 590 contra 413 —  com mais rupturas de linha defensiva — 25 contra 9 — teve provavelmente na indisciplina das suas 21 penalidades concedidas — contra 9 do Sul — o factor de desperdício que somado, para  um praticamente mesmo número de passes efectuados —140 contra 137 do Sul — ao menor número de reagrupamentos ganhos — 64 contra 81 — terá motivado a ineficácia do controlo necessário. 

Independentemente de todos estes números que, muitas vezes, escondem bem os seus segredos e nos deixam a matutar sobre a real explicação da razão de um resultado, este jogo mostrou-nos de novo a espectacularidade e emoção da dimensão do "jogo de movimento", onde podemos ver diversas situações  com a manobra a superiorizar-se à colisão.

[Nota: por mera distracção este post não foi colocado na data devida. As minhas desculpas pelo atraso]

domingo, 2 de junho de 2013

PORTUGAL S20 A GANHAR

Não pude ver o jogo entre Portugal e a Namíbia no IRB Junior World Rugby Trophy - a internet não é ainda o mesmo que a electricidade... - mas pouco importa, Portugal Sub-20 ganhou (26-17) e isso é que importa.

Depois da derrota, ainda mal digerida devo dizer, do primeiro jogo contra o Chile a vitória portuguesa neste segundo jogo, era decisiva. Agora, parece-me, é gerir contra a Itália - tendo em atenção o resultado não vá haver um empate de três equipas para o segundo lugar - para preparar o jogo da classificação final. No mínimo e com esta vitória a honra do convento - apesar do desperdício, volto a repetir, da primeira jornada - fica salva.

Em França terminou o campeonato com a vitória surpresa do Castre Olympique por 19-14. O jogo, como aliás já tinha acontecido nas meias-finais, não foi nada de especial excepto para quem seja adepto de uma das equipas. Dois heróis do jogo e ambos do Castre: o formação sul-africano Rory Kockott que, para além de marcar um ensaio saído de um buraco de agulha, se tornou no melhor marcador de pontos de todo o campeonato e o abertura Rémi Talès que marcou dois pontapés de ressalto que, abrindo o fosso no resultado, consolido a vitória. No Toulon, muito erro, muita precipitação e um Michalak, como formação, desastroso - lento e pouco preciso - durante o meio-tempo que jogou. Wilkinson fez o que pode, mas não chegou. Bem como as cargas previsíveis de Bastareaud que não conseguiram surpreender fosse quem fosse. 

Apesar da pouca qualidade geral do jogo, uma preocupação de qualquer das duas equipas: conquistar terreno antes de passar a bola para o lado - mas nem sempre daqui resulta, embora alguma eficácia seja garantida, espaço suficiente para explorar. Seria preciso mais qualquer coisa de criatividade e, infelizmente para o espectador neutro, os jogadores não se mostraram capazes de surprender, limitando-se ao rigor do xadrês pré-estabelecido. De qualquer forma e se alguém merecia ganhar, o título ficou bem entregue: vinte anos depois e, então, graças a um ensaio impossível que fez primeira página do L'Equipe com um "Il n'y avait pas essai!", o Castre Olympique ganha com toda a justiça e sem margem para dúvidas, controlando praticamente todo o tempo do jogo.

E o facto é que as equipas capazes de expressar um jogo mais interessante, mais volumoso e com maior capacidade de movimento ficaram pelo caminho: Toulose e Clermont. E com o maior número de internacionais franceses no seu colectivo...

O treinador do Toulouse, Guy Novés, tem uma explicação interessante para a incapacidade que a sua equipa demonstrou para chegar à final: nós temos internacionais franceses que tiveram que jogar o Seis Nações com o desgaste que daí resultou; as outras equipas (como o Toulon ou o Castre) estão cheias de antigos internacionais de diversos países que hoje podem ficar completamente e apenas à disposição do Clube. E como conclusão diz que o Stade Toulousain, se pretende ganhar no futuro, tem que alterar a sua política de contratações e, fazendo como os outros, ir buscar ao hemisfério sul antigos internacionais.

Ou seja: qualquer dia, nesta necessidade profissional de garantir receitas, ninguém vai querer jogadores internacionais... Ou então o modelo do sul terá que ser importado. Com um enorme senão: a cultura rugbística francesa não tem nada a ver com esse modelo franchisado...

