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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

O RETORNO DO 5/8?

O papel do médio-de-abertura, com as alterações de Junho de 2020 referentes à zona-de-placagem, permitindo uma mais rápida disponibilidade da bola, modificou-se. Tornou-se mais exigente na leitura e na consequente decisão. Mas também no movimento e linhas-de-corrida. Para além do facto de serem obrigados a adaptarem-se a outras tarefas — nem sempre serão os primeiros receptores dos passes daqueles que, embora muitas vezes sem o nº 9 na camisola,  os fazem das situações "expontâneas"... 

O recurso a jogadores com características próximas dos tradicionais médios-de-abertura — boa leitura, bom jogo ao pé, capacidade de aceleração e de variação do jogo — em lugares como 1º centro ou defesa não é novidade. Os franceses, os irlandeses, os australianos ou os ingleses já recorreram, desde os anos 80, à utilização de dois aberturas de formação, umas vezes para não deixarem de fora dois talentos, outras para encontrar soluções contra determinado tipo de tendências de organizações defensivas. Mas nunca com as intenções actuais.

Curiosamente os neozelandeses, os inventores dos 5/8, quando recorrem a dois aberturas — e fazem-no muitas vezes para não prescindirem da categoria dos seus talentos na posição (tendo até já jogado com três aberturas — 10, 12 e 15)  — utilizam-nos, na maior parte das vezes nos lugares de abertura e defesa. No fundo o objectivo é o mesmo: permitir que uma jogador com os hábitos de leitura e decisão esteja sempre disponível e suficientemente próximo para tirar partido das rápidas bolas dos reagrupamentos.

O nome de 5/8 para o que hoje designamos por abertura e 1º centro então com a designação de Primeiro e Segundo 5/8  nasceu na Nova Zelândia — terá sido Jimmy Duncan capitão dos All Blacks de 1903 que assim os designou na altura em que o número de avançados estacionou em oito e aumentou o número dos 3/4.

Se o facto da velocidade de disponibilização da bola a que se juntava muitas vezes uma concentração de defensores, já chama a atenção para a vantagem de ter um parceiro de características idênticas junto ao tradicional abertura com a consequente capacidades de uma segunda distribuição do jogo e a possibilidade de explorar de forma mais eficaz quer o recurso do ataque em duas-linhas quer pela capacidade de uso do jogo-ao-pé mais preciso e capaz de explorar espaços vazios na defesa adversária.

Este retorno, com a aplicação da nova Lei dos 50:22, está a ganhar uma maior dimensão. Que, aliás, faz todo o sentido. Porque as alternativas para um 5/8 (12) mostram-se inúmeras... principalmente porque, quando já tem a bola à sua disposição, os seus adversários defensores já tiveram que alterar a sua posição inicial para — perdendo a comodidade do conhecido — tomarem a decisão de novos caminhos a seguir e, muitas vezes nesse necessário movimento de nova ocupação, deixando livres outros espaços que podem ser explorados com proveito.


Veja-se: com as possibilidades que a 50:22 abre, a defesa tem que recolocar uma real 3ª cortina defensiva com uma profundidade tal que permita controlar os pontapés dirigidos para as linhas laterais da área-de-22* e que muitas vezes e de acordo com as características adversárias, necessita ainda de um quarto jogador  nª8, Formação ou o Abertura que, passada a fase-ordenada, se recoloca em profundidade. Se uma inesperada recuperação da bola tem no 5/8 o elemento treinado para tomar a decisão para a sua melhor distribuição a que se acrescenta outro distribuidor (o abertura recuado ou mesmo, como utilizam os neozelandeses, o defesa) que comandará o assalto de uma segunda-linha.

No momento sequente ao da conquista da bola e com a bola entregue ao abertura atacante, o ponta-aberto da defesa terá, logo que percebe que o jogo atacante se fará ao largo, que subir para o nível da segunda-cortina defensiva para não deixar encurtar a defesa em relação ao número de atacantes. E é aí que entra o papel do 5/8 — que pode jogar ao pé para o espaço deixado livre pelos outros membros da anterior 3ª cortina defensiva. E repare-se que o 4ª elemento que se prepara para integrar a 3ª cortina ainda não percorreu o espaço que lhe garantirá a profundidade defensiva necessária.

Pode assim perceber-se as vantagens do recurso a um duplo do abertura. E se o defesa tiver também as capacidades de um abertura actual — esse cada vez mais vagabundo de múltiplas funções — o ataque ganha uma dimensão superior, controlando tacticamente o tempo e conseguindo que o domínio territorial não dependa apenas das vantagens físicas.

A equipa da França, que joga contra a Argentina neste fim‑de‑semana prepara-se para utilizar esta estratégia chamando para abertura e 1º centro os notáveis Mathieu Jalibert e Roman Ntamack numa primeira experiência com vista ao Mundial de 2023. Embora não indo tão longe que recorram a um terceiro abertura para o lugar de defesa, não deixara de ser curioso observar o comportamento táctico da adaptação que o formação e novo capitão, Antoine Dupont, fará na sua cobertura defensiva. Poderá continuar a ser um libero entre a 2ª e 3ª cortina defensivas? Como palpite poderá dizer-se que, para a linha e ângulos-de-corrida defensiva de Dupont, muito dependerá da capacidade de deslizamento da defesa francesa.

Novos caminhos estratégicos com a sua construção táctica parecem assim surgir desta recente alteração que pode, muito bem, tornar o jogo mais espectacular. 

Nota: a Lei 50:22 estabelece que se um pontapé for efectuado dentro do meio-campo do chutador e sair, depois de ter tocado no chão, pela linha-lateral da área-de-22, o lançamento subsequente pertencerá à equipa do chutador. Ou seja, com um bom gesto técnico de pontapé uma equipa pode colocar-se, com a vantagem das decisões que lhe permitem o seu próprio lançamento, dentro da zona vermelha do campo adversário e, realmente, conquistar terreno com o propósito de marcar ensaios.

domingo, 27 de junho de 2021

O MOVIMENTO ATRAVESSOU A MANCHA

 No início da minha ligação ao Rugby, os olhos estavam em cima dos franceses que faziam um jogo espectacular - dos AllBlacks havia poucas notícias e só se sabia que eram muito bons e que tinham uma visão simples e facilmente compreensível do jogo através dos Princípios Fundamentais com que o caracterizaram. E foi com o jogo de então dos franceses que percebi que a criatividade - a manobra - poderia sobrepor-se à força bruta e tirar maiores vantagens (só bastante mais tarde encontrei o conceito de Nun'Alvares Pereira de que se deve "no combate fazer prevalecer a manobra sobre o choque" que sintetiza tudo aquilo que deve ser feito neste jogo de combate que é o Rugby) e que assim seria permitido a portugueses - que não são o povo mais atlético do mundo - serem internacionalmente competitivos.

Com o passar dos anos o jogo francês com o seu "movimento" - de que aprendi os fundamentos com Pierre Villepreux que me abriu as portas ao conhecimento de René Delaplace - foi, infelizmente regredindo e deixou de ser uma referência.

A entrada de inúmeros jogadores vindos de outros países, de outras culturas desportivas e rugbísticas e que não tinham língua comum de entendimento terá dado nisto: o elemento de máxima comunhão do jogo, como acontece sempre que não há interpenetração cultural,  era o seu aspecto mais simplório e de mais fácil compreensão: o choque, a colisão, o tentar vencer a organização defensiva não pelo movimento das combinações mas sim pela criação de desequilíbrios conseguidos pelo confronto directo das forças. Enfim, a aculturação do jogo traduziu-se numa regressão do estilo de jogo do hexágono que deixou de ser atractivo e de iluminar os caminhos do progresso da modalidade. E o jogo aproximou-se da memória que existia dos traços culturais das velhas lutas entre povoações, numa espécie de vale-tudo para colocarem a bexiga de porco na praça dos contrários.

