quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

JOGADOR PORTUGUÊS DO ANO

O português Julien Bardy foi considerado pelo Midol uma das revelações do início da época 2011/2012. Já recuperado de uma lesão que se pensou mais prolongada, Bardy será um dos internacionais com que Portugal conta para a próxima época internacional.

sábado, 24 de dezembro de 2011

NATAL 2011






domingo, 4 de dezembro de 2011

MOMENTOS INESQUECÍVEIS




A capa da última revista Exame trazia o médico dentista Paulo Maló e
relacionava-o com o tema "A ANGÚSTIA DE GERIR EM CRISE" - lá dentro outros dois amigos, António Afonso Cardoso Pinto e Artur Santos Silva e ainda o algesino António Câmara. Mas, para este caso, o importante é o Maló.

O Paulo Maló foi jogador de rugby da Académica e foi internacional. Numa das vezes em que fui treinador-seleccionador do XV principal de Portugal pude contar com ele - julgo que as suas internacionalizações foram todas da minha responsabilidade - e foi sempre uma mais-valia para a equipa: era um ponta rápido, poderoso e fazia muitas vezes a diferença sobre as defesas adversárias. Um dia - 13 de Abril de 1986, em Jesi - jogamos contra a Itália. E fomos com pretensões de vitória.

Muito próximo do final do jogo, dois ou três minutos, perdíamos por 26-24. Conseguimos colocar-nos dentro do meio-campo deles e muito próximo da linha de 22. Aprendido do basquetebol tínhamos, como eles, uma "jogada combinada" bem treinada e só para ocasiões desta natureza: resultado próximo e sobre o final do jogo. A jogada envolvia o ponto forte Maló que, depois dos iscos atirados à defesa, receberia a bola sobre o intervalo criado e só tinha que, lançado, correr para a linha de ensaio, evitando a pior das hipóteses de um último defensor.

Bola a circular, tudo a correr bem, auto-estrada aberta, Maló lançado no tempo exacto, bola passada e agarrada e, no banco, a vitória estava garantida. Maló isolado, colocou a bola no chão a seguir ao risco: ensaio! Mas não ouvimos o apito nem vimos o gesto do árbitro...

O ponta Maló fez tudo bem feito, viu um risco e colocou a bola no chão - só que o risco era da pequena área do futebol e estava um metro antes da linha de ensaio. Fosse pelo que fosse Maló confundiu as linhas... E os italianos ganharam o jogo por dois pontos. Vidas!...

terça-feira, 29 de novembro de 2011

COISAS QUE LIGAM COISAS


Fonte: Ranking IRB
Portugal foi a equipa - entre os nossos adversários próximos - que mais lugares perdeu no pós-Mundial.

Fonte: IRB
 Portugal, ao contrário do que o mito da regra impõe, tem companhia na relação entre o número de jogadores totais federados e o número de jogadores seniores masculinos. Ou seja: não andamos longe de outros adversários e as razões do nosso posicionamento não estarão aqui.

Fonte: jornais portugueses
À nona jornada do Nacional da I Divisão a diferença entre os quatro primeiros e os quatro últimos começa a justificar as cada vez maiores dúvidas sobre a competitividade interna - criando preocupações para a próxima época internacional. Como iremos ultrapassar o gap entre os hábitos competitivos internos e as necessidades internacionais?


"Possui a nossa estratégia, juntamente com os recursos e capacidades que a suportam, uma razoável hipótese de sucesso?. Estamos apenas a jogar o jogo pelo jogo ou temos aquilo que é preciso para ganhar?"
The Right to Win, Cesare Mainardi e Art Kleiner

Em que estratégia vamos - se é que queremos - assentar para criar hipóteses de vitória: na crença da armada estrangeira? e internamente resistiremos? e faremos futuro sem readaptações da formação à modernidade do jogo?

Os tempos de pensar e de agir podem ser quase simultâneos - desde que, ao contrário da maravilhosa Alice, se saiba para onde se quer ir. Construindo o caminho adequado.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

LIÇÃO DE VIDA



"Os seres humanos, quando o eu se transforma em nós e trabalham em equipa, quando há um objectivo comum que a todos recompensa de igual forma, são capazes de suportar coisas à partida insuportáveis e de fazer coisas incríveis."

"O medo paralisa. O medo é para atravessar. É para ter coragem para atravessar. O medo prende-te. O que interessa é a acção, é a única coisa que produz resultados. Por isso se diz que de boas intenções está o inferno cheio. Mas não de acções, apenas de intenções. Os animais quando têm medo fazem duas coisas: atacam ou fogem. O homem inventou uma terceira reacção que não é natural, é apenas mental: ficar quieto."

Gustavo Zerbino
presidente da União Uruguaia de Rugby
jogador dos Old Christians e um dos
sobreviventes do desastre de aviação
nos Andes em 1972
(in A Bola)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

ESCOLINHA DA GALIZA

Ontem estive no jantar em favor da Escolinha de Rugby da Galiza. Para além da recolha de fundos a que se destinava - e deve ter havido resultados aceitáveis pela solidariedade evidenciada - devem ser relevados dois aspectos que tornaram a cor da festa mais viva: o compromisso do Presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, da construção de um campo para o desenvolvimento do plano desportivo da Escolinha de Rugby da Galiza e a extensão à Damaia da Escolinha e dos seus princípios.

O compromisso do campo representa a garantia de que o projecto Escolinha tem melhores condições para continuar o notável trabalho que a incansável Maria Gaivão - sonho e vontade inabaláveis - tem vindo a realizar, conseguindo criar sinergias e envolvimentos onde pareceria impossível chegar. Das vontades que permitiram a Escolinha chegar onde já está - vai haver um salto, delicado mas corajoso, para o rugby de XV - espero a melhor atenção para o ponto crítico que os transportes representarão nesta nova fase de desenovlimento do projecto da ATL da Misericórdia de Cascais.

A extensão à Damaia constitui uma excelente novidade. O Desporto, onde apenas contam as cores das diferentes camisolas, onde o mérito e o talento tem óbvio reconhecimento e onde se aprende a transformar o erro em experiência com a derrota e a vitória a pertencerem à mesma moeda, tem características únicas de inserção social; o Rugby, em particular, com os valores que lhe são próprios - e que encabeçam o rótulo desta página - apresenta condições ideias para integrar e abrir horizontes.

Gostaria ainda que este exemplo de continuidade, desenvolvimento e clareza de objectivos que a Escolinha de Rugby da Galiza nos mostra, desse as forças necessárias e possibilitasse a mesma continuidade ao programa "Desperta no Desporto" [ver aqui] - apontado a jovens que habitam bairros problemáticos e com os mesmos objectivos de insersão social e abertura de horizontes - que foi lançado em Março de 2010 pelo Governo Civil de Lisboa e Câmara de Loures no âmbito do Contrato Local de Segurança (e que, então, era coordenado pelo Rafael Lucas Pereira e que tem a componente Rugby no seu espaço) e que não tem - a crise afecta tudo - passado os melhores dos dias...

À Maria Gaivão e a todos os seus colaboradores, um grande abraço. O Rugby é mais do que um jogo!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

EXIGÊNCIA: APRENDER DEPRESSA

“O falhado é um homem que errou mas não é capaz
de converter o seu erro em experiência.”
Elbert Hubbard, escritor (1856-1915)

Pode parecer anedota mas é a dura realidade dos factos: o rugby português perdeu mexendo-se, mais do que tinha ganho estando quieto. Não participando no último Mundial, Portugal subiu, à custa da Rússia, um lugar e recuperou a vigésima posição no ranking da IRB ; jogando, em casa e contra equipa pior qualificada, perdeu quatro posições e encontra-se já atrás da Espanha. Pior: saindo da casa dos sessenta pontos deixou alargar o fosso para os adversários habituais.

