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sexta-feira, 1 de maio de 2020

ÉPOCA 2019/2020 TERMINADA

Tabela classificativa da Divisão de Honra à 6ª (e última) jornada disputada
A Federação Portuguesa de Rugby decidiu, à semelhança do que já havia feito para as competições femininas e escalões de formação a 10 de Abril p.p., dar por terminada a época 2019/2020 sem atribuição do título de campeão. Fez bem! Como disse já, vai para semanas, o médico responsável clínico do Comité Olímpico, dr. Gomes Pereira: "A pessoa vem em primeiro lugar, só depois o atleta".

No entanto existem dirigentes que querem que o campeonato se dispute até ao fim, argumentando que os atletas são jovens e saudáveis e podem jogar - mas, problema!, não são imunes (segundo os jornais, um jogador do Sporting, testado recente, confirmou positivo)...

De facto o grupo etário dos 20 aos 29 anos —o grupo ao qual pertencerão a maior parte dos jogadores seniores —  não tem óbitos conhecidos motivados pelo COVID-19 mas tem infectados e com os seus 2937 casos confirmados é superior ao grupo etário 70/79 — o meu — que, embora tendo óbitos como é natural dada a maior fraqueza das suas defesas, tem 2227 casos confirmados de infecções. O que significa que o grupo 20/29, não sendo um grupo de risco mortal, está, como é óbvio, sujeito à infecção e é, também, um grupo com elevado grau de transmissão do vírus. E que, se houvesse jogos, estaria em permanente contacto com outros agentes que formam o todo equipa. Portanto as pretensas auto-defesas que por aí se evocam, não têm evidência de sustentabilidade principalmente quando uma das características do vírus é o de poder ser transportado sem manifestações de sinais de infecção. Ou seja é um inimigo perigoso, sem rosto e sem localização imediatamente perceptível. Disso mesmo se terão dado conta outras federações de modalidades colectivas — Andebol, Basquetebol, Voleibol e Hóquei em Patins — que em reunião de 29 de Abril p.p decidiram "dar por terminadas as competições nacionais de seniores da época 2019/2020", não sendo atribuindo qualquer título de campeão nacional em qualquer das categorias destas modalidades.

Em França, com números no geral muito elevados mas que comparativamente não estão longe dos portugueses em casos confirmados — 2550 casos por milhão de habitantes para a França e, para Portugal,  com 2456 casos para o mesmo milhão de habitantes — havendo também quem queira recomeçar já os campeonatos, fazendo, por serem clubes profissionais e com grandes despesas mensais, enormes pressões para o seu reinício, Outros clubes, também de primeiro nível, pretendem, ao contrário, iniciar a próxima épocaapenas  em Dezembro ou Janeiro, uma vez que o grupo de médicos dos clubes do TOP 14 consideram ser, depois de uma paragem que já vai em 8 semanas e na actual situação,  necessário uma preparação mínima de 15 semanas antes de qualquer competição, podendo assim garantir o controlo necessário para não colocar em perigo a saúde dos jogadores. E se há problema da qualificação para as Taças europeias que se colocam aos clubes franceses que vêem no retorno financeiro da sua participação a possibilidade da sua saúde económica, o nosso campeonato apenas qualifica para a Taça Ibérica que não tem qualquer vantagem económica imediata. E a continuidade da participação é facilmente resolúvel. Por que não um fim‑de‑semana com quatro equipas de cada país a realizarem dois jogos cá e dois em Espanha com o objectivo de proporcionar a jogadores possíveis internacionais um nível competitivo mais elevado? Como qualificar?! Pela ordem da actual classificação, pelos melhores quatro clubes dos últimos três, cinco ou sete anos, pelos clubes com mais internacionais dos últimos três anos. Critérios não faltam E o próximo campeonato só recomeçaria depois de uma cuidada preparação, podendo até ser a época iniciada pela Taça de Portugal, num processo organizativo próximo do utilizado nas competições de Sevens,

Facto, facto é este: o rugby é um desporto colectivo de combate com grandes esforços de grande proximidade entre jogadores companheiros e adversários. Ou seja não tem, nem jogos, nem treinos compatíveis com a distância física recomendável. Portanto e para que haja treinos colectivos absolutamente necessários — não se trabalham formações, alinhamentos, recuperações de bola ou placagens? — é preciso que atinjamos um patamar muito mais favorável em termos pandémicos.

Mas o futebol vai jogar, ouve-se já com ar de crítica ao que chamam descriminação. Pois vai. E se pode, com as possibilidades financeiras que tem, garantir o controlo aparente dos jogadores coisa que, por mais que inventem, o rugby português  pura e simplesmente, não tem, já não consegue garantir, mesmo jogando à porta fechada, que a paixão e o sentimento clubista não vão ampliar as infecções e contribuir para uma dramática segunda vaga …— perguntem em Milão e em Liverpool o que aconteceu através dos adeptos do futebol... Por isso também me manifesto contra a bravura do futebol, mesmo à porta fechada, situação que não garante o afastamento dos adeptos. A transmissão televisiva se for como até hoje, vai juntar adeptos onde houver uma televisão disponível, se for de sinal aberto para evitar ajuntamentos não haverá receitas para os clubes — como se resolverá esta contraditória situação? Deixando o dinheiro comandar, não vai acabar bem...

Não! o rugby deve — como a Federação decidiu — terminar a época 2019/2020 e pensar clara e organizadamente como pode preparar e planear a nova época, proporcionando melhor qualidade de jogo, maior competitividade e preparando-se para os melhores resultados internacionais que abram caminho pretendida qualificação para o Mundial de França.

Para que não haja qualquer dúvida sobre a situação em que estamos envolvidos, transcrevo a legislação em vigor:
"Artigo 5.º da Resolução do Conselho de Ministros nº 33A/2020 Instalações e estabelecimentos encerradosSão encerradas as instalações e estabelecimentos referidos no anexo I ao presente regime e que dele faz parte integrante. 
ANEXO I(a que se refere o artigo 5.º)3—Atividades desportivas, salvo as destinadas à atividade dos praticantes desportivos profissionais e de alto rendimento, em contexto de treino: Campos de futebol, rugby e similares; Pavilhões ou recintos fechados; Pavilhões de futsal, basquetebol, andebol, voleibol, hóquei em patins e similares; Campos de tiro cobertos; Courts de ténis, padel e similares cobertos;  Pistas cobertas de patinagem, hóquei no gelo e similares; Piscinas cobertas ou descobertas; Ringues de boxe, artes marciais e similares; Circuitos permanentes cobertos de motas, automóveis e similares; Velódromos cobertos; Hipódromos e pistas similares cobertas; Pavilhões polidesportivos; Ginásios e academias; Pistas de atletismo cobertas; Estádios." 
No mesmo dia e na Resolução do Conselho de Ministros nº33-C/2020 fica claro que a partir do dia 4 de Maio e no domínio Desporto são apenas autorizados "a prática de desportos individuais ao ar livre"  e, a partir de 30/31 de Maio o Futebol na especificidade de "competições oficiais da 1ª Liga de futebol e Taça de Portugal".
Portanto tudo é claro — lembre-se que a anterior legislação produzida desde 20 de Março diziam o mesmo que esta que se cita  — o rugby não está autorizado a realizar jogos e os seus campos ou estádios estão encerrados. Ponto!

Pretender realizar proximamente os restantes jogos do final do campeonato é, para além de ilegal, uma demonstração de ignorância da situação em que nos encontramos. E o interesse não se pode sobrepor ao velho conceito camoniano de que "outro valor mais alto se alevanta": a protecção da saúde de todos nós. E o rugby, o jogo do rugby, não permite garantir a distância física de protecção, sendo portanto perigoso enquanto actividade. Se no futebol estão formalmente proibidas as "rodinhas" como se poderiam realizar formações ordenadas, alinhamentos, rucks ou placagens com o primeiro apoiante a pretender apanhar a bola criando, em todas as situações, uma proximidade de respiração praticamente em cima da cara de companheiros e adversários. Felizmente, bem andou a Federação ao dar por terminados os campeonatos.

domingo, 17 de novembro de 2019

PORTUGAL CUMPRIU


O XV de Portugal fez, de acordo com a história das duas equipas e com um resultado com a diferença de pontos que o posicionamento do ranking indica, o que lhe competia: venceu!