Disto tudo me lembrei ao ver, neste fim‑de‑semana, as finais do campeonato francês — entre o Toulouse e o La Rochelle — e do campeonato inglês, entre o Exeter Chiefs — campeão em título — e o Harlequins. Porque a diferença entre a colisão francesa permanente e as manobras em movimento inglesas foram como do dia para a noite. Entre o tédio e o entretenimento. 

No  jogo entre os finalistas franceses — e também europeus —predominou a colisão na procura da ultrapassagem da linha-de-vantagem através da força e a consequente demora reequilibradora da reciclagem da bola — sabe-se que tudo o que seja mais demorado do que 2 segundos para libertação da bola significa a possibilidade de reorganização defensiva, resultando daí um ataque em inferioridade numérica, aperta da vantagem dum eventual desequilíbrio criado ea consequente necessidade de voltar à primeira-forma, numa repetição constante sem surpresa e ou criatividade.


No jogo inglês — para espanto daqueles que não tenham seguido as transformações operadas neste tempo de pandemia — a manobra era a constante bem como a manutenção do movimento da bola com libertações da bola — pela excelência da posição corporal quando obrigados a ir ao chão — muito rápida e que permitiam sempre uma continuidade que obrigava a defesa ao difícil desempenho de ter que se organizar permanentemente em movimento — "scramble defense" como gostam de lhe chamar a lembrar a ordem de levantar voo imediato, nos aeródromos militares ingleses das esquadrilhas que se reorganizariam em formação de combate já no ar e que constituía a primeira exigência de defesa contra ataques alemães na II Guerra Mundial.  

Onze ensaios numa final fazem-na memorável — imagino o gozo dos que tiveram a sorte de assistirem ao vivo... — e mostram que o Rugby não tem que ser o jogo sensaborão e sem riscos que vamos vendo cada vez mais espalhado por esse mundo fora — também vi um insuportável Geórgia-Holanda...

O único interesse que encontrei na final francesa — que teve o dobro dos pontapés do jogo inglês — foi o jogo-ao-pé de Thomas Ramos que, desta vez e por lesão de Ntamack, jogou como médio-de-abertura e que deu uma lição de inteligência táctica de utilização do pontapé (veja-se a diferença, num jogo e noutro, do número de pontapés efectuados em jogo, bem como o número de alinhamentos em cada jogo) quer no jogo em pressão, quer em ocupação de terreno A qualidade do jogo-ao-pé de Ramos foi tal que o jogo deveria pertencer à biblioteca, servindo como aula, a todos, treinadores incluídos, que queiram ocupar o lugar "10" de uma equipa — os nossos internacionais Jerónimo Portela e Jorge Abecasis fariam bem em aproveitar algum do seu tempo para estudarem as decisões e as formas do jogo de Ramos nesta final. Uma verdadeira lição! Que exige muito conhecimento do jogo para permitir as leituras de que deu mostra.

E se os franceses fizeram mais placagens, os ingleses falharam apenas metade para um mesmo número de ultrapassagens da linha-de-vantagem. O que significa que o elevado número de ensaios não aconteceu por falhas da defesa mas porque houve as manobras de continuidade suficientes para desarticularem as defesas.  E o número de turnovers conseguidos — 23 contra 6 — mostra claramente o diferente tipo de jogo das duas finais: a colisão que leva o corpo ao chão nem sempre nas melhores condições de manutenção da posse e do tempo de libertação e a escolha do tempo de contacto com a posição adequada para a libertação imediata da bola — entrar de frente leva ao primeiro tipo de contacto, avançar o ombro contrário ao do transporte da bola leva ao segundo. Uma diferença que faz toda a diferença entre paragens e constantes recomeços de mais do mesmo e a destabilizadora continuidade do movimento, normalmente utilizada em sequência do mesmo sentido mas com todas, dependendo da leitura, as possibilidades de contrariar o posicionamento adversário mais organizado ou mais forte.

Pelas duas finais vistas e que correspondem ao já visto anteriormente nas meias-finais dos dois campeonatos, parece que os conceitos do Rugby de Movimento atravessaram a Mancha e começam a desenvolver-se. O que significará, se esta transformação for uma realidade, que — e porque a cultura rugbística tem aí um enorme berço — que o Rugby inglês, fazendo jus ao seu enorme número de jogadores, pode tornar-se uma potência capaz de ombrear com os AllBlacks. Há quem se lembre do que este tipo de jogo de movimento fez de um país de pouca riqueza e reduzida população como o País de Gales nos anos 70. Alguém recordou a lição e está — para bem e gozo de todos nós espectadores — a utilizá-la. Espera-se que para bem do Mundial de 2023...   


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

CRUSADERS CAMPEÃO EM JOGOS DE ALTO NÍVEL

Terminou o Super Rugby Aotearoa [país da grande nuvem branca em Maori] com a vitória dos Crusaders. A qualidade do rugby praticado foi de elevado nível — apenas inicialmente houve alguma desadaptação em relação às novas exigências legais do jogo no chão — como tivemos possibilidade de ver nas transmissões da SportTV.
Por razões da objectiva política da 1ª Ministra Jacinda Ardern — que, por isso, ainda teve que responder publicamente ao ignorante do sr. Trump — a prova teve menos um jogo (Blues-Crusaders os, mesmo assim, 1º e 2º classificados) uma vez que Auckland, cidade onde se realizaria o jogo, estava confinada pelo aparecimento de novos 4 casos de infecção depois de 102 dias sem qualquer transmissão. O outro jogo desta 10ª jornada pôde realizar-se — por se realizar na parte país que está no nível 2 —  mas apenas com autorização para a presença de 100 espectadores, sendo assim possível a presença dos familiares dos jogadores da casa.
A qualidade e o equilíbrio competitivo da prova foi quase permanente como se pode verificar pela relação de 64% entre os pontos de bónus defensivos (PBd) obtidos — 9 no total dos 14 pontos de bónus. E porque como os pontos de classificação nem sempre demonstram o que aconteceu no jogo, vale a pena olhar para a equipa dos Chiefs — a equipa de Warren Gatland que é o treinador mundial com os melhores resultados nos últimos anos — que, não tendo conseguido qualquer vitória, conseguiu em cinco das derrotas atingir a diferença inferior a oito pontos e conquistar assim 5 pontos de bónus defensivos. Mostrando assim suficientemente competitividade, embora sem capacidade vitoriosa. Mas uma equipa difícil e capaz.

Quota de Pontos representa a parte de pontos marcados por cada equipa em relação à totalidade dos pontos marcados na prova; Taxa de Sucesso representa a percentagem de vitórias nos jogos disputados; Desempenho representa a média dos dados anteriores; Pontos de Bónus defensivos sobre a totalidade dos Pontos de Bónus obtidos na prova e representa o equilíbrio competitivo da prova (as derrotas não são todas iguais e a obtenção de PBd di-lo)
Como curiosidade deste campeonato, o facto de três das cinco equipas terem um desempenho superior à média global de desempenho de 36% e como factores técnico-tácticos a reter a enorme capacidade demonstrada pela maioria dos jogadores no saber adaptar-se, mostrando-se capaz de garantir o apoio e a continuidade nas mais diversas situações  — e isto significa uma formação realizada com permanente oposição e de acordo com os conceitos do game sense e não com o permanente recurso a grelhas de exercícios que confundem o treino e a formação desportiva de uma modalidade com a disciplina da prática escolar. Mais uma vez, mas talvez de uma forma ainda mais clara do que de outras, os neozelandeses mostraram à evidência que a eficácia do rugby se produz estrategicamente com o avançar sempre! e que o objectivo do jogo está no ensaio. Apoio, verticalização, continuidade com linhas de corrida convergentes, bola em movimento, ataque aos intervalos com criação de superioridade numérica, são as bases do rugby de movimento que faz a força do rugby das antípodas. Vê-lo é uma delícia e simultaneamente uma óptima escola para copiar.
De notar também a capacidade de garantir uma elevada velocidade na libertação da bola nos rucks pela preocupação da preferência da manobra em vez da colisão e pela preocupação de colocar o corpo de forma a garantir a facilidade do passe ou da entrega da bola num gesto que, aliás, me faz lembrar o velhíssimo demi-tour contact que alguém, no meu tempo de jogador, importou de França. E cada vez mais é preciso usar o corpo, dando as costas, como parede para facilitar a execução do companheiro que se desloca de trás e possibilitando a recepção da bola, evitando assim as paragens dos designados breakdowns que permitem a recuperação defensiva.   