Há um cada vez maior problema de calendários, os jogos internacionais são cada vez mais - são esses que permitem receitas e patrocínios - e os clubes também querem cada vez mais jogos internos. Mas como os fins-de-semana não ultrapassam 52 em cada ano... só o bom senso de compromissos adequados e favoráveis aos jogadores pode resolver o problema de jogos, receitas e qualidade do jogo.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

COMEÇAR A PERDER

Mau jogo de Portugal S20 na estreia do IRB Junior World Rugby Trophy. Contra um adversário acessível, os jogadores portugueses entraram muito mal no jogo. E se o rugby é uma corrida pela linha de vantagem, Portugal perdeu todas as corridas e cedeu, desde o início e apesar de ser o primeiro a marcar, espaço, bola e tempo para os adversários. O que, mesmo das poucas vezes que conseguiu ultrapassar a primeira linha de defesa adversário, lhe causou problemas insolúveis na continuidade do jogo-entre-linhas por demasiado atraso na composição do apoio.

É um facto que o jogo de preparação que a selecção portuguesa realizou - contra uma paupérrima France Agrícole - pode, pelo nome do adversário, ter contribuído para uma errada postura competitiva dos jogadores que se terão deixado cair na ilusão de que seriam melhores do que o são efectivamente. O ter marcado primeiro pode ter sido, no caso, factor de ainda maior ilusão...

Mas seja como for a questão central é esta: como é possível entrar em jogo como entraram os jfogadores portugueses, falhando a agressividade necessária, facilitando a vida ao adversário por falta de determinação, preparando-se mais para ver do que para agir, errando nos Princípios do Jogo? Como se por nada tivessem que lutar... sem ambição.

A maior parte das bolas conquistadas tiveram pouco uso e foram deitadas - em jogo ao pé pouco consistente - fora em favor do adversário. Ou seja, a selecção portuguesa parecia não ter soluções para usar a bola de forma eficaz para criar desequilíbrios na defensiva adversária - e quantas vezes se ouviam vozes exteriores a gritar chuta! chuta!... Por outro lado as saídas de terceira-linha, foram apenas de nº8, o 6 e o 7 nunca lhe deram continuidade... E com a distância a que as linhas atrasadas jogavam da linha-de-vantagem - o ponto de contacto realizou-se sempre dentro do meio-campo português, o esforço foi sempre inglório e improdutivo.

E pior é que não é a primeira vez que selecções representativas portuguesas, independentemente da categoria etária, entram em jogo desta forma quase displiscente, de espera para ver o que dá, e que os obriga a passar o resto do jogo a correr atrás do resultado num "de trás para a frente" que parece já ser património da cultura desportiva portuguesa. O que se passa e como alterar? O que está por tráz da errada atitude? Como transformar?

Pelo que se tem visto nos jogos de melhor nível dos últimos tempos dois domínios são essenciais para ganhar jogos: uma forte formação-ordenada que permita ou conquistar bolas a avançar, atrasando a subida da defesa, ou que obrigue o adversário a cometer faltas; capacidade de jogar em cima da linha-de-vantagem impedindo a desmultiplicação defensiva e permitindo a organização do apoio em tempo útil.

Se o Portugal S20 não melhorar estes dois pontos, impondo-se ao seu próximo adversário - a Namíbia - a nossa presença no Torneio não deixará nota e apagará da memória o excelente resultado de Outubro passado.

domingo, 5 de junho de 2011

DEZOITO VEZES CAMPEÃO

Ganhando na final do Top 14 ao Montpellier por 15-10, o Toulouse venceu pela décima-oitava vez o campeonato de França.

O jogo, com supremacia constante das defesas sobre a previsibilidade dos ataques – os ataques aos intervalos nunca criaram a necessária instabilidade defensiva - terá sido a mais fraca das grandes finais europeias da época e, como gozo de espectador, não passou de um jogo de emoção limitada aos adeptos dos dois clubes.

O novo campeão deitou fora muito jogo, com erros impensáveis para uma equipa cheia de experientes internacionais e permitiu ao Montpellier – depois de uma época notável sob o comando de Galtier - mostrar-se quase campeão mas a deixar-se morrer na praia: no minuto final dispôs de uma penaltitouche, de uma formação-ordenada a 5 metros e, ainda, de uma penalidade para marcar o ensaio que daria o prolongamento – faltou-lhe capitanato (Ouedraogo, um esforço notável, já tinha saído esgotado e demasiado massacrado no muito que jogou). Faltou-lhes experiência, maturidade, serenidade para garantir a eficácia do gesto final...

