quarta-feira, 18 de novembro de 2015

JONAH LOMU (1975-2015)


Jonah Lomu foi a primeira personagem global do mundo do rugby. Um ícon global desde a sua primeira internacionalização - com 19 anos e 45 dias de idade foi então o mais jovem All Black - em jogo contra a França.

Era um atleta espantoso e muitas das suas jogadas podem, para nosso espanto e prazer, ser vistas em vídeos do YouTube. Grande (1,96m), forte (119kg) e rápido (menos de 11s aos 100m) era um problema para qualquer defensor. AllBlack número 941, representou-os, na posição de ponta, em 73 vezes. Também fez parte dos sevens de Gordon Tietjens com quem conquistou a Medalha de Ouro dos Commonwealth Games de 1998. Em 2003, a International Rugby Players Association atribui-lhe - apenas Jason Leonard e Jonh Eales tinham tido anteriormente a mesma honra - o Special Merit Award pelo seu contributo para a internacionalização do Rugby.

Era também humilde e uma simpatia. Encontrei-o no aeroporto de Hong-Kong há muitos anos, fui ter com ele, disse-lhe que era treinador da selecção de Portugal e quanto o admirava. Convidou-me para me sentar na mesa que ocupava e ficámos um largo tempo à conversa como se nos conhecessemos desde sempre. Ainda hoje guardo excelente memória desse momento e das explicações que então me deu sobre capacidades técnicas que utilizava.

A sua simpatia mostrava-o sempre disponível: recentemente, no Mundial de Inglaterra, a mãe de um jovem internacional português mostrava-me, orgulhosa, a recente fotografia do filho com Lomu, tirada ali, nos caminhos para as bancadas do estádio.

Jonah Lomu faleceu. O rugby e a sua comunidade não o esquecerão jamais.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

TRABALHO DE CENTRO

O trabalho de um Centro - primeiro ou segundo - tem muito a ver com a capacidade de manobra para garantir espaço para os seus companheiros dos corredores exteriores. Estes dois exemplos de dois ensaios All-Blacks mostram bem essa preocupação.
TRANSFORMAR UM 2X2 EM 2X1

Ma'a Nonu quando recebeu o passe de Carter - numa clara situação de 2x2 - teve a imediata preocupação de procurar o seu adversário directo. Com um passo para o interior, atacando o "ombro fraco" do adversário, obrigou-o a abrandar a corrida para, de imediato de lançar para o intervalo. E aí o ponta sul-africano, Pietersen, fica com um problema para resolver, sendo obrigado a tomar uma decisão entre manter-se a marcar o seu adversário directo - e pode ver Nonu a marcar entre os dois defensores - ou fechar o intervalo e tentar provocar um erro ao portador. Nonu continuou a sua tarefa e, quando viu a aproximação do adversário, fez um passe tenso para Barrett marcar. Como é que se joga um 2x2? Transformando-o num 2x1.
UMA DOBRA PARA GARANTIR SUPERIORIDADE NUMÉRICA

Sobre um ruck Aaron Smith saltou Coles - um credível transportador de bola - que fixou um adversário enquanto a bola chegava, não nas melhores condições, a Conrad Smith. Ao ver a defesa adversária a deslizar na tentativa de fecharem o corredor exterior, Conrad alterou os seu ângulo de corrida, trouxe um adversário consigo e "dobrou" com Aaron Smith que, como bom "atrelado" tinha seguido o passe. Depois foi simples: Aaron Smith e Richie McCaw fixaram os seus adversários pela directas linhas de corrida e o passe para Milner-Skudder foi uma facilidade para a classe do capitão All-Black.
Capacidade técnica, leitura e adaptação à posição de adversários e companheiros, linhas de corrida adequadas e colectivismo - ninguém pensou em brilhar para a bancada mantendo sempre o "nós" acima do "eu"- são os elementos comuns a estes dois ensaios e que fazem parte do repertório permanente do XV da Nova Zelândia.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

