sábado, 27 de junho de 2015

PASSARAM JÁ 20 ANOS...








... e o rugby ajudou à mudança.

terça-feira, 23 de junho de 2015

MENINAS FORMIDÁVEIS



As Meninas do Rugby Sevens Português são formidáveis
As jogadoras da selecção nacional feminina de sevens têm tido prestações competitivas francamente boas. Muito boas até para quem tem as fracas bases de partida que têm as atletas portuguesas que, em todas as modalidades, representam apenas 1/3 dos federados masculinos.
Se o sistema desportivo português deixa muito a desejar, imagine-se a distância a que a parte do desporto feminino se encontra das suas adversárias europeias: em formas de competição, em possibilidades de treino, em disponibilidades de tempo, em preparação. Em adesão! 
É claro que existem algumas atletas portuguesas de enorme qualidade internacional mas - como lembrou recentemente o Comité Olímpico de Portugal - não passarão de "exemplares únicos" que não definem a qualidade da generalidade das actividades desportivas.
No mundo feminino, o desporto português das modalidades colectivas - esse conjunto que demonstra a qualidade de um sistema - é fraco. As nossas modalidades colectivas estão mal colocadas nos rankings. As Meninas do Rugby Sevens Português conseguiram classificar-se, após duas etapas, no 10º lugar europeu, deixando atrás de si a Escócia e a Alemanha e garantindo assim a permanência na divisão principal. Um feito!
Não é fácil jogar contra equipas como a França - actual campeã europeia e já qualificada para o Rio 2016 - com a Rússia, Espanha, Holanda, Irlanda, Ucrânia, Itália, Geórgia, Alemanha, Gales ou Inglaterra que, com a entrada da variante para os Jogos Olímpicos, desenvolvem programas de preparação - algumas das equipas já são profissionais - de elevado nível. Ter que defrontar, nas duas etapas e directamente, a França, a Rússia, a Itália, Gales, Escócia em três vezes ou a Alemanha por duas vezes para garantir as 3 vitórias que permitiram a manutenção não foi tarefa fácil. Mas que as portuguesas ultrapassaram com enorme sentido colectivo, coragem e determinação. Atitude tão notada que motivou elogios dos comentadores franceses da transmissão televisiva. E desta vez a conquista da Bowl, porque correspondeu a um objectivo, deve ser comemorada como um troféu.
Obrigadas a níveis de intensidade e exigência técnica para que não têm hábitos - a competição interna onde competem nada tem a ver com o nível internacional - as jogadoras portuguesas conseguiram adaptar-se tanto quanto os treinos, feitos na sua maioria no CAR do Jamor e sob o comando do treinador João Mirra, permitiram aproximar níveis.
É claro que houve dificuldades que as impediram de atingir resultados que pareciam - pareceram em momentos de alguns jogos - que iriam permitir ultrapassar as adversárias. Mas a pressão imposta ou a velocidade de execução ou decisão exigidas levaram a "erros não provocados" que fizeram perder a bola, falhar um passe ou atrasar o apoio ou a entrada num intervalo. E depois uma natural dificuldade na velocidade de corrida - para que perceba a diferença basta comparar o recorde português dos 100m femininos com o dos outros países concorrentes - criava maiores dificuldades: muitas vezes a diferença da velocidade de corrida e de velocidade da bola nos passes longos permitia que as adversárias se desdobrassem e, deslizando, conseguissem cobrir os espaços e tirar eficácia ao esforço feito pelas portuguesas. Um esforço que foi diversas vezes recompensado por recuperações de bola mas, infelizmente também, pela vontade colocada, provocador de penalidades prejudiciais. Mas o cômputo geral é muito positivo.