O maior problema do jogo foi a ignorância do amadoríssimo cameraman chileno que, não percebendo nada do jogo, nunca conseguia mostrar imagens que nos permitissem perceber o que se passava para além do (às vezes suposto) portador da bola.

Com este resultado Portugal vai apresentar-se no designado 6 Nações B — o Rugby Championship — numa posição e com pontos superiores à Bélgica — o adversário a derrotar neste retorno para garantir a permanência. O que deverá dar boas perspectivas e permitir que o tempo ajude.

Porque o que falta, para já e mais do que tudo, a esta equipa é jogo. Isto é, jogar! Jogar para que a adaptação colectiva seja mais coesa e globalmente mais rápida. E aos seus jogadores falta um campeonato mais exigente que lhes permita tornar num só momento a sequência leitura-decisão-execução. O nível internacional não se compadece com aproximações, vive de momentos que se transformados em oportunidades não podem ser desperdiçados e o domínio desta sequência sem hesitação ou demora, deve tornar-se um hábito. E isso exige experiência.

Experiência que tem um laboratório em cada jogo que se disputa ajudado por cada treino que se faz.

Devemos todos perceber que sem resultados internacionais não há desenvolvimento nem consolidação da modalidade — porque sem uma boa imagem competitiva não há patrocinadores, apoios ou a melhoria da qualidade do que nos envolve. E a construção das condições necessárias para que os jogadores possam expressar as suas capacidades num caminho de excelência — o desporto de rendimento é disso que trata — depende dos clubes e dos treinadores que escolhem para comandar as suas equipas. E tudo isto depende da capacidade de criação de um sentimento de pertença no rugby português. Que tem na preocupação pelo resultado a sua tradução.

Estes dois jogos da digressão à América Latina expuseram os jogadores e mostraram as qualidades e possibilidades de cada um — de uns mais do que outros, naturalmente. O seu futuro, para além de depender deles próprios, depende daquilo que queiramos fazer do rugby em Portugal.

E não se pode perder tempo — porque os adversários não o estão a perder. E os sonhos, sabe-se, podem morrer na distracção.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

STADE TOULOUSAIN E A NOTRE-DAME DE PARIS

O Stade Toulousain utilizará, na 1/2 final dos Campeões Europeus contra o Leinster e em homenagem ao marco gótico da cultura europeia e com objectivo de angariar fundos para a sua reconstrução, uma camisola que terá o símbolo da Notre-Dame de Paris que foi parcialmente destruída por um incêndio (ver incêndio aqui)

terça-feira, 9 de outubro de 2018

ROSA MOTA NO RUGBY

A campionissima Rosa Mota foi ao Rugby e viu, no U Arena parisiense, o jogo entre o Racing 92 e o Lyon (13-19) a contar para o TOP 14 francês. Simpática e amigavelmente lembrou-se de mim e mandou-me a fotografia comprovativa.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

EXIGE-SE PERSPECTIVA ESTRATÉGICA

Num fim-de-semana desenhado para passar o tempo com os olhos nos ecrãs ora da televisão, ora do computador, foi possível ver o rugby dos jogos da Championship Nova Zelândia-Argentina (46-24) e Austrália-África do Sul (23-18) - os jogos de Portugal no Europeu de Sevens a procurar uma classificação para o apuramento da World Series de Hong-Kong, o jogo de Portugal para o 3º lugar, Medalha de Bronze, do World Rugby U20 Trophy - Mundial B - ou a final do mesmo torneio entre Fidji e Samoa e arbitrada pelo nosso Paulo Duarte. A que se juntava ainda a chegada ciclista aos 1100 metros de Lagos de Covadonga da 15ª etapa da Vuelta 2018 ou as duas finais tenísticas do US Open e que me relembraram o tempo, num resquício dos entendimentos da aristocracia inglesa, em que, no rugby, os treinadores não podiam contactar com os jogadores ao intervalo.
O jogo mostrado pelos AllBlacks — que utilizou sete jogadores diferentes do jogo anterior —mostrou à evidência a qualidade da formação e da competição interna dos neozelandeses. Sob a formação vale a pena lembrar que o desenvolvimento da técnica individual dos brasileiros que, durante anos espantou o mundo do futebol, se fazia com base em dois pontos: liberdade e divertimento possibilitado pelos jogos de rua de equipas e campo reduzido - o hoje dito futsal. Não é assim por acaso que a primeira etapa do programa Long Term Athlete Development (LTAD em que os irlandeses substituíram o A pelo P de “player” para um LTPD, mostrando a sua preocupação pela aplicação do programa às modalidades colectivas) se designa por FUNdamental, apontando para a sua essência de divertimento contra o exagero de grelhas controladoras e imposições de cartilha.
E é essa noção de divertimento organizado com objectivos controlados e com liberdade de experiência quer na tomada de decisão quer no uso da bola a que se juntam noções tácticas individuais e colectivas – a posse da bola tem como objectivos marcar ensaios! ou a equipa está primeiro! – onde a repetição individual muito elevada dos gestos técnicos  leva à facilidade de execução e à capacidade conjunta de leitura simultânea, transformando o espaço do jogo – como se diz do futsal brasileiro – num laboratório do improviso mas aproveitado para desenvolver o culto da camisola que se pretende deixar sempre em melhor posição. Ou seja, não é o talento individual da sorte de meia-dúzia mas o sistema de formação que fazem dos AllBlacks a melhor equipa do mundo. E nós portugueses deveríamos olhar para a formação rugbística dos antípodas com outra atenção e uso. Procurando copiar-lhe o modelo e o processo.
Também com sete jogadores diferentes dos utilizados na última etapa de Exeter a equipa nacional de Sevens – agora comandada pelo experimentado antigo jogador e anterior Director de Equipa, Diogo Mateus – conseguiu a melhor classificação da época, obtendo um terceiro lugar com vitórias sobre a Inglaterra e a França mas não conseguindo ultrapassar o adversário principal Alemanha. No entanto a equipa jogou de forma muito interessante, abandonando o cómodo movimento da bola de um lado ao outro para, procurando ultrapassar a linha de vantagem como de forma a libertar o espaço exterior e conseguir vantagem numérica, atacar os intervalos da defesa adversária – alguns dos ensaios foram de grande qualidade quer pelo jogo de passes permitido pela disponibilidade do apoio em tempo, direcção e linhas de corrida, quer pela leitura eficaz dos pontos fracos da organização defensiva adversária. 