GANHOS E PERDAS DO MUNDIAL 2015




Quem ganhou mais - em pontos ou em lugares - aparece com a cor verde superior à cor azul. Naturalmente que os três primeiros classificados - Nova Zelândia, Austrália e Àfrica do Sul - ganharam como também ganharam posições a Argentina e o Japão - três lugares cada - a Itália e Geórgia - 2 lugares cada - e Escócia, Gales, este embora perdendo pontuação, que subiram um lugar no ranking
O grande perdedor foi a Inglaterra que desceu 4 lugares no ranking e perdeu 5,27 pontos. Seguiu-se Samoa que perdeu 3 lugares e 4,78 pontos. Fiji e Tonga perderam dois lugares e os Estados Unidos perdeu um. Namíbia e Uruguai não perderam pontos nem lugares - principalmente porque defrontaram equipas que tinham mais 10 pontos de ranking o que faz, por regulamento, com que a derrota não seja penalisada - e o Canadá, embora não perdendo lugares, foi a 5ª pior equipa a perder pontos bem como a Irlanda que também não perdendo lugares ocupou a 4ª pior posição em pontos perdidos com 3,23.
Durante o mês de Novembro equipas que não estiveram no Mundial vão ter jogos e o ranking vai mexer. No caso de Portugal que se encontra na 28º posição (55,72 pts) do ranking da World Rugby e que vai jogar a Hong-Kong com a equipa da casa, a Rússia e o Zimbabwe pode, caso haja vitórias e porque todos os seus adversários se encontram em posição superior e com mais pontos, amealhar pontos suficientes para subir de posição.

