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sábado, 5 de março de 2022

COM UMA OU DUAS MÃOS?

Quando comecei a jogar ensinaram-se que a bola deve ser transportada nas duas mãos. Assim era sempre fácil passá-la para um lado ou para o outro, dizia-se. Eram os tempos do “step-away” tão caro a esse notável homem do rugby que era Serafim Marques conhecido enquanto jornalista como Cordeiro do Vale.

Mudaram os tempos e se não mudaram os princípios que definem um passe — forma de fazer chegar a bola em tempo útil a um companheiro que se encontre em melhores condições de garantir a continuidade do movimento da equipa — mudaram-se os processos. E se o importante era — e é — fazer chegar a bola eficazmente a um companheiro para que ele possa continuar o movimento, pouco importará a forma ou o estilo como o passe é feito deste de que seja feito com a eficácia adaptada ao posicionamento, velocidade e distância do receptor. E alguém o terá, mesmo sem eventualmente o ter pensado ou estruturado o processo, compreendido e realizado. Provavemente os miúdos fijianos que, jogando com o coco mais à mão e sem demasiadas instruções inibidoras, se deliciavam no jogo de passes feitos de que maneira fossem feitos. E mas tarde abriram os olhos ao mundo com as suas demonstrações de continuidade.

Hoje em dia o offloadpasse-em-carga — é uma necessidade e este gesto técnico deve ser uma ferramenta de utilização adquirida seja qual fôr a posição na equipa ocupada por um jogador. Ora este gesto tem a exigência de ser feito, muitas vezes, com apenas uma das mãos. Com uma evidente vantagem: a outra mão — em hand-off — permite manter o adversário defensor à distância realizando uma espécie de screen-pass  — colocando o corpo entre o defensor e o receptor da bola. 

O transporte da bola em duas mãos tem também uma vantagem — hoje cada vez mais aparente — que é a de mascarar a direcção em que a bola vai ser passada, iludindo as previsões do defensor e, eventualmente, dos seus companheiros. No entanto, o transporte de bola com uma só mão também não impede o seu passe para qualquer dos lados — basta pensar no passe-de-pulso do andebol e treiná-lo para realizar um passe para o lado da mão que transporta a bola como o vemos fazer a diversos jogadores.

Portanto bola em uma mão ou em duas depende das circunstâncias. O que exige treino — desde tão cedo quanto possível — de qualquer das situações e sempre com a exigência de eficácia não deixando que as formas mais livres do passe permitam negligências ou erros. A regra é simples: passe-se como se quiser mas garanta-se que o receptor possa captar a bola sem dificuldades de maior — tendo em atenção que a vida é mais fácil para o receptor que terá que se adaptar às dificuldades do passador que, por sua vez, estará em luta directa, muitas vezes corpo-a-corpo e sem grande liberdade de movimentos.

As duas mãos têm, no entanto, um papel decisivo na recepção da bola por ser a melhor forma de garantir a sua captação e o seu controlo.

Resumindo: bola numa ou duas mãos garantindo a libertação do movimento para fazer chegar a bola com eficácia ao companheiro receptor e recepção com duas mãos para garantir o seu controlo, permitindo — de acordo com o princípio de que durante a trajectória da bola no ar, o adversário poder avançar no terreno sem preocupações — ir buscá-la tão longe do tronco quanto possível.

Portanto e para que haja evolução e adequação às necessidades e velocidade do jogo os jogadores devem saber transportar e passar a bola com um ou duas mãos, por cima, por baixo, pela frente ou por trás porque quanto mais habilidosos forem na manipulação da bola, melhores serviços prestarão às suas equipas. 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

TAMANHO NÃO É PROBLEMA

Foto de Luis Cabelo
É um facto: a portuguesa Antónia Martins faz metade da jogadora sueca.

Mas quem disse que era preciso ser grande para jogar bem Rugby?

A equipa da Antónia — a selecção portuguesa feminina de Sevens — ganhou, no recente Trophy disputado no Jamor, por 43-0, marcando 7 ensaios, dois dos quais pela própria Antónia.