Mesmo falhando o inexplicável, a experiência da equipa de excelência de Guy Novés garantiu a grande ovação ao cair do pano. Dezoito vezes... é obra.

domingo, 29 de maio de 2011

A EUROPA A JOGAR, NÓS A VER

            Ça c'est du Rugby! Primeiro ensaio do Toulouse

Fim-de-semana europeu de grandes jogos de rugby. Em França na sexta-feira, o Toulouse classificou-se para a final ao vencer sem margem para dúvidas o Clermont Auvergne, campeão da época passada, por 29-6; ontem, o Montpellier conseguiu uma vitória de rés-vés - um ponto conseguido de penalidade no minuto final e quando os parisiences do Racing já se viam na final após uma excelente recuperação feita a partir de dois erros infantis - um pontapé sem sentido de Matadigo (que permitiu o contra para o ensaio de Bobo) e o disparate do amarelo de Trinh-Duc (que reduziu a equipa a catorze numa altura crucial do jogo). Com estas duas vitórias teremos uma final do Campeonato de França de movimento contra movimento - característica essencial do jogo de ambas as equipas, ambas terríveis na utilização de bolas recuperadas e, porque não mostram receios de correr riscos, em lançamentos de ataques de qualquer parte do terreno. Expectativas excelentes, portanto.

Em Inglaterra, os Sarracenos vencem o campeonato pela primeira vez na sua história - derrotando o Leicester Tigers por 22-18 - depois de terem suportado minutos finais de uma sequência de 32 fases. Um sufoco para adeptos, um regalo para os olhos.

Na Magners Ligue, a liga céltica de irlandeses, galeses e escoceses, os vermelhos do Munster venceram os recentes campeões europeus do Leinster por 19-9 num jogo de grande intensidade e qualidade - mais do que se viu em França, o ataque aos intervalos, a conquista da linha de vantagem foi uma permanência conseguida pela notável velocidade de libertação da bola no jogo no chão e pelo jogo lançado dos três-quartos. Não estando muito distantes das melhores equipas australianas e neozelandesas, os irlandeses parecem preparar-se para ter uma palavra a dizer no Mundial.

A Europa, no final de Maio, fecha a época rugbística dos seus campeonatos internos para começar a pensar na preparação das suas selecções. Portugal fechou as portas em Janeiro...  

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

BLACK FERNS CAMPEÃS MUNDIAIS

 Fotografia de Martin Seras Lima IRB.COM
A Nova Zelandia, pela quarta vez consecutiva, é campeã do Mundo feminino ao derrotar, na final de ontem, a Inglaterra por 13-10. A neozelandesa Carla Hohepa - três-quartos ponta - é a actual rainha do rugby feminino - uma senhora jogadora.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

MUNDIAL FEMININO

Ter visto alguns dos jogos do Mundial feminino trouxe-me da memória a frase – rejeitando a ideia que o ideal rugbístico feminino seria o Sevens – de uma jogadora brasileira que disputou o recente Mundial Universitário no Porto: E as gordas?


E tenho visto gordas a jogar excelentemente e a mostrar direito próprio ao jogo. Aliás e duma maneira geral, vi excelentes demonstrações colectivas de rugby: cumprimento sistemático dos Princípios Fundamentais, recursos técnicos de bom nível – os in-out são do melhor – cultura táctica colectiva e individual muito elaborada, muito bem organizado o jogo no chão e excelente organização defensiva. Enfim, rugby de qualidade.

Jogando tanto como os homens? Não, jogando diferente. Talvez correndo mais riscos, jogando menos ao pé, fazendo menos faltas, com construção mais elaborada – menor procura de choque – na procura de intervalos. Mas com a mesma determinação, o mesmo empenho e uma enorme generosidade e espírito de equipa. No fundo, tal como nos outros desportos, construindo uma diferente imagem do jogo, tornando-o feminino, muitas vezes elegantemente feminino – mas sem lhe alterar os valores.

