quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

APRENDER E TRANSFORMAR COM OS ERROS

As derrotas são desagradáveis mas têm a vantagem, se olhadas pelo prisma da sua diminuição, de permitirem - porque não há disfarces - conhecer melhor as razões dos erros cometidos. E aprender com eles.
E foi de muitos erros, de um lado e do outro do mundo, que tratou este fim-de-semana de derrotas para o rugby português.
Pese embora a juventude do sete português foi preocupante a imagem que deram de nada terem aprendido com a experiência de Las Vegas. As placagens foram uma inexistência, a colocação desastrada, o uso da bola uma incapacidade. A presença portuguesa na Nova Zelândia ficou-se por uma jogada individual de Sousa Guedes num ensaio que os estádios apreciam... mas que é muito pouco para uma selecção que quer garantir a sua continuidade no Sevens World Series. E se houve consistência, foi no erro que se concentrou : maus passes, bolas perdidas, faltas escusadas, más decisões. E placagens?!...
A placagem é um aspecto técnico decisivo no jogo de rugby. Tão decisivo que a sua importância pode caracterizar-se com ditos como "o que faz a diferença entre a pesca e o rugby é a placagem" para concluir com o demolidor aviso de "se não consegues placar, dedica-te à pesca!".
Placar exige atitude, quantas vezes coragem, boa técnica e muita decisão. E se a placagem se define como levar o portador da bola ao chão, nem toda a placagem é tacticamente relevante - e viu-se no quinze português no jogo contra a Geórgia muita placagem ineficaz. Porque defensiva, porque a deixar "entrar" o adversário portador da bola e permitir que os adversários mantivessem a continuidade da ofensiva, dando-lhes oportunidade de lançarem onda sobre onda para acabarem por encontrar o espaço de passagem. Desgastando os jogadores portugueses neste continuado esforço defensivo... obrigados a empenhar, em cada quebra, mais defensores do que atacantes adversários, proporcionando a vantagem numérica à oposição que assim impõe maior e mais rápida corrida na tentativa de conseguir segurar o avanço com um novo ponto de quebra. Até ao desespero da impossibilidade.
A placagem tem três objectivos: parar o movimento adversário, limitar-lhe a sequência e recuperar a bola. O que só se consegue se forem realizadas placagens ofensivas - as que são tacticamente relevantes porque eficazes - que obriguem o portador da bola a ir ao chão, caindo para trás e criando assim vantagem para os defensores e aumentando as suas possibilidades de recuperação da bola. E é esta a questão a resolver pela equipa nacional: placar ofensivamente. O que exige um posicionamento inicial mais agressivo e um superior sentido de predador nascido na vontade de ganhar - o killer instinct de que falam os anglo-saxónicos.
Atacar não é fácil. Por isso são raras as vezes que uma jogada termina, ao primeiro tempo, num ensaio. Na sua maioria os ensaios resultam de sequências que ligam quebras de rucks. E isto acontece porque a equipa em posse da bola vai conseguindo, pelo avanço, criar vantagens pelos desequilíbrios que consegue e que, somados, acabam por permitir romper a corrente defensiva. Para o que é fulcral garantir, em cada quebra, a rápida - rapidíssima - disponibilização da bola para que os defensores não tenham tempo para