Como se pode ver a média por jogo dos Crusaders ultrapassa muitas vezes os 50% da média da generalidade dos jogo
Para um máximo de 9, que existiu num 4/5 dos Chiefs-Highlanders, numa média de 6 ensaios por jogo, houve um máximo de metros percorridos de 1342 no Highlanders-Hurricanes, ficando o Crusaders-Highlanders com a proximidade de 1209 metros percorridos para uma média global de 819 metros e com um número médio por jogo de placagens de 241 para um máximo, no Blues-Hurricanes, de 321 efectuadas - o que representa um esforço brutal e exige uma condição física de alto nível. Dez foi a média de Formações Ordenadas realizadas e 26 a de Alinhamentos, 12 foi a média de Turnovers e 21 foi a média de Penalidades concedidas por jogo. Com uma média de 292 passes cada jogo teve uma intensidade muito elevada. E lembre-se que durante dois meses estes jogadores só puderam treinar-se isoladamente e a sua preparação colectiva foi feita durante um mês com as restrições determinadas pelas autoridades de saúde neozelandesas. E fica a curiosidade: que metodologia, que processo foi utilizado para garantir a condição física apresentada que possibilitou notáveis espectáculos de rugby?
A amarelo as fases do jogo que envolvem a conquista da bola e a sua utilização, a verde os resultados e a branco o número de placagens e das penalidades concedidas
Para se ter uma ideia do que representa em acções de jogo o padrão neozelandês, aqui fica o seu valor realizadas para os sete jogos disputados pelos campeões Crusaders — repare-se que foram 27 os ensaios marcados... E se é verdade, como se diz, que depressa e bem há pouco quem, estes Crusaders conseguem demonstrar em campo uma notável capacidade de apoio sempre em elevada velocidade e no tempo exacto, o que significa permanentes antecipações às decisões dos companheiros, demonstrando conhecimento estratégico do jogo e domínio da sua cultura táctica. Quem transporta a bola comanda e os apoiantes seguem o chefe... Ou seja: conhecimento do jogo e muito treino, realizado sempre de acordo com as exigências do próprio jogo.
Depois deste primeiro e notável ensaio (ao mesmo temo joga-se o SuperRugby australiano que tem ainda duas jornadas para terminar) fica toda a curiosidade para o Norte-Sul neozelandês que se joga no próximo dia 29. Felizmente — embora à imprópria hora das 06.05 😳 — vamos conseguir ver... a SportTV transmite!

NOTA (21/8/2020) - Por razões relacionadas com o controlo da pandemia em Auckland — os 14 jogadores seleccionados para a equipa do North e 5 membros da equipa técnica aí residentes não estão autorizados, como a restante população da área, a deslocarem-se — o jogo foi alterado para o sábado 5 de Setembro, sabendo-se a confirmação do local, Eden Park de Auckland ou Sky Stadium de Wellington, depois da comunicação do Governo da próxima segunda.feira. Esperemos que a transmissão da SportTV se mantenha para esse sábado, dia 5.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

A MANOBRA PRECEDE A COLISÃO

Batalha de Aljubarrota - Retirado da Wikipedia

Comemora-se hoje, 14 de Agosto, o 635º aniversário da vitória de Aljubarrota do exército português, comandado por D. João l e Nun’Alvares Pereira, que, com notável capacidade estratégica, a que se aplicaram tácticas de experimentada e reconhecida eficácia, levou de vencida um numericamente muito superior exército castelhano.
Desta vitória, nascida do conhecimento e saber estratégicos de Nun’Álvares, alguma coisa se pode retirar para o nosso desporto de combate, o rugby.
A base estratégica operacional do Condestável, como ficou bem demonstrado em Atoleiros e em Aljubarrota, assentava no conceito de que “em combate a manobra precede a colisão”**.
Se pensarmos no rugby como desporto colectivo de combate e tendo em atenção que, se na maior parte das situações que regulam as fases do jogo, as defesas bem organizadas conseguem apresentar-se em superioridade numérica, a procura directa e imediata da colisão tende à ineficácia, permitindo novos reagrupamentos, com bola no solo e dando o tempo necessário para a reorganização defensiva. Ou seja, a procura directa da colisão, apostando na passagem em força, obriga, para ser eficaz, a que a relação de forças seja muito favorável ao portador da bola e aos seus apoiantes próximos. O que exige poder físico traduzido numa elevada distribuição de peso pela altura (compacticidade) a que se acrescenta força...
O recurso ao conceito estratégico de Nun’Álvares, manobrando, com o óbvio objectico de procurar e atacar pontos fracos da defesa, em vez de colidir com os defensores que formam a barreira defensiva, permite que a pretendida ultrapassagem da linha-de-vantagem se possa fazer quer por utilização dos intervalos, quer criando boas possibilidades para o recurso ao passe-em-carga (off-load) e garantindo assim a continuidade dos movimentos ofensivos.
Nada sabendo de rugby mas sabendo muito de combate, Nun’Álvares deixou-nos - principalmente a nós portugueses que temos sempre problemas de inferioridade física perante os adversários internacionais de valia - um conceito que devemos aproveitar para servir de base às tácticas portuguesas utilizáveis com óbvias vantagens para o equilibrio das forças presentes frente às melhores selecções europeias, nossos adversários directos para as competições mais importantes como o “6 Nações B” ou o Mundial.
Devemos assim fazer do ensinamento de Nun’Álvares Pereira de que em combate a manobra precede a colisão, um instrumento das tácticas rugbísticas portuguesas. O que obriga a que as equipas portuguesas que disputam a divisão principal nacional - equipas a que pertencem os jogadores que representarão a Selecção Nacional - sejam capazes de implementar e adequar os seus treinos á prática das manobras tácticas que permitirão o ataque aos intervalos, o passe eficaz seja de que forma fôr, o apoio em linhas de corrida convergentes, aumentando a capacidade de jogar entre-linhas e permitindo que a continuidade das fases produza sequências de rupturas e conquistadoras de terreno e, de preferência, de pontos.
Na permanente procura de resultantes tácticas que permitam que os Davides derrotem os Golias, o recurso a esta ferramenta estratégica de Nun’Álvares Pereira será, com certeza, um bom incentivo. 