Black Ferns no Haka                 fotografia rugbymatters.net IRB.COM
De todas as equipas que vi – e vi as melhores – as Black Ferns (neozelandesas) são notáveis. Tem um espírito colectivo impressionante o que lhes permite um apoio permanente que garante a diferença para as outras equipas. Mostrando em qualquer momento um saber jogar cuidado na manutenção constante do movimento da bola, saliente-se nesta equipa a capacidade de recurso a combinações não anunciadas e eficazmente adaptadas às defesas contrárias, demonstrando uma elevada capacidade de leitura do jogo – cultura táctica individual muito desenvolvida - e que traduz um nível superior de treino. Há momentos surpreendentes no seu jogo – e de uma acentuada beleza rugbística. Valerá a pena ver a final – Inglaterra-Nova Zelândia – no próximo domingo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

DIREITO CAMPEÃO NUM JOGO POUCO INTERESSANTE

Direito ganhou e ganhou bem. Porque dos dois, foi a equipa que melhor soube utilizar as suas capacidades. Logo de entrada mostrou-se tacticamente acertada no desenvolvimento de uma das estratégias importantes do jogo: controlo do tempo e do ritmo do uso da bola. Direito conseguiu muito bem acelerar – graças a uma boa posição corporal no contacto dos seus jogadores portadores da bola – o tempo de libertação da bola e conseguiu também – numa preocupação permanente de avançar nos reagrupamentos - atrasar o tempo de saída de bola de Agronomia. Ganhando com isso, espaço e tempo sobre as acções dos adversários. E assim, com menos esforço do que a oposição, conseguir o essencial: dominar a zona de continuidade – e Agronomia começava aqui a perder a vantagem do seu ponto forte. E essa consequência deve ter pesado no colectivo agrónomo – impotentes na frente, tentaram expandir o jogo. Sem grande sucesso porque, nessa área do jogo, faltam-lhe argumentos e hábitos para um jogo de pressão e acutilância permanentes.

Mas por aqui ficou o interesse da primeira parte do jogo – o restante foi fraquinho para confronto entre as duas melhores equipas portuguesas da temporada. A dificuldade de ultrapassagem das defesas foi uma constante, a incapacidade de explorar vantagens numéricas foi erro demasiado visto, a incompreensão de criar o apoio em situações de óbvia vantagem e oportunidade ou de atingir os espaços vazios foi demasiado evidente, o jogo ao pé não passou de confrangedor, para não se deixar de pôr em causa a formação e métodos dos treinos actuais.


Cada vez penso mais que há demasiado ginásio para terreno a menos: de que serve a força muscular se técnica e tacticamente as debilidades são enormes? Quantas vezes se vê a incapacidade de resolução – para não falar na incompreensão de um 3x2 – de um simples 2x1 por falta de conhecimento táctico dos movimentos e soluções possíveis?

Com a entrada dos velhos guerreiros (tão velhos que são todos eles - a que se acrescenta ainda Aguilar - internacionais do meu tempo de seleccionador), a segunda parte melhorou para o lado de Direito. A capacidade de leitura de Malheiro – e um jogo ao pé mais incisivo – a consistência de João Diogo, a presença – só ela chega para transformar companheiros – de Miguel Portela foi suficiente para dar ao jogo um novo impulso … e conseguir a jogada da tarde: bola rapidamente liberta, passe de Pipoca na linha, ataque da linha de vantagem pelo abertura, passes em tempo justo com linhas de corrida adequadas para fixar defensores e espaço para Aguilar entrar no enorme intervalo criado para ensaio no meio dos postes. Simples, eficaz, experiente. E bonito. A lembrar: that’s rugby my friends. E a lembrar ainda uma regra de sempre: podes ter as bolas que quiseres mas de nada te servirão sem um abertura capaz de lhe dar continuidade eficaz.


Porque é que esta simplicidade não constitui uma constante de outros jogadores? Distorções da formação com preocupações demasiadas na vitória e menos no ensino? Apenas incapacidades de treinadores? Desconhecimento dos princípios metodológicos do treino e formação? Treinos sem oposição para testar opções? Demasiadas jogadas e pouco treino de tomada de decisão? Seja qual for a causa, a situação é grave e necessita de ataque rápido e adequado – ou o futuro será pior que o presente e, como lembra o poeta, para pior… já basta assim.

Agronomia não foi mais longe do que o conhecido. Foi previsível e não foi capaz (houve aqui algum mérito de Direito) de tirar partido das suas capacidades. Aliás, montando a equipa como tem sido posicionada, não me parece que possa sair deste estádio. Pessoalmente, como venho repetindo há anos, gostaria de a ver jogar com Gardner no lugar de abertura – onde as suas qualidades de velocidade de arranque e de mudança de velocidade, exploração de intervalos e jogo ao pé, colocariam constantes problemas aos adversários e onde o seu ponto fraco (defesa um-contra-um) seria facilmente coberto por companheiros - e Cardoso Pinto como 1º centro (onde as suas qualidades de defensor e capacidade de ataque ao intervalo seriam melhor utilizadas e multiplicariam as dúvidas da defesa).