Mandava a lógica que Portugal vencesse o Uruguai que hoje, pelos resultados que tem vindo a conseguir, já não é a besta-negra – eu que o diga… - de outras alturas. Pelo contrário, a equipa uruguaia é fraca. As suas recentes derrotas – inesperada contra Chile e com banhos de dezenas de pontos contra a Argentina e Jaguares – mostram que o Uruguai está, com as evoluções que se vão percebendo, cada vez mais longe das equipas candidatas a lugares em próximos mundiais.  Com praticamente o mesmo número de jogadores seniores que Portugal, o Uruguai só mostrou uma capacidade: a formação-ordenada que fez gato-sapato da nossa. E a razoabilidade defensiva foi-o apenas por falta de teste eficaz. Quanto ao resto…um chutador sofrível, um jogo de passes sem qualidade, um alinhamento abaixo do nível internacional. Pouco, muito pouco.

Esta selecção portuguesa não utilizou “estrangeiros” e a prata-da-casa mostrou-se no degrau da incapacidade internacional. E o pior que pode traduzir esta derrota será criar uma qualquer secreta convicção que, se presentes, o problema da incapacidade competitiva será resolvido. Porque o real significado da derrota traduz – basta assistir aos jogos - a mediocridade e o desequilíbrio do nosso nível competitivo interno que esta selecção realmente representou. Encontrando-se, como se viu, furos abaixo do internacionalmente exigível, a actual competição não se mostra capaz ou sequer suficiente para treinar jogadores para o nível internacional.

Mas o confronto alertou para mais: mostrou que neste desequilíbrio interno o combate das formações-ordenadas é uma não-existência que cria, não sendo tomadas as medidas necessárias, um obstáculo impeditivo de qualquer eficácia internacional. Já se sabe nas poucas certezas que o rugby define: sem cinco-da-frente não se ganham jogos. Mais: sem cinco-da-frente a carreira internacional não é possível (o Japão que o diga). E o jogo mostrou à evidência uma total incapacidade da formação-ordenada portuguesa. O que só é resolúvel, é bom de ver, com um nivelamento por cima da competição interna, possibilitando aos jogadores intervenientes as condições tão próximas quanto possíveis da realidade do combate internacional – é por isso, por esta necessidade, que uma grande maioria dos países mais avançados na modalidade disputam competições que ultrapassam as suas fronteiras (as excepções são a Inglaterra e a França cujo número de jogadores lhes permite tal luxo)      

Apostar nos “estrangeiros” para resolver a falta de capacidade interna é uma falsa solução e não promoverá o salto qualitativo do rugby português. O seu recurso tem que ser integrado – para garantir a sustentabilidade internacional necessária – num ambiente interno competitivamente capaz e desportivamente eficaz.

A questão a resolver é simples de enunciar: se a pretensão do rugby português é a sua qualificação para o Mundial de 2015 – e julgo que será – é preciso mudar, criando as condições competitivas internas que permitam o desenvolvimento dos jogadores, criando-lhes hábitos que lhes permitam a constância da aproximação às cada vez maiores exigências técnicas, tácticas e estratégicas internacionais.

Deixando correr o marfim, continuando uma competição interna cada vez mais desqualificada, dificilmente a sorte dos deuses nos iluminará. Mude-se então. E quanto antes. Porque, mais à frente, já será tarde.

“Se é preciso mudar, a melhor altura é agora.”
Raul Bessa, presidente da EDP (1983-1988)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

VENCEDORES E PERDEDORES PARCELARES

O único resultado que importa - que é verdadeiramente importante - num Mundial é ganhá-lo. Ser Campeão do Mundo. Foi o que conseguiram os All-Blacks e por isso serão lembrados. Dos outros, dos lugares conseguidos, dos resultados obtidos, lembrar-se-ão os próprios e poucos mais. Mundial é o campeão, o campeão mundial.


Mas há vencedores parcelares. Equipas que fizeram o que não se esperava e que foram capazes de superar as mais optimistas expectativas. E vale a pena lembrá-los.



O primeiro de todos, a equipa que conseguiu melhores vantagens pela disputa do Mundial foi Tonga que subiu três posições no ranking IRB. Com pouco mais de 100 mil habitantes, 82 clubes e 3 mil jogadores seniores masculinos, o rugby de Tonga iniciou o Mundial no 12º lugar do ranking para terminar em 9º lugar atingindo, pela primeira vez um lugar entre os dez primeiros, e juntando mais 4,15 pontos aos seus pontos de ranking. Um feito!


A segunda equipa, pelo inesperado, nestes ganhos parcelares foi o nosso adversário directo Geórgia. Com pouco mais do que 4,5 milhões de habitantes, 46 clubes e 878 jogadores seniores masculinos, a Geórgia subiu do 16º lugar de entrada no Mundial para o 14º, acrescentando 79 centésimas de ponto aos seus pontos de ranking e consolidando de forma muito segura a posição de sétima equipa europeia e com, ao que se vê, uma rectaguarda segura - apurados (com a Russia) em Sub-19 para o Junior World Trophy 2012 e em sub-18 (com Portugal) para o europeu 2012 - Troféu Justin Bridou.
Quer a Argentina, quer a Irlanda conquistaram duas posições; os Estados Unidos, a Namíbia, o Canadá e a França conquistaram uma posição.


Do lado dos perdedores, embora a Escócia, perdendo três posições, seja a que maiores custos teve com a presença no Mundial, é Gales o grande perdedor ao descer duas posições no ranking da IRB - entrou como sexto e terminou em oitavo - quando fez figura de potencial finalista. Com esta descida Gales perdeu a possibilidade de ser cabeça-de-série em 2015 - chegou a estar assim qualificado antes do jogo das meias-finais com a França - e surge - pelo que mostrou em jogo - como uma espécie de injustiçado pela lógica implacável das regras que estruturam o ranking. O Japão (com 53 mil jogadores seniores masculinos!), sempre a prometer mais do que aquilo que atinge, perdeu também duas posições e deixou-se ultrapassar pelo Canadá (cerca de 9 mil jogadores seniores masculinos) e Geórgia. A Russia, perdendo também duas posições, caiu fora dos vinte primeiros lugares do ranking, posição que há muito desconhecia.


Perdedores foram também a África do Sul, Samoa, Itália, Fiji e Roménia que perderam uma posição.


Mas há ainda um vencedor extra-competição. Por mais paradoxal que pareça - primou pela ausência - Portugal foi um dos beneficiados do conjunto de resultados (e da formação dos grupos) que resultaram deste Mundial. Pode mesmo dizer-se que a sua não qualificação - por erros diversos e demasiado elementares na disputa dos jogos de qualificação - possibilitou melhor resultado do que a sua presença permitiria. Não estando, não jogando, não ganhando mas também não perdendo, Portugal conseguiu o melhor resultado com o mínimo esforço: subiu um lugar e encontra-se na vigésima posição do ranking. Sortes da vida...