QPM - Quota de pontos marcados- Percentagem dos pontos marcados sobre a totalidade de pontos marcados e sofridos
Esta equipa de Sevens mostrou que, havendo interesse e organização capaz, é possível colocá-la de novo em posição competitiva que possa permitir o retorno à World Series e olhar para a classificação olímpica de uma forma minimamente realista.
O terceiro lugar dos U20 na versão B do Mundial da categoria etária é um excelente resultado. E melhor resultado é se consideramos o jogo conseguido na maioria do encontro contra a Namíbia. E também aqui – coisa pouco vista quer nos jogos internos, quer noutras selecções portuguesas – a equipa tinha, na sua organização atacante, a preocupação permanente de atacar a linha de vantagem, reduzindo a largura e a profundidade da linha de defesa e conseguindo os intervalos de penetração necessários para a obtenção dos 11 ensaios para um resultado final de 67-36. A coesão da equipa, demonstrada na sua capacidade defensiva, permitiu a necessária confiança ao correr de riscos que dominou o movimento atacante da bola. Interessante de ver e eficaz na construção dos resultados. 
Principalmente o que esta equipa U20 – na sequência de outras equipas de Luis Piçarra – nos vem mostrar é que temos qualidade competitiva enquanto jovens. O que significa que a distância competitiva a que, na equipa principal, nos encontramos é motivada pela má organização e competitividade internas e ainda pela despreocupação sobre a importância dos resultados internacionais. Ora estes resultados vêm exigir à comunidade rugbística portuguesa que se mostre capaz de se integrar na lógica do desporto de rendimento, sabendo separar águas e não misturando mais interesses e propósitos distintos. No Desporto os resultados contam e são base da expansão, do interesse e da notoriedade. Aquilo de que o rugby português precisa para garantir a sua afirmação internacional.
Destas duas participações portuguesas em Sevens e Quinze, uma estranheza, dado, principalmente a importância relativa das duas provas: António Aguilar tido como treinador principal da selecção portuguesa de Sevens deslocou-se com o quinze dos U20 para a Roménia, ficando a equipa de Sevens, na Polónia, entregue ao anterior Director de Equipa, Diogo Mateus. E a estranheza resulta do facto da evidente prioridade dos Sevens — modalidade olímpica e que exige, por razões de adaptação competitiva, a presença de novo de Portugal na World Series —sobre a participação dos U20 no Mundial B onde a procura de um 1º lugar que permitisse o acesso ao WR U20 Championship se mostrava naturalmente de enorme dificuldade e sem maiores consequências imediatas para o futuro do rugby português. Não estando em causa a competência de Diogo Mateus – experiente antigo internacional com 75 internacionalizações em “quinze” e diversas em “sevens” e treinador qualificado de 3° grau e com enorme experiência no mundo competitivo dos Sevens enquanto Director de Equipa da selecção portuguesa – não se percebe a inexistência de uma explicação oficial das razões da mudança. Porque as exigências e responsabilidades da competição internacional não se compadecem com decisões voluntaristas. Tão pouco a organização que se exige a uma federação desportiva.
A final do Trophy entre Fiji e Samoa – vitória dos fijianos por 58-8  – teve como árbitro o internacional português Paulo Duarte que teve uma excelente prestação. Foi exigente, sereno, atento, focado, amigável e possibilitou aos jogadores presentes o clima ideal para a sua expressão rugbística. Num importante momento da sua carreira, Paulo Duarte que faz parte do grupo de árbitros sob observação para participarem nos Sevens dos Jogos Olímpicos do Japão, marcou pontos ao não deixar, agora no Quinze, os seus créditos por mãos alheias e demonstrando a necessária confiança e capacidade que distingue um árbitro de nível internacional.

Este Trophy foi jogado com a aplicação de uma regra experimental na placagem que só permitia o contacto entre adversários abaixo da linha do peito. Das impressões que obtive o resultado não foi brilhante e não possibilitou a análise pretendida uma vez que o pouco tempo entre a decisão e a sua aplicação não terá permitido, quer a árbitros quer a jogadores ou treinadores, a adaptação necessária. E assim a tentativa de solucionar o grave problema do aumento das concussões pelo choque na zona das cabeças, ficou-se por uma enorme subjectividade de decisões sem a homogeneidade que se exige na competição desportiva.
Pode dizer-se que neste fim-de-semana o rugby português mostrou perspectivas de qualidade interessantes. Resta saber como o trataremos a partir daqui e qual a estratégia que pretendemos aplicar para garantir que o seu desenvolvimento se faz com o propósito de atingir o objectivo de resultados internacionais futuros consequentes com o melhor historial da modalidade.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

PRÉMIO PRINCESA DAS ASTÚRIAS

O Prémio Princesa das Astúrias 2017 do Desporto foi entregue aos All-Blacks.

Filipe VI na entrega do prémio:
"Têm uma paixão comum, o râguebi. Râguebi jogado de forma exemplar, não apenas para ganhar, mas também para exibir no campo as maiores virtudes do desportista completo: jogo limpo, camaradagem, solidariedade, educação, respeito.
Os All Blacks são, um exemplo de diversidade, de fusão de culturas e tradições e um incomparável exemplo, especialmente para as crianças e jovens do mundo, que devem aprender a praticar  desporto com um espírito solidário, inclusivo e fraternal. 
Hoje, destacamos essa atitude exemplar e agradecemo-la com uma admiração muito especial."
[Já foi há uns tempos mas, com as vitórias recentes, vale a pena lembrar o exemplo e o legado.]

sábado, 21 de julho de 2018

O BENEFÍCIO DO INFRACTOR VIOLA A ÉTICA DESPORTIVA

O Desporto, acima de tudo, rege-se por princípios desportivos. 
O que significa que as interpretações sobre situações, factos ou actos do seu domínio se devem fazer, para que a competição e a superação sejam balizadas por limites, de acordo com o corpo de normas que formam o Espírito Desportivo, a Ética Desportiva e a Disciplina Desportiva. O que quer dizer que a interpretação de situações, factos ou actos do Desporto e no Desporto não se fazem pelo recurso abstracto de conceitos. 
Uma das regras elementares do Desporto — aprendidas por qualquer atleta logo desde os seus primeiros contactos desportivos — diz respeito ao conceito de “não beneficiar o infractor”. Situação tão elementar que se ouve amiúde em qualquer bancada e que serve de base, por exemplo, à chamada “lei da vantagem”— tão visível no rugby que, se não houver vantagem para a equipa não infractora, o jogo retorna à falta anteriormente cometida. E sendo o jogo um corpo sistémico de estratégia baseada nas leis técnicas, tácticas e comportamentais que o suportam, as coisas têm que andar ligadas e articuladas.
Não beneficiar o infractor faz, naturalmente, parte do conjunto de normas e regras que o Desporto utiliza para se poder reivindicar dos valores que apregoa. Chegar à vitória através de infracções que não foram consideradas - e que nalguns casos se aproximam da ideia de recurso à batota - não constitui a decência que o Desporto afirma defender.
A recente decisão do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby ao ignorar — branqueando — as cenas de pancadaria colectiva no campo de jogo da Tapada entre jogadores da AEIS Agronomia e do GD Direito peca, para além de outros já anteriormente referidos, também por este facto: benefício do infractor.
Ao considerar que o jogo referido é válido e que o “vencedor” — no caso, Agronomia — tem o direito de estar presente na final do Campeonato Nacional é óbvia e evidente a presença da figura do benefício do infractor — porque, tendo violado conjuntamente regras desportivas disciplinares e não se sabendo se ganharia o jogo, é beneficiada com a decisão.
Assim sendo, existe, na decisão tomada pelo Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby, por evidente benefício do infractor, uma violação grosseira dos princípios da Ética Desportiva. 
Se a esta violação juntarmos que a ignorância propositada dos factos — branqueando as acções — que são de conhecimento público generalizado desacredita a integridade da principal competição do Rugby português, afectando, simultaneamente, a credibilidade da modalidade, teremos formatado um quadro negativo de enquadramento cujas consequências serão, com certeza, perniciosas para o Rugby português. 
A garantia de integridade das competições e a credibilidade de uma modalidade enquadrada por uma Federação com o estatuto de Utilidade Pública Desportiva são factores que devem estar na primeira linha das preocupações de qualquer intervenção oficial e que a elaboração deste referido Acordão não teve em conta. 
E ao não o fazer, não deveria valer.