O jogo não foi brilhante, mas o final foi péssimo. Mais uma vez – já no ano passado, com as mesmas equipas, se assistiu a cenas deploráveis – o espírito macho ibérico sobrepôs-se ao desportivismo e uma cena de pugilato (para ser simpático) sem qualquer sentido e com uma boa maioria dos jogadores a perder o respeito pelas suas camisolas, pelos espectadores e pelas obrigações da modalidade, tomou conta do fundo do campo. Resultado e para além dos dois amarelos que castigaram Agronomia ao longo do jogo: três cartões vermelhos (dois de Direito e um de Agronomia). E a festa acabou desfocada. Com a graça das coisas estragadas.


Nota final: o árbitro - Pedro Murinello - esteve em bom plano e nada teve a ver com o resultado.

segunda-feira, 22 de março de 2010

FINAL DA TAÇA

O jogo, entre CDUL e Agronomia, foi interessante – dos melhorzinhos da competição interna - e a maior parte dos jogadores internacionais (pelo menos os que jogaram pela selecção ou que já partiram para Hong-Kong) ficou de fora. O que significa que a tese de que os internacionais têm que jogar pelos clubes é uma verdade relativa – o desenvolvimento pode assentar noutras bases.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

PORTUGAL PODE GANHAR? PODE

A tarefa do XV de Portugal na Taça Europeia das Nações não é fácil. Para dois lugares de apuramento directo, três países com qualificação superior no ranking da IRB. O que significa que existem três equipas com maior sustentabilidade desportiva demonstrada ao longo do tempo do que a selecção portuguesa. Ou seja: que têm maior probabilidade de ganhar os jogos contra Portugal.
É o que acontece com a Geórgia, classificada em 18º lugar no ranking e com 66,85 pontos – Portugal está em 21º e com 59,72.

Significa isto que Portugal não pode ganhar o jogo de amanhã? Não, Portugal pode ganhar o jogo. Desde que seja capaz de anular os pontos fortes georgianos e consiga atacar os seus fracos.
Para chegar à vitória os jogadores portugueses têm que entrar em campo com uma firmeza de carácter tal que se traduza numa atitude de combate e cooperação enorme. No combate não cedendo um palmo, na cooperação não perdendo uma oportunidade.
Para chegar à vitória não basta não querer perder; é preciso procurar ganhar. Não desperdiçando jogo, correndo riscos necessariamente calculados, atacando espaços, surpreendendo ou armadilhando movimentos. O que significa procurar mais jogo do que o mero – e confortável – jogo ao pé.

Já se sabe, o bloco de avançados georgiano é poderoso. Mas as suas linhas atrasadas nem surpreendem, nem são muito capazes de reagir e adaptar-se ao movimento atacante. O que implica que os portugueses sejam capazes de utilizar as suas bolas conquistadas – mesmo que se tenham que adaptar a recebê-las no desconforto do recuo. E aqui pode estar a chave de uma vitória: saber transformar, através de um jogo de linhas atrasadas com dois pivots (abertura e 1º centro), o recuo inicial numa plataforma atacante pelo lançamento, no espaço e em velocidade, do 2º centro e elementos do três-de-trás. Para o que é necessário colocação diferente dos três-quartos: dois primeiros em linha e próximos e o terceiro elemento a aparecer lançado, recebendo a bola sobre um defensor já fixado pela sua própria corrida. E depois variar: atacando-os e saltando se “eles” ficam; jogando ao pé em cruzamento se eles sobem – rasteiro se ao nível do centro do terreno; de balão se desde o canal 1. Evitando assim o contacto físico constante e permitindo aos avançados portugueses a única preocupação de “aguentar” o bloco adversário.

Podemos ganhar à Geórgia? Podemos, mas não jogando a mesma coisa.

FRANÇA-IRLANDA

O França-Irlanda do 6Nações do próximo sábado está a criar enorme expectativa. As duas melhores parelhas de centros da Europa vão confrontar-se: Jauzion/Bastareaud contra D’Arcy/O’Driscoll. Só isto valeria a deslocação a Paris se houvesse garantia de bilhete. Assim, valerá a caixa mágica da televisão.