sábado, 7 de novembro de 2015

TRATADÍSTICA DE UM JOGO DE RUGBY

Twickenham WRC 2015 Final  Nova Zelândia - Austrália
Foto JPB iPhone
O jogo final do Mundial entre a Nova Zelândia e a Austrália foi um tratado. Mais: foi um conjunto de tratados, de tratado estratégico, de tratado táctico, de tratado técnico, de tratado de ensaios. Tão bom, tão explicativo das boas práticas que, enquanto conjunto de formas adequadas de fazer, merece ser considerado como Tratadística do Jogo de Rugby. Ou seja, que, por tudo o que mostra, deve ser utilizado como exemplo. E como tal, visto e revisto, estudado e voltado a estudar para daí se tirarem as conclusões que permitam desenvolver o rugby no sentido do futuro.
TRATADO ESTRATÉGICO
Estrategicamente e na procura de impor os seus pontos fortes e minorar pontos fracos, a Austrália, face à tipologia morfológica actual dos jogadores que ocupam a posição de centro, decidiu poupar os seus jogadores - abertura Foley e centro Giteau - dos eventuais impactos das colisões nos "duelos" individuais; por outro lado e face às capacidades dos All-Blacks, decidiram utilizar, tirando partido das capacidades dos seus Genya, Foley e Giteau, o jogo ao pé, explorando o jogo aéreo dos pontas que consideraram como ponto fraco adversário; a pretensão de tirar partido da capacidade de recuperar bolas no chão de Pocock, levou à sua colocação como nº8 para que, podendo ser o segundo placador, pudesse ser mais eficaz na sua acção recuperadora. A isto juntava-se a confiança na capacidade da sua formação ordenada com que esperava surpreender, com combinações desequilibradoras - ensaio contra a Inglaterra - a linha de defesa neozelandesa, bem como na resposta defensiva - como se viu contra Gales e agora com 68 placagens na 1ª parte - permitiam o optimismo pretendido para jogar e vencer uma final. 
Uma vez que, com excepção do bombardeamento sobre os pontas, a Austrália já tinha mostrado nos jogos anteriores as suas intenções, a Nova-Zelândia preparou a sua estratégia de resposta com o objectivo de marcar tão cedo quanto possível como demonstram os seus 64% de posse de bola e 81% de ocupação do campo adversário nos primeiros 20 minutos de jogo para terminar a 1ª parte com 71% de posse. Decidindo antes do mais tirar partido da colocação central dos dois terceiras-linhas, Hooper e Pocock, na zona central do campo; apostando na ultrapassagem da linha de vantagem para garantir a superioridade numérica após o primeiro breakdown - o recurso a mais homens do que os necessários em defesa para garantir a continuidade seria compensado pelos jogadores adversários que tinha ficado para trás - e, utilizando o jogo ao pé para obrigar o três-de-trás a recuar, pressionar para garantir o retorno da bola para contra-atacar com espaços abertos ou, obrigar a chutar para fora, conquistando terreno e podendo utilizar o alinhamento enquanto um dos seus pontos fortes.
Os dados estratégicos, neste mastermind isolado, distante e sem intermediários, estavam lançados.
TRATADO TÁCTICO
Como forma de responder, decidindo pelas acções adaptadas às circunstâncias, à pretendida pretensão de poupar os seus centros, os australianos colocaram, nos alinhamentos, Giteau no corredor de 5 metros e Foley como 2º defesa, colocando Hooper e Pocock como defensores do centro do campo.
A vitória neozelandesa começou a desenhar-se neste domínio. Reconhecendo-se superiores nos alinhamentos (100% nos seus 14 contra 7 em 10 adversárias) e até porque, com esta táctica, não era possível aos australianos utilizarem um terceiro saltador, os All-Blacks lançaram-se em três objectivos: realizar os alinhamentos tão rápido quanto possível para tirar partido na demora organizativa do esquema táctico dos australianos; atacar a linha de vantagem por forma a garantir superioridade numérica - Carter recebia o passe na linha de Aaron Smith com os defensores australianos ainda no seu campo; atacar a "dobradiça" por forma a obrigar os dois especialistas recuperadores a manterem-se na linha defensiva exterior e não os deixando assim participar no ruck. A juntar a esta estrutura, os All-Blacks acrescentaram o seu factor genético, a organização em losango em torno do portador, para garantir o apoio necessário à manutenção da continuidade enquanto elemento principal de criação de desequilíbrios.
Não menos interessante foi a demonstração táctica da capacidade australiana de explorar a superioridade numérica quando da suspensão temporária do defesa neozelandês Ben Smith. Desta adaptação positiva, resultaram 14 pontos que fizeram passar por Twickenham a possibilidade de um volte-face.
Mas de novo o império da táctica neozelandesa se impôs na preparação soberba do tempo - até porque um estádio interno o havia adivinhado - para a realização do pontapé de ressalto com que Carter terminou com quaisquer dúvidas sobre o novo Campeão Mundial. 
No entanto e acima de tudo porque exige um cumprimento integral de diferentes conceitos - a equipa primeiro! o nós superior ao eu! o portador comanda, eu sigo! avançar sempre! manter a bola viva! - a capacidade de convergir sobre o companheiro portador da bola marca a grande diferença dos All-Blacks para todas as outras equipas. E fez a diferença, neste jogo e no campeonato em geral, correspondendo ao domínio de uma vantagem táctica inigualável.