Não sei se existe verdadeira noção do feito das Meninas do Rugby de Sevens Português. Recém-chegadas a uma modalidade considerada até há pouco tempo como jogo de homens, sem experiência internacional suficiente - muitas das suas adversárias jogaram etapas do World Series feminino - as jogadoras portuguesas foram capazes de se superar, de ir buscar forças a uma enorme vontade competitiva e de se juntar em torno de um constante espírito de equipa e do orgulho de vestir a camisola portuguesa.
Verdadeiramente impressionantes, as jogadores portuguesas mostraram, numa elevada e constante atitude e humildade competitivas, conhecimento táctico do jogo, capacidade de adaptação em movimento, assertividade defensiva e apoio tão constante quanto a sua desmultiplicação de tarefas o permitiu. Umas lutadoras! Tão mais de elogiar quanto partiram, como já anotado, de bases muito diferentes das suas adversárias: menor cultura desportiva generalizada, menores hábitos de Alto Rendimento, maiores dificuldades de disponibilidade entre trabalhos e estudos nem sempre - ou quase nunca - facilitadores.
Estes exemplos simbolizam bem o que foi a prestação das portuguesas: a notável e belíssima placagem de Catarina Ribeiro contra uma holandesa a impedir a marcação de ensaio adversário e a demonstrar a tenacidade e atitude portuguesa de antes quebrar que torcer; a excelente demonstração técnica de entendimento táctico do jogo da Christina Ramos que, depois de uma quebra da defesa adversária com corrida de uma vintena de metros, foi placada, já próximo da área de ensaio, por uma adversária que recuperou em velocidade superior mas que com enorme presença de espírito e tirando partido da sua posição adiantada no terreno, soube largar a bola e esperar que a placadora, de acordo com as Leis do Jogo, a largasse para então se levantar, pegar na bola e marcar ensaio; ou ainda a capacidade da Catarina Antunes, placada quase em cima da linha de ensaio, de rodar no chão para entregar a bola a uma companheira e garantir assim o ensaio. Situações, bem acompanhadas por eficazes combinações e ataques a intervalos, de levantar bancadas de adeptos - e havia algumas bandeiras portuguesas...
Dentro de dias as portuguesas jogarão em Lisboa o Torneio de Repescagem Europeia que apurará três equipas para disputarem o Torneio Mundial de Repescagem que apurará a última equipa para os Jogos do Rio. Afastadas que estarão as equipas britânicas - já apuradas com a Grã-Bretanha - e ainda, por apuramento, a França e a Rússia, Portugal entra nesse torneio na sexta posição. O que obrigará, para que seja possível o apuramento, a conseguir um lugar nas oito primeiras equipas da fase de grupos para poder disputar as meias finais da Cup e da Plate - significando que o primeiro jogo do segundo dia será decisivo - obrigando ainda, no mínimo, a vencer a "pequena final" - 3º e 4º lugares. Muito difícil mas não impossível com o aproveitamento deste intervalo de tempo para tratar de acertar os pormenores técnicos necessários.
Pelo que já fizeram, pelas capacidades que já demonstraram, as Meninas do Rugby de Sevens Português merecem um enorme apoio no fim-de-semana de 18/19 de Julho próximos no Jamor. Para o que e naturalmente contarão com a comunidade portuguesa de rugby.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