** Bessa, Carlos, Academia Portuguesa de História, in Batalha dos Atoleiros, seu carácter precursor em Portugal 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

CULTURA TÁCTICA, ESPÍRITO DE EQUIPA

É preciso ter atenção à bandeirola do canto mas também tentar aproximar-me dos postes para facilitar a tarefa do chutador para a transformação. Tento pensar nisso.
 Arthur Retière, 22 anos, três-quartos-ponta do La Rochelle e melhor marcador de ensaios do TOP 14, membro da lista dos 42 convocados para a equipa de França, in L’Equipe, 29/2/2020

domingo, 5 de janeiro de 2020

UM NOVO PARADIGMA




Se o fantasma do pássaro fugidio que passou no último segundo de jogo na Tapada tivesse sido realidade o interesse do Grupo Título ficaria apenas no saber quem seriam os parceiros do Técnico e do Belenenses nas meias-finais do campeonato. Com a vitória de Agronomia, mantendo-se algum equilíbrio competitivo, poderemos ver o interesse dos actuais quatro primeiros em disputarem os lugares que permitirão os jogos em casa nas meias-finais — o que só é bom. Para o campeonato, para a Selecção Nacional e para o rugby português em geral. Pena é que Cascais e CDUL, com médias, respectivamente, de 29% e 28%, tenham, até agora, mostrado — veja-se também o gráfico “MELHOR ATAQUE - MELHOR DEFESA” — pouca capacidade competitiva. O que, infelizmente, irá diminuir a capacidade competitiva do Grupo.
No Grupo Despromoção o desequilíbrio é maior e já nada parece vir a impedir que o candidato à descida se decida apenas nos jogos que disputarão entre si Lousã e CRAV. Aos restantes, pelo existente regulamento, ficará apenas a obrigação de cumprir calendário. E assim os possíveis progressos, por falta de exigência competitiva, serão muito difíceis de conseguir. O que significa que as decisões sobre os quadros competitivos devem assentar em análises de resultados e capacidades demonstradas e não em meras vontades ou interesses sem medida.
Aliás, vistos alguns dos jogos da divisão superior, tem sido evidente a falta de maturidade táctica dos jogadores que, por falta de compreensão do jogo colectivo e embora se mostrem de bom nível técnico, cometem erros pouco admissíveis no melhor nível senior. Que são ainda muito jovens dir-se-à. Mas não são! porque a continuar o estatuto de amador para a grande maioria dos jogadores — como irá continuar — o terminar dos estudos e a chegada ao mundo do trabalho irão impôr as suas regras e a grande maioria dos jogadores terminará a sua participação competitiva. Sendo assim, os anteriormente tidos como jovens jogadores têm que se mostrar maduros — tão maduros como os direitos cívicos que já lhes pertencem — e terão que chegar ao nível senior com superior nível táctico individual, isto é com superior capacidade de visão, compreensão, decisão e execução. O que 
significa que o último patamar da formação (sub-18) tem que ser encarado com um outro rigor de transmissão de conhecimentos com treinadores para isso especialmente preparados e tendo como noção clara que o seu papel fundamental é o de “formar jogadores, não conquistar títulos”. A exigência de um novo paradigma está aí e parece evidente.


sexta-feira, 28 de junho de 2019

TAMANHO NÃO É PROBLEMA

Foto de Luis Cabelo
É um facto: a portuguesa Antónia Martins faz metade da jogadora sueca.

Mas quem disse que era preciso ser grande para jogar bem Rugby?

A equipa da Antónia — a selecção portuguesa feminina de Sevens — ganhou, no recente Trophy disputado no Jamor, por 43-0, marcando 7 ensaios, dois dos quais pela própria Antónia.

Acima de tudo, para se jogar Rugby é preciso ter conhecimento táctico do jogo, capacidades para execução eficaz das técnicas que o jogo exige e condições físicas que, combinadas, estabeleçam, no mínimo, o equilíbrio com as adversárias. E a Antónia, dominando, os três factores é uma óptima jogadora que demonstra à saciedade que tamanho não é problema

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

AAP: ANTECIPAÇÃO, APOIO, PRESSÃO

Os Crusaders venceram de novo e pela 9.ª vez o SUPER RUGBY. E venceram-no, por 37-18, de forma soberba. 
Durante todo o tempo de jogo os Crusaders mostraram capacidades com base numa enorme confiança alicerçada no estudo do adversário, das suas forças e fraquezas, enquanto equipa e enquanto indivíduos. Com estes conhecimentos a equipa dos Crusaders utilizou em permanência o processo AAP (Antecipação, Apoio e Pressão) quer em defesa, quer em ataque, criando os desequilíbrios necessários quer pela possibilidade de diversas opções de continuidade que o apoio, adequado na forma e útil no tempo, permite e que cria a pressão necessária para, diminuindo o campo de tomada de decisão pela diminuição do espaço e do tempo, encurtar a linha da defesa para, com a paciência demonstrada na sequência de acções e pela notável capacidade e inteligência de jogo dos seus principais transportadores, Read e Whitelock, encontrar os melhores espaços de penetração de que resultaram 13 quebras da linha da defesa para 4 ensaios marcados num valor de eficácia real de 30,8% contra 28,6% dos Lions - 7 quebras para 2 ensaios. Curiosamente os Crusaders tiveram apenas 44% de posse de bola a que corresponderam 128 bolas conquistadas enquanto que os sul-africanos Lions com 56% de posse - e 66% de ocupação do meio-campo — demonstraram pior eficácia na utilização das 158 bolas conquistadas.

Esta pior eficácia dos Lions assentou principalmente numa absoluta incapacidade de adaptação à realidade do jogo adversário — tentaram o que treinaram e não mostraram nunca capacidade para procurar outras soluções ou inovações. O exemplo do controlo conseguido pelos Crusaders sobre o ponto forte sul-africano dos maul-penetrantes nos alinhamentos e que foram repetidos, embora sempre derrotados, até à exaustão é significativo: nunca procuraram soluções diferentes formatados que estavam no seu fixo modelo.
Curiosamente os números globais não variam muito — como se pode ver no quadro seguinte — em relação à final de 2017 que os Crusaders também venceram, então em Joanesburgo, por  25-17. Pelo que se viu não houve lição retirável pelos sul-africanos da derrota de 2017...

Eficácia relativa = Ultrapassagem da LV/Nº de bolas disponíveis
Eficácia efectiva = Rupturas da defesa/Ultrapassagem da LV
Eficácia global = Nº de ensaios/Ultrapassagem da LV
Eficácia real = Nº de ensaios/Rupturas da defesa 
























