terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

LER, ADAPTAR E COESÃO NA ACÇÃO COMO BASE DAS VITÓRIAS


A Inglaterra venceu a Itália com a facilidade esperada mas sem conseguir tirar as dúvidas sobre as suas capacidades. Aliás os italianos mostraram que não se levam muito a sério ao aparecerem com equipamentos que o prestígio do 6 Nações não merece: primeiro uma camisola sem número; depois, uma camisola número 24 e outra número 26. Com este mau exemplo a Itália mostrou, mais do que a incapacidade de resultados, que é também incapaz em termos de organização e de estrutura cultural - uns noviços no fundo e com a Geórgia à espreita...

De interessante e para ficar na memória o ensaio do ponta Jonny May que voando — meio dentro, meio fora do campo — conseguiu o equilíbrio necessário para, derrubando a bandeira (legal hoje em dia), conseguir fazer o toque no chão necessário à marcação do ensaio. Ensaio que levantou alguma polémica (de que falarei em próximo post) a partir de um óbvio engano do famosíssimo centenário Nigel Owen.

Obviamente que o melhor resultado do fim-de-semana —  era suposto perderem por 10 pontos de diferença —   pertenceu aos galeses que, com uma vitoria tangencial de 1 ponto em Murrayfield e jogando de novo contra 14 adversários — desta vez durante 27 minutos — conseguiram com uma posse de apenas 38% marcar 4 ensaios que, para além da vitória, lhes possibilitou um ponto de bónus ofensivo e o acesso ao 2ª lugar, empatados em pontos com a França que ocupa o 1º lugar.

No Irlanda-França venceu também a equipa — a França por 2 pontos de diferença — com menos posse (41%) de bola e que marcou 2 ensaios contra 1 dos irlandeses, sendo um deles de enorme mestria com uma série de passes heterodoxos só possíveis pelas empenhadas linhas-de-corrida dos receptores que souberam muito bem convergir antes de passarem à exploração da largura do campo.

Parece assim poder dizer-se — como muitos gostam — que foram as defesas que ganharam o jogo — Gales com  uma eficácia de 85% de 179 placagens e a França com 86% de 177 placagens realizadas. E é um facto que as defesas dos vencedores foram muito eficazes — os princípios defensivos de Shaun Edwards estão nas duas equipas — mas não chega defender bem para ganhar o jogo, é preciso marcar mais pontos do que o adversário.
Vejamos alguns valores estatísticos. A França conquistou 374 metros em transportes de bola, realizou 110 passes (12 em offloads), foi responsável por 74 reagrupamentos dos quais conquistou 93%, e conseguiu 11 quebras da linha defensiva— a Irlanda conquistou 365 metros, realizou 192 passes (3 em offloads), foi responsável por 115 reagrupamentos e por 4 quebras defensivas. Ou seja a França atacou melhor porque ultrapassou mais vezes a defesa irlandesa, foi ao chão menos vezes e defendeu o suficiente para garantir as vantagens conquistadas. O País de Gales, por sua vez e para marcar os seus quatro ensaios, conquistou 188 metros, fazendo 118 passes (4 offloads), tendo ido ao chão em 66 reagrupamentos e 7 quebras defensivas enquanto que a Escócia, ficando por 3 ensaios, conquistou 508 metros, fazendo 168 passes (5 offloads), com a responsabilidade de 120 reagrupamentos que lhe atrasaram a continuidade dos movimentos e 11 quebras defensivas.

Que ensinamentos se podem tirar destes resultados estatísticos para justificar a vitória das equipas com menos posse, menos passes mas menos paragens em reagrupamentos? 

O primeiro e mais importante é que não basta a posse da bola ou a superioridade na sua conquista mas, essencialmente, o que conta é a eficácia da sua utilização. Pode ter-se muitas vezes a bola mas se não for possível desequilibrar a defesa, mantendo a continuidade sem passar pelo chão, o melhor que se consegue é uma ligeira conquista de terreno ou um jogo-ao-pé para entregar a iniciativa ao adversário

Com estes resultados estatísticos as vitórias das equipas com menos posse de bola nos jogos entre equipas competitivamente próximas tornam evidente uma propriedade fundamental: entre equipas equilibradas ganha aquela que consiga transformar as oportunidades em realidades mantendo a continuidade dos movimentos, o que significa capacidade de leitura conjunta e simultânea de jogo e demonstra uma verdadeira coesão colectiva: ler o mesmo, adaptação imediata à stuação e agir colectivamente de acordo com a solução mais objectiva. Determinado um apoio com linhas de corrida adequadas para garantir a continuidade do movimento — o que exige que a posição do número das camisolas deixe de definir a ocupação espacial.


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