O par irlandês terá a vantagem do serviço do abertura O’Gara; os franceses, do poder do seu bloco avançado. Dos dois lados uma enorme capacidade de utilização das bolas que lhes sejam entregues. Os off-load de Jauzion, o poder de Bastareaud, a imprevisibilidade de D’Arcy e o sentido de oportunidade de O'Driscoll, abrirão espaços suficientes de penetração para um interessante desenvolvimento do jogo entre-linhas – e será curioso observar a organização de cada equipa para os contrariar.
Em defesa, a experiência conjunta do par irlandês dará maiores garantias. Aliás Stuart Barnes – articulista e comentador do Times – dá, numa interessante observação, Bastareaud como o elo fraco da defesa francesa. Porquê? Porque, saindo rápido, adiantando-se numa espécie de blitz, abrirá, no desalinhamento provocado, caminho para a entrada e ultrapassagem da linha de defesa pelo ponta do lado fechado, principalmente quando for Bowe. A ver.

Sendo o jogo em Paris, a França é a favorita. Mas os irlandeses – tendo há muito abandonado o espírito do risco libertador que fazia do final dos seus jogos monumentos ao movimento na procura de um volte–face sempre tardio – reservam o fighting spirit para todos os momentos do jogo e são capazes de, em qualquer altura, ultrapassar qualquer defesa. Veremos que serviço lhes será fornecido pelos seus avançados na luta tremenda que travarão com os seus adversários directos.

Para quem gosta de rugby, a transmissão televisiva da Sport TV (não havendo acesso ao directo ou dando prioridade ao Portugal-Geórgia) é imperdível.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

6 NAÇÕES

A olho nu percebe-se, desde logo, uma enorme diferença entre o 6 Nações e a Taça Europeia das Nações: a qualidade dos relvados. No primeiro, campos sem lama a propor um jogo completo; no segundo, campos ou incapazes de suportar um jogo ou encharcados em lama até dizer basta. O que significa receitas. De que é ilustrativo os estádios cheios de um lado e a meia dúzia de mirones que se podem adivinhar a juntar aos “internos” da modalidade do outro.
E é claro, também há uma enorme diferença na capacidade de produção de jogo. Mesmo se esta 1ª jornada do 6 Nações não foi nada de especial. Mas houve momentos interessantes ou significativos.

O primeiro ensaio da Irlanda é um tratado: salto de O’Hara com um passe notável para o espaço vazio – numa ideia táctica próxima dos quarter backs americanos – onde apareceu, lançadíssimo, o ponta; reagrupamento, saída de bola rápida, ataque ao intervalo, defesa a ficar curta e dois jogadores soltos no corredor de 15 metros para um ensaio em beleza do nº8.
No Inglaterra-Gales, a estupidez do base galês Alun Wyn Jones – uma rasteirita de esperteza saloia – derrotou definitivamente a equipa. Durante os dez minutos que esteve fora por amarelo, os ingleses marcaram 17 pontos. Dezassete pontos! De nada valendo a excelente organização defensiva que Gales mostrava. Tão pouco o desespero dos ataques finais. Mais do que jogou, a Inglaterra agradeceu.
A França apareceu com um bloco de avançados de grande poder – já tinha dado indícios contra a África do Sul. Mas não sei se os seus três-quartos chegarão para desequilibrar o jogo frente a equipas que, ao contrário da Escócia, consigam reduzir o espaço de manobra da 3ª linha francesa. Mesmo quando Bastareaud se aproxima de um Umaga europeu.
A Itália e a Escócia são as duas equipas fracas deste conjunto, a Irlanda, porventura, a mais equilibrada, Inglaterra e Gales a dependerem muito de dias sim de alguns dos seus jogadores. Quanto à França ver-se-á no próximo sábado – precisamente contra a Irlanda – a verdadeira massa de que é feita.

Com maior ou menor qualidade, o 6 Nações não perde o seu encanto. Os estádios continuarão cheios e os jornais e televisões continuarão a reportar os acontecimentos. E a Sport TV, também: para português ver.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

DERROTA NA RÚSSIA

Chovia, estavam cerca de zero graus de temperatura e o campo estava uma lástima. Situação suficiente para fazer desanimar qualquer um. Mas – ao contrário de que se poderia esperar – Portugal esteve muito bem nas fases estáticas e não foi ultrapassado pelo maul dinâmico dos russos. Quer dizer: estivemos bem onde julgávamos poder ter problemas, equilibramos a luta nos sectores onde, teoricamente, teríamos maiores dificuldades. Ultrapassando frio, chuva e lama.
Defendemos bem – com excepção do momento que ditou o ensaio do formação russo. Lutamos muito. Corajosamente. Com excelente atitude.
Fizemos um bom combate defensivo. Então, porque perdemos? O que falhou?