se reorganizarem. Jogando de acordo com o padrão: bola rápida, no mesmo sentido; bola lenta, sentido inverso. Para que não haja tempo perdido ou leituras a demorar a continuidade da acção. Ora a lentidão da disponibilização da bola do lado português - ao contrário do georgiano que tirava todo o partido da conquista de terreno - deitou fora muito do esforço de desestabilização conseguido pelos avanços portugueses. E foi muita a responsabilidade desse atraso na nossa ineficácia. Porque, como se sabe, a velocidade é o instrumento diferenciador, o que estabelece a diferença entre o possível e o impossível. E é de velocidade de disponibilização da bola que o quinze português precisa para poder dar continuidade aos seus movimentos e aumentar a pressão sobre a defesa adversária. Doutra forma...
Mas, mesmo se conseguida essa velocidade, é obrigatório que os jogadores que formam a linha do jogo ao largo sejam capazes de atacar a linha de vantagem, jogando na cara da defesa. Infelizmente o contrário, o jogar longe da área crítica de empenho absoluto das defesas e onde os riscos pagam dividendos, tornou-se a zona de conforto - completamente ineficaz para defesas minimamente capazes - do quinze português. E com certeza por isso mesmo são os piores marcadores de ensaios - conseguiram apenas 4 nos sete jogos efectuados - deste grupo A1 do Europeu das Nações. 
A selecção nacional joga sem a verticalidade necessária à eficácia das suas linhas atrasadas. E assim desperdiça as bolas conquistadas numa inoperante utilização da posse da bola.
O jogo de passes resolve-se no território de cinco metros para cada um dos lados da linha de vantagem. Porque fixa a defesa e não deixa que os seus jogadores se multipliquem e, mesmo quando o conseguem, obriga-os a correr de perfil ou mesmo de costas, com enormes e evidentes vantagens para os atacantes que encontram assim diversos espaços de penetração. Ao contrário, jogar longe da linha de vantagem permite que os adversários, de frente e com a linha de ombros na boa posição para placar, possam ainda deslizar, ocupando os espaços livres laterais e evitando penetrações ou envolvimentos. Os erros portugueses nas linhas atrasadas, embora procurando recorrer a duas linhas de ataque para surpreender a defesa, estão claramente no facto da sua primeira linha de ataque - a servir normalmente de isco na procura de fixar defensores - estar já muito distante da defesa adversária, levando a segunda linha atacante para distâncias inofensivas que dão todas as vantagens à defesa que se desmultiplica e consegue ainda tempo para subir organizadamente. A eficácia do ataque ao largo vive da capacidade do abertura em atacar a defesa e receber o passe lançado e sobre a linha do seu formação. Não o fazer é o principal contributo para a ineficácia das linhas que comanda.
Se estes são os erros que impedem - para não falar do jogo ao pé - a eficácia das acções, os quinze dias que faltam para o jogo de vitória obrigatória com a Bélgica têm que ser, tendo aprendido, tempo suficiente para os eliminar e passar a um estádio superior de execução. Porque a vitória na Bélgica - equipa só com derrotas mas que já conseguiu 4 pontos de bónus defensivo - é decisiva para, no mínimo, nos garantir a permanência neste grupo principal do segundo escalão europeu.