Destes reposicionamentos, um dado: a capacidade e eficácia do rendimento desportivo das equipas de rugby por esse mundo fora é bastante mais complexa do que as receitas triviais e fáceis do aumento de número de praticantes e alargamentos das participações. Pelo que se observa, a formação e o nível da competição permanente que moldam os jogadores parecem ter uma palavra mais importante a dizer. A anotar.

domingo, 6 de novembro de 2011

DOR DE COTOVELO

Era expectável: a dor de cotovelo inglesa - 49 milhões de habitantes, com 1900 clubes e 166 762 jogadores seniores masculinos - convive muito mal com o título mundial dos neozelandeses - pouco mais de 4 milhões de habitantes para 562 clubes e 27 374 jogadores seniores masculinos. E para esquecer amarguras e agruras e minorar despeitos trataram de colocar a vitória, defendendo a equipa francesa porque mais fácil de engolir (mais de 65 milhões, 1630 clubes com 110 270 jogadores seniores masculinos, na final como um brinde da arbitragem tendenciosa do sul-africano Craig Joubert. Considerado por todos como um dos melhores - se não o melhor - árbitros mundiais viu crescer uma campanha contra ele após a vitória final dos All-Blacks. Vídeos com montagem dos "pontos críticos", análises disto e daquilo e a sempre apetecível ataque ao proteccionismo permanente ao faltoso Richie McCaw - ataque que, por recorrente, já faz parte das lendas e narrativas rugbísticas

[como curiosidade: McCaw começou a jogar num pequeno clube, o Kurow, que, como pequeno clube que era, nem sempre conseguia quinze jogadores para os jogos e McCaw, sempre presente, fazia, sozinho, o papel de toda a terceira-linha. Provavelmente esta a razão porque está sempre nos sítios e momentos decisivos...]

Agora que se soube que Joubert irá apitar o Gales-França do próximo Seis Nações, também em França, não vá o diabo de Cardiff tecê-las, se começou a falar - naquilo que a moda gosta de designar por jogos psicológicos - do prejuízo causado pela arbitragem do sul-africano na final do Mundial.

É claro que terá havido erros. Mas é tão fácil percebê-los sentados em casa e a vê-los na repetição televisiva - falta! foi falta! - grita-se com indignação! Mas no campo a coisa é diferente e se os adeptos mais fanáticos vêem sempre e em cada movimento faltas a favor da sua equipa, o facto é que é muito difícil arbitrar com a equidade devida um jogo de rugby.

O que leva a pensar ser necessário clarificar o jogo no chão por forma a não deixar que as dúvidas ultrapassem a equidade necessária ao jogo. Para mim, na leitura que as Leis do Jogo permitem - e pela igualdade de oportunidades que exigem - julgo ser absolutamente necessário definir a sequência de procedimentos: o jogador portador da bola, logo que placado* deve, como primeira obrigação, largar a bola; após este largar de bola é que o jogador placador passa a ter obrigação de largar o placado (de outra forma, ao largá-lo antes, permitiria que o portador continuasse na posse da bola e, até, renovasse o seu movimento anterior). Colocado assim, sendo mais fácil interpretar o jogo no chão, o uso subsequente da bola - continuidade ou recuperação - ficará dependente da melhor organização e eficácia do apoio na oposição defesa/ataque como deve ser, aliás, num desporto colectivo. E como também deve ser: que sejam os jogadores - e não o árbitro - a afirmar o resultado do jogo.

Voltando à final. Os franceses só se podem queixar se si próprios... Em vez de procurar jogar, definindo posições e marcando pontos, decidiram ficar à espera da falta e entregaram-se ao critério do árbitro que não lhes terá dado voz.Mas foi sua a escolha estratégica. E poderiam ter, no mapa táctico das escolhas, escolhido outro caminho. Que, dependendo apenas de si e da relação de forças com o adversário directo, não entregaria os seus interesses a uma terceira via incontrolável. Escolhas, portanto.

* para o que basta que o portador da bola tenha qualquer parte do corpo
- excepto os pés - em contacto com o chão quando tocado por um adversário.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O MUNDO É ALL-BLACK

"Car, chez le rugbyman, si le collectif est l'alpha,
l'élégance n'est pas loin d'être l'oméga. Pour
être bien joué, le rugby doit être beau."
anúncio da roupa da selecção francesa

Official RWC2011

A Nova Zelândia, através dos All-Blacks, é campeã mundial. Ainda bem: é justo e bom para o jogo. Justo porque ao longo dos anos tem sido – com excepção dos anteriores mundiais – a melhor equipa como demonstra a sua quase permanente ocupação do primeiro lugar no ranking IRB; bom, porque sendo uma equipa que faz um bom uso da bola, utiliza a alternância como forma de desequilibrar e surpreender as defesas é ainda capaz de dar ao rugby a emoção e elgância do espectáculo. É ainda bom porque pode ser dado como exemplo de que o rugby de ataque pode ganhar. E é bem mais agradável de ver.

Não é que a final fosse um bom jogo – bem melhor do que 2007, no entanto. Foi um jogo mais interessante pela incerteza do resultado do que por qualquer outra coisa. Culpas? dos franceses em primeiro lugar: porque se limitaram a organizar-se defensivamente, sem correr qualquer risco mantiveram a posse da bola à espera do erro adversário - assim marcaram um ensaio. E com um bom pontapeador, poderia resultar… estiveram quase lá. Por um só ponto...

A cultura neozelandesa – que é muito bem representada no agarrem-me senão eu mato-o que o haka, embora manifestação de inteligência segundo Sun Tzu, traduz e que sempre os paralisou nos momentos-chave dos jogos decisivos dos campeonatos anteriores – esteve quase a pregar nova partida na última meia-hora da final. Valeu-lhes a espera francesa por uma penalidade que não caiu do céu em vez da coragem do risco total nos últimos cinco minutos: perdido por cem…E entre uma coisa e outra foi passando o tempo sem que a chama - para além do ensaio neozelandês - pegasse fogo à relva.

A vitória dos neozelandeses tem outra vantagem: constituem um óptimo exemplo para, na formação dos futuros jogadores adultos, recorrer ao conceito do ensino e uso dos princípios básicos com que se fundamenta uma capacidade técnica e táctica individuais que, mais tarde, permitam a melhor expressão colectiva. Os novos campeões do mundo são – depois de alguns anos de rugby-percentagem – um bom exemplo. Porque o rugby, o rugby agradável de ver, trata de usar a bola e usar o campo. Com criatividade e imaginação.   

domingo, 23 de outubro de 2011

O DIABO NOS PORMENORES

O Cisne Negro - que Nassim Taleb caracteriza como inesperado, catastrófico e posteriormente previsível, mesmo facilmente explicável - de Gales foi aquele falhanço, aquela escorregadela, de James Hook que não transformou um pénalti contra a França. O aviso vem do corolário da Lei de Murphy - quando a pressão aumenta, shit happens - e o homem mostrou, com os outros falhanços, não ter perfil psicológico para toda a areia que a camioneta de chutador exige. E como é fácil perceber e explicá-lo depois: porque não consegue a concentração exigível, porque a linha de corrida é desequilibrada, porque a esquina é demasiado prolongada. Fácil mas factual: foram os pontapés que impediram que Gales estivesse na final.

Porque no resto estiveram bem (vá lá, excepto quando os dois centros galeses se deixaram enganar pelo isco do aparecimento de O'Connor e abriram uma auto-estrada de bandeira para o ensaio de Barnes).   O diabo está nos pormenores, diz-se. Os pormenores, em jogos de bota-fora(1), são o diabo. E foram, se tivermos - como tenho - o ponto de vista galês. E pormenor foi também o facto de bola ter sido passada para a frente no ensaio de Shane Williams (que raio de pormenor aquela tentativa de ressalto...). Foi passada para a frente mas só é visível quer pela televisão - fácil, facílimo - quer por um observador parado na linha de passe. Acontece que tudo estava em movimento: árbitro, árbitro auxiliar vulgo juíz-de-linha, jogador receptor e mais importante de tudo, o portador da bola quando parou, derrubado por adversários, já se encontrava á frente da linha de recepção - impossível de ver no momento. Um simples erro de paralaxe (já agora: no outro momento parecido e da responsabilidade australiana não, era fácil de verificar, não havia movimento do passador ou do árbitro).  