Acima de tudo, para se jogar Rugby é preciso ter conhecimento táctico do jogo, capacidades para execução eficaz das técnicas que o jogo exige e condições físicas que, combinadas, estabeleçam, no mínimo, o equilíbrio com as adversárias. E a Antónia, dominando, os três factores é uma óptima jogadora que demonstra à saciedade que tamanho não é problema

terça-feira, 10 de abril de 2018

A FORMAÇÃO E O PORTUGAL U18 NO 4º LUGAR DO RE CHAMPIONSHIP

Ficar em 4º lugar no Rugby Europe U18 Championship é bom! É um bom resultado para Portugal. Mas sendo um bom resultado final - graças a uma vitória no primeiro dia - não nos deve entusiasmar demasiado. Porque nos dois jogos - da meia-final contra a Geórgia e do 3º/4º contra a Espanha - não marcámos um único ponto. Ou seja, dois jogos a zero - o que é grave e demonstra deficiências e incapacidades que têm de ser reconhecidas e eliminadas. Quanto antes. Modificando processos na formação e voltando aos gestos básicos nas áreas da competição.  
O principal problema técnico dos jogadores portugueses está no facto de passarem mal a bola. Passam mal, recebem mal, correm para o lado, fogem do passador, não atacam a Linha de Vantagem, preferem a facilidade da colisão à exigência da manobra, procuram mais depressa o chão do que a continuidade e gastam a energia em movimentos laterais sem qualquer verticalidade. E essa incapacidade vê-se desde a selecção nacional sénior até às equipas dos mais pequenos - como pude verificar (mais uma vez) quer na festa de inauguração do campo de relva artificial do GD Direito, quer em jogos do Portugal Rugby Youth Festival (uma excelente organização desportiva) deste último fim-de-semana. Ou seja os jogos da selecção Sub18 alertaram mais uma vez - assim como os da selecção principal - para um problema da formação: não se ensina eficazmente a passar a bola!
Quadrado Estratégico das Acções Básicas do Passar e Receber
JPBessa
E não se tendo o domínio do principal gesto técnico do jogo não é possível conseguir bons resultados contra equipas mais fortes. Porque, como ensina o treinador neozelandês campeão mundial, Graham Henry: o objectivo da posse da bola é marcar ensaios! E sem circulação da bola fica-se na dependência do gesto individual ou do grosseiro erro defensivo.
Não nos iludamos: os resultados vitoriosos das equipas portuguesas - com uma ou outra excepção - têm sido obtidos contra equipas fracas e mostram à evidência o baixo nível em que deixámos cair o nosso rugby. Por evidente decréscimo da qualidade do treino e por baixo nível competitivo interno. Não há competitividade sem equilíbrio e não há desenvolvimento técnico-táctico sem competitividade.
E se a este mal passar e mal receber se juntam um jogo-ao-pé pouco eficaz - traduz-se apenas no alívio e não permite a sua utilização como arma atacante (capacidade decisiva para combater as cada vez melhor organizadas defesas) - e uma placagem defeituosa, pouco consistente ou efectiva, temos a demonstração evidente das falhas da nossa formação. Razões?!
Para além de uma eventual má preparação técnica dos formadores, de um mau conhecimento táctico do jogo e dos seus princípios, a campionite exacerbada que se percebe existir desde as equipas mais jovens retira a lucidez à preparação devida e conveniente dos gestos básicos.
Qualquer jogador, tenha a idade que tiver, deve perceber a necessidade da corrida vertical quando em posse da bola, do tempo eficaz de passe, da recepção já com a corrida lançada, da linha de corrida em apoio para receber - em convergência, atacando o ombro interior do adversário directo e não em fuga lateral - de manter a continuidade do movimento passando antes do contacto e não se deixando ir ao chão - ir ao chão representa uma "vitória" da defesa que se pode reorganizar e assim anular o desequilíbrio que o ataque tinha conseguido. O ataque à Linha de Vantagem, procurando os intervalos, é decisivo, ao permitir "encurtar" a linha defensiva, para garantir a manutenção da superioridade numérica atacante e para que haja conquista de terreno, devendo ainda os jogadores ser ensinados a receber a bola na "linha de passe" - a linha de bola mais próxima do "adiantado" como se fosse uma corrida de estafetas - e devem ser desaconselhados a jogar no conforto do "lá atrás" (situação que só deve ser utilizada em casos muitos especiais de envolvimento de defesas muito avançadas). 
Neste sentido deixo um esquema com aquilo que considero como as acções básicas fundamental para a aprendizagem do passe e da recepção para garantir a eficácia da posse da bola que. naturalmente, devem ser desenvolvidos com exercícios próximos do jogo, isto é, com oposição e num nível de intensidade - com menos volume e duração do treino - que permita uma adaptação a hábitos superiores às situações que os jogadores irão encontrar pela frente em jogos equilibrados.
Bom seria que os treinadores responsáveis pela formação dos jovens jogadores portugueses se preocupassem, essencialmente, em formar jogadores de futuro, ensinado-lhes as ferramentas principais que lhes servirão para garantir a sua capacidade de resolução dos problemas que o jogo lhes colocará. Bom seria que os responsáveis dos clubes, olhando mais longe do que a vitória imediata, fossem exigentes na qualidade técnica da formação. Porque a verdade é esta: não se pode jogar rugby sem o domínio básico de saber passar a bola - seja qual seja a posição que se ocupa na equipa.  