A capacidade de compreensão táctica neozelandesa demonstrada nas alternâncias de "largo envolvente"/"penetrante agrupado" conseguidas numa constante adaptação às circunstâncias propostas pelo portador da bola ou pela organização defensiva numa cascata de tomadas de decisão que permitem a passagem do losango ao turbilhão, qual bando de estorninhos, de alterações constantes de liderança e direcção e que representam, pelo referencial que exigem, um estádio superior de entendimento do jogo a que uma técnica apurada na eficácia da acção dá a realização necessária. E tudo começa na formação de jogadores com métodos que hoje enquadramos na designação de "game sense". E com a certeza que, sendo o domínio técnico muito importante, é na sua aplicação táctica, quer individual quer colectiva, que o seu valor absoluto é atingível.
TRATADO TÉCNICO
Porque o jogo não é um circo de demonstração de habilidades, a técnica pela técnica de nada serve. Só a técnica integrada numa expressão táctica enquadrada numa determinada estratégia garante a eficácia necessária à obtenção dos resultados desportivos procurados. Neste circuito integrado, a técnica representa o domínio das ferramentas disponíveis para efectivar cada acção.
E é essa integração - na táctica individual e colectiva - que permite a fluidez do jogo que as equipas apresentaram e que se mediu pela capacidade de manuseamento da bola que deram provas as duas equipas - com superioridade, também aqui, para os neozelandeses (os australianos cometeram 12 erros) que demonstraram as vantagens do conceito "passar e agarrar" que os segue desde o início da sua formação até aos dias de hoje - meia-hora antes do início da final vi dois segundas linhas, parados e separados por cerca de sete metros, a passarem a bola, tensa, de um para o outro durante cinco minutos em gestos precisos. Assim mesmo, sem mais! Também a recepção - lembrando o conceito de Barry John "atira que eu agarro" - se realiza a níveis que permitem a continuidade de sequências quando tudo parece já perdido. Claramente com custos para a defesa.
E se a demonstração das qualidades técnicas dos dois "formações", Aaron Smith e Will Genya, foi enorme, a velocidade de passe do neozelandês - principalmente da base dos rucks - garantiu sempre, pela manutenção dos desequilíbrios conseguidos, um tempo de avanço aos seus companheiros. E se a isto juntarmos a sua capacidade de leitura de cada situação, percebemos o porquê da designação de "melhor do Mundo".
De um ponto de vista formativo, o jogo teve uma qualidade demonstrativa: o desenvolvimento individual para o jogo está na aprendizagem simples das técnicas básicas - passe, recepção, corrida, pontapé, placagem - introduzidas num espaço de liberdade, experiência e objectivos. Com o propósito de ordenar colectivamente cada momento de desordem que o próprio jogo produz. 
TRATADO DE ENSAIOS
Uma final com cinco ensaios não é comum. Menos ainda se se trata de uma final de um Campeonato do Mundo. Mas foi o que aconteceu e significa uma atitude diferente por parte de ambas as equipas na forma de encarar e enfrentar os fantasmas de um jogo de "matar ou morrer". O que diz muito da transformação que estas duas equipas trouxeram ao jogo e à sua expressão.
Foram cinco ensaios para todos os gostos: de criação colectiva de combinações para garantir corredor livre de penetração; de organização colectiva para impor uma força; de exploração imediata de oportunidades (3º e o 5º do jogo); de organização colectiva em movimento com jogadores disponíveis para se adaptarem à visão e gesto técnico do portador da bola. 
A criação do primeiro ensaio do jogo é notável: depois de uma série de rucks, Aaron Smith salta Cole (que corre para dentro a chamar adversários) e passa a bola para os pés de Conrad Smith que agarra, verticaliza para então direccionar a sua corrida "para dentro" e desequilibrar toda a defesa com uma "dobra" a entregar de novo a Aaron que entrega a McCaw que solta Milner-Skudder para o ensaio. Simples, tacticamente a atacar o fraco, com ângulos de corrida adequados à disposição defensiva, tecnicamente no tempo exacto e a jogar colectivamente.
No segundo ensaio All-Black e para além de um espectacular passe-em-carga de Sonny Bill Williams, é a manutenção da posição no losango de Ma'a Nonu que garante a continuidade a que um "inside-out" de escola vai permitir uma corrida de 50 metros para colocar o resultado em 21-3.
Com a suspensão de Ben Smith, os australianos viram nascer-lhes a esperança com a marcação de dois ensaios: o primeiro numa excelente organização de "maul dinâmico" - que, provavelmente, não vai ser mais autorizado desta forma após a próxima alteração das Leis do Jogo - e o segundo num excelente aproveitamento do então "dois-de-trás" dos neozelandeses. Foley, no corredor exterior direito acena a pedir a Genya que jogue ao pé para o espaço desprotegido, Genya responde, Foley capta e, dando as costas aos adversários, passa para Kuridrani marcar um ensaio de belo efeito a colocar o resultado em 4 pontos de diferença.
E se já havia o extraordinário pontapé de ressalto de Carter a pôr calma, dento e fora do campo, nas
hostes neozelandesas, o último ensaio colocou a taça no topo do bolo All-Black. E o mais impressionante desse movimento foi a perícia técnica com que Barret, em elevada velocidade e depois de ter ultrapassado os seus adversários, teve o controlo, num gesto técnico de alto nível, para tocar a bola com o pé e conduzi-la na direcção da área de ensaio. 
Realmente foi um privilégio ter assistido ao vivo a esta final. Principalmente porque, demonstrando as vantagens da evasão sobre a colisão, o vencedor foi, na expressão das duas equipas, o rugby de movimento. O que torna esta Rugby World Cup 2015 inesquecível.