No nível elevado do alto rendimento onde o rugby do mundial se encontra é preciso, para vencer, garantir que os chutadores da equipa serão capazes de transformar em pontos as faltas adversárias - e é preciso que a equipa adversária reconheça isso e que tenha dúvidas sobre as vantagens das suas faltas. Só assim as defesas serão obrigadas, não podendo arriscar em demasia defensivamente, a deixar os intervalos por onde será possível perfurar para impor o jogo entre-linhas. Não ter um chutador capaz no alto nível é queimar baterias sem fazer a máquina avançar.E foi por isso que, entre aqueles galeses que não puderam estar presentes no jogo das meias-finais e do terceiro/quarto lugar, o maior ausente foi o jovem e notável abertura Rhys Priestland. A falta que ele fez...   No jogo da final se for verdade que o melhor ataque é a defesa, os neozelandeses vão sofrer muito para serem campeões do mundo. A França ainda não sabe bem como pode entrar em campo para disputar a final: nunca jogou grande coisa e teve a sorte dos números que fazem a chave da vitória. E uma coisa é certa: para aquele grupo de experientes jogadores, moldados num campeonato onde a derrota pesa muito mais do que a falta de pontos, estar na final é um euromilhões - e oportunidades, eles sabem, não se deitam fora.   E se os All-Blacks jogarem? se acharem que precisam da bola, que precisam de conquistar e manter território e que, no final do dia, o que contam são os pontos marcados - garantem ter aprendido a lição de 2007 quando na meia-final deixaram os pontapés de ressalto no balneário - a experiência dos franceses apenas servirá para limitar os prejuízos.

Mas os All-Blacks terãoque jogar bem e muito... o que é bom para o jogo e para nós, espectadores.  
(1) - a forma popular que conheço desde sempre para designar jogos a eliminar é bota-fora
e nunca o mata não sei quantos que, para além do mau gosto, é pouco desportivo.

domingo, 16 de outubro de 2011

QUE JOGO!

Avançar com apoio para garantir a continuidade e exercer a pressão que desorganiza a defesa
Que jogo! Do primeiro ao último minuto o jogo fez-se, quer do lado neozelandês dos vencedores, quer do lado dos australianos, de acordo com a estratégia e as tácticas que definem o rugby como um jogo de ataque. Para voltar a ver e para mostrar – tal como o outro jogo de grande nível deste Mundial, o Gales-Irlanda.

A simplicidade do jogo traduz-se nisto: o seu objectivo é fazer chegar, tão rápido quanto possível, o portador de bola á área de ensaio adversário. Tudo o resto – passes, chutos, corridas, fases, tempos e ritmos – são instrumentos colectivos a utilizar para desequilibrar e desorganizar a oposição permanente ataque/defesa. Utilizando sempre a vantagem da posse da bola – o ataque age e a defesa reage – para procurar surpreender a defesa. Aliás, se assim não fosse – se a prevalência fosse inexoravelmente da defesa, qual destino inibidor, qual seria o gozo do jogo?

Para que seja possível o objectivo – chegar à área adversária com a bola ou converter as faltas que as defesas fizeram para o evitar – é necessário saber aplicar em cada momento os Princípios Fundamentais ou Básicos do Rugby: Avançar sempre!; Apoio; Continuidade; Pressão. A que se devem acrescentar os 3 Pês de que fala Saxton (no ABC agora reeditado): Possesion (posse da bola); Position (ocupação do terreno); Pace (velocidade). E, já agora, que se junte a trilogia de recomendações dos desportos colectivos: Play Hard; Play Together; Play Smart – joguem no máximo, joguem juntos e joguem com inteligência.

E foram estas as preocupações que se viram em ambas as equipas num jogo de grande qualidade competitiva.

Os All-Blacks começando de forma superior – Piri Weepu hoje atacou a bola nos reagrupamentos com outra velocidade sendo, embora perdendo pontos nos pontapés aos postes, muito mais decisivo na dinâmica da sua equipa – não deram espaço aos australianos que nunca – muito por graça do três-de-trás neozelandês que esteve soberbo no jogo aéreo -  conseguiram a conquista territorial que lhes permitisse a posição para basear o lançamento dos seus ataques.

E houve jogadores, mais negros que amarelos, que tiveram participações excelentes. De entre os quais saliento Conrad Smith – que notável jogador na discrição da sua participação: está sempre no sítio certo, usa a bola com oportunidade e adequadamente, defende o seu corredor com determinação e eficácia. Grande nº13. Notável. Gostaria sempre de poder contar com ele numa equipa minha…

E de novo se constatou um velho preceito rugbístico: os avançados ganham os jogos; os três-quartos dizem por quanto. O bloco avançado All-Black – o seu cinco-da-frente -  dominou completamente e nas diversas fases do jogo os seus adversários e a partir daí estava lançada a plataforma que sustentaria a vitória. Sempre com base no avanço, conquistando centímetros ou metros, e no lançamento de jogadores em movimento – numa lição a reter e a transportar para o campo da formação de jogadores. Porque não se joga assim porque se nasceu assim: é porque se aprendeu a jogar assim!

Curiosamente no final do jogo, respondendo ao como preparar a final, Graham Henry declarou: trabalhando o básico! E são eles a melhor equipa do mundo…

O rugby é um jogo de ataque e desenvolve a sua eficácia colectiva em torno de princípios estratégicos que exigem a adequação e subordinação das tácticas utilizadas. Atacando e defendendo, uma equipa de rugby, para ser vitoriosa ao nível mais elevado, tem que saber ser eficaz em ambos os departamentos. Mas é o ataque que ganha jogos e a defesa que o garante.

[em relação ao cartão vermelho mostrado a Sam Warburton: de facto e lendo o esclarecimento
da IRB, quando um jogador, forçado pelo placador, atinge o solo com a cabeça ou parte superior
do corpo e os seus pés ainda estão no ar é considerado jogo perigoso e está sujeito a um cartão
vermelho. Foi o que aconteceu]

ESTRATÉGIA GALESA

Apesar da derrota na meia-final, o XV de Gales - uma das equipas mais novas, senão mesmo a mais nova, do Mundial - mostrou-se um notável conjunto capaz de exprimir um rugby positivo de conteúdos adequados aos princípios fundamentais que formatam o jogo desde a sua criação e que mantêm a sua pertinência no actual modelo.

Mas estes resultados não surgem por obra e graça de um qualquer dote. A capacidade dos jogadores galeses resulta de uma boa e adequada formação, da criação de competição de níveis elevados e mais próximos da competição internacional e de uma organização que suporta o rugby galês num quadro de alinhamento com os objectivos de elevadas prestações competitivas internacionais. Ou seja, o rugby galês tem uma estratégia e tem, pelo seu acerto, resultados.