Mas foram várias as demonstrações retiráveis deste jogo final.
1ª Demonstração — O Rugby trata do uso da bola
Com menos 30 bolas disponíveis os Crusaders, ao marcarem o dobro dos ensaios dos adversários resultantes de praticamente duas vezes o número de rupturas da defesa, mostram com clareza que é a capacidade de uso de bola — a qualidade — que determina o resultado e não o número de bolas disponíveis — quantidade. O que significa, naturalmente, que é o domínio da antecipação — prever colectivamente o que vai acontecer — do apoio e da pressão resultante que exige uma permanente velocidade de deslocação e execução, que determinam a diferença entre as equipas.
A capacidade dos Crusaders de jogar, circulando a bola, é de uma eficácia notável. Atacam a linha defensiva com diferentes ângulos de corrida, mostrando-se capazes de diversos movimentos como dobras ou cruzamentos pela mera detecção da colocação de ombros dos defensores — nada parece previamente combinado mas fruto da leitura e decisão momentâneas. E foi para atingir os níveis de excelência demonstrados que foram buscar, por recomendação de Daniel Carter, o irlandês Ronan O’Gara que soube trazer uma maior inventiva ao jogo das linhas-atrasadas dos Crusaders. 
2ª Demonstração — O Rugby é uma corrida de estafetas
Como no Rugby a bola não é passável para a frente, uma equipa nunca deve ceder terreno em relação áquele que conseguiu anteriormente conquistar. Sendo assim os passes entre jogadores da mesma equipa devem ser tão próximos quanto possível da linha que passa pela bola e é paralela às linhas de ensaio. Para que isso seja possível é necessário que entre a conquista da bola e a sua movimentação haja a maior velocidade possível para, ao não ceder terreno, fixar os elementos da defesa e contribuir para o seu encurtamento.
Neste jogo da final os Crusaders mostraram, por diversas vezes, essa capacidade de “passe na linha” e as vantagens que lhe são inerentes: conquista de terreno, fixação da defesa, encurtamento da defesa e consequente abertura de espaços.
Como numa corrida de estafetas o ponto de partida de cada recepção deve ser o ponto onde se encontra o portador da bola. 
3ª Demonstração — O Rugby é um jogo de adaptações 
Com maior velocidade e pressão utilizados no jogo, mais adaptações momentâneas são necessárias. Colectivas — das diversas unidades — e individuais. O que implica uma maior capacidade de leitura e de decisão por parte dos jogadores, implicando também diferentes formas de formação e treino de jogadores que possam permitir uma organização colectiva — total ou por grupos — que se possa opôr à movimentação adversária. Se à antecipação que o treino da leitura baseada na diversidade de situações permite, juntarmos o movimento do apoio adequado à situação, a adaptação e a organização que lhe é necessária está feita em movimento e sem perda de tempo ou cedência de terreno.
Ao contrário do treino organizado em “grelhas” com repetição dos mesmo movimentos, o treino — desde as primeiras idades — deve ser organizado de acordo com os conceitos do “game sense”, aproximando as situações do treino daquelas com que os jogadores se irão confrontar em jogo. E se a velocidade é um dos elementos necessários nas mais variedades situações do jogo, a velocidade aplicada no pós-placagem pode mostrar-se decisiva — como aconteceu neste jogo da final do Super Rugby — na definição da vantagem de uma equipa sobre a outra. O que significa que, para este jogo de movimento, a disponibilidade para a acção, sem considerar o número da camisola, deve ser total e constante
4ª Demonstração — O Rugby é um jogo de ataque
Muitas vezes se diz que é a defesa que ganha jogos. É relativo — muito relativo mesmo — este conceito. Uma defesa sózinha, por melhor que seja, não ganha jogos.
A defesa tem, claro!, enorme importância na composição do resultado... desde que o ataque seja eficaz e marque os pontos necesários.
O que a defesa pode conseguir é não perder jogos — os Crusaders conseguiram 84% de êxito nas suas 205 placagens enquanto os Lions se ficaram por 79% das 135 placagens tentadas. O que significa que é preciso que o ataque tenha marcado os pontos necessários à construção do resultado. Portanto mantém-se o princípio de sempre: o Rugby é um jogo de ataque! 
Os Crusaders são uma equipa notável recheada de internacionais All Blacks.E é tão notável que é corrente dizer-se: se queres ser um All Black junta-te aos Crusaders. Foi o que fez, aliás, Scott Barrett que prescindiu de jogar na mesma equipa dos irmãos Beauden e Jordie, para, como então disse, ir aprender com os melhores e ser All Black. Já é!

segunda-feira, 30 de abril de 2018

UM REGALO AZUL

De uma outra conversa foi do que se tratou no jogo do Restelo da segunda meia-final do play-off do Campeonato Nacional da 1ª divisão. Impecável e implicado o comportamento dos jogadores e espectadores que se mostraram apenas focados na construção do jogo numa demonstração do que deve ser a competição desportiva.
Para uma boa qualidade de jogo - para o que também contribuiu e em muito o voluntário árbitro, o neozelandês Kane Hancy (uma boa hipótese para apitar a ainda hipotética final) - com rápida vantagem para os azuis de João Mirra que mostraram uma enorme qualidade: sabem jogar rugby! 
O jogou terminou com a vitória azul por 37-10, conseguida com a marcação de 5 ensaios - o segundo ensaio valeu a ida num tratado de ataque à linha defensiva com fixação pela linha de corrida inicial e mudança súbita de ângulo de corrida para receber a bola, no tempo preciso, “na linha” e no meio de um intervalo sem possibilidade de recuperação defensiva. O ensaio - numa excelente demonstração de manobra evasiva - foi tão bom que merecia ecrãs no campo para garantir a repetição...
O mais impressionante desta equipa do Belenenses é a sua demonstração de cultura táctica individual e colectiva. Cada jogador, cada sector, sabe o que deve fazer, adaptando-se muito bem ao que tem na sua frente, permitindo assim a sintonia entre o individual e o colectivo que garante a coesão necessária ao sucesso da equipa. O ataque à Linha de Vantagem é sempre muito bem feito quer estejam em defesa quer em ataque, com subidas rápidas a dominar o espaço e a criar problemas ao adversário pela fixação que criam nos defensores e pela redução do tempo de acção - a que acrescem boas placagens - que impõem aos atacantes. Ou seja, a equipa belenense está ali para se impôr, para dominar os tempos, para ocupar o espaço e para usar ou recuperar a bola. Bonito de ver - há que tempos que não via uma equipa a jogar assim... - a que podemos ainda juntar a inteligência táctica do seu jogo-ao-pé: as bolas eram chutadas para o espaço vazio de forma a obrigarem os defensores a movimentarem-se, impedindo-os de receber a bola no conforto dos braços abertos. E as hipóteses de recuperação da bola ou da conquista de terreno a aumentarem... Excelente demonstração da qualidade de treino da equipa técnica comandada por João Mirra que conseguiu transmitir em acções de jogo a aplicação dos Princípios Fundamentais do Jogo: Avançar sempre! Apoio, Continuidade e Pressão. 
Um regalo para os olhos e para a cabeça.
O Cascais fez o que pôde, mostrando no entanto encontrar-se furos abaixo do adversário como é demonstrado pela diferença de 4-1 em ensaios. No entanto e apesar de já se encontrar a perder por 21 pontos de diferença, a equipa, numa bela atitude competitiva, mostrou-se com outra disposição depois do intervalo, ocupando a área de 22 adversária durante os dez primeiros minutos da 2ª parte e mostrando vontade de virar as coisas. Mas a sua incapacidade finalizadora nascida de erros na tomada de decisão não lhe acrescentou quaisquer pontos... e num ápice, o Belenenses marcava de novo, mostrando a sua excelente capacidade reorganizativa para jogar sobre bolas recuperadas. Domínio, mais uma vez, dos parâmetros da cultura táctica.
Com esta demonstração o Belenenses encontra-se na Final pelo mérito da sua capacidade de saber jogar e de traduzir em pontos esse conhecimento. Como deve ser, aliás, na competição desportiva.
E agora? Vai haver Final? Saltando barreiras - a cada novo vídeo que surge mais vergonhosa é a situação - sobre a vergonha de ontem?
Qual vai ser a posição federativa? A de anular o jogo, castigando jogadores e repetindo-o em campo neutro ou a de considerar que o jogo ultrapassou os limites do irrazoável, sendo retirado do mapa com atribuição do título ao Belenenses?
Ou tudo, num costume muito próprio, se esconde debaixo do tapete, tapando-se os olhos como se nada tivesse acontecido, buscando desculpas esfarrapadas e realizando-se a Final como se nada fosse?... 
...mas marcando o rugby português definitivamente com o ferrete da indecência. 
A situação é tão grave que urge uma decisão...
... porque estando os males feitos e o rugby português desacreditado, só uma intervenção firme que coloque os pontos nos is da ética desportiva servirá para restabelecer o padrão da imagem da decência. 
Facto, facto é este: o Belenenses, o seu rugby, a sua capacidade de construir jogo e mostrar como deve ser jogado, merecia outro processo. A sua postura competitiva exigia uma final com a dignidade de acesso dos dois adversários. E não o pecado desta.

