sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CASO JOUBERT


Austrália-Escócia: o minuto fatal
Se fosse escocês e fanático teria a certeza que a decisão de Craig Joubert de marcar pontapé de penalidade ao pilar Welsh foi um "roubo de igreja" e que só existiu para impedir que a "minha" Escócia chegasse às meias-finais e por isso é mais do que merecido o que tem passado e tudo aquilo que dizem dele. Mas não sou nem escocês nem fanático.

Se fosse membro da World Rugby (WR) não concordaria nem assinaria - por mais que pudesse agradar a escoceses - o comunicado que, publicamente, acusa Joubert de ter errado a decisão, trocando a devida, dizem, formação ordenada por penalidade. Porque não gosto de dar tiros nos meus próprios pés. Da auto-flagelação da WR haverá - com certeza - consequências nefastas para a generalidade da arbitragem. E, para além do mais, este tiro desacredita o tão badalado processo de procura da verdade desportiva uma vez que o caso Joubert resulta, directamente, da ineficiência ou mesmo incompetência da própria World Rugby.

Por todo o lado se pergunta: com tanta conversa sobre o vídeo-árbitro (TMO) e verdade desportiva do jogo porque é que não foi ouvido numa óbvia situação de incidência no resultado final? Porque o protocolo apenas admite o seu recurso para situações de jogo violento ou desleal ou para validar ensaios que ofereçam dúvidas da sua legalidade (jogada incluída). Então para um caso destes que tem absoluta influência no resultado final não pode ser utilizado? Não! E este não, por incompreensível, representa descrédito.

E não é possível porque a World Rugby, como a sua antecessora IRB, do alto do seu pedestal de pretendida herdeira do legado das Home Unions (federações britânicas), sente-se como único baluarte da tradição e da cultura do jogo, ouvindo mal e vendo pouco - mais ainda quando se enche de marketeers que só têm olhos para números mesmo se inflacionados (veja-se o quadro WR do número mundial de jogadores). Já há muito que diversas vozes, incluindo o antigo árbitro sul-africano Kaplan, têm proposto avanços na utilização do TMO como - de acordo aliás com o que se passa noutras modalidades que usam novas tecnologias - permitir que o "capitão" tenha a possibilidade, em número previamente determinado de vezes, de apelar à visão de um lance pretendido. Como em casos idênticos ao que se passou com a decisão de Joubert e que evitaria a dúvida, consolidava o árbitro e teria impedido o disparate do comunicado. E a formação ordenada ou o pontapé de penalidade seria uma mera circunstância do jogo e falar-se-ia mais daquilo que importa: como é que não houve uma voz de comando escocesa - que pensou Laidlaw? - para garantir uma boa solução de conquista - primeiro de terreno e depois da bola - que evitasse o sufoco final?

Mas não é só aqui que termina a responsabilidade da WR para o caso Joubert.

Existe um princípio fundamental que se retira da Lei 11.1 b) e que se traduz genericamente por "nenhum jogador pode tirar qualquer vantagem da sua posição ilegal". O que significa que qualquer jogador que esteja em fora-de-jogo não pode participar no jogo até ser colocado de novo em jogo - por acção própria ou do adversário. Até aqui tudo bem.

Mas na  Lei 11.3 c) introduz-se um conceito em que se um adversário tocar intencionalmente na bola e não a agarrar colocará em jogo o jogador que, anteriormente, estaria em fora-de-jogo. E aqui é que a porca torce o rabo. Repare-se que com este conceito, um jogador que ficou para trás - dentro da área de 22 adversária, por exemplo - a apertar uma bota, pode ser colocado em jogo por um adversário que, ao carregar um pontapé, toque na bola e, satisfeito da vida, agarrar a bola e marcar ensaio. O que parece ser um rematado disparate porque para além de violar o princípio acima referido, faz com que o jogador que, legal, táctica e tecnicamente, procedeu correctamente corra um enorme risco. Ora a WR continua a fechar os olhos a esta questão que, aliás, é central no caso Joubert.

Na situação do jogo Austrália-Escócia, o árbitro Craig Joubert teve que julgar em milésimos se o australiano Phipps jogou ou não intencionalmente a bola. E em pior situação estava o pilar escocês Welsh que, no calor do combate, também tinha que resolver a mesma equação e decidir: agarro ou não a bola? E julga-se da intencionalidade com base em que critério? 

A pergunta: porque é que a WR mantém um conceito de excepção nas Leis do Jogo que abre portas ao subjectivo livre-arbítrio - teve ou não intenção? - e portanto a decisões que podem ser mal interpretadas mas com consequências graves no jogo? E se a esta situação juntarmos as múltiplas áreas cinzentas que se mantêm nas Leis do Jogo e que apenas têm um outro conceito subjectivo - a materialidade - para as resolver, fácil é perceber que, para bem do jogo e por respeito a jogadores e espectadores, deveria haver um movimento de simplificação e clarificação. Porque a interpretação subjectiva deve ser tanto quanto possível afastada da interpretação da legalidade. Para que haja equidade.

Apesar de ser, desde sempre, um jogo colectivo de combate, o rugby é cada vez mais rápido, com combates mais constantes e mais duros, decisões sob maior pressão e menos tempo e a complexidade das suas Leis do Jogo dificultam a sua execução e compreensão. O que contraria a pretensão da WR de desenvolvimento e extensão global.