terça-feira, 17 de julho de 2018

UM BRANQUEAMENTO DE VIOLAÇÕES DESPORTIVAS

Sobre os graves acontecimentos do passado 28 de Abril ocorridos no Campo da Tapada em jogo das meias-finais do principal Campeonato Nacional de Rugby, o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby, decidiu assim:
“Pelo exposto, decide o Conselho de Justiça revogar a decisão recorrida, através da qual a Federação Portuguesa de Rugby aplicou à AEIS Agronomia [e ao GD Direito] uma falta de comparência não justificada, a sanção de desclassificação do CN1 e correspondente despromoção ao último escalão competitivo sénior.Nessa medida, mais decide que deve ser homologado o resultado que se verificava no momento em que o árbitro deu por terminado o jogo que opôs a AEIS Agronomia ao GD Direito, ocorrido no passado dia 28 de abril de 2018, com todos os efeitos daí decorrentes, nomeadamente a anulação da decisão de não realização da final do CN1, bem como da decisão administrativa de conceder o título de campeão nacional da época 2017-2018 ao clube que se apurou para disputar a referida final.”
Ou seja com esta decisão e objectivamente, o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Rugby branqueou os inadmissíveis actos de pancadaria generalizada ocorridos no jogo Agronomia-Direito. Como se nada se tivesse passado. Mas, tratando-se de agressões repetidas no início e final do jogo com estaladas, pontapés e murros entre diversos jogadores de ambas as equipas que - sendo agressões repetidas no início e final do jogo com estaladas, pontapés e murros entre diversos jogadores de ambas as equipas - não foram acções de somenos e representam uma demonstração de elevado nível antidesportivo, afastando o jogo da essência dos seus princípios e que, pelo contravapor à constante referência de especiais valores, apenas resultam como descrédito do Rugby de que dizemos gostar.
Destes factos graves e inadmissíveis no campo desportivo em geral e no do rugby em particular - pela história e valores da modalidade - resultam apenas os castigos individuais - um deles anulado numa visão distorcida dos factos - a interdição do campo de ambos os clubes por seis jogos pelas cenas, posteriores ao jogo, que se desenrolaram com agressões entre adeptos dos dois clubes - numa modalidade que, não tendo receitas*, não se vê qual o prejuízo entre jogar no Jamor em vez dos interditos Tapada ou Monsanto... - para além de multas pecuniárias. No entanto a demonstração pública de repúdio pela violação grosseira da ética ficou-se numa frase perdida - "comportamento esse por si só merecedor de pública censura" - pelo meio do douto acórdão...
À semelhança do escamoteamento do péssimo e inadequado comportamento tido na Ucrânia por jogadores e técnicos integrados na selecção nacional, espera-se que o tempo, também aqui, opere o esquecimento. E assim os responsáveis pela disciplina federativa, determinam o resultado ao tempo da interrupção - com uma penalidade assinalada e não jogada - como resultado final do jogo. Nada querendo saber das implicações éticas, doutamente, determinam o vencedor da meia-final e declaram a exigência da disputa da final. Ganham os prevaricadores, usam-se os cumpridores... mas o mundo move-se.
Como consequência final disciplinar, às duas cenas de pancadaria generalizada num mesmo jogo provocadas por jogadores de equipas representantes de dois dos mais importantes clubes portugueses da modalidade e á sua gravidade ético-desportiva e cívica, foi dito nada. 
Mas há outras e evidentes consequências provocadas pela douta decisão: a primeira e óbvia é que fica garantido a quem quiser que o resultado momentâneo se transforme em resultado final, que lhe bastará fomentar uma sessão generalizada de pancadaria: o árbitro é obrigado a terminar o jogo e o resultado está estabelecido...Outra consequência é a verificação de que os valores desportivos, o espírito desportivo, a ética desportiva podem sempre e facilmente ser substituídos por atitudes violadoras dos princípios que regem a actividade desportiva porque haverá sempre interpretações normativas conceptualmente desfasadas que limparão a conspurcação das manchas. E os regulamentos que enquadram a modalidade continuarão a ser compostos em secretárias afastadas do sistema e do conhecimento desportivo... Como se nada tivesse a ver com nada.
A gestão deste quadro pelos diversos órgãos federativos, começou mal e terminou pior. O Rugby português fica mal na fotografia, mostra-se doente e perde credibilidade, escurecendo a sua transparência e diminuindo a largura dos seus caminhos de futuro. Uma tristeza... e o Rugby português, se não souber, quanto antes, arrepiar caminho, não terá caminho.

*[E.T.- para além das receitas dos bares]

terça-feira, 19 de junho de 2018

DE EQUÍVOCOS...NADA RESULTA


A derrota com a Alemanha confirmou uma evidência: o XV de Portugal não ganha jogos decisivos!
Mesmo surgindo uma sorte inesperada que foi a de aparecer como adversário a pior equipa do Championship da Rugby Europe, nada. Fomos de novo derrotados como tínhamos sido em Fevereiro de 2016, então por 50-27 e a definir a nossa descida, ou contra a Bélgica em Maio da época passada. Ou seja, contentámo-nos — sem querer perceber que jogámos sempre contra equipas de fraco nível, todas elas com posição e pontuação de ranking inferiores aos nossos—em assinalar vitórias sem qualquer significado para, deslumbrados na sem importância, nos perdermos no que realmente importa. E assim continuámos na III divisão europeia…
Uma vitória neste jogo contra a fraquíssima Alemanha — verdadeiramente não jogam algo que valha  a pena mencionar — ter-nos-ia possibilitado jogar na repescagem para o Mundial de 2019, com equipas de nível competitivo superior aos adversários que normalmente temos e que, com o jogo da fava que nos saiu para o jogo de barragem com a Roménia — o melhor ataque da Championship Rugby Europe — nos possibilitaria, nos 4 jogos, hábitos competitivos internacionais que nos poderiam ajudar a pensar seriamente na subida de grupo. Agora assim …
Não é possível deixar de pensar na absoluta incompetência que regeu a organização e preparação da selecção portuguesa. Tivemos a sorte da demagógica ideia de todos terem direito a “participar” no Campeonato do Mundo e saiu-nos uma rifa para um bota-fora num mesmo jogo que contava para o Trophy da Rugby Europe contra a República Checa acabada de chegar da IV divisão europeia… para avançarmos, graças aos erros disparatados da Roménia, Espanha e Bélgica, para um vigésimo premiado para jogar contra a pior equipa da Championship da Rugby Europe e saber quem seria o 2 da Europa. Mas tudo foi parar ao charco, naquilo que só se pode considerar como uma preparação e organização de um amadorismo confrangedor. Tão confrangedor que trazemos jogadores do estrangeiro para não jogarem ou ainda nos cremos como criativos ao alterar levianamente o código dos números dos jogadores suplentes utilizados pelo mundo fora, confundindo os pilares nos números 16 pelo 17 e 23 pelo 18… Uma equipa, para este nível competitivo, baixo mas superior ao interno habitual, não se prepara como um grupo para um encontro de um campo de férias onde basta conhecer os nomes uns dos outros. O desculpar-se com o desconhecimento da data não serve, porque não passa de mais um parâmetro na construção do plano. As questões são outras.
O segredo do sucesso dos desportos colectivos é sabido e está escrito: coesão! O que significa que os jogadores têm de demonstrar espírito de equipa activo e de poder, em jogo, “adivinhar” a leitura que o seu companheiro portador da bola fará da situação que enfrentam. E isto não se consegue por ouvir dizer, consegue-se por conhecimento: conhecimento táctico comum e conhecimento mútuo fabricados na acção com o necessário domínio das técnicas elementares.  
A Alemanha, repete-se, não tem qualidade e a sua ineficácia, excepcionando o seu chutador, é evidente - a meio do jogo perguntava-me: como é possível que uma destas duas equipas possa vir a competir até à última etapa da repescagem para o Mundial?! A selecção de Portugal também não demonstra a qualidade que gostámos de atribuir aos nossos jogadores. Por diversas razões que o jogo português demonstra todos os fins-de-semana.
Em Portugal ignora-se que o jogo exige avançar no terreno com apoio permanente para garantir a continuidade que estabelece os níveis de pressão que obriga o adversário a cometer erros ou seja, que é preciso cumprir, para garantir a eficácia, os Princípios Fundamentais do Jogo em cada movimento — por cá, como se vê na maior parte dos jogos, confunde-se um jogo de conquista com um jogo de bola. E por isso viciámo-nos a jogar para o lado. A lateralizar e não a verticalizar. E a isto juntámos ainda a comodidade de alterar a base da conquista de terreno do correr, receber e passar (run, catch, pass) para receber, correr, passar. E nem o facto do ensaio de Villax ter demonstrado que a defesa alemã não tinha forma de defender penetrações lançadas na boa sequência levou à procura da repetição. No entanto, repare-se que se Villax não tem dado o nó ao último defesa alemão, atacando o ombro interior duma linha de ombros já vista como desequilibrada, nenhum apoio teria para poder passar a bola… demonstrando o contrário de um colectivo na distracção do cada um por si.  
E assim jogámos, passando lateralmente, não atacando a linha de vantagem com jogadores lançados e, para último dos pecados, dando permanente vantagem à defesa adversária com idas para o chão que impedem a continuidade - que se faz de passes, de losangos, de uso da bola. E assim perdemos jogos que devíamos ganhar. Porque não nos preocupa ser eficazes.
Ganhar envolve mais do que os que estão num dado momento no terreno-de-jogo. Para ganhar, para ter uma equipa que faça do sucesso, embora na relatividade do nível a que tem acesso, o seu modo de vida, necessita de uma organização capaz, de hábitos competitivos de bom nível e, no fundo, no fundo, de saber para que existe. 
E começa a ser altura da comunidade do rugby português olhar para si própria, percebendo as responsabilidades de ser Utilidade Pública Desportiva e reconhecendo que a missão de uma Federação Desportiva que se estabelece na zona do rendimento é a de criar condições para que as suas equipas representativas possam competir internacionalmente. Conseguindo resultados que lhe permitam ganhar atractividade, respeito e patrocinadores.  