A este propósito e com as diversas explicações o Raul Patrício Álvares, meu amigo e parceiro destas coisas rugbísticas - estivemos os dois, e também António Coelho, na equipa técnica da Selecção Nacional - escreveu o texto (em itálico) que transcrevo:

O País de Gales e nós
A presença da selecção do País de Gales nas meias-finais do Campeonato do Mundo, para mais com forte hipótese de chegar á final, deveria fazer pensar os dirigentes do râguebi português (dirigentes em sentido lato: clubes, federação, etc.).
Com efeito é espantoso como uma “região” com pouco mais de 3 milhões de habitantes, consegue produzir uma equipa de elite que não é mais do que o produto final de um sistema que engloba todas as etapas necessárias ao aproveitamento total do potencial disponível.
Quando observamos esta equipa, temos a sensação que não há um único jogador, que alguma vez tenha demonstrado poder  fazer parte dela, que não esteja lá.
Os dirigentes do râguebi galês, sabem o que querem, e o que é mais importante, sabem como lá chegar. São evidentes os princípios em que se baseia toda a “governance ”: competência, atitude e organização.
Competência para saber escolher modelos de formação, quadro competitivos , treinadores e técnicos.
Atitude em saber definir o que é realmente importante quando se trata de competição e não ter receio de “olhar para o alto”.
Organização que passou por uma impensável fusão de clubes antiquíssimos (mas em que os dirigentes têm mais amor ao râguebi do que ás camisolas), de modo a permitir que os melhores jogadores se batam com os melhores, numa competição profissional impossível de montar nos seus limites territoriais, em vez de se limitarem a exportar jogadores, método que por si só não garante uma profundidade suficiente para haver consistência competitiva.
Mesmo no “sete”, quando se tratou do Campeonato do Mundo, a aposta foi forte e teve como resultado a vitória. Nunca se preocuparam em serem campeões da Europa “que não joga râguebi”…
Que diferença para o que se passa em Portugal!
Será que os nossos dirigentes ainda não perceberam que não é preciso inventar nada? Basta aprender e adaptar. Lógico que as realidades são diferentes, mas os princípios não mudam, é só necessário fazê-los compaginar.
E escusam de vir com a conversa da aposta no “sete” porque também aí não passamos da mediania, só que não se nota tanto…
Um bocadinho de humildade talvez fizesse bem a quem manda no râguebi português, em vez de permanentemente estarem a tentar “vender” uma competência que não existe.
No desporto, como na vida, só no confronto se vê quem é capaz. A auto-satisfação dá sempre mau resultado.

Vale a pena reflectir para encontrar o caminho - a estratégia - que nos permita a frequência dos grandes momentos da modalidade. De forma sustentada.

sábado, 15 de outubro de 2011

OPORTUNIDADE JOGADA FORA

Concedo: a defesa ganhou o jogo. A passiva e quase incapaz França vê-se na final do Mundial graças à sua experiência - náo armes em campeão que a gente não se aguenta - e ao jogo de "tocaia" que soube fazer. Também concedo: é preciso alguma qualidade para o conseguir...


Para contentamento dos negativistas contentinhos - género eu não disse? - da escola a defesa é que ganha o momento é de felicidade com a folha de estatísticas na mão: França com 126 placagens contra apenas 56 de Gales. Como se isso dissesse alguma coisa do jogo para além da demonstração óbvia de que a defesa ganha, quando o ataque dos outros é incapaz (claro que a má defesa não deixa ganhar jogos ... mas isso é outra estória...)


A realidade: a defesa francesa ganhou o jogo porque o ataque galês o perdeu: nos dois pontapés imperdíveis falhados (contra uma defesa que faz o seu papel não se pode falhar a conversão das faltas ou o terreno que possa proporcionar); na cabeçada do centro Davies quando a auto-estrada o levava para o pátio do castelo adversário; no adiantado do excelente North de intervalo aberto na última linha defensiva francesa. E nas bolas perdidas em alinhamentos próprios. Ou, ainda, na incapacidade de jogar adequadamente as continuidades do jogo - sem criatividade e de acordo com as expectativas da defesa não criando quaisquer desequilíbrios que provocassem faltas ou abrissem buracos - de que foi exemplo a nulidade das 20 fases do final do jogo (que diabo, não haveria ninguém para tentar um pontapé de ressalto no período de domínio territorial após o ensaio?) Ou ainda - questão central - no disparate do jovem capitão Warburton que se deixou expulsar (embora o cartão devesse ser amarelo e se perceba mal a rigidez da atitude do árbitro) de forma gratuita e irresponsável e com absoluto prejuízo da sua equipa, quiçá com a carga de responsável primeiro pela derrota. Para não falar no único momento de azar: a saída do pilar Adam Jones. Ou da impossibilidade do importante abertura Priestland. A sorte não andou por ali mas também foi mal procurada. Sortes...


A justificação do resultado: a juventude galesa rendeu-se aos braços da ratice dos experimentados franceses e jogou fora a oportunidade de uma vida. Sortes...


A França - não jogando - está final do Mundial, no que não deixa de ser um belo feito para uma equipa dada como liquidada.


Mas o futuro está com Gales - mesmo que o consolo seja pouco e o sentimento de oportunidade jogada fora se sobreponha. Cardiff estará inconsolável... até ao jogo de disputa do terceiro lugar.


[a lucidez do francês Médard no final do jogo: os deuses do rugby estiveram connosco]

domingo, 9 de outubro de 2011

FUNCIONAMENTO DA LEI 60/20

Ao contrário das expectativas, a vitória dos All-Blacks sobre a Argentina não foi brilhante e viveu da lei dos mais fortes - cumprindo-se a lei 60/20 (ver aqui) e distanciando-se apenas no final do jogo. Mas se o jogo teve alguma coisa interessante, foi a resistência argentina.

A defesa argentina, ao não se deixar empenhar em demasia em cada movimento conseguiu sempre manter jogadores livres para intervirem em ajuda – e foram muito bons a cortar as linhas de passe, impedindo assim que o apoio neozelandês tirasse qualquer partido dos desequilibradores passes-em-carga (off-loads). Para evitar esta vantagem argentina seria preciso que às paragens das cargas neozelandesas correspondessem libertações muito rápidas da bola. Nada disso aconteceu, pelo contrário.

O formação Piri Weepu – considerado melhor jogador em campo – man of the match – se foi o melhor marcador de pontos – 7 pontapés de penalidade – da equipa, foi também o maior enterra dos movimentos da sua equipa: levou sempre horas a tirar a bola dos reagrupamentos e nunca utilizou formas surpreendentes de continuidade – horas para reiniciar sempre o mesmo. Facilitando a vida à defesa argentina que, mesmo tendo alguma responsabilidade no atraso da saída da bola, teve sempre a possibilidade de se reposicionar e conseguiu assim respirar mais tempo.

Sem Carter os All-Blacks são outra equipa e os adversários, sabendo disso, não precisam de organizar a defesa tão profundamente – o que lhes permite dobras mais prontas e mais eficazes.

A Argentina, embora com menor qualidade do que em 2007, mostrou de novo que a sua política exportadora – apenas dois jogadores pertencem a clubes argentinos – paga dividendos e mostra-se como um bom exemplo para quem pretender subir na cena internacional.

Surpreendente mesmo foi o facto de um grupo de jogadores formados dentro de uma cultura táctica individual e colectiva de elevados níveis – uma das suas bases está no ABC do Râguebi de C.K. Saxton que Pinto de Magalhães, “o engenheiro”, traduziu e que a família agora republicou e que deve ser lido por quem se interessa pelo jogo – não tenha sido capaz de fazer a separação dos níveis muito mais cedo. Dentro de oito dias, a meia-final com a Austrália não permitirá esta pouco eficaz utilização da bola.

OS PORMENORES SÃO O DIABO

Os dados do jogo são irrefutáveis: a África do Sul perdeu o jogo – teve tudo para o ganhar. Teve o domínio territorial de 76% com 12’ 30” dentro dos 22 metros adversários; teve o domínio da posse da bola com 56% do tempo total – o que obrigou a Austrália a 147 placagens! A África do Sul conseguiu conquistar – o que é obra! - cinco dos oito alinhamentos australianos.