Há tempos Steve Hansen, treinador principal dos All-Blacks, apelava para que se tornassem as regras do jogo mais simples sob pena de desinteresse dos espectadores. De facto inúmeras vezes os espectadores - e também os jogadores - não fazem a mínima ideia porque foi marcada determinada falta. E mesmo com conhecimentos do código gestual da arbitragem, ficam cépticos das razões.

Porque, repete-se, existem demasiadas áreas cinzentas que permitem o arbítrio subjectivo da interpretação do árbitro. O que em nada contribui para o crédito e prestígio do jogo ou para o respeito do papel do árbitro enquanto regulador. Papel que é essencial para que o jogo corra dentro do direito de igualdade de oportunidades e de comportamentos. 

Que este "Caso Joubert" em que o árbitro Craig Joubert é o menos culpado, possa levar a WR a assumir as suas responsabilidades, simplificando as Leis do Jogo para que haja uma maior clareza, simplificando o trabalho do árbitro e para que, assim, jogadores e espectadores possam dar total crédito às suas decisões. Para que o jogo da vitória e da derrota esteja no patamar da qualidade técnica, táctica e estratégica das equipas e não na arbitragem. Ganhava o jogo e os milhões de apaixonados do Rugby.



segunda-feira, 19 de outubro de 2015

RUGBY CHAMPIONSHIP EM LONDRES

As quatro equipas que constituem o Rugby Championship do Hemisfério Sul qualificaram-se para as meias-finais do Campeonato do Mundo 2015 que se realizarão no próximo fim-de-semana em Londres e  demonstraram à evidência uma regra do Desporto de Rendimento: o nível habitual das competições define a capacidade dos jogadores.
Os jogos foram bons e de grande intensidade - mesmo o desequilibrado Nova Zelândia-França teve momentos de se lhe tirar o chapéu. Por parte dos All-Blacks, claro.
A Argentina surpreendeu pela facilidade - mais aparente que real - com que construiu o resultado para derrotar a Irlanda recente vencedora do Europeu das Seis Nações. Mas a maior surpresa surgiu na forma como os argentinos encararam disciplinarmente a pressão imposta pelo adversário, ficando-se apenas por um cartão amarelo - mesmo se o árbitro foi simpático ao não mostrar um segundo que se traduziria em vermelho. E esse comportamento esteve na base da sua vitória - não há vitórias a este nível sem disciplina individual e colectiva.
A vitória da Argentina foi merecida e o seu desempenho foi de grande categoria ao fazer jus ao conceito de que o ataque é a melhor defesa, atacando a bola, atacando o espaço e vencendo os duelos da colisão. Uma alegria merecida para o trabalho e convicções de Daniel Hourcade.
Os All-Blacks cilindraram os franceses e puseram a imprensa gaulesa em alvoroço. Alguns perguntam mesmo se as duas equipas jogaram o mesmo jogo. E não deixa de ser intrigante - ou pretensioso apenas - que Saint-Andre tenha preparado a sua equipa para desafiar os neozelandeses no âmbito do conceito do "jogo de movimento". Como os franceses, no dia-a-dia do seu campeonato, já há muito lhe perderam o hábito, foi o que se viu: fogachos sem consequências. E foi tão mau que melhor fora que continuassem com o equívoco do jogo à moda sul-africana...
De facto o conseguido pela França não estaria muito longe do esperado como resultado de um processo interno desajustado à competição internacional - foco apenas no interesse de cada clube, tornado espécie de feudo e indiferença pelo representação nacional. Que, no entanto, enche os oitenta mil lugares do Stade de France. Mas que vem perdendo capacidade competitiva ao longo dos últimos anos: na era Skrela/Villepreux teve 64% de vitórias, com Laporte 63%, com Lievremont 60%, para cair em 45% sob a responsabilidade de Saint-Andre. E com o cúmulo de, nos seus quase 300 000 federados, ter de utilizar jogadores estrangeiros - 3 sul-africanos e um figiano - para formar a selecção nacional. Muito provavelmente esta derrota - ou pelo menos assim esperam aqueles que se lembram da qualidade do movimento do "french flair" - irá obrigar a repensar a organização, os objectivos e a focagem do rugby francês e a sua inserção no espaço europeu. Se assim fôr, a derrota constituirá um novo princípio que o rugby europeu agradecerá.