Twickenham RWC 2015 Volta de Honra
Foto JPBessa iPhone





sexta-feira, 30 de outubro de 2015

PALPITE FINAL

A regra da aposta para esta final Nova Zelândia- Austrália é fácil: se não se quer correr riscos mas também não se pensa em prémios elevados, aposta-se nos neozelandeses; se se pretende um maior risco mas a hipótese de um prémio mais elevado, aposta-se nos australianos.
Como mostra o quadro que segue, as vantagens da produção neste Mundial, salvo em "erros de manuseamento" pertencem aos neozelandeses.
Comparação entre os resultados estatísticos dos dois finalistas do Mundial 2015

Mas são valores que não definem um vencedor - as distâncias não serão tão grandes que permitam falar-se de vencedores antecipados. E mesmo que os valores fossem superiores para um dos lados, trata-se de de uma final de um Mundial. E numa final todas as previsões podem mudar por um pequeno pormenor que poderá afectar uma equipa de maneira imprevisível. Ou seja e por definição: uma final tem resultado final imprevisível. Para mais tratando-se do 1º classificado, Nova Zelândia, do ranking da World Rugby com 93,67 pontos, com o 2º classificado, Austrália com 91,75 pontos.

Ambas as equipas defendem muito e bem - 85% sensivelmente de eficácia - e ultrapassam a Linha de Vantagem em mais de 50% das vezes que têm a bola disponível. Para marcarem ensaios a Nova Zelândia precisa, em média, de 13 bolas disponíveis enquanto a Austrália necessita, também em média de 16 bolas disponíveis. O que, como cartão de visita, qualifica o jogo que iremos ver.

Diversas batalhas entre unidades adversárias vão dar uma particular intensidade a este jogo final: entre as terceiras linhas de McCaw, Read e Kaino pelo lado neozelandês e Hooper, Pocock e Fardy do lado australiano - e que luta se prevê nos breakdowns onde, aliás, há uma proximidade média de conquista entre ambas as equipas. Depois, ver se o título oficioso de "melhor formação do mundo" serve ou não a Aaron Smith que terá no australiano Genia um adversário de respeito. Carter, o abertura neozelandês considerado o melhor estratega mundial - para além da sua capacidade de chutar aos postes - terá na frente, não um, mas dois adversários: Foley e Giteau que fazem, em constantes adaptações às circunstâncias, o papel de abertura da Austrália. E pode-se ver a poupança a que são sujeitos para garantir a melhor das suas capacidades sempre que venha a ser necessário, com Giteau, nos alinhamentos adversários, a ser poupado do choque e colocado no corredor de 5 metros, enquanto que Foley se refugia muitas vezes na posição de defesa. Mas outro dos aspectos que terá interesse será o combate dos centros Ma'a Nonu/Colin frente-a-frente com Giteau/Kuridrani. E aqui, no melhor interesse neozelandês, vai haver choque. Como também será possível ver pontapés altos sobre Foley perseguidos pelo excelente Ben Smith - que serão mais ainda se Folau não puder jogar. Está visto: o combate dos dois meios-campos vai influenciar o vencedor. E o combate aéreo - onde se inclui a luta entre os pares Retalick/Whitelock e Douglas/ Simmons - será também um dos pontos sensíveis. E ainda falta saber como se comportarão as duas formações-ordenadas: para quem a vantagem? E o pequeno número de formações permitirá alguma importância no desenrolar do jogo?

O favoritismo, embora não muito elevado, está do lado dos All-Blacks que são, portanto, mais fortes. Que poderão fazer os mais fracos australianos para inverter a tendência?

Sabe-se da estória que David, o mais fraco, derrotou Golias, o mais forte, com recurso a tácticas e acções diferentes das usuais. 

Os designados mindgames, neste caso, estarão a passar-se no privado, na frente dos vídeos a tentar prever a estratégia adversária para escolher e montar a contra-estratégia - e o conhecimento mútuo da personalidade de cada um dos líderes, ajuda à montagem. Qualquer das duas equipas técnicas, comandadas por Hansen e Cheika, tem as competências suficientes para desmontar analiticamente as equipas adversárias, os seus pontos fortes e pontos fracos e as possibilidades de novas combinações e encontrar a forma de surpreender o adversário.

Marcar primeiro vai colocar problemas ao adversário que verá psicologicamente diminuída - numa quase proporção directa do aumento do adversário - a sua margem de sobrevivência... porque é de um verdadeiro combate que se tratará.

Palpite final: vitória da Nova Zelândia por uma diferença de 4 pontos.