terça-feira, 17 de abril de 2018

ACESSO AO WORLD TROPHY U20 E SISTEMA DE FORMAÇÃO


JPBessa, iPhone
Ao derrotar a Espanha na final do Rugby Europe Championship U20 por 25-3, a selecção de Portugal de Sub-20, classificou-se para o World Rugby U20 Trophy - o Mundial de nível 2 da categoria -  juntamente com Fiji, Samoa, Hong-Kong, Uruguai, Namíbia, Roménia (país organizador) e Estados Unidos ou Canadá, disputará do 9º ao 16º lugares mundiais.
Foi portanto um bom resultado - 90% de Quota de Pontos de Jogo - com consequências muito positivas - a experiência que a disputa deste Trophy irá permitir aos jogadores será muito importante para o seu desenvolvimento enquanto atletas de Alto Rendimento. 
Esta equipa comandada pelo Luis Piçarra conseguiu, até agora, o melhor resultado internacional do rugby português desta época que, aliás e pelos motivos óbvios, só pode ser suplantado pela vitória da selecção principal no jogo de barragem para a Rugby Europe Championship.
Portanto, bom resultado e uma boa alegria para jogadores, treinadores e adeptos. 
A Espanha entrou forte, parecia que iria criar muitas dificuldades a Portugal, mas… durou 10 minutos. Depois, Portugal tomou conta dos acontecimentos e estabeleceu o seu domínio nas mais diversas fases do jogo. E o resultado poderia ter atingido mais valor superior se houvesse, do lado português, chutadores-aos-postes capazes.
Tendo sido bom o resultado não devemos esquecer - as vitórias tendem a fazê-lo - o nível da qualidade da produção portuguesa. Que não foi elevada - o jogo correspondeu aquilo que era: segunda divisão europeia -  e que nos mostrou, mais uma vez e na sequência dos pontos fracos já detectados nas equipas nacionais principal e Sub-18, que é necessário, seguindo o conceito de Gates de que para melhorar alguma coisa deve procurar-se os meios que melhoram o sistema, rever e alterar o sistema de formação dos jogadores portugueses. Porque a evidência está aí: a continuar assim não conseguiremos atingir o patamar que nos permita participar no nível mais elevado das competições internacionais. E se existem óbvias dificuldades pela nossa dimensão física, a formação dos jogadores deve ser centrada no domínio técnico e conhecimento táctico que permita dar prioridade à manobra sobre o choque - como ensinava Nuno Álvares Pereira, ou seja, recorrendo à evasão e fugindo da colisão. O que envolve um outro, diferente e próprio, conceito de ensino do rugby aos jovens jogadores. Adaptado às nossas circunstâncias e com base no passe, na evasão, na placagem e no jogo-ao-pé.
Se já se viu o problema que cria a falta de um chutador eficaz - da ordem dos 80/90%, precisa-se - na construção do resultado o cumprimento da regra - uma equipa neste nível competitivo começa pela escolha do chutador - é fundamental. O que exige programação e treino sistemático.
Também o passe mostrou o que já sabemos: passamos mal, dominamos mal o seu tempo e não temos elasticidade na sua execução: se é longo é lento. Para além de que a sua direcção deixa muito a desejar… Mas placou-se bem com a preocupação primeira de colocar o adversário no chão, avançando a defesa sempre que possível e dando poucas hipóteses de penetração adversária.
Mas preocupante foi a demonstração da reduzida cultura táctica dos jogadores que provocou erros na sua tomada de decisões que não teve em conta, por demasiadas vezes, o tipo de situação defrontada. Três exemplos:
  • A decisão tomada nos ataques aos rucks adversários foi sempre idêntica e independente da situação. O que é um erro porque a regra deve ser estabelecida de acordo com a situação que se enfrenta. Ou seja, se não houve ultrapassagem da Linha de Vantagem pela defesa - isto é, se o ruck está a ser construído pelo adversário já dentro do campo defensivo - o objectivo dos defensores é o de atrasarem a saída da bola empenhando o menor número possível de jogadores para permitir a reorganização defensiva e, quando a bola for colocada em movimento pelo adversário, garantir que existe um maior número de jogadores na linha defensiva do que atacantes; a estória será outra se a defesa ultrapassou a Linha de Vantagem e obrigou o atacante a ir ao chão - isto é, placou-o - ainda dentro do seu campo: aí, porque existe superioridade numérica - os companheiros do atacante esta à sua frente - o que se pretende, empenhando quantos forem necessários, é a conquista da bola. Porque, se assim fôr, a conquista de terreno estará no mínimo assegurada e a possibilidade de ensaio mostra-se como hipótese muito provável. Portanto para duas situações distintas, duas actuações diferentes - e é disto que trata a adaptabilidade necessária que exige que as decisões sejam tomadas de acordo com o que se apresenta na frente. E Portugal teve mais do que uma situação do segundo tipo que tratou como se fosse do primeiro...
  • O outro exemplo diz respeito ao jogo ao largo em superioridade numérica - mesmo que o espaço livre seja curto, uma boa fixação pelo portador da bola vai permitir soltar um companheiro com terreno livre. E tivemos uma série de situações em que, em vez de fixar e passar, o portador resolveu entrar “para dentro”, indo ao encontro dos defensores da cobertura adversária. Ou seja, a equipa conseguiu - e bem! - encurtar a linha defensiva adversária criando espaço livre exterior e, depois, o portador preferiu ignorar a vantagem e a superioridade numérica. Sem outra solução que não fosse a ida ao chão, perdendo assim todas as vantagens do desequilíbrio conseguido.
  • O terceiro exemplo diz respeito às linhas de corrida atacantes. Se foi possível ver alguma evolução na procura da convergência pelo apoiante mais próximo do portador da bola, também se viu que o apoiante seguinte nada fazia para se aproximar do provável receptor, preparando-se apenas para receber a bola no conforto da sua posição recuada e parada. Ou seja, a uma convergência seguia-se o afastamento, terminando a vantagem de ataque aos intervalos que a primeira linha de corrida permitia. E voltava-se ao início: jogador no chão a permitir a reorganização adversária num constante desperdício das vantagens conseguidas. 
Ou seja, a equipa mostrou um modelo capaz - quer no desenvolvimento das acções defensivas, quer nas atacantes que se mostraram criadoras de vantagem - mas a ignorância táctica individual dos jogadores impediu a tradução da vantagem conseguida em pontos no marcador.
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Tratando-se de jogadores seniores à porta de entrada da selecção principal, este factor de menor cultura táctica para além de se mostrar preocupante será, se não for alterado, impeditivo de atingir resultados internacionais de melhor nível. E, por isso - repete-se - é preciso e urgente alterar o sistema de formação d@s jogador@s portugues@s.  