Quanto aos All-Blacks, estou com Clive Woodward: é um prazer vê-los jogar. Tudo na sua acção se move de acordo com os Princípios Fundamentais que formatam o jogo. E, pela formação que recebem, mostram que de cada especialista que as posições na equipa exigem nasce um polivalente capaz de se adaptar a cada situação de acordo com a posição no campo que ocupa a cada momento. E assim transformam o jogo, numa constante demonstração de apoio e convergência, numa permanente surpresa para adversários e delicia espectadores levando-nos a aproximar dos processos em que se baseiam. Com a clara certeza de que a bola viva cria mais problemas aos defensores que uma qualquer queda seguida de ruck.
Os jogos mais equilibrados tiveram como adversários Gales e a África do Sul e a Austrália e a Escócia. E se no primeiro o equilíbrio era reconhecido, no segundo, a Escócia esteve a um passo de conseguir uma surpresa formidável, explorando muito bem as dificuldades australianas de, sob eficaz e agressiva pressão escocesa, desenvolver o seu jogo de fases à largura do terreno de jogo e à espera da desorganizar a defesa adversária para explorar os desequilíbrios. Quanto a Gales - que ainda não é uma grande equipa por demasiado dependente de uma estrutura previamente estabelecida que a impede de se adaptar em tempo útil (veja-se o 15 contra 13 no jogo com a Austrália) ao situação do adversário, não conseguiu, pese as oportunidades de ensaio, ultrapassar o poder corrosivo da equipa sul-africana. Um pouco mais de liberdade de movimentos e aceitação do risco de acções individuais - só Biggar parece, de momento, disso capaz - poderão trazer Gales de novo para o pódio do rugby internacional. Mas foram uns heróis na capacidade defensiva montada por Shaun Williams - a terceira linha fez 59 placagens a que se juntam ainda 19 do base Wyn Jones
Apesar dos erros dos árbitros que tiveram influência nos resultados - Barnes não viu os mergulhos de dois sul-africanos no ruck e entregou-lhes a introdução da formação ordenada, que permitiu o ensaio da vitória; Joubert não percebeu (para além do fora de jogo australiano num alinhamento rápido no final da 1ª parte) que a bola terá tocado em último lugar num australiano e portanto não terá havido fora-de-jogo escocês e a penalidade que permitiu a vitória não deveria existir - e admitindo que estes erros são sempre possíveis mesmo com TMO, os jogos terminaram com vencedores e derrotados. Uns seguem e outros voltam a casa. 
Facto, facto, é que, quer Gales, quer a Escócia, tiveram a vitória nas mãos e deixaram-na fugir por entre os dedos com erros grosseiros. Mas no final do jogo com o oxigénio a rarear para manter a lucidez cerebral e quando os jogadores já se encontram no limbo do modo piloto-automático, estes erros acontecem. E definem, quantas vezes, um jogo. 
Principalmente se - como também aconteceu com a Inglaterra que na última oportunidade de marcar pontos utilizou o primeiro saltador para captar a bola no alinhamento e assim facilitar a defesa galesa que empurrou o maul para fora - as coisas não foram previstas, conversadas e treinadas. A Escócia a vencer o jogo e nos minutos finais teve um pontapé livre que deveria ser chutado comprido e para fora, ganhando assim tempo, terreno nas costas e organização; chutou de facto comprido mas para dentro do campo permitindo que o contra-ataque australiano voltasse ao meio-campo escocês. Não satisfeita com isto ainda decidiu lançar a bola no alinhamento que se seguiu para o final e não para o seu melhor saltador para garantir conquista e controlo. E o resultado foi um falhanço, penalidade e derrota.
No 89 para a esquerda que se seguiu à rotação da formação ordenada sul-africana, o ponta galês Cuthbert em vez de se manter no seu corredor defensivo, dando tempo para a recuperação da organização defensiva da sua 3ª linha e uma vez que o seu médio Lloyd Williams mantinha o Nº8 Vermulen seguro por uma perna, impedindo-o de avançar, resolveu ir "ajudar" o seu companheiro num monumental erro de apreciação de que resultou um (brilhante) passe em carga, corrida de Du Preez em corredor livre, ensaio e vitória! E tudo poderia ser diferente se Cuthbert tivesse aguentado o seu tempo de acção onde já contaria com Tipuric ou Faletau a fechar o espaço.
Ou seja, mesmo que tenha havido erro dos árbitros e por mais que custe aos adeptos - a de Gales, custou-me - a derrota nos momentos finais, apenas resultaram de erros das equipas. Resultantes das vicissitudes do próprio jogo. Venham as meias-finais.