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

ELOGIO DA FORMAÇÃO NEOZELANDESA


O Barbarians-All Blacks traz-nos sempre à memória o ensaio - O ENSAIO - marcado no jogo de 1973 e que muitos consideram o melhor de sempre: Phil Bennett, estreante nestas andanças, apanhou uma bola chutada do campo neozelandês e que viu saltar quatro vezes e a cerca de 5 metros dos seus postes, lembrando o conselho de Carwyn James antes do jogo - Vai lá para dentro e joga como sabes, joga de acordo com o que tiveres na frente como fazes no clube - fintou 4 all-blacks e passou longo para JPR Williams que, "engravatado" pelo neozelandês Bryan Williams, ainda assim passou a bola a John Pulin que a passou a John Dawes que a entregou a Tommy David que, como bom terceira-linha, garantia o apoio interior e que, naquilo que hoje se chama um off-load, obrigou Derek Quinell a uma difícil recepção - e já estavam ultrapassados os 10 metros do campo adversário... - e que, procurando o exterior para entregar ao  ponta Bevan, viu aparecer a seta Gareth Edwards - que lhe berrava em galês "dá-me!, dá-me!" - para correr toda a área dos 22 e mergulhar na área de ensaio. Soberbo! Foram 95 metros de avanço, apoio, continuidade e pressão - pelo número de jogadores disponíveis numa constante organização de losangos para opção de passes. Sete jogadores envolvidos (6 galeses e um inglês) para 24 segundos de magia de um Rugby que vale a pena ver vezes sem conta. Inesquecível! Um tratado, uma maravilha que nos faz sempre pensar que deveríamos, todos, jogar assim.

Nessa altura, já lá vão 44 anos, a superioridade técnica e táctica do Norte - principalmente através dos jogadores que constituíram a então notabilíssima equipa do País de Gales - era evidente. Phil Bennett ao contar hoje porque decidiu lançar o contra-ataque mostra à evidência essa superioridade táctica: Poderia ter chutado calmamente para fora mas pensei "Quando é que os adversários relaxam mais? é quando nos obrigam a recuar para a nossa linha de ensaio e estão a pensar para eles próprios "Eles vão chutar para fora.". E ao aproveitar a oportunidade, impondo a sua tremenda técnica de side-step, iniciou o melhor ensaio de sempre. E os companheiros, em simultâneo e como contam hoje, pensaram: "ele não vai chutar, ele vai atacar - tenho que me recolocar!". E assim fizeram para garantir a continuidade do movimento de um jogo memorável com vitória, por 23-11, dos Barbarians.

Este último Barbarians-All Blacks do sábado passado mostrou-nos o contrário. Mostrou que a qualidade do jogo na Nova Zelândia é muito superior à dos outros países. O conhecimento táctico do jogo é notável, simultâneo - todos lêem a mesma coisa ao mesmo tempo - e permite a percepção colectiva da oportunidade.