O mérito australiano esteve na pressão e desmultiplicação defensiva de jogadores conseguindo 9 turnovers, a maior parte em momentos decisivos…
… mas não se pode perder um jogo com tanto domínio, pensarão jogadores, treinadores e adeptos. O sonho do terceiro título mundial, perdeu-se; o sonho do próximo em 2015 começou.

O diabo está nos pormenores, diz-se. E foi nos pormenores que a ainda campeã mundial África do Sul se perdeu – um atraso mínimo no apoio, uma incapacidade de soltar a bola no milésimo antes de ir ao chão; um passe que se adianta na precipitação final do receptor, uma continuidade que se desperdiça. Mas o jogo que a África do Sul hoje mostrou foi bastante mais interessante do que o habitual: território sim mas com o objectivo de criar condições de concentração defensiva para explorar espaços. E o seu domínio reduziu a expressão australiana ao quase nada. Australianos que mostraram um ponto fraco desconhecido – a sua desagregação se sujeitos a níveis de pressão elevados. E a exploração deste factor vai ser ponto de partida dos próximos adversários.

Duas concepções de rugby – a organização e critério sul-africanos contra a australiana exploração dos espaços numa espécie de organização permanente do caos – estiveram frente-a-frente. O rugby ganhou e os espectadores também. Neste Mundial joga-se mais e melhor do que em 2007.

[apenas 10 penalidades nuns quartos-de-final de um mundial. Não é bonito?]

sábado, 8 de outubro de 2011

O DOM DO PEDROTO

A inesperada vitória da França liquidou, felizmente, um fantasma: a possibilidade de repetição da final de 2007 entre a Inglaterra e a África do Sul. E embora não tivesse sido um jogo de grande qualidade – bastantes furos abaixo do Gales-Irlanda – o quinze francês melhorou alguma coisa e, principalmente, soube tirar o melhor partido dos erros e deficiências inglesas – má organização defensiva quer pelo uso de dois aberturas no meio-campo, quer pela preocupação de demasiada pressão defensiva de que resultou subidas defensivas demasiado rápidas e apressadas.

É, a-propósito, interessante notar que a subida demasiado rápida – se não for colectivamente objectiva e subordinada a plano táctico de recuperação da bola – só serve para auto-fixar os defensores (os atacantes capazes agradecem) e libertar mais espaço para o ataque. Para uma linha como a francesa a subida defensiva moderada e capaz de deslizar é, mesmo se cedendo algum espaço, a mais indicada - situação, aliás, aplicada posteriormente pelos defensores ingleses mas já com o desastre consumado.

Os erros defensivos ingleses foram tais e de tal ingenuidade - como é possível mudar de estratégia nuns quartos-de-final sem a experimentação adequada? - que rapidamente os franceses se viram na posição privilegiada de comando e não pude deixar de associar ao jogo o que conta o meu amigo João Mota sobre a resposta de José Maria Pedroto a impertinentes jornalistas depois de mais uma vitória sobre equipas inglesas: qual o meu dom? o meu dom é explorar sempre a estupidez das equipas inglesas.

Parece que os franceses terão ouvido sobre este dom do Zé do Boné...

NA MEIA-FINAL!!!

A defesa galesa - de novo elogios para Shaun Edwards - ganhou o jogo porque o seu ataque marcou os pontos necessários para garantir a vitória.  

Excelente jogo num elogio ao rugby de movimento e a mostrar que no Hemisfério Norte há equipas que sabem jogar.

Falta só um jogo para Gales atingir a final! CYMRU!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

SESSENTA E SEIS SECOS

Para além dos habituais crentes de fé inabalável quem é que esperaria uma vitória galesa sobre Fiji de sessenta e seis secos? E a jogar bem: ataque aos intervalos, descoberta e criação de espaços livres para lançar jogadores determinados a bater a defesa e conquistar terreno. E a defesa numa aposta de que não nos marcarão? - Shaun Edwards é provavelmente o melhor treinador defensivo actual e soube, de maneira soberba, traduzir e adaptar as tácticas defensivas do XIII a uma consistente defesa do quinze galês.


Em termos de beleza de jogo, não vejo melhor exemplo: as diferentes formas possíveis aplicam-se de acordo com a leitura feita do movimento da defesa adversária - a adaptação que garante a sobrevivência (Darwin dixit) mostra-se a cada movimento galês. Está uma senhora equipa - incluindo a capacidade de penetração que desequilibra defesas e permite a exploração do espaço numa melhoria óbvia do seu jogo-entre-linhas.


Talvez mais importante - zero pontos marcaram os adversários, lembra-se - foi o facto de Gales não ter feito faltas em zonas perigosas. Facto relevante e que significa disciplina, confiança e domínio. E que pode ser um plus nos jogos que restam.
Que Gales pode ir longe? Pode, muito longe até - e que jogo se prepara nos quartos-finais entre os primos celtas. Mas apostas são apostas: Gales ganha! nem que seja rés-vés.


Agora as más notícias: os analistas da IRB apostam no habitual - as vitórias, nesta altura de bota-fora, vão pelo insuportável adágio de que a defesa é a melhor forma de defesa que, somada a um pontapeador capaz, ditará a vitória. O que significa o insuportável: África do Sul e Inglaterra colocam-se no topo - um de cada lado - dos favoritos. Já se sabe, em provas compridas e compactas como este Mundial, uns e outros são capazes de repetir a sensaborona final de Paris.

Para bem do rugby e do gosto pelo divertimento do jogo espero que haja - naqueles que usam a bola e que consideram que o jogo de passes - o ataque é a melhor defesa - é o meio mais eficaz para chegar à vitória - quem garanta a vitória final. E que os que não gostam de jogar mas apenas de garantir resultados (franceses incluídos que ainda não concordaram na forma) viajem mais cedo para casa.

domingo, 2 de outubro de 2011

NOTÁVEL TONGA

A vitória de Tonga sobre a França será, até ver, o melhor resultado deste Mundial. Para além da conquista de lugares e pontos no ranking, Tonga conseguiu, desde já, a sua qualificação para o Mundial de 2015 e daí as expressões de alegria de toda a equipa - jogadores, treinadores, técnicos e dirigentes - no final do jogo. Chegados com ligeiro atraso ao grande concerto - o quarto lugar do TriNations vai ser ocupado pela Argentina - Tonga poderá, com a qualificação conseguida, preparar a sua participação sem sobressaltos e tornar-se um incómodo para alguns dos dez grandes esperando a oportunidade de novo alargamento da melhor competiçao do hemisfério sul.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

JOGO DE MOVIMENTO

Do amigo Pierre Villepreux - francês e antigo jogador e treinador internacional (quem não se lembra, em 99 e em Cardiff, da vitória da inteligência táctica da França sobre os All Blacks, 43-31, quando fazia equipa com Skrella?) e uma das vozes mundiais mais respeitadas no campo do pensamento do jogo contemporâneo - cito, de crónica recente, a visão ofensiva que traduz os objectivos do rugby de movimento:

Colecção: À distância de um braço
Em ataque: ser capaz de avançar à mão ou ao pé, impedindo a defesa de subir e criando assim uma relação de forças favorável; preservar no movimento sucessivo o desequilíbrio que este ganho de terreno proporcionou; conceder nessa continuidade o menor número possível de reagrupamentos e, quando o adversário nos contraria, libertar a bola rapidamente para continuar a dinâmica anterior.
Considerar a defesa como elemento táctico de controlo também decisivo e que deve estar ligado à acção de ataque; ser capaz de avançar e exercer pressão eficaz para explorar as bolas recuperadas quer seja sobre os movimentos ofensivos à mão (turnover) quer sobre o jogo ao pé dos adversários (contra-ataque)."