sábado, 17 de outubro de 2015

UMA APOSTA

Gráfico retirado do jornal francês Libération  que nos desafia a escrever o nosso prognóstico 

Os All-Blacks vão ser de novo campeões mundiais depois de vencerem a Austrália na final e de terem vencido Gales nas meias-finais.
Se assim for, Gales terá feito um notável Mundial depois de ter visto cair pelo caminho uma série de notáveis guerreiros que lhe limitam as capacidades.
Também, embora com pena, penso que a Argentina não ultrapassará a Irlanda - a agressividade dos irlandeses nos breakdowns - hoje em dia muito do ganhar ou perder passa por esta fase do jogo - vai levar os argentinos a cometer faltas e a, muito provavelmente, serem castigados com amarelos. E se a isto se juntar a atenção do árbitro a impedir a tendência argentina de sair em fora-de-jogo, o dia não lhes será nada fácil.
A Austrália, com uma "formação ordenada à argentina", umas linhas atrasadas admiráveis, com os reis do breakdown, Pocock e Hooper, e uma organização defensiva exemplar como mostrou contra Gales, não deverá passar por grandes tormentos para chegar à final, face aos adversários que terá pela frente.
Gales tem hipóteses de ganhar à África do Sul - pelo menos gostaria que assim fosse - porque, para além da sua capacidade colectiva de combate, tem ainda Dan Biggar, exímio chutador aos postes mas também excelente manobrador do jogo e com faro especial - 2º ensaio contra a Inglaterra - para fazer chegar a bola rapidamente ao companheiro com espaço aberto na sua frente. Provavelmente, na luta tremenda que vai acontecer, a precisão dos pontapés aos postes vão definir o vencedor num resultado muito apertado.
Já se sabe, a França é capaz de tudo: de um péssimo jogo de permanente colisão e de, num repente, abrir os livros da memória e conseguir espantar o mundo. É verdade mas com muita mitologia à mistura: hoje em dia o XV francês não parece mentalmente apetrechado para responder com "finesse" ao molde da força em que está inscrito. E assim sendo, os All-Blacks, sem memórias ou preocupações de 1999 ou 2007, mostrar-se-ão mais fortes.
Estas são as minhas apostas num despique Norte/Sul muito equilibrado cujos resultados finais resultarão muito mais de particularidades do jogo do que de análises às qualidades de uns e outros. São os quartos-de-final de um Campeonato do Mundo e o melhor, como propõe Ricardo Costa num excelente artigo publicado no Expresso on-line, é prepararmo-nos para um fim-de-semana de oito horas no sofá.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