terça-feira, 10 de abril de 2018

A FORMAÇÃO E O PORTUGAL U18 NO 4º LUGAR DO RE CHAMPIONSHIP

Ficar em 4º lugar no Rugby Europe U18 Championship é bom! É um bom resultado para Portugal. Mas sendo um bom resultado final - graças a uma vitória no primeiro dia - não nos deve entusiasmar demasiado. Porque nos dois jogos - da meia-final contra a Geórgia e do 3º/4º contra a Espanha - não marcámos um único ponto. Ou seja, dois jogos a zero - o que é grave e demonstra deficiências e incapacidades que têm de ser reconhecidas e eliminadas. Quanto antes. Modificando processos na formação e voltando aos gestos básicos nas áreas da competição.  
O principal problema técnico dos jogadores portugueses está no facto de passarem mal a bola. Passam mal, recebem mal, correm para o lado, fogem do passador, não atacam a Linha de Vantagem, preferem a facilidade da colisão à exigência da manobra, procuram mais depressa o chão do que a continuidade e gastam a energia em movimentos laterais sem qualquer verticalidade. E essa incapacidade vê-se desde a selecção nacional sénior até às equipas dos mais pequenos - como pude verificar (mais uma vez) quer na festa de inauguração do campo de relva artificial do GD Direito, quer em jogos do Portugal Rugby Youth Festival (uma excelente organização desportiva) deste último fim-de-semana. Ou seja os jogos da selecção Sub18 alertaram mais uma vez - assim como os da selecção principal - para um problema da formação: não se ensina eficazmente a passar a bola!
Quadrado Estratégico das Acções Básicas do Passar e Receber
JPBessa
E não se tendo o domínio do principal gesto técnico do jogo não é possível conseguir bons resultados contra equipas mais fortes. Porque, como ensina o treinador neozelandês campeão mundial, Graham Henry: o objectivo da posse da bola é marcar ensaios! E sem circulação da bola fica-se na dependência do gesto individual ou do grosseiro erro defensivo.
Não nos iludamos: os resultados vitoriosos das equipas portuguesas - com uma ou outra excepção - têm sido obtidos contra equipas fracas e mostram à evidência o baixo nível em que deixámos cair o nosso rugby. Por evidente decréscimo da qualidade do treino e por baixo nível competitivo interno. Não há competitividade sem equilíbrio e não há desenvolvimento técnico-táctico sem competitividade.
E se a este mal passar e mal receber se juntam um jogo-ao-pé pouco eficaz - traduz-se apenas no alívio e não permite a sua utilização como arma atacante (capacidade decisiva para combater as cada vez melhor organizadas defesas) - e uma placagem defeituosa, pouco consistente ou efectiva, temos a demonstração evidente das falhas da nossa formação. Razões?!
Para além de uma eventual má preparação técnica dos formadores, de um mau conhecimento táctico do jogo e dos seus princípios, a campionite exacerbada que se percebe existir desde as equipas mais jovens retira a lucidez à preparação devida e conveniente dos gestos básicos.
Qualquer jogador, tenha a idade que tiver, deve perceber a necessidade da corrida vertical quando em posse da bola, do tempo eficaz de passe, da recepção já com a corrida lançada, da linha de corrida em apoio para receber - em convergência, atacando o ombro interior do adversário directo e não em fuga lateral - de manter a continuidade do movimento passando antes do contacto e não se deixando ir ao chão - ir ao chão representa uma "vitória" da defesa que se pode reorganizar e assim anular o desequilíbrio que o ataque tinha conseguido. O ataque à Linha de Vantagem, procurando os intervalos, é decisivo, ao permitir "encurtar" a linha defensiva, para garantir a manutenção da superioridade numérica atacante e para que haja conquista de terreno, devendo ainda os jogadores ser ensinados a receber a bola na "linha de passe" - a linha de bola mais próxima do "adiantado" como se fosse uma corrida de estafetas - e devem ser desaconselhados a jogar no conforto do "lá atrás" (situação que só deve ser utilizada em casos muitos especiais de envolvimento de defesas muito avançadas). 
Neste sentido deixo um esquema com aquilo que considero como as acções básicas fundamental para a aprendizagem do passe e da recepção para garantir a eficácia da posse da bola que. naturalmente, devem ser desenvolvidos com exercícios próximos do jogo, isto é, com oposição e num nível de intensidade - com menos volume e duração do treino - que permita uma adaptação a hábitos superiores às situações que os jogadores irão encontrar pela frente em jogos equilibrados.
Bom seria que os treinadores responsáveis pela formação dos jovens jogadores portugueses se preocupassem, essencialmente, em formar jogadores de futuro, ensinado-lhes as ferramentas principais que lhes servirão para garantir a sua capacidade de resolução dos problemas que o jogo lhes colocará. Bom seria que os responsáveis dos clubes, olhando mais longe do que a vitória imediata, fossem exigentes na qualidade técnica da formação. Porque a verdade é esta: não se pode jogar rugby sem o domínio básico de saber passar a bola - seja qual seja a posição que se ocupa na equipa.  


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

ELOGIO DA FORMAÇÃO NEOZELANDESA


O Barbarians-All Blacks traz-nos sempre à memória o ensaio - O ENSAIO - marcado no jogo de 1973 e que muitos consideram o melhor de sempre: Phil Bennett, estreante nestas andanças, apanhou uma bola chutada do campo neozelandês e que viu saltar quatro vezes e a cerca de 5 metros dos seus postes, lembrando o conselho de Carwyn James antes do jogo - Vai lá para dentro e joga como sabes, joga de acordo com o que tiveres na frente como fazes no clube - fintou 4 all-blacks e passou longo para JPR Williams que, "engravatado" pelo neozelandês Bryan Williams, ainda assim passou a bola a John Pulin que a passou a John Dawes que a entregou a Tommy David que, como bom terceira-linha, garantia o apoio interior e que, naquilo que hoje se chama um off-load, obrigou Derek Quinell a uma difícil recepção - e já estavam ultrapassados os 10 metros do campo adversário... - e que, procurando o exterior para entregar ao  ponta Bevan, viu aparecer a seta Gareth Edwards - que lhe berrava em galês "dá-me!, dá-me!" - para correr toda a área dos 22 e mergulhar na área de ensaio. Soberbo! Foram 95 metros de avanço, apoio, continuidade e pressão - pelo número de jogadores disponíveis numa constante organização de losangos para opção de passes. Sete jogadores envolvidos (6 galeses e um inglês) para 24 segundos de magia de um Rugby que vale a pena ver vezes sem conta. Inesquecível! Um tratado, uma maravilha que nos faz sempre pensar que deveríamos, todos, jogar assim.

Nessa altura, já lá vão 44 anos, a superioridade técnica e táctica do Norte - principalmente através dos jogadores que constituíram a então notabilíssima equipa do País de Gales - era evidente. Phil Bennett ao contar hoje porque decidiu lançar o contra-ataque mostra à evidência essa superioridade táctica: Poderia ter chutado calmamente para fora mas pensei "Quando é que os adversários relaxam mais? é quando nos obrigam a recuar para a nossa linha de ensaio e estão a pensar para eles próprios "Eles vão chutar para fora.". E ao aproveitar a oportunidade, impondo a sua tremenda técnica de side-step, iniciou o melhor ensaio de sempre. E os companheiros, em simultâneo e como contam hoje, pensaram: "ele não vai chutar, ele vai atacar - tenho que me recolocar!". E assim fizeram para garantir a continuidade do movimento de um jogo memorável com vitória, por 23-11, dos Barbarians.

Este último Barbarians-All Blacks do sábado passado mostrou-nos o contrário. Mostrou que a qualidade do jogo na Nova Zelândia é muito superior à dos outros países. O conhecimento táctico do jogo é notável, simultâneo - todos lêem a mesma coisa ao mesmo tempo - e permite a percepção colectiva da oportunidade.

No jogo, que os All-Blacks venceram por 31-22, jogaram, dos 46 jogadores que formaram as duas equipas, 33 (23+10) jogadores neozelandeses a que se juntou Kieran Read como "garrafa de àgua". O que representa uma demonstração da qualidade da formação e competição interna neozelandesa.

Baseada no passar e receber e no conhecimento do jogo - Game Sense é o recurso do ensinamento formativo - consideram que o ensaio é o objectivo principal, a razão do uso da posse da bola e a finalidade do jogo - Graham Henry explicou em tempos recentes essa ideia aos internacionais argentinos que se confessaram vantajosamente surpreendidos. A partir desta base são desenvolvidos, com o rigor necessário, os mais diversos gestos técnicos a que se junta uma cultura táctica que irá permitir a sintonia colectiva em cada momento do jogo : todos a lerem o mesmo e ao mesmo tempo. E assim conseguem, com competições equilibradas internamente e ao longo de todo o tempo de desenvolvimento dos jogadores, criar equipas de alto nível competitivo.