MEIAS-FINAIS: DIÁRIO DE BORDO (II)


Twickenham foto iPhone JPB
No dia seguinte, domingo, o mesmo percurso com a vantagem do já conhecido: almoço de hamburgueres, metro e combóio - desta vez encontrei o também neozelandês Mannix (treinador do Pau) com quem falei do Samuel Marques - mais andarilhar rodeado pelo excitamento argentino e a confiança australiana com encontro obviamente marcado para a estátua do alinhamento à entrada do estádio. Por quem torce? perguntou um vizinho: pela Argentina do meu amigo Daniel. Mas não tinha uma fé por aí além. A experiência australiana era superior e as suas linhas atrasadas são muito boas. E os pés, direito e canhoto, de Foley e Giteau são capazes de manter a pressão territorial necessária. 

Como irão os argentinos, sob a vista do fabuloso Maradona, conquistar e ocupar terreno?

Aconteceu o que temia, apesar do muito maior domínio, os argentinos não conseguiram mais do que marcar penalidades. A usar o já referido sistema galês, o resultado final seria de 32-10 favorável aos australianos apesar de pertencer aos argentinos o domínio estatístico: 55% de posse da bola, 54% de território, 144 transportes de bola para 577 metros contra 100 transportes para 358 metros australianos, superioridade nas formações ordenadas. O que não deixa de ser estranho. Como é possível tal domínio e perder sem apelo? Razões do resultado? servirá a maior eficácia defensiva australiana com 83% contra 78% para explicar tudo? Creio que não.

O que terá tornado o jogo argentino ineficaz foi o seu conceito de jogo de ataque e, nomeadamente, o seu jogo ao largo. Mas a principal razão da derrota esteve na errada estratégia defensiva utilizada.

A Argentina saiu do balneário com uma ideia: marcar primeiro e pôr os australianos atrás do prejuízo. Situação onde serão, pensa-se, mais vulneráveis. Mas esta ideia, mista de confiança absoluta e risco, provocou o primeiro erro: a intercepção de Simmons para o primeiro ensaio. Jogar uma combinação nos primeiros minutos de jogo com passe interior à saída da área de 22 é muito risco para uma meia-final. É tentar o diabo, principalmente se o mundo inteiro já tinha percebido que esse movimento tinha criado dificuldades aos neozelandeses. E os australianos também o tinham percebido e fizeram o trabalho de casa: Simmons teve o prémio de ter cumprido o papel que o treinador lhe tinha destinado.

Meia dúzia de minutos depois uma defesa longe da lição das duas equipas do dia anterior que foram exemplares no cumprimento da regra defensiva de primeiro igualar e só depois subir, os argentinos preferiram uma defesa pressionante - blitz defence - que, pretendendo contrariar a circulação da bola à largura do campo, não conseguia igualar o número de atacantes nem ocupar todos os corredores e permitia assim que Foley, com um passe longo, abrisse caminho para um novo ensaio. Para, mais à frente e numa repetição simétrica, um passe longo de Giteau permitir novo ensaio. Resultado final: 4 ensaios sofridos contra nenhum marcado. 
Twickenham foto iPhone JPB

A ideia dos argentinos de ataque permanente pelas linhas atrasadas estava tão entranhada que pudemos assistir, após notável formação ordenada no limite da sua área de 22, que empurraram, dominaram e rodaram, afastando a 3ª linha australiana de qualquer possibilidade de intervenção e que fizeram? saída de nº8 sem sequência de 6 e 7 para atacar o canal livre e, em vez disso, passe para a linha de 3/4 que se viu, como seria natural, confrontada, sem qualquer vantagem, com o equilíbrio numérico. E assim se perdeu a última oportunidade para aproximar ou igualar o resultado.

A Austrália mostrou também ao que vinha em cada pontapé de recomeço: pontapé para a entrada dos 22 adversários com uma linha à largura do campo a subir rapidamente (quanto Foley pontapeia a bola passam por ele uma organizada linha de onze jogadores em alta velocidade) para pressionar - em superioridade numérica - os defensores argentinos, levando-os a chutar ou a cometer erros. Ou seja: colocar o jogo dentro do território argentino para tirar, como aconteceu, partido do risco.

Ao contrário dos neozelandeses que atacam intervalos em grande velocidade, procurando juntar defensores para abrir maiores intervalos, mas continuando a circular a bola sempre que a defesa fecha, os argentinos procuraram sempre a penetração em qualquer situação - mas sem capacidade de escalonar ou criar a profundidade necessária para garantir velocidade atacante e eficaz ultrapassagem da linha defensiva - a que faltou depois o apoio, a convergência, para garantir a continuidade para exploração do desequilíbrio. E assim as suas 56 ultrapassagens da linha de vantagem (contra 43 dos australianos) de nada serviram para chegar à área de ensaio.