VISTO NO MUNDIAL

Terminada a fase de Grupos - excelente, aliás - a fase da verdade do "bota-fora" vai começar com muito boas perspectivas de interessantes jogos. 
Da primeira fase ficam-nos momentos memoráveis: a inesperada e notável vitória do Japão sobre  a África do Sul com a decisão-limite de ir à procura do ensaio e que marcaria, para o bem e para o mal, as decisões de outras equipas; a vitória de Gales sobre a Inglaterra numa demonstração de que o "fighting spirit" pode ser, mais do que uma particularidade irlandesa, uma característica celta e que Dan Biggar tem direito a fotografia, mantendo a tradição galesa de Barry John, Phil Bennett e outros, na galeria dos melhores aberturas mundiais; a derrota da Inglaterra com a Austrália com o melhor ensaio da fase e de que resultou a inesperada eliminação da organizadora Inglaterra; o jogo Austrália-Gales que possibilitou uma lição defensiva dos australianos (serão celtas?) que se baterem, diminuídos de 2 jogadores, "uns pelos outros" como disseram no final e conseguiram impedir que o sistema Warrenballs marcasse o ensaio decisivo - quem lá esteve disse-me que era impressionante o empurrão do público num walles!walles! gritado a plenos pulmões cada vez que havia uma formação ordenada; o terceiro-lugar, com apuramento para o Japão 2019 do nosso adversário europeu, a Geórgia, que, ao contrário da Roménia, mostra um rugby poderoso mas já capaz de utilizar a bola sem recorrer em permanência a colisões e procurando um alargado jogo de passes; o variado jogo de passes de algumas equipas com mudanças de sentido e retorno em cima da defesa para conseguir o intervalo de passagem numa exigência participativa que leva o sentido colectivo ao extremo. E na memória ficará também a escolha francesa, esquecida do "french flair", a comportar-se como sul-africanos incapazes de descobrir a porta aberta para bater permanentemente contra a parede - fisicalidade que o jogo de movimento dos irlandeses não temeu - pesem as lesões - e venceu.   
Fundamentalmente a primeira fase deste Mundial mostrou uma maior aproximação dos países vulgarmente designados por Tiers 2 dos mais poderosos. Aproximação que se viu quer nos resultados quer no jogo demonstrado. Esta aproximação teve ainda a enorme vantagem de não defraudar o público pagante - e são caros os bilhetes... - que acorreu em massa (o número de 1,9 milhões de espectadores é impressionante).
Do ponto de vista do que se viu nos jogos, nós portugueses, para continuar na cena internacional com resultados que nos possam garantir um lugar nos 25 primeiros do ranking mundial, podemos e devemos aprender, apetrechando-nos com as ferramentas necessárias, com a mostra que este Mundial proporciona. O que significa mudar o rugby a que nos gostamos de habituar, esquecendo estruturas demasiado rigídas e seguindo as tendências da adaptação ao adversário - e o jogo do Japão deve ser escrotinado ao mais infímo pormenor - "não somos muito grandes por isso nos alinhamentos contamos com a velocidade do salto.", dizem para explicar a adaptação do seu jogo às suas características e caoacidades. Porque a verdade é esta: pelo que se viu e embora se deva reconhecer que as equipas tiveram meses de preparação, Portugal não tem de momento condições de se bater vitoriosamente com nenhuma das vinte equipas presentes - embora quatro delas sejam do "nosso" campeonato. Razões? Acima de tudo a falta de competitividade interna que não nos deixa aproximar da intensidade necessária ao nível internacional. Esquecidos da lição de Séneca de há vinte séculos de que "um atleta não pode chegar à competição muito motivado, se nunca foi posto à prova" ou, como escreveu Duarte Pacheco Pereira à volta de mil e quinhentos, de que "a experiência é a madre das cousas, nos desengana e de todas as dúvidas nos tira", temo-nos afastado das exigências que a competição internacional impõe.
A intensidade dos jogos deste mundial tem sido enorme - a média das ultrapassagens das linhas de vantagem é de 60%, com uma média de 95 placagens e 3 ensaios por equipa e por jogo (as equipas do Tiers 2 - nossos adversários - ultrapassaram a LV em 55% da suas posses de bola, marcaram 1,4 ensaios por jogo e placaram eficazmente uma média de 94 vezes enquanto que Portugal, nos quatro jogos do último Europeu, não atingiu mais do que 40% de ultrapassagens da linha de vantagem, placando 88 vezes em média e por jogo e marcando 1 ensaio por cada jogo. Resultados obtidos sem que, ao contrário dos mundialistas, houvesse qualquer confronto com o Tiers 1).
O treinador All Black campeão mundial, Graham Henry, ensinou que o jogo de rugby era uma corrida pela linha de vantagem. E, porque assim é, o que vimos foi a rapidez de ataque à bola - os passes eram recebidos na linha da conquista apesar da subida das defesas (o rugby é também uma corrida de estafetas para que a conquista de terreno seja eficaz) a obrigarem os atacantes a jogar (e passar) na cara do placador - o que exige treino adequado na preparação e nas experiências competitivas. Ou seja, hábitos que só a competição possibilita.
Apesar da velocidade com que as acções eram realizadas, a convergência - o movimento da bola "comanda" o movimento dos jogadores - foi, ainda assim, possível. Ou seja: embora mais difícil por mais rápida, a capacidade colectiva de leitura da defesa e imediata adaptação, bem como a focagem no portador e seu movimento, permitiu convergências sobre o portador da bola e garantiu rápidas recepções ou "breakdowns" a não deixar a defesa reorganizar-se. E, quantas vezes, permitindo a manutenção da vida da bola - passes em carga, passes antes do contacto, passes antes de chegar ao chão ou, até "chestings" - mantendo a continuidade da sua circulação, garantindo a dificuldade de reorganização defensiva e, portanto, explorando os desequilíbrios conseguidos. Em sequências entusiasmantes a mostrar a beleza deste nosso jogo.
Mas para que este tipo de jogo -  de movimento que diversas equipas mostraram ser capazes de utilizar - seja bem sucedido, torna-se absolutamente necessário a disposição dos jogadores para "jogar sem bola". E essa preocupação foi constante dando-nos, a nós espectadores, a possibilidade divertida de ver movimento colectivo em cada jogada com o aparecimento em tempo útil de jogadores disponíveis. As equipas, sem excepção, mostraram, à saída dos balneários, que traziam um plano de acção elaborado e treinado para explorar com os seus pontos fortes, os pontos fracos adversários. Mas não um plano limitador ou castrador da assumpção de riscos e sim uma aposta no uso da bola para chegar ao objectivo ensaio. O que transformou o jogo e explica muito da qualidade do nível atingido. 
Neste fim-de-semana, num quase sessões contínuas, um tira-teimas Norte-Sul. Emocionante!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