No jogo, que os All-Blacks venceram por 31-22, jogaram, dos 46 jogadores que formaram as duas equipas, 33 (23+10) jogadores neozelandeses a que se juntou Kieran Read como "garrafa de àgua". O que representa uma demonstração da qualidade da formação e competição interna neozelandesa.

Baseada no passar e receber e no conhecimento do jogo - Game Sense é o recurso do ensinamento formativo - consideram que o ensaio é o objectivo principal, a razão do uso da posse da bola e a finalidade do jogo - Graham Henry explicou em tempos recentes essa ideia aos internacionais argentinos que se confessaram vantajosamente surpreendidos. A partir desta base são desenvolvidos, com o rigor necessário, os mais diversos gestos técnicos a que se junta uma cultura táctica que irá permitir a sintonia colectiva em cada momento do jogo : todos a lerem o mesmo e ao mesmo tempo. E assim conseguem, com competições equilibradas internamente e ao longo de todo o tempo de desenvolvimento dos jogadores, criar equipas de alto nível competitivo.

Num dos primeiros ensaios do jogo (15') favorável aos Barbarians - marcado pelo neozelandês George Bridge a passe de outro neozelandês, o terceira-linha Steven Luatua - o antigo abertura internacional inglês Stuart Barnes, comentou na Sky Sports: "nem precisou de olhar, ele sabia que o companheiro ia aparecer ali... são os dois neozelandeses...". Está tudo reconhecido, a formação neozelandesa, ultrapassando o mero ensino e desenvolvimento técnico que é a normalidade nos outros países, garante a coesão. Durante o percurso formativo neozelandês os jogadores aprendem a importância da Linha de Vantagem e da sua conquista, do reconhecimento de uma oportunidade pelo desequilíbrio que souberam ler no posicionamento defensivo da equipa adversária e aprendem ainda que devem estar mentalmente disponíveis para responder às propostas do companheiro portador da bola que é considerado o líder momentâneo a seguir e a apoiar, numa perspectiva de tudo procurar fazer para manter a bola viva, alinhando visões, conceitos e exigências na procura da eficácia colectiva. Com o jogo baseado na continuidade do movimento - os jogadores movem-se e posicionam-se de acordo com o movimento da bola e com a colocação dos adversários - os jogadores neozelandeses aprendem, desde cedo e para além de reconhecerem na velocidade de execução e de acção uma arma de excelência, as vantagens da evasão sobre a colisão, procurando entregar a bola antes ou ainda na fase de contacto - off-load - mas procurando o chão apenas quando se apercebem, por falta de apoio suficientemente próximo, ser essa a melhor maneira de garantir a posse da bola... para reiniciar a continuidade do movimento no tempo seguinte e tão rápido quanto seja possível. E assim constroem, tratando de desenvolver ao longo dos anos o domínio das técnicas das fases de conquista, a melhor e mais sustentável equipa do mundo.

O jogo de sábado mostra-se como exemplo vivo daquilo que a formação de jogadores deve seguir. O que significa que a formação e desenvolvimento, nomeadamente a portuguesa, devem aprender e utilizar os processos e métodos neozelandeses, esquecendo os métodos das escolas de velha guarda que, no fundo, no fundo, se limitam a esperar que os talentos ressaltem - a boa escola francesa perdeu-se no tempo e o próprio Didier Retière reconhece a necessidade da alteração urgente dos métodos. A Nova Zelândia, com pouco mais de 4,5 milhões de habitantes, sabe que é através da qualidade do desenvolvimento técnico dos seus jogadores que pode ombrear e ultrapassar os outros países do mundo rugbístico - e a qualidade significa rigor, rapidez e exigência na execução técnica, acerto nas decisões tácticas, domínio e preponderância do colectivo e assertividade na atitude.

Porque a vida nos ensina que a quantidade, por si, não garante qualquer qualidade; mas que a qualidade, essa sim, garante quantidade. E se queremos mais jogadores, tratemos de garantir a sua qualidade para que possam, pelas capacidades que demonstrem e pelos resultados que atinjam, atrair mais outros.