Tudo dito  e resumido: avançar, continuar, apoiar e exercer a pressão possível a todo o momento.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

GALES SEMPRE!

JPR Williams em representação de todos os heróis do rugby galês
Gales fez o que lhe competia: ganhar, garantir o ponto de bónus e demonstrar de novo que a Lei 60/20 se aplica para distinguir a diferença entre escalões.

E ainda por cima está a fazer um jogo interessante, de movimento.
Devendo agora vencer Fiji - coisa que nada terá de outro mundo - Gales prepara-se para um 6 Nações do outro lado do mundo. E a mira da final está-lhe tão próxima como para qualquer outro. Ganhar à Irlanda ou à Inglaterra e França não é impossível - pelo contrário! - e a ida à final está na mira de qualquer conversa de pub em Gales. Na minha também (acho que a minha avó iria gostar) ... e seria uma excelente homenagem para os antigos jogadores galeses que enchem a minha memória de bom rugby e aos treinadores que me abriram o caminho para muito do que sei.

O caminho é conhecido...

entre parentesis: alguém acreditava na vitória de Gales no Mundial de Sevens?!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RESPONSABILIDADE COLECTIVA

A propósito da importância e agrado da sua posição de Embaixador do Keep Rugby Clean cito, Felipe Contepomi, capitão da Argentina:
“Enquanto jogadores temos a responsabilidade colectiva de educar a próxima geração de jogadores de Rugby em todos os aspectos”

domingo, 25 de setembro de 2011

O DRAMA DO AFASTAMENTO

A chuva terá ajudado mas o jogo Escócia-Argentina só teve interesse pelo drama do afastamento que criou nos três minutos finais momentos de grande intensidade emotiva dentro e fora das quatro linhas. Quanto ao resto houve demasiado ping-pong de jogo ao pé quer na esperança do erro adversário, quer na tentativa de ocupação de território que garantisse espaço nas costas e minorasse os riscos do uso da bola - mas tudo muito desinteressante... embora pertencessem à Escócia os momentos de tentar jogar - para o que lhe faltou o talento e criatividade necessários. No fundo, a defesa Argentina, diga-se, pode sempre contar com a incapacidade escocesa de criação de desequilíbrios.

De novo veio à baila a eficácia do uso da bola: a Escócia - que deverá ter feito as malas -  deteve 54% da posse da bola em 50% de domínio territorial e mostrou-se incapaz de romper a defensiva argentina. Principalmente porque se deixou sempre dominar nos momentos de contacto não sendo capaz de: 1) atacar intervalos - o ataque foi feito à parede dos corpos argentinos (excepção de Lamont); 2) formar o apoio aos pontos de quebra em tempo útil; 3) e como consequência bolas tardiamente disponíveis e já com a defesa argentina completamente organizada, em superioridade numérica e garantindo a boa cobertura dos corredores adjacentes aos rucks.

Ponto interessante do jogo - para além da verificação do notável espírito de combate por parte dos argentinos - foi a sua demonstração técnica de apoio ao placador para a recuperação da bola - e conseguiram algumas. A aproximação ao ponto de placagem do segundo defensor argentino com imediata cobertura (em pé!) do placado para lhe retirar a bola é sempre feita com grande contenção e de acordo com as Leis do Jogo - e com óbvias vantagens tácticas. Vale a pena rever estas fases para melhor compreender as possibilidades de exploração que permitem.

LOSANGO O ADN DO MOVIMENTO

O Losango - o ADN do rugby de movimento - é um conceito de sempre do rugby e é constituido por quatro jogadores: o PORTADOR da bola, o ATRELADO ou ASA - aquele que acabou de fazer o passe ou que vem seguindo a bola e que apoia o interior do portador- , outro ASA - que apoia o exterior do portador - e o CAUDA que apoia nas costas do portador e que apoiará um ou outro lado de acordo com as decisões do portador. Há medida que este movimento vai tendo continuidade no jogo de passes, existe rotação - o cauda passa a asa, p.e. - e há novos jogadores a integrarem o sistema. Para que o losango funcione eficazmente é necessário aceitar o comando absoluto do portador - é ele que, para o bem ou para o mal, toma as decisões que os outros companheiros têm que acompanhar e reagir.   


Os All-Blacks em jogo recente contra a França não deixam os seus créditos
de APOIO em mãos alheias

No ensaio do século (ver O Melhor Ensaio de Sempre aqui)
o cauda Gareth Edwards será o marcador

A superioridade do CDUL (na foto: anos 70) que lhe permitiu
17 campeonatos baseou-se sempre no rugby de movimento e o
recurso ao losango não era desconhecido dos seus jogadores

Esta organização em losango, conjugada com a técnica de off-load - passe-em-carga - constitui uma das ferramentas mais eficazes para romper a linha defensiva. Os All-Blacks e  Sonny Bill Williams são exemplos a reter. 

sábado, 24 de setembro de 2011

O USO É CONTINUIDADE

Este Nova Zelândia-França colocou de novo a questão posse da bola versus uso da bola na ordem do dia. Quando os All-Blacks marcaram, aos 9 minutos, o primeiro ensaio, o domínio da França era total: 70% de posse de bola; 85% de domínio territorial. No final do jogo, numa diferença de 5 para três ensaios, os All-Blacks tinham 51% de posse de bola e dividiam equitativamente o domínio territorial. E ganharam com ponto de bónus e por uma diferença bem superior àquela que as pontuações do ranking admitem como normais.

O jogo de rugby não é um jogo apenas de medição de forças e quem tem a bola tem que a saber utilizar e tirar partido da vantagem que a situação lhe dá. E neste domínio os neozelandeses foram muito superiores aos franceses.

Depois há ainda outro domínio do jogo que marca a diferença: a capacidade colectiva de organizar o caos – assim como pegar fogo à casa e saber retirar os pertences mais importantes. No fundo é disto que se trata, desiquilibrada a defesa por concentrações atacantes, há que saber continuar o movimento, explorando a desorganização...organizando-se primeiro. Que se aprende pelo treino aplicado, claro.

Os franceses mostraram as dificuldades que os mais avisados comentadores vêem notando com a sua organização competitiva interna: jogo de poucos riscos, baseado em provas de força, mais território que uso de bola e com domínio do receio de perder sobre a vontade de ganhar. Para além de que, como refere o ex-internacional Alain Penaud, existe da parte dos treinadores franceses uma auto-suficiência prejudicial – olham para o Sul do alto da sua burra e não mostram compreender as transformações. No entanto, apesar de todas as debilidades que mostram – estão a jogar poucochinho e só os seus jornalistas parecem acreditar que o problema é do treinador… – têm a sorte do calendário e a oportunidade de aparecer num bom lugar final. Mas não servirão de grande exemplo para quem queira construir futuro.

Verdadeiramente, os franceses derem a mostra de absoluta incapacidade para uma equipa de pretensões – de que serve a super-máquina de treino de formações ordenadas, último grito da tecnologia? – e que se vê sempre como potencial vencedora. Para os adeptos servirá, para manterem a ilusão, a ideia que jogaram com uma equipa reserva, com um conjunto de médios de recurso, e que tacticamente a derrota era o melhor resultado – mas isto não retira as notórias deficiências de um jogo que raras vezes se mostra fluído nas ligações e acutilante na criação e exploração de desequilíbrios.

Do lado All-Black, mais uma lição da utilização do losango - esse ADN do rugby de movimento - que, começando no gesto técnico de contacto de dar as costas, é o instrumento de apoio e garante da continuidade do movimento que permite tornar eficaz o jogo de primeira fase e demonstrar – de novo – que o jogo de muitas fases é um mito de capacidade: muitas fases apenas demonstram incapacidade para criar desequilíbrios e resultam sempre de uma relação negativa de oposição ataque-defesa. Afinal não é o ataque que tem o domínio do tempo e do modo? O controlo do momento da decisão?

