domingo, 7 de fevereiro de 2021

APRENDER COM A DERROTA O CAMINHO DO MUNDIAL 2023


O posicionamento no ranking da World Rugby das duas equipas prognosticava uma derrota para Portugal por uma diferença de 16 pontos — foi de 14...

Nos momentos iniciais do jogo parecia que os Lobos, com um bloco de avançados de peso equivalente, iria discutir, palmo-a-palmo, o resultado, mantendo viva a hipótese do segundo lugar na tabela classificativa final — foi 4ª...

Estas ilusões são uma constante quando não se analisa convenientemente a realidade. Os dois jogos contra uma equipa do Brasil demasiado fraca, não mostraram nem grande qualidade ou capacidade da equipa nacional nem se realizaram a um nível de intensidade tal que demonstrasse uma boa preparação dos nossos jogadores. Foram duas obrigatórias vitórias por números que iludiram...porque as incapacidades estavam lá...

Apesar do bloco de avançados constituído por jogadores habituados a ritmos mais elevados poder fazer pensar — eu pensei... — que iria haver equilíbrio com os hábitos competitivos mais desenvolvidos — que tem como causa um campeonato interno mais constante e com mais jornadas competitivas — dos jogadores espanhóis que jogam em Espanha.

De novo a ilusão... o jogo português mostrou as debilidades que vemos domingo a domingo no nosso campeonato interno. E daí que dos 63% de posse de bola da 1ª parte não resultassem mais do que um ensaio a dar razão ao conceito: não é a posse da bola que garante a eficácia mas sim a sua boa utilização. E os jogadores portugueses habituaram-se a dois terríveis defeitos tácticos: ignorar a manobra antes da colisão e, ao mínimo contacto, procurar o chão — e hoje sabe-se que a ruptura da linha defensiva se faz por jogar de pé e com recurso aos passes-em-carga (off-loads) que permitem o jogo de ruptura entre linhas e que a ida ao chão, se permite a manutenção da posse, dá também todas as vantagens à defesa —tanto maiores quanto maior fôr o tempo de disponibilização da bola — que tem tempo para colmatar eventuais desequilíbrios. E assim a superioridade de posse da bola conseguida, não se traduziu em vantagens e a ultrapassagem da linha-de-vantagem que cria as superioridades numéricas que permitam a utilização eficaz, quase nunca existiu. A permanente procura do chão tende também a atrasar a continuidade do movimento e levar que a construção atacante tenha que ser recomeçada de novo. 

A juntar a estes erros tácticos acrescenta-se um jogo-ao-pé inofensivo, pouco eficaz e que entrega a iniciativa do jogo ao adversário. Com a forma como as defesas actuam hoje em dia — e a defesa espanhola subia rápida e, mais do que uma vez, com os exteriores adiantados — um bom jogo ao pé, pelo menos a dois — abertura e 1º centro — é decisivo para que se possam explorar os corredores laterais do campo. Não havendo receio do jogo-ao-pé adversário as defesas sobem mais e, ocupando a largura do terreno, levam os atacantes a cairem na armadilha da colisão directa ao não lhes darem intervalos de penetração. É assim, o receio de um jogo-ao-pé incisivo que procura obrigar a deslocações do três-de-trás defensivo que vai permitir, pelo cuidado de ocupação de terreno que exige aos defensores, o desenvolvimento do ataque e a opção pelas duas outras formas, do largo aos intervalos. Lembrando sempre que — como já tinha sido demonstrado na Taça Ibérica — o jogo das linhas atrasadas é muito mais do que um mero jogo de 3/4...

Para além destes erros tácticos, um vício de comodidade no jogar longe da linha-da-vantagem —para além da incapacidade de explorar o lado-fechado — dá também todas as vantagens à linha defensiva que pouco mais tem que deslizar para anular eventuais desequilíbrios. Até porque este jogo distante se mostra demasiado previsível e sem manobras alternativas e, por conseguinte, com enorme dificuldade de quebrar a linha defensiva.

Que lições tirar deste jogo de Madrid para manter reais as possibilidades de apuramento para o Mundial?

Antes de mais reconhecer que a base de uma boa equipa se alicerça no nível de hábitos competitivos e isso exige uma organização das competições internas que garantam o mais elevado nível, um nível tão próximo quanto possível das exigências internacionais — e isto é responsabilidade da comunidade rugbística portuguesa uma vez que todos teremos a ganhar com a melhoria competitiva do nosso melhor rugby. 

E ressalta também à evidência a necessidade de criação de condições que permitam ultrapassar as debilidades tácticas e técnicas dos jogadores com particular incidência nas exigências técnico-tácticas do jogo-ao-pé e do passe rápido. O que passa por rever processos e métodos de treino — e mesmo de formação — desenvolvendo uma forma de jogo que melhor se adapte às características dos jogadores portugueses.

O caminho para o Mundial 2023 é um caminho colectivo que começa no próximo mês. Alteremos desde já o que deve ser alterado.

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