A descrição do ensaio de 1973 foi feita, para além das imagens, com a ajuda do The Guardian    

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

APRENDER NAS DERROTAS

Que se aprende mais com as derrotas é um conceito muito espalhado no meio desportivo. Que, se contextualizado, tem a sua razão de ser - ninguém acha que, para aprender, o melhor é perder... - mas considera-se que a euforia da vitória nem sempre permite analisar convenientemente as fraquezas da equipa. 
Este conceito permite, pelo menos, perceber que, apesar da derrota, existe sempre uma busca de futuro. E que a vida desportiva se baseia numa constante de oportunidades que devem ser aproveitadas - com o necessário treino de melhoria e adaptação.
Sob este ponto de vista, a recente derrota com o Japão deixou-nos factores de aprendizagem que nos devem permitir ampliar conceitos e gestos técnicos ou mesmo modificar hábitos desajustados.
O maior problema da equipa Sub 20 de Portugal esteve na formação-ordenada onde se percebeu não existir a coordenação e domínio técnicos necessários para transformar os oito jogadores numa unidade síncrona e capaz de equilíbrio na disputa da bola. Como parece óbvio, houve uma enorme ignorância - ou mesmo irresponsabilidade - ao não considerar a necessidade de garantir as condições de treino específico de uma componente de jogo complexa, dura e especial - é muito, muito difícil atacar atrás de uma formação-ordenada batida. E o jogo, tratando de marcar ensaios, exige que se garanta a possibilidade de avançar no terreno. 
A lição que daqui se retira é evidente: não é possível menosprezar componentes do jogo e o seu treino específico tem que se considerado sempre que o resultado - como acontece no Desporto - seja o elemento essencial a atingir.
Por outro lado e num ambiente terrível de água e lama, o jogo ao pé teve uma importância decisiva no percurso do jogo - conquistar terreno, afastando-o da área defensiva de ensaio para garantir a cobertura de erros naturais naquele estado de tempo e terreno. E os jogadores portugueses mostraram a sua deficiência neste aspecto quer técnica, quer táctica - deficiências que se notam nos diferentes escalões etários portugueses e que exigirão formas diferentes e mais exigentes de ensino e treino.
Tecnicamente os pontapés não têm a profundidade que deveriam ter - são curtos. E também não têm a direcção necessária, parecendo não resistir á atracção posicional dos defensores - cada pontapé deve criar um problema aos receptores, retirando-os da sua zona de conforto e não facilitando-lhes a vida ao dar-lhes tempo e espaço. Por lado ainda, a altura dos pontapés não era a mais adequada ao tempo necessário á chegada dos perseguidores - e sempre que os japoneses foram pressionados mostraram enormes dificuldades na resolução das situações. E esta incapacidade técnica criou uma incapacidade táctica que facilitou - e porventura entregou - a vitória ao Japão.
 Mas o maior erro táctico - porque se mostrou incapaz de interferir na estratégia - mostrou-se na opção dos pontapés que não tiraram partido nem dos pontos fortes da equipa nem das condições climatéricas. De facto a equipa portuguesa mostrou-se com grande qualidade de conquista nos alinhamentos - foi um dos seus pontos fortes. Nas condições climatéricas que existiam, o objectivo deveria ser - aumentando assim a pressão - o de colocar o jogo o mais próximo possível da linha de ensaio adversário. A conjugação destes dois pontos - aumentar a pressão e vantagem nos alinhamentos - deveria ter conduzido à opção de chutar as bolas para fora, criando um problema de complicada solução para os jogadores japoneses. Nesta situação a entrega do lançamento seria irrelevante e as vantagens valeriam o risco. Ficará a experiência.
As raparigas de Portugal Sub18 a comemorar a vitória sobre os USA
Noutro campo, as raparigas Sub-18 de Portugal foram reconhecidas pela Rugby Europe como "confirmação de um sólido talento" pelo resultado conseguido - 4º lugar - no Women's U18 Sevens European Championship enfatizando a vitória sobre os Estados Unidos - finalista da época anterior - por 7-0. De facto as jogadoras portuguesas, treinadas pelo João Catulo, foram notáveis - principalmente se tivermos em conta o nível do nosso desporto feminino quando comparado com o de outros países adversários. E destes jogos também se podem tirar algumas ilações. A primeira e mais visível será a necessidade de grande melhoria no jogo-ao-pé e a segunda diz respeito à capacidade de passe. 
De facto, não tendo as nossas representantes femininas grande velocidade de deslocamento - basta verificar as marcas dos nossos recordes de velocidade com os outros países adversários - é absolutamente necessário garantir a velocidade e eficácia dos gestos técnicos para poder estabelecer os desequilíbrios necessários. Assim sendo, o passe - rapidez do movimento e da velocidade da bola bem como a direcção e correcta recepção - é factor fundamental para a melhoria competitiva portuguesa (esta situação de melhoria do passe aplica-se a todas as categorias de ambos os géneros).