Falhou a capacidade de explorar o ataque.
Tivemos duas oportunidades: a primeira, ainda com 0-0, e depois de uma excelente recuperação numa situação de evidente superioridade numérica, deitámos a bola fora, chutando-a; a segunda, explorando muito bem a colocação subida da defesa – porque a linha de vantagem foi atacada – com um passe ao pé que deu ensaio. Mas não fizemos ou tentamos mais. Não criámos outras. Porque chovia muito? Em parte, mas principalmente por falta de hábito.
O nosso campeonato vale, competitivamente, nada. É uma nulidade onde as oportunidades surgem umas atrás das outras, criando um espírito de pouco rigor. Possibilitando uma espécie de experimentalismo permanente; a ver se dá, dir-se-ia.

Não podemos passar a vida a pedir heroísmo, espírito de sacrifício, capacidade de luta até à morte pela camisola – enfim, aquelas coisas todas que permitem dizer no fim com o ar de comiseração de quem nada mais tem para pedir: bateram-se muito bem. Porque a atitude, o empenho, só por si, não dão vitórias e não chegam para equipas que pretendem estar presentes no Campeonato do Mundo. Dito de outro modo: de equipas ou jogadores que se batem bem, estará o inferno cheio – o paraíso das vitórias, pelo contrário, tem muito poucos inquilinos. Porque há uma exigência de método.
Para que os jogadores possam resolver os problemas que enfrentam a este nível, precisam de ter experiência das situações, estar habituados a reconhecer e utilizar o número reduzido de oportunidades que caracteriza a competição equilibrada e de bom nível. Perceber a oportunidade e (re)agir colectivamente com a eficácia necessária a não a deixar escapar é a marca das boas equipas.


Para atingir essas capacidades, para ganhar internacionalmente, é preciso disputar um bom campeonato – que esteja tão próximo quanto possível do nível internacional. Com aquilo que os internacionais portugueses têm deixado em campo vale a pena perguntar: e se tivessem um campeonato decente, até onde poderiam ir?...
…E pensar que anda por aí gente a pretender impor um campeonato pior.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

RUSSIA-PORTUGAL

Não se esperam facilidades para o XV de Portugal no jogo de hoje contra a Rússia. A vitória abrindo, para uns ou para outros, uma boa estrada para a Nova Zelândia não deixará de pesar no desenrolar do jogo.
Para Portugal, que entregou pontos inesperados na primeira volta em Lisboa, uma vitória significará um aumento claro das perspectivas de apuramento directo.

Dada a situação classificativa actual, Portugal terá que tirar vantagem de correr riscos. Capaz de defender bem, o quinze nacional precisa de saber utilizar as bolas que tiver disponíveis com um jogo inteligente e explorando o fraco adversário – a defesa dos intervalos. Na verdade, os russos, tendo uma maior capacidade no jogo estático, sentem-se suficientemente confortáveis no jogo de contacto próximo para o utilizarem de forma constante. O que significa que, defensivamente, os avançados portugueses terão que encontrar a capacidade necessária para contrariar as tentativas russas de maul dinâmico – e aqui estará, admitindo que haverá atitude suficiente nas formações ordenadas, o principal problema defensivo a resolver. Mas não têm as mesmas capacidades ou confiança no jogo ao largo – atacante ou defensivo.

Se – com a entrada do novo português Joseph Gardener – podemos esperar uma ocupação territorial que nos garanta espaço nas costas (caso o jogo ao pé russo não se revelar mais acutilante do que aquilo que lhe conhecemos) para possibilitar o ataque com mais à-vontade, há que tirar todo o partido desta situação.

No jogo contra os England Students o ensaio de Aguilar mostrou o que se deve fazer para tornar a posse da bola eficaz: conquista da bola, passe para um abertura a atacar a linha de vantagem, um jogador, Fernandes, a penetrar no intervalo defensivo, Aguilar a aparecer lançado em corrida já dentro da defesa que, tendo de abrandar para tentar organizar uma cortina defensiva viu-se, com a dúvida aumentada pela presença do ponta Frederico Oliveira – sempre colocado em apoio e com linhas de passe abertas – ultrapassada em velocidade para o melhor ensaio de todos os jogos de Portugal nesta época.