OPORTUNIDADE DE UMA VIDA


Os jogadores portugueses de Sevens começam, neste sábado e com o início das etapas de apuramento europeu, o caminho real - nunca foi credível que pudessem classificar-se através da World Series - de qualificação para os Jogos Olímpicos do Rio de 2016. É o início do caminho da construção do sonho de estar presente, de ser actor, na maior festa desportiva mundial.

Por este mundo fora milhões de atletas sonham em estar presentes nos Jogos Olímpicos. Não é fácil e para a grande maioria deles não ultrapassará o sonho. Os portugueses da selecção nacional de sevens têm a possibilidade de depender deles próprios para ter acesso ao sonho que perseguem. É uma vantagem e terão possibilidades reais.

Não é fácil atingir os Jogos. De sete cães a um osso - são apenas, no caso do Rugby, onze as equipas que podem apurar-se para o Torneio Olímpico do Rio - as dificuldades das modalidades colectivas são sempre maiores do que nas modalidades individuais: não basta ser bom ou muito bom, é preciso que haja número qualitativamente suficiente para permitir os resultados colectivos necessários numa série de disputas competitivas muito exigentes. Mas têm possibilidades reais.

Mas têm possibilidades reais, pese embora a estruturação da competição imposta - apesar da contestação da Federação portuguesa - pela Rugby Europe. Resolveram fazer assim:
- considerando que o 2015 Sevens Grand Prix é o Campeonato da Europa, toda a equipa europeia classificada, como é normal, o pode disputar. Mas acontece que resolveram que este circuito europeu - três etapas: Moscovo, Lyon e Exeter - apuraria o seu melhor classificado para os Jogos do Rio. Mas se é de Apuramento Olímpico não deveria - como aliás está documentalmente estabelecido pela World Rugby - ter equipas já anteriormente apuradas a disputá-lo. Mas tem! Tem a Inglaterra e Gales (a Escócia não se inscreveu) que pertencem à Grã-Bretanha já qualificada por via, como anteriormente estabelecido, do Sevens World Series;
- como a presença da Inglaterra e de Gales só pode contar para o título europeu e não para classificação de apuramento para os Jogos, a Rugby Europe resolveu criar duas classificações paralelas: a do Campeonato Europeu classificando as 12 equipas presentes e a Classificação do Apuramento Olímpico que ordenará as dez equipas que pretendem aceder aos Jogos Olímpicos. Com este pormenor, embora diferentes, as duas tabelas utilizam os mesmos pontos classificativos conseguidos na etapa - ou seja as equipas que "não contam" podem ter uma importância decisiva no quadro final de apuramento. Porque, intrometendo-se na classificação e retirando pontos a outras equipas, podem abrir intervalos irrecuperáveis na classificação olímpica. O que significa que nestas três etapas não haverá cálculos diferentes do que o máximo esforço para ganhar tudo o que se puder. É luta sem quartel mas dependente de terceiros...;
- ainda não satisfeita com este arranjo, a Rugby Europa inventou mais: decidiu criar uma repescagem europeia a realizar em Lisboa - nas outras regiões nada existe semelhante. E por quê? Porque assim permitirá a possibilidade de classificação à Irlanda que se encontra a disputar a Divisão C europeia. Como?! Decidindo que o segundo classificado do Apuramento Olímpico ficará directamente apurado para a Repescagem Mundial, não tendo assim que se deslocar a Lisboa onde se encontrarão os oito sobrantes do Apuramento Olímpico Europeu a que se acrescentarão - porque cada prova desta natureza é obrigatoriamente realizada com 12 equipas divididas por três grupos - três equipas da Divisão A e - veja-se! - uma da Divisão B onde esperam que se encontre a Irlanda que, vencendo a Divisão C, poderá disputar este último lugar de acesso;
- a Repescagem de Lisboa, a realizar em Julho, apurará então três equipas para a Repescagem Olímpica Mundial onde se encontrarão, formando 16 equipas divididas por quatro Grupos, com a outra europeia anteriormente apurada, três equipas de África, três da Ásia, duas da América do Norte e Caraíbas, duas da Oceania e duas da América do Sul - embora o símbolo olímpico tenha cinco anéis representando os cinco continentes, no Rugby estão consideradas seis regiões - para apurar a última presença no Rio 2016.
Fácil!?
É uma oportunidade de uma vida poder estar presente nos Jogos Olímpicos. Disso terão consciência os jogadores portugueses que, para a garantirem, terão que actuar num nível muito superior ao que fizeram na Escócia e Londres e mostrarem ser capazes de se adaptarem às diversas e diferentes situações com que se irão confrontar. 
Se a responsabilidade dos jogadores portugueses é grande - representam a comunidade rugbística nacional que se deseja ver como olímpica - superior será ainda a necessidade de uma elevada  capacidade de resistência e assertividade, discernimento na adaptação às visões particulares da arbitragem e focagem permanente no melhor resultado - quanto melhor ficar classificado na tabela classificativa resultante do 1º dia de jogos, mais "fácil"  será o primeiro jogo do 2º dia e mais possibilidades de subida na classificação final existirão. Aqui, na arbitragem e como já testemunhámos, tudo é possível: interpretações próprias de um ou outro árbitro ou mesmo determinações dos directores de arbitragem dos torneios que "decidem" de uma determinada interpretação das Leis do Jogo - sempre que isto sucede, lembro-me da máxima da Juíza do Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, Sonia Sottomayor: A tarefa de um juiz não é fazer a lei, é aplicar a lei. Conceito que, se presente, retiraria de imediato qualquer pretensão de modificação ou abusiva interpretação e garantiria que o resultado final seria conseguido pela acção dos jogadores e não pelo apito dos árbitros.
Neste quadro a Portugal coube - com a vitória conseguida em Tóquio contra a Austrália - ajudar a qualificação directa da Grã-Bretanha e assim retirar um concorrente da porta de entrada dos Jogos. Os adversários principais neste Apuramento, para além de todos os outros que aparecerão bem preparados, serão a França e a Rússia - com a Espanha à espreita. Não sendo inacessíveis, permitem que o VII de Portugal tenha um foco ajustado no apuramento. Subindo a escada degrau-a-degrau, sem desfalecimentos, distrações ou julgamentos precipitados. Com confiança, abnegação, espírito de equipa. Uma dura prova, um desafio de campeões. Boa sorte!