(também publicado no P3/Râguebi)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PORTUGAL-GEÓRGIA


A Geórgia marcou o mesmo número de pontos (17) em cada uma das partes mas em 12', após uma hora de jogo - dos 60' aos 72' - marcou a diferença. 

ROMÉNIA-PORTUGAL



A Roménia marcou 87% dos seus pontos no meio-tempo do centro.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

QUINZE VALORES DO RUGBY

Porque o "ensaio" - principal objectivo do jogo de rugby - é marcado lá ao fundo, na "área de ensaio", atrás da equipa adversária que pode agarrar e derrubar - sempre com os braços e nunca acima da linha dos ombros - o portador da bola que a transporta ou a passa - sempre para trás - para que a sua equipa possa marcar pontos, o rugby caracteriza-se assim por ser um jogo colectivo de combate organizado para a conquista de terreno. E sendo um combate colectivo mas também e apenas um jogo deve possuir um conjunto de regras que o limitam e um corpo de valores que lhe déem dimensão ética.
Porque "quinze" é o número do nosso jogo - pesem os sevens ou os tens - também quinze são os valores que nos enquadram. E que podem vestir as camisolas do 1 ao 15 como se se posicionassem no terreno como avançados, médios e três-quartos. Como se fossem uma equipa. Assim alinhada:
1. Criatividade porque o rugby nasceu de um gesto de rebelde criatividade de William Webb Ellis quando, no colégio de Rugby e a meio de um jogo de futebol, pegou na bola com as mãos e correu com ela em direcção à baliza adversária;
2. Lealdade porque não há qualquer hipótese de participar num jogo colectivo de combate sem a garantia de que há uma permanente lealdade de atitudes e gestos entre os contentores;
3. Abnegação porque não é possível participar num combate colectivo sem que haja um apagamento do "eu" em favor do "nós";
4. Solidariedade porque sendo um desporto colectivamente exigente como mais nenhum outro, o rugby exige que os membros de cada uma das equipas sejam capazes de ajudar a resolver qualquer problema com que um seu companheiro se confronte;
5. Desportivismo porque se trata de um jogo, como gostamos de fazer constar, de "cavalheiros", exige-se a existência de um código que se traduza pelas boas práticas desportivas;
6. Disciplina porque como jogo colectivo de combate, cada atitude, cada gesto, deve manter-se no quadro de referência das Leis do Jogo;
7. Autodomínio porque complexo como é, com os movimentos que exige, com a luta a que obriga, com a mudança constante para diferentes papéis que impõe, exige uma enorme capacidade de concentração, mantendo-se sempre focado nos princípios fundamentais no jogo;
8. Respeito porque sendo um jogo de combate exige que saibamos considerar o adversário como um parceiro sem o qual não há hipóteses de jogo;
9. Espírito de Equipa porque não é possível intervir num jogo colectivo de combate sem uma forte união determinada pelos objectivos comuns que marcam o carácter da equipa a que pertencemos;
10. Coragem porque a luta que se trava neste combate colectivo exige, quantas vezes, acções só possíveis em nome de valores mais elevados do que a nossa própria e imediata segurança;
11. Partilha porque se trata de um jogo colectivo onde cada momento, cada conquista, cada avanço é expressão do todo mesmo quando aparenta ser obra de um só;
12. Combate porque é disso que o jogo trata: combate pela conquista da bola, pela recuperação da bola, pela conquista de terreno, pela conquista do espaço livre, pela conquista da superioridade numérica. Pela conquista de pontos.
13. Sacrifício porque sendo colectivo e de combate o rugby impõe, muitas vezes, que o jogo tenha primazia sobre o que sente o corpo, impondo a resiliência e a assertividade ao comodismo da desistência. Apaixonadamente, claro!
14. Divertimento porque se trata, afinal de contas, de um jogo e como tal deve deixar satisfeitos os seus intervenientes que devem dar o seu tempo por bem empregue de uma forma alegre e responsável;
15. Boa-educação porque sendo o rugby um jogo colectivo e de combate exige que exista entre os participantes uma relação, embora de elevado grau competitivo, de cordialidade para que a sua expressão não ultrapasse os limites da cidadania.
Quinze de cada lado irmanados dos mesmos quinze valores. O jogo de rugby só é rugby no combate colectivo organizado pela conquista de terreno quando é assim.
(Publicado no p3.publico.pt/raguebi a 7/02/2014)