sábado, 28 de abril de 2018

TANTO TRABALHO PARA NADA!

Uma vergonha! Duas equipas recheadas de jogadores internacionais começaram e acabaram o jogo das meias-finais do Campeonato Nacional 2017/2018 da divisão principal da modalidade da mesma forma: numa algazarra de pancadaria colectiva.
Costuma dizer-se que o que começa mal, tarde ou nunca se endireita. O rugby português começou, ultimamente mal e tende a não se endireitar mais. E de nada vale dizer que se faz isto ou aquilo que se lança este ou aquele programa que irá desenvolver a modalidade e o seu futuro no que - na realidade - não passa de cortina de fumo feita areia para os olhos que só engana quem se quer deixar enganar. Se o nível superior da modalidade - o mais importante e o mais visível - não funciona - joga-se pouco e comporta-se mal numa doce, pretensiosa e, muitas vezes, propagandística aparência de importância desportiva - nada funciona! O topo da modalidade é o espelho da sua realidade, o resto vem por acréscimo. E como resultado dos factos, o rugby português vai de mal a pior!
Interrompeu-se a sequência do campeonato - a última jornada da fase regular realizou-se em 17 de Março p.p. - para um intervalo sem nexo disfarçado nas culpas de outros. O pouco ritmo foi-se, as cabeças desfocaram-se dos aspectos técnicos e tácticos e o jogo colocou-se no patamar do passatempo, incapaz de se adequar à natural pressão de jogos de bota-fora. E assim, perdidos no rumo e sem nexo sequencial, os actores - que deveriam ser os primeiros interessados na boa imagem da sua presença - não encontraram melhor solução do que pegarem-se à porrada. Porrada pegada entre eles dentro do campo e porrada pegada entre espectadores, fora do campo. Violência gratuita e inadmissível de um lado e outro das linhas. Violência que não é compatível quer com o sentimento de pertença quer com a ética desportiva.
E agora a pergunta que se impõe: alguém vai exigir responsabilidades pela degradação da imagem da modalidade ou - como de outras vezes - os responsáveis pelas modalidades e pelos clubes vão varrer tudo para debaixo do tapete da indiferença? Com a vergonhosa desculpa que, não se sabendo, também não haverá a perturbação das consequências.
Uma vergonha para continuar vergonhosa?
E, para espanto dos espantos, o jogo não teve árbitro oficial a dirigi-lo - teve um voluntário que, aliás, fez o que pode naquele mar de desajudas dos actores - teve assistentes não treinados para a função e não teve outro remédio que não fosse - numa acertadíssima decisão - acabar com o jogo para impedir a continuação do malhanço.

O que se passou neste jogo das meias-finais do principal campeonato da modalidade não é mais do que o reflexo da desorganização, indisciplina e desconhecimento que o rugby português demonstra. Não querendo perceber o sistema que a irresponsabilidade criou, não faltarão acusações desculpabilizadoras. Que aliás, de nada valerão. Porque é o sistema que tem de ser mudado com base no reconhecimento que o Desporto se rege por Princípios - e o Rugby por Valores - e que neste campo não pode haver qualquer tipo de cedências.

Se queremos transformar alguma coisa, reaproximando-nos dos valores significantes do espírito desportivo e do carácter da modalidade, se queremos que aquilo a que chamámos Rugby seja mais do que Rugby e seja realmente o nosso jogo, envolvendo uma comunidade que, valorizada pelo espírito desportivo, tenha os comportamentos éticos adequados a uma competição desportiva que se pretende - embora dura - leal, íntegra, solidária, disciplinada, comprometida e que envolva o respeito por uns e outros, devemos alterar o actual sistema. Quanto antes!
O jogo não valeu nada - uma equipa passou duas vezes a Linha de Vantagem, a outra nem isso. E o resultado traduziu aquilo que se conhece da fase regular da duas equipas: uma equipa a fazer faltas atrás das outras, a outra equipa, incapaz de bater as defesas adversárias, a construir o resultado, como habitualmente, na transformação de penalidades.
O jogo de hoje - uma meia-final do campeonato principal da modalidade, repete-se - ao violar os valores com que gostámos de encher a boca, demonstra o estado real a que chegou a modalidade. 
Uma vergonha! e apenas uma enorme tristeza traduz o que me vai no espírito: tanto trabalho para nada! 
Tanto trabalho de tanta gente durante muito tempo deitado fora numa leviandade que ignora regras, comportamentos e responsabilidades. A realidade é esta: o nosso jogo está nas ruas da amargura!

quarta-feira, 21 de março de 2018

O QUE PARECE, MUITAS VEZES, É

Já tenho idade e experiência desportiva-rugbística suficiente para saber que o rugby não corresponde - por muito que pudéssemos gostar que assim fosse - ao retrato conceptual do reverendo W.J. Carey e que deu o mote aos Barbarians RFC: "O Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas não para maus desportistas seja qual for a sua origem." E também gostaria que, na melhor tradição da modalidade, fosse aceite por todos os jogadores e treinadores a regra fundamental de respeito pelo árbitro e pelas suas decisões. Como escreve o jornalista Spiro Zavos "a integridade do jogo de rugby está no entendimento que o árbitro é o juiz final dos factos em qualquer jogo de rugby".

Dito isto, direi que o comportamento dos jogadores espanhóis no final do Bélgica-Espanha de domingo passado foi um vergonha, sendo desonroso para uma modalidade que se quer diferente do que assistimos noutras modalidades (principalmente no futebol e na sua envolvente) e não pode ser permitido. Não há desculpas!

Por pior que o árbitro tenha sido - e foi mau e prejudicial - os jogadores não têm qualquer direito a terem aquele destemperado comportamento. Não há desculpas!

Mas também - o que não quer dizer que os incorrectos comportamentos dos jogadores espanhóis possam ser absolvidos - não há desculpas para a demonstração de amadorismo incipiente da Rugby Europe e seus mandantes.

Na minha experiência internacional já assisti e já me vi envolvido em diversas situações que atiraram os princípios e valores desportivos para a sargeta. Tive que enfrentar situações, antes, durante ou depois de jogos que violaram as regras elementares do que defendemos como espírito desportivo e que gostámos de integrar no rugby como único e específico. Infelizmente as coisas são o que são e tapar os olhos com a peneira para fazer de conta que somos diferentes é um erro sistemático e que nos faz cair nos buracos armadilhados que, com medo de um "isto afinal é tudo o mesmo", são embrulhados no celofane de casuais acidentes.