No caso das raparigas estão lá as características necessárias de atitude, coesão e solidariedade colectivas ou capacidade de luta. Agora é treinar o que deve ser treinado e melhorar as condições competitivas internas...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

JOGO DE MOVIMENTO

O jogo com o quinze da Universidade francesa se teve o desagradável da derrota portuguesa, teve o mérito de nos mostrar a qualidade da representação do “rugby de movimento”. O que para os mais interessados no desenvolvimento e treino do rugby foi uma boa oportunidade para retirar algumas lições que poderão ajudar na compreensão e ensino do método.

Sendo o modelo de jogo que melhor pode servir as características do jogador português, o jogo deu uma excelente perspectiva das suas possibilidades e potencialidades.

Mesmo sabendo que se tratam de jogadores de alguns melhores clubes franceses – o excelente abertura joga no Stade Toulousain - a selecção francesa surpreendeu pela maturidade demonstrada no domínio das componentes que permitem o “jogo de movimento”.

Começaram por surpreender no elevado nível de cultura táctico demonstrado. O que, desde logo permite a adaptabilidade necessária à continuidade eficaz do movimento – notou-se, por mais de uma vez, a capacidade de ler as tentativas portuguesas de surpreender – os alinhamentos, com “contras” muito eficazes, foram um bom exemplo disso.

Se os jogadores correspondiam com linhas de corrida eficazmente adaptadas ao movimento da bola quer em ataque, quer em defesa, mostraram sempre um capacidade de passe que tinha a velocidade adequada ao comprimento pretendido, permitindo algumas vezes a intercepção atacante – à semelhança de passes tensos do voleibol – do jogador que percebia ser o melhor colocado para atacar o espaço. E aqui uma outra lição a reter: a capacidade de atacar intervalos, procurando – e fazendo-o por diversas vezes – manter a bola viva através de passes heterodoxos mas adaptados às circunstâncias. Ou a capacidade de jogar em cima da linha-de-vantagem, passo primeiro para a eficácia do movimento. Houve de tudo a possibilitar momentos atacantes muito interessantes: passes antes do contacto, passes-em-carga, passes do chão, passes antes da defesa, passes dentro da defesa. Só possíveis aliás pela qualidade do apoio suportado em linhas de corrida em permanente adaptação ao movimento da bola e dos adversários. E nada desta capacidade pôs em causa a sua eficácia defensiva - por se atacar bem não significa que se defenda mal...

Seria interessante que os treinadores portugueses, evitando a armadilha do desconhecimento da língua, olhassem para a escola francesa do movimento de forma mais atenta. E ensinassem as suas bases técnicas, os seus fundamentos tácticos essenciais, a sua estratégia global, esse conjunto de instrumentos de estar de encarar e de utilizar o jogo de rugby, aos seus jogadores. Ganharíamos todos com isso num rugby mais interessante e, simultaneamente, mais eficaz

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O PASSE DE THRIN-DUC

"A eficácia depende da experiência que se viver em casos semelhantes"
Malcolm Gladwel in Blink

Para realizar passes eficazes é preciso treiná-los. Tanto os clássicos como os outros. Com a pressão cada vez maior que as defesas criam, os atacantes, cada vez mais, têm que dominar técnicas que permitam atingir o objectivo - fazer chegar a bola ao companheiro em tempo útil - de forma expedita. Muitas vezes os resultados dependem dessa capacidade onde o risco, sendo elevado, pode e deve ser minorado pelo treino.

Na formação do jogador o gesto técnico não ortodoxo deve ter o seu espaço de assimilação, controlo e experiência.


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