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

RUGBY, UM JOGO PARA GENTE BEM-EDUCADA

Nós, gentes do rugby, gostamos, mostrando o diferente que nos sentimos, de publicitar a definição do jogo no conceito de ser "um jogo de rufias jogado por gente bem-educada". E embora já não seja apenas de cavalheiros porque, como também sabemos, os homens não são mais os únicos na modalidade, continuam a existir profundas razões para o definirmos assim. 
Desde sempre o jogo de rugby tem mostrado uma ética própria subordinada a um conjunto de valores que se estabelecem no seu "Código do Jogo" que, hoje em dia, está integrado nas Leis do Jogo. De facto, existe toda uma maneira de estar que se pretende diferente e tradutora de uma cultura distinta em que o respeito, o "fair-play", o espírito colectivo de equipa, o companheirismo, a abnegação, o sacrifício, a disciplina, a boa educação, constituem algumas das componente de valores e atitudes que formatam a envolvência do jogo. E assim sendo, é natural que possamos utilizar, com orgulho, a marca da diferença - um amigo meu, médico e frequentador internacional de estádios de futebol, viu, pela primeira vez, um jogo de rugby no França-All Blacks do centenário da FFR: não julgava possível, dizia, a confraternização permanente entre os espectadores adversários que o rodeavam e que vestiam camisolas diferentes - com as cores das suas equipas. Espantado, tornou-se adepto. 
Mas se pretendemos sê-lo, devemos, no mínimo, parecê-lo. E o que se passa, neste cada vez mais difícil mundo desportivo português, à volta dos nossos campos em dia de jogo não pertence a este mundo edílico que pretendemos transmitir aos de fora. Espectadores, antigos jogadores na sua maioria, insultam árbitros e adversários, chamam nomes a quem bem querem e comportam-se como rufiotes numa constante demonstração arruaceira, deixando - para inglês ver - a proclamação da pretendida boa educação. 
O jogo de rugby não é fácil de gerir. Os árbitros, como os jogadores, têm dificuldades na análise da sequência pela rapidez da acção e pelo número de intervenientes. Mas próximos e se pertencentes ao mesmo patamar, vêem melhor e analisam quase sempre melhor. E, na grande maioria dos casos, tomam a decisão correcta e são os espectadores que, ignorantes da Lei, protestam violentamente, impondo a emoção à razão, pressionando para que a sua cor, apesar de faltosa, deixe de ser "roubada!". Nada deste comportamento se justifica ou ajuda o rugby português no seu desenvolvimento e progressão. Pelo contrário: desfocaliza jogadores, pressiona treinadores e árbitros de forma desadequada, retira lucidez aos intervenientes e transforma o jogo num espectáculo nada dignificante e que só diminui o campo de influência da modalidade. 
Precisamos de melhorar todos os dias o rugby que se joga em Portugal. Para o que necessitamos de melhores treinadores, melhores jogadores, melhores árbitros, melhores dirigentes. Numa vontade que dispensa claramente os piores exemplos da Blood, Sweat and Beers de antanho. O Rugby tem que ser, no espaço do campo, no espaço dos espectadores, aquilo que diz ser: um desporto de gente bem-educada.
E se, em vez do visível comportamento trauliteiro e para começar o novo ano, fizéssemos um esforço para aprender as Leis do Jogo e a sua aplicação prática? Um esforço para que os treinadores fossem exigentes com os seus jogadores, educando-os de acordo com as Leis do Jogo; um esforço dos dirigentes para imporem o rigor das Leis do Jogo nas equipas dos seus clubes e decente comportamento aos seus adeptos; um esforço dos espectadores para que se comportassem como gente bem-educada. E se não há, como também sabemos, jogos sem árbitros - sejam eles oficiais ou encontrados de acordo com os Regulamentos - e para um futuro com tudo a correr pelo melhor, porque não tentar uma parceria: criar o hábito de convidar os árbitros para se treinarem semanalmente com os diversos clubes. Talvez assim pudéssemos fazer compreender a marca da nossa diferença: no Rugby, a vitória, sendo importante e o objectivo de cada equipa, não é o mais importante; o mais importante é poder pertencer, com aceitação plena, a uma comunidade muito especial - a comunidade rugbística. 
(Base: Texto sobre o mesmo tema escrito em Janeiro de 2009)
(Publicado no p3.publico.pt/raguebi a 29/01/2014)

RUGBY: O JOGO DA BATALHA MEDIEVAL

"Na guerra, o propósito é evitar o que é forte e atacar o que é fraco. A água modela o seu percurso de acordo com o terreno sobre o qual desliza; o soldado planeia a sua vitória de acordo com o inimigo que tem na frente." Sun Tzu in "A Arte da Guerra".