A decisão da Rugby Europe de manter a nomeação de uma equipa de arbitragem romena para um jogo que se sabia decisivo desde 16 de Fevereiro último - nomeadamente para a Roménia - é um disparate sem dimensão e corresponde a uma atitude eticamente deplorável que atinge mesmo o nível do escândalo! Porque é uma situação que levanta as maiores suspeitas. Porquê? porque a equipa de arbitragem é romena, o presidente da Rugby Europe, Octavian Morariu, é romeno e a equipa que dependia do resultado é romena. Ou seja, tudo areia do mesmo saco. E como para ser sério não basta sê-lo, sendo preciso parecê-lo, o chefe dos árbitros europeus, Patrick Robin, em vez da leviandade (bastante habitual, diga-se) com que encarou o assunto deveria, de imediato, ter procedido à mudança. Não tendo procedido à sua substituição e colocando a resolução na dependência da sua vontade, aumentou o nível das suspeitas. Ou seja, como propositado não se conseguiria melhor.

Já assisti, quer no rugby quer noutras modalidades, a diversas arbitragens habilidosas para saber reconhecer o encaminhamento. E a arbitragem dos romenos no Bélgica-Espanha foi tendenciosa e, nitidamente - o que, repete-se não valida o comportamento final espanhol - favorecedora da Bélgica. Favorecendo assim a Roménia.

Resultados desta situação vergonhosa? Duvido que sejam palpáveis mas, no mínimo, deveriam traduzir-se no afastamento da arbitragem internacional dos romenos Iordarchecu, Petrescu e Ionescu e também no definitivo afastamento dos responsáveis pela sua nomeação bem como do ou dos responsáveis por terem ignorado o pedido espanhol de substituição da equipa de arbitragem.

E no meio disto como fica o Presidente Morariu? Mal! Só lhe valendo, para garantir a continuidade, alguns fretes e a demagogia das medidas que, ignorando as regras desportivas dos patamares competitivos que permitem a existência do equilíbrio da competição, estabelecem a "participação" como valor, permitindo que equipas de mais baixo nível e em "salto de cavalo" disputem  apuramentos imaginários para o Mundial como acontece com Portugal que, da 3ª divisão, faz o "difícil" jogo com a "melhor da 4ª divisão", a República Checa e trepa três melhores qualificados para entrar na disputa dos apuramentos seguintes. Simpatias que as federações europeias parecem gostar e admitir como boas práticas. E assim se conquistam aliados e se cobrem os erros e a falta de decisões adequadas.

O que se passou em Bruxelas - que teve repercussão mundial - mostra que muita coisa vai mal na administração da modalidade e que, para colmatar enquanto possível, mudar é absolutamente necessário.

Exige-se mudança e a responsabilidade está do lado das federações europeias. Que se mude quanto antes.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PERGUNTA

Hoje em dia qualquer pessoa interessada tem acesso a estatísticas de dezenas de jogos de rugby espalhados pelo mundo, a dados sobre idade, altura e peso de centenas ou milhares de jogadores. São dados públicos que têm a vantagem da comparação. Da aproximação. Do conhecimento. De tornar mais interessante ao adepto o interesse pelo jogo.
Em Portugal, dos jogos dos nossos campeonatos, não há estatísticas que se conheçam e, por isso, nada sabemos da efectiva qualidade do jogo que praticamos. Tão pouco as dos jogos de nível internacional que, comparando-nos, nos podiam fazer reflectir sobre os caminhos do nosso desenvolvimento técnico-táctico.
Como podemos saber quão certeiro é aquele pontapeador, quão preciso é o lançador ou qual a capacidade do saltador? Como podemos ser mais precisos na imagem que temos dos jogadores e das equipas?
E não há porquê? Porque não se preocupa a Federação em fornecer esses dados? Porque, pacoviamente, achamos que publicá-los significa dar dados ao adversário - o acesso ao vídeo, cada vez mais público e internacionalmente assegurado, terminou com a clandestinidade e garantiu o conhecimento alargado - ou porque não percebemos as vantagens que o seu conhecimento permitirá para a aproximação entre adeptos e as capacidades das suas equipas? Ou, pura e simplesmente, para que se possa falar de Rugby com uma outra dimensão?
Sem um sistema de estatísticas público e acessível, nada saberemos do nosso Rugby e das suas capacidades, ficando-nos por uma mero entretém... e muito longe do rendimento que define o nível de um desporto federado.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

USO ABUSIVO DOS BARBARIANS


O Barbarian Football Club, clube de convites cuja única exigência consiste na qualidade do jogador e do seu comportamento, nasceu em 1890 e tem como lema o conceito do Reverendo W.J.Carvey que jogou pelo clube em 1896: o rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas não para maus desportistas seja qual for a sua origem. Em 1979, procurando imitar o conceito britânico,  nasceu o Barbarian Rugby Clube - os French Barbarians - que teve em Jean-Pierre Rives um dos seus fundadores que definiu a sua essência como uma filosofia, um espírito. Espírito de liberdade e de fraternidade que se traduz numa maneira de ser e de se comportar. Ataque e risco são os seus princípios do jogo e os jogadores que pode convidar estão circunscritos ao Top 14 francês e, como os originais Baa-baas, mantém a tradição do uso das meias do clube de cada jogador como equipamento oficial.


No início desta época a direcção da Federação Francesa de Rugby, comandada pelo sr. Laporte,. decidiu definir a equipa dos Barbarians Franceses como a 2º equipa federativa. O que e de acordo com a definição da World Rugby significa que qualquer jogador que faça uma jogo oficial pelos Barbarian Franceses ficará vinculado, em termos internacionais, à Federação Francesa de Rugby. Ou seja: não poderá representar outro país em termos de competições internacionais.

Ora esta posição, violando os princípios que nortearam o nascimento destes clubes de convites - parece ser um truque - reles, aliás! - para "prender" jogadores estrangeiros que jogam em França uma vez que - e bem! - a Federação francesa decidiu - à semelhança da lei existente em Portugal - que a presença nas selecções francesas só seria possível para cidadãos franceses, não se aplicando portanto a lei da federação internacional dos 36 meses de residência.

Assim, na versão francesa e pelo sim pelo não, "convida-se" um jogador para os Barbarians Franceses e garante-se que o seu futuro fica, desde logo, controlado pela estrutura federativa francesa. O que se traduzirá num evidente prejuízo para os países que vêem na colocação dos seus jogadores no campeonato profissional francês uma vantagem para o seu desenvolvimento competitivo internacional. E, no fundo, o interesse sobrepõe-se aos valores!

O antigo internacional francês e adepto incondicional do espírito Barbarian, Jean-Pierre Rives, veio a terreiro denunciar a quebra dos valores do clube pela federação francesa neste utilitário recurso de "selecção B". Veremos o que dirá a "casa-mãe" britânica por esta abusiva utilização de um nome que tem um significado muito próprio no mundo do rugby internacional.

A não ser que se junte ao formal "o que parece, é" a interesseira postura trumpiana dos factos alternativos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

PITÕES E RELVA ARTIFICIAL








Jogo da 9ª jornada, último sábado, do TOP14 francês entre o Oyonnax - USO - e o Castre no campo de relva artificial do Estádio de Charles-Mathon.
Os uso de pitões de alumínio é evidente...

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

PROIBIR PITÕES DE ALUMÍNIO?!

Os famigerados pitões de alumínio que dão cabo da relva artificial. Será?!
A Federação Portuguesa de Rugby enviou para os clubes - julgo que para todos, mas não confirmei - uma determinação a proibir o uso de pitões de alumínio em campos de relva artificial, demonstrando um óbvio abuso de poder numa manifestação de absoluta ignorância. Porque a Federação não tem conhecimentos técnicos para determinar sobre o assunto e a sua capacidade de homologação exige respeito pelas exigências normativas!