O Rugby é um jogo de ataque! e a maior parte das equipas que disputam este Mundial, pesem as maiores ou menores capacidades, têm mostrado gostar que assim seja.

(e por ser assim, com jogos interessantes que se querem ver, a difícil conjugação de horários neste lado de cá do mundo...)

Em Tempo: a vitória da Inglaterra sobre a Roménia por 67-3 (10 ensaios a zero) construiu-se com 52% de posse de bola e 50% de domínio territorial por parte dos ingleses. Saber jogar, saber utilizar a bola - e neste saber estão incluídas as componentes técnicas e tácticas que permitem criar desequilíbrios - faz a diferença

CURIOSIDADES E CRIATIVIDADE

Jogo entre a Austrália e os Estados Unidos mostrou - apesar do banho australiano de 11 ensaios contra um - algumas curiosidades estatísticas.

Por mais estranho que pareça a Austrália foi dominada quer em termos de posse de bola, quer de conquista territorial. E no entanto ganhou com uma diferença de sessenta e dois pontos! Interessante e intrigante.

Os Estados Unidos conseguiram 54% de ocupação territorial e 53% da posse da bola, obrigando assim os australianos a realizarem 90 placagens contra 77 dos americanos. Mas marcaram onze ensaios...

Esta situação coloca de novo a questão da importância da posse versus capacidade de utilização. E como demonstram os números: a capacidade de utilização eficaz da bola resulta em pontos, a posse nem sempre - como podemos ver no exemplo, ainda na 1ª parte do jogo, da criação, por parte dos americanos, de 20 fases infrutíferas com a defesa australiana, com maiores ou menores dificuldades, a sobrepôr-se. O que vale mais? Defender bem ou ter a posse da bola?

Aqui chegados, temos outro ponto importante de discussão: que vantagens proporciona a posse da bola?

A primeira e mais evidente: enquanto de posse da bola o adversário não poderá marcar pontos - o que sendo uma forma de impedimento não evita, por si só e a julgar pelo jogo em causa, a derrota.

A segunda e mais interessante: quem tem a posse da bola tem a possibilidade do controlo da situação, detendo o tempo e o modo da acção. O que é uma óbvia vantagem e permite explorar a situação defensiva atacando, com a força surpreendente dos argumentos ofensivos, os pontos fracos defensivos. Ou seja, quem tem a bola, tendo a vantagem da decisão, pode criar as surpresas necessárias ao desequilíbrio defensivo e marcar pontos. Para o que necessita de duas coisas: dominar as técnicas e tácticas do uso da bola e ser capaz de impedir que o adversário antecipe a sua decisão. O que de novo nos leva até à formação dos jogadores e aos métodos a utilizar.

...E mantém a criatividade como instrumento da manobra do jogo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

VERSÃO POPULAR DA LEI 60/20

A versão popular da lei 60/20:
"é nos últimos vinte minutos que a porca torce o rabo"
A observação dos jogos também permite perceber que:
"à medida que o Mundial avança os sessenta diminuem e aumentam os vinte"
e portanto as diferenças entre escalões vão-se acentuando e o fosso entre pontos de resultado vai-se abrindo mais cedo e sendo cada vez maior.

Lei 60/20

Os analistas da International Rugby Board, com base na leitura dos resultados e estatísticas dos 19 jogos iniciais do Mundial 2011, acreditam que há um aumento da competitividade em relação aos anteriores, devido principalmente à capacidade das equipas do 2º escalão em conseguirem manter um resultado de intervalo reduzido durante bastante tempo.

Tomando a hora (60’) como referência, 10 dos 19 jogos tinham então uma diferença de sete pontos – a distância que permite arrecadar um ponto de bónus defensivo. Embora ainda não seja questão de ultrapassar, parece começar a haver capacidade de aguentar – o que significa que está a existir uma maior aproximação entre as equipas dos escalões contíguos.

Aguentados sessenta minutos no mesmo intervalo competitivo, os restantes vinte minutos transformam-se no aumento de desequilíbrios que ampliam as diferenças de resultados e que os fazem aproximar do que seria esperado de acordo com a pontuação do ranking IRB. O que prova uma ideia já anteriormente configurada: é nos vinte minutos finais que se estabelece a diferença. Ou seja e para quem é espectador: há uma hora para aguentar e vinte minutos para separar.

De uma outra forma pode-se enunciar assim a Lei 60/20:
"entre duas equipas de escalões contíguos o equilíbrio conseguido durante uma hora de jogo tende a desfazer-se, alargando o fosso do resultado, nos últimos vinte minutos”
E se o equilíbrio, acreditam os analistas da IRB, resulta de uma melhor preparação, possível quer pelo empenho das federações emergentes, quer pelo apoio financeiro e técnico da federação internacional – que permite a aproximação de sistemas defensivos, níveis de condição física e capacidade de aguentar o trabalho exigido pelo jogo contemporâneo durante uma hora de jogo, como dizem – a diferença que se estabelece nos vinte minutos finais deve-se ao profissionalismo das equipas e jogadores do nível superior. Que se traduz pela capacidade de dispor de bancos que permitem substituições de jogadores por outros do mesmo elevado nível técnico. Ou seja, os vinte minutos finais desagregam o equilíbrio porque as equipas do primeiro escalão têm um 22 mais equilibrado e mais poderoso enquanto que as equipas inferiores, baseadas ainda no melhor quinze, não têm ainda essa capacidade de substituir sem retirar valor.

Prevêem também os analistas que o desenvolvimento do profissionalismo – enquanto atitude, organização, competição - permitirá uma cada vez maior aproximação que terá a evidência da sua expressão no próximo Mundial de 2015 em Inglaterra e, espera-se, com uma maior igualdade entre as diversas equipas no Mundial de 2019 no Japão.

E Portugal perante este quadro? Não estando presente neste Mundial perde a oportunidade de mostrar como se enquadra neste equilíbrio de sessenta minutos. Mas admitindo, por hipótese, que se enquadraria na main stream estatística, falta saber como se poderá desenvolver o rugby interno para garantir a passagem dos vinte minutos finais sem a rendição que entrega pontos. Sendo o profissionalismo uma impossibilidade interna absoluta – não há receitas possíveis – que condições criar para desenvolver jogadores e colectivos que possam garantir resultados internacionais no nível mais elevado?

Formar a selecção nacional apenas com portugueses que jogam no estrangeiro com as possíveis consequências de desfasamento entre a comunidade rugbística interna e os  representativos internacionais? Conseguir os acordos necessários para colocar os melhores jogadores portugueses em boas equipas estrangeiras com a certeza da sua dispensa para os jogos internacionais? Misturar as duas anteriores hipóteses ou acordar, como primeiro passo para aumentar qualidades e hábitos competitivos, com a vizinha Espanha um campeonato ibérico com a presença de duas equipas formadas pelos melhores jogadores portugueses?

Descobrir a estratégia do melhor caminho é, se quisermos um rugby português com qualidade internacional, uma obrigação.

Seja como for e se pretendermos apanhar o comboio da frente do rugby internacional, o modelo tradicionalmente utilizado em Portugal é chão que já deu uvas. Só a mudança, só a criação de um novo modelo competitivo, só uma nova articulação da formação com a previsão técnica do futuro, podem permitir chegar ao estádio superior da competição internacional. É tempo de mudança e se ela é necessária, a melhor altura para mudar é agora!

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