segunda-feira, 1 de junho de 2015

ONDE ESTAVA NO 24 DE MAIO?


Azulejo comemorativo do WR U20 Trophy
Desenho a ponta de borracha em iPad
JPBessa 

De manhã estive no Jamor e à tarde no Universitário a ver os jogos que estabeleciam a classificação final do World Rugby U20 Trophy. E se no primeiro jogo da manhã - jogava a equipa portuguesa - se viram espectadores portugueses (na maioria familiares e amigos dos jogadores), no restante do dia pouco mais houve do que apoiantes das equipas estrangeiras. E porque os jogos não foram nada maus, foi pena que a comunidade rugbística portuguesa não tivesse curiosidade pelo estado das coisas da modalidade que as selecções presentes mostravam. E, principalmente, porque vendo, seria mais simples perceber os saltos qualitativos que o rugby português tem que dar para poder, de forma consistente, manter-se com os melhores. 

Estando lá, poderiam perguntar-se como é que a Geórgia, em meia-dúzia de anos, se transformou tão positivamente? De uma equipa com conceitos tácticos de brutamontes tornou-se, como demonstrou, numa equipa de movimento onde todos os jogadores são capazes de avançar com a bola, garantir - com um passe ou um bem defendido contacto - a sua posse, manter continuidade, atacar intervalos. E assim ganharam o Trophy e apuraram-se para jogarem o U20 Championship.
Outra equipa interessante que poderiam ter visto, para além do portentoso manuseamento de bola dos fijianos, seria o Uruguai, uma equipa de dimensão mediana - o seu abertura e um dos centros não atingiam 1,80m de altura e pesavam 70 e poucos quilos... - mas de imenso querer com enorme capacidade de combate, sem desistências, pela bola e território como fizeram para vencer Tonga e conseguir o 3º lugar na prova. Dois excelentes exemplos para os jogadores e equipas portuguesas a demonstrar que a inteligência, cultura táctica e domínio dos princípios fundamentais e das técnicas de base são a essência do caminho do sucesso. E nem é preciso ser enorme... é preciso é ser eficaz com a velocidade de gestos e de recolocação a comandarem as acções e a deixarem no conhecimento da cultura táctica o alerta para tomar as decisões adequadas.
A equipa portuguesa, dentro das limitações do contexto competitivo em que se move, não esteve mal. Mostrou-se razoavelmente competitiva contra as equipas mais fortes - lembre-se que, como se viu no último dia, o Grupo de Portugal a jogar no Jamor venceu todos os respectivos jogos, era constituído pelas equipas mais fortes - que colocaram a intensidade do jogo acima dos seus hábitos e foi capaz, no único jogo em que a intensidade se estabeleceu no seu nível, de mostrar capacidades, conhecimentos do jogo e ganhar a Hong-Kong - a segunda, depois da inglesa, federação mais rica da modalidade - sem margem para dúvidas. Ou seja, mostrando efectivamente as capacidades que tinha deixado adivinhar no primeiro jogo contra Fiji. Agora resta tirar ensinamentos para melhorar e tornar a equipa mais eficaz. Jogo ao pé objectivo e com a-propósito, capacidade de jogo de passes em cima da linha da defesa, linhas de corrida a impedir o deslizamento dos defensores, um maior e mais atempado apoio, melhor reconhecimento simultâneo das oportunidades, decisões mais efectivas e, claramente, melhor placagem, serão as melhorias necessárias para garantir uma melhor capacidade na prestação internacional. E, acima de tudo, acesso a competições de bom nível.
Mas o mais interessante deste último dia da competição foi a positiva capacidade mostrada pelas 
equipas em competição pelos melhores lugares. Ao contrário do habitual refúgio na defesa à espera dos erros adversários, as equipas mostraram uma vontade atacante que fez de cada jogo um excelente espectáculo. Qualquer das equipas entrou em campo com a clara noção de que, embora tendo que garantir qualidade defensiva, venceria o jogo quem marcasse mais ensaios. E assim assistimos a jogos de ataque, com a preocupação de explorar as oportunidades, de recuperar e transformar as bolas conquistadas, de garantir um apoio permanente para que a continuidade do movimento, explorando os desequilíbrios defensivos, garantisse o toque na área de ensaio. Os resultados finais foram muito interessantes: cada equipa derrotada - numa demonstração transformadora - marcou, pelo menos vinte pontos e um mínimo de 3 ensaios. O que pode traduzir, nesta forma de jogar positiva, um maior optimismo para o espectáculo futuro da modalidade. E esta qualidade foi reconhecida como uma marca do torneio de Lisboa.
E também, no que diz respeito aos bastidores, a World Rugby, com o seu dirigente John Jeffrey - The Great White Shark, internacional escocês da década de 80 - a garantir, no jantar final, o seu descanso porque, havendo problemas no Mundial inglês, indicará os organizadores portugueses para os irem resolver, deixou largos elogios à organização.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