Qual é o problema do uso de pitões de alumínio sobre relva artificial? Nenhum desde que cumpram o Regulamento 12 da World Rugby, responde (a meu pedido) o Director Comercial das SIS Pitches, empresa fabricante e instaladora, por exemplo do anterior e actual campo do Saracens Football Club - clube inglês de rugby de alto nível competitivo que joga no Allianza Park. Em 2010 quando se preparava para colocar o primeiro 3G do rugby inglês, dizia o seu presidente Nigel Wray: "A relva artificial pode muito bem ser o futuro do rugby. Foi aprovada pela IRB e pela RFU e as últimas evidências sugerem que permitirá um jogo mais rápido, mais seguro e mais divertido." E não consta que tenham proibido os pitões de alumínio... mas sabe-se que, desde 2015, foram duas vezes campeões ingleses e duas vezes campeões da Europa.

Também não consta que o francês US Oyonnax - 1º clube francês a montar, em 2015, um campo de relva artificial, tenha proclamado qualquer proibição. E também não consta que todos os outros campos de relva artificial onde se joga rugby tenham a proibição dos pitões de alumínio. Proibição que demonstra, para além de outras coisas, ignorância desportiva. Se não, vejamos.

As Leis do Jogo de Rugby autorizam que o jogo se realize em relva artificial desde que esta cumpra o Regulamento 22 do World Rugby (alínea b) da Lei 1.1). Compete à FPR a homologação dos campos (artigo 43º do Regulamento Geral de Competições 2017/2018) uma vez respeitado o já referido Regulamento da World Rugby ou respeitando requisitos e condições definidos pela FPR. Definições que se encontram no Regulamento de Homologação de Campos e que dizem respeito às dimensões do terreno-de-jogo e à sua orientação mas nada estabelecem sobre a tipologia de piso.

Ou seja: o rugby português pode ser disputado em campos de relva artificial que cumpram o Regulamento 22 da World Rugby. Como aliás qualquer jogo de rugby em qualquer parte do mundo. E é esse constrangimento que a FPR deve assegurar na sua homologação, garantindo campos adequados ao jogo de rugby.
O pitão regulamentar de acordo com a Rugby World 

Definida a única restrição, passemos aos pitões e ao Regulamento 12 que os define na sua formatação (não fala em materiais): um diâmetro de contacto mínimo de 10mm para uma altura máxima de 21 mm. Ou seja: por um lado um limite de altura que permita a tracção e a estabilidade em condições adequadas à modalidade e, por outro, o diâmetro mínimo que garanta a segurança do contacto impedindo perfurações.

E cumpre-se assim a regra evidente: o que não fere a pele humana também não perfura a tela ou corta filamentos da relva artificial.

Lembre-se ainda que compete aos árbitros - por óbvias razões de segurança - verificar, como estabelece a Lei 4.5 - o estado dos pitões das botas, garantindo assim que tudo está em conformidade com as Leis do Jogo.

Com a facilidade de obter pitões de 15, 18 e 21mm enroscáveis e em alumínio, os jogadores podem escolher a dimensão que, para um dado campo, pode tornar a relação atleta/piso mais confortável. Limitando-se portanto a jogos de pitões e à sua troca eventual e não tendo que utilizar dois pares de botas.

Com uma altura máxima de 21mm e quando comparada com as botas normalmente utilizadas pelo futebol - a FIFA tinha, antes do aparecimento das "laminas", um limite de altura de 13mm - verifica-se que os 8 mm de diferença marcam a distância das necessidades de movimentos entre as duas modalidades. No Rugby há necessidade, para além dos equilibrados e transmissões de esforço da corrida, de garantir a tracção no empurrar das formações ordenadas ou espontâneas, nos mauls ou placagens. Ou seja, a necessidade de "estabelecer presa" de uma é muito maior do que da outra.

Estas diferenças não podem ser reduzidas à igualdade por mero capricho. O uso de pitões de borracha ou de solas moldadas não produz a aderência necessária que o jogador necessita nos seus movimentos individuais ou colectivos. O que significa uma maior tendência a lesões, uma maior insegurança. Ou então um afrouxamento das técnicas adequadas com as péssimas consequências daí resultantes. O que significa que os primeiras-linhas ou estabelecem um pacto de não-agressão ou aumentarão os riscos de colapso com o consequentes aumento do risco de lesões graves. Tudo porque alguém decidiu proibir esse enorme papão dos pitões de alumínio...

Porque surge então esta moda proibitiva? Porque, num país de domínio futebolístico tudo se mede pelos ditames do futebol - a menor altura habitual dos seus pitões terá levado a cortes poupadores com uso de combinações desajustadas dos materiais que compõem o tapete artificial e como também pouco se usam pitões de alumínio, meteu-se tudo no mesmo saco e disfarçamos o mau resultado técnico acusando a vontade devoradora do alumínio. Cheguei a ler, de um ilustrado fornecedor, a justificação do ano que, sensibilizado, transcrevo: não se pode utilizar pitões de alumínio porque, sendo de enroscar e podendo estar mal enroscados, pode prender alguma fibra e causar a queda do atleta ...  E foi na facilidade desta armadilha que caiu a Federação - sem nenhuma vantagem para o Rugby, para o jogo ou para os jogadores. Pelo contrário!
Estes malandros a dar cabo de um relvado artificial...que irresponsabilidade...
que mania esta de empurrarem e de precisarem de agarrar os pés ao chão... 
Há uns anos (2012) e a pedido da direcção da FPR da altura, elaborei um parecer DO USO DE PITÕES DE ALUMÍNIO EM RELVA ARTIFICIAL, que concluía assim:
  1. Não há prova conhecida, nem científica, nem empírica, que os pitões de alumínio [se de acordo com o Regulamento 12 da WR] deteriorem um campo de relva artificial mais do que quaisquer outros. A questão está na adequação às regras definidas e à necessária fiscalização que competirá aos próprios jogadores, treinadores, dirigentes e árbitros.
  2. A homologação de um campo para uma prática desportiva implica resposta material adequada às exigências do desporto que pretende servir. A prioridade pertence ao desporto e são os materiais que devem adequar-se e adaptar-se às características do jogo. Não o contrário.
  3. Assim a proibição de uso de pitões de alumínio não faz qualquer sentido, porque:
    • a sua considerada capacidade de deterioração da superfície de relva artificial não passa de um mito urbano idêntico aliás às apontadas ao comportamento da superfície em relação aos campos de relva natural;
    • as características técnicas do rugby - e lembra-se que a superfície deve estar suficientemente húmida para garantir quer o abaixamento da temperatura, quer a menor abrasividade - exigem que os seus jogadores consigam a "presa" - com capacidade equilibrada de tracção e estabilidade - necessária nos seus apoios para a expressão das suas capacidades. O recurso a botas com solas e pitões que entendem melhor se adequarem às suas capacidades ou estilo é um direito que não pode ser posto em causa;
    • colocaria nos relvados artificiais mais um anátema de desconforto sem qualquer sentido e prejudicial às vantagens económicas da sua utilização - os jogadores das equipas não residentes em campos de relva artificial teriam, por exemplo, de se municiar de "outras" botas; 
    • as referências a cumprir têm como limite e norma o que se encontra estabelecido nas Leis do Jogo, Regulamentos e outros documentos emanados das autoridades que têm competências para o efeito. 
terminando a RECOMENDAR
  1. aos clubes e seus dirigentes:
    • Que não aceitem contratos de termos de garantia com imposições que não estejam de acordo com as normas técnico-desportivas.
  2. aos clubes, dirigentes, treinadores, jogadores e familiares:
    • Que sendo o campo em relva artificial uma nova instalação com características particulares e diferenciadas dos campos de relva natural são exigíveis novos comportamentos - uma nova cultura de utilização - de que são exemplo:
      • a utilização das botas destinadas aos jogos apenas nas áreas de pavimento adequado e adjacentes ao campo com o objectivo de não deteriorar pitões e solas;
      • colocação de revestimento adequado nos percursos balneários/campo e zona de suplentes.
  3. aos treinadores e árbitros
    • Sensibilização dos treinadores para as vantagens de controlo do uso das botas e para - à semelhança do conseguido nos pavilhões - a sua exclusiva utilização no terreno de jogo e áreas demarcadas, tendo como objectivo a sua prolongada adequação à Lei 4.3. 
    • Sensibilização dos árbitros para a absoluta necessidade de cumprimento das Leis 4.3 e 4.5 com o objectivo de garantir a integridade física de jogadores e defender a qualidade do campo de relva artificial.
Apesar do Parecer continuar nos arquivos federativos foi ignorado e nem sequer serviu para levantar uma dúvidazinha aos magníficos decisores. E a única diferença existente de então para cá diz respeito à significativa melhoria das técnicas de fabrico, montagem e instalação - a relva artificial actual está melhor do que era - e a imposição da proibição é, portanto, um disparate - porque se os campos não aguentam o desgaste eventualmente provocado pelos pitões de alumínio que garantem a segurança da absolutamente necessária tracção e estabilidade, então não servem para suportar jogos de Rugby e não devem estar homologados uma vez que a segurança da integridade física dos jogadores é uma responsabilidade prioritária.