A simplicidade da aplicação dos Princípios Fundamentais Avançar sempre!, apoio, velocidade e pressão garantiram o espaço necessário para evitar placagens. Se os portugueses o tiverem percebido e o repetirem hoje, a vitória pode acontecer. Perder é perder – tanto fazendo, neste caso, por muitos ou poucos; para ganhar é preciso fazer da utilização de cada bola um problema para os russos, tirando-os do seu espaço de conforto e obrigando-os a jogar em terrenos de erro. E isso só se consegue correndo riscos.
Logo veremos do que seremos capazes na transmissão directa – possível pela compensação da cedência de sinal feita no jogo da época passada – que a Sport TV realizará (Sporttv3, 12:30).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

DIREITO-BELENENSES

Fraquinho o jogo. Principalmente se tivermos em conta que se tratam de duas equipas (das quatro!) candidatas ao título. E foi tão fraco que ao intervalo o árbitro tinha apenas apitado duas penalidades para cada lado… o que, para um jogo colectivo de combate, dá logo ideia da pouca dinâmica de qualquer das duas equipas. E a ultrapassagem da Linha de Vantagem* também foi mínima – sete vezes para o Direito, duas para o Belenenses. O que demonstra uma fraquinha capacidade de utilização da bola com a consequência irremediável de despacho ao pé sem nexo.
Mas se tudo isto foi mau – para além de erros técnicos que já não são admissíveis neste nível – o que mais me desagradou foi o facto do Belenenses – clube com muito boa formação como mostram as capacidades de jogar das suas equipas mais jovens – se ter apresentado em campo com oito estrangeiros. Com excepção das exigências da primeira-linha - e no actual estádio - não me parece justificável o recurso a tantos não-nacionais num clube que se pretende formador. Confesso que percebo mal a estratégia. Mesmo que estejam jogadores nos Sevens ou lesionados. Não vejo quem possa ganhar com isso – nem o clube, nem o rugby português.

* a marcação da ultrapassagem da Linha de Vantagem é feita pela posição relativa no terreno entre duas interrupções do jogo (tipo futebol-americano). Ou seja, de nada serve – e não contará - ultrapassar a Linha de Vantagem se, quando de nova paragem de jogo, a bola se encontra atrás do ponto de onde partiu.

RUGBY NO FEMININO

A elegância do gesto

sábado, 5 de dezembro de 2009

O MELHOR ENSAIO DE SEMPRE



Hoje, 5 de Dezembro, jogam em Londres, num clássico cheio de tradições, os Barbarians e os All-Blacks. Em 1973 - há 36 anos atrás - os Barbarians fizeram o melhor ensaio de sempre - não me canso de o ver. Um praça-a-praça que começa em Phill Bennett e termina em Gareth Edwards com a participação de todo o colectivo. Vale a pena contar o número de passes, perceber como se forma o apoio, contar quantas vezes se forma o losango - esse ADN do rugby de movimento, qual o papel dos jogadores sem bola. Estas imagens são uma homenagem à interpretação dos princípios do jogo, à disponibilidade de participação e à excelência do jogo colectivo que o rugby é. Mas é também a minha homenagem a todos aqueles que conseguem exprimir o rugby de que gosto: o rugby de movimento

sábado, 7 de novembro de 2009

FINAL DA CURRIE CUP

O jogo da final da Currie Cup entre os Blue Bulls e os Cheetahs foi muito bom. Com uma dinâmica excelente, grandes momentos de combate colectivo e demonstrações de elevada técnica e táctica individuais. Mas principalmente porque aquilo que faziam os jogadores em campo traduziu sempre uma correcta aplicação de princípios básicos do jogo. Assim:

  • preocupação de só passar a bola para companheiros lançados;
  • preocupação de manter a bola viva em situações de contacto, procurando, antes de chegar ao chão, passá-la a um companheiro. E se no chão, libertando a bola de imediato e em condições de manter a sequência do movimento;
  • jogo no chão de acordo com as Leis do Jogo, fazendo muito poucas faltas;
  • o jogo ao pé nunca foi utilizado para “despachar” a bola mas sim para colocar problemas ao adversário e para conquistar terreno. Cada pontapé tinha um propósito claro e ofensivo;
  • a preocupação defensiva foi sempre a de levar o adversário ao chão – ou seja a de o placar;
  • a preocupação permanente de, ao ocupar o território adversário, só admitir a retirada com pontos na bagagem - como aliás recomendava Sun Tzu quando preconizava que um bom exército se alimenta no território inimigo.

Boa vitória do Blue Bulls que soube aproveitar todas as oportunidades que teve sem esquecer que quem tem na sua equipa um jogador do gabarito do Fourie du Preez corre sempre o risco – como diria Mário Wilson – de ganhar qualquer campeonato.

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