SEVENS: DOIS EM UM


Grupos para a última etapa do SWS 2015
A missão da equipa de Sevens de Portugal na última etapa do Sevens World Series que se realiza no próximo fim-de-semana em Twickenham, Londres, é fácil de definir: garantir os pontos suficientes para que a classificação final seja melhor do que a do Japão. Ponto.
Acontecendo assim, o principal objectivo português da época de Sevens - manutenção, como equipa residente, no SWS da próxima época - será cumprido.
No entanto - e provavelmente por causa da entrada da variante nos Jogos Olímpicos - a apetência pelo acesso ao lugar de residente são cada vez maiores e, mais tarde ou mais cedo, haverá alterações na forma que poderão levar até ao aumento anual do número de relegação de equipas. O que significa que a competitividade do SWS irá aumentar e atingirá níveis que nos obrigará à reorganização da nossa forma de participação - as alterações e adaptações, como os acordos com os clubes ou compensações financeiras ultimamente realizadas, não serão suficientes e será necessário novo salto que permita atingir os patamares competitivos da, pelo menos, metade inferior dos adversários.
Para se perceber do que falo conto uma estória. Num curso sobre Sevens da então IRB fui nomeado líder de um grupo do qual fazia parte o treinador russo da equipa de Sevens que, agora, se qualificou como residente para a próxima época do SWS. O tema era o de preparação, programação, calendarização e logística de uma equipa para um grande torneio - a primeira intervenção pertenceu ao russo que fez uma enorme lista de exigências que obrigavam a enorme suporte financeiro. Interrompi-o e disse-lhe: um momento, primeiro temos que saber de que orçamento dispomos, disse. E tive como resposta: não quero saber, será o que fôr preciso - quero é ser apurado para os Jogos Olímpicos! 
E este é um dos adversário directos que teremos quer na próxima época, quer no apuramento para o Rio 2016...
Mas se a manutenção é o objectivo principal da nossa participação na etapa de Londres, podemos procurar ir mais longe e transformar esta última etapa numa vantagem futura. Uma espécie de dois em um.
No Grupo D em que Portugal se encontra tem como adversário, para além da África do Sul e dos Estados Unidos, a França, principal adversário do apuramento para os Jogos na disputa do "Europeu" das 3 etapas do Grand Prix Series. 
Uma vitória sobre a França - que embora concordante sobre o abuso da participação das equipas britânicas mas que se recusa a levantar a voz porque não quer disputar o apuramento numa única etapa, para mais em Lisboa, casa dos seus principais adversários, argumentam... - constituiria uma vantagem para Portugal  e um problema para os franceses que nunca mais apareceriam com a confiança suficiente nos jogos que disputássemos no Europeu. 
O facto de Portugal ter de defrontar a França no Grupo de Londres é uma oportunidade a não rejeitar: uma vitória que, para além de, provavelmente e no mínimo, permitir, no crucial primeiro jogo do segundo dia, defrontar o adversário pior classificado do Grupo A, permitirá ainda criar uma vantagem psicológica sobre os franceses que poderá ajudar na difícil procura do difícil caminho para o Rio. 
Não tendo tido uma prestação desportiva de bom nível na etapa de Glasgow - apenas a vitória com a Rússia que pode ter um papel idêntico ao que uma vitória sobre a França poderá produzir -  a selecção de Sevens de Portugal tem que encontrar de novo a atitude que permitiu explorar as suas capacidades que proporcionaram o empate com a Nova Zelândia e a vitória sobre a Austrália. E um apuramento para a Cup, para além de nos libertar definitivamente de qualquer problema de manutenção da SWS, seria uma óptima demonstração das nossas intenções e possibilidades de participar nos Jogos Olímpicos. 
A palavra pertence agora, lançados que estão os dados, aos jogadores. À vitória! 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

BOAS PERSPECTIVAS

Portugal-Fiji, WRU20Trophy

O jogo contra Fiji, que terminou com a derrota portuguesa por 34-19, pode ser considerado como uma oportunidade perdida? Talvez, especialmente para espectadores menos conhecedores.
Mas este jogo foi mais do que a oportunidade perdida que o desenrolar do jogo nos deixou como amargo de boca.
A equipa portuguesa jogou bem, conseguiu, por diversas vezes, equilibrar o jogo contra uma equipa que está treinada num nível superior - o último mês foi passado na Austrália a competir e a treinar - e em alguns momentos chegou até a parecer superiorizar-se ao adversário. E digo parecer porque, naturalmente, não ultrapassava as aparências. E porquê? Pela simples razão de que o tremendo esforço do combate a que os jogadores portugueses foram sujeitos - intensidade, colisões e velocidade de circulação da bola a que não estão habituados - retiraram discernimento para a melhor decisão nos momentos críticos e retiraram capacidade física para a melhor eficácia de gestos e movimentos. Como acontece a quem, para tentar, ultrapassa os limites das suas capacidades.
A selecção portuguesa não conseguiu - por óbvios motivos resultantes do mais baixo nível de hábitos competitivos - equilibrar a demonstração de capacidades com a excelente atitude competitiva que demonstrou. Por um lado porque os fijianos utilizaram uma defesa colectiva agressiva, dura e bem organizada, por outro porque a velocidade e intensidade do jogo - fora dos nossos hábitos, repete-se - exigia um outro nível de capacidade de resposta, levando a pequenos erros não provocados, pequenos atrasos, pequenos adiantamentos, pequenas hesitações de centímetros que fazem a diferença. E como me lembrei da palestra de balneário do treinador Tony D'Amato, interpretado por Al Pacino, no "Any Given Sunday" e dos centímetros que fazem a diferença entre perder e ganhar...
E pode ficar-se satisfeito com a equipa mesmo perdendo? Pode se nos lembrarmos, como afirmava John Wooden - provavelmente o melhor treinador americano de sempre - que: "Pode-se ganhar, perdendo. Pode-se perder, ganhando". E Portugal, apesar da derrota pode sair a ganhar se a equipa - treinadores e jogadores - souberem tirar as lições devidas desta derrota. Se aprender com os erros é uma necessidade da experiência da vida, aprender com os erros é, no desporto, a forma de desenvolvimento no percurso da melhoria e do êxito, procurando não fazer mais, mas fazer melhor.
Para já uma realidade louvável: o XV Sub-20 de Portugal fez um jogo baseado no ataque, abandonando, embora sem a esquecer, a defesa como método. De facto só é possível obter resultados no nível internacional se houver propósito na utilização da bola de forma a provocar os desequilíbrios necessários para conseguir marcar pontos. Ou seja, se para ganhar é preciso saber defender, a procura da vitória está na marcação de pontos, no chegar à área de ensaio. E Portugal mostrou-se muito assertivo nesta matéria.
Tanto trabalho para nada? poderão interrogar-se os jogadores de quem ouvi apreciações muito correctas no final do jogo sobre o que tinha acontecido - porque olhei para o adversário e tirei os olhos da bola, porque me pareceu que havia espaço e decidi longe de mais, porque devia ter fechado os braços mas a porrada foi enorme, porque fui egoísta quando devia ter passado a bola...Não, o trabalho foi suficiente para solidificar critérios, abrir caminhos de confiança, garantir certezas do caminho a percorrer. Ou seja, foi trabalho para preparar melhor e mais eficaz futuro. 
A formação ordenada - com o peso de um homem a menos - começou por correr mal mas terminou da melhor maneira numa demonstração, como um dos pilares reconheceu no final do jogo, de que a importância da técnica é superior ao peso e altura. O que significa que o programa Força 8 se traduz numa evidente acumulação de vantagens. E que dizer da eficácia dos alinhamentos, aspecto que tem sido considerado como desvantagem portuguesa? E se aqui há bons motivos para confiar, outros aspectos precisam de melhoria: o jogo ao pé demasiado de alívio e muito pouco a-propósito - o jogo ao pé tem de se transformar numa arma atacante muito mais vezes do que como imediato recurso de "salvação"; o jogo de passes dos três-quartos tem que ser realizado muito mais próximo da linha de vantagem em vez de, por falta de confiança, se fazer a tal distância que só beneficia a defesa; o jogo no chão tem que ser rápido e de opções imediatas - muitas delas previamente estabelecidas - para que os desequilíbrios conseguidos tenham continuidade e permitam a manutenção da vantagem. E há aspectos da cultura competitiva também a melhorar:  a contabilidade de pontos é uma exigência do alto rendimento e o desperdício de pontos de grande probabilidade - por mais que seja agradável para quem vê - é um erro. Que diminui a vontade de quem persegue e aumenta a confiança de quem lidera.
De facto o jogo com Fiji era, desde o início desproporcionado - basta relembrar a rapidez e eficácia de passe que demonstraram para perceber que vivem num estádio superior - que a notável atitude dos jogadores portugueses permitiu aproximar e até, em alguns momentos, aparentar ultrapassar. Mas a sua capacidade de multiplicação defensiva impediu que os movimentos da equipa nacional tivessem melhor sorte. Não foi portanto a incompetência que nos impediu a vitória que alguns acharam deitada fora ou, como afirma o treinador fijiano por mau jogo de Fiji. Tudo não passou da realidade dos factos: nós impedimos o que podemos e limitámos a equipa fijiana - "obrigando-os" a chutar aos postes e para fora a garantir território - e eles não nos deixaram fazer mais. Ou seja: eles ganharam e nós perdemos por razões objectivas e visíveis.
O jogo com o Uruguai no próximo sábado irá mostrar - estou certo - que a experiência vivida contra Fiji se transformará na aprendizagem necessária à melhoria da eficácia. Bom jogo!                               

Nota pessoal
Nesta equipa de Portugal Sub-20 jogou Volodymyr Grykh, cidadão português, originário da Ucrânia, residente, com a família, há anos em Portugal - fez cá a "4ª classe" (4º ano escolar). Chegou ao rugby através do programa "Desperta no Desporto", realizado pelo Governo Civil de Lisboa - era então Governador António Galamba - e que teve em Rafael Lucas Pereira o seu principal lançador e dinamizador. A sua estreia na selecção nacional representa uma demonstração inequívoca da capacidade de integração social e de acesso à igualdade de oportunidades pelo Desporto e deve constituir exemplo quer para outros, quer ainda para que sejam aliviadas as formalidades de naturalização para jovens que, embora originários de outros países, têm já uma vida, através da escola, adaptada às condições portuguesas. A naturalização do Volodymyr não foi fácil, teve entraves burocráticos enormes e chegou a perigosas situações - como quase obrigado a retornar à Ucrânia para, de imediato, se encontrar no meio da guerra. Felizmente, com o trabalho de muita gente, que tudo se conseguiu resolver em tempo útil. Assinei, com Rafael Lucas Pereira, o seu papel de naturalização e estou muito satisfeito por isso - e vê-lo como internacional do rugby português foi uma grande alegria. Que seja a primeira de muitas!

terça-feira, 12 de maio de 2015

WORLD RUGBY U20 TROPHY


Rui Costa com Portugal Sub-20

Começa hoje, terça-feira, em Lisboa e com Grupos diferentes no Estádio Universitário e no Jamor, o World Rugby U20 Trophy, o Mundial B sub-20, com a presença das equipas representativas de Fiji, Uruguai, Geórgia, Canadá, Tonga, Namíbia, Honk-Kong e, naturalmente, Portugal naquela que é, com certeza, a prova rugbística mais importante que alguma vez se realizou por cá.
A sua realização pela Federação Portuguesa de Rugby tem como objectivo principal proporcionar aos futuros internacionais absolutos - os jovens sub-20 - a experiência necessária à competição internacional. E essa experiência servirá de teste para se perceber onde estamos e de que tipo de desenvolvimento necessitamos para a evolução sustentada da posição internacional.
Claro que as dificuldades para os jogadores portugueses serão muitas. O salto é grande e os hábitos competitivos internos estão longe de proporcionar as ferramentas necessárias para resolver todos os problemas com que se irão defrontar - mas é isto, estas dificuldades, que tornarão a experiência num válido domínio que permitirá enquadrar a transformação.
De facto, jogar ao nível das competições internas - seniores, sub-23 ou mesmo sub-18 - está longe de proporcionar as competências que as competições internacionais de bom nível exigem. Proporcionar estes confrontos à próxima vaga de internacionais absolutos é permitir o conhecimento do seu nível e da distância a percorrer para atingir o pretendido patamar.
Para primeiro jogo, Portugal defronta Fiji que se apresenta com uma preparação de bom nível com jogos feitos na Austrália e que tem por objectivo retornar ao Grupo A. Os jogadores portugueses, pelo contrário, ficaram-se pela preparação caseira e não fizeram qualquer jogo internacional após o torneio, ainda sub-19, em que se apuraram. O que torna as coisas mais difíceis.
Mas sendo esta a realidade - o país não mostra suficiente capacidade desportiva para elevar o nível do seu sistema - só resta aos treinadores e responsáveis encontrar os "cadinhos" que possam acelerar a formação, o desenvolvimento e a preparação. Que, embora não sendo muitos, existem - basta, para começar todo o processo de renovação e mudança, que se perceba que a competição desportiva não pode viver de forma dependente da actividade física ou das formas de lazer desportivo. Como diria "o outro", a cada um o seu galho, no diferente papel e diferentes destinos que cabe a cada uma das formas comummente e confusamente designadas por desporto.
A equipa está bem treinada - João Pedro Varela, Luís Pissarra e Nuno Damasceno, com a coordenação de Henrique Garcia e a "ajuda" de Henrique Rocha com a "sua" Força Oito - têm feito um bom trabalho que terá reflexos na qualidade da prestação da selecção. E - assim espero - a sua tentativa de levar os jogadores a ultrapassar o mero conceito defensivo para um estádio mais avançado de utilização da bola puderá constituir o elemento transformador fundamental para desenvolver, desde que apoiados num sistema adequado, uma capacidade sustentável de competição internacional. Mostrem os jogadores que a confiança que se percebe da sua vontade competitiva é uma realidade que lhes permite o risco adequado na exploração dos espaços e intervalos e novas portas se podem abrir para o desenvolvimento estratégico das potencialidades e ultrapassagem das lacunas reconhecíveis.
Mas não se espere - não se exija! - resultados excepcionais a esta equipa que tem óbvias qualidades mas não tem, por razões óbvias, as capacidades que permitam ultrapassar as melhores equipas presentes. Existem lacunas resultantes da competição nacional e da distância  a que nos encontramos dos hábitos internacionais. Aquilo que se pode pedir não é mais - como frisou o futebolista internacional Rui Costa que visitou ontem os seleccionados portugueses - do que a clara demonstração de que tudo fizeram para tentar ganhar os jogos em que participam. Ou seja, honrar a camisola de Portugal que vestem: por si, pelos seus companheiros de equipa, pelas suas famílias, pelos seus amigos.
E se a ansiedade, o receio de perder, o medo de ganhar dominarão cada um até à hora de entrada em campo, o cantar do hino em conjunto, qual grupo de guerreiros prontos ao combate, libertará as tensões e permitirá que o melhor de cada um apareça nos momentos exactos para que a atitude se junte às capacidades permitindo, como expressou o escritor escocês Walter Scott, atingir o êxito que desejámos. 

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