Num dos primeiros ensaios do jogo (15') favorável aos Barbarians - marcado pelo neozelandês George Bridge a passe de outro neozelandês, o terceira-linha Steven Luatua - o antigo abertura internacional inglês Stuart Barnes, comentou na Sky Sports: "nem precisou de olhar, ele sabia que o companheiro ia aparecer ali... são os dois neozelandeses...". Está tudo reconhecido, a formação neozelandesa, ultrapassando o mero ensino e desenvolvimento técnico que é a normalidade nos outros países, garante a coesão. Durante o percurso formativo neozelandês os jogadores aprendem a importância da Linha de Vantagem e da sua conquista, do reconhecimento de uma oportunidade pelo desequilíbrio que souberam ler no posicionamento defensivo da equipa adversária e aprendem ainda que devem estar mentalmente disponíveis para responder às propostas do companheiro portador da bola que é considerado o líder momentâneo a seguir e a apoiar, numa perspectiva de tudo procurar fazer para manter a bola viva, alinhando visões, conceitos e exigências na procura da eficácia colectiva. Com o jogo baseado na continuidade do movimento - os jogadores movem-se e posicionam-se de acordo com o movimento da bola e com a colocação dos adversários - os jogadores neozelandeses aprendem, desde cedo e para além de reconhecerem na velocidade de execução e de acção uma arma de excelência, as vantagens da evasão sobre a colisão, procurando entregar a bola antes ou ainda na fase de contacto - off-load - mas procurando o chão apenas quando se apercebem, por falta de apoio suficientemente próximo, ser essa a melhor maneira de garantir a posse da bola... para reiniciar a continuidade do movimento no tempo seguinte e tão rápido quanto seja possível. E assim constroem, tratando de desenvolver ao longo dos anos o domínio das técnicas das fases de conquista, a melhor e mais sustentável equipa do mundo.

O jogo de sábado mostra-se como exemplo vivo daquilo que a formação de jogadores deve seguir. O que significa que a formação e desenvolvimento, nomeadamente a portuguesa, devem aprender e utilizar os processos e métodos neozelandeses, esquecendo os métodos das escolas de velha guarda que, no fundo, no fundo, se limitam a esperar que os talentos ressaltem - a boa escola francesa perdeu-se no tempo e o próprio Didier Retière reconhece a necessidade da alteração urgente dos métodos. A Nova Zelândia, com pouco mais de 4,5 milhões de habitantes, sabe que é através da qualidade do desenvolvimento técnico dos seus jogadores que pode ombrear e ultrapassar os outros países do mundo rugbístico - e a qualidade significa rigor, rapidez e exigência na execução técnica, acerto nas decisões tácticas, domínio e preponderância do colectivo e assertividade na atitude.

Porque a vida nos ensina que a quantidade, por si, não garante qualquer qualidade; mas que a qualidade, essa sim, garante quantidade. E se queremos mais jogadores, tratemos de garantir a sua qualidade para que possam, pelas capacidades que demonstrem e pelos resultados que atinjam, atrair mais outros.

A descrição do ensaio de 1973 foi feita, para além das imagens, com a ajuda do The Guardian    

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

APRENDER NAS DERROTAS

Que se aprende mais com as derrotas é um conceito muito espalhado no meio desportivo. Que, se contextualizado, tem a sua razão de ser - ninguém acha que, para aprender, o melhor é perder... - mas considera-se que a euforia da vitória nem sempre permite analisar convenientemente as fraquezas da equipa. 
Este conceito permite, pelo menos, perceber que, apesar da derrota, existe sempre uma busca de futuro. E que a vida desportiva se baseia numa constante de oportunidades que devem ser aproveitadas - com o necessário treino de melhoria e adaptação.
Sob este ponto de vista, a recente derrota com o Japão deixou-nos factores de aprendizagem que nos devem permitir ampliar conceitos e gestos técnicos ou mesmo modificar hábitos desajustados.
O maior problema da equipa Sub 20 de Portugal esteve na formação-ordenada onde se percebeu não existir a coordenação e domínio técnicos necessários para transformar os oito jogadores numa unidade síncrona e capaz de equilíbrio na disputa da bola. Como parece óbvio, houve uma enorme ignorância - ou mesmo irresponsabilidade - ao não considerar a necessidade de garantir as condições de treino específico de uma componente de jogo complexa, dura e especial - é muito, muito difícil atacar atrás de uma formação-ordenada batida. E o jogo, tratando de marcar ensaios, exige que se garanta a possibilidade de avançar no terreno. 
A lição que daqui se retira é evidente: não é possível menosprezar componentes do jogo e o seu treino específico tem que se considerado sempre que o resultado - como acontece no Desporto - seja o elemento essencial a atingir.
Por outro lado e num ambiente terrível de água e lama, o jogo ao pé teve uma importância decisiva no percurso do jogo - conquistar terreno, afastando-o da área defensiva de ensaio para garantir a cobertura de erros naturais naquele estado de tempo e terreno. E os jogadores portugueses mostraram a sua deficiência neste aspecto quer técnica, quer táctica - deficiências que se notam nos diferentes escalões etários portugueses e que exigirão formas diferentes e mais exigentes de ensino e treino.
Tecnicamente os pontapés não têm a profundidade que deveriam ter - são curtos. E também não têm a direcção necessária, parecendo não resistir á atracção posicional dos defensores - cada pontapé deve criar um problema aos receptores, retirando-os da sua zona de conforto e não facilitando-lhes a vida ao dar-lhes tempo e espaço. Por lado ainda, a altura dos pontapés não era a mais adequada ao tempo necessário á chegada dos perseguidores - e sempre que os japoneses foram pressionados mostraram enormes dificuldades na resolução das situações. E esta incapacidade técnica criou uma incapacidade táctica que facilitou - e porventura entregou - a vitória ao Japão.
 Mas o maior erro táctico - porque se mostrou incapaz de interferir na estratégia - mostrou-se na opção dos pontapés que não tiraram partido nem dos pontos fortes da equipa nem das condições climatéricas. De facto a equipa portuguesa mostrou-se com grande qualidade de conquista nos alinhamentos - foi um dos seus pontos fortes. Nas condições climatéricas que existiam, o objectivo deveria ser - aumentando assim a pressão - o de colocar o jogo o mais próximo possível da linha de ensaio adversário. A conjugação destes dois pontos - aumentar a pressão e vantagem nos alinhamentos - deveria ter conduzido à opção de chutar as bolas para fora, criando um problema de complicada solução para os jogadores japoneses. Nesta situação a entrega do lançamento seria irrelevante e as vantagens valeriam o risco. Ficará a experiência.
As raparigas de Portugal Sub18 a comemorar a vitória sobre os USA
Noutro campo, as raparigas Sub-18 de Portugal foram reconhecidas pela Rugby Europe como "confirmação de um sólido talento" pelo resultado conseguido - 4º lugar - no Women's U18 Sevens European Championship enfatizando a vitória sobre os Estados Unidos - finalista da época anterior - por 7-0. De facto as jogadoras portuguesas, treinadas pelo João Catulo, foram notáveis - principalmente se tivermos em conta o nível do nosso desporto feminino quando comparado com o de outros países adversários. E destes jogos também se podem tirar algumas ilações. A primeira e mais visível será a necessidade de grande melhoria no jogo-ao-pé e a segunda diz respeito à capacidade de passe. 
De facto, não tendo as nossas representantes femininas grande velocidade de deslocamento - basta verificar as marcas dos nossos recordes de velocidade com os outros países adversários - é absolutamente necessário garantir a velocidade e eficácia dos gestos técnicos para poder estabelecer os desequilíbrios necessários. Assim sendo, o passe - rapidez do movimento e da velocidade da bola bem como a direcção e correcta recepção - é factor fundamental para a melhoria competitiva portuguesa (esta situação de melhoria do passe aplica-se a todas as categorias de ambos os géneros).

No caso das raparigas estão lá as características necessárias de atitude, coesão e solidariedade colectivas ou capacidade de luta. Agora é treinar o que deve ser treinado e melhorar as condições competitivas internas...

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