O râguebi é, dentro da sua complexidade aparente, um jogo simples. Tão simples que se rege por princípios de fácil entendimento e de utilização permanente numa também constante perspectiva de luta pela posse da bola e conquista de terreno. Assim o râguebi define-se como um desporto colectivo de combate organizado para a conquista de terreno. Um combate, feito jogo, que nasce dos tempos imemoriais da batalha medieval.
De cada lado do campo, um castelo com o seu pátio— a área de ensaio — e a sua torre de menagem — os postes. O objectivo do jogo consiste em conquistar um dos castelos, colocando a bandeira - a bola - no seu pátio interior o que, em termos do jogo, significa marcar um ensaio e conquistar pontos. Ensaio a que se segue a possibilidade da “transformação” — pontapé, do chão ou de ressalto, sem distância definida e na perpendicular à colocação da bola no chão da área de ensaio — que mais não simboliza do que o bombardeamento da torre de menagem para, impossibilitados de manter a sua ocupação, impedir a sua reutilização pelo adversário derrotado.
Para o desenvolvimento desta batalha, as equipas dispõem das clássicas forças que compõem os exércitos: uma infantaria — o bloco de avançados; uma cavalaria — os três-quartos; uma artilharia, formada pelos pontapeadores e uma dupla de estrategos — os dois médios, o formação e o abertura.
Como na batalha, à infantaria competirá atacar as linhas defensivas adversárias, desorganizando-as e criando rupturas por onde se possam fazer avanços — as penetrações — que obrigam as defesas a deslocar elementos de outros terrenos para tapar as brechas e assim desequilibrar a relação de forças e romper a linha da frente - a linha de vantagem - para conquistar o terreno necessário para garantir o avanço.
Conseguido isto, é altura de lançar, na exploração do sucesso obtido, a cavalaria que, em desfilada, ataca o espaço livre e procura atingir o interior do castelo. Quando, por boa organização defensiva, a infantaria se mostra incapaz de cumprir a sua missão e a cavalaria não tem espaço de manobra, compete aos estrategos deste exército recorrer à artilharia — jogo ao pé — para, bombardeando o campo adversário, obrigar ao recuo das linhas defensivas. Ganha esta batalha quem mais vezes conquistar o castelo adversário.
O que se consegue através de uma infantaria poderosa, organizada e conquistadora, de uma cavalaria rápida e acutilante e da capacidade dos estrategos de decidirem, em tempo útil, pelas alternâncias de ataque — penetrante, envolvente ou de bombardeamento — que as forças do seu exército proporcionam. No jogo do râguebi, traduz-se assim essa estratégia: “são os avançados que ganham os jogos, cabendo aos três-quartos afirmar por quantos.”
A particularidade no râguebi da proibição de passar a bola para a frente mais faz relacionar o jogo com a mitologia da batalha medieval e as suas estratégias: na batalha medieval a bandeira que segue à frente do exército só se entrega a quem vem atrás... a um dos nossos! No râguebi passa-se o mesmo: a bola que, como a bandeira que nos guia, vai na frente de toda a equipa, só é passada para trás, para um dos nossos. O que permite continuar o movimento da exploração do sucesso.
Entre o vencer ou morrer da batalha medieval e o jogo de râguebi há, no entanto e pesem as semelhanças táctico-estratégicas, uma diferença abissal: o râguebi é apenas um jogo com regras e comportamentos previamente acordados e estabelecidos e universalmente definidos. Tendo, com a missão de zelar pela sua aplicação, um árbitro que regula e garante que o nível competitivo não ultrapassará o entendimento do jogo.
Apesar desta enorme e visível diferença aplicam-se os mesmos seculares princípios estratégicos: avançar para desequilibrar as forças adversárias e conquistar terreno. Com o objectivo de marcar, lá ao fundo, ensaios! E ganhar os jogos!