A Argentina tinha enormes esperanças na vitória mas sobreviveu apenas através das faltas que conseguiu provocar e graças às excelentes qualidades de pontapeador do abertura Sanchez que lhe deu sequência pontual.

No final, as lágrimas de Daniel mostravam a enorme desilusão do campo argentino. Mas fica, pelo muito que se viu nos jogos efectuados, a certeza que, limadas arestas e com a maior experiência que o Super 18 lhes vai proporcionar, a equipa para 2019 será uma séria candidata. Como Daniel quer e apostou.

Retorno à cidade, desta vez de comboio. Jantar em restaurante italiano - óptima sopa - dormir e levantar às seis para, de novo, hora e meia de viagem para o aeroporto. No aeroporto de Stansted uma quase hora para ultrapassar as medidas de segurança aeroportuárias. Depois o habitual: ter que percorrer o prepositado caminho que passa por todas as montras da free-shop e deparar com um aviso: a porta para o voo para Lisboa está à distância de 12 minutos a pé. Sete horas depois da alvorada, chegamos a casa: Lisboa.  

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

MEIAS-FINAIS: DIÁRIO DE BORDO (I)


Twickenham foto iPhone JPB
O despertador tocou às 4 da manhã. Noite lá fora. Às 5 chega o táxi. No aeroporto é preciso pôr tudo à vista, tirar o cinto, segurar as calças, abrir a mala para colocar os produtos de tuálete no saco de plástico e atrelar a uma fila de gente para mostrar o cartão de cidadão. Para onde vai? Londres, respondi. Faça o favor e devolveu-me o cartão de cidadão. 

Entrei no avião, mostrei de novo o bilhete e sentei-me. Calhou-me o lugar da meio. Nos low cost não há espaço, os joelhos vão nos queixos. Não consigo dormir. Quando, com duas horas de viagem a coisa ia acontecendo, dez minutos depois estava cheio de dores no pescoço. Lá fora, pela janela, via-se um tecto de nuvens que prometia os aguaceiros da meteorologia - que raio de azar. Azar para o jogo e azar porque não há - só uma mala pequena ou paga -se mais do que pela viagem - roupa para grandes mudas (o gajo do lado quer ler o que estou a escrever, está admirado porque escrevo com a ponta do dedo no telemóvel). ATERRAMOS! e a malta bate palmas.

Bilhetes de ida e volta para uma viagem de três-quartos de hora de comboio, compra do Oister para o metro e procurar a linha justa no mapa do tube londrino. Chegada ao hotel em Kensington e apanhar o ar impávido do recepcionista: Check-in só a partir das 2 da tarde. Lá conseguimos que nos guardassem as malas e ala! Burger King e descobrir o melhor caminho para Waterloo para apanhar de novo um combóio para Twickenham - Casa do rugby inglês, como se anunciam.
Twickenham foto iPhone JPB

Os mapas avisam: 15 minutos a pé da estação até ao Estádio. Rua fora uma autêntica manifestação de entusiastas a sermos cumprimentados pelos voluntários. Um deles, com ar de chefe, ao ler no meu casaco a origem, admirou-se: From Portugal?! So nice. It's unusual... sem perceber que à volta havia outros portugueses. E o magote de diferentes adeptos, de diferentes camisolas, caminha rua fora sem atropelos, provocações ou o que quer que possa perturbar aquele momento mágico de paixão partilhada. 
Twickenham foto iPhone JPB

Nas casas do alinhamento da rua a oportunidade traduz-se na venda dos mais diversos home made, desde comida até artesanato - na janela de uma delas a estranha presença de uma enorme bandeira dos All-Blacks. Fotografias de ocasião, encontro com conhecidos - encontrei o treinador neozelandês Aussie McLean que esteve em Portugal na época passada - passagem pela loja e parar para ver os candidatos a pilares a fazer força na máquina a tentar bater-se uns aos outros e a igualar a marca de um pilar internacional inglês. Também se podem escrever mensagens pessoais na cartolina onde normalmente se lê Try!

Lugar encontrado, tudo sentado, entram as equipas, cantam-se os hinos e à volta vai correndo a cerveja para aclarar vozes e, para os mais distraídos, passarem o tempo a atropelar espectadores para irem, mesmo no meio de uma jogada, à bear room despejar o que beberam...
Twickenham foto iPhone JPB

Se os hinos representam um momento de grande emoção - as lágrimas caem por milhares de caras abaixo - o haka neozelandês é um momento único. E visto ao vivo - mesmo se as expressões faciais ficam longe das vistas na TV - tem uma dimensão dramática impressionante a que as diferentes interpretações - desde o "agarrem-me senão mato-o", ao "acagassem-se com a nossa força e desapareçam" até ao mais provável de ser apelo aos valores colectivos ancestrais de combate para, juntos, enfrentarem o adversário - dão a representação iniciática do combate. 

O jogo foi óptimo: duro, desgastante, intenso. Um combate. Com domínio, apesar da proximidade do resultado (20-18), dos neozelandeses: 57% de posse da bola, 67% de domínio territorial, 117 transportes de bola contra 76 de que resultaram 387 metros percorridos contra 149 dos sul-africanos; do lado all-black apenas 3 placagens falhadas - 96% de eficácia - contra 20 - 87% de eficácia - da parte da África do Sul; com, mais significativo ainda, 53 ultrapassagens da linha de vantagem contra apenas 25; e 2 ensaios contra nenhum. Um domínio óbvio, mesmo se uma injustificada inadaptação à arbitragem provocou o exagerado número de 14 penalidades - aceita-se por média, 10 -  e permitiu um resultado apertado a que a adaptação da actual experiência galesa de pontuação (6 pontos por ensaio e tudo o restante a valer 2) traduziria num resultado mais condizente com o visto: 20-12.

Muitas coisas ficam na memória do jogo como o passe NBA de McCaw para o ensaio de Kaino, o decisivo roubo de bola de Retallick num alinhamento sul-africano, a organização defensiva ou a capacidade de passe neozelandesa, esta última uma tradição que vem da constância, ao longo da carreira de jogador, do "catch and pass" - a jogada que deu o último ensaio na última hipótese da célebre vitória (24-22) de 2013 sobre a Irlanda, contou 25 passes. "Que outra equipa seria capaz de igual demonstração?" pergunta Graham Henry. Mas para a posteridade, para ver, rever e aprender é a jogada do segundo ensaio, a manobra atacante de Ma'a Nonu - ataque em velocidade ao intervalo, endireitamento da corrida com passada para dentro para fixar o defensor directo, continuação da corrida em ligeiro arco de círculo para chamar Petersen a vir fechar o espaço interior e aumento da largura do corredor exterior, por onde, lançado em velocidade, Barrett recebeu um passe preciso para marcar. Um 2x2 de excelência, manobrado com superior qualidade para ser transformado num mortal 2x1 a fazer jus ao velho conceito: como se lida com um 2x2? transforma-se em 2x1! Um tratado!

E de novo a qualidade de Carter, de Ben Smith, homem do jogo, ou do guerreiro capitão McCaw que voltou a demonstrar as suas capacidades de liderança - para além do exemplo, do combate, da obstinação vencedora - ao transformar a sua equipa para terminar como vencedora. Do lado sul-africano fica a enorme capacidade de luta, a força física e o pé de Pollard. De ambos os lados o rigor táctico no cumprimento do plano de jogo que oporia os pontos fortes e fracos de um e outro lado. Apesar da ansiedade dos minutos finais - dois pontos não são diferença - ganhou quem devia ganhar: a Nova Zelândia está na final, ganha o rugby de movimento e o prazer dos espectadores, perde a colisão. E a ideia da necessidade de bestas mecânicas para jogar rugby perde-se no espaço da técnica e da inteligência táctica.

A chuva aumentou. Fora do Estádio ouvia-se, pelos megafones dos voluntários, que existiam problemas na estação ferroviária de Twickenham e que devíamos apanhar os autocarros. Nunca mais saímos daqui, pensei. Bem organizados, com o plano treinado - por aqui, para tal parte, por ali para a outra - com dezenas de autocarros disponíveis saímos mais rápido do que supunha. Às oito e meia estava no hotel. Passagem rápida para marcar o ponto numa pint e ir jantar com amigos. Volta ao hotel e, já esgotado com as 18 horas de andamento, cama e dormir.

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