Pois é: o pensar para decidir anda pelas ruas da amargura...

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FEDERAÇÃO vs. SPORT CLUB DO PORTO

Como muitos dos membros da comunidade rugbística portuguesa também eu tive acesso aos mails trocados entre o Sport Clube do Porto e a Federação Portuguesa de Rugby.
Do lado do Sport pude ler sobre a sua indignada exigência por não ter sido consultado em questões desportivas que lhe diriam directamente respeito e, como resposta e do lado da Federação, um documento indigno de uma instituição de utilidade pública desportiva. De facto, não respondendo a nada a Federação fez - mesmo que a responsabilidade directa seja do seu Presidente - aquilo que não deve: responder com comentários insidiosos e desadequados, fazendo passar por razão dixotes mascarados de palavras de libra.
O Sport Clube do Porto nasceu em 1904, tem 32 modalidades activas com 4.531 atletas e 8.267 associados, com 2 atletas olímpicas (Londres 2012, Zoe Lima; Rio de Janeiro 2016, Filipa Martins na Ginástica) e 3 internacionais da equipa feminina de Rugby de Sevens de Portugal- Daniela Correia, Catarina Ribeiro, Elsa Santos - para além de ter sido um dos clubes iniciadores do Rugby na cidade do Porto - foi campeão do Porto em 1931. É, portanto, um clube com uma longa história de serviços distintos prestados ao Desporto - dos diversos galardões é um dos poucos clubes a quem foi atribuído o Troféu Olímpico.
O Sport Club do Porto  foi o meu primeiro clube desportivo - miúdo ainda ia aos jogos de Andebol de 11, no campo da Bela Vista, ver o meu pai jogar com a companhia - íamos no mesmo carro - do Bé Costa Pereira, antigo jogador de Rugby do CDUP, que também ia ver o seu pai (o notável Zé Manel) jogar. Sou Padrinho, convidado pelo Nuno Gramaxo, do Rugby do Sport Club do Porto e tenho, naturalmente, uma muito particular estima pelo clube.
Ao ler a resposta federativa fiquei - para além de muito mal impressionado com o desnorte - profundamente chocado e sentido: uma Federação não trata - não pode tratar - desta forma desabrida e mal educada um clube que é seu filiado…

 … porque não são termos nem processos que, na obrigação de valorizar o Desporto, se usem!   

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BATALHA DE FAZ DE CONTA


Composição de Nicholas Bishop
O analista e consultor - trabalhou com Graham Henry, Mike Ruddock e Stuart Lancaster - Nicholas Bishop fez as montagens necessárias para demonstrar a inexistência - como também considero - de toque-para-diante ou adiantado de Liam Williams e que terá motivado a decisão precipitada de Romain Poite. E precipitada porquê? porque se fiou nas aparências e não se preocupou com a análise da trajectória da bola - único ponto, fora dos relacionados com jogo desleal ou violento (Lei 10), que importa focar antes de qualquer outro em situações idênticas.
Pode aliás perguntar-se onde estaria Jérôme Garcés, o árbitro-auxiliar? Deixando-se ficar junto à linha de meio-campo o também árbitro internacional francês cometeu um erro de palmatória e não pode sequer elucidar o seu chefe de equipa da inexistência de qualquer falta dos Lions (em princípio estaria na linha da salto dos dois jogadores).
Curiosamente o posicionamento de ambos os juízes estava errado neste pontapé de recomeço: Poite do lado do pé do chutador, Garcés no meio-campo. O primeiro, avançando pode impedir a utilização da totalidade do ângulo de pontapé e, tendo por isso, que ter uma maior atenção à bola, não verá o que se passa nas suas costas - e não viu, no que parece um fora-de-jogo - a relação entre a ultrapassagem da linha de meio-campo de Kieran Read e da bola. Na linha de meio-campo e com todo o campo de visão liberto, Garcés deixou seguir. Passemos á frente: por mais que pareça, Read não terá arrancado em falta.
Bastante adiantado em relação aos companheiros (primeira figura), Read salta para a  bola com um braço estendido e colide com Sam Williams que, também no ar, tentava captar a bola. Ken Owens, o número 16 dos Lions, está mais próximo da linha de ensaio adversária do que o defesa seu companheiro e portanto em fora-de-jogo e que corre na direcção do seu campo para se colocar em jogo. Situação que não é penalizável até que, nessa posição, interfira no jogo.
Repare-se na primeira figura: Williams está a saltar no prolongamento da letra "L" da palavra Life - onde a bola lhe ressaltou - e o seu companheiro Owen, continuando a correr em direcção à sua área-de-ensaio, está na zona do "f".
Depois da bola ter ressaltado Williams, Owens (segunda figura) apanha a bola entre a zona "r" e "d" da palavra Standard - ou seja, a bola ressaltou de Williams para trás, em direcção à sua área-de-ensaio, e, portanto, não houve qualquer adiantado ou toque-para diante.
Williams (terceira figura) atinge o chão, empurrado por Read, no prolongamento do início da letra "n" e Owen, que já havia - com ar assustado - largado a bola, continua "à frente" de Williams. Porque Williams, já sem bola, recuou no terreno da letra "L" à letra "n"...
A bola rolou e foi apanhada pelo centro neozelandês, Lienert-Brown, que ficou numa excelente posição de vantagem. O árbitro apitou!
Partindo do princípio que Read não fez falta sobre Williams - o que é duvidoso, mas a má posição de Garcés a nada ajudou - não há qualquer falta sequente - tão pouco fora-de-jogo acidental e o jogo deveria prosseguir.
Então porque houve a precipitação de Poite e toda a trapalhada que se lhe seguiu?
Fundamentalmente penso que por cansaço - falta de oxigénio suficiente a arejar o cérebro uma vez que o jogo teve uma intensidade muito superior àquela que os árbitros franceses estão habituados.
E agora? Agora nada ! - embora se espere que a Rugby World clarifique estas regras que já haviam sido motivo de reparo quando do caso Joubert no Austrália-Escócia do Mundial de 2015.
O mais impressionante de toda esta situação, a 2 minutos do final do jogo, foi que, terminado, todos os envolvidos justificaram o meu "agora nada!" e tiveram um comportamento exemplar. Kieran Read, capitão neozelandês, declarou que "não foi por o árbitro não ter marcado falta que perdemos" - curiosa expressão; Steve Hansen, o treinador principal dos All-Blacks lembrou que "nós devemos apoiar os árbitros e não criar-lhes situações de aperto". 
Ninguém gosta de ficar com a sensação de que deixou escapar a vitória por entre os dedos e todos os que falaram no pós-jogo lembraram que prefeririam a vitória. Apenas isso, sem acusações ou azedumes. Numa demonstração de desportivismo exemplar para quem tinha passado 80 minutos a lutar, uns contra os outros, com quanta força e energia tinha. Razão tinha o Rt Reverendo W. J. Casey quando em 1894 estabeleceu: o Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas nunca para maus desportistas, sejam de que classe forem
Tendo sido um formidável jogo de rugby foi também uma enorme demonstração dos valores da competição desportiva. Um exemplo!
Final do 3º teste - o jogo é uma batalha de faz-de-conta!
  

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