(Publicado no p3.publico.pt/raguebi a 24/01/2014)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

SEIS NAÇÕES

O Torneio! A prova mais carismática do mundo do rugby começa hoje a sua edição de 2014. O  Torneio, assim, sem mais, o Torneio, só e basta para definir o impolgante que os jogos, o ante e o pós representam para jogadores, treinadores, dirigentes e aficcionados que enchem os estadios até não caber uma mosca.
Das equipas e das suas actuais capacidades pode dizer-se que, um ano antes da disputa do Mundial no seu país, a Inglaterra - que procura o Grand Chelem que não vê há já onze anos - vai de novo procurar que os seus avançados consigam impor o jogo que os os seus centros, pese a categoria do abertura Owen, não mostram ser capazes de dar continuidade e impor diferenças. Mas o bloco de avançados, móvel e com capacidades físicas acima da média, pode, por si só, ganhar um jogo. Qualquer jogo. Do outro lado do campo a França que parece incapaz de utilizar o surpreendente french flair - essa forma de jogar no limite do risco num quase abuso de impertinência - tem tido enormes problemas de eficácia a que não são alheias as dificuldades de encontrar uma parelha de médios capaz de transformar e pautar o jogo - Brian Ashton, antigo seleccionador inglês, acha que os franceses se perderam quando quiseram imitar os ingleses e, lança com ironia, como Saint-André se fez treinador em Inglaterra... Hoje estreia-se Jules Plisson, médio de abertura do Stade Français, que esteve há dias em Lisboa tendo-se limitado, precisamente pela chamada à selecção, a treinar pontapés aos postes. Espera-se jogo equilibrado que pode virar para qualquer das equipas por um aqui ou ali mas os números dão vantagem aos ingleses: vitória por 4 pontos de diferença.
A Irlanda, a quem uns segundos de débito de oxigénio retiraram a hipótese de uma histórica vitória sobre os All-Blacks, pretende, nesta última época de participação internacional do genial Brian O'Driscoll, demonstrar que o jogo de Novembro não foi uma casualidade e quer mostrar as suas hipóteses de candidata ao Mundial de 2015. A Escócia, pelo seu lado, com problemas em encontrar jogadores de nível superior, parece esperar que Vern Cotter - ainda treinar o Clermont do nosso Bardy - venha dar a mão milagrosa que os possa levar ao nível das memórias de tempos gloriosos. No momento, o jogo dos escoceses está ainda longe do necessário. Ponto assente: vitória da Irlanda! - por 12 pontos de diferença, dizem os números.
Esta primeira jornada fecha com um Gales-Itália. A curiosidade sobre a Itália estará na verificação da melhoria - existe um grande aposta na formação-ordenada - da capacidade do seu jogo que, volta não volta, se mostra suficientemente fraco para que georgianos comecem a ter pretensões - injustificadas e extemporâneas na minha opinião - de vir, como dizem, a ocupar o seu lugar. Mas como é óbvio, Gales - a minha equipa preferida - é a favorita. Com uma terceira-linha de se lhe tirar o chapéu, com um meio-campo capaz de transformar qualquer bola num ataque demolidor a que se junta um três-de-trás de enorme eficácia finalizadora - e de que faz parte o metrónomo chutador Halfpenny - de Gales espera-se sempre espectáculo de levantar bancadas. Vitória com diferença de vinte pontos! 
Uma das grandes curiosidades deste Torneio vai para o comportamento dos árbitros na execução dos ridículos gestos para autorização da introdução da bola na formação. Irão ignorar as directivas? Ficar-se-ão, como aconteceu durante toda uma vida antes da introdução das vozes, apenas pela verificação dos movimentos?
Fora deste Torneio, mas num outro torneio - a Taça Europeia das Nações - Portugal joga, no frio de Cluj, importante e difícil desafio contra a Roménia (17º do ranking IRB) com o objectivo de se manter na corrida de apuramento para o Mundial de 2015. Que a sorte os acompanhe!

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