BENÇÃO DOS DEUSES


O ensaio georgiano de Mamuka Gorgodze
Uma benção dos deuses para quem teve a possibilidade de assistir em Brighton à histórica vitória do Japão. Ganhar à África do Sul - actual 3ª classificada do ranking da World Rugby e bi-campeã mundial - é um feito inesquecível. Imagine-se como o recordarão os jogadores de Eddie Jones nos tempos futuros, a reverem, uma, duas, muitas vezes, o filme que as suas memórias guardarão. O sonho de uma vida de atleta, a demonstração da capacidade colectiva de uma equipa construída para garantir um todo superior à soma das partes.
Que parte teve nesta vitória o encontro de Jones com Guardiola quando quis perceber melhor as bases de uma circulação colectiva da bola que detectou como exemplar no Barcelona e no Bayern e que constituíram - como recordou na entrevista do final do jogo - os fundamentos da vitória, ainda são mistérios da mistura química conseguida. Mas não foi um acaso: foi construída durante meses até chegar ao nível de confiança que permitiu ao capitão Michael Leitch prescindir, por duas vezes nos momentos finais, da certeza de um empate para ir procurar a vitória. Os deuses sorriram pela crença e fizeram-lhe a vontade: ensaio e vitória no último minuto. Um resultado inesquecível a afirmar um momento histórico na memória dos Mundiais. E a reconhecer definitivamente Eddie Jones, novo responsável dos Stormers sul-africanos, como treinador de excelência - sem esquecer a participação do francês Del Maso, heterodoxo responsável pela área da formação ordenada.
Os Brave Blossoms - nome de guerra do quinze japonês - venceram porque pressionaram de tal maneira que obrigaram os sul-africanos a cometer faltas a mais e em zonas "proibidas" - 12 com 5 transformadas - e souberam utilizar os seus 48% de posse de bola de forma mais interessante, ultrapassando 95 vezes a Linha de Vantagem, e conseguindo, numa bem estudada capacidade de movimento, garantir a continuidade que lhes permitiu 3 ensaios. Foram ainda capazes de desdobramentos defensivos eficazes - 128 placagens correspondentes a 83% de eficácia. O que, não sendo uma marca espectacular, criou a pressão necessária para expôr os erros e fraquezas sul-africanas - a que não terá sido alheia a veterania de alguns dos seus jogadores. A inesperada derrota da África do Sul ainda lhes permitiu 2 pontos de bónus - 4 ensaios marcados e derrota por menos de 8 pontos de diferença - diminuindo-lhes assim a desvantagem da derrota e mantendo aberta a hipótese de acesso aos quartos-de-final.
Apesar da vitória japonesa ter tirado dos cabeçalhos dos jornais a excelente vitória da Geórgia (16º do ranking com 69,36 pontos) sobre o Tonga (11º com 75,69 pontos), o feito dos Lelos foi de categoria. Conseguido com uma coragem e entreajuda notáveis - 201 placagens a atingir 93% de eficácia e a impor-se aos 72% de posse de bola de Tonga - a que juntaram uma movimentação sem descanso comandados por um incansável Gorgodze - 1 ensaio e 27 placagens - os georgianos conseguiram a sua melhor vitória de sempre. Tão importante que, no mínimo, lhes pode garantir, com o terceiro lugar do Grupo, o acesso directo ao próximo Mundial e facilitar - como maneira de dizer - a vida à Selecção portuguesa que ficará sem um adversário de peso no caminho para o Japão 2019.
Mas o jogo deste início do Mundial de Inglaterra 2015 foi o Nova Zelândia-Argentina. Que jogo! Que intensidade! Que movimento! Cada uma das equipas ultrapassou a Linha de Vantagem mais vezes do que a soma de duas equipas nos outros jogos - 161 vezes para os neozelandeses, 116 vezes para os argentinos. Uma constante movimentação da bola de ambas as equipas com a Argentina a mostrar, inicialmente, uma excelente defesa que se foi perdendo para acabar em 79% de eficácia num final do jogo em que se viu acantonada no seu próprio campo. Não faltou aos Pumas organização ou espírito de equipa a que juntou uma defesa invertida que impedia aos All-Blacks o acesso aos corredores laterais do terreno-de-jogo e que provocou o desconforto e nervosismo dos campeões do Mundo. Mas apesar dos amarelos de McCaw e Smith - jogando com 13 jogadores no final do 1º tempo conseguiram manter-se dentro do resultado - os all-blacks não se deixaram abater ou desunir. Passado que foi o intervalo e com as substituições adequadas - a entrada de SBWilliams foi decisiva - o jogo mudou de rumo mesmo se e como habitual, o sr. Barnes permitisse os fora-de-jogo argentinos sem usar o apito e, não fora algumas atrapalhações injustificadas, o resultado final demonstraria a diferença real entre as duas equipas. Se ambas as equipas demonstraram um muito bom domínio do jogo de movimento, utilizando eficazmente as bolas - relembre-se as ultrapassagens da Linha de Vantagem - possibilitando um excelente espectáculo de rugby visto por quase 90 mil espectadores - a maior assistência de sempre e onde estavam José Mourinho, Silvino e Vasco Lynce - o quarto final do jogo tornou-se numa demonstração das capacidade neozelandesas na utilização da bola, no jogo de passes, nas linhas de corrida convergentes, nos apoios a dificultar as decisões defensivas. O rugby no seu melhor: combate, movimento, continuidade, pressão, intensidade, risco, espírito de equipa. E os All-Blacks a levarem a melhor e a demonstrar porque são a melhor equipa do Mundo.
Na guerra que é, como acentua Daniel Carter, o jogo internacional de Rugby, pode fazer-se uma analogia com as Teorias do Conflito para explicar os resultados destes três jogos pelas estratégias utilizadas. No jogo entre a África do Sul, que parece unicamente capaz de utilizar a colisão, e o Japão, o jogo de movimento dos japoneses permitiu a vitória do considerado mais fraco - o mais fraco pode ganhar a batalha se souber opor uma forma diferente de combate, capaz de explorar debilidades do adversário; no Tonga-Geórgia, ao jogo mais aberto e movimentado de Tonga, opuseram os Lelos uma defesa directa de antes quebrar que torcer, onde o coração, a vontade, o espírito colectivo de uma irmandade, comandaram cada momento de olhos postos numa vitória final. Ao perturbarem os movimentos tonguenses, ao cortarem-lhes o espaço de manobra, os dados como mais fracos, venceram; no Nova Zelândia-Argentina, pelo contrário, o recurso a jogos do mesmo tipo e características - a aposta de ambas no jogo de movimento e evasão - resulta, por norma, na vitória do mais forte.
O JOGO DOS PALPITES
Estes palpites, feitos - como já referi - a partir da posição dos países no ranking mundial, servem, principalmente, para perceber quais os resultados que fogem à lógica esperada. Por aqui é possível hierarquizar o valor de eventuais surpresas.
JOGO                                                         previsão
Grupo B Escócia-Japão empate                          0
Grupo A Austrália-Fiji         Austrália ganha por 19
Grupo D França-Roménia França ganha por 30

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

MOVIMENTO OU COLISÃO?

Começa hoje, em Inglaterra, o Mundial 2015 com as vinte equipas melhor classificadas do ranking da World Rugby. A maratona de mês e meio é brutal e as equipas que chegarem às meias-finais terão demonstrado uma notável capacidade tanto competitiva como gestora dos meios humanos de que dispuseram. Ganhar a Taça do Mundo, ser campeão mundial, é - seja qual for a qualidade e interesse dos jogos - um feito memorável que obrigou os estados-maiores de cada equipa a pensarem, com meses de antecedência, em qual seria o melhor modelo de jogo para atingir os objectivos pretendidos: movimento ou colisão?
Duas maneiras de jogar aquele que é, provavelmente, o jogo desportivo mais colectivo que conhecemos - jogador sózinho conta pouco e tudo o que não resulta do trabalho colectivo tem pouca ou nenhuma hipótese de êxito. O que parece evidente num jogo que, por proibir passar a bola para a frente, é comparável a uma corrida de estafetas: se chegámos até aqui é daqui que temos que continuar - daí a importância estratégica da Linha de Vantagem.
Pode, aparentemente, jogar-se rugby de muitas maneiras mas, na realidade, são apenas dois os modelos que constituem a sua base de sustentação: o jogo de movimento com circulação de jogadores de acordo com o movimento da bola e que exige boa técnica, boa condição física e amplos conhecimentos tácticos ou o jogo de colisões, exigente na capacidade física mas menos preocupado com as questões técnicas ou tácticas - a força, o desafio físico directo somado a um jogo ao pé estrategicamente competente na ocupação do espaço, criam os desequilíbrios na defesa necessários à eficácia.
Por razões estéticas - no mínimo - e de formação, sou um adepto do jogo de movimento - e tive em Pierre Villepreux um professor de primeira água. Mas sei também que o jogo do movimento é o único modelo de jogo que pode permitir às equipas portuguesas a eficácia de resultados internacionais. Não só porque se adapta a uma habilidade técnica - se bem ensinados... - que os portugueses geralmente mostram como também permite a expressão de uma individualidade - se bem treinados na leitura de jogo - que também gostam de mostrar. Tem no entanto um problema: exige enorme disciplina (mais ainda se quisermos contar com a necessária expressão individual) focagem permanente e gestos precisos, aptidões que só se atingem com enorme quantidade de treino - as tais 10.000 horas de prática de que cada vez mais se fala?
Para que o jogo de movimento seja eficaz é necessário que a técnica de passe - todo o tipo de passes, incluindo os heterodoxos -  seja de grande eficácia, precisão e capaz de fazer o gesto no mínimo espaço e tempo, que exista capacidade de ler a movimentação da defesa, que se saiba manobrar superioridades numéricas, fixando adversários directos e que se saiba atacar intervalos e manter a bola viva. Seja por passes em carga (offloads) ou sendo capaz de manobrar, rodando e dando as costas, para entregar ao apoio profundo ou continuar se o defensor se desequilibrou. O importante no jogo de movimento - o seu factor de desequilíbrio - é a continuidade do movimento da bola á qual os jogadores, em permanente formação de apoio, devem aderir sem hesitações.
No jogo de colisão as qualidades técnicas são menos complexas - contacto directo pura e simples - e a capacidade de leitura menos exigente. No fundo é preciso garantir que o embate tem força suficiente para concentrar defensores e permitir a companheiros que conquistem o espaço e garantam uma bola rápida para servir novos derrubadores.
Em qualquer dos casos a disciplina colectiva é essencial - cada jogador tem um papel a desempenhar (embora diferente nos dois casos) que tem de ser realizado no momento oportuno - recorrendo a células que, de acordo com a relação de pontos fortes e fracos, actuarão nas zonas mais indicadas do campo.
É claro que o jogo de movimento exige um árbitro atento e muito focado nas linhas de fora-de-jogo - a recente vitória da Austrália sobre a Nova Zelândia só foi possível porque o árbitro Barnes deixou, durante toda a primeira parte, que a defesa australiana avançasse a destempo, cortando o tempo e o espaço necessários para a movimentação All-Black. 
E neste Mundial que equipas vão jogar um modelo ou outro? Os favoritos All-Blacks jogarão movimento com recurso ao jogo ao pé - rasteiro ou balão - a explorar a obrigatória subida do três-de-trás defensor. Provavelmente a Argentina o jogará também - será muito curioso ver como Hourcade terá preparado a sua defesa para o primeiro jogo com os neozelandeses. A Austrália também, assim como a Irlanda. A França será uma enorme incógnita: herdeira do french flair é hoje, com a peregrina ideia de jogar à sul-africana, uma pálida amostra do rugby empolgante que nos ofereceu. Mas pode ressuscitar... E claro, Fiji também será movimento. Samoa e Tonga dependerão da pressão adversária - sem espaço, luta directa; com espaço, jogo ao largo - na óbvia preocupação de um apuramento para o próximo Mundial.
Gales sem Halfpenny perde muito das suas possibilidades e o sistema Warrenball, se possibilitará o refúgio que protege a eventual e natural perda de confiança, também mostrará as suas limitações nos jogos decisivos de um Grupo A com três candidatos para dois lugares.
As outras equipas jogarão a segurança sem risco, da colisão. Mesmo as também candidatas África do Sul e Inglaterra assim farão, jogando na capacidade física dos seus jogadores, no poder de contacto, procurando a concentração forçada de defensores para lançar pontas rápidos e finalizadores ou garantir penalidades. Os sul-africanos, com uma equipa de enorme experiência, mostrar-se-ão mais eficazes neste sistema que os ingleses que, no entanto, poderão contar com o apoio do público que pode fazer maravilhas. E com o peso de uma comunicação social que não deixará de fustigar os seus adversários.
Para além da vitória final, a luta por um dos três primeiros lugares de cada grupo - que garante acesso directo ao próximo Mundial do Japão em 2020 - é outro dos motivos de interesse e que colocará muita atenção nos jogos das equipas menos importantes. Para nós portugueses também há motivos particulares de atenção: se a Geórgia conseguir o terceiro lugar do seu Grupo C - e o início, mesmo contra todas as previsões, com uma vitória sobre Tonga seria um passo de gigante para os seus objectivos - surgirá uma brecha na classificação europeia que pode ser aproveitada porque a sua posição classificativa no Europeu, deixaria de ter importância.

O jogo dos palpites

Que resultados serão possíveis neste fim-de-semana? A quem favorecerá o factor WC? De uma forma adequada ás suas posições no ranking, os resultados - vencedores e diferença de pontos - poderão, numa lógica quase cartesiana e sem atenção aos diversos imponderáveis - até climáticos - que podem marcar qualquer dos jogos, aproximar-se destes palpites.

Grupo A Inglaterra-Fiji, Inglaterra ganha por 22 pontos
Grupo C Tonga-Geórgia, Tonga ganha por 13 pontos
Grupo D Irlanda-Canadá , Irlanda ganha por 38 pontos
Grupo B África do Sul-Japão, África do Sul ganha por 26 pontos
Grupo D França-Itália, França ganha por  21 pontos
Grupo B Samoa-USA, Samoa ganha por 10 pontos
Grupo A Gales-Uruguay, Gales ganha por 56 pontos
Grupo C Nova Zelandia-Argentina, Nova Zelandia ganha por 29 pontos

Palpites que, neste início de campeonato onde as referências são ainda reduzidas, nem apostas chegam a ser.



terça-feira, 11 de agosto de 2015

RISCO E MOVIMENTO

Se o gosto pelo risco de jogadores e treinadores for o mesmo do que vimos neste último Austrália-Nova Zelândia, o campeonato do mundo - Rugby World Cup 2015 - vai ser muito interessante. 
A corrida ao risco começou mesmo antes do jogo com Michael Cheika a colocar, em simultâneo, dois "asas" (terceiras-linha do lado aberto) - Hooper e Pocock, ambos placadores de excelência, sendo o primeiro um dos melhores transportadores de bola e o segundo um dos melhores recuperadores de bola - na terceira-linha do quinze australiano. E mesmo se este risco criou dificuldades na conquista dos próprios alinhamentos - 70% contra 100% -, foram evidentes as vantagens no jogo no chão para os australianos - 99% em 108 contra 93% em 74 e 9 turnovers favoráveis contra 7 - factor que, muito provavelmente, ditou a vitória final australiana. Mas que não seria conseguida se não houvesse a coragem do risco nos passes em cima da defesa a fixar adversários, a soltar companheiros, a evitar placagens e a marcar ensaios - mesmo com o fraco desempenho do par de médios inicial.
Com a qualidade das capacidades defensivas que as equipas mostram o ataque só pode ser eficaz, jogando no limite da exposição. O passe - que só faz total sentido se a entrega da bola se fizer para um companheiro que esteja em melhores condições de dar continuidade ao movimento da bola no avanço da equipa - tem que ser feito, para fixar defensores, desequilibrar a estrutura defensiva e abrir espaços de penetração, em cima do adversário. Dar-lhes a bola a cheirar é o propósito da boa circulação da bola - e para que os adversários a cheirem é necessário proximidade. Proximidade que significa aumento do risco e obriga a capacidades físicas, mentais e técnicas capazes de criar a confiança necessária para ultrapassar as dificuldades que se apresentem. Mas a necessidade de conseguir espaços que permitam ultrapassar a Linha de Vantagem - linha imaginária paralela às Linhas de Ensaio que, passando pelo ponto de colocação da bola em jogo, define a conquista de terreno conseguido por uma ou outra equipa - é decisiva até porque - neste sistema que define as interligações entre as diversas mini-unidades que constituem a equipa - as linhas de corrida dos apoios, nomeadamente dos "asas", partem do princípio que o encontro com o eventual ruck conseguido pela defesa se fará dentro do campo defensivo. O que e se assim for, dará imediata vantagem ao ataque que vê os seus apoiadores a chegar primeiro e de frente para o sentido do jogo - os opositores directos têm que recuar para conseguir entrar no ruck pela "porta" definida na lei - o que permitirá a rápida disponibilidade da bola para garantir a continuidade do movimento da bola, enquanto factor crítico essencial de dominação e não, como muitas vezes se pensa, da continuidade da sua posse.
Um previsível 3x2 prospectiva a ultrapassagem da Linha de Vantagem
e permite uma linha de corrida positiva ao "asa"
Nesta final entre australianos e neozelandeses a assumpção do risco esteve sempre presente com passes de todas as formas e feitios - o passe clássico já não vence a actual qualidade da organização defensiva - no limite das possibilidades e subordinado à ideia, porque se garante a continuidade do movimento da bola, de que o risco compensa porque "se passa, o ensaio está feito". E assim, como algumas passam, outras bolas caem ou são mal captadas. Porque tudo se joga no milímetro e no milésimo. No limite. No risco. Suportado no conhecido dito de "quem não arrisca, não petisca".
E para os espectadores não há melhor - ansiedade, expectativa, esperança, divertimento formam a mistura que paga o preço do bilhete comprado. E como os bilhetes para o Mundial não são nada baratos, os jogos deste fim-de-semana perspectivam que o alto preço pago tenha retorno condizente.
O jogo da final do Rugby Championship 2015 e em relação ao futuro próximo acabou por ter um resultado final - pesem os diferentes estados de alma - vantajoso para as duas equipas. Para a Austrália, mostrando ao mundo que os All-Blacks não são imbatíveis, foi um encher de peito que lhe abre boas perspectivas para  os jogos do Mundial; para a Nova Zelândia esta foi a altura ideal para uma derrota avisadora e que coloca optimismos exagerados no relativismo próprio. Tudo a favor de um agradável aumento de expectativas para o próximo Mundial.
No outro jogo deste campeonato, os Pumas de Daniel Hourcade tiveram um vitória notável a ultrapassar a história da competição para deixar marcas no global do jogo - veja-se o 2º lugar no ranking da World Rugby da Irlanda que também muito ajudou ao vencer em Cardiff contra Gales - uma equipa com pouca experiência mas que deixou, pelos dois excelentes ensaios e apesar da crítica demolidora de Barry John, espaço para alguma esperança. Mas a vitória dos argentinos, apenas não tão globalmente celebrada por uma também "estórica" vitória australiana que, para além de ter sido uma demonstração da capacidade da equipa técnica na construção de uma equipa - mais interessante ainda se nos lembrarmos que o objectivo sempre repetido por Hourcade será o Mundial de 2019 - aumenta ainda a curiosidade sobre o que poderão fazer os Pumas neste Mundial de 2015.
E no próximo fim‑de‑semana há mais, incluindo um